Toby Kebbell

Crítica | Bloodshot (2020)

Depois de emprestar sua voz para Groot, o alienígena arbóreo do Universo Cinematográfico Marvel, Vin Diesel volta ao mundo dos super-heróis dos quadrinhos para encarnar Raymond Garrison, codinome Bloodshot, personagem criado em 1992 por Kevin VanHook, Bob Layton e Don Perlin e publicado pela Valiant Comics, em um filme que prometia ser o começo de mais um universo compartilhado. Mas, juntamente com Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, o pretenso blockbuster ficou aquém das expectativas de arrecadação muito em razão da pandemia da Covid-19, acarretando seu lançamento bem adiantado em vídeo sob demanda.

Em muitos aspectos, o personagem, como retratado no filme, assemelha-se a Wolverine, já que ambos compartilham de um “fator de cura” que os torna quase imortais e ambos têm, eufemisticamente, problemas de memória. Claro que, diferente do Carcaju canadense, Bloodshot não é mutante, mas sim o resultado da injeção de nano-robôs em seu sangue que lhe dá a capacidade de literalmente reconstruir-se integralmente, além da conveniente superforça e a mais conveniente ainda conexão automática com a internet e, dali, a praticamente todos os computadores do mundo.

Essas características, claro, são perfeitas para um show ininterrupto de CGI que Bloodshot se esmera em entregar, ainda que muitas vezes o exagero extremo das sequências de ação acabe revelando alguns problemas bastante visíveis em termos de movimentação e renderização de personagens. Mas não é nada que outras obras carregadas de computação gráfica e pancadaria super-heroística não sofram por aí, pelo que é perfeitamente possível chegar ao final com uma sensação razoável de que até que não foi perda completa de tempo assistir ao longa.

E a principal razão para ele ser aproveitável é a forma inteligente como ele perverte as expectativas sobre o que é um filme de origem de super-heróis. O que parece ser um prelúdio burocrático do soldado fortão que tem sua esposa brutalmente assassinada, catalisando sua transformação, acaba sendo utilizado dentro do roteiro como o catalisador de uma reviravolta narrativa que, diferente das demais, acontece ainda no primeiro terço, tornando tudo bem mais interessante, em retrospecto, do que algo meramente no automático do tipo que já vimos mil vezes por todos os cantos.

Mas calma. Não estou dizendo, com isso, que Bloodshot é o supra-sumo do subgênero, pois ele está muito, mas muito longe disso. Há muito clichê e o filme todo é uma amálgama de um sem-número de outras obras, o que por si só não é um problema muito sério quando bem utilizado. Acontece que o filme todo é quase que uma pancadaria única, com apenas uma delas – a que acontece mais para o começo, em um túnel, com fotografia vermelha – realmente destacando-se. Com isso, não existe nada nem próximo a desenvolvimento de personagem e a inexpressividade de Vin Diesel – nem carismático o sujeito é – não ajuda na conexão com seu indestrutível Wolverine sob efeito de esteroides. Por outro lado, seria leviano de minha parte simplesmente ignorar o “começo que não é começo” que citei mais acima como um diferencial que, querendo ou não, prende a atenção tempo o suficiente para que um engajamento mínimo ocorra, nem que seja para ver o quanto de despedaçamento Bloodshot aguenta.

Dave Wilson, na direção de seu primeiro longa, sabe que não tem gabarito para a tarefa e limita-se a fazer o que seu currículo diz que ele sabe fazer: computação gráfica. Com uma carreira quase que integralmente composta de trabalhos nos mais diversos games, ele faz de seu filme um game de 109 minutos que tem a vantagem de não deixar o espectador pensar. Essa é a estratégia, aliás, de praticamente todos os filmes com Vin Diesel, especialmente a também imortal franquia Velozes e Furiosos, pelo que não faria sentido mudar logo agora. E, quando se exige que o espectador pense, o que sobra é o visual e, se não formos muito exigentes, o que o cineasta entrega é digno, ainda que nunca verdadeiramente sensacional, fora de série ou inovador.

