Western (Faroeste)

Crítica | O Grito da Selva (1935)

O Grito da Selva (1935) plano crítico filme

O Grito da Selva (1935) não é uma adaptação rigorosa do famoso livro de Jack London. O filme funciona mais como um drama levemente inspirado nesse clássico, mostrando o contexto da Corrida do Ouro de Klondike (embora em um ano errado, 1900) e, claro, a relação de um homem com um cachorro muito especial. Os roteiristas Gene Fowler e Leonard Praskins criaram esse enredo — que é na verdade um western (ou melhor, um northern) — pensando mais nas relações entre os protagonistas do que na colocação do cão Buck na história, o que em muitos momentos faz o filme parecer perdido, sugerindo o tal “grito da selva” como o vemos no livro, mas ao mesmo tempo tendo como foco uma busca por ouro e uma estranhíssima história de amor.

Existe uma série de controvérsias na abordagem dos roteiristas para algumas coisas aqui, como a índia que aparece no final, obtida em um jogo de dados, e principalmente a relação possessiva entre Jack Thornton (Clark Gable) — que aqui não tem absolutamente nada a ver com sua contraparte literária — e Claire Blake (Loretta Young). O mais incômodo ainda é sabermos que essa história teve um capítulo tenebroso na vida real, com Gable engravidando Young, não assumindo a filha, e a mãe, para salvar a carreira, acabando por colocar a bebê num orfanato até que ela completasse dois anos e então pudesse ser “adotada” pela própria mãe. E ainda há mais tristeza diante de tudo isso. Embora tenha contado a verdade à filha depois de 25 anos, Loretta Young sempre negou publicamente a verdade sobre a paternidade (e sobre o estupro que supostamente sofreu), sendo pelo menos a primeira parte oficialmente revelada em uma biografia póstuma autorizada pela atriz, que faleceu em agosto de 2000, aos 87 anos.

Na ficção, porém, a relação entre o casal protagonista tem os seus momentos interessantes. A dupla está bem em cena, mas Gable se destaca com facilidade, e recebe toda a atenção possível das câmeras, além da melhor composição de figurinos de todo o filme (para os outros personagens temos boas peças, mas os de Clark Gable são bem mais bonitos). O diretor William A. Wellman guia muito bem os personagens por paisagens gélidas e consegue, mesmo sem muita ajuda do roteiro, ligar de maneira aceitável o cachorro com Thornton e a paisagem ao seu redor.

Como disse antes, a narrativa às vezes fica meio confusa quanto ao seu intento, mas as imagens conseguem segurar a nossa atenção e dar um sentido maior ao que cada personagem procura. A questão é que, ora pesando demais a mão na comédia (protagonizada pelo ator Jack Oakie), ora investindo em um possessivo relacionamento, o texto vai pouco a pouco se tornando cansativo, o que é uma pena para um contexto tão interessante em locações tão incríveis.

O espectador pode aproveitar bem a aventura e a temática de cobiça pelo ouro e de traições e violência que marcam o núcleo humano do filme. Nesse sentido, a fita acaba ganhando mais força e nos entretendo como um bom northern, mesmo com suas pinceladas à la O Chamado Selvagem (relacionadas ao cão) que parecem pertencer a uma produção diferente.

O Grito da Selva (Call of the Wild) — EUA, 1935
Direção: William A. Wellman
Roteiro: Gene Fowler, Leonard Praskins (baseado na obra de Jack London)
Elenco: Clark Gable, Loretta Young, Jack Oakie, Reginald Owen, Frank Conroy, Katherine DeMille, Sidney Toler, James Burke, Charles Stevens, Lalo Encinas, Thomas E. Jackson, Russ Powell, Herman Bing, George MacQuarrie
Duração: 89 min.

