The Walking Dead

Crítica | The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers

plano crítico The Walking Dead – 10X14 Look at the Flowers

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Ou um tolo disposto a acreditar em futuros amigos.

Aproximando-se do final da 10ª Temporada fica mais claro o alarme falso dos sussurradores, prometidos como a maior ameaça da série até então, mas na prática nunca funcionando dessa forma (tal como o Negan), extremamente bem introduzidos, mas com um arco enrolado tão à exaustão que foi diminuindo o tamanho deles conforme o tempo. A Alfa MORREU no episódio passado e parece que toda a sua trupe evaporou junto a ela, porque ninguém fica sabendo disso ao longo desse episódio além de Beta e outros cinco capangas. Inclusive, aquele final vinha com a conexão forçada de Carol como a precursora do plano ao liberar Negan para matá-la, uma jogada deviadamente irresponsável, no limbo, mas que parecia na fala “You take long enough”, transparecia uma lucidez de que ela sabia que era certa, para o discurso mudar justamente na cena seguinte, em que ela já começa reclamando ao Negan que demorou demais e começa a transtornar de novo, dizendo que quer ficar sozinha e partindo sem rumo, para lugar nenhum.

Já defendi a personagem antes, poucos episódios atrás (especificamente em Squeeze), mesmo sendo uma dramaticidade de atitudes irracionais que ela já havia tomado antes na série, havia coerência e verdade segundo a tendenciosa crescente do arco até aquele momento. Contudo, com o fim de Alfa, com a confiança daquela fala e dado o “planejamento” que o roteiro assumiu, escancaradamente explicado na primeira cena forçando a conexão, não faz sentido ela, nesse episódio, continuar maluca da cabeça alucinando fantasminha (de novo) para lembrar da sua fragilidade que já está clara há muito tempo. O que isso significa? De novo, aquela famosa enrolação marota que The Walking Dead adora fazer em episódios de numerações parecidas. Ao menos em determinado tempo, a série fazia uma questão de esconder, agora pouco importa, Negan nem a questiona ao não cumprir a parte do trato de levá-lo para Alexandria como álibi de testemunha, porque eventualmente ele não está nem um pouco preocupado, no território inimigo, em ser pego, porque já parece que sabe o que vai acontecer nas cenas seguintes.

Ok. Admito que mesmo assim foi de enorme satisfação a cena em que três dos sussurradores encurralam Negan e Daryl, que encontra o personagem na cabana de Lydia (sumida, de novo), e todo o contexto leva a crer que ambos estavam encrencados, mas inesperadamente os capangas mascarados se ajoelham perante Negan como se fosse o novo Alfa. Aproveitando a situação, principalmente diante da grande desconfiança de Daryl, Negan articula um teatrinho para satisfazer o ego, e consequentemente, pela indomável performance de Jeffrey Dean Morgan, por alguns segundos consegue levar o público a achar que realmente a série poderia mudar totalmente o rumo e colocá-lo como vilão de novo (e seria sensacional se acontecesse, diga-se de passagem). Mas lógico, na hierarquia dos “sussu”, quem estava devoto a isso era Beta, que assim como Carol passa o episódio tendo devaneios inúteis com a Alfa zumbi, a diferença é que ele não quase morre gratuitamente com isso e que não era um fantasminha, mas a cabeça da mulher falando com ele e o guiando a tomar alguma atitude. 

Ora, qual seria esse grande plano do subconsciente de Beta, digo, que a cabeça de Alfa tinha para guiá-lo? Pegar um vinil, aparentemente dele mesmo pelo que deu a entender, chamado Half Moon, começa tocar e juntar zumbis na área para que ele possa guiá-los de lá, Rob Zombie ficaria orgulhoso. Mas, cadê o resto dos zumbis da caverna? Ou do ataque a Hilltop? Não eram controlados por eles? Como dito, parece que eles evaporaram junto de Alfa, tanto que na cena em que Beta pega a cabeça de Alfa, só dois o acompanham ao invés uma manada considerável, um deles é comido pela cabeça e o outro foge e fica por isso mesmo, a ameaça final parece ser apenas Beta e o restante dos zumbis que irão à vingança, com desvantagem. A promessa de que “nunca vimos uma horda tão grande como aquela do penhasco” possivelmente ficará na falácia, afinal só faltam mais dois episódios para o fim, e o próximo, que até tinha tempo para organizar isso, não vai porque irá provavelmente ocupar o que esse deveria ter sido, que é a jornada de Eugene em conhecer a tal nova comunidade de Stephanie no rádio.

Infelizmente até nisso eles enrolaram, embora a preocupação geográfica mais uma vez tenha ido para o espaço. Como depois de tanto tempo eles se deparam com uma cidade nova aparentemente tão próxima dali, porque Atlanta certeza que não era vista a demora imensurável que foi chegar em Alexandria originalmente, então fica o questionamento. Chega a ser tão grotesco que vai além dos erros de montagem, também presentes no capítulo, que em uma cena Negan e Daryl trocam palavras, e na outra, Daryl já está em Alexandria recebendo Carol que quase morreu na cena anterior, sozinha, cadê a cena de ligação entre os fatos? Ou melhor, Negan entrou lá de boa mesmo por causa do Daryl? Aliás, o combinado de Eugene e Stephanie era só que ambos se encontrassem, mas Ezequiel e Yumiko decidem ir também só para haver três ceninhas de enrolação, uma com Yumiko e Magna falando se é uma boa ideia ela acompanhar e abandonar de novo o grupinho delas, já separado, e as outras duas com Ezequiel possivelmente se despedindo de Jerry porque deve morrer logo em breve, e outra que ele questiona se deve continuar ou não pela limitação física.

