Tim Robbins

Crítica | O Preço da Verdade

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019 plano crítico

Como carioca, não deixa de ser meio chocante constatar a óbvia coincidência que é o lançamento de O Preço da Verdade, ao mesmo tempo que acontece este escândalo envolvendo a CEDAE e a contaminação da água. Porém, longe de ser apenas mais um destes filmes protocolares que apontam para a corrupção de grandes empresas ou instituições, o novo longa de Todd Haynes dialoga muito bem com um de seus primeiros trabalhos, o excelente Mal do Século (1995). Além de se assimilarem em sua temática ambientalista, é como se seus protagonistas — Julianne Moore no passado e Mark Ruffalo hoje — estivessem sufocados e doentes deste contato com o sistema no qual eles fazem parte e precisam se descontaminar. E isso é algo que só acontece de uma forma: descobrindo a verdade e saindo da posição de privilégio em que vivem, ou seja, de sua zona de conforto.

Em Mal do Século, a personagem de Moore passa a ficar doente de seu próprio cotidiano: uma dona de casa negligenciada pelo marido e que encontra seu refúgio nas coisas mais banais e consumistas como aulas de ginástica e idas ao salão de beleza. Aquilo que inicialmente era seu prazer efêmero vai se revelando como uma grande vazio que Haynes transformou em, literalmente, uma doença. Já em O Preço da Verdade, Robert Bilott (Ruffalo) é um advogado workaholic que normalmente trabalha defendendo grandes empresas químicas. Contudo, após receber a visita de um fazendeiro de sua cidade local (e que conhecia sua avó), o protagonista descobre que uma das principais companhias que ele defende está despejando produtos químicos na água e matando o gado da região. Posteriormente, ao decidir investigar a situação, ele descobre que ela pode ser muito mais grave e todos podem estar sendo contaminados há anos. 

Logo, Haynes está menos interessado em seguir um sub gênero investigativo no qual seu protagonista vai apenas vomitando milhares de informações através de planos e contraplanos em cenas de reuniões burocráticas. Não que isso também não aconteça em alguns momentos, mas, assim como em Mal do Século, sua principal preocupação reside muito mais em criar uma atmosfera na qual Robert vai percebendo que todo o sistema que ele faz parte está manchado. Neste sentido, toda a fotografia de Edward Lachman acerta ao trazer uma frieza cinzenta que filtra o filme com um tom de desesperança e que remete diretamente a uma sensação de sujeira e poluição generalizada. 

Assim, conforme a narrativa avança, o que parece mover Robert é justamente um expurgo da culpa que ele acredita carregar. Afinal, o roteiro não deixa muito espaço para um maior contexto do seu passado, mas é como se em algum momento da vida ele tivesse se vendido para fazer parte do grande jogo corporativista. Nem ele e nem nós sabemos muito bem o motivo dele ter aceitado ajudar no caso que coloca sua posição em risco, mas é como se, ao ser lembrado de suas origens na cidade pequena, um sentimento adormecido de justiça despertasse nele.

Todavia, mesmo lutando pela “causa certa”, ele ainda não deixa de ser visto como um advogado preocupado com o lucro pela próprio fazendeiro ou como um lunático pela própria mulher, além de parecer cada vez mais perdido em jantares de gala. Até por isso, sua obsessão se torna resolver aquele caso exclusivamente, como sua própria salvação ou redenção. Portanto, é muito indicativo que a montagem do filme decida misturar, através da montagem, o nascimento do filho de Robert com sua narração dos efeitos colaterais com a doença, que não só aumenta sua paranoia mas reforça que essa culpa parece cada vez mais forte nele. 

Ainda em paranoia, não há exatamente um inimigo visível ou personificado em O Preço da Verdade, apenas helicópteros sobrevoando ou uma sombra em um estacionamento. Nada indica que o protagonista pode morrer ao ligar a ignição de seu carro, mas Haynes e um Ruffalo cada vez mais estressado conseguem fazer desta simples cena uma das mais urgentes. De certo modo, isso acontece justamente porque, apesar de sua fotografia fria, o filme nos coloca para dentro da investigação junto com Robert. A atuação de Ruffalo carrega uma raiva impaciente contra o sistema e, simultaneamente, um medo em descobrir quão fundo está enraizada a corrupção que torna plausível uma própria somatização dos sintomas de achar que está sendo envenenado pela água ou sendo perseguido. 

