Takashi Shimizu

Crítica | O Grito (2020)

Envolto em especulações e tratado como “o reboot que ninguém pediu”, O Grito é a nova versão da maldição japonesa transformada em narrativa estadunidense. Ao organizar a agenda para conferir a produção, um dos mecanismos mais comuns do crítico de cinema diante deste tipo de abordagem renovadora da indústria cultural é acionar o sensor “viu que eu disse?”, isto é, “aquele” botão que reafirma a nossa convicção acerca do fracasso retumbante diante de algo que não acreditamos que seja possível dar certo. A atmosfera amaldiçoada de O Grito nos permite isso. A primeira refilmagem chegou em 2004 e ganhou duas continuações. O seu “impacto” cultural é relativamente recente e com ampla possibilidade de alcance para as gerações mais recentes. O universo de Samara Morgan, em 2017, ganhou continuação e fracassou grandiosamente, sem conseguir captar o clima tecnológico mais contemporâneo.

Diante de tantas possibilidades para dar errado, por qual motivo Sam Raimi se interessou em reiniciar a história que contou há menos de 20 anos? Será que o filme vai se apresentar como uma história sem razão de existir, enfraquecida por causa de tantos investimentos dentro de uma mitologia considera já esgotada? São muitas as perguntas, mas todas com a sua devida resposta. Primeiro, preciso reforçar que diferente do esperado pelo tal sensor crítico, O Grito não é um filme descartável, nulo, sem sentido. Ao contrário, a versão mais atual acrescenta alguns elementos não trabalhados na versão de 2004 e brinca com as expectativas do cinéfilo que vai para a sessão em busca dos problemas para reiterar a ineficácia esperada diante da produção, principalmente em sua falsa caminhada para o hollywoodiano final feliz esperado depois que uma maldição é supostamente aniquilada.

Com subtexto ainda voltado ao esfacelamento da família pós-moderna, o que podemos observar e nos responder diante dos questionamentos sobre o retorno de Sam Raimi como produtor desta versão em 2020 é a rentabilidade deste tipo de história, voltada para a transformação de nossos medos mais profundos em entretenimento recheado de sustos, gritos, desespero e assombrações que nos ajudam a expurgar, durante a sessão, os medos externos, gravitacionais na vida real, mais tenebrosos que qualquer representação ficcional. A mitologia, por sinal, não foi apenas esgotada pelos realizadores estadunidenses e suas continuações, mas também demasiadamente exposta pelo próprio criador japonês, Takashi Shimizu, realizador de numerosas versões da maldição. Por sinal, ao passo que o filme avança e os créditos finais se estabelecem diante do público, somos obrigados a ficar reticentes diante da ideia de um reboot.

Diferente do que geralmente se faz dentro da proposta de reinicialização, aqui temos uma nova refilmagem da história de Shimizu, cineasta responsável pelo “original”, além de ter sido importado para os Estados Unidos, tendo em vista assumir o remake de seu próprio filme, em 2004. Desta vez, Nicolas Pesce toma conta do posto de diretor, dando para a narrativa um clima ainda mais claustrofóbico. Ainda assim, aposto na ideia de remake, apesar das fronteiras tênues com a ideia de reboot. Os realizadores apostam na concentração da história nos Estados Unidos, com desdobramentos trágicos para todas as pessoas que infelizmente se debatem com a maldição. O fogo, mais uma vez, surge como elemento escolhido para o cancelamento do rastro de horror, com personagens envolvidos numa assombração oriunda de um momento tomado por profundo ódio e rancor. As idas e vindas entre passado e presente são constantes, com ligações mais explicativas que a versão de 2004, um pouco mais ousada neste aspecto.

Esclarecido tais aspectos, volto ao questionamento do sensor. Somos obrigados, por conta das experiências com outros universos narrativas, a acreditar que O Grito será um filme catastrófico, mas o resultado não é bem esse, apesar das críticas negativas e das opiniões de muitos cinéfilos e consumidores de entretenimento. O protagonismo desta vez não é charmoso como na trama de 2004, a edição didática próximo ao desfecho colabora com a nossa descrença num cinema que permita ao público agir mais ativamente diante das história que consome e o uso de jumpscare, em alguns momentos, atrapalha a fruição de uma sensação de medo mais orgânica, algo que no entanto pode ser considerado mínimo se comparado ao que é feito no cinema contemporâneo de terror. Nem por isso, podemos considerar a experiência descartável. É na verdade um filme que não se justifica enquanto “novidade”, mas que funciona dentro de sua própria proposta consciente da retomada de uma abordagem já conhecida por boa parte de seu público-alvo.

Vamos, assim, para a história. Adiante retomamos as questões estéticas e contextuais da produção. Com direção do já citado Nicolas Pesce, cineasta guiado pelo roteiro escrito numa parceria com o argumento proposto por Jeff Buhler, O Grito nos apresenta as histórias cruzadas de pessoas envolvidas na maldição que envolve uma casa na rua Campos, 44. Em tempos como o nosso, com vírus viajantes diante de nossa perspectiva global, a maldição alegoriza um contágio, mas numa perspectiva sobrenatural. O acometido não precisa necessariamente ter feito nada de errado, como na cartilha moralista slasher, que dizima os jovens que fazem sexo e usam drogas, ou então, em filmes de possessão, tramas com pessoas tomadas por espíritos malignos depois de brincar erroneamente com algum tabuleiro ouija. Sem poupar qualquer um que tenha se envolvido na maldição, direta ou indiretamente, a assombração da trama é agressiva e não abre espaço para talismãs, rezas e escapatória.