A Stephanie mesmo só vai dar as caras por meio segundo nos minutos finais do episódio, obviamente, como dito, deixando o gancho de como se desdobrará essa nova comunidade para o próximo. Espremendo tudo ao final, não houve nada, a história não avançou, personagens não foram desenvolvidos, situações que já não estavam previstas para ele foram criadas, foi um travamento completo e inútil de dezenas de situações pendentes que ficaram para ser resolvidas somente no último episódio, que nem tem data mais para estrear, visto a baderna que está a produção da série, não houve tempo nem de concluir um episódio já gravado de longa data na pós-produção, porque nem os produtores devem saber como ele deve acontecer para ligar o universo compartilhado e finalizar de forma minimamente recompensadora essa decepcionante temporada.

The Walking Dead – 10X14: Look at the Flowers — EUA, 29 de fevereiro de 2020
Direção: Daisy Mayer
Roteiro: Channing Powell
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | The Walking Dead – 10X13: Walk With Us

The-Walking-Dead-10x13-Walk With Us plano crítico

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Mãe, ele está vivo?

Uma das maiores tristezas de quem ainda acompanha The Walking Dead é ter a cada temporada uma notícia prévia de abandono de alguém do elenco, consequentemente já criando uma expectativa para a sua despedida, que acaba tornando sem impacto o fato de que não iremos mais ver aquele personagem em ação. Foram várias as perdas desde a queda de audiência, a primeira e mais significativa foi Carl na 8ª Temporada, e felizmente, por mais questionável que fosse a decisão, foi a única que garantiu alguma surpresa por simplesmente ter acontecido sem o aviso prévio dessas notícias de bastidores, seguido de Maggie, Rick, Jesus e agora Michonne, todas com datas premeditadas para acontecer, sem aquele elemento surpresa que faria essas perdas serem sentidas com mais alvoroço. 

Nisso, esse episódio já começa problemático, pois sabemos exatamente que no final algo irá acontecer para distanciar a personagem do núcleo principal, uma vez que dentro do cenário apresentado, tempo e demais circunstâncias, a morte com certeza não viria. Ele até ameaça com essa possibilidade, mas de forma muito rápida. Quando Virgil tranca Michonne naquele alçapão, bate uma rápida sensação de que ele poderia ser algum louco psicótico que iria torturá-la até a morte, mas é lógico que em um episódio de despedida, a série não teria culhões para isso (talvez em um outro momento e se acontecesse seria sensacional). Ao contrário, a “tortura” alucinógena foi apenas uma desculpa preguiçosa para se instaurar um clima romântico nostálgico e revisionista dos bons momentos da série em uma perspectiva invertida. 

O propósito das sequências de Michonne viajando por destinos diferentes que ela poderia ter tido ao tomar diferentes atitudes, deixando Andrea para morrer, juntando-se aos Salvadores, não acrescentam em nada à própria jornada individual da personagem que na finalidade (se não era a morte) seria iniciar uma busca verdadeira por Rick, a que já estava previamente decidida por acreditar que ele estava vivo. Então, fica aquele velho fan service gratuito e inserido às coxas, uma vez que fora Laurie Holden, nenhuma das outras participações especiais antigas trouxeram os atores novamente, só fizeram uma colagem por cima de cenas que já aconteceram e “tá valendo”.

Aliás, Virgil se demonstrou um personagem meramente descartável, sem qualquer carisma e motivações pouco plausíveis pela mutabilidade rápida, além de genéricas. O cara mente, sequestra a Michonne e inventa uma desculpa de misericórdia aceita com muitíssima facilidade, visando reforçar um espírito benevolente mais forte na personagem que já estava bem estabelecido. Sua conexão em fornecer a motivação de Michonne para viajar é meramente uma coincidência, pelo menos é o que dá a entender, já que o episódio não busca estabelecer uma clareza maior de como aquele celular com a imagem de Carl e as botas do Rick foram parar ali. É um gancho final aleatório que poderia muito bem ter sido o mote inicial do capítulo, mas prefere-se enrolar todo o caminho até lá com uma subtrama de um personagem que no fim das contas nunca mais aparecerá na série.

E aí retomo a dívida orçamentária, pensando nesse mini arco como uma forma de tentar contornar o que o episódio planejadamente poderia ter sido em expansão de universo, mas não pode, graças a essa economia exacerbada de orçamento. Não é o ideal criticar algo pelo que deveria acontecer e não pelo que de fato ocorreu, mas diante de como surgiu esse arco, a idealização de uma nova comunidade buscando novamente armas para ajudar numa nova guerra, por mais repetitivo que fosse, teria fins diferentes. Supondo que realmente existisse essa comunidade, Michonne a conheceria e o tempo que levaria para tentar convencer uma aliança… Judith por ligação avisaria sobre o fim da guerra, ao mesmo tempo Michonne descobriria esse possível paradeiro de Rick, e junto a essa nova comunidade começaria uma nova busca que poderia já fazer link direto com os filmes ou World Beyond a depender da questão do planejamento dessa expansão do mundo zumbi.

Aí é que tá, creio eu que não existe esse planejamento, e que a série vem nas coxas, plantando possibilidades dentro da obrigação de se livrar do elenco, para no futuro resolver essas pendências de alguma forma que ela ainda não sabe. Entristece ver que a série chegou a esse ponto, porque no papel, acho que qualquer um é a favor dessa expansão, desde que haja engajamento para sua construção, algo que para a AMC parece ser uma eterna promessa, que dura faz um tempo. Esse engasgo da necessidade engole qualquer possibilidade de uma relação mais próxima com esses futuros possíveis, assim, a gloriosa cena da chamada de rádio só não é tão artificial porque existe uma entrega verdadeira de ambos os lados atuantes. Até que ponto aquilo não foi mais um remendo do que um destino plantado com convicção e ao menos um norte bem definido para onde ir? Convenhamos, se não tivesse a informação antes de que Danai Gurira iria sair, a cena não funcionaria emocionalmente e o destino dessa missão expansiva seria severamente mais questionado.

The Walking Dead – 10X13: What We Become — EUA, 22 de março de 2020
Direção: Sharat Raju
Roteiro: Vivian Tse
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | The Walking Dead – 10X12: Walk With Us

10x12-Walk-With-Us-Mary-the-walking-dead plano crítico TV

Não aguento mais isso.