Crítica | Blueberry – Vol.3: Águia Solitária

Blueberry - Lone Eagle águia solitária plano crítico quadrinhos

Neste terceiro volume da série Blueberry temos uma continuação direta dos eventos de Tempestade no Oeste, agora com o Tenente protagonista responsável por um esquadrão de 30 homens cuja missão é transportar um comboio de munição do Exército através de um território repleto de Apaches. Os rifles e a pólvora carregados devem abastecer o destacamento que o General Crook está reunindo em Fort Bowie, no Arizona. Parece que os americanos vão mesmo investir em uma guerra contra os Apaches por um erro estratégico e ataque inicial dos próprios americanos.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção aqui foi a capacidade de Jean-Michel Charlier seguir com a história de maneira sólida, considerando os acontecimentos que acompanhamos desde o início da série, em Forte Navajo, aventura para a qual, aliás, temos diversas referências no presente roteiro. É como se estivéssemos vendo uma série de TV: começamos a jornada a partir de um momento específico da vida do protagonista e nos dois livros seguintes (e imagino que será também a tônica para pelo menos os volumes imediatamente após a este terceiro) vemos as consequências disso, abordadas e citadas em momentos estratégicos e sem nenhum tipo de didatismo.

Aqui podemos ver mais claramente um lado ainda pouco explorado de Blueberry, que é o seu comando solo em uma missão de perigos muito grandes e por um amplo espaço territorial, por muitos dias. O que me incomoda no texto de Charlier aqui são algumas coincidências que não precisavam ocorrer e que minam a qualidade da obra, especialmente aquela (a pior de todas!) em quem uma chuva muito providencial começa a cair do céu no momento em que os bravos soldados mais precisavam. É o tipo de escorregão que acaba incomodando ainda mais quando visto diante de um todo mais maduro e muito bem arquitetado pelo autor, que insere um plot de traição no meio da jornada dos camisas-azuis e divide a história em blocos bem ritmados de obstáculos pelo meio do caminho — todas as lutas contra os índios são excelentes, por sinal, e contam com um capricho ainda maior do grande Moebius na arte.

Blueberry - Lone Eagle #3 - águia solitária plano crítico

Para incrementar o enredo, o texto não faz do mistério de traição uma caminhada de mão única, adicionando uma discussão moral e até étnica no meio do caminho (novamente trazendo à tona a ideia de que gente ruim existe em todo lugar, em todas as raças), fazendo-nos suspeitar de pessoas diferentes ao passo que o esquadrão vai morrendo e o risco de perderem as armas transportadas se torna absolutamente real.

É muito bom ler histórias (especialmente em quadrinhos de faroeste) onde o autor e o desenhista trabalham uma linha mais realista de eventos, no sentido de que os perigos do deserto ou da pradaria afetam a todos, de fato colocam os indivíduos em perigo, matam um bocado deles e mostram por quê a vida nos territórios do Oeste mereceu entrar para o imaginário da ficção. Muita coisa do que historicamente ocorreu nessa região é tão ‘absurda’ e tão fantástica que parece material criado justamente para entreter. E Charlier e Moebius abordam aqui um desses muitos momentos da conquista americana: um dos períodos de guerra Apache.

Blueberry #3: A Águia Solitária (L’aigle Solitaire) — França, 1964
Edição original: 
Revista Pilote, edições 261 a 185
Edição original em álbum: Dargaud, 1967
No Brasil: Blueberry #2 (Abril, 1990)
Roteiro: Jean-Michel Charlier
Arte: Jean Giraud (Moebius)
48 páginas

Crítica | Algie, the Miner

estrelas 4,5

Algie, the Miner (1912) é um dos mais curiosos westerns que eu já assisti. Ele conta a história de um rapaz chamado Algernon que, para poder provar-se merecedor da mão de uma garota, aceita o desafio de ir para o “Oeste selvagem” e provar sua masculinidade. E por quê ele precisava fazer isso? Bem… porque ele é bastante afeminado e tem uma postura que faz com que quase todos os espectadores o caracterize como gay, embora essa classificação seja apenas um julgamento não muito louvável a partir da expressão de gênero do rapaz. O fato é que o leitor encontrará em muitas fontes históricas a informação de que Algie foi o primeiro protagonista gay da 7ª Arte.