É a própria representação do horror diante do que é inevitável. São vidas com destino já selado, tal como as curvas dramáticas da tragédia clássica. É nessa perspectiva que acompanhamos a Detetive Muldoon (Andrea Riseborough), mãe e esposa em luto, pois o marido morreu por causa de um câncer, há pouco tempo, algo em torno dos três meses. Ela retorna ao trabalho e logo em sua primeira semana participa da investigação de um caso que parece conectado com outra história predecessora, interpretada pelo Detetive Goodman (Démian Bichir), um homem fechado em torno de si, grosseiro, pouco compreensivo e que parece temer qualquer assunto que tenha a ver com a tal investigação do passado recente, algo que levou o seu parceiro para uma trajetória de loucura e horror que depois saberemos ser fruto da maldição em questão, ceifadora do destino de todos. Intrigada, principalmente pelo fato de necessitar de algum sentido adicional em sua vida sofrida, Muldoon se envolve cada vez mais com os acontecimentos em torno da tal casa, ponto catalisador de todo o mal que toma o filme.

O seu mergulho profundo nos impede de acreditar que haverá escapatória. Em sua pesquisa insistente, Muldoon descobre a tragédia que aconteceu no passado de um casal à espera de um filho, conectado pela casa, com a história de Fiona Landers (Tara Westwood), aparentemente a “paciente zero” estadunidense, pois o filme nos leva a crer que ela tenha sido a contagiada que ao chegar de Tóquio, trouxe consigo a maldição “Ju-On”, explicada de maneira muito breve lá pelo meio da narrativa. Sem a presença do pálido Toshio, desta vez, temos a pequena Melinda (Zoe Fish), garota porta-voz da assombração que vem acompanhada de sua falecida mãe. Além de Fiona Landers, o casal Spencer (interpretado por John Cho e Betty Gilpin) e dos policiais que centralizam a história, ainda temos Faith Matheson (Lin Shaye) e William Matheson (Frank Faison), casal atendido por Lorna Moody (Jacki Weaver), especialista em suicídio assistido, chamada para intervir na vida da Sra. Matheson, doente e em fase terminal. Conectados entre si, os personagens têm em comum a tal maldição, adquirida pelo contato com a casa.

Com essa proposta, O Grito nos entrega uma narrativa que segue de maneira eficiente todos os trâmites burocráticos exigidos num filme de terror contemporâneo, esquematizado dentro do sistema industrial com financiamentos que não permitem falhas de ordem estética. Na direção de fotografia, Zack Galler consegue dialogar bem com o design de produção repleto de sépia e tons claros, assinado por Jean-Andre Carriere. Há bastante contraste com os ambientes escuros, em simbiose com o emprego de “alguma” profundidade de campo, responsável por representar as ameaças constantes. Os movimentos são sempre em prol da promoção de sustos, alguns baratos, outros mais sofisticados, elaborados numa parceria também eficiente entre o design de som e os efeitos visuais, ambos assinados por Bryan Parker e Matt Hansen, respectivamente. Não podemos deixar de destacar a maquiagem da equipe de Brenda Magalas, um dos pontos altos neste tipo de filme, setor geralmente desconsiderado diante das nossas preocupações de ordem dramática. Os figurinos de Patricia J. Henderson cumprem a missão de revestir os personagens em seus perfis físicos, sociais e psicológicos, a circular pelos cenários de adornados pela direção de arte assinada por Bruce Cook, igualmente eficiente.

A trilha sonora é assinada pela dupla The Newton Brothers, num trabalho de composição também dedicado, diferente do que se tem feito no campo do terror atualmente. Eles conseguem climatizar a narrativa com alguns toques entre materiais orgânicos e produção eletrônica. Ademais, num retorno ao que foi dito sobre a ideia de reboot, não de remake, cabe ressaltar que O Grito dedica os seus créditos a Nicolas Pesce e Jeff Buhler, inspirados por Takashi Shimizu. Se esse for o caso, o nome de Stephen Susco, roteirista da refilmagem de 2004, deveria estar no filme, não é mesmo? Desta forma, a produção não reinicia o universo dos três filmes, mas recria o japonês Ju-On – O Grito, de Shimizu, numa segunda reprodução, após 16 anos da primeira iniciativa. E, em seu processo criativo, os realizadores continuam no investimento acerca dos problemas que gravitam em torno das famílias contemporâneas, orientais ou ocidentais, tomadas pelos novos modelos sociais, pela violência masculina representada no assassinato da figura de uma matriarca, história transformada em conto folclórico e que serve de alegoria para nos fazer refletir o lugar da mulher dentro do cenário político e social atual. O filme pode até não agradar unanimemente, mas o subtexto em questão é inegável e está lá, basta observar atentamente.

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicolas Pesce
Roteiro: Jeff Buhler, Nicolas Pesce, Takashi Shimizu
Elenco: Andrea Riseborough, Betty Gilpin, Bradley Sawatzky, David Lawrence Brown, Demián Bichir, Ernesto Griffith, Frankie Faison, Jacki Weaver, Jim Kirby, Joel Marsh Garland, John Cho, Lin Shaye, Nancy Sorel, Robert Kostyra, Robin Ruel, Stefanie Sherk, Stephanie Sy, Tara Westwood, William Sadler, Zoe Fish
Duração: 94 min.

Crítica | Almas Reencarnadas

A vingança e o ressentimento funcionam como válvulas que engendram os mecanismos de ação dos espíritos vingativos da cultura oriental, pelo menos de acordo com o que as narrativas cinematográficas nos apresentam. Takashi Shimizu, o homem por detrás da maldição de Kayako e Toshio, em O Grito, ganhou as salas de cinema brasileiras em 2006, período do lançamento de Almas Reencarnadas, produzido no ano anterior, no Japão. Interessante observar que neste filme, a metalinguagem se estabelece como a base para a condução da história, algo semelhante ao desenvolvimento de Ju-On 2, com a mídia, desta vez a seara de produção cultural, o cinema, dedica-se ao processo de reencenação de uma tragédia do passado, violentamente trágica e potencialmente dramática para se transformar numa narrativa ficcional.