A grande dificuldade de analisar séries como um todo é a possibilidade de tudo ser posto a perder em uma temporada (como pra mim foi o caso da última de Game of Thrones), por isso costuma-se analisá-las dentro do recorte da temporada, que mesmo bem encaminhada, também pode ser terrivelmente prejudicada por apenas um episódio, principalmente quando esse marca um momento decisivo das ações. Infelizmente, Walk With Us se enquadra nessa definição, um episódio “grande” que arrega em escala e toma escolhas no mínimo questionáveis dentro do panorama final do arco dos sussurradores, consequentemente, afeta diretamente vários bons elementos quase consolidados na temporada e não faz valer a sua construção até aqui, principalmente por parte dos três últimos singelos episódios.

O principal problema começa nas vias orçamentárias. Fica difícil decifrar o motivo, mas desde meados da 7ª Temporada, a queda de investimento por episódio era gritante e a série se tornava cada vez mais “feia” do ponto de vista técnico, mesmo sendo naquele período, ainda com a queda de audiência, uma das séries mais lucrativas do momento. Parecia uma falta de culhões não arriscar na série em meio ao decrescente público, contudo com Angela Kang assumindo como showrunner, na prática a produção passou a correr mais riscos no roteiro, experimentando diversos métodos diferenciados para tentar conquistar novamente o telespectador, com o agravante de perda e desvio de elenco constantes para se resolver.

Então, se desde a 9ª Temporada esses riscos vêm sendo tomados, a única justificativa plausível para essa baixa grana investida seria a maior extração de lucros possível para compensar a queda de público, o que acaba sendo um tiro no pé, porque quando se pode entregar momentos de grande escala, que fizeram os picos de audiência no passado, não há investimento e eles precisam ser desviados de forma artificial e sem peso na narrativa, perdendo o pouco de público casual que ainda acompanha.

Pois bem, todo esse desabafo válido para esse período mencionado foi para começar a demonstrar a minha indignação de “A Batalha de Hilltop” não ter nem acontecido. O gancho cirúrgico de Morning Star foi absolutamente inútil, porque o episódio o engole em elipse e mostra os personagens basicamente prontos para fuga e Hilltop caída em míseros 5 minutos de uma batalha (mostrada na íntegra em promo da semana) fechada em planos, e ao mesmo tempo, contemplativa em câmera lenta com fins previamente estabelecidos. Além de esvair todo o senso de temor colocado pelo episódio anterior, abusando da suspensão de descrença (como eles conseguiram sair daquela situação? Pouco importa? Não é assim, TWD…), as decisões tomadas durante o episódio orquestram arcos de forma tão protocolar que desvincula qualquer importância que eles poderiam ter.

Por exemplo, separar os personagens “pós-batalha” é algo que já foi feito na 4ª Temporada, depois da guerra com o governador, só que dentro de um período bem mais longínquo, o que elaborava um panorama tranquilo para desenvolver os personagens e extrair o máximo do desespero por eles estarem tão distantes uns dos outros. Mesmo que o recorte aqui seja mais curto e com um destino certo, geograficamente não há qualquer sentido porque a horda gigante de zumbis que destruiu Hilltop não sumiu do nada (ou melhor, sumiu porque o roteiro “precisava”), e se houvesse o investimento necessário, ela continuaria perseguindo cada personagem ali mostrado para dar continuidade minimamente à urgência que deveria ser aquela situação. 

Tudo bem, não “houve” orçamento para fazer isso, aí sim, seria uma ótima hora de implementar uma elipse, colocando os personagens bem mais à frente e em território já próximo a Alexandria, justificando não haver zumbis por perto. Contudo, a outra forma como o roteiro tenta contornar a falta de tensão de perigo próximo, que seria a procura das crianças que em teoria fugiram com Ezequiel, quebra esse raciocínio, já que ele não se encontrava no ponto combinado com Daryl e ainda estava preso em Hilltop, onde rapidamente Daryl o encontra embaixo dos escombros e mais rapidamente ainda volta quando as crianças são encontradas.

Podem ter ocorrido várias elipses temporais e geográficas aí? Sim, mas a montagem é tão desorganizada que não elabora esses saltos com coerência e os move inteiramente por conveniência. Confirmando o sumiço protocolar das linhas de força zumbi, Negan e Alfa passeiam sozinhos pelo campo de mortos pós-batalha, abrindo-se um com o outro de forma inescrupulosa, desenhando expositivamente o grande acontecimento de antemão esperado entre os dois graças às HQs. Sendo precoce como o roteiro, afirmo que a morte dela e de Gama como fato isolado é deveras impactante, principalmente pensando em não ser episódios de meio ou final de temporada, contudo, na prática, na construção da temporada elas não fazem tanto sentido pelas amarras preguiçosas. Indo por partes, Gama e Alden na disputa com o sobrinho não foi algo bem elaborado no episódio anterior para ser nesse, só para a morte de Gama ter o pensamento “Poxa, ela finalmente conseguiu fazer as pazes com ele, iria poder curtir a sobrinha, mas acaba morrendo”, sério? 

Parando para pensar, essa intriga inicial é incoerente com o próprio Alden, visto que ele era o Salvador e foi perdoado, pelo histórico, ele deveria ter demonstrado compaixão logo de cara, mas não, fez frescura que acabou matando a mulher nas mãos de Beta, que também ficou de frescura ao se expor em terreno aberto somente para ter o prazer de humilhar Gama esperando que ela virasse zumbi para levá-la a Alfa e mostrar o quanto ele é obediente. Sorte dele que Alden é tão desprovido de inteligência que ao invés de acertar uma flechada nele, preferiu acertar em Gama para ela ter uma morte “digna”, mas convenhamos senhor Alden, dava para você ter feito os dois, não? E as conveniências nas mortes não valem só para os sussurradores, pois Earl também foi morto neste episódio possivelmente pelo mesmo zumbi fracote que mordeu o Carl, porque pense numa mordida fraca que parecia mais uma humana normal, cadê os maquiadores para arrancar um toco de braço daquele rapaz?