Alguém pode querer saber do restante do elenco, mas confesso que Eiza González, Sam Heughan e Alex Hernandez como os outros soldados “aumentados” do grupo de Bloodshot são tão inexpressivos, com seus personagens completamente fungíveis não sendo mais do que a raspa do tacho narrativo, que não há muito o que dizer, na verdade. Talvez, apenas, que a existência deles fosse completamente desnecessária no filme. Somente Guy Pearce tem alguma capacidade dramática ali, mas seu Dr. Emil Harting, cientista com um braço de Exterminador do Futuro responsável pela ressurreição do protagonista, é um recorte em cartolina desse tipo de personagem que chega a dar vontade de bocejar quando ele aparece em tela.

Como começo de um possível Universo Cinematográfico Valiant, Bloodshot desaponta por não conseguir realizar seu potencial. Como filme de ação super-heroística descerebrada carregado de CGI, ele passa raspando unicamente porque seu começo é razoavelmente diferente do que se pode esperar.

Bloodshot (Idem, EUA/China – 2020)
Direção: Dave Wilson
Roteiro: Jeff Wadlow, Eric Heisserer (baseado em criação de Kevin VanHook, Bob Layton e Don Perlin)
Elenco: Vin Diesel, Eiza González, Sam Heughan, Toby Kebbell, Talulah Riley, Lamorne Morris, Guy Pearce, Siddharth Dhananjay, Tyrel Meyer, Alex Hernandez
Duração: 109 min.

Crítica | Servant – 1X07 a 1X10: Haggis / Boba / Jericho / Baloon

Temporada como um todo
(não é uma média)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Como tirei férias durante os episódios 1X07 a 1X09 de Servant, deixei a temporada chegar ao seu final para trazer as críticas do que faltava. Vamos lá!

1X07
Haggis

Rain expandiu a mitologia da série ao apresentar o tio de Leanne e apontar para a existência de uma tia, em Haggis, é a vez do lado de Dorothy ganhar uma adição: Natalie, amiga e kinesióloga da perturbada mãe de Jericho que foi responsável pela terapia com o “bebê boneco realista”. Vivida por Jerrika Hinton, a personagem serve fundamentalmente de veículo para o desenvolvimento da ideia que a morte do bebê, nunca antes explicada, não se deu por causas naturais ou algo mais, digamos, mundano, como uma doença.

A presença de Natalie na casa dos Turners não é construída de maneira orgânica, porém, já que a personagem simplesmente está lá cuidando de Dorothy que, se sentindo segura, a dispensa somente para convidá-la para um jantar, gerando desespero em Sean em razão da criança que foi ressuscitada. Considerando a duração padrão dos episódios da série, há uma aceleração de passo muito grande aqui, completamente desproporcional em relação à cadência narrativa anterior.

Há bons momentos de suspense e um particularmente eficiente jump scare quando Leanne derruba Natalie, mas a velocidade vertiginosa dos acontecimentos e o crescente lado sobrenatural que inclui agora rachaduras no chão do porão e um cachorro ressuscitado não exatamente beneficiam a temporada como um todo. Claro que a claustrofobia da mansão dos Turners é muito bem mantida pela direção de Alexis Ostrander e a fotografia escurecida, além das revelações que nunca são completas e abertas, criam um bom grau de ansiedade que mantém alto o interesse pelo desenrolar dessa macabra história.

1X08
Boba

Boba é praticamente o contrário narrativo de Haggis, o que acaba criando um bom equilíbrio na história. Se, no episódio anterior, há muito acontecendo, aqui não há quase nada, ainda que mais uma vez a dose de suspense seja não só alta, como eficiente, tendo Julian como o principal foco quando ele fica sozinho na casa dos Turners para cuidar de Jericho.

O sobrenatural comanda a cadência, com a descoberta, por Julian, de que o bebê voltou a ser um boneco, algo que ele se recusa a acreditar e acha que faz parte de um plano de Leanne e sua família para extorquir dinheiro de Sean e Dorothy. A rotina de completa incredulidade sobre o que pode estar acontecendo, com a constante busca de explicações racionais, é cansativa, mas, em última análise, crível, bastando que o leitor ponha-se no lugar de Julian – ou Sean – diante de uma situação tão estranha como a volta à vida de Jericho.