Sob a direção de Shimizu, guiado pelo roteiro que escreveu em parceria com Masaki Adachi, Almas Reencarnadas acompanha a trajetória de um grupo de realizadores dispostos a reproduzir uma tragédia ocorrida nos anos 1970, num hotel distante, situado numa região menos urbana do Japão. Foi a ocasião do professor Norihasa Amori (Atsuhi Haruta) visitar o local com a sua família e colocar em ação um tenebroso plano de assassinar as pessoas, inclusive os seus acompanhantes, tendo como tarefa filmar a realização numa câmera 8mm e depois se suicidar, numa busca por respostas para as suas dúvidas acerca da reencarnação. Após alguns anos, o interesse das pessoas pelo acontecimento move a “lenda” que se provará não ser bem uma lenda ao passo que os integrantes da equipe de produção começam a vivenciar situações pouco convencionais, isto é, um elo, mesmo que breve, com o sobrenatural.

O idealizador deste projeto de releitura dos acontecimentos é Ikuo Matsumara (Kippei Shiina), homem interessado na história 35 anos depois de tudo que ocorreu. Acompanhamos, como espectadores, o processo de produção nos bastidores, inicialmente cheio de energia, sempre envolto em mistério, principalmente com a aproximação da data das filmagens no próprio local, ambiente que tal como na mitologia do universo da franquia O Grito, traz as energias malditas dos acontecimentos em suas paredes. A pessoa mais atormentada nisso tudo é Nagisa Sugiura (Yuka), jovem atriz que começa a ser atormentada por pesadelos que envolvem os assassinatos e espíritos que parecem interessados em lhe enviar uma mensagem. O que será que há por detrás dessa tentativa de comunicação? Os espíritos serão piedosos com os envolvidos?

Estas são perguntas que vão surgindo ao passo que a história avança. A atriz principal do elenco, em seu tormento, começa a se questionar se pode ser a própria reencarnação das pessoas mortas de maneira tão brutal naquele local. Em sua investigação, ela desconfia ser o retorno de Chisato (Mao Sasaki), a filha do assassino responsável pelos crimes no hotel. E se os atores e membros da equipe técnica fossem todos, reencarnações das vítimas do terrível acontecimento? É o que a narrativa parece nos apresentar. Como de costume nas produções japonesas, há um feixe de blocos com personagens distintos do ponto central, todos a gravitar entre os principais acontecimentos, em ligações bem passageiras com os mais presentes na história, filmados pela equipe de um cineasta que assumiu, quando entrevistado na ocasião de lançamento do filme, ter tido maior liberdade de criação que em O Grito 2, produção realizada logo depois de Almas Reencarnadas, afinal, não é novidade alguma que nos esquemas estadunidenses a voz do produtor e de quem injeta a grana é mais alta e com tom definitivo.

Durante sua realização em solo japonês, Shimizu introduziu tons de pesadelo mesclados com alucinações, além de imprimir um tom documental para a produção sobre almas que parecem ainda atormentadas diante do que ocasionou suas partidas para outra dimensão. Os bastidores de produção lembram um making of, fundido com a ficção macabra que nos é apresentada, repleta de breves furos de roteiro, mas nada que atrapalhe a condução da história de uma maneira mais geral. Na direção de fotografia, Takahide Shiba Nushi é guiado a trabalhar bem a movimentação da câmera pelos espaços, principalmente no constante uso de plano-sequência pelos corredores do hotel, algo parecido com as estratégias narrativas adotadas por Stanley Kubrick em O Iluminado.

Aliás, o design de produção de Iwao Saitô também possui conexão com o cineasta ocidental, em especial, com a produção do Quarto 227, ambiente semelhante ao que encontramos no hotel do filme referenciado. Os efeitos sonoros de Kenji Shibasaki são envolventes, nas não arrepiantes como a incursão de horror em O Grito, por exemplo, mais eficiente se analisado comparativamente. A trilha sonora de Kenji Kawai faz um bom trabalho, mantendo-se relativamente discreta entre uma passagem e outra, sem aderir ao histrionismo sonoro para assustar o público. Ainda na seara técnica, os efeitos visuais de Tomoya Ohata também são adequados, mesmo que visivelmente mais rústicos que o costumeiro em nosso sistema de produção cinematográfica.

Ah, importante notar a relação com A Tortura do Medo, de Michael Powell, referencial imediato quando estamos diante da primeira aparição do pai que assassina todos as pessoas que encontram pelo seu caminho no hotel. Mesmo com a resolução do mistério, temos o final nada favorável para alguns personagens que tiveram contato com as entidades sobrenaturais do filme, ansiosas em estabelecer comunicação para a dor e ressentimento que as mantiveram conectadas com o desejo de retribuição ao longo dos anos. Ademais, podemos interpretar Almas Reencarnadas como mais uma produção de Takashi Shimizu que se voltou para as reflexões acerca da disfunção psicológica familiar, neste caso, de um pai, responsável pelo esfacelamento de sua família, alegoria para tantas outras, não apenas japonesas, mas no mundo inteiro, de maneira geral. A brutalidade dos acontecimentos nos mostra como a violência se banalizou nas sociedades contemporâneas, um mal global que a cada dia faz novas vítimas e traumatiza outras tantas.

Almas Reencarnadas (Rinne) — Japão, 2005
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Takashi Shimizu, Masaki Adachi
Elenco: Yûka, Karina, Kippei Shîna, Tetta Sugimoto, Shun Oguri, Marika Matsumoto, Mantarô Koichi, Atsushi Haruta, Takako Fuji
Duração: 114 min.

