Tosin Cole

Crítica | Doctor Who – 12X09 e 10: Ascension of the Cybermen e The Timeless Children

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  • Há SPOILERS! Leia aqui as outras críticas da Nova Série. E aqui as críticas da Série Clássica. Para livros, áudios, quadrinhos e listas de Doctor Who, clique aqui.

Eu ainda não sei o que pensar direito desses episódios. As mudanças que aconteceram nessa temporada, nesse final de 12º ano da Nova Série simplesmente me deixaram sem saber que caminho de pensamento tomar. Minha posição geral em relação a todo é a seguinte: eu gostei bastante. Mas confesso que também estou (paradoxalmente) incomodado.

Vou começar pelo mais fácil: a execução da ideia. Como ambos os episódios foram dirigidos por Jamie Magnus Stone e inteiramente escritos por Chris Chibnall, fica mais fácil fazer uma análise de unidade conceitual e estética. Dito isto, devo começar dizendo que eu gostei mais de Ascension of the Cybermen do que de The Timeless Children. O primeiro episódio dessa dupla final nos ofereceu uma interessantíssima base de ação, fez os Cybermen (enfim!) parecerem amedrontadores novamente e colocou a Doutora e seus companheiros em ação logo nos primeiros minutos do episódio. Uma ótima construção de ameaça e apresentação de mistérios que seriam retomados em seguida, como a intrigante realidade de Brendan e a barreira no misterioso planeta que ligava-se a Gallifrey, por exemplo.

Em The Timeless Children, as coisas são decisivas e há muito o que processar. Em termos de abordagem, o episódio é ótimo. Existem momentos, especialmente quando novidades ou resoluções devem ser apresentadas, que o roteiro precisa ser didático ou pelo menos o mais claro possível no encadeamento das coisas, algo que este final de temporada nos traz. Não há a tentativa de ser diferentão em termos de composição do tempo e, tirando um aspecto dos diálogos (o Mestre o tempo inteiro chamando a atenção para o fato de que Gallifrey estava destruído) a interação entre os personagens também é algo que funciona de modo aplaudível aqui. Jodie Whittaker tem mais uma ótima oportunidade de se mostrar no papel, mas não tem jeito, quem brilha do começo ao fim aqui é Sacha Dhawan com esse insano, psicoticamente emotivo e maligno Mestre.

Em construção, os dois episódios (mas especialmente o Finale) possui uma cara, uma atmosfera muito similar à da Série Clássica, o que foi muito legal de se ver, além das relações pontuais que o roteiro faz com eventos passados do programa e sem forçar a barra (um dos meus medos prévios para as cenas em Gallifrey, para falar a verdade). Aliado a uma ação que tem falhas no bloco dos Cybermen, mas ainda assim é boa, estamos diante de uma realidade muito bem delineada (a fotografia e a arte das cenas de Gallifrey são maravilhosas!) e com consequências imensas e definitivas para a série, quer gostemos, quer não. E aí, senhoras e senhores, entra em cena o divisor de águas.

O que eu penso sobre retcons e a minha relação com esse tipo de “revolução canônica” em Doctor Who está lá em Spyfall – Part One, então não vou repetir aqui. O que devo dizer logo de cara é que eu estou numa gangorra de emoções e que ainda há muito para pensar e considerar, então seguirei fazendo alguns apontamentos à guisa de abordagem crítica misturada com leitura/relação/interpretação diante do que foi visto aqui. Vamos lá.

  • Cyberman Solitário

Acabou não sendo nada demais, certo? A forma como Jack o apresentou parecia ser o sustentáculo de alguma coisa de imensa importância, não um deflagrador. Não digo que achei ruim (porque não achei!), mas fiquei decepcionado por ele ser “só” isso. Mas não é algo que pesa tanto para mim, pois, como todos, estou vacinado desde os tempos do Lobo Mau…

  • Criança Atemporal e Furos

Uma coisa está em clara para mim: eu não gostaria que essa personagem fosse o Doutor (a). Todavia, além da limitação de regenerações para ele, esse plot não mudou DE FATO nada na série. De imediato, isso abre um problema de questionamento de existência — se não era para mudar DE FATO as coisas, para quê criar isso, então? Pois é. Esse problema de existência é parte da minha cara feia para tal mudança também. Mas acontece, e não é a primeira vez que temos retcons na série…

Pois bem, aqui descobrimos a real (nova) origem dos Time Lords, da regeneração e do começo das infâmias dessa nova espécie modificada com o DNA da Criança Atemporal — a ideia expande a série e maximiza a complexidade da 13ª Doutora. As mudanças de fato só começarão a aparecer nas criações a partir daqui. Até aí, nada de novo no front.

No esforço mental para sair da Matrix, a Doutora passa por todas as suas encarnações e, agora sim, tornando oficial os Doutores de The Brain of Morbius. Nada, porém, se altera: a contagem dos Doutores permanece a mesma, os eventos da série permanecem os mesmos (afinal, quem descobre a verdade é a 13ª Doutora, não suas encarnações anteriores), as justificativas antes dadas pelos Doutores sobre sua vida e a verdade conhecida de Gallifrey até o momento se mantêm exatamente as mesmas (agora apenas separadas como pré e pós a revelação da verdade). O mesmo vale para a questão das regenerações vistas naquele episódio do Hitler e no dilema de The Time of the Doctor. Bem… É literalmente explicado no episódio que a verdadeira criação dos Time Lords foi escondida, adulterada com falsas memórias na Matrix pelos pais e mães fundadores de Gallifrey. Da mesma forma que é explicado que o Doutor não tinha as memórias do que aconteceu antes de sua conhecida 1ª encarnação (fazer o Doutor se esquecer de coisas não é difícil… todo mundo se lembra de Clara, certo?).

Mas ainda há uma cereja do bolo aí. Ora, se existe em Gallifrey um aparelhinho chamado Chameleon Arch que é capaz de tirar 100% das regenerações e das memórias e personalidade de um Time Lord, transformando-o em humano, por que o mesmo aparelho não poderia, em vez de tirar 100% das regenerações + o conhecimento delas, fixar num Time Lord apenas 12 regenerações? A gente já sabe, também pelo episódio, que o Chameleon Arch foi usado na Criança Atemporal desde os primeiros apagamentos de sua memória (claramente deixando gravadas um recorte das memórias de uma das longas infâncias, onde a criança conheceu o Mestre). Não é difícil chegar a uma conclusão estendida a partir daí, certo.

O showzinho dos Time Lords para com o Doutor agora está mais claro do que nunca: ele estava sendo mantido em rédea curta porque é uma ameaça grande, e sabe-se lá o que poderia fazer se descobrisse que nem Gallifreyano ele era. O ruim, na minha concepção, é que agora o Doutor é um basicamente super-herói, visto que destravada as suas memórias do passado, ele não está mais sob a influência de limitação das 12 regenerações, de modo que preocupar-se com os ciclos regenerativos não está mais em sua lista (assim espero). E aqui talvez seja um ponto bom para falar do Valeyard, brasileiramente conhecido como Jardim do Vale (hehehe). Conforme apresentado lá em The Ultimate Foe, ele é um amálgama das versões ruins do Doutor* que apareceria em algum momento entre a sua 12ª e a última encarnação. Falta só agora alguém reclamar que “destruíram a possibilidade do Valeyard existir” com essa questão da Timeless Child. Cá dentro, eu fico só pensando: “Neiva do céu, de cérebro, só tem o sinarzin!“.

* Para os reclamões desaviados ou desmemoriados, o Doutor tem várias versões ambíguas de si mesmo, algumas delas más, outras boas, e muitas sem nenhuma explicação até hoje. São elas: O Vigia (Logopolis), O Valeyard (The Mysterious Planet), O Meta-Crise (Journey’s End), O Senhor do Sonho (Amy’s Choice) e O Curador (The Day of the Doctor).