Enfim, mesmo sendo absolutamente terciário, o melhor momento do episódio o envolve junto a Judith, forçada a matá-lo para proteger o restante das crianças figurantes que estavam ali, um dos poucos momentos delicados da direção de Greg Nicotero, que com o auxílio da ótima atriz mirim Cailey Fleming, acertou ao menos em um micro desenvolvimento do episódio. Comentando os outros, Magna retorna sozinha após o evento na caverna, no meio da manada da batalha de Hilltop, sem mostrar como ela chegou até ali, apenas contando verbalmente, e a gente que acredite nela, sem qualquer sentimento de desespero para incentivar o pessoal a ligeiramente começar a procura pela amiga, ou remorso de Carol, apesar do que ela fez. Carol que era a mulher personagem possível (só que não) para dar o passe livre para Eugene ir em busca do amor de sua vida, na conversa mais sentimentalmente brega da temporada. 

Pior que isso só a revelação final de que na verdade ela estava orquestrando o plano com Negan desde o princípio, um twist bacana do ponto de vista fandom, mas extremamente incoerente diante do seu arco dramático na temporada. Quer dizer então que todas aquelas decisões irracionais eram teatrinho? E que no fundo ela sabia o que estava fazendo e era só para enrolar e dar tempo de Negan matar Alfa? Puxando os outros episódios, com muita suspensão de descrença dá para dizer que sim, já que ela iria levar Lydia para Alfa e de alguma forma tentar matá-la lá com o Negan, mas para que isso fizesse sentido, era necessário mais tempo, até para Negan ter a confiança de Alfa para fazer o serviço. Ou seja, essa amarra, além de completamente jogada, faz com que todos os meus elogios ao retorno do emocional desamparado da personagem – que retomou uma das melhores características da série que era os desafios narrativos consequenciais da frágil mente humana em situações de risco – sejam invalidados. Não que Carol por tudo que passou não seja capaz de tal feito, mas o jogo criado em cima disso foi no mínimo trapaceiro, no pior sentido.

E era algo completamente desnecessário, visto que a cena de manipulação do Negan em si, desconsiderando as conveniências já mencionadas ou aquela cena avulsa com o Aaron, foi bem construída. O desconforto do personagem matando “sem querer” os zumbis na cabeça e não no coração, ele não agrupando a horda, sequestrando Lydia como isca e se abrindo com a Alfa para atraí-la a uma armadilha, tudo foi bastante plausível porque houve uma prévia consolidada anteriormente. Contudo, colocar isso na conta da Carol foi o último tiro no pé de um episódio que já estava problemático e ficou ainda mais covarde. Dava para tudo isso que aconteceu ter ocorrido de outra maneira, se a série evocasse os culhões passados em algo definitivo, cada subtrama dessa seria orquestrada dentro da batalha principal não mostrada, e o resultado tinha enorme potencial de ser um dos grandes episódios da série. Infelizmente, não foi o caso e a temporada perde muito o fôlego na reta final, mesmo que ainda tenha quatro capítulos para se ajeitar, o recado está reforçado, mesmo no geral, ainda subestimada, não dá mais para confiar em regularidade com The Walking Dead.

The Walking Dead – 10X12: Walk With Us — EUA, 15 de março de 2020
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Nicole Mirante-Matthews, Eli Jorne
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | The Walking Dead – 10X11: Morning Star

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Espera. A gente vai morrer hoje?

A clássica “calmaria” antes da tempestade, o 11° episódio da 10ª temporada de The Walking Dead, intitulado Morning Star, caracteriza-se como uma preparação emocional para um grande conflito a vir: A Batalha de Hilltop. Talvez em outros momentos, até mesmo da própria temporada, ele se enquadraria como um episódio de “enchimento de linguiça”, e de certa forma é, no sentido de que o momento decisivo ficou todo empurrado para o seguinte. Contudo, isso é desmistificado na estrutura da série, que nos acostumou em entregar esses momentos nas meiucas ou nos finais dos 16 episódios, e não no meio entre ele. Sendo assim, a construção por si só já se permite ser genuína, ainda mais com a excelente sensibilidade do Michael Satrazemis, responsável pelo também ótimo Squeeze, que parece entender bem a essência do material na sua origem, que é a fragilidade humana e psicológica diante de situações de grande risco, algo já comentado por mim em outros textos, que se perdeu na série e pouco a pouco parece estar sendo retomado, mesmo que em momentos soltos. 

O grande problema dessa aposta é não ter o retorno visual da ameaça, para ela ser de fato sentida, algo decorrente da péssima distribuição de verba que a série tem nos últimos anos. O que inclusive valoriza ainda mais esse episódio, que mesmo nas coxas visuais da produção, e nítidos desvios de escala, apresenta uma batalha noturna mais inteligível do que A Longa Noite de Game of Thrones (apesar da diferença orçamentária gritante da produção), com um senso de estratégia coeso e de risco plenamente palpável graças à construção anterior pegar um âmbito universal.  Ao menos, cada personagem apresenta uma cena que levanta uma motivação de querer continuar lutando ou um respaldo emotivo que o vulnerabiliza, uma fragilidade de fora pra dentro bem explícita, amarrando as pontas soltas de desenvolvimentos anteriores e acendendo uma faísca consequencial do que se tem a perder com seu possível futuro sacrifício. O tabuleiro organizado é bem amplo e com pesos parecidos da balança de risco. Indo personagem a personagem, acho que os grandes destaques ficam para Daryl, Ezequiel e Eugene, e os demais circulam entre eles de forma curiosamente pincelada: Carol, Lydia, Rosita, dentre outros. 