E a diretora Lisa Brühlmann usa muito bem essa incredulidade e a inegável aflição que o boneco realista automaticamente causa para construir cenas sufocantes que culminam com a em que Julian ameaça jogar o bebê boneco no vão da escada. No entanto, é problemático notar que a temporada parece fiar-se demais em momentos chocantes para fazer sua história avançar, o que retira muito de sua fluidez, substituindo-o por solavancos repentinos. Não é um problema sério diante do tamanho dos episódios, mas é algo que detrai da experiência por subtrair a naturalidade da progressão narrativa.

1X09
Jericho

M. Night Shyamalan volta à direção de um episódio da temporada depois do inaugural e sua presença é facilmente sentida na qualidade do suspense que ele entrega. Sim, boa parte do mérito vai para o roteiro do showrunner Tony Basgallop, que lida com duas linhas temporais, uma no presente e outra que volta ao passado para finalmente revelar como foi a morte de Jericho.

No lugar de transições óbvias, Shyamalan opta pela extrema sutileza e elegância, focando em Dorothy no presente abalada pelos tormentos psicológicos infligidos por uma vingativa Leanne, agora que sabe o que aconteceu, e uma Dorothy sozinha e exausta que acaba esquecendo Jericho no carro durante uma canícula na cidade, levando-o à morte por hipertermia. O horror em si da situação é suficiente para tornar esse o episódio mais difícil de se assistir da temporada, mas o diretor faz questão de amplificar ainda mais a repugnância da situação ao trabalhar tudo muito lentamente, mas sem perder de vista o inevitável.

A cadência imposta pela direção é absolutamente enervante e devastadora em tudo o que cirurgicamente não mostra (jamais vemos o bebê morrendo – seria fácil demais) e na forma como a morte, a podridão e, no fim, a loucura acaba invadindo a mansão-sobrado em que a história se passa enquanto Sean está fora como juiz de um reality show culinário tipo Master Chef em que ele se mostra particularmente desagradável. A conciliação da desgraça que se abate nos Turners com o que Leanne significa para eles ainda permanece como uma névoa impenetrável só explicável pelo mergulho completo no sobrenatural, mas Shyamalan não está preocupado com isso nesse capítulo, procurando, muito ao contrário, torturar o espectador com seu passo lento e inexorável na pior direção possível e que abre um maravilhoso espaço para a melhor atuação de Lauren Ambrose na temporada.

1X10
Baloon

Gostaria de poder dizer que Servant encerra sua primeira temporada em seu ponto mais alto, mas terei que me contentar em afirmar que, apesar de não ser o melhor episódio, Baloon não reverte para a qualidade mediana dos episódios 1X02, 1X03 e 1X04. Nada como olhar para o lado positivo das coisas, não é mesmo?

O ponto é que, depois do horror visceral de Jericho, somos brindados com um episódio narrativamente tumultuado que se passa durante a festa pós-batizado do bebê dos Turners, o que é, claro, o momento exato para o tio de Leanne voltar trazendo a tira-colo a ainda mais sinistra tia May que, como é revelado mais para o final quando a memória de Dorothy é sacudida, foi líder de um culto religioso fanático. Desnecessário dizer, por certo, que o foco fica quase que inteiramente no lado sobrenatural da história e, justamente por ficar aí e por Servant já ter sido renovada para uma 2ª temporada, é que nada de relevante é realmente revelado.

Há uma confirmação – em tese – de que realmente Leanne tem poderes para reviver pessoas e animais e que ela é particularmente importante para o tal culto, mas isso não é exatamente uma surpresa, não é mesmo? Há momentos tensos com o tio George e Sean no porão e Leanne, Tia May e Dorothy no quarto de Jericho, mas tudo não passa da típica enrolação que um episódio final que precisa manter segredo sobre o mistério central acaba sendo obrigado a fazer. Na verdade, pensando em retrospecto, Baloon até poderia funcionar como um completamente críptico encerramento da série como um todo, com a perspectiva de uma outra temporada sendo até uma potencial pedra no sapato que exigirá um bom plano de médio prazo de Basgallop. Tomara que ele o tenha!