Vale ainda mencionar a biologia do Doutor, com dois corações. Não sendo gallifreyano, em tese, há um problema aí, certo? Na verdade não. O único problema é a conveniência da coisa toda, produto de retcon, o que é sempre um incômodo. Mas a gente pode seguir desde a alteração da composição dos gallifreyanos para simular a biologia da Criança Atemporal ou o contrário. Ou ainda aquela velha conveniência boba: a espécie da Criança Atemporal tinha dois corações, assim como os gallifreyanos. Não há furo aí, “só” uma explicação porca. Ah, e Clara na linha do tempo do Doutor? Ué, se esta é a linha do tempo que ele lembrava que tinha vivido… o que mais Clara encontraria lá? Só os Doutores de 1 a 11 + o War!

Ou seja… o que Chris Chibnall faz aqui é uma massiva expansão de possibilidades, onde agora existem inúmeras coisas para se contar da Criança Atemporal antes do 1º Doutor. Não estou 100% a bordo de tudo isso (acho que estaciono nos 85), tampouco da real (agora sim) destruição de Gallifrey, mas isso não tem nada a ver com nenhum “estrago” [inexistente] feito pelo retcon. Sou só eu com meus gostos. Espero pelo menos que o showrunner consiga cercar, no próximo ano, alguns dos principais elementos da continuidade para deixar o terreno da série mais suave e mais compreensível pra todo mundo. O que eu não quero é que DW se torne uma maníaca por criar/recriar/destruir o núcleo duro de sua realidade a cada 5 anos, como faz a DC com seus quadrinhos. Eu sei perfeitamente que cânones se apagam e são reescritos, e não foi Chris Chibnall quem inventou isso, nem nas artes, nem em Doctor Who. Mas fica aí no ar o ditado sábio da minha avó Maria: “tudo demais é desmantelo“.

  • Tem alguma ordem?

Tem uma “ordem inicial” sim, com base na sequência cronológica que a Doutora atravessa mentalmente quando estava tentando se libertar da Matrix. Até o momento, o que conhecemos de sua (agora nova e completa) timeline, é isso: primeiro vem a Criança Atemporal, da sua adoção até a queda do penhasco, onde vemos a primeira regeneração conhecida. Depois dessa, vemos mais outras 5 outras regenerações, que duram todo o processo de pesquisas e decodificação do DNA por Tecteun. Depois disso, os 8 Doutores de Morbius. Depois Ruth. Depois os Doutores numerados de 1 a 13… + War. No entanto, está implícito que na ordem pré-1º Doutor há muito mais regenerações ainda por nós desconhecidas…

  • E Brendan?

Essa resposta é dada pelo próprio Mestre! Brendan é uma obra de ficção. A história dele estava na Matrix como um filtro para encobrir a verdadeira história da Criança Atemporal, sua vida e seu trabalho inicial com A Divisão, primeira organização de Gallifrey a trabalhar com exploração de possibilidades e teorias sobre viagem no tempo, além de políticas de intervenção e principalmente, de não-intervenção (não é explicado aqui mas, para mim, é perfeitamente possível que A Divisão se torne, no futuro, a Celestial Intervention Agency).

  • Fly me to the moon and let me play among the stars…

Talvez eu tivesse em menor conflito se a Criança Atemporal não fosse a Doutora, mas é o que temos a partir de agora, então vamos seguir com isso. As discussões podem seguir pelo gosto (ou desgosto) diante do que foi feito, mas mesmo não estando assim tão certo do que penso, vejo as pontas essenciais bem amarradas aqui, até a questão da memória da Doutora colocada em cena como a resposta correta para esse tipo de ação. A cada missão da Divisão e a cada nova vida, a memória daqueles tempos era apagada pelos Time Lords, que não queriam que a encarnação seguinte soubesse quem a Timeless era.

Para mim, fica até clara uma justificativa simples do que vem a seguir (mesmo que não seja com Ruth, pode ser com qualquer um antes do 1º Doutor): Ruth sai em nova missão. Chega à Terra, se encanta, arranja companion e tudo. Tenta se esconder na Terra, usando um Chameleon Arch, mas é caçada e encontrada pela Divisão, aparentemente chefiada por Gat (Fugitive of the Judoon). No momento de se regenerar, os Time Lords mais uma vez apagaram sua memória. Sua encarnação seguinte começa uma nova missão, como vimos, com mentiras implantadas pela Matrix, e acaba se desencantando (talvez inconscientemente, após o impacto causado pela presença na Terra ou pelo encontro com sua 13ª encarnação, embora não se lembre disso), pegando sua neta e enfim fugindo de Gallifrey, adotando, pelos motivos que já conhecemos em Sob Forte Tensão, o título de Doutor. O 1º Doutor. Daí para frente, renegado (agora dá pra imaginar claramente por que, não?) e sempre se esquivando, fugindo dos Time Lords, o Doutor deixou de ser uma peça num jogo político e de experimentações da raça criada com seu DNA e passou a agir por conta própria. Pensando bem… que história triste e fantástica ao mesmo tempo.

Bom, vamos dar tempo ao tempo. Fecho, então, com o que comecei: eu gostei bastante. Mas eu confesso que também estou (paradoxalmente) incomodado. E estarei aqui, lindo e belo, preparado para a 13ª, 14ª, 15ª, 16ª… 50ª Temporadas. E pelo visto seguiremos com a Doutora agora na cadeia! Vamos ver o que sairá daí.

Doctor Who – 12X09 e 10: Ascension of the Cybermen e The Timeless Children (Reino Unido, 23 de fevereiro e 1º de março de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Sacha Dhawan, Patrick O’Kane, Julie Graham, Ian McElhinney, Alex Austin, Steve Toussaint, Rhiannon Clements, Matt Carver, Jack Osborn, Evan McCabe, Branwell Donaghey, Orla O’Rourke, Nicholas Briggs, Andrew Macklin, Coalyn Byrne, Seylan Baxter, Kirsty Besterman
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X08: The Haunting of Villa Diodati

plano crítico doctor who The Haunting of Villa Diodati

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Eu vou começar dizendo que ainda não ouvi Mary’s Story, áudio da Big Finish que faz parte de um combo de 4 aventuras em sua Série Mensal de Doctor Who, sob o título guarda-chuva de The Company of Friends (BF #123). Esta história se passa exatamente no mesmo dia que The Haunting of Villa Diodati, e tem gerado certo desconforto ente os espectadores da BF, o que entendo perfeitamente. Eu gostaria que pelo menos houvesse a indicação de que a Doutora apagou a mente dessa trupe toda, o que pode ter acontecido em elipse, claro, mas a gente não sabe ao certo. De todo modo, é sempre possível encontrar um caminho sólido para adequar paradoxos e contradições desnecessárias (e para ser franco, bem desrespeitosas, já que a BF é um baú de ouro oficialmente licenciado pela BBC para trabalhar com Doctor Who) entre os áudios e a série. Uma coisa é certa: não será a primeira e nem a última vez que isso acontece. Uma lástima, é verdade. Mas é aquele ditado: “tudo, não terás“.

Quando eu descobri o título desse episódio, algumas semanas antes dele ser exibido, eu vibrei de emoção. Trata-se de um momento precioso na História da Literatura Universal, quando Percy Bysshe Shelley, Mary Shelley, Lord Byron e John William Polidori (acompanhados da irmã adotiva de Mary, Claire Clairmont) se reuniram na Villa Diodati, próximo ao Lago Léman (aqui, Lake Geneva), na Suíça, em junho de 1816. Do “concurso literário” proposto entre os amigos nesta ocasião, saíram diversas produções assustadoras, das quais entraram para a história O Vampiro, de Polidori (inspirado em O Fragmento, de Byron, rascunhado na ocasião) e principalmente Frankenstein, de Mary Shelley. Para amantes da literatura gótica, especialmente em suas raízes, esse é o tipo de episódio que a gente vê com um brilho macabro nos olhos. E que bom que a roteirista Maxine Alderton acertou a maior parte do tempo naquilo que ela se propôs contar.