Começando pelo brucutu que dificilmente irá morrer pela escassez de um chamariz protagonístico, é no mínimo surpreendente vê-lo em algumas cenas de interação mais humana, como a nova jaqueta que ele recebe de Judith ou sua mais significativa cena com Ezequiel na série, abominando quaisquer pensamentos toscos de que eles poderiam ter uma intriga de triângulo amoroso ciumento entre ele, Carol e Ezequiel. Na cena final antes da batalha, um diálogo entre Carol e Daryl meio que põe um ponto definitivo sobre a pendência anterior, quando mesmo estando chateado pelo que ela fez na caverna, ele admite que nunca sentirá ódio dela, cena comovente e bem em clima de despedida, algo suspeito, mas no mínimo, simbolicamente importante. Só destaco negativamente a rasa motivação dele e de Lydia terem saído de lá e não ido atrás de Connie e Magna, infelizmente resulta em outro problema com o elenco que vai precisar de uma folga, e com isso, vai sair da série, inclusive vale a menção a Michonne que até agora não deu a cara a tapa, desde a mid-season, e já está confirmada sua saída nessa temporada (uma pena né? Porque seria bom se ela simplesmente morresse sem essa informação prévia).

O Eugene recebe outra atenção bem comungada desses pré-arcos e também outras respostas mais definitivas sobre sua situação “amorosa”. A menina do rádio parece ter sido feita sob medida a conseguir contornar a completa falta de noção de desenhar Gabriel, Rosita, Siddiq e Eugene como um quadrângulo de intrigas românticas. O roteiro já estabelece que a comunicação ali avançou de nível e logo em breve haverá proposta para ambos os lados se conhecerem no pessoal (momento oportuno para já estabelecer um novo arco). Rosita então chega e meio que “estraga os planos”, descobrindo e se comunicando no rádio fora de hora, pois é, logo a Rosita de novo não colaborando com seu amigo Eugene. Felizmente, pouco tempo depois, os dois dialogam em uma cena bem estranha a princípio, mas que funciona pela praticidade de deslocar cada personagem a sua prateleira, sem retirar a ótima interação vinda desde quando surgiram na 5ª temporada. O “quase beijo” dos dois é o pontapé para Eugene sair do armário, cantar para a “amada” e restabelecer a comunicação, plantando a motivação do personagem que representa todos ali em pequenos níveis, tanto que o cru de seu canto é entrecortado com os preparativos físicos da batalha, mostrando todo mundo bastante inspirado para ir ao “tudo ou nada” contra os sussurradores.

Aliás, o episódio reserva um tempo considerável com o núcleo deles, a fim de mostrar seu lado de estratégia e o possível divisor de águas que Negan pode ser. Ele tem a confiança de Alfa, mas claramente o personagem se sente desconfortável frente a ela e tenta contornar as estratégias de matança para um controle do povo, bem como ele fazia antes com os “salvadores”. O estopim disso não ser exatamente interpretado como deveria por Alfa é sinônimo de que ele possivelmente será uma peça fundamental de virada aí, junto a Ezequiel. Toda a temporada, inclusive, já vem cantando a bola de seu câncer, fora que nas HQs, o personagem vai embora nesse arco (na parte das estacas para falar a verdade, mas isso já o coloca no território de risco). As pistas para ele foram maiores: a cena com Carol (inclusive se parar o frame enquanto ele está deitado, é possível perceber a simbologia com Jesus na posição da cruz, será que ele vai se sacrificar?), o fato de ele ser o responsável por salvar as crianças, o entendimento com o Daryl, enfim, tudo leva a crer, mas mais do que isso, todos esses momentos conversam com a humanização geral que o roteiro busca.

A única ressalva para esses pontos emotivos está no arco de Aaron, Gama e o desejo de ver seu sobrinho. O conflito colocado é interessante, mas pareceu incompleto e sem intenção.  Faltou uma cena ali de resolução mais objetiva, seja esperançosa, que faria mais sentido com a proposta de contraste para a batalha, ou rejeitora, que ficou mal sublinhado na última tentativa de Gama em falar com a criança. Enfim, tirando isso, como dito, até mesmo a parte de batalha por mais simples que seja tecnicamente funciona muito bem na preparação climática, puxando aquela sempre bem-vinda atmosfera de terror noturno neblinoso completamente compreensível em tela. Os planos de contenção foram bem organizados, mas ainda assim superados pela vilã que orquestrou uma encurralada grotesca envolvendo o fogo e os zumbis, com direito àquele velho cliffhanger raiz de vários personagens juntos em uma situação real de risco, sem muita perspectiva de saírem dali para acabar o episódio. Por enquanto, a segunda metade vem sendo bem mais interessante que a primeira, e seguindo uma boa crescente que precisa se manter ao próximo, principalmente diante do gancho colocado. Seria uma sacanagem (olha que The Walking Dead já fez isso outras vezes) pular de núcleo e só deixar a resposta para esse nos momentos finais da temporada. É torcer para que não e já no próximo capítulo tudo se resolva com consequências importantes e num nível de intensidade satisfatório, como vem sendo nos últimos três episódios.

The Walking Dead – 10X11: Morning Star — EUA, 08 de março de 2020
Direção: Jim Barnes
Roteiro: Vivian Tse & Julia Ruchman
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min

Crítica | The Walking Dead – 10X10: Stalker

plano crítico The Walking Dead – 10X10 Stalker

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Trouxe-a aqui para que pudessem ver.
Ver o quê?
Que eles são covardes!

O questionamento feito por mim na crítica de Squeeze felizmente não se confirmou, mas ainda é cedo para dizer que The Walking Dead vai manter uma regularidade crescente até o final da décima temporada, até porque mesmo esse meu segundo favorito (depois do anterior) é ainda um capítulo que carrega deveras ponderações técnicas prejudicais ao andamento dos acontecimentos, por mais importantes que eles sejam. Vamos por partes, ou melhor, núcleos, que talvez seja o grande problema do episódio em si. O seriado ficou tão mal acostumado e perdeu tanto a unidade estilística, com a estrutura de 16 episódios e diversas trocas de showrunners e afins conforme o tempo, que se esqueceu como organizar devidamente capítulos que precisam contar mais de uma narrativa. Mais ou menos da 7ª Temporada pra cá foi se acomodando somente em episódios de locais específicos, e quando precisava resolver muitas pendências de uma vez, utilizava diferentes soluções de montagem, às vezes umas funcionavam (como no capítulo 10 da 8ª Temporada, intercalando fade out e diferentes personagens específicos, e os unindo sequencialmente numa lógica curiosa de revelação dos fatos), outras nem tanto, como irei dar o exemplo a seguir.