Tecnicamente falando, o personagem interpretado por Billy Quirk não é gay. Ele tem uma noiva e se arrisca indo para o Oeste a fim de merecê-la, mas… ei!, estamos falando de um filme foi realizado em 1912 e só o fato de Algie tentar beijar os cowboys, fazer caras e bicos, andar rebolando pela cidade e se vestir e portar-se como um dândi bastante afetado deixa, no mínimo, a dúvida sobre sua pulsão heterossexual. E é nessa dualidade (entre julgamento e observação da realidade) que a diretora constrói esta pioneira obra.

O filme é raramente creditado à pessoa que o dirigiu de fato, a diretora francesa Alice Guy-Blaché, primeira mulher cineasta da História. É normal encontrarmos filmes do Primeiro Cinema que foram dirigidos por mulheres mas os homens que levaram os créditos (vide alguns filmes de D.W. Griffith, por exemplo) e Algie, the Miner é um dos casos. Em outras ocasiões, o curta aparece assinado por 3 diretores, com Alice Guy dentre eles, mas há registros bem claros de que ela dirigiu a obra sozinha e também a produziu, tendo, como é comum no cinema, assistentes de direção.

Só o fato de trazer para o western dos anos 1910 um personagem gay, Algie, the Miner já deveria ter maior notabilidade. E a coisa fica ainda mais impressionante quando notamos que existem questões internas que levam a trama para caminhos ainda mais complexos. Citemos um estético, por exemplo, a metáfora que a diretora faz em relação à masculinidade de Algie versus a dos outros homens do Oeste, com a pistola do jovem afeminado pequena e brilhante e a do restante dos cowboys grandes e enferrujadas.

Para completar o ciclo, existe ainda um subtexto para Big Jim, o “colega de quarto” de Algie, que o ensina a se tornar um “verdadeiro cowboy“. Quando o rapaz perde os trejeitos afeminados e passa a agir de forma socialmente aceita, parece-nos que um bromance existe entre os dois, relação vista fortemente em dois momentos, o primeiro, quando Algie impede de Big Jim volte a beber e o segundo, quando Algie conta ao amigo e professor que está voltando para Nova York afim de pedir a mão da noiva em casamento.

Mesmo com alguns acavalamentos de montagem, Algie, the Miner é um curta-metragem interessantíssimo, com um foco bastante raro no cinema da época e, evidentemente, muito engraçado. Um notável exemplo da fase americana da cineasta Alice Guy-Blaché, que infelizmente não recebeu os créditos ou o amplo conhecimento que merecia na História do Cinema.

Algie, the Miner (EUA, 1912)
Direção:
Alice Guy-Blaché
Roteiro: Alice Guy-Blaché
Elenco: Billy Quirk, Mary Foy
Duração: 10 min.

Crítica | Um Certo Capitão Lockhart

estrelas 4,5

Um Certo Capitão Lockhart foi o último western da dupla Anthony Mann & James Stewart, uma parceria interrompida devido a desentendimentos envolvendo a produção (especialmente a cadeira de direção) do filme A Passagem da Noite (1957).

A característica principal dos filmes de Mann com Stewart no elenco era a forte exploração da psicologia do protagonista, que aparecia em grande conflito interno e externo, lutando para encontrar-se no mundo e/ou para vingar-se de alguém que tenha marcado negativamente sua vida. Esse modelo de “jornada de expiação” já é perceptível na trama de Winchester ’73 – o primeiro da pentalogia – e segue sob outras camadas em E O Sangue Semeou a Terra, O Preço de um Homem e Região do Ódio.

A base para Um Certo Capitão Lockhart foi a história de Thomas T. Flynn, que trazia o drama denso de Rei Lear para um rancho de Coronado, no Novo México. Num primeiro momento, temos apenas a indicação de que o Capitão Will Lockhart possui intenções além daquela de simplesmente levar algumas carroças cheias de mantimentos da cidade de Laramie até Coronado. Conforme os minutos avançam, vemos que existe uma questão familiar em jogo e a promessa de vingança feita a si mesmo. Lockhart almeja encontrar o homem que vendera rifles de repetição para os índios apaches que massacraram uma divisão da cavalaria americana, na qual se encontrava seu irmão caçula.