Servant – 1X07 a 1X10: Haggis / Boba / Jericho / Baloon (EUA – 27 de dezembro de 2019, 03, 10 e 17 de janeiro de 2020)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Alexis Ostrander, Lisa Brühlmann, M. Night Shyamalan, John Dahl
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Jerrika Hinton, Boris McGiver
Duração: 30 min. por episódio

Crítica | Servant – 1X06: Rain

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Você vive em uma casa com uma babá já bastante assustadora, cuja chegada catalisou a ressurreição (ou troca, sei lá) de seu bebê morto e, um belo dia, em viagem a negócios, você recebe uma ligação de sua esposa dizendo que o tio ainda mais assustador da babá, com aparência de mendigo, todo sujo e com roupa puída, apareceu do nada. Se você não sofrer um ataque cardíaco fulminante lá do outro lado da linha, então você, provavelmente, é imortal.

Pelo visto, colocar bizarrice em cima de bizarrice é o mote de Servant e devo confessar que, contra todas as probabilidades e mesmo ainda distante de qualquer tipo de resolução ou pelo menos fechamento de arco, a série vem firmando suas bases de horror psicológico se o espectador souber aceitar as reações razoavelmente brandas para tudo que a família Turner se depara, especialmente a avoada Dorothy. É uma escolha narrativa que pode sem dúvida frustrar, mas que funciona dentro daquela estranheza que incomoda que muitos filmes decidem privilegiar no lugar de sustos baratos e monstros de CGI.

A chegada do “tio George” (Boris McGiver muito bem como religioso devoto/mendigo/sujeito de arrepiar a raiz do cabelo) é muito bem trabalhada porque não há filtros morais ou educacionais ou de qualquer outra natureza. Com Sean convenientemente longe (não há coincidências, tenho certeza), ele simplesmente entra no casarão depois que sua “sobrinha” abre as portas para o homem encharcado de figurino e sujeira nas mãos como se ele tivesse acabado de sair de seu túmulo querendo ver o bebê. Para que, não sabemos, mas fiquei com aquela pulga atrás da orelha de que talvez a dupla sinistra não seja má, mas sim, muito ao contrário, como anjos da guarda. Mas especulações não cabem aqui, pois ainda há muito o que acontecer.

A chegada de Dorothy, que recebe o estranho com efusividade – e algo como meio segundo de estranhamento – e, mais ainda, a de Julian esbaforido e desesperado, a pedido do também desesperado Shane, trazem aquela pegada de levez contrastante que só acrescenta à toda a atmosfera para lá de surreal, especialmente durante as refeições com direito a mãos (sujas) dadas e uma reza ininteligível por parte de George. A sensação de inevitabilidade é muito boa, por Alexis Ostrander, na direção, retorna ao estilo que M. Night Shyamalan imprimiu no primeiro episódio.

A claustrofobia é a chave e as câmeras trabalhando close-ups nos rostos e mãos dos personagens, além de alguns plongées e contra-plongées com pouca iluminação fecham o casarão ao redor de todos ali, transferindo essa impressão também para o espectador. Além disso, o roteiro que segue na base do conta-gotas causa ansiedade. Pouco sabemos de Leanne e do tio George e muito menos ainda da tia May que George menciona de forma ameaçadora e isso mesmo depois que a investigação de Julian e Matthew revelou um passado tenebroso para toda essa combinação.

Há um véu narrativo ainda bem espesso que não é levantado de forma alguma. Isso atrai na mesma medida em que afasta e, se Tony Basgallop tem realmente um plano de médio prazo (há pelo menos mais uma temporada já aprovada pela Apple TV+) bem estabelecido para a série, será necessário, pelo menos nessa estirada final de quatro episódios, que ele pare de acumular mistérios e ofereça algumas respostas que, claro, não precisam ser objetivas e muito menos científicas, já que o caminho para o sobrenatural parece ser mesmo inevitável. O que ele não pode é arriscar a verossimilhança que ele tem conseguido manter até agora, mas cobrando o preço de manter todo mundo no escuro e fazendo o espectador glosar grande parte das atitudes de Sean, Dorothy e Julian.

Rain é o primeiro episódio da temporada que realmente mostra promessa e que levantou minha sobrancelha em curiosidade pelo que vem adiante. Sem dúvida um grande mérito para uma série que vinha se baseando, apenas, em atmosfera e bizarrices.

Servant – 1X06: Rain (EUA – 20 de dezembro de 2019)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Alexis Ostrander
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Phillip James Brannon, Boris McGiver
Duração: 30 min.