Partindo da parcela de tela para o embate de Daryl e Alfa, que pelo peso dos nomes tinha que ser relevante, os entrecortes da montagem são no mínimo infelizes. A começar pela facilidade com que Daryl consegue encurralá-la e da falta de uma pitada de exposição para especificar o porquê de ele ter ido se arriscar com ela ao invés de ir para a sua verdadeira missão dada no episódio anterior, que era ir ao resgate de Magna e Connie. Então, a luta já parte de um pressuposto um tanto forçado, mas tudo bem, quando ela de fato começa, empolga, principalmente pela boa dosagem de gore para ambos os lados. Busca-se a visceralidade da situação, ambos já ficam consideravelmente machucados em poucos segundos, Daryl inclusive é atingido no rosto, e tem-se a interessante perspectiva em primeira pessoa de como ele estava enxergando a geografia da batalha, em contraponto a não ter a noção exata de onde Alfa estava, nem quantos zumbis estavam ali por perto. No ápice da intensidade da batalha, Alfa pega novamente a arma que estava segurando e… CORTA. Mas espera… como assim? O que aconteceu? Talvez o editor tenha pensado que aquele corte iria proporcionar essa reação no bom sentido, de levar a ansiedade para saber o que iria acontecer, contudo a prática se demonstrou um coito interrompido de ritmo, desestruturando completamente o exercício de tensão.

Principalmente porque o retorno não mostra como Daryl saiu da mira de Alfa, já pula direto para ele no armazém com Alfa chegando por lá. Novamente, a cena em si é bastante visceral, intensa, tanto que o sentimento consegue ser recuperado em pouco tempo, com a líder dos sussurradores chamando mais de seus companheiros zumbis para tentar cuidar do protagonista arrebentado, que consegue “fodelosamente” se livrar do jeito mais survival “raiz” possível (lembra bastante aquele momento da 2ª Temporada quando ele acaba caindo num desfiladeiro e tem que se virar para tirar a flecha que entra dentro dele com zumbis por perto), com direito até a faca que tinha sido enfiada na sua perna ser retirada para cair na cabeça do zumbi, logicamente o deixando ainda mais debilitado. Nisso, Alfa adquire uma vantagem, e novamente aquele espírito volta de “O que será que vai acontecer?”, assim como o coito abruptamente interrompido de um corte (nesse caso um pouco menos mal porque Alfa meio que cai antes disso), para só retornar mais tarde, quando o núcleo se concluiria.

Conclusão essa um tanto quanto estranha também, tratando-se basicamente de uma falsa alucinação de Alfa conversando com Lydia (a cena toda parece um sonho, mas de fato não era) de forma amplamente sentimental, algo que a líder só vinha mostrando em pequenos momentos e ganhou uma ampla exposição dramática, um tanto quanto artificial. Lydia então escolhe salvar Daryl e diz pra ele depois que estava rodando ali os conflitos o tempo todo só pensando em que lado iria decidir, algo extremamente conveniente para o roteiro. Primeiro na temporalidade sequencial, quando ela diz que vai encontrar e se juntar à mãe no final da primeira metade da temporada, passa pelo menos um dia completo sem ser vista por nenhum sussurrador, algo bem improvável dentro do território deles, e certamente se eles tivessem visto iriam logo avisar a Alfa. Segundo que todo o conflito existencial de ela fazer parte ou não do grupo se torna inútil, ou no mínimo, um declarado arco enrolativo, já que isso foi apenas para ela vincular uma nova empatia pela mãe e não matá-la naquela hora “H” em que iria resolver tudo (aliás, por um momento até achei que isso iria acontecer, aí lembrei que a série não tem mais tantos culhões assim), além de descaradamente ser uma solução preguiçosa para uma briga que em condições isoladas seria até a morte. 

Enfim, finalizado esse núcleo e a parte da montagem, é preciso ressaltar os acertos do episódio, surpreendentemente situados na situação de Alexandria com Gama. Se tem algo a reclamar é por que não desenvolveram Gama direito antes, o roteiro tem dessas, mas quando decide focar na personagem, consegue articular perfeitamente a teia de motivações envoltas na personagem e elaborar um panorama claro e ao mesmo tempo incerto de quão fundamental é sua peça no jogo da guerra. A recepção política do seu rendimento também fornece camadas novas ao padre Gabriel, principalmente no aspecto (somente até então mensurado) de seu poder de liderança, importância paterna e como eles se reverberaram no discurso religioso dentro da situação problemática. Essa que se torna ainda mais quando o plano inicialmente de resgate aos remanescentes da caverna é intervencionado por Beta, que invade Alexandria em busca de Gama e lá ele faz a festa. Muitos personagens então ficam bastante vulneráveis, e nessa oportunidade (embora, basicamente nenhum morra, teme-se por isso), retoma-se a estética romeriana da ambientação de terror neblinoso, com diversas cenas inspiradíssimas.

O destaque inicial vai para quando Beta sai inesperadamente da cova, conectando-se com o início do episódio meio deslocado dele entrando numa caverna e remetendo diretamente aos clássicos sessentistas dos zumbis clássicos, depois menciono as primeiras mortes, criativamente filmadas fora da casa, com um uso cirúrgico da justaposição de sombras, tornando o personagem fantasmagórico e basicamente imparável (algo que outros episódios já fizeram bem, mas esse especificamente pra deixá-lo ainda mais para as cenas a seguir), e por fim, um plano holandês bastante chamativo dos mortos dentro da casa zumbificados passeando por Alexandria. Posto esse clima (e felizmente não o cortando dessa vez), a crescente de tensão com o gigante sussurrador agonia bastante no obstáculo final: Judith. Surgindo como a única solução de fuga para Gama, há um esconde-esconde mortal (que dura pouco, mas é bem enervante pelo uso do silêncio) terminado em um tiro no peito (poderia ter atirado mais vezes né, “Rickinha Jr?”) e uma briga intensa, mostrada com boa visibilidade e concluída com bastante coerência entre os dois sussurradores e Rosita (que ganhou também seu microdesenvolvimento com a pauta materna). 