O Time-TARDIS chega à Villa Diodati com um propósito que o texto explica mal e parece que não sabe bem como fazer valer no início. Para nossa sorte, o desconforto passa rápido e de maneira até que bastante orgânica eles começam a experimentar (juntamente com os residentes) coisas sobrenaturais. Há uma vibe interessante de Ghost Light aqui e toda a história de terror tem solidez o bastante para se sustentar, tanto que até a aparição do Cyberman solitário, eu estava achando a obra um interessantíssimo e divertido filler. A surpresa, porém, foi muito boa. Ver um dos plots do ano ligado ao que parecia ser apenas uma viagem solta da Doutora foi uma das coisas mais legais em termos de encadeamento narrativo nesta temporada, sem contar que o episódio em si tem uma direção muito competente na criação dos espaços de terror, misturando fantasmas ao imaginário total de “casa assombrada“, algo que tem uma explicação ainda mais interessante e um mistério a tiracolo (tadinho do Graham, todo chocado porque viu fantasmas).

A movimentação dos personagens na mansão, a belíssima direção de fotografia e o progressivo elemento de medo nos leva para um ótimo final, que traz a Doutora fazendo um baita discurso enraivecido, plenamente coerente com sua personalidade (dá vontade, não é, Chibnall e Charlene James? Vê se aprendem a não descaracterizar e desrespeitar a personagem, can you hear me?) e apostando alto para salvar uma vida e em seguida, desfazer as consequências de seus atos. Meu impasse com esse episódio está no tratamento final desse plano. A Doutora mostra um pouco a Percy como ele iria morrer (de fato, ele morreu afogado) e engana o dispositivo vivo dentro do poeta, que sai do corpo na mesma hora. A questão é que não há nenhum indício de que a Doutora apagou a memória de Percy, e isso é problemático em tantos níveis que não vou nem começar a escrever. Eu falei no começo da crítica que a gente pode encontrar caminhos para justificar algumas coisas da série, mas por favor, isso não é um “simples” problema de resolução harmoniosa para paradoxos, contradições e outras escolhas difíceis de se explicar à primeira vista. A Doutora mostra e reafirma (pedindo desculpas ao poeta pela espiada trágica do futuro!) algo que ele não deveria ver de jeito nenhum e parece que as coisas ficam por isso mesmo. É complicado… quando não é uma coisa, é outra.

Está claro agora que abrimos a porta de entrada para um Finale de temporada que tomará os dois episódios restantes deste 12º ano do show. Estou curioso e ao mesmo tempo apreensivo pelo que Chimbs nos trará adiante. Já vou colocar minha barba de molho. A coisa vai esquentar.

Doctor Who – 12X08: The Haunting of Villa Diodati (Reino Unido, 16 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Maxine Alderton
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Lili Miller, Jacob Collins-Levy, Nadia Parkes, Maxim Baldry, Patrick O’Kane, Lewis Rainer, Stefan Bednarczyk, Sarah Perles
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me?

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Até o mais desgostoso dos espectadores deverá admitir que a premissa de Can You Hear Me? é fantástica e prometia um daqueles misteriosos episódios de terror bem legais que a gente já teve na série antes. O resultado, porém, não foi assim tão animador como esperávamos, mas teve seus bons momentos e conseguiu trabalhar de maneira aceitável o seu assunto principal, garantindo uma boa diversão, apesar das barrigas.

Dividida entre Aleppo, 1380; Sheffield, 2020 e a nave de Zellin, num futuro distante, a trama explora os medos mais intensos, e a partir dessa situação temos um convite para olhar para dentro de cada um, gerando oportunamente um final de episódio bastante reflexivo e que aparentemente acena para a partida dos companions da Doutora (pelo menos Ryan e Yaz), o que evidentemente me deixou pulando de felicidade — e mais uma vez deixo claro que não é por desgostar deles, é porque eu estou enjoado deles e penso que os roteiros, embora tenham melhorado muitíssimo a dinâmica de um time grande na TARDIS, ainda não está conseguindo explorar organicamente o trio + a Doutora. E a minha primeira reclamação sobre o episódio tem a ver com esse assunto, por sinal.

Eu tenho a maior curiosidade para saber como foi o processo de escrita de Chris Chibnall e Charlene James para este capítulo. De quem foi a ideia de colocar a garota síria (Tahira, interpretada por Aruhan Galieva) como adicional temporária na TARDIS e mais Tibo (Buom Tihngang), o amigo de Ryan? Gente é o que não falta nessa nave ou nessa temporada e está claro o quanto isso segura o roteiro pelo rabo, em duas medidas: na estranheza, porque a gente fica se perguntando: “cadê fulano?“, e na estupidez, porque não há tempo de criar falas ou dar funções minimamente interessantes para esses coadjuvantes de momento (e eu implicava com a coitada da Courtney Woods, interpretada por Ellis George, na era do 12º Doutor! Mal sabia eu que estava no Paraíso!), de modo que ficam todos com cara de bolacha falando amenidades que ninguém se importa, atravancando o uso dos companions (que já são muitos) e o escopo de ação da Doutora, que precisa abarcar todo mundo. Ai ai…

O que torna o texto interessante, no entanto, é a jornada em torno do medo ou do desequilíbrio metal e que traz, na figura do vilão Zellin a conexão com diversos momentos da Série Clássica, como os Eternals (Enlightenment), os Guardians of Time (The Ribos Operation) e o Celestial Toymaker, que tem uma citação especial, dado o jogo que Zellin monta para a Doutora. Aparentemente estamos diante de um episódio isolado, mas ele tem a sutil habilidade de aglutinar rapidamente pequenos elementos da temporada, como o Dregs de Orphan 55 e a Criança Atemporal, dando um senso maior de unidade, mesmo que não nos encha de respostas. Eu me diverti com a história em si, mas não pude deixar de me irritar com a já citada superpopulação do núcleo central e em mais dois momentos, que acho que realmente estragaram muita coisa.

O primeiro foi aquela TE – NE – BRO – SA escapada da Doutora. Eu juro pra vocês que eu pausei o episódio para tentar respirar e me acalmar com o que eu vi naquela cena. Aquilo foi horrível em tudo o que se possa imaginar: foi uma escapada feia e burra para os moldes e inteligência da Doutora; foi uma das resoluções mais mal editadas que eu já vi em toda a minha vida e, pior ainda, foi uma cena num ponto alto do episódio, já orbitando o clímax, e exigia que o roteiro desse a máxima atenção para fazer um bom crescendo até o ponto máximo. Só que em poucos segundos vem aquele Deus Ex Machina e pronto, a Doutora estava liberta…

Por outro lado, me agradou demais a atenção dada aos companions, cenas que deveriam aparecer na primeira metade da 11ª Temporada, mas tudo bem, pelo menos apareceram, certo? Esse é o tipo interessante de exploração de personalidade e vida pessoal dos personagens e que casa bem com a temática do capítulo, dando um pouco mais de pistas sobre as ações, o pensamento e os anseios de cada um. Mas aí, caindo na maldição dessa Era (que para cada coisa boa deve ter uma ruim) tem aquele monólogo bonito e doloroso do Graham com a Doutora e ela simplesmente escanteia o cara! Eu fiquei muito bravo com os roteiristas nesse ponto. A Doutora dar um puxão de orelha na Yaz e dizer que eles “fazem perguntas demais” é uma coisa que faz sentido esperar dela, mas tratar o Graham daquele jeito? A 13ª Doutora? Não faz nenhum sentido. Estragou um momento bonito a troco de nada, indo na contramão de tudo o que se construiu da Doutora até aqui e perdendo outra oportunidade de ouro para fazer com que ela se mostrasse mais.

Apesar dos pontos negativos do episódio, eu realmente gostei da história como um todo. O que me incomoda é que mesmo em episódios que eu tenho gostado da maior parte, a ponto de estarem solidamente acima da média, ainda vejo tropeços quase inacreditáveis para DW a essa altura do campeonato. Impossível não se irritar com Chris Chibnall por isso.

