Tracy Letts

Crítica | Adoráveis Mulheres

“Cansei de ouvir que, à mulher, cabe somente o amor.”

Apesar de ter marcado presença em seis categorias do Oscar 2020, a nomeação de Adoráveis Mulheres para Melhor Filme acabou pegando muita gente de surpresa, visto que a obra não apareceu em outras premiações. Entretanto, isso de maneira alguma é um demérito ou diminui sua qualidade, já que a nova adaptação do romance escrito por Louisa May Alcott é uma encantadora história de luta e amor, nos mais diversos significados possíveis dessas palavras.

Dirigido por Greta Gerwig, a fita gira em torno, essencialmente, de quatro irmãs: Josephine “Jo” March (Saoirse Ronan), Margaret “Meg” March (Emma Watson), Elizabeth “Beth” March (Eliza Scanlen) e Amy March (Florence Pugh). Filhas de Marmee March (Laura Dern), vivem suas vidas normais e sem grandes luxos enquanto os Estados Unidos passam pela Guerra da Secessão, cuja qual seu pai (Bob Odenkirk) é um dos combatentes. Enquanto aguardam o retorno do único homem da casa, as jovens, todas ligadas ao mundo artístico de alguma forma, precisam lidar com o adoecimento de Beth, que enfrenta uma doença que havia superado mas retornou ainda mais forte.

Os acontecimentos da película se desenrolam num período de sete anos, entre o final e os primeiros anos após o fim da guerra. Para contar os fatos ocorridos ao longo dos anos, a diretora opta por uma narrativa que viaja constantemente entre o presente e o passado. Ainda que logo no início do filme isso cause certa confusão, até pelo uso exagerado de cortes, fazendo a direção apresentar informações demais ao público, Gerwig não demora em acertar a mão e torna essa variação de tempo uma das principais qualidades de sua obra.

Para marcar o passado, onde a família, apesar de apreensiva pela presença do pai na guerra, vive momentos majoritariamente felizes, com as garotas cheias de energia em sua adolescência e com Beth saudável, a direção opta pelo uso de cores extremamente vibrantes tanto no figurino das personagens quanto em toda a mise-en-scène. Além disso, também há o uso bastante alto da saturação, causando uma forte impressão de vivacidade em todas as cenas.

Com relação ao presente, porém, acontece o contrário. A tela fica tomada por cores frias e tons escuros, assim como uma saturação baixa, trazendo tristeza e frieza ao filme, que ficam ainda maiores com as diversas cenas em meio às grandes quantidades de neve.

Essas idas e vindas no tempo também dialogam com os eventos da história. Por exemplo, a relação de Theodore “Laurie” Laurence (Timothée Chalamet) com as irmãs March poderia tranquilamente ser definida dessa forma. Por ter o ar galanteador e ser um jovem abastado, Laurie, mesmo tendo em Jo sua grande paixão, tenta, em maior ou menor grau, alguma investida com todas as March, com exceção de Beth.

Também é interessante perceber como cada área artística influencia na construção das personalidades de cada um. Peguemos a personagem de Ronan, por exemplo. Árdua leitora, Jo March escreve contos e romances e tem o sonho de tornar-se uma grande escritora. Dona de uma personalidade forte e até referida, após determinado incidente, como garoto, ela vai à Nova Iorque com objetivo de conseguir publicar seus escritos. No entanto, esbarra no machismo gritante da época, em que nada do que escreve é bom o suficiente, já que suas histórias possuem personagens femininas fortes e protagonistas e “isso não vende” porque “é heróico demais” e “falta romance”. Mesmo com essas adversidades, seu ímpeto questionador e irrefreável a fazem seguir em frente, demonstrando a influência dos livros em sua formação e sua enorme determinação.

Outro ponto de extrema importância na fita é a trilha sonora. Presente praticamente ao longo de toda a projeção, a composição de Alexandre Desplat é essencial para transmitir toda a emoção da narrativa. Por vezes crescendo gradativamente e em outros casos aparecendo com grande furor, Desplat transforma pequenos momentos em grandes acontecimentos, justificando por completo sua indicação para Melhor Trilha Sonora.

E impossível não comentar sobre o figurino, tão importante para um filme de época. Ainda que sejam absolutamente belas, as peças de roupas criadas por Jacqueline Durran se destacam, de fato, pelas cores. Trabalhando em perfeita harmonia com a paleta de cores, o figurino ajuda a identificar sentimentos e personalidades, como após um triste evento vemos Marmee March completamente de preto a não ser por um lenço vermelho em seu pescoço, marcando não somente seu amor pela pessoa mas também seu amoroso caráter.

