Yôsuke Eguchi

Crítica | Silk – O Primeiro Espírito Capturado

Sabe aquele filme que tinha tudo para ser incrível, mas perde-se em meio à sua própria ambição? Pois bem, o tailandês Silk – O Primeiro Espírito Capturado cabe perfeitamente nesta descrição questionadora. Lançado em 2006 e conhecido por ser uma das produções mais caras realizadas em Taiwan, o filme apresenta uma premissa intrigante, passeia por ideias viáveis, mas depois acumula tantos blocos temáticos que tentar compreendê-lo é uma missão não apenas difícil, mas tediosa. Escrito e dirigido por Chao-Bin Su, ao longo de seus torturantes 108 inacabáveis minutos, o terror sobrenatural assusta, mas não é por conta de sua premissa tenebrosa. O que faz medo mesmo é a maneira como a história se desenvolve, cheia de excessos que nos dispersam do foco dramático central, isto é, a captura de um espírito por um grupo de cientistas, tema desperdiçado por conta dos vacilos do diretor que assina seu próprio filme.

Mas, afinal, o que seria do campo da ciência se um espírito fosse, de fato, capturado? Quais as discussões seriam empreendidas? Como explicar a negação ao longo de tantos anos de posicionamento cético no bojo de produção e investigação dos cientistas? Saber como a ciência vai lidar com descoberta deste calibre é um dos pontos que nos prendemos ao dedicarmos o nosso tempo para conferir o filme que se desprende de sua premissa e vai trafegar por uma série de caminhos tortuosos. Quem lidera a missão de captura do tal espírito é Hashimoto (Yosuke Eguchi), cientista diabético com problemas locomotivos. O seu trabalho é desenvolvido para um projeto secreto do governo de Taiwan e envolve a descoberta dessa possibilidade de captura, além da Esponja de Henger, capaz de eliminar o efeito da gravidade.

Como sabemos, para a ciência, o fato de algumas pessoas afirmarem o “ver” e o “ouvir” fantasmas nada tem de relação com o sobrenatural, pois são coisas do nosso cérebro, pois tudo nosso é comandado por conexões cerebrais e depois que morrermos, as células morrem junto e o ser humano acabou! Será? Não é isso que o filme pretende reforçar. Assim, depois desse primeiro momento, sabemos que a narrativa abordará, ao mesmo tempo, o interesse de um grupo pela anti-gravidade, o enclausuramento de um fantasma, a fabricação de armas de fogo de longo alcance para atingir espíritos, a investigação de um policial dedicado a saber o que aconteceu com o tal espírito capturado da trama e também o já constante fio de ódio que conecta os fantasmas aos seus algozes em vida, explicação para o feixe de ressentimentos que os fazem se tornar entidades nada amigáveis.

E o que dizer do macarrão assassino? Calma, leitor, não é bem assim, mas na verdade, um personagem morre por conta de uma entidade que sai de seu prato de comida, tal como Samara saia do televisor. Como lidar com tal bizarrice? Adiante, como de praxe no cinema de terror oriental, outros blocos temáticos dialogam com a proposta principal. Uma delas é a do policial Tung (Chen Chang), homem que tem a leitura labial como uma de suas especialidades, chamado para interpretar o que o espírito tenta verbaliza de maneira rudimentar, antes de escapar e ser perseguido por um agente desacreditado quando observado em sua missão de caça-fantasmas pelas ruas. Um dos seus planos é compreender as circunstâncias por detrás da morte do menino. Junto a isso, ainda acompanhamos as vantagens do uso líquido da esponja de Henger, material que permite aos humanos enxergar espectros quando pulverizada em seu formato líquido.

Em meio à tanta confusão, ainda temos algumas tentativas dos efeitos visuais de Sing-Choong Fo de nos prender ao filme, mas nada funciona. A sensação que temos é a de que o realizador estava diante de sua “última ceia”, ou seja, a única oportunidade em toda a sua vida para a realização de um filme, por isso, inseriu tanta, mas tanta coisa na história que do meio para o final desconfiamos se ainda estamos diante da mesma produção, isto é, o falho Silk – O Primeiro Espírito Capturado, nome pomposo para uma produção bastante abaixo da média, ou se na verdade saímos da sessão e fomos capturados, misteriosamente, para outra. A direção de fotografia de Arthur Wong faz o trabalho que pode para trazer ao filme algumas imagens relevantes, o design de som de Steve Burgess também, sem muita eficiência, tal como a trilha sonora de Peter Kam e o design de produção de Yohei Taneda, todos incapazes de apresentar qualquer coisa memorável diante da história nada empolgante e repleta de tantos excessos que nos conduz ao tédio muito antes de seu desfecho.

Silk – O Primeiro Espírito Capturado (Gui si) — Taiwan, 2006
Direção: Chao-Bin Su
Roteiro: Chao-Bin Su
Elenco: Chen Chang, Yôsuke Eguchi, Kar Yan Lam, Barbie Hsu, Bo-lin Chen, Janine Chun-Ning Chang, Fang Wan, Kuan-Po Chen Chi Chin Ma, Leon Dai, Kevin S. Smith
Duração: 85 min.