Crítica | Ju-On – O Grito 2

Em Ju-On: O Grito 2, o cineasta Takashi Shimizu traz para o público o que podemos chamar de um bom filme, mas com a mesma premissa, num ciclo de repetições que depõe contra a criatividade do realizador, um homem que possui domínio da técnica, mas parece gostar de contar sempre a mesma história para o público, afinal, as perseguições de Kayako e Toshio neste segundo filme não perfaz nada de diferente do que os espectadores já haviam contemplado antes. Há, não podemos deixar de exaltar, um interessante jogo metalinguístico com a linguagem audiovisual e uma ousada crítica social aos desserviços da mídia, seara discursiva tão tenebrosa quanto o campo da comunicação ocidental, focado na tragédia e na capitalização da miséria alheia como estratégia de manutenção da audiência.

Mais uma vez, somos informados que diante das circunstâncias expostas pelo filme, isto é, a morte de alguém durante um momento de ódio, uma maldição se estabelece. É assim que ao longo de seus 92 minutos, Ju-On: O Grito 2 apresenta o desdobramento de situações, tendo como centro a maldição, com personagens em “crise” a gravitar em torno de seus males. Há recapitulações da história anterior, tendo em vista situar os espectadores diante dos fatos que serão explanados. Uma equipe de televisão resolve promover a investigação acerca de uma lenda urbana sobre uma suposta maldição envolvendo a casa que é o ponto de contato entre humanos incautos e a maldição que se alastra com aqueles que decidem adentrá-la.

O problema é que não parece ser bem uma lenda, mas uma maldição de verdade, pois acontecimentos macabros começam a ocorrer com os envolvidos na produção sensacionalista, responsável por buscar uma espécie de reencenação de fatos, sem sequer imaginar que a ficção está prestes a se provar realidade. Os tons macabros começam a se expandir e o envolvimento dos personagens com a dupla Kayako e Toshio ameaça as suas respectivas existências. Todos que cruzam os caminhos de tais entidades encontram um final nada desejável, padrão narrativo da franquia, afinal, em todos os filmes, não há possibilidade de escapatória para os que tem a infelicidade de cruzar o caminho da maldição.

Sob a direção de Shimizu, desta vez, acompanhamos mais uma narrativa despreocupada com a linearidade, tampouco com a exatidão dos fatos contados. O que temos é um conjunto de blocos narrativos que dialogam bem rapidamente entre si, envolvidos apenas pela maldição que centraliza a história, o que faz com que os seus personagens tenham o habitual encontro fatídico com as entidades que os arrastam para o além. No entanto, mesmo que tenha caráter episódico, Ju-On: O Grito 2 focaliza um pouco mais na trama da atriz, espécie de ponto nevrálgico da história. A tal atriz citada é Kyoko (Noriko Sakai), jovem conhecida por suas incursões em filmes de terror, espécie de Jamie Lee Curtis do cinema japonês. Ela está envolvida na gravação de um especial de TV, telefilme sobre fantasmas, comandado por Kusuke (Shingo Katsurayama).

Em seu trabalho, ela ainda divide o tempo para dar atenção ao marido, o jovem Masashi (Ayumu Saitô). Certo dia, eles sofrem um acidente de carro logo depois de atropelar um gato e ter contato com uma entidade no automóvel que os guiava. Ele morre e ela fica perdida ao trafegar pela história sem compreender a presença do ominoso em seu cotidiano, principalmente depois de algumas revelações sobre a sua gravidez e o possível fato de ser uma possível veiculadora do mal dentro de si. Tanto ela quanto qualquer um que cruza o seu caminho encontra um destino abominável. Apenas questão de tempo, distribuído no filme entre os personagens aparentemente isolados e os recursos narrativos mirabolantes para reforçar que estamos diante de uma história de horror genuinamente nipônica.

Um dos recursos interessantes da empreitada foi empregar a câmera aparentemente solta, como se fosse um ponto de vista a vagar pelas ruas de Tóquio, espécie de alegoria para os fantasmas que trafegam pela cidade em busca de suas próximas vítimas. É um abordagem de linguagem oriundo de uma história que se preocupa com a forma que será contada. Temos os bons efeitos visuais de Majime Matsumoto, o design de som de Masaya Kitada, inquietante e atmosférico, o design de produção de Toshiharu Tokuia, captado pelas imagens produzidas no setor de direção de fotografia, assinado por Takushô Kikumera, além da básica, mas funcional trilha sonora de Shiro Sato, menos imponente que os efeitos sonoros de Kitada, mas ainda assim, um recurso que sabe se fazer presente. Importante lembrar que o cineasta que comanda a produção assumiu estar conectado profundamente com todos os setores, sendo colaborador, inclusive, dos famosos efeitos de ordem sonora, emitidos pelas espasmódicas entidades do filme.

Ademais, o que podemos reforçar é o que foi considerado na abertura desta reflexão, isto é, a observação acerca do aproveitamento que a mídia faz em relação ao potencial dramático da história de Toshio e Kayako, vítimas de uma tragédia que pode ser alegoria dos tantos acontecimentos mortais que ocorrem cotidianamente nos quatro cantos do planeta, parte de nossa existência envolta pelo aterrorizante tecido da violência. O processo de narração com o filme dentro do filme é também um dos acertos do filme, pois potencializa os temas abordados no desenvolvimento crítico da história, sem precisar impactar com sangue e gore, marca registrada de Takashi Shimizu, cineasta que logo adiante iria partir para o comando as versões estadunidenses de seu “bestiário”.