Grandes acontecimentos, grandes cenas, mas de novo questiono qual a consequência exata que elas trouxeram? Gabriel no fim consegue libertar Gama das mãos de Beta, e tudo volta meio que à estaca inicial, com o diferencial do aprendizado dos personagens, principalmente de Gama e da própria Judith, que demonstrou mais uma vez que é sangue-frio de Grimes mesmo. Não houve na prática muito avanço, mas houve desdobramentos interessantes e perguntas mais interessantes ainda, o que aconteceu que somente Aaron voltou para Alexandria no fim? Quais os próximos passos de Lydia e Daryl? Fora as perguntas pendentes: O que aconteceu com Michonne? Connie e Magna? Enfim, a trama está melhorando, está enrolando menos, isso é inegável, mas a forma de contar ainda precisa de reajustes para que a relevância dos fatos seja maior sentida, e já deixo minha dica para Angela Kang: Contrate novos montadores!

The Walking Dead – 10X10: Stalker — EUA, 01 de março de 2020
Direção: Bronwen Hughes
Roteiro: Jim Barnes
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.

Crítica | The Walking Dead – 10X09: Squeeze

The-Walking-Dead-squeeze plano crítico episódio TV serie

Um triunfo de sobrevivência isolado.

  • SPOILERS do episódio e da série. Leiam aqui as críticas das demais temporadas, games e HQs. E aqui, as críticas de Fear the Walking Dead.

Antes de iniciar a crítica do episódio em si preciso estabelecer minha relação com essa tão injustiçada série, já que serei o crítico representante dela a partir daqui. Diferentemente da maioria que ainda a acompanha, apesar de profundo admirador do universo zumbi, iniciei The Walking Dead quando ela já estava rodando a 6ª Temporada, pelo amplo burburinho dos acontecimentos relacionados à quase morte do Glen. Comecei despretensioso, até me encantei nos 6 episódios iniciais, mas me tornei fã mesmo depois da espetacular 2ª Temporada (discordando inteiramente do meu editor-chefe e parceiro Luiz Santiago, responsável pelo texto à época). A partir daí, a série apresentou diferentes montanhas-russas que iam desde o completo desequilíbrio agravado por decisões equivocadas e mercadológicas dos seus produtores até momentos de brilhantismo visceral (como a mencionada época do burburinho), quando a série provocava enorme gama de sentimentos em exercício de gênero e subversão de expectativas no desenvolvimento dos personagens.

Fato é que mesmo com essa irregularidade, pelo menos até o primeiro episódio da 7ª Temporada, principalmente por ser uma série que pensa metade/metade no apuro de audiência e nas decisões autorais, a parte autoral falava mais alto e sustentava a segunda, tanto que naquele momento era o segundo maior pico de público da história da série. Talvez pelo grande impacto daquele episódio em específico, graficamente falando, a lógica passou a ser inversa, e toda a real e gigantesca demora no desenrolar do arco do Negan foi suficiente para toda a sustentabilidade desmoronar em um rótulo pejorativo para a série, consequentemente afastando por completo a audiência popular e sobrando apenas aquela que ainda acreditava, graças aos pequenos lapsos de inteligência durante as famigeradas 7ª e 8ª Temporadas, que isso era apenas uma fase ruim e logo mais iria passar.

De fato, com Ângela Kang assumindo como showrunner, a 9ª Temporada, mesmo se comportando como tapa-buracos de diversas problemáticas criadas pelas anteriores, e na produção com constante perda de elenco, conseguiu renovar o fôlego do seriado próximo do padrão que um dia já foi, dando diversas pontas experimentais de novas possibilidades para o futuro décimo ano. Contudo, ao contrário novamente da opinião do queridíssimo ex-colunista Gabriel Carvalho, responsável pelas críticas da primeira metade dela, acredito que a primeira metade da 10ª Temporada retomou muito das problemáticas do seu período sombrio, tais como organização de tabuleiro pouco objetiva disfarçada em dramaticidades cíclicas e sem consequência para os personagens, aliado a uma incerteza preocupante para onde direcioná-los. Felizmente a segunda metade já demostra o completo oposto, e novamente retoma o espírito corretor e experimental da 9ª Temporada, em um episódio devidamente complexo, corajoso e estruturalmente bem elaborado.

Depois dessa retrospectiva toda, é hora de explicar os porquês de este ser talvez o melhor episódio da série desde o mencionado primeiro capítulo da sétima temporada, no mínimo já é com sobras o melhor da temporada. Primeiramente, ele reuniu todas as melhores e isoladas características que os bons episódios da série reuniram nesse meio-tempo. Começando pelo experimento de cenário: Um dos fatores que mais contribuíram para o enjoo de The Walking Dead aos olhos populares foi passar tantos anos num mesmo ensolarado das florestas nos arredores de Alexandria. Então, quando isso muda já proporciona um frescor, e com isso, novas formas de trabalhar personagens, situações de risco, dentre outras. A 9ª Temporada beliscou esse intuito, com as florestas mais neblinosas com direito a cemitérios e uma atmosfera de terror, fora aquele último e infeliz único episódio com eles na neve. Enfim, o ambiente da vez é uma caverna, que além de ser uma saída inteligente para contornar a baixa de efeitos visuais da supermanada de zumbis, é um local naturalmente hostil pela claustrofobia, sentimento esse fundamental para a elaboração de gênero e dramática do episódio.

