Yuet-Jan Hui

Crítica | Visões (2004)

Exibido e distribuído no Brasil como produção desconectada de qualquer universo fílmico, Visões é um terror oriental que se define como sequência de The Eye – A Herança, refilmado como O Olho do Mal alguns anos depois, nos Estados Unidos. A trama segue uma linha no estilo antologia, pois a única relação com o seu antecessor é a habilidade de uma pessoa em enxergar fantasmas por todos os lados que trafega, uma “maldição” que não muda apenas o rumo de sua vida, mas o cotidiano de quem está ao seu redor. Sob a direção dos mesmos responsáveis por The Eye, dupla que ficou conhecida como Pang Brothers, isto é, Oxide Pang Chun e Danny Pang, Visões é muito melhor do que inicialmente imaginamos, principalmente quando visto em retrospectiva, quase duas décadas após o seu lançamento.

Lançado em 2004, ao longo de seus 95 minutos, a produção nos apresenta a Joey (Qi Shu), jovem que passa por uma intensa lavagem estomacal num hospital, após ingerir uma quantidade grande de compridos. A overdose a deixa pouco equilibrada e o período de repouso lhe serve para perceber que se tornou uma pessoa sensível às presenças sobrenaturais ao seu redor. São visões de pessoas mortas, atormentadas e que decidem perturbar o seu cotidiano. Logo após os cuidados hospitalares, Joey segue a sua vida, tendo como uma das missões, esquecer Sam (Jesdaporn Pholdee), seu namorado problemático, responsável por seu ato de desamor consigo mesma.

As visões, no entanto, não foram momentâneas. Elas continuam, num ritmo cada vez mais crescente. Ela procura um monge budista (Philip Kwok) para algumas orientações e o seu mestre lhe apresenta uma série de ensinamentos sobre reencarnação e espiritualidade. Assim, a jovem tenta compreender tudo que acontece, mas as manifestações se tornam cada vez mais desagradáveis. Não parece mais mediunidade, digamos, aleatória, mas a percepção de que alguém do além deseja lhe enviar uma mensagem, tal como em basicamente todos os filmes de terror orientais que tem fantasmas vingativos em sua estrutura dramática.

Diante do exposto, temos uma heroína que sai em busca das respostas diante da presença sobrenatural inclinada em transmitir a sua mensagem. A mulher melancólica de suas aparições é Yu (Eugeni Yuan), elo entre Joey e seu ex-namorado, fantasma que não está nem um pouco interessada em manter-se à distância. Poucas vezes em cena, elaborada pelos efeitos visuais da equipe de Eddy Wong, a entidade da vez é parte de uma trama mais imersiva e com menor grau de tensão, sem histeria e outros movimentos comuns aos filmes de terror do tipo. Com roteiro assinado pela dupla formada por Laurence Cheng e Jojo Hui, este filme de terror orquestrado pelos irmãos Pang funciona bem, mesmo que diante de clichês e escolhas narrativas que as vezes se demonstram questionáveis.

Na direção de fotografia, Decha Srimantra faz alguns movimentos interessantes para que os espectadores entrem no clima da narrativa, conduzida musicalmente por Payont Permisith, trilha que acompanha os espaços criados pelo design de produção de Simon Son. Ademais, os figurinos de Steven Tsong colaboram com a visualidade das presenças fantasmagóricas, num filme acima da média, mas sem nada de especial. A sua continuação, Visões 2 – A Vingança dos Fantasmas, chegou logo depois, mas sem o mesmo ritmo e traços dramáticos que pudessem transformá-lo em algo relevante, tema de outra crítica, um novo tópico, tudo bem, caro leitor?

Visões (Gin gwai 2) — Hong-Kong/Cingapura, 2005
Direção: Oxide Pang Chun, Danny Pang
Roteiro: Yuet-Jan Hui, Lawrence Cheng
Elenco: Qi Shu, Eugenia Yuan, Jesdaporn Pholdee, Supasawat Buranavech, Kwai Ying Cheung, Yiu Kwai Cheung, Lawrence Chou, Chuwong Earsakul, Philip Kwok, Connie Lai
Duração: 90 min.