Ju-On – O Grito 2 (Ju-On 2) — Japão, 2003
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Takashi Shimizu
Elenco: Megumi Okina, Misaki Itô, Misa Uehara, Yui Ichikawa. Kanji Tsuda, Kayoko Shibata, Yukako Kukuri, Yuya Ozeki, Takako Fuji
Duração: 92 min.

Crítica | Ju-On – O Grito

Segundo elementos do folclore japonês, toda vez que alguém morre diante de uma situação de extremo ódio, uma maldição se estabelece. Isso é o que ouvimos nas aberturas dos filmes da franquia O Grito, tanto nas versões nipônica, isto é, a base, o ponto de partida, quanto nas estadunidenses, o bojo da refilmagem e do reboot.  Sob a direção e roteiro de Takashi Shimizu, os filmes deste universo começaram em 1998, ocasião do lançamento de Katasumi e 4444444444, curta-metragem que fixou as bases da história de Kayako e Toshio, personagens elaborados pelo cineasta ao longo de sua formação Escola de Cinema de Tóquio, espaço acadêmico onde moldou a sua aptidão para a produção cinematográfica.

Basicamente, em O Grito, o que encontramos é a presença do já citado folclore japonês, com a maldição a se erguer com base na forma das vítimas, além de manter-se no local onde algo terrível aconteceu. Alegoricamente, funciona como uma espécie de infecção, pois no mínimo contato, a maldição se estabelece e, para piorar, não há nada material que a resolva. Não adianta reza, exorcismo, crucifixo, alho, estaca, bala de prata ou qualquer outra coisa. A maldição nunca encontra um fim, mesmo quando descoberta e divulgada. Nos filmes estadunidenses, por exemplo, é muito comum uma entidade ou espírito se manifestar em torno de alguém para denunciar a sua morte trágica. Resolvido o problema, o mal se afasta e as coisas voltam ao normal.

Nas narrativas ocidentais, ao menos a extensa lista de filmes a que tive acesso, depois que a maldição encontra alguém, não há escapatória. Haverá luta, embate, mas não tem jeito, ela dominará no desfecho. Dentro da dinâmica de O Grito, Kayako e Toshio estão unidos para trazer o horror para a vida daqueles que tem a falta de sorte de cruzar os seus caminhos malditos. Em O Chamado, o horror vinha da fita maldita, pois ao assistir, a pessoa tinha sete dias até a sua morte. A maldição de O Grito se manifesta quando alguém decide ter acesso à casa assombrada. Sem a linearidade e a explicação exaustiva das narrativas estadunidenses, no filme, encontramos blocos de histórias fragmentadas que dialogam todos com a tal maldição, um choque cultural que pode não responder às expectativas de alguns espectadores ocidentais despreparados ou resistentes às mudanças bruscas de padrões.

No enredo, temos inicialmente a história de Rika (Megumi Onika), assistente social voluntária que é chamada para cuidar de uma idosa, Sachie (Chikako Isonura), senhora catatônica que não dá uma palavra há tempos e sequer muda a direção do olhar fixo, constantemente. Rika percebe na casa a atmosfera ominosa, extremamente sombria e misteriosa. Ela circula pelo espaço e descobre um armário selado com fita. O que será que há ali dentro? Encontrará respostas para as suas perguntas diante da curiosidade daquele lar? Ao vasculhar, ela deslacra o móvel e traz para si a pior das situações, pois era ali que a maldição estava instalada.

Deste momento em diante, todos que cruzam o seu caminho são acometidos pelo mal. Essa é uma parte, um dos blocos narrativos. Kazumi (Shuri Matsuda) é a enteada da senhora que habita a casa. Em determinado ponto ela se depara com o emaranhado de horror de Kayako e Toshio, tal como o seu marido, Katsuya (Konji Tsuda). Ambos são parte integrante de um dos blocos narrativos. Temos ainda Izumi (Misa Uehara), uma colegial que acaba se encontrando com a maldição e tem o seu destino selado tragicamente. São todos parte de um problema em comum: a perseguição de Kayako e Toshio, entidades que selam o destino destas pessoas de maneira taxativa, pois como já apontado, nada consegue exterminá-los ou fazê-los conjugar o verbo “perdoar”. Uma vez amaldiçoados, já era.

No que tange aos elementos estéticos, a produção é uma experiência bem conduzida. As tomadas de câmera lenta, as abordagens estáticas, os enquadramentos que dão vigor ao horror, dentre outras estratégias bem-sucedidas, fazem parte da eficiente direção de fotografia de Takushô Kikumera. A trilha sonora de Shiro Sato, apesar de atmosférica, surge em poucos momentos, quando comparado aos efeitos sonoros do design de som de Masaya Kitada, bastante assustadores, espasmódicos, tais como as assombrações da trama. O design de produção de Toshiharu Tokuia também é adequado, pois transforma bem os espaços por onde circulam os personagens, sem dispersões visuais que atrapalhem a condução da história.  Numa análise geral, além dos elementos estéticos bem conduzidos, O Grito dialoga com diversas questões contextuais do nosso contemporâneo, não apenas no bojo das relações orientais. São reflexões que podemos chamar de “universais”.

A família é o caso mais pontual. Ao longo dos 92 minutos da narrativa, a família é apresentada como um espaço de fragmentação, com as suas partículas espalhadas diante de situações devastadoras, tais como as apresentadas em O Chamado. Se lá a menina é jogada no poço, aqui temos uma mãe morta por um pai possuído, homem que em seguida aniquila o seu filho e o animal de estimação, um gato preto, criatura que na cultura japonesa, é visto como arauto do inferno, representação do maligno.  Ademais, o que temos é a ação de fantasmas ressentidos em busca de vingança por algo ocorrido ainda em vida. Retirados de suas existências humanas por meio de situações angustiantes, eles retornam para cobrar pelo que lhes fora extraído, não é a toa que duas décadas depois, serão reiniciados, haja vista o lançamento do novo filme da franquia em 2020, três anos depois do equivocado retorno de Samara em O Chamado 3.