Doctor Who – 12X07: Can You Hear Me? (Reino Unido, 9 de fevereiro de 2020)
Direção: Emma Sullivan
Roteiro: Chris Chibnall, Charlene James
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Clare-Hope Ashitey, Aruhan Galieva, Nasreen Hussain, Buom Tihngang, Bhavnisha Parmar, Ian Gelder
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X06: Praxeus

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Como existe uma similaridade de proposta deste episódio com o pior da temporada até agora (Orphan 55), eu vou reservar um tempo para falar da estrutura desse 12º ano do do show antes de entrar no episódio propriamente dito. E isso se deve não apenas à já dita proximidade temática como também ao caráter humano que ele traz, envolvendo recorte étnico, de sexualidade e ambiental. Eu já imagino os Megazord do Ódio vazando óleo e usando o termo “politicamente correto” errado e fora de contexto. O primeiro ponto que eu quero levantar é sobre a questão ambiental. Já fiz um apanhado histórico em relação à série lá no texto de Orphan 55, e mantenho exatamente a mesma opinião aplicada a este aqui, de modo que não vou repetir a mesma coisa. Menos um assunto. Já o segundo ponto é sobre o que faz esse episódio ser problemático, e o que é mais triste: isso tem pouco a ver com o episódio em si.

Para não ser injusto, eu restringirei o meu escopo comparativo apenas à Nova Série, mas quero deixar claro que há um número gigantesco de exemplos na Série Clássica que dão suporte ao meu argumento. E para não perder tempo, vamos nos ater apenas a Doctor Who, certo? Vamos lá. É um padrão para a série, desde o seu revival em 2005, manter uma estrutura organizacional de temporadas que tenha mais ou menos essa dinâmica: “apresentação de problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com mínima ligação; episódio chocante ligado à problemática/tema da temporada; episódios de intervalo com alguma ou nenhuma ligação; reta final com diferentes níveis de relação diante da problemática da temporada; Finale“. Ou seja, todos nós já estamos acostumados com os fillers elegantes ou charmosos de Doctor Who, embora existam exceções (óbvio!), como os fartamente lembrados Love & Monsters e Fear Her, embora não sejam os únicos. Com isso já tiramos um “problema que não é um problema” de cena: episódio filler ou relativamente solto na temporada nunca foi uma novidade na série. TODAS as temporadas do show são organizadas com “pausas para respirar” e dar a oportunidade de colocar o Doutor num cenário diferente, sem real compromisso com a temática maior. Este não é o problema. O problema aqui é…

… a absurda falta de sensibilidade de Chris Chibnall (e sim, isso é culpa dele porque uma das coisas que ele mesmo disse que tem é a opinião final em relação à organização dos episódios na temporada) em fazer com que uma trama tão destoada da temática central seguisse a um episódio do nível de Fugitive of the Judoon. Eu, como espectador, imaginava uma sequência imediata, mas se não isso, pelo menos uma ligação direta e dramaticamente relevante em torno daquela ideia! O que tivemos com Praxeus, que é um bom episódio, foi uma quebra total após um turbilhão de informações, interferindo de fato na qualidade da temporada e também na forma como a gente vê o episódio. E você pode argumentar que a passagem para este foi 100% mais elegante que a de Spyfall – Part Two para Orphan 55, e eu concordo. Agora vamos pensar um pouco sobre a maneira como a ligação foi feita: o que o roteiro estava tentando nos sugerir? Que os sinais colhidos em 3 continentes diferentes teriam alguma coisa a ver com o drama dos Judoon ou um assunto correlato, certo? Pois cá estamos, falando inteiramente de outra coisa. Que organização tenebrosa de grade da temporada, meu Santo Omega!

Já o episódio em si foi uma experiência divertidíssima para mim. Eu gosto muito da estrutura frenética de abordagem de Chibnall, que aqui escreve o roteiro ao lado de Pete McTighe, mesmo autor de Kerblam!. O que é melhor nisso é que o tratamento dado aos companions, ao menos em termos de uso deles em cena, está em constante melhora, o que é surpreendente. Mas tem coisa que é difícil aceitar. A Doutora deixar Yas ir sozinha para um lugar que acabaram de fugir de aliens? Ainda com outra viajante ocasional da TARDIS? Não comprei isso de jeito nenhum, mas ao mesmo tempo, gostei de ver as duas jovens em ação. Da mesma forma, achei estúpido Ryan entrar na ala de quarentena do hospital, mas gostei da ação solo dele no Peru. E vale aqui acrescentar que foi MUITO legal ver a série trazer pessoas de diferentes nacionalidades e visitar diferentes países. Todavia, lá no fundo da minha cabeça, continua algo martelando desde o terceiro episódio: quando é que a gente vai visitar outro planeta? Por favor, que tenha pelo menos UM episódio ambientado de fato em outro lugar, outra Galáxia! A gente gosta da nossa casa, mas vamos sair da Terra um pouco?

A disposição do problema do vírus foi outro ponto positivo aqui. Como o episódio se passa em diferentes lugares, foi interessante ver os esforços conjuntos para trazer alguma resolução à causa e nesse aspecto eu só tenho uma grande decepção: criaram um mistério insano diante dos aliens e quando a gente viu a cara deles… eram iguais a nós. Nem pra ter uma orelhinha maior, um olho de uma cor diferente, umas tatuagens, uma roupa diferente! De todo modo, foi uma boa participação desses indivíduos, assim como a do casal com problemas conjugais que acabam ganhando bastante destaque. Os tropeços em relação a eles ficam mais por conta do personagem de Warren Brown, que tem uma personalidade mais esquiva, fria, desapegada. Com tanta gente no episódio para dar atenção, faltou tempo para expandir e mostrar uma mudança mais orgânica para ele.

Sem didatismo no final (aleluia!), a temática ambiental funcionou perfeitamente bem e manteve a cara ágil da temporada, embora essa agilidade esteja ligada ao deslocamento de personagens + edição, não necessariamente de entendimento geral do problema na narrativa, que de fato acaba demorando um pouco mais para se mostrar de todo (o que para mim não é um problema, só estou apontando fatos). Eu certamente gostaria mais se este episódio estivesse no começo da temporada, não depois de uma porrada de novidades que tivemos uma semana antes. Por que, Chibnall? Por que?

Doctor Who – 12X06: Praxeus (Reino Unido, 2 de fevereiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Pete McTighe
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Warren Brown, Matthew McNulty, Molly Harris, Joana Borja, Thapelo Maropefela, Gabriela Toloi, Soo Drouet, Tristan de Beer
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X05: Fugitive of the Judoon

judoon platoon plano crítico doctor who 12X05 Fugitive of the Judoon

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Inicialmente eu pensei em só a escrever a crítica deste episódio em conjunto com o próximo, para falar do arco todo. Depois eu me dei conta de que haveria muito para falar e que dividir a argumentação em dois blocos seria a melhor coisa a se fazer. Adotarei, porém, a minha política de paciência desesperada que vocês puderam ver em Spyfall – Part One. Isso quer dizer que: não farei o julgamento da “grande revelação” agora, porque o que temos é apenas isso: a revelação. E embora eu não acredite que tudo seja entregue no capítulo da próxima semana, sei que o bastante será dado para que a gente entenda quem diabos é a “Doutora” interpretada por Jo Martin. Só digo uma coisa: continua mentindo pra mim, BBChibnall! Continua! Agora vamos aos refrescos.

Eu adoro os Judoons. Criados por RTD lá em Smith and Jones, esses rinocerontes bípedes constantemente agindo como força policial mercenária, trabalhando cegamente segundo os protocolos e punindo de forma exagerada qualquer violação às leis que nem todos conhecem, eles sempre me pareceram o tipo de vilão perfeito para um roteiro sobre autoridade, justiça ou algo mais ou menos na linha de espionagem (olha só a temática de novo!), ação e fuga alçar voo suavemente. E em Fugitive of the Judoon isso de fato acontece.