Crítica | O Olho do Mal

A refilmagem de The Eye – A Herança sofreu diversos problemas dramáticos em sua composição, algo que fez a crítica torcer um pouco o nariz para a produção. Nenhum deles, entretanto, é pior que o seu título brasileiro, O Olho do Mal, título vulgar para uma história que de fato não retrata um olho maligno, etc., mas outra maldição que acomete uma pessoa cheia de sonhos e novas perspectivas. Assim, baseado no roteiro de Oxide Pang, Danny Pang e Yuet-Jan Hui, O Olho do Mal traz para os ocidentais, sob a direção da dupla francesa formada por David Moreau e Xavier Palud, a história de uma jovem que perdeu a visão desde muito pequena, a ganhar novos rumos em sua vida depois de um transplante de córneas, inicialmente uma benção, mas posteriormente interpretado como “maldição”, haja vista o bônus que acompanha sua possibilidade de acessar um novo sentido: a visão.

Quem assumiu a tradução cultural do roteiro foi Sebastian Gutierrez, responsável pelo feixe de assombrações e desenvolvimento dramático dos personagens ao longo dos 98 minutos desta refilmagem lançada em 2008, fase que podemos contextualizar como a curva para o desfecho do boom das realizações inspiradas em filmes de terror orientais. Não que o tema tivesse encerrado ali, mas já era um período de saturação para o público, pois basicamente todos os grandes sucessos tinham sido refilmados ou ganhado lançamento do “original” por aqui. Em sua trama, uma talentosa violinista, Sydney Wells (Jessica Alba) é a vítima da descrição colocada anteriormente: perdeu a visão aos cinco anos de idade e depois de tanto tempo cega, se submete a uma cirurgia para transplante de córneas.

A sua capacidade de enxergar retorna aos poucos. O processo gradativo apresentado pelo filme foca em seu passo a passo, afinal, ela precisa aprender tudo: cores, objetos, etc. Junto a isso, Sydney precisa lidar com outras questões que não estavam programadas no processo de acompanhamento da cirurgia e de seus desdobramentos. São vultos e imagens sombrias voltadas ao momento da morte de algumas pessoas ao seu redor. Descobriremos, logo mais, se tratar dos guardiões responsáveis por levar os recém-mortos dessa vida para o além. Eles são conhecidos por “Homem-Sombra”, trajados de preto e com forma bem bizarra. Sensível à presença destas entidades, ela fica atormentada ao vê-las guiando pessoas constantemente, o que a faz sair numa investigação para saber como lidar com o problema. Helen Wells (Parker Posey), parte do seio familiar, colabora, mas não é o suficiente para compreendê-la.

Quem colabora com a sua busca neste momento de angústia é o Dr. Paul Faulkner (Alessandro Nivola), terapeuta especializado na adaptação de cegos que retornam a enxergar, como é o caso da jovem Sydney. Eles pesquisam, acabam batendo no México e descobrem que a córnea doada para o transplante é de uma jovem mulher que foi perseguida em sua cidade por ser taxada de bruxa, afinal, previa mortes e outras tragédias, principalmente um acidente numa fábrica, responsável por ceifar a vida de vários empregados. Agora, as visões atormentadoras frequentes nos indicam uma nova tragédia, provavelmente na fila de carros na alfândega, bem na transição entre o território estadunidense e o mexicano. Engraçado como mesmo “sem querer”, aparentemente os dramaturgos arranjam sempre uma vinculação maligna fora de seu território, isto é, o mal é o “outro”, o meu vizinho, “nós somos perfeitos”.

Assim, o leitor pode se perguntar: está contando a surpresa do filme para o público? Não, não estou. O próprio filme, em seus créditos de abertura, faz questão de apresentar tudo aos seus espectadores. A eliminação da surpresa faz com que prendamos mais atenção ainda aos seus “defeitos”, pois na versão oriental, as informações eram entregues em camadas. Em O Olho do Mal é tudo entregue de bandeja para o público, de maneira simplificada demais. Há um debate que pode ser empreendido com base no filme, isto é, a questão da memória celular, pois pelo que percebemos, Sydney é contagiada pela córnea vidente da doadora. Desde as culturas primitivas que se discute tais questões, não adepta de todos, mas é um debate interessante e que torna a narrativa um espaço capaz de ser ainda mais dramático.