Retomando sua temática ambientalista de Mal do Século, há uma principal diferença entre este e O Preço da Verdade. Se Juliane Moore fugia para um acampamento para viver isolada e esquecer da doença da cidade, essa não pode ser mais a solução em 2020. A ideia aqui não é a fuga, mas o enfrentamento, uma mea culpa de que todos nós talvez tenhamos vendidos nossos valores em algum momento. São dois filmes que falam sobre uma contaminação sendo uma psicológica e a outra literal) e que identificam a causa na mentalidade gananciosa do sistema, mas agora Todd Haynes acredita que o homem ainda pode ser salvo caso enfrente as instituições que ele fazia parte.

O Preço da Verdade (Dark Waters) – USA, 2019
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Mario Correa, Matthew Michael Carnahan
Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Pullman, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, William Jackson Harper
Duração: 126 min.

Crítica | Um Sonho de Liberdade

Há um grupo seleto de filmes que alcançaram o feito de terem sido recebidos com unânime entusiasmo tanto pela crítica como pelo público e ainda terem sobrevivido praticamente intactos à imperdoável prova do tempo. É exatamente esse o caso de Um Sonho de Liberdade, um dos filmes mais celebrados no ano de 1994 e que já se consolidou como um clássico amplamente presente no imaginário popular. O filme dirigido por Frank Darabont (estreante em longas-metragens na época) atingiu a posição que ocupa exatamente por executar com perfeição a fórmula do drama de redenção. Mas, ao contrário de filmes como Alcatraz – Fuga Impossível, protagonizado por Clint Eastwood em 1979, o leitmotiv de Um Sonho de Liberdade não será apenas as condições perversas da prisão onde o protagonista lutará por sua salvação. O filme protagonizado por Tim Robbins e Morgan Freeman tratará muito mais do diálogo do prisioneiro inocente com seu mundo.

O que vemos no filme de 1994 transcende sobremaneira o gênero dos dramas sobre prisões e, por isso mesmo, optei por tratá-lo dentro do escopo dos filmes de redenção. O que se destaca é mesmo a fábula sobre o homem comum que terá de suportar os acintes do real e prevalecer sobre um mundo profundamente injusto, cruel e com imensa capacidade de causar dor. Penso que a escolha do conto de Stephen King, que serve de base ao roteiro de Darabont, em evitar quaisquer referências ao mundo real seja bastante acertada, pois torna a prisão de Shawshank mais do que uma prisão. Torna-a uma metáfora da própria vida humana sobre a Terra – profundamente difícil e desafiadora. Quando Andy Dufrese (Tim Robbins) é encarcerado na fictícia prisão sem ter cometido crime algum, é ao homem mais ordinário, é a cada um de nós, que cada golpe e sevícia atingirão em cheio. O sentimento de compaixão (sofrer junto) que o filme desperta no público é um de seus maiores trunfos e, por isso mesmo, ele agrada tão fácil a gregos e troianos. Afinal, nada mais universal na condição humana que o sofrimento sem razão.

O fato de o personagem principal ser um outsider dentro de Shawshank é outro ponto que cativa o espectador, que certamente já se viu diante do absurdo da existência, completamente confuso e com um sentimento profundo de não pertencimento à realidade que o cerca. Ao mesmo tempo, Andy se vê impelido a pertencer de algum modo à sua nova realidade de prisioneiro, tal como cada um de nós terá de fazer para sobreviver em um mundo cheio de agruras. Um Sonho de Liberdade é uma fábula tão universal e conversa tão bem com o público que podemos pensar o enredo como um rito de passagem, que transita de um estado naif da existência para um estado maduro e sempre inacabado, em que se busca equilibrar a violência do real e as possibilidades de defesa e sobrevivência diante dele. Quando o personagem de Robbins provoca Ellis Boy “Redding” (Morgan Freeman) acerca da ideia de esperança, inquirindo-o se era melhor esquecê-la tal como fizera o velho suicida Brooks (James Whitmore), o chiste nada mais é do que uma reação do homem comum contra a realidade que o brutaliza. Andy sofre inúmeras punições. Ora as aceita. Ora as combate e tenta se haver com aquilo que dá conta.