Escrito por Chris Chibnall e Vinay Patel (mesmo autor de Demons of the Punjab), o episódio serve como a construção de mais uma ponte para algo que deve deslanchar com força agora na segunda metade da temporada, de um lado envolvendo a relação da Doutora com o Mestre, e de outro, o conceito da Criança Atemporal + o mistério sobre Ruth — coisas que imagino que irão se afunilar para o drama da destruição de Gallifrey. Nesse ambiente, temos um aproveitamento verdadeiramente interessante dos rinocerontes mercenários, longe da abordagem cômica que eles tiveram em Sarah Jane Adventures e ligados a um serviço que, para surpresa de ninguém, coloca Gallifrey no centro da busca. A surpresa, na verdade, foi o quê eles buscavam, intermediados pela gallifreyana Gat (Ritu Arya).

A história segue de maneira ágil e interessante, com uma intervenção providencial da Doutora para um caso atípico de caça dos Judoons na Terra, mas que acaba se desenrolando para algo ainda maior. O texto, nesse sentido, é quase cirúrgico. Eu ainda tenho problemas com a dinâmica de companions, mas para mim houve uma melhora de quase cem por cento em relação à 11ª Temporada, o que faz com que certos tropeços em relação a essa família sejam vistos com menos raiva (nota: a conversa final, por mais bela que tenha sido pensada, me pareceu forçada por parte dos companions, o único ponto do episódio que eu olho e falo: “isso foi ruim“). Desse modo, Doutora e gangue estão envolvidos nessa misteriosa busca que leva a Time Lady para um lado e os terráqueos para outro, ligando-os à primeira e estupenda surpresa do episódio: o Capitão Jack Harkness (John Barrowman). Quem diria que seria logo o hateado Chris Chibnall quem atenderia a um pedido antigo dos fãs da série nos últimos 10 anos, não é mesmo? E que prazer em ver esse fenomenal personagem de volta!

Mesmo em uma sequência rápida e editada em alternância, o roteiro sabe tratar muito bem o Capitão, brincando com sua pansexualidade, sua comicidade, um pouco de acidez e diálogos rápidos, verdadeiro deleite para o público e surpreendentemente bem escrito (se eu soubesse que ele iria aparecer de fato, estaria tremendo de nervoso, porque né…). E aí temos Ruth. O que eu tenho para falar dessa mulher é que: eu amei cada segundo dela na tela. Eu amei o figurino dela. Eu amei o amálgama de personalidades dela. Eu amei a interação dela com a Doutora (Jodie está ótima nesse episódio, por sinal). Eu amei o mistério, a impossibilidade, o uso do Chameleon Arch para a restituição de suas memórias e personalidade originais. Eu estou encantado. A única coisa que eu espero é que, o que quer que estejam aprontando nas sombras, que seja bem feito. Porque se for, não me importa o quê. Eu já comprei a premissa — embora ache que estão mentindo para nós.

***

UM PEDIDO MUITO IMPORTANTE PARA QUEM FOR COMENTAR

Se você for falar sobre teorias e rumores  no seu comentário, por tudo o que é mais sagrado nesse mundo, coloque-as em uma parágrafo separado do seu comentário geral, com o aviso de “TEORIAS ABAIXO!“. Eu estou fugindo de toda e qualquer teoria aprimorada e rumores diversos a respeito dos episódios, e preciso desse aviso para saber onde parar de ler os comentários que trouxerem essas ideias. Mas encorajo quem quiser escrever sobre, porque tem os que não se importam com isso e gostam de se aprofundar e discutir teorias. Sigam em frente! Só deixem marcado o momento onde você começará a falar sobre o assunto!

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SOBRE A POSSIBILIDADE DE RETCON

Esta é a óbvia primeira impressão que podemos ter do que foi apresentado nesse episódio, certo? Sobre esse assunto, já vou deixar aqui a minha opinião, porque aí não preciso voltar a ele no próximo episódio. Minha ideia sobre retcons é exatamente a mesma que tenho sobre sequências, pré-sequências, spin-offs e afins: paradoxalmente humana. O que isso quer dizer? Simples: em teoria, eu não gosto de nada disso. Eu preferia ter um produto inédito, original, no lugar de cada uma dessas coisas. Mas aí vem o paradoxo humano: mesmo não gostando da possibilidade (normalmente porque tenho um acúmulo de más experiências com isso), eu estou totalmente disposto a abraçá-las se:

  1. A premissa e apresentação para essas coisas forem interessantes e bem vendidas;
  2. A execução do projeto for de qualidade;
  3. A relação direta com o original não o descaracterize, não retire a sua essência.

E no fim você pode dizer: “ah, mas isso é tudo muito pessoal” e sim, é isso aí mesmo. É a minha visão sobre a questão e tenho certeza que você também tem a sua. Coisa de seres humanos, não é? Cabeças e corações diferentes, ideias e sentimentos diferentes. Assim, se de fato a coisa for o que se vendeu para nós aqui, minha ideia inicial é de medo e rejeição. Mas pela minha crítica acima vocês já viram que o ponto 1 da minha lista de três foi cumprido. Se não falharem nos outros dois, cá estará mais um paradoxo de consumo ganhando a luz.

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SOBRE O “EFEITO PRÓXIMO DOUTOR”

Alguns amigos me escreveram aludindo à possibilidade de isto ser igual ao que vimos em The Next Doctor, com David Morrissey vivendo “Um Doutor”. Está claro, porém, que não é a mesma coisa. Ainda no primeiro ato daquele Especial de Natal a gente já tinha sacado que não se tratava DE FATO de um outro Doutor. Aqui, a personagem de Jo Martin é completamente diferente. Ela tem uma TARDIS, ela é uma Time Lady e ela é DE FATO a mesma pessoa (outra encarnação) da 13ª! Isso também não é teoria, pois está literalmente dito no episódio! Desse modo, não estamos diante de um “Efeito Próximo Doutor”. O que quer que seja, é outra coisa. E a única alusão próxima disso que já tivemos na série, que eu consigo me lembrar, foi aquela cena ou interpretação (polêmica? Para mim, não) de batalha mental do 4º Doutor contra Morbius em The Brain of Morbius. Ai ai ai…

Doctor Who – 12X05: Fugitive of the Judoon (Reino Unido, 26 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor, Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Vinay Patel
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Jo Martin, John Barrowman, Neil Stuke, Ritu Arya, Paul Kasey, Richard Price, Nicholas Briggs, Michael Begley, Katie Luckins, Judith Street
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

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Depois de Orphan 55, creio que a maioria de nós estava com os dois pés atrás em relação ao que poderia aparecer na série e ora… vejam só que coisa interessante veio a seguir! Um episódio histórico (e daí já é possível ficar nervoso só com a ideia, porque não é fácil fazer arcos históricos funcionarem bem) que coloca na tela um dos grandes gênios da História: Nikola Tesla. Segundo a própria sinopse da BBC, o episódio se passa em 1903, e embora a Doutora diga “1900” para a vilã, eu entendi como se ela estivesse se referindo à década (os anos 1900) e não a este ano em específico. A rigor, porém, isso não importa muito.

Um dos impasses que eu pessoalmente tenho quando vejo representações de duas personas históricas “rivais” na ficção (Mozart X Salieri é um dos casos mais famosos) é o fato de os roteiristas — no presente caso, Nina Metivier — caírem na armadilha dramática de gerar conflito não diante da simplicidade factual entre os indivíduos, mas diante de declarada criação de guerra e ódio por um, em oposição ao louvor do outro. Evidente que eu sei que se trata de uma ficção e não de um documentário, e também sei que Thomas Edison era relativamente parecido com o que o texto mostra aqui. Mas ele não era nada estúpido, e muitas vezes isso é praticamente esfregado na nossa cara durante o episódio. Sim, Tesla era um homem muitíssimo mais sagaz, inteligente, melhor cientista/inventor e até melhor pessoa que Edison, mas ainda assim retratar Edison do jeito que majoritariamente retrataram nesse episódio me pareceu um exagero bobo, que poderia ser evitado.