Mas Mann nos esconde por um bom tempo a maioria das coisas que veríamos durante o longa. Sua direção cria um ambiente bem próximo ao suspense, ao menos na fixação de uma atmosfera que indica uma tragédia vindoura, mas que demora chegar. Nessa edificação, o diretor faz bom uso da música de George Duning e vemos o interessante equilíbrio que William A. Lyon dá à montagem, alternando de maneira suave a duração de determinados planos e trabalhando de forma muito competente as transições de cena.

Os toques shakespearianos do roteiro começam a aparecer quando a tragédia anunciada no início do longa dá as caras. E então estamos diante do western mais violento de Anthony Mann, que passa a analisar a maldade como elemento orgânico das relações humanas, assim como sua outra parte, reprimida ou acossada durante um longo tempo.

Nesse ponto já estamos nos domínios da família Waggoman e a questão da herança e do mal caráter aparecem de mãos dadas, focalizando três homens como protagonistas de um conflito que se afunilará para a vingança pretendida por Lockhart desde o início. E diferente dos outros westerns de Mann, este filme não amplia tanto as paisagens e não investe uma linha narrativa de caminhada pelas pradarias, rebanhos e quilômetros e quilômetros de terra. É verdade que a câmera faz belas panorâmicas sobre os domínios de Alec Waggoman (interpretado de maneira imponente e amargurada por Donald Crisp), mas estes takes são apenas para um contexto geográfico, sem muita exploração dramática exceto a bem construída sensação de claustrofobia.

A resolução dos problemas apresentados na fita dá um salto em certo momento da reta final, mas o choque é benéfico se consideramos o todo. A descoberta do culpado, a vingança e o triunfo do bem não dão à obra uma camada simplista ou clichê, antes, exploram cada um desses pontos dentro da mitologia do western e fecham um ciclo de obras notáveis de Anthony Mann sobre homens cujo passado são verdadeiros grilhões que precisam ser quebrados no presente. Este é o maior triunfo do diretor e de James Stewart – que aqui dá mais um show de interpretação – o de mostrar que o intocável herói do oeste podia ser tão humano, falível, patético e heroico como qualquer outro homem.

Um Certo Capitão Lockhart (The Man from Laramie) – EUA, 1955
Direção:
Anthony Mann
Roteiro: Philip Yordan, Frank Burt (baseado em história de Thomas T. Flynn)
Elenco: James Stewart, Arthur Kennedy, Donald Crisp, Cathy O’Donnell, Alex Nicol, Aline MacMahon, Wallace Ford, Jack Elam, John War Eagle, James Millican, Gregg Barton
Duração: 104 min.

Crítica | Região do Ódio

estrelas 4,5

Região do Ódio foi o penúltimo de cinco westerns que James Stewart fez com Anthony Mann (Winchester ’73, E o Sangue Semeou a Terra, O Preço de um Homem e Um Certo Capitão Lockhart), todos eles de primeira linha e com Stewart interpretando de maneira irretocável personagens temerosos de seu presente e atormentados pelo passado; e Mann abordando de maneira objetiva a psicologia desses personagens, integrando-os uterinamente aos territórios que exploram.

A narrativa de Região do Ódio se passa entre o distrito de Skagway (Alasca, EUA) e Dawson City (Yukon, Canadá), no início da Corrida de Ouro de Klodike, em 1896. James Stewart dá vida a Jeff Webster, um homem de moral aparentemente boa mas que o roteiro disseca com crueldade. Mann faz a história crescer progressivamente através das belas paisagens gélidas da região e também a faz ganhar densidade quando o grupo protagonista se estabelece em Dawson City, fechando as janelas abertas no início da fita e dando novos significados à solidão e convicções pessoais de Jeff, o homem que não confiava em ninguém e dizia jamais precisar de quem quer fosse.

O tormento do protagonista é um elemento recorrente na filmografia de Mann desde os seus filmes noir, algo que nos westerns irá contribuir para a revolução do gênero e o apontamento de novos caminhos. Em Região do Ódio vemos o heroísmo desaparecer e dar lugar a um individualismo que se traduz, para Jeff, na luta pessoal pela sobrevivência. Ele não se mete nos assuntos dos outros e só compra briga quando é ameaçado. Desse modo, o espectador vive em conflito de identificação com o personagem e essa confusão é um triunfo dramático do roteiro de Borden Chase, que não adota a verborragia e sim as atitudes para marcar o território de cada um.