O Olho do Mal, no entanto, não consegue. A direção de fotografia de Jeffrey Jur envolve, num investimento constante de rack focus para nos apresentar mudanças de perspectivas, a música de Marco Beltrami não faz nada de diferente do que ele já fez em outras produções de terror, o que não significa falta de qualidade, mas repetição de algo que realizado tantas vezes. Um pouco de ousadia num universo inspirado na cultural oriental seria algo interessante. Os efeitos visuais da equipe de Marc Varisco funcionam muito bem, principalmente na excelente cena final com a explosão, sendo ainda mais impactante se fosse oriunda de um roteiro melhor desenvolvido. Ademais, os espaços concebidos pelo design de produção de James H. Spencer atraem pela forma como acolhem os seus personagens, setor que também seria melhor aproveitado caso fosse trabalhado com um texto feito de diálogos e ações mais magnéticas.

Ademais, os olhos são elementos de forte carga simbólica há eras, pois significam a percepção das coisas, algo que pode ser entendido como um elo entre o nosso mundo interior e nossa observação do exterior. Muitas culturas entendem a sua capacidade de ser emissor de energias positivas e negativas, além de representar bem o “estado” de uma pessoa ou entidade. Observe que em O Grito, os olhos de Kayako são bem representativos, tal como Sadako, ou Samara, de O Chamado, na versão estadunidense. É depois que ela sai do poço, da televisão, se rasteja e tira o cabelo dos olhos para mirar na sua vítima que o mal se estabelece. Em O Olho do Mal, os órgãos responsáveis pela visão é que trazem o horror para a protagonista que pelo menos, diferente do que foi realizado nos filmes citados, consegue escapar da maldição e encontrar um final tranquilo e poético, de volta aos sentidos que lhe acompanharam durante a sua vida.

O Olho do Mal (The Eye) — Estados Unidos/Canadá, 2008
Direção: David Moreau, Xavier Palud
Roteiro: Sebastian Gutierrez, Yuet-Jan Hui
Elenco: Jessica Alba, Alessandro Nivola, Parker Posey, Rade Serbedzija, Fernanda Romero, Rachel Ticotin, Obba Babatundé, Danny Mora, Chloë Grace Moretz, Tamlyn Tomita, Esodie Geiger
Duração: 85 min.

Crítica | The Eye: A Herança

Um dos últimos filmes da onda de refilmagens de produções orientais a ser realizado no sistema hollywoodiano foi O Olho do Mal, história sobre uma jovem cega que começa a ser perturbada por visões persistentes, posteriores ao transplante de córnea que lhe permitiu enxergar. Com todo esse processo de reprodução, os filmes de terror orientais estavam em alta e aqui no Brasil, tivemos o lançamento de algumas produções que serviram de ponto de partida para as novas versões ocidentais. Lançado em 2002, The Eye – A Herança ganhou projeção comercial em nosso território e nos permitiu conhecer um pouco mais do jeito asiático de se construir narrativas erguidas com base em nossos medos cotidianos, alegorizados por meio de imagens assombrosas, fantasmáticas e aterrorizantes.

Sob a direção dos Pang Brothers, dupla formada por Danny Pang e Oxide Chun Pang, responsáveis pelo comando do filme escrito em parceria com Jojo Hui, acompanhamos, ao longo de seus 110 minutos, uma trama bem instigante sobre Wong Kar Mun (Angelica Lee), garota que perdeu a visão aos cinco anos de idade e que aos dezoito, consegue a aprovação do seu transplante de córneas, algo que lhe permitirá viver novas emoções e aprendizados em sua vida. O sonho, no entanto, torna-se um dos maiores pesadelos de sua vida, pois o que era para fazer novo sentido e lhe permitir engrandecer fisicamente e espiritualmente se torna uma trajetória macabra de visões assombrosas de entidades que sempre estão presentes na hora da morte de determinadas pessoas, personagens geralmente próximos da protagonista, “maldita” testemunha ocular de tudo.