Essa posição mais pessoal, no entanto, não me impediu de aproveitar a história. Em primeiro lugar, é maravilhoso ver uma interação tão orgânica entre personalidade histórica e Doutora, o que valida de imediato a trama. Sendo Tesla e Edison inventores, homens da ciência, a presença de ambos com o tipo de ameaça que temos aqui parece algo esperado, compreensível que tenha acontecido, ainda mais quando falamos desse tipo de vilã, a Rainha dos Skithra (Anjli Mohindra, a Rani de Sarah Jane Adventures), povo aparentemente primo dos Racnoss, que nesse caso está recolhendo sucata e artefatos de diversas raças pelo Universo. Usando uma nave venusiana, armas silurianas, unidade de dobra klendoviana, ressonador dulliriano e um orbe de Thassor (alterado e enviado especialmente para encontrar Tesla), a Rainha dos Skithra se mostra uma sobrevivente a todo custo e sua presença na Terra é ao mesmo tempo um genial e acidental evento.

Alguns espectadores devem ter se perguntado se a brincadeira com Tesla receber sinais de Marte tinha algum fundo de verdade ou era apenas um elo de ligação com a parte puramente sci-fi do episódio. Pois bem, a resposta é sim, o verdadeiro Tesla de fato tentava se comunicar com Marte e deixou escapar isso em 1899 para um pequeno grupo de espectadores de suas invenções, o que gerou as risadas e zombarias que o presente texto retrata muito bem. Num primeiro momento eu não queria aceitar a presença desses vilões na Terra, mas a ligação dos pontos é realmente muito bem feita: o Tesla de Doctor Who recebe uma mensagem de rádio vinda de Marte e a responde. Daí acha que não vai dar em nada, mas na verdade atrai os Skithra para a Terra, que a mando da Rainha começam a procurar pelo homem que respondeu o sinal. É um plot simples, mas bem fechadinho, assim como o plano geral da Doutora e de Tesla para vencer o inimigo da vez. Em aventuras desse porte, normalmente o ponto final força demais barra, mas aqui a iniciativa funciona. Não é perfeita (especialmente pela presença da Rainha no laboratório), mas funciona.

A atuação de Goran Visnjic como Nikola Tesla é incrível. Gosto da delicadeza que ele imprime ao personagem em diversos momentos, o jeito que ele tem de conter a raiva e principalmente a representação de seu pensamento científico e visão de mundo. Aquele diálogo que ele tem com a Doutra sobre inventar coisas, sobre ser diferente, sobre pensar coisas que os outros não entendem é tocante e ao mesmo tempo muitíssimo condizente com mentalidades científicas à frente de seu tempo. Um dos momentos mais legais do episódio, onde a Doutora, mais uma vez, tem seu espaço para brilhar e os companions, mesmo não tendo tanta coisa para fazer, pelo menos são colocados em um bom ritmo de afazeres fora da tela, de modo que não parece que eles foram apenas esquecidos no churrasco.

Dos setores técnico, a melhor coisa desse episódio é definitivamente a trilha sonora. Tanto o acompanhamento simples como os temas específicos compostos para personagens são belíssimos, e meu maior destaque vai para aquele puro e sensacional ataque da orquestra que a gente ouve quando a câmera vai aumentando o alcance da lente e mostra a nave como um todo, revelando o perigo que Yas e Tesla estão correndo. A música nesse momento dá medo e engrandece imensamente a cena, me lembrando a mesma dinâmica que ouvimos em Demons of the Punjab, só que dessa vez mais intensa, mais sombria e com muito mais destaque na edição de som.

O pêndulo da qualidade da série agora parece que está novamente no campo das coisas interessantes. Que as ondas da corrente alternada nos tragam episódios nesta mesma seara até o fim da temporada. #amem

Doctor Who – 12X034: Nikola Tesla’s Night of Terror (Reino Unido, 19 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor
Roteiro: Nina Metivier
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Robert Glenister, Goran Visnjic, Anjli Mohindra, Haley McGee, Paul Kasey, Robin Guiver, Erick Hayden, Russell Bentley, Brian Caspe, Shaun Mason
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X03: Orphan 55

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Escrito pelo mesmo autor de O Sapo Não Lava o Pé It Takes You AwayOrphan 55 é um episódio complicado e que já descobri que está sendo odiado pelos motivos mais estapafúrdios possíveis, alimentando aquela ideia de que quando a gente está disposto a odiar algo, a própria existência desse “algo” já é o bastante (eu tenho a minha lista curta de coisas assim, sei bem do que estou falando). Embora a jornada de Chris Chibnall à frente da série dê munição para esse tipo de pensamento, um pouco mais de sensatez e pé no chão poderia ajustar as reclamações para aquilo que o episódio realmente tem de problemático. E dentre essas coisas não estão os humanos mutantes e nem um trágico futuro possível do nosso planeta.

Ed Hime começa seu rap com um toque cômico e ainda assim solene, pelo humor afetado da Time Lady após a ‘revelação’ do Mestre em Spyfall – Part Two. A equipe está faxinando a TARDIS após a nojeira causada por uma espécie em época de acasalamento para quem eles, pelo visto, deram carona. Os diálogos são rápidos, Graham aparece todo pimpão com os cards promocionais que acumulou da máquina de café da nave e então a Doutora e seus companheiros são teletransportados para o Tranquility Spa, no planeta Orphan 55. A apresentação do problema/divertimento é bem feita, a direção de Lee Haven Jones é inacreditavelmente caprichada (algo que me faria sentir imensa raiva dele na segunda metade do episódio, simplesmente por passar de uma ótima direção para o piloto automático) e a interação do time da TARDIS com esse lugar de férias que logo se torna um problema também merece grande destaque (pedaços de The Leisure Hive e The Mysterious Planet me vieram à mente).

E aí chegamos a uma das estranhas reclamações: como isso se encaixa na linha do tempo da série? A resposta é: se encaixando! A Doutora deixa bem claro que o que se vê aqui é um futuro possível da Terra, com humanos mutantes. E convenhamos, reclamar disso em Doctor Who é estupidez pura e simples, porque já vimos humanos mutantes num futuro possível da Terra poluída em The Curse of Fenric; já vimos uma versão paralela da Terra ser devastada na obra-prima Inferno, e até na Nova Série já vimos uma versão modificada da Terra e dos humanos em Utopia, ou seja, hatear a mutação do Homo Sapiens e a mudança do planeta ainda tendo a indicação de que este é apenas um dos futuros possíveis me parece choro de bebezão que quer colocar problema onde não existe problema.

O mesmo se dá com a temática do episódio, que ao mesmo tempo segue a base de muitas histórias isoladas da série (com premissa + início ótimos) e traz em seu bojo uma mensagem de alerta para impactos negativos da humanidade sobre o meio ambiente, assunto que nós vemos aparecer sob os mais diversos patamares no show, desde The Moonbase, na Era do 2º Doutor, passando por The Green Death (3º Doutor) até citações leves ou trabalhos diretos com essa temática de desequilíbrio da flora/fauna do planeta que aparecem na Nova Série em diversos momentos, como em Planet of the OodThe Waters of Mars, The Hungry Earth/Cold BloodIn the Forest of the Night e já na fase atual do programa, em Arachnids in the UK. A mensagem em relação ao meio ambiente, portanto, nunca foi ausente na série e nunca foi um problema para a série. O que ocorre — e este é o meu maior impasse com o presente episódio — é a questionável abordagem do tema. E não por ser ESTE tema. Qualquer assunto importante que é mal entregue, mal abordado ou jogado ao didatismo acaba sendo um problema. Aqui, não estamos lamentando o conteúdo, mas a forma.

O trabalho que o roteiro faz brincando com a temática de base sob ataque num planeta que ainda não sabemos, mas é o nosso (referenciado muito mais De Volta ao Planeta dos Macacos do que o glorioso clássico dirigido por Franklin J. Schaffner) é inicialmente feito de modo aplaudível. A forma como Haven Jones filma o ataque do Dreg é absolutamente assustador, com cortes rápidos e se valendo de uma bela fotografia, variando cores de cena para cena, mas com a menor incidência possível de luz sobre o monstro, um tipo de mistério que o deixa ainda mais assustador, perdendo-se depois quando vemos os corpos pálidos, ridículos e um pouco menos assustadores em seu próprio habitat. À medida que o texto amplia o seu alcance e insere novos personagens, aí as coisas começam a cair de qualidade. O mecânico e o filho de cabelos verdes, por exemplo. Eu trocaria ambos por um tratamento inteligente do roteiro colocando a Doutora descobrindo como sair daquela situação. E o que dizer do irritante e inútil casal de velhinhos? É o tipo de camada de um roteiro que a gente olha e tenta entender o que deu na cabeça do escritor para colocar isso no episódio. O tempo gasto com essa bobagem poderia facilmente ser utilizado para desenvolver uma relação dupla realmente interessante e que merecia mais tempo de dela: Bella (Gia Lodge-O’Meally) & Ryan e depois Bella & Kane (Laura Fraser).