Por ser um diretor muito objetivo (a maior parte de seus filmes não passam muito de 100 minutos e contam histórias complexas e extremamente ricas), Anthony Mann não dá espaço para cenas que estariam ali apenas para contemplação do espectador e isso podemos comprovar em sua relação com a paisagem natural. Em vez de filmar o belo espaço geográfico em separado ou estender uma sequência apenas para mostrá-lo por mais tempo, o diretor faz desse espaço um personagem, inserindo-o de maneira orgânica na tela e com participação essencial no desenvolvimento da narrativa, acompanhando a história inclusive em seus símbolos e metáforas.

Região do Ódio é um filme sobre mudanças. Em primeiro lugar temos a virada do inverno para a primavera, portanto temos a mudança da paisagem. Depois, a vontade de alguns personagens em mudarem sua condição de nômades ou seminômades e se estabelecerem em algum lugar e, como complemento, a mudança causada pelas ações de Jeff e seus amigos na pequena região das minas, onde a violência já atingia níveis alarmantes nem bem a corrida do ouro começara.

É impossível não se lembrar da dinâmica vista em O Tesouro da Sierra Madre, mas diferente do filme de John Huston, Região do Ódio traz uma visão social mais opressiva e uma condição psicológica que se expande e cresce em cada estágio, culminando com um enfrentamento quase patético (e filmado de maneira primorosa) em seu significado, com pistoleiros covardes morrendo na lama e a remissão tardia de um homem ainda bastante egoísta mas disposto a lidar com essa versão de si ao lado de pessoas que queriam começar uma nova vida, mudar em definitivo para uma região que, ironicamente, tanta dor lhes causou.

O sino preso à sela do cavalo, o ouro, os sonhos de uma jovem, o cinismo de um homem cujo ego e a introspecção são quase patológicos e a discussão sobre o que o dinheiro e o poder nas mãos de desonestos podem causar são símbolos e situações trabalhados em Região do Ódio, que ainda traz uma revisão crítica da sociedade americana em mais uma corrida do ouro.

Belos figurinos de regiões frias (destaque para os da atriz Ruth Roman e para os de James Stewart), fotografia em contraste e opacidade perfeitos para cada paisagem filmada (destaque para o tom de azul e o trabalho com sombras nas cenas noturas) e trilha sonora que abre e fecha o filme com perfeição (mesmo que no desenvolvimento da fita caia um pouco no marasmo conceptivo, através de temas pouco inspirados) Região o Ódio é uma história de mudanças em um território selvagem, um northern infelizmente pouco conhecido, pequena pérola quase oculta na grande filmografia de Anthony Mann.

Região do Ódio (The Far Country) – EUA, 1954
Direção:
 Anthony Mann
Roteiro: Borden Chase
Elenco: James Stewart, Ruth Roman, Corinne Calvet, Walter Brennan, John McIntire, Jay C. Flippen, Harry Morgan, Steve Brodie, Connie Gilchrist, Robert J. Wilke, Chubby Johnson
Duração: 97 min.

Crítica | E o Sangue Semeou a Terra

estrelas 4

Glyn McLyntock está fugindo de um homem chamado Glyn McLyntock. A “sina da fuga”, elemento marcante da pentalogia de westerns feitos por Anthony Mann com James Stewart no elenco, mostra-se aqui revestida de um discurso de remissão do passado manchado de um homem, não sem antes haver uma jornada dolorosa para isso — e sem apelar para o perdão compensatório. McLyntock, vez ou outra, é assombrado por seu eu do passado e precisa de um grande controle para não deixá-lo vir à tona todas as vezes. A luta de um homem contra si mesmo e a jornada como ritual de mudança são os carros-chefe da psicologia do protagonista.