O mais interessante na obra de Frank Darabont é notar que ela examina várias saídas para a realidade extrema em que vivem seus prisioneiros, violentados física, emocional e até sexualmente pelos guardas e pelo diretor desumano e despótico. Existe a resignação, vivida de modo autômato pelo personagem de Freeman e que ele mesmo compreenderá como caminho inviável em um longo diálogo com seu melhor amigo após a morte de Brooks. Existe a capitulação e a negação da vida enquanto ação e liberdade, que o personagem de Whitmore representa ao não conseguir sobreviver após sair da prisão. Curioso que ele chame a prisão de seu “lar”, reconhecendo-se não mais como um homem, mas apenas como um prisioneiro dependente sua casca de noz. Não seria esse o estágio mais profundo da má fé sartriana? Um Sonho de Liberdade põe o dedo na ferida sem piedade – o sofrimento pode se tornar a mais poderosa zona de conforto na medida em que nega o próprio homem como responsável por sua história.

A terceira saída para o homem imerso em uma realidade tão espinhosa é a esperança. Dita dessa forma, ela pode soar até como tolice. Mas o ritmo narrativo do filme, com sua direção e seu roteiro que não apressam a evolução do protagonista, nos permite compreender como é laborioso conservá-la diante de uma existência que nos açoita não uma ou duas, mas centenas de vezes. Quando Andy fala sobre a esperança e é desacreditado por seus companheiros, é estupendo notar que também somos nós, do outro lado da tela, que expressamos nossas dúvidas. Mas o desconforto que todos sentem ao redor do personagem de Tim Robbins demonstra que essa é a fonte da vida de cada um naquele lugar. Viktor Frankl, em seu livro Em Busca de Sentido, garante que os sobreviventes dos campos de concentração não eram os mais sábios nem os de melhor compleição física, mas o que tinham alguma razão maior para suportar tamanho sofrimento. Penso que a construção do personagem principal de Um Sonho de Liberdade vai ao encontro dessa ideia, pois não trata da esperança de modo ingênuo ou piegas. Apresenta-a como um longo e penoso exercício. A travessia final do protagonista rumo à liberdade, arrastando-se por meio quilômetro em um cano repleto de fezes, não seria a alegoria perfeita disso?

O fotograma mais icônico do filme, no qual Andy é registrado em um dos plongée mais conhecidos da história do cinema, celebra a vitória da esperança em um mundo que não parece comportar nenhuma. O personagem não consegue sua liberdade de modo heroico ou glorioso. Alcança-a arrastando-se sobre a imundície e a degradação. Essa cena joga a pá de cal, de uma vez por todas, sobre a possibilidade de que fosse esse mais um grande filme perdendo-se em um final de apelo fácil. Um olhar mais atento deve ainda apreender que aqui o processo também importa e muito. Um Sonho de Liberdade nos oferece algumas ferramentas para enfrentar a existência. Sentimentos nobres como a amizade e faculdades tão valorosas quanto a inteligência e a criatividade humanas, com as quais Andy demove seus companheiros de suas zonas de conforto e promove melhorias em sua vida no cárcere, parecem funcionar como poderosos estratagemas para conservar a expectativa de redenção. E não seria exagero pensar que também a arte, por meio de obras ficcionais e por isso mesmo tão legítimas como essa, seja igualmente valiosa na tarefa de dar  algum enlevo à vida.

Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption – USA, 1994)
Direção: Frank Darabont
Rorteiro: Frank Darabont (baseado em conto de Stephen King)
Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, Clancy Brown, Willian Sadler
Duração: 142 min.