Após a ágil e realmente boa luta contra os Dregs e o teletransporte da equipe para a TARDIS, chegamos ao maior impasse do episódio para mim, aquele discurso final da Doutora. A atuação de Jodie Whittaker é muito boa, a mensagem é absolutamente necessária e interessante, mas minha gente, o que foi aquilo pelo amor de Deus? O diálogo da Doutora com a gang de repente se torna uma pregação que claramente se dirige ao público, num longo fôlego em torno de um tema que o próprio roteiro já tinha deixado extremamente claro. Eu não consigo entender o por que o autor achou necessário bater na mesma tecla, agora de maneira mais formal e com ar de pregação para o espectador. A pior e mais vergonhosa forma de se entregar uma mensagem, especialmente quando é uma repetição. O discurso até o futuro possível da Terra poderia pegar qualquer outro ramo possível envolvendo o grupo, com algum tipo de demonstração prática, mas o final mastigado desse episódio foi um bom banho de água fria em todo o restante. Uma pena. Porque o cerne do capítulo me divertiu bastante.

Doctor Who – 12X03: Orphan 55 (Reino Unido, 12 de janeiro de 2020)
Direção: Lee Haven Jones
Roteiro: Ed Hime
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Laura Fraser, Gia Lodge-O’Meally, James Buckley, Julia Foster, Amy Booth-Steel, Will Austin, Colin Farrell, Lewin Lloyd, Spencer Wilding
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X02: Spyfall – Part Two

Spyfall - Part Two (2020) plano critico doctor who episódios

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Eu ainda não me decidi em relação à timeline do Mestre de Sacha Dhawan. Como isso ainda não foi de fato dito nesta temporada, a possibilidade de ele estar em qualquer momento da longa caminhada de regenerações do Mestre é grande, mas tudo indica que trata-se mesmo de uma versão pós-Missy. Eu vi citarem o conto Girl Power!, da antologia As Crônicas de Missy como sendo uma “resposta definitiva” para isso, mas é bem assim não. Na verdade o conto se passa naquele período em que a Time Lady ficou no cofre guardado pelo Doutor e Nardole, e há uma única parte em que ela fala sobre a sua vida. A indicação aqui é matemática: tudo  o que ela diz (na verdade escreve) nessa citação é uma de suas encarnações, e o que temos é isso:

Born, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Died, Took over some bloke’s body, Died, Died, Died, Became a human, Stopped being a human, Died, Died, Became a woman, Ruled!

Viram o finalzinho? Depois de se tornar uma mulher? Pois bem, considerando simplesmente contexto dessa frase (e eu posso dizer que não há mais nada além disso, pois li o conto poucos minutos antes de escrever esta crítica) não faz sentido considerar o “ruled” apenas como um verbo que indica orgulho da personagem por ter se tornado uma mulher. Ela está falando da história de vida dela, então essa é a situação: uma encarnação depois. Agora… trata-se de uma resposta definitiva? Certamente que não. Porque o Mestre de Dhawan continua não sendo necessariamente o desta última citação (e o curioso é que Missy já sabia que haveria uma outra)… E ainda tem o fato de que na primeira parte de Spyfall o Mestre diz claramente que roubou o corpo de O no primeiro dia de trabalho do pobre homem, então mesmo se Missy se regenerou, ainda não há uma real certeza de que esta versão que agora conhecemos é a primeira regeneração após o que vimos em The Doctor Falls. É por isso que eu ainda não me decidi em relação à timeline do Mestre de Sacha Dhawan.

Mas eu certamente me decidi em relação ao ator vivendo o personagem. Pelos motivos apontados acima eu não vou teorizar sobre a origem do comportamento dele e nem vou entrar no mérito de que ele “desfaz o arco de redenção de Missy“, porque aqui todos nós assistimos Doctor Who e certamente entendemos como funciona a regeneração, certo? Ótimo, então vamos adiante. Eu não pude deixar de me deliciar com o que vi do personagem até aqui. Extremamente perigoso (no sentido real mesmo, daquele tipo de querer jogar sério, para ganhar), com um imenso incremento de sua persona psicopata, que tem real prazer em matar, esse Mestre vem para contrastar imensamente com a personalidade dessa Doutora, que é uma espécie de diplomata aparentemente ingênua, reservada e que sabe quando colocar as garras de fora (mas não por muito tempo). O personagem parece que veio mudar a Doutora, marcar o surgimento de uma outra camada de sua evolução como personagem através do puro horror, da pura maldade.

Cheio de maneirismos e forte afetação, o Mestre de Dhawan é um maníaco com ares infantis e pelo que vimos até o momento, uma das mais infames versões do personagem, cuja ação não está em jogos e subterfúgios no meio do caminho. Ele é um Mestre de prazeres rápidos. A paciência, ele já deixou claro, só existe quando seu propósito é a vingança, deixando claro que foi um longo processo até que descobrisse “a verdade” sobre a origem dos Time Lords e os anos em que passou até reencontrar a 13ª Doutora e continuar com o seu plano de invasão. Um Mestre Espião. Que baita personagem!

Neste Spyfall – Part Two, temos uma expansão interessantíssima para o Mestre, sua reação a momentos de crise, interrupção de planos e, claro, a revelação do que estava por trás da invasão espiã ao planeta Terra. Diferente do que se havia teorizado, a raça em cena aqui é a Kasaavin, por enquanto apenas um vilão que começou de forma interessante (conseguiu ultrapassar as paredes da TARDIS!), disse que vinha de além do Universo e que queria conquistar este Universo, o que dá uma boa noção de dimensão do poder dessa espécie. Todavia, eles se encerram aqui de forma secundária, até porque o grande vilão do arco é o Mestre, sendo os Kasaavin apenas uma ponte, uma desculpa que levaria a Doutora ao seu amigo-inimigo mais antigo. E talvez justamente por conta desse escanteamento é que o plano maligno, a real costura para as ações do Mestre aqui, se torna confuso.

Eu consigo ver claramente o motivo da escolha de Chris Chibnall para este tipo de premissa, afinal, reapresentar um personagem desse porte à série clama por algo épico, viagens no tempo, diversos eventos em movimento. Mas infelizmente isso não significa que o resultado final será livre de pequenas estranhezas, como de fato não o é. Os muitos nós no plano geral meio que desviam a nossa atenção e faz com que a gente se volte para o que realmente importa, ou seja, para o Mestre. E sim, esta é a pura verdade — o Mestre é o mais importante — mas um artifício como o que temos aqui poderia ser conseguido de maneira mais simples e o foco “naquilo que importa” permaneceria o mesmo. De todo modo, tudo valeu pela presença de Ada Lovelace no episódio, além daquela maravilhosa sequência em Paris, com referência a Logopolis e tudo.

Apesar de ser muito corrida, a resolução para o caso do avião caindo foi satisfatória, com uma ação direta da Doutora pra salvar seus companheiros, além de uma interessante ação feita por eles, o que é sempre bom de se ver: os companions trabalhando diretamente em um caso. Essa ação dos espiões amadores se segue ainda na fuga do trio das mãos de Daniel Barton (Lenny Henry está mesmo maravilhoso no papel, realizando aqui, segundo ele, um sonho que era o de trabalhar em Doctor Who), completamente cego pela busca de poder e com um discurso extremamente verdadeiro e incômodo sobre a tecnologia, o uso de dados pessoais por empresas, como isso é absolutamente ruim para todos nós e como a maioria de nós simplesmente não liga, porque clicar “eu concordo” já faz parte do nosso dia a dia.