Ju-On – O Grito (Ju-On) — Japão, 2003
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Takashi Shimizu, Bobby White
Elenco: Megumi Okina, Misaki Itô, Misa Uehara, Yui Ichikawa. Kanji Tsuda, Kayoko Shibata, Yukako Kukuri, Yuya Ozeki, Takako Fuji
Duração: 99 min.

Crítica | O Chamado vs. O Grito

Os arrepiantes ícones do folclore oriental, em especial o japonês, reinterpretados em nossa cultura através do cinema, deram vazão a um sistema gigantesco de produção e distribuição quando os ocidentais perceberam o potencial de determinadas histórias para o nosso público. Alguns filmes foram refeitos, outros chegaram até mesmo a ganhar exibição em salas de cinema, com campanha de divulgação sofisticada. Foi uma nova era para o terror, recém-saído dos desdobramentos da massificação slasher proposta por Pânico e recém-iniciado na prática de releituras de clássicos do cinema, sendo O Massacre da Serra Elétrica, um dos primeiros passos dados neste segmento que tal como todos os outros do sistema industrial, acabam adentrando na zona de exaustão.

Essa, no entanto é outra história, paralela ao processo de popularização do Horror Japonês, ou J Horror, como alguns chamam, isto é, nome empregado às narrativas ficcionais inspiradas no criativo e amplo folclore japonês, repleto de histórias macabras e assustadoras. O foco desses enredos é a antecipação do pavor, o estabelecimento do horror com imagens apavorantes, guiadas pelo horror psicológico de suas presenças. Em seus centros narrativos, há toques de exorcismo, possessão, premonição e outras criaturas deste folclore diversificado, tendo a ira dos que já foram como um ponto importante para justificar seus constantes retornos em busca do tormento das pessoas vivas que lhe devem algo.

Quando as histórias de espíritos vingativos orientais começaram a se popularizar na cultura ocidental, muitas críticas trataram de apontar as nossas dificuldades em acompanhar determinadas tramas sem linearidade ou com as câmeras explicativas, a detalhar cada passo da narrativa para os espectadores. As reflexões exaltavam a genialidade dos orientais no desenvolvimento de propostas mais psicológicas, diferente da nossa abordagem mais visceral, física e sanguinolenta das coisas. Até certo ponto, as análises tinham razão. Outro ponto foi a importação destas tramas, inicialmente revigorantes para o campo do terror, mas exauridas em poucos anos de produção, haja vista a exaustão de refilmagens, continuações e afins. Samara e Kayako, as entidades de O Chamado e O Grito, respectivamente, foram as duas histórias nipônicas mais “queridas” pelo sistema estadunidense.

Pelo que consta, os orientais também veneram os dois segmentos, pois a quantidade de reinícios, continuações e abordagens para tais espíritos vingativos é bastante extensa. E, a união de tais universos foi uma questão que até demorou de aparecer, numa comprovação de que não somos os únicos acostumados a exaurir temas. O Chamado Vs. O Grito, dirigido por Koji Shiraishi, guiado pelo roteiro que também assina, inspirado nos personagens de Hideo Nakata e Takashi Shimizu, foi lançado tardiamente, em 2016, numa prova cabal da falta de originalidade e da necessidade de oxigenação das histórias de terror orientais, também irritantes no que diz respeito aos processos de repetição, viciados em manter-se sempre a contar a mesma história.

Aqui, a solução dos personagens para a maldição é colocar Sadako e Kayako diante de uma disputa pela alma que ambas querem arrastar pelos paredões dos limbos que habitam. Antes disso, muita coisa acontece, repetições, por sinal, do que já vimos anteriormente, isto é, pessoas assistem ao vídeo amaldiçoado e sofrem as consequências do ataque de Samara, uma entidade vingativa que desconhece a palavra perdão. Em paralelo, alguém que mora próximo ou passa diante da famosa casa amaldiçoada por Kayako e Toshio acaba sendo perseguido pelas presenças vingativas que também desconhecem o verbo perdoar e arrastam para o seus universos qualquer pessoa que entre em contato, mesmo quando é contra a vontade própria da vítima, posta diante da casa por alguma ironia do destino ou por trolagem de terceiros.

Na trama, o professor Morishige (Masahiro Kamoto) é um especialista que beira à obsessão no que tange às lendas urbanas. Ele fala com fascínio, mas em alguns trechos parece uma caricatura. É neste contexto que circunda um vídeo sobre uma suposta maldição que toma aos que a assistem. As alunas Nastumi (Aimi Satsukawa) e Yuri (Mizuki Yamamoto) são as cobaias desse teste do horror. Elas encontram o vídeo numa ocasião inesperada: a busca de um videocassete para assistir e transferir um registro de casamento da família para o formato DVD. Horrorizadas com a possibilidade da morte bem perto de si, as jovens buscam uma estratégia para dar fim à maldição. Assim, surge o “exorcista” Keizo (Masanono Ando), contatado para dar apoio na finalização do mal, o que faz surgir a ideia de colocar tais forças em confronto.

Mas, o leitor deve se perguntar, onde está Kayako e a maldição de O Grito neste filme? Até agora basicamente o que se tem é a descrição da presença de Sadako. Pois é assim que a história se desenvolve também, pois o filme é basicamente sobre a menina do poço, o que deixa pouquíssimo espaço para a maldição com sons agonizantes e miado obscuro de um gato. Toshio, para o leitor ter uma ideia, aparece mais que a menina protagonista do universo em questão. Há alguns trechos paralelos com Suzuka (Tina Tamashiro), o elo com a casa assombrada por um mal que se estabeleceu depois de uma situação de ódio, mas é algo pouco substancial para tratar o filme como um crossover.

