Warren Ellis

Crítica | Castlevania – 3ª Temporada

  • spoilers. Leia, aqui, as críticas da temporadas anteriores.

Drácula se foi e, aparentemente, sem o Príncipe das Trevas, o que sobra do universo de Castlevania é muito, mas MUITO papo furado. Na terceira temporada da série que muitos dizem ser a melhor adaptação de um videogame para o audiovisual, Warren Ellis conta uma arrastadíssima história – ou melhor, três arrastadíssimas histórias – que, apesar de visualmente muito bonita, não tem estofo para preencher nem mesmo um curta metragem, literalmente convertendo seus interessantes personagens em personificações da mais completa chatice apática.

Privilegiando diálogos expositivos intermináveis que abordam desde assuntos sérios como um portal para o inferno até coisas banais como uma negociação para a contratação de transporte marítimo, os textos de Ellis parecem o proverbial cão que corre atrás do rabo. Não só tudo parece ter um fim em si mesmo, como as narrativas paralelas não só não conversam, como cada uma delas pouco ou nada se desenvolve. É como se essa temporada inteira de 10 episódios, dois a mais que a anterior, fosse um gigantesco filler que apenas muito de leve arruma o tabuleiro para algo não muito claro que poderá – ou não – vir no futuro e que parece envolver Drácula de alguma forma, talvez por ele ser a tábua de salvação da série.

Peguem, por exemplo, Trevor Belmont, o último membro vivo do clã Belmont e sua companheira Sypha Belnades, uma Oradora super-poderosa. Não só Trevor é trazido à vida com a voz de Richard Armitage, que parece se esforçar muito para manter-se acordado em cada linha de diálogo (o contraste do trabalho dele aqui com o da temporada anterior e, mais ainda, com os podcasts de Wolverine é absurdo), como sua função narrativa é praticamente inexistente para além de beber cerveja e ser o interlocutor de conversas inúteis dos mais variados tipos. Sypha, mesmo com um bom trabalho de dublagem de Alejandra Reynoso, parece mais uma super-heroína de quadrinhos mal-escritos, com direito a mágicas variadas e a uma excitação tão artificial a cada monstro que enfrenta, que fica difícil não rir da moça. E, claro, assim como Trevor, ela não tem real utilidade na história.

Esse tipo de situação é repetida ad nauseam na lerdíssima jornada de Isaac do deserto para onde Drácula o mandara de volta ao Leste Europeu, no modorrento e mais do que completamente clichê relacionamento entre a vampira ninfeta Lenore (Jessica Brown Findlay) e Hector, provavelmente o sujeito mais inocente e bobalhão da animação e, finalmente, na solidão bucólica de Alucard (cansa demais a forma zacksnyderiana pseudo-inteligente como ele é relacionado a Jesus Cristo) quebrada pela chegada dos caçadores de vampiro japoneses Taka (Toru Uchikado) e Sumi (Rila Fukushima), dois personagens que praticamente telegrafam o que farão ao final a cada segundo de presença em tela. E o mais revoltante é que efetivamente há histórias potencialmente interessantes a serem contadas em cada uma dessas linhas narrativas, mas elas simplesmente não andam, bastando notar que, do retorno de Carmilla ao seu castelo até a última cena em que ela aparece, nada – absolutamente nada – de seu plano de criação de um império caminhou para frente em termos de ação. Aliás, sendo muito sincero, até mesmo em palavras a evolução foi tímida.

Com isso, mesmo que não houvesse necessidade premente de conexão mínima entre as várias frentes que são abertas (e, em termos narrativos, há), elas, individualmente, não levam a lugar algum significativo. Sim, vemos alguns segundos de Drácula e sua amada no inferno e Isaac acaba conseguindo construir seu exército e Lenore finalmente “converte” Hector, mas e daí? O que, dentro dessa temporada, isso significa? Ellis, excelente escritor de quadrinhos, conhece muito bem o conceito de arcos narrativos, mas sua temporada não é mais do que pedaços de história que focam em diálogos longos e excessivamente expositivos que parece ter o único objetivo de chegar ao penúltimo episódio em que as pancadarias das histórias de Trevor e Isaac são intercaladas com sequências “transgressoras” de sexo para fazer os olhos de adolescentes nerds brilharem. Em suma, é muito pouco dividendo para tamanha enrolação.