O roteiro nos deu a cereja do bolo trazendo um tema da 11ª Temporada (The Timeless Child), a tal “verdade” que os Time Lords sempre esconderam, algo que envolve a sua própria origem como espécie. A citação à esta Criança Atemporal apareceu pela primeira vez em The Ghost Monument e é algo que terminou por tirar todos os parafusos restantes do novo Mestre, que ao descobrir do que se trata, destruiu Gallifrey. Talvez eu esteja melodramático demais, mas confesso que queria um final de episódio apenas com a Doutora demostrando algo a mais, falando, remoendo o que ela tinha acabado de ver. Não digo que foi um final ruim, pelo contrário, foi condizente com a personagem e tudo, mas isso é algo grande demais. Depois de tudo o que fez para salvar Gallifrey, lá está a Citadela e seus arredores… em chamas.

Agora fica a curiosidade sobre o papel dos Pais Fundadores de Gallifrey em tudo isso. Existe algum debate sobre quem eram ou quantos eram, mas a maioria das fontes apontam para um triunvirato, formado por Rassilon, Omega e The Other, este último, alguém sobre o qual temos pouquíssima informação, mesmo no Universo expandido da série. Coisas muito boas podem aparecer por aqui. Desde a 10ª Temporada eu não me sinto tão empolgado com a série como estou agora.

Com uma direção ágil e um roteiro que, a despeito de pequenos tropeços, consegue manter um alto nível; com ótimas referências à Série Clássica (eu adorei o contato telepático da Doutora com o Mestre, como víramos há muito tempo em The Three Doctors e The Five Doctors, por exemplo), bela e muitíssimo bem utilizada trilha sonora, boas interpretações e, acima de tudo, um verdadeiro (e chocante) plot para a temporada, o duo Spyfall veio com tudo para mostrar que Chris Chibnall pode se redimir em Doctor Who. O que precisamos agora é de que isso permaneça nos capítulos seguintes.

Doctor Who – 12X02: Spyfall – Part Two (Reino Unido, 5 de janeiro de 2020)
Direção: Lee Haven Jones
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Lenny Henry, Tom Ashley, Sylvie Briggs, Mark Dexter, Sacha Dhawan, Ravin J. Ganatra, Shobna Gulati, Kenneth Jay, Aurora Marion, Bhavnisha Parmar, Andrew Pipe
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X01: Spyfall – Part One

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Depois de uma 11ª Temporada que dividiu o público da série e afastou muita gente (particularmente achei uma temporada muito boa, mas ainda assim cheia de tropeços e estranhezas por parte do novo showrunner), havia um mescla de medo e expectativa pelo que Chris Chibnall poderia nos trazer nesta nova temporada. Claro que entre a saga anterior e esta tivemos o Especial de Ano Novo de 2019, Resolution, que parece ter unido um pouco mais os whovians, mas ainda assim, nada que ajustasse a maioria de opiniões positivas sobre os rumos do show. De lá para cá eu acompanhei muito por cima algumas coisas em relação à série, vi algumas fotos de bastidores, mas só. Então 2020 chegou e trouxe também a nova temporada, com um episódio que vai dar o que falar.

Um elemento muito positivo aqui é o fato de estarmos diante de um duplo, o que dá a oportunidade de o roteiro trabalhar em algo um pouco mais aprimorado e, dependendo do rumo do episódio, segurar a atenção do público para o que vem adiante, algo de fato conseguido com sensacional cliffhanger que temos aqui. Depois, há o tema e a maneira como o roteirista o explorou. Histórias de espionagem possuem um ritmo próprio e todas são centradas em algo conhecido da maioria das pessoas (a intensidade na ação e as surpresas nas revelações), mas cada uma procura adequar os clichês do gênero ao tipo de espião que está envolvido. Notem que isso não é assim tão comum em outros tipos de narrativa, como o suspense, por exemplo, havendo uma integração muito maior entre os detetives dos mais distintos projetos possíveis (especialmente no audiovisual). Já na espionagem, o caminho é diferente.

Ao trazer isso para Doctor Who, Chibnall tinha, digamos, um caminho específico para seguir. Nós já tivemos todo um direcionamento do show para este gênero durante a Série Clássica, na encarnação do 3º Doutor (inclusive o Tissue Compression Eliminator que aparece aqui surgiu nesse período, no arco Terror of the Autons), onde a UNIT exercia um papel primordial nas aventuras, dando um ar meio James Bond–sci-fi ao programa. Uma herdeira distante dessa abordagem foi Torchwood (que assim como a UNIT também é citada por C, personagem de Stephen Fry) e nesse espírito de referências e abordagens com um grande peso dentro da própria série é que o showrunner resolveu escrever um texto no melhor estilo “espião por acaso” + “espião espia espião“, que é um tipo de narrativa que começa de forma cômica, com surpresas para os protagonistas — colocados no meio da espionagem por motivos alheios a eles — mas pouco a pouco começa a trazer as já esperadas relações com os clássicos do gênero e a assumir um ar sério. Como é comum nesse tipo de abordagem, a ação está em foco desde o começo, mas a motivação ou maiores explicações demoram mais que o normal para virem à tona.

Em Spyfall – Part One, Chris Chibnall realiza um ótimo trabalho de construção geral do drama (o mistério dos vilões, as equipes de investigação — uma bem preparada outra amadora), com a intriga pouco a pouco se tornando um espetáculo desafiador e realmente perigoso, diante do qual a Doutora está espantosamente sem saber para onde ir, porque é algo novo para ela… tudo isso tem peso e é bem introduzido no episódio, que é embalado por uma ótima trilha sonora. Em suma, um bom esqueleto dramático (embora eu reconheça que esse tipo de estrutura do gênero não agrada a todo mundo). Mas ainda vamos encontrar aqui diálogos bem incômodos vindos dos companions, muitos deles fortemente expositivos, o que irrita bastante. Para mim, contudo, esses maus momentos foram facilmente suplantados por aquilo que o episódio trouxe de bom. Consegui embarquei na ideia desde a muitíssimo bem dirigida cena do carro assassino e daí para frente foi surpresa atrás de surpresa.

Jodie Whittaker está bem mais solta, mais natural, mais ativa nesse episódio, tendo bons momentos para brilhar (mas merecia mais!). E foi bom ver Ryan e Yas com verdadeiros e inteligentes diálogos na maior parte do tempo. Já Grant fica na retaguarda (estão vendo? Manter três companions é complicado!), recebendo até um cartão amarelo do próprio O, que aponta o papel de repetição/reafirmação de Grant para as coisas que a Doutora ou outro personagem diz. É um momento engraçado, mostrando que Chibnall realmente sabe o tipo de problema que tem em mãos, mas ainda assim não consegue apagar o pouco de incômodo que esse escanteio nos causa. E aí temos o homem do momento, Sacha Dhawan (que fez o papel do diretor Waris Hussein em An Adventure in Space and Time), a nova encarnação do Mestre. Eu vou deixar para explorar muito mais essa nova versão do personagem no episódio que encerra esse arco, por motivos de coerência mesmo. Mas uma coisa preciso dizer: meu queixo caiu quando ele disse quem era. Foi uma absoluta surpresa para mim. Amei o que vi até aqui, mas me reservarei de maiores comentários oficiais agora para fazê-los de maneira mais ampla e melhor amparada na próxima semana.

Spyfall – Part One foi um baita começo de temporada, uma fantástica surpresa para os fãs — tomara que implique em coisas bem legais daqui para frente — e possivelmente uma indicação de mudança no trabalho do showrunner neste ano. Vamos esperar para ver.

Doctor Who – 12X01: Spyfall – Part One (Reino Unido, 1º de janeiro de 2020)
Direção: Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Stephen Fry, Lenny Henry, Andrew Bone, Sacharissa Claxton, Melissa De Vries, William Ely, Ravin J. Ganatra, Shobna Gulati, Asif Khan, Brian Law, Dominique Maher
Duração: 45 min.