É injusto, inclusive, haja vista a trama ser mais “O Chamado” que “O Grito”. Tais problemas se refletem em seu desfecho, letárgico e insosso, pois o embate tão esperado não faz jus ao processo de enrolação proposto pela narrativa. Há um clima instigante, construído com base na atmosférica direção de fotografia e dos efeitos visuais de Tomo Hyakutake, acompanhado pelo sempre eficiente trabalho da trilha sonora e do design de som, assinados por Sakura Katsumata e Kôji Endô, respectivamente. Ademais, o que a trama nos mostra é a excessiva repetição de fórmulas já desgastadas, como explicitado nos primeiros parágrafos desta reflexão.

O Chamado vs. O Grito (Sadako Vs. Kayako) — Japão, 2016
Direção: Kôji Shiraishi
Roteiro: Kôji Shiraishi, Takashi Shimizu
Elenco: Mizuki Yamamoto, Tina Tamashiro, Aimi Satsukawa, Misato Tanaka, Masahiro Kômoto, Masanobu Andô, Ichiruko Dômen, Runa Endo, Maiko Kikuchi, Masayoshi Matsushima
Duração: 99 min.

Crítica | O Grito 3

Takashi Shimizu é um cineasta competente e as suas incursões no universo da maldição de Kayako e Toshio comprovaram isso. Há domínio da técnica, mesmo que os personagens e suas necessidades dramáticas não estejam bem desenvolvidos. Assim, quando nos debruçamos sobre a análise de mais uma incursão nos meandros da casa assombrada que traz entidades malignas que se solidificaram depois de uma morte envolvendo ódio, torna-se complicado trazer algo que não seja mais do mesmo para o leitor. É isso que acontece com O Grito 3, um filme que não é abominável narrativamente, mas não traz nada de diferente dos seus antecessores. Ainda creio que se olharmos de maneira mais abrangente, os filmes parecem a mesma coisa. Só mudam alguns membros do elenco e pronto: Kayako desce as escadas como uma aranha e Toshio solta o seu inquietante miado para levar os personagens incautos para as profundezas do limbo.

Shimizu não assumiu a realização, cabe ressaltar. A referência no que fiz respeito ao processo de repetição se dá pelo fato de todas as versões, das cinematográficas as televisivas, mudarem os personagens para contar a mesma coisa, no mesmo modo de operação: entrada na casa, maldição posterior. Sob a direção de Toby Wilkins, guiado pelo roteiro de Brad Keenê, dramaturgo inspirado pelos personagens e argumento de Takashi Shimizu, a maldade que envolve o fatídico caso de Kayako e Toshio, mortos pelo marido da mesma, agora espalhou-se e está em Chicago, problema destinado a ceifar a vida das pessoas que gravitam em torno de quem entrou em contato com a maldição. Para engrossar o caldo da história, os planos diabólicos das entidades podem não dar certo, pois há uma suposta irmã de Kayako disposta a vir do Japão e ajudar na resolução de algo que não acreditamos, isto é, o envio dos espíritos vingativos para outra dimensão, longe dos tormentos que causam aos humanos.

No enredo, temos Jake (Matthew Knight), único sobrevivente do filme anterior, internado sob os cuidados de Amber (Shawnee Smith), a especialista responsável por seu enigmático caso. Ele protagoniza a cena mais impactante do filme, pois clama por ajuda, mas é tratado com um pouco de descrença por parte da terapeuta. Ele pede que ela não o deixe sozinho em circunstância alguma, mas não é o que acontece. Num breve momento de ausência, o espírito vingativo aparece, dizima o jovem com requintes de crueldade, deixando um rastro de sangue no quarto de internação. Será esse um dos motivos de Amber começar a levar a história para além do ambiente de trabalho, pois além da morte misteriosa para alguém que aparentemente cometeu suicídio, temos ainda algumas circunstâncias que estão a testar o ceticismo da doutora.

Essa história, no entanto, é a mais paralela de todas, pois um dos focos principais é a família de Andy (Beau Mirchoff) e Lisa (Johanna Brady), ambos em luta para sobreviver e manter-se com a moradia que tem, além de ter uma irmã com problemas graves de saúde. Eles estão em dificuldade financeira e acabam travando contato, mesmo que por acidentes, com as entidades vingativas do filme. Será no prédio onde moram que as assombrações farão um grande festival de mortes, semelhantes ao que presenciamos em tramas de cunho slasher. Desta vez não basta apenas desaparecer com o corpo. É preciso ao menos uma dose mínima de flagelação. À guisa de curiosidade, Kayako e Toshio, interpretados antes pelos mesmos atores das versões japonesas, desta vez, foram as entidades estão sob a responsabilidade de Aiko Koruschi e Shimba Tsuchiya, respectivamente.

A direção de fotografia não perde a qualidade, pois Anton Bakarski consegue dar conta da sua missão, tal como o design de produção de Borislav Miharlorski, atencioso nos detalhes da cenografia e da direção de arte, todos dedicados a deixar os personagens a circular num ambiente crível. Os efeitos visuais de Vasko Dikov também estão caprichados, sem ficar devendo nada aos antecessores nesta seara da realização, dedicada principalmente pela consciência da falta de mais conteúdo na história que é contada. Ao invés de ser um filme com personagens psicologicamente abalados, o que acompanham é uma bricolagem de sustos e imagens abomináveis. Ademais, o som de Dan Snow emula os artifícios do design empregado nas versões japonesas, na refilmagem e em sua continuação. A trilha sonora de Sean McMachon não chega a apresentar a complexidade de uma textura percussiva de Christopher Young, mas também não é tão descartável. É assim que é O Grito 3, uma manifestação de pavor que não ecoou como os seus antecessores.