Adoráveis Mulheres é uma obra visualmente encantadora e com uma ótima narrativa, que expõe as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no século XIX, criadas com o único propósito de casar, sem abrir mão do romance. Uma mescla de muita qualidade de Greta Gerwig entre a luta e o amor.

Adoráveis Mulheres (Little Women) — Estados Unidos, 2019
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Jayne Houdyshell, Chris Cooper, Meryl Streep
Duração: 135 minutos

Crítica | Divorce – 3ª Temporada

Confesso que foi com grande surpresa que recebi as notícias sobre o lançamento da terceira temporada de Divorce, programa que tal como apontado na crítica do segundo ano, apresentou-se como uma atração morna e sem as reluzentes distrações do universo de heróis extraordinários e conflitos territoriais e sociais em torno de um trono de ferro. Sob a direção de Shira Piven, So Yong Kim, Rachel Lee Goldenberg e Ryan Case, os seis episódios da terceira temporada continuam no processo de observação dos desdobramentos dos ganchos anteriores, em especial, a vida profissional da protagonista interpretada por Sarah Jessica Parker, em novo rumo após os problemas com a galeria.

Frances agora se encontra dividida amorosamente entre alguma afeição por Robert, personagem que marcou a sua história, mas que ela sabe muito bem não ser a pessoa que dê mais certo, haja vista os conflitos e vícios da longa relação, além de não saber lidar cuidadosamente com as dúvidas entre fazer sexo ou não arriscar com o treinador Jeremy (Dominic Fumusa). Há também o seu novo namorado, Henry (James Lesure), gentil, amoroso e compreensivo, mas determinado a ir bastante além do que talvez Frances esteja em termos de preparo.

Robert (Thomas Haden Church), prestes a ter seu filho com a nova esposa, também não sabe ao certo o que deseja. O relacionamento anda confuso, ele não tem mais a mesma paciência do passado e uma nova separação é quase certa. O contato com os filhos continua saudável, equilibrado e a amizade com Frances atravessou o limiar do respeito mútuo e da tranquilidade. Ele também não possui tantas certezas em relação ao fato de ter ou não alguma fagulha de sentimento pela ex-esposa. O que ambos sabem é que há uma possível fase de solidão e incerteza prestes a pairar, sem a possibilidade de se resolver por meio do conformismo, isto é, o resgate de uma relação que já não possui mais sentido de existir.

Assim, Lila (Sterling Jerins) e Tom (Charlie Kilgore) seguem as suas vidas mais tranquilas, sem o inferno das brigas dos anos anteriores. Com menor participação na trama, os filhos do casal protagonista cumprem bem os seus arcos dramáticos, tal como as amigas de Frances, coadjuvantes de ouro, como apontado na análise da temporada anterior. Dallas (Talia Balsam) recebe uma tentadora proposta de casamento com um homem rico, mas bem mais velho que ela, e Diane (Molly Shanon) é assediada por um paciente de postura questionável.

Trajados pelos figurinos de James Hammer, os personagens circulam pelos espaços mais uma vez erguidos por Tim Galvin, ambientes que representam bem a tranquilidade da terceira temporada, a mais amena de todas. Acompanhados pela condução musical de Kiegan Dewitt, os acontecimentos do desfecho da série são registrados pelas câmeras de Joe Collins e John Lindley, dupla que assina a direção de fotografia. Em seus enquadramentos e movimentos, eles seguem os passos dos personagens em seus cotidianos, tudo de maneira simples, mas com um toque sofisticado de quem entende o estilo suave e compenetrado da série.

Ademais, a terceira temporada de fato deveria ser a última. Não havia mais conteúdo que justificasse outros episódios. A estratégia de compilar tudo em seis episódios também foi um caminho muito inteligente, pois evitou que Divorce despencasse no abismo do marasmo. Seu final aberto, com decisões que nos reforçam que a vida continua, apresentou-se como uma boa opção de encerramento. Não há final feliz, tampouco tragédias. O que há é a realidade pulsante. Divorce não vai nos deixar com a sensação de finalização brusca. Terminou no momento certo. Um desfecho digno para uma jornada idem, assinada por Liz Tucillo, showrunner da temporada.