A história se passa em 1866 e nos mostra uma caravana de rancheiros com alguma economia a caminho do Oregon, onde pretendem comprar terras e começar uma nova vida. Guiados por Glyn McLyntock, eles chegam são e salvos à fazenda comprada, mas acabam sendo enganados posteriormente, não recebendo os mantimentos prometidos por Hendricks (Howard Petrie). É aí que a verdadeira história começa. O roteiro de Borden Chase (Winchester ’73) trabalha o início como uma introdução pacífica perto do que será a ‘segunda parte’ do filme, equalizando de maneira muito eficaz os elementos literários do livro de William Gulick, no qual se baseou.

A dinâmica para o crescimento de Portland segue a linha de qualquer cidade nascente que vemos em westerns, northerns e derivados. Um lugar relativamente pacífico vê sua população aumentar e também a chegada de pessoas interessadas em lucrar de maneira criminosa, estabelecendo o tráfico e usando de grande violência para firmar-se como controlador do local, elementos observados em obras como Uma Cidade que Surge ou mesmo Região do Ódio, além de tantos outros filmes.

Como Mann não nos mostra um xerife honesto e nem uma ação incisiva da lei para impedir tais crimes, a nossa impressão é que o diretor intentava dialogar com o lado moral de seu protagonista. Não sendo vigiado pela lei, o que um (ex)assaltante da fronteira poderia fazer? Há um momento icônico quando Red, um dos empregados temporários e futuro bandido, pergunta a McLyntock o que ele faria quando a lei os alcançasse. Ao que o seu interlocutor responde: “Que lei?”. Essa ausência de poder oficial, no entanto, não impede de McLyntock seguir o caminho honesto que escolhera para si nessa fase da vida. No outro extremo, tal situação permite a proliferação de bandidos e abre caminhos fácies para os mais diversos tipos de atividades criminosas.

O resultado final da obra é bastante positivo, mesmo que se perca um pouco na construção das histórias paralelas e fique devendo certo complemento ao enredo, desenvolvendo bem apenas algumas linhas dramáticas e apenas citando outras. Outro elemento que infelizmente se perde é a trilha sonora de Hans J. Salter (Almas Perversas), bastante propícia na abertura do filme mas que aos poucos vai assumindo um caráter demasiadamente narrativo, acompanhando de maneira incisiva cada cena relativamente importante ou qualquer espaço de jornada, diminuindo o importantíssimo papel do silêncio.

Anthony Mann mais uma vez mostra que sabe filmar paisagens a serviço da trama, explorando a jornada pelas montanhas, a travessia de rios com barco e cavalos e a localização de uma cidade num espaço entre minas e fazendas. O fato de ser um northern também ajuda na beleza acolhedora mas ameaçadora da fotografia, com os picos dos montes cobertos de neve, florestas verdejantes e águas que em pouco tempo estariam congeladas. Esse ambiente selvagem é uma espécie de componente essencial da mudança dos personagens (em comportamento e em opinião sobre os outros), um contraste com o cenário familiar que o filme alcança na cena final, com a chegada das diligências cheias de suprimentos no novo rancho e a felicidade que trazem à população local. Não havia melhor momento para o the end.

E o Sangue Semeou a Terra (Bend of the River) – EUA, 1952
Direção:
Anthony Mann
Roteiro: Borden Chase (baseado na obra de William Gulick).
Elenco: James Stewart, Arthur Kennedy, Rock Hudson, Jay C. Flippen, Julie Adams, Lori Nelson, Chubby Johnson, Stepin Fetchit, Harry Morgan, Howard Petrie, Frances Bavier, Jack Lambert, Royal Dano
Duração: 91 min.

Crítica | Os Irmãos Sisters (2018)

The-Sisters-Brothersplano critico western faroeste

Co-produção francesa e adaptação de um dos mais famosos romances de faroeste da década, Os Irmãos Sisters (2018) conta a história de Eli (John C. Reilly) e Charlie Sisters (Joaquin Phoenix), contratados por um homem conhecido como Comodoro para matar um indivíduo que, aparentemente, o havia roubado. Como matadores de aluguel, em pleno Oregon de 1850, os Sisters são homens temidos, deixando um rastro de sangue por onde andam e cumprindo à risca os serviços para os quais são contratados. Nesta história, porém, conhecemos um ponto de virada em suas vidas, o momento onde ações e pensamentos são colocados contra a parede e exigem uma mudança de atitudes.