Tal como as heroínas que buscaram respostas para a fita amaldiçoada que ao ser assistida, ceifa a vida do espectador em sete dias, ou então, lutaram contra entidades numa casa assombrada pelo ódio que permeou o momento da morte de alguém, a protagonista em The Eye – A Herança parte para uma profunda investigação acerca de respostas para os vultos e vozes que começam a permear o seu cotidiano e tornam a sua existência diária insuportável. Tendo como base dramática a trajetória de alguém que volta a enxergar depois de praticamente viver toda a sua vida sem esse sentido, o filme é eficiente em sua construção dramática, igualmente certeiro ao colocar o horror por meio de camadas que se sobrepõe e anunciam o trágico iminente.

No começo, tudo parece muito poético. Ela narra para os espectadores sobre o que as pessoas dizem sobre o mundo ser um lugar meio, mas que ao mesmo tempo, é belo. Depois de sua cirurgia, finalmente ela estará pronta para refletir tais afirmações e fornecer o seu parecer. O problema é que diferente do esperado, voltar a enxergar não lhe trouxe apenas desafios na interpretação das cores, objetos e outros elementos conhecidos apenas por meio de outros sentidos. A presença sobrenatural parece também ser fruto o transplante, algo que descobriremos logo em seguida, quando em sua investigação, Wong Kar Mun descobre que as córneas eram de uma jovem vidente vista como maldita pelas pessoas que a cercavam.

Ela, inclusive, fez a previsão de um acidente que ceifou a vida de 300 pessoas numa fábrica. Agora, as pessoas que morrem perto dela lhe transmitem um espetáculo arrepiante, pois além de prever o acontecimento, a jovem testemunha os enviados do além, aqui chamados de Homens-Sombra, responsáveis por encaminhar tais pessoas da vida para a morte, algo que para os ocidentais, salvas as devidas proporções, pode ser comparado aos anjos. Assim, em tentativas frustradas de reerguer a sua vida, a moça é golpeada psicologicamente pelas entidades o tempo todo. O seu terapeuta, o Dr. Wah (Lawrence Chou) a ajuda em alguns momentos, tornando-se importante na evolução da narrativa ao partir para Bangok em busca das tais respostas sobre a doadora e a possível questão da memória celular que é mais discutida em sua refilmagem.

Com alguns personagens cativantes, como por exemplo, Ying-Ying (Yut Lai So), amizade encontrada enquanto esteve internada no hospital, a protagonista tem motivações para os seus momentos de catarse diante das perdas, o que torna a história envolvente e não apenas um emaranhado de sustos galopantes. A primeira aparição da figura trajada de preto a levar uma senhora internada no mesmo hospital onde se recuperava da cirurgia é uma passagem eficiente, excelente primeiro momento para tais guardiões encarregados de levar os mortos para os seus respectivos destinos. As cenas com o menino a solicitar o seu boletim também são arrepiantes, fruto de uma equipe técnica engajada na construção de um filme com bom desempenho narrativo, mesmo que esteticamente seja uma produção um tanto rudimentar.

Ainda assim, a direção de fotografia de Decha Srimantra funciona bem, num bom emprego de imagens desfocadas do ponto de vista da protagonista, além de alguns trechos com boa profundidade de campo, responsável por aumentar a sensação de ameaça. Com efeitos sonoros de Sooksun Klinkhajohn, funcionais e importantes para a demarcação das presenças construídas pelos efeitos visuais de Frankie Chung, a trilha sonora de The Eye – A Herança é um dos poucos elementos dispensáveis de sua narrativa, pouco interessante, composta pela Orange Music. No quesito visual, o design de produção de Simon So e James David é bastante comum, sem grandes pontos altos, algo que na versão estadunidense, por conta do orçamento, ganha dimensões estéticas sofisticadas, mas com menor potencial dramático que seu ponto de partida.

The Eye – A Herança (Dark Water) — Estados Unidos, 2002
Direção: Oxide Pang Chun, Danny Pang
Roteiro: Yuet-Jan Hui, Danny Pang, Oxide Pang Chun
Elenco: Angelica Lee, Chutcha Rujinanon, Lawrence Chou, Jinda Duangtoy, Yut Lai So, Candy Lo, Edmund Chen, Yin Ping Ko, Florence Wu, Wisarup Annuar
Duração: 110 min.