No lugar de contar uma história – ou algumas histórias – Ellis preocupa-se em inserir novos personagens. Temos o florido e enigmático Saint-Germain (Bill Nighy, excelente), o sinistro Juiz sem nome (Jason Isaacs, também ótimo) e o abilolado Sala (Navid Negahban, o Farouk de Legion), líder do priorado, todos batendo cabeça na narrativa de Trevor e Sypha, a bruxa aleatória que manda Isaac para uma cidade aleatória enfrentar um bruxo aleatório e, finalmente, as três vampiras do conselho de Carmilla que são realmente interessantes, mas que acabam ganhando contornos arquetípicos muito pouco inspirados. Com isso, a cola temática vai desaparecendo e oito dos dez episódios da temporada tornam-se o exemplo máximo de como não escrever uma obra audiovisual. Ellis realmente precisa aprender a criar longos diálogos relevantes com alguns cineastas mestres nisso como Woody Allen, Quentin Tarantino ou Charlie Kaufman. Aliás, quer focar em diálogos, então inspire-se em Meu Jantar com André.

Aqueles enfronhados na mitologia da série de games da Konami provavelmente revirarão os olhos e dirão algo como “o crítico não sabe de nada” ou “o crítico não conhece as histórias” e tudo bem com isso, mas o julgamento, aqui, é sobre a temporada, pouco importando se ela é fiel ou não ao material fonte. O importante – para além da opinião pessoal que faz parte de qualquer crítica – é saber se, tecnicamente, uma temporada como essa se segura e a grande verdade é que ela parece muito mais um interlúdio interminável do que algo que possa efetivamente ser chamado de temporada (aliás, problema semelhante – mas com menos duração – da 1ª temporada).

E, no meio dessa enrolação toda, a animação, sempre muito bonita, perde a força quase que completamente. Palmas para o design dos novos personagens, das criaturas da noite e para as poucas sequências de ação, mas não muito mais do que isso, já que as imagens são escravizadas por um texto que simplesmente não dá espaço para elas desabrocharem. É como um pavão enjaulado: até pode ser bonito, mas é triste de se ver.

A terceira temporada de Castlevania, no final das contas, é uma enfadonha e cansativa sucessão de diálogos que não só são pouco inspirados, como didáticos e expositivos ao extremo que tentam dar uma roupagem complexa e sofisticada a histórias simples e rasteiras. Bonito, sem dúvida, mas completamente ordinário.

Castlevania – 3ª Temporada (EUA, 05 de março de 2020)
Direção: Sam Deats, Adam Deats
Roteiro: Warren Ellis
Elenco (vozes originais): Richard Armitage, James Callis, Alejandra Reynoso, Theo James, Adetokumboh M’Cormack, Jaime Murray, Yasmine Al Massri, Jessica Brown Findlay, Ivana Milicevic, Bill Nighy, Navid Negahban, Jason Isaacs, Toru Uchikado, Rila Fukushima, Barbara Steele, Lance Reddick
Duração: 264 min. (10 episódios)

Crítica | Ministério do Espaço

plano crítico ministério do espaço Ministry of Space

estrelas 4

Warren Ellis é amplamente conhecido pelos seus roteiros sagazes, com narrativa extremamente bem construída e marca principal na ficção científica, com obras no currículo como Transmetropolitan, Planetary, The Authority, Global Frequency, dentre tantas outras, seja criação própria, seja no trabalho com personagens de outros autores. Na verdade, Ellis é um dos poucos roteiristas que realmente sabem tratar a complexidade e as implicações amplas da ficção científica nos quadrinhos, tanto na formatação das histórias quanto em seu conteúdo crítico, sempre ligado a coisas do mundo real.