Divorce – 3ª Temporada (EUA, 2019)
Showrunner: Liz Tucillo
Direção: Jesse Peretz, Ben Taylor, Adam Bernstein, Jamie Babbit, Beth McCarthy-Miller
Roteiro: Sharon Horgan, Paul Simms, Patricia Breen, Cindy Chupack, Tom Scharpling, Adam Resnick, Hayes Davenport, Gabrielle Allan, Jennifer Crittenden
Elenco: Sarah Jessica Parker, Thomas Haden Church, Molly Shannon, Talia Balsam, Tracy Letts, Sterling Jerins, Charlie Kilgore, Jemaine Clement, Alex Wolff, Dean Winters, Jeffrey DeMunn, Yul Vazquez
Duração: 30 minutos (06 episódios)

Crítica | Divorce – 2ª Temporada

A saga de Sarah Jessica Parker na indústria cultural é um painel de referências ao mundo de Sex and The City. Essa aderência não é justificada por limitações do talento dramático da atriz, mas pelo legado deixado pela série, ainda bastante atual e relevante mais de dez anos após o seu encerramento. Divorce, produzida pela HBO, consegui driblar os materiais concorrentes, disputa acirrada com dragões, batalhas épicas, investigações policiais e uma cultura cada vez mais envolvida na “onda dos super-heróis”. Em seu segundo ano, a quantidade de episódios mudou de 10 para 08 capítulos com média de 30 minutos, tendo como foco os desdobramentos do sufocante divórcio entre Frances (Parker) e Robert (Thomas Haden Church).

Acompanhados pela condução sonora de Kiegan Dewitt e vestidos pelos figurinos assinados por Joseph La Corte, a série manteve a sua postura narrativa simplória, mas sem deixar de abordar com graça as consequências do primeiro ano, repleto de crises e instabilidades emocionais. Agora o debate está vinculado aos preocupantes rumos do casal separado: como criar os filhos? Como lidar com “o outro” nas situações sociais? Frances ainda precisa lidar com Jackie (Becki Newton), a nova namorada de Robert, além da antiga cunhada Cathy (Amy Sedaris), adulta solteira, irritante e persecutória, em suma, uma aberração suportada por ser parte da família.

Ao lado de Andrew (Steven Pasquale), Frances tenta refazer a sua vida, mas a relação parece ter dificuldades para emplacar. No bojo da família, ela ainda precisa lidar com as crises temperamentais de Lila (Sterling Jerins), típica adolescente implicante, e Tom (Charlie Kilgore), jovem que adentrou na vida sexual e passa por uma sabatina sobre prevenção e consentimento, debate realizado com os pais, mas organizado por Frances. Ademais, Dallas (Talia Balsam) e Diane (Molly Shanon) continuam como coadjuvantes eficientes, ombros para a protagonista recostar depois da reafirmação dos padrões em repetição que ela e Robert emaranham-se.

Para contar essa história, Divorce traz uma eficiente equipe técnica. A direção de fotografia, assinada por Joe Collins e John Lindley imprime nos episódios um tom de iluminação acinzentado, contrastado com os tons opacos do design de produção de Tim Galvin e Stuart Weirtzel, departamentos que produzem um conjunto de imagens sem o tom esfuziante e multicolorido de outros programas televisivos, o que tornou a segunda temporada de Divorce um feixe de episódios amenos, sutis, introspectivos, focados mais em seus diálogos e ironias diante das coisas comum da vida. As pessoas comuns e as situações não exatamente tão extraordinárias também são ótimos materiais narrativos, principalmente quando encontram um bom texto.

Com episódios comandados por Ryan Case, Scott Ellis, Janicza Bravo e Wendey Stanlzer, o grupo assumiu os roteiros de Sharon Horgan, Jordan Carlos, Adam Resnick, Liz Tucillo, Mark Steinlen e Lisa Albert, a segunda temporada termina com diversos ganchos para o terceiro ano, demarcado como o último, com apenas seis episódios. Frances tentou se relacionar, mas as coisas não foram adiante. Com problemas na galeria, a personagem precisará se reinventar, além de ter que lidar com as dúvidas em relação aos sentimentos por Robert. Tudo acabou ou ainda há alguma fagulha sentimental? Robert, envolvido em um novo relacionamento, parece mais confortável. Conforme o senso comum, para os homens, a separação parece algo socialmente mais fácil. Você, leitor, o que acha? Falácia ou a pura verdade?

Divorce – 2ª Temporada (EUA, 2017-2018)
Showrunner: Sharon Horgan
Direção: Ryan Case, Scott Ellis, Janicza Bravo, Wendey Stanlzer
Roteiro: Sharon Horgan, Jordan Carlos, Adam Resnick, Liz Tucillo, Mark Steinlen, Lisa Albert
Elenco: Sarah Jessica Parker, Thomas Haden Church, Molly Shannon, Talia Balsam, Tracy Letts, Sterling Jerins, Charlie Kilgore, Jemaine Clement, Alex Wolff, Dean Winters, Jeffrey DeMunn, Yul Vazquez
Duração: 30 minutos (08 episódios)