No livro, Patrick DeWitt foca bastante na relação entre os dois irmãos e essa linha fraterna ganha destaque na adaptação de Jacques Audiard, dando um tempero diferente para aquilo que normalmente esperamos encontrar em um western. Desse modo, é parcialmente compreensível que o texto opte por saltos e cortes dramáticos abruptos, já que a história de cavalgada dos irmãos até o homem que eles precisam matar (Hermann Kermit Warm, maravilhosamente interpretado por Riz Ahmed) não é assim tão importante. O que importa mesmo é como eles reagem à violência que os cercam e que coisas os fazem reagir de forma violenta ou, inesperadamente, de forma gentil.

Entre eles, a relação é típica relação entre irmãos que passam muito tempo juntos: brigas aqui, carinhos acolá, brincadeiras aqui, grosserias acolá. John C. Reilly e Joaquin Phoenix não só encarnam muito bem essa troca de “tapas e beijos” como exprimem um pouco do lado rude e do lado terno de cada um dos matadores, isso sem descaracterizá-los, já que um é majoritariamente violento e o outro não parece assim tão fã do serviço que faz e procura a oportunidade mais próxima para se ver livre das ordens do Comodoro. Eli é o mais gentil da dupla, enquanto Charlie veste a carranca de homem mau com o maior orgulho, mas o desenvolvimento desses personagens também nos permite ver cada um agindo à margem de seus sentimentos basilares.

Quem assina a fotografia do filme é Benoît Debie, que tem como trabalhos mais conhecidos suas parcerias com Gaspar Noé em Love (2015) e Clímax (2018), só para citar produções dessa mesma década. Grande entusiasta de criar ambientações claustrofóbicas, seja pelo enquadramento seja pela iluminação, ele entrega um trabalho muito bonito e muito amplo neste longa, abraçando bem a cartilha do western, algo que infelizmente a montagem não deixa que o espectador aproveite por muito tempo. Eu comentei mais acima que era parcialmente compreensível que o roteiro optasse por saltos e cortes dramáticos abruptos tendo os irmãos como ponto de vista, já que a proposta aqui é explorar cenas de uma jornada, não ela completa, em todos os detalhes. Isso, porém, tem um peso bastante negativo para o filme.

Olhemos a inserção desses personagens no espaço. Como se sabe, a exploração da paisagem é um dos ingredientes estéticos mais importantes do faroeste, e embora nós tenhamos isso por aqui, o tempo dessas cenas em tela é diminuto e bruscamente interrompido ou fundido a outras coisas. Endente-se a proposta, mas é impossível não ver os impasses desse tipo de execução nas cenas de contexto e de ligação dos indivíduos com a natureza, o que também faz com que a história pareça corrida e cenas inteiras percam muito de seu significado a médio prazo. Até mesmo a indicação de um sentimento maior que a camaradagem entre Hermann  e John Morris (Jake Gyllenhaal) se enfraquece no final, tornando as mortes aquém daquilo que o próprio roteiro havia pretendido.

Os Irmãos Sisters é um longa sobre amadurecimento de dois homens que, por muito tempo, fizeram da morte o seu trabalho. A redenção vem com um preço na alma e no corpo, acompanhada de experiências que tornam os protagonistas amargos e traumatizados, mas ainda assim, capazes de recomeçar. E por isso voltam para o lugar que a gente sempre volta quando quer um porto seguro. Para casa.

Os Irmãos Sisters (Les frères Sisters) — França, Espanha, Romênia, Bélgica, EUA, 2018
Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain (baseado na obra de Patrick DeWitt)
Elenco: John C. Reilly, Joaquin Phoenix, Jake Gyllenhaal, Riz Ahmed, Rebecca Root, Allison Tolman, Rutger Hauer, Carol Kane, Patrice Cossonneau, Zac Abbott, David Gasman, Philip Rosch, Creed Bratton, Lenuta Bala, Jochen Hägele
Duração: 122 min.