Essa mistura de super heroísmo (nas entrelinhas) com heroísmo humano, forte tendência à space opera e crítica social apresenta-se como dinamite nos textos do autor e, mesmo quando não se trata de um trabalho glorioso como é o caso de Ministério do Espaço (minissérie em 3 edições publicada nos Estados Unidos entre 2001 e 2004), ainda é possível ver inventividade na sua forma de contar a história e, principalmente, elementos históricos metamorfoseados em outra realidade — embora a metamorfose aqui, a questão do “ouro do Holocausto”, seja ‘simples demais’ diante da grandiosidade de todo restante do texto.

Pensem em uma Terra onde a Corrida Espacial da década de 1950 colocou o Reino Unido à frente dos Estados Unidos e da União Soviética e você terá o grande cenário de Ministério do Espaço. A trama começa ainda na Segunda Guerra Mundial e avança para o ano de 2001, já com o tal Ministério estabelecido, seu criador (Sir John Dashwood) transformado em um herói internacional e os seus esforços para a conquista do espaço tendo chegado à Lua, Marte e Saturno, além de ter minas de extração em diversos asteroides e dos satélites e grandes estações espaciais na órbita da Terra.

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À primeira vista, trata-se de uma obra-prima, mas infelizmente não é. Se analisarmos o conteúdo por partes, chegaremos à divina arte de Chris Weston e às excelentes cores de Laura Martin, e aí teremos algo realmente primoroso. Weston, com sua arte milimétrica e variando as abordagens do realismo de traços muitos grossos e finalizados com sombras… a quadros de traços finos e bastante descritivos — com destaque para as dobras dos uniformes militares ou as rugas e vincos de expressão dos personagens. A esta variação, acrescentamos alguns quadros de fazer cair o queixo, dentre os quais, a sensacional explosão da nave Ariane em Woomera, 1962. Laura Martin também faz um excelente trabalho nesse quadro, com variações dentro da paleta de cores quentes que dá toda a veracidade possível à explosão.

Ainda é necessário destacar o desenho das naves do Ministério do Espaço, os quadros de exploração espacial com arte-final que lembra um pouco Moebius e a gama de detalhes por quadro que temos em toda a história, algo que torna a obra quase inteira digna de ser ampliada e colocada em quadros na parede.

A parte decepcionante aqui está na reta final, com uma explicação imoral (mas nem de perto absurdamente impactante, como era de se esperar) para o “orçamento negro” que ajudou a criar o Ministério. A única coisa realmente boa desse aspecto é que os cidadãos dessa Grã Bretanha rica e a situação geopolítica gerada pelo tal “dinheiro imoral” não será revertida pela descoberta de tal imoralidade, e essa é a melhor coisa do texto. É como se o autor estivesse jogando na cara do leitor todos os ótimos produtos consumidos com sangue e miséria de povos de países periféricos do mundo atual. A situação é forte, claro, mas dentro da história é apenas “ok”, colocada de supetão e sem uma finalização digna para o porte da trama até ali.

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Ministério do Espaço sobrevive muito mais pela qualidade da arte do que de seu texto, mas é preciso dizer que Ellis não faz um trabalho ruim. Ele “apenas” é pouco exigente e pouco interessante no final. A obra é capaz de nos fazer pensar sobre o que teria ou não teria mudado se o Reino Unido de fato tivesse tomado a frente da corrida espacial. Pelo menos o aspecto da segregação racial, nessa realidade do livro, permanece ativa. E perguntamos com algum pesar se o tipo de facilidade que essa supremacia espacial trouxe para os britânicos vale o alto preço social e histórico pago para que ela acontecesse. A mesma pergunta que podemos fazer dos gigantescos sucessos econômicos (Corporações e Estados no centro do sistema) na contemporaneidade.

Ministério do Espaço (Ministry of Space) — EUA, 2001 – 2004
Publicação no Brasil: Devir, 2014
Roteiro: Warren Ellis
Arte: Chris Weston
Cores: Laura Martin
100 páginas