No campo de gênero, deixa tudo com um clima muito incerto, uma sensação já claudicante no público que acompanha The Walking Dead e se acostumou com seus personagens como seres sobrenaturais imortais, como a Carol, inclusive a responsável por meter todo aquele grupo naquela situação e ainda com o bônus de um estabelecimento (conveniente é verdade) de sua condição claustrofóbica. Logo na cena inicial, que poderia ser manjada, o controle de câmera diferenciado do diretor responsável, Michael Satrazemis, já insinua um risco maior ao menos aos coadjuvantes. O líder (e aí sim, imortal) Daryl vai na frente na brincadeira do chão de lava com zumbis, e depois dele, até pela característica escorregadia das rochas, junto à ameaça do diretor com o risco, realmente tornam a cena angustiante, como poucas nos últimos anos da série. Fatalmente, depois disso, há uma preocupante pausa, mas cirúrgica e objetiva (finalmente) para o desequilíbrio futuro da relação entre Daryl e Carol.

Enquanto isso, no risco e trabalho em equipe, cada secundário vai ganhando um microcosmo de desenvolvimento, que para quem é fã e já manja, é sinônimo de morte, algo historicamente estabelecido na série. Ou seja, a partir dali alguém pode sobrar, e sempre quando isso acontece, a angústia durante o episódio se torna constante. O diretor parece ter ciência disso e escolhe sabiamente não trocar de núcleo, só mudando em pequenas e esporádicas cenas para o desenrolar de Alfa e a descoberta da traição de Gama, que aí já não é tanto um problema do episódio porque foi terrivelmente desenvolvido nos episódios anteriores, mas até nisso o episódio acerta ao focar mais na sugestão inicial para a prática ficar em outro capítulo, e assim explorar uma surpreendente e funcional tensão sexual entre a líder e Negan, que ganha um animalesco sexo (pena que não mostrado, mas mesmo assim sugestivamente poético e bizarro) após peitar Alfa e mostrar sua desconfiança pela experiência na exposição da espiã.

Voltando ao núcleo que interessa, após o surgimento (conveniente também) de alguns susurradores nos arredores, o grupo de prisioneiros consegue encontrar um meio bastante apertado de poder encontrar uma saída. Outra cena de bastante destaque pelos mesmos motivos, um gostinho provocativo e inesperadamente ainda mais corajoso que o anterior, amplificado pelos dois estabelecimentos de riscos anteriores, tanto do desenvolvimento dos personagens quanto da condição física claustrofóbica de Carol, remetendo imediatamente a qualquer coisa que acontecesse ali, sua parcela de culpa seria total. E quase acontece, Jerry se espreme todo, mas consegue por pouco escapar dos dois zumbis que quase o mordem no estreito buraco… Mas é isso mesmo? Zumbis aparecendo para dar vulnerabilidade aos personagens? É por isso que The Walking Dead precisa explorar mais cenários diferentes como esse.

E chegamos no grande triunfo, o gran finale da jornada por todo o espírito, pistas espalhadas não poderiam deixar em branco. Carol, numa última atitude irracional, mais uma vez atrasa o grupo, mas desta vez houve consequências. Mas antes de falar delas, é necessário enaltecer a destreza sutil do roteiro, que sabe tratar de temas passados, afinal, não é a primeira vez que ela fica louca, tampouco que perde um colo materno, mas excepcionalmente a reciclagem é a arma para um futuro dramático ainda mais potente, a perda de confiança do grupo por egocentrismo. E aí chegamos no clímax (com direito a mais uma coincidência de ter dinamites ali), onde nem todos conseguem escapar, e Connie e Magna acabam presas (e se duvidar mortas) na caverna, sem uma perspectiva de saída, típico final desolador (que seria ainda mais se fossem outros personagens ali) que a série costumava ter. 

Em compensação, o que é ainda mais desolador é ver essa consequência plantada previamente desde o início da temporada, dessa possível quebra de relações com a Carol, num show de performance, Melissa MacBride entrega todo o desamparo da personagem pedindo para ter a culpa apontada na cara. E isso é The Walking Dead, aquela série que amassava os personagens ao limite naquele mundo e foi algo que se perdeu, porque eles ficaram, assim como o público, acostumados demais com ele, a ponto de parecer que nada mais tinha riscos ou conflitos gerados por displicência humana. Algo que a 2ª Temporada trabalhava maravilhosamente, quando o acaso e a desgraça colhiam frutos de uma expurgação de nossos dilemas morais. Por mais manjada que tenha sido a elaboração do roteiro para proporcionar o retorno dessas emoções, não deixa de ser um deleite revisitá-las genuinamente, pelo menos por um capítulo.

O medo é o que virá depois daqui, será que finalmente a série acordará e garantirá pelo menos uma regularidade crescente até o final? Porque em mid-season é fácil, já estamos também acostumado com sempre ter os melhores episódios entre os hiatos. Então é difícil ser verdadeiramente crente nisso, já que provavelmente nem a Connie nem a Magna morreram, por exemplo, ou que tudo que a Carol esteja sentido e que os outros sintam por ela seja apenas um ciclo passageiro, e que depois daqui, assim como no episódio da neve, nunca mais a série volte para explorar esse tipo de cenário onde os zumbis podem ser ameaças reais aos personagens de novo. Mas enfim, isso já são outros quinhentos, ao menos o intitulado Squeeze cumpre isoladamente muito bem seu papel, um episódio survival, visceral, memorável e emocionante, digno da melhor época que essa série viveu um dia.

The Walking Dead – 10X09: Squeeze — EUA, 23 de fevereiro de 2020
Direção: Michael Satrazemis
Roteiro: David Leslie Johnson
Elenco: Norman Reedus, Danai Gurira, Melissa McBride, Avi Nash, Christian Serratos, Ross Marquand, Josh McDermitt, Thora Birch, Samantha Morton, Juan Javier Cardenas, Seth Gilliam, Khary Payton, Cailey Fleming, Nadia Hilker, Cooper Andrews, Dan Fogler, Angel Theory, Lauren Ridloff, Kenric Green, Kevin Caroll
Duração: 45min.