O Grito 3 (The Grudge 3) — Estados Unidos, 2009
Direção: Toby Wilkins
Roteiro: Brad Keene, Takashi Shimizu
Elenco: Matthew Knight, Mike Straub, Shawnee Smith, Aiko Horiuchi, Shimba Tsuchiya, Emi Ikehata, Takatsuna Mukai, Johanna Braddy, Marina Sirtis
Duração: 90 min.

Crítica | O Grito 2

Quando O Grito 2 foi lançado, em 2006, a massificação das histórias de terror orientais na indústria hollywoodiana estava ainda mais densa que o contexto do filme anterior, pois além de Sadako e Kayako, outras manifestações malignas do outro lado do mundo ganharam ou já estavam com os seus projetos em andamento, vide Água Negra, O Olho do Mal, Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado, etc. Em sua continuação, as presenças espirituais negativas continuam as suas perseguições, num circuito de amaldiçoados que parece ser um ciclo sem fim de horror. Como é de se esperar, a abertura traz uma breve recapitulação do que aconteceu anteriormente, reforçando que “quando alguém morre num momento de raiva, seu espírito rancoroso retorna para aterrorizar as pessoas vivas”.

Sob a direção de Takashi Shimizu, o filme possui uma série de inconsistências, mas ainda assim se mostra um exercício bem elaborado da linguagem cinematográfica. Orientado pelo roteiro que assinou em parceria com Stephen Susco, o cineasta mantém muito das bases orientais no desenvolvimento de sua história. Ao longo de seus 102 minutos, acompanhamos o estabelecimento de uma nova investigação me torno da maldição que destruí as vidas dos azarados da produção anterior. A protagonista interpretada por Sarah Michelle Gellar, inclusive, retorna numa breve participação, tendo seu destino já exposto no trailer da divulgação.

Como sabemos, Karen Davis quase morreu no final de O Grito. Ela colocou fogo na casa, acabou por matar o namorado, mas a maldição ainda continuou vigente. Seus familiares ficam sabendo brevemente da história e é assim que a irmã mais nova, Aubrey (Amber Tamblyn), afastada depois de um desentendimento, é praticamente obrigada pela mãe a ir em busca da irmã. Reticente, a garota segue uma trilha que jamais imaginaria para a sua vida, num envolvimento macabro que pode também resultar num desfecho trágico, tal como o de Karen no hospital, perseguida por Kayako até cair do último andar e morrer.

Chocada, Aubrey não sabe se de fato foi um suicídio, algo colocado como a motivação dos céticos. Parece haver algo mais e ela não sossegará enquanto não descobrir. Será no contato com a casa que envolveu a sua irmã na maldição que o destino da garota ganhará contornos obscuros. Em paralelo ao desenvolvimento deste segmento narrativo, temos também as três colegiais que decidem fazer tolices típicas de adolescentes desocupadas: visitar a tal casa amaldiçoada, atividade que já demarca as suas respectivas mortes logo adiante, apenas uma questão de tempo, afinal, pelo que consta na mitologia criada por Shimizu, não há antídoto para a ira dos espíritos vingativos desta casa tomada por forças malignas.

Diante do exposto, a maldição se alastra, atingindo inclusive a família de Trish (Jennifer Beals), uma mulher com casamento fracassado, tomada pelo desânimo e outras sensações típicas das fraquezas psicológicas da vida urbana contemporânea. As conexões, por sinal, ganham melhor relação com o espectador por não precisar da “cola” do narrador explicando tudo. As cenas são expostas e cabe ao público acompanhar de forma participativa da “colagem”. Ademais, em O Grito 2, a assombração continua a sua missão de tomar o corpo de quem decide entrar em contato, ou então, carregar consigo quem teve a má sorte de estar pelo caminho. Takako Fuji, atriz que havia interpretado Kayako nas outras incursões do universo de Shimizu, retorna para esta continuação e faz bem o seu trabalho, em paralelo aos efeitos visuais da equipe de Kory Jones, bem eficientes no que diz respeito aos elementos técnicos da produção.

Por falar em visualidade, esteticamente, O Grito 2 não é um filme que enfrenta problemas. A trilha sonora de Christopher Young continua atmosférica, bem adequada no acompanhamento das imagens desenvolvidas pela direção de fotografia de Katsumi Yanagijima, também eficientes. Com enquadramentos e movimentos que valorizam a sua iluminação, o setor cumpre bem o seu trabalho ao registrar as imagens diante do design de produção de Iwao Satô, gerenciador da equipe que conta com a cenógrafa de Tatsuo Ozeki, também cuidadosa na construção dos espaços por onde circulam os personagens, num trabalho arquitetural competente. O som, matéria básica para a atmosfera do filme, continua um dos seus pontos mais conceituados, principalmente nas cenas de aparição das assombrações.

Com todas essas qualidades, O Grito 2 poderia ser um filme com mais potencial dramático se as histórias fossem, digamos, mais bem elaboradas. Há pouco espaço em cena para a interação das irmãs Davis, o que nos faz purgar pouco pela morte de uma delas, seguida da sensação de solidão e abandono da outra, visto que fica evidente que a mãe prefere a filha mais velha. A crise na família de Trish também beira ao superficial, tal como a história da maldição que acomete Allyson (Arielle Kebbel), jovem que sofre bullying na escola e só chega até a casa para sentir-se parte das colegas que a rejeitam constantemente. Era apenas uma questão de ajustes, pois as propostas dramáticas dos segmentos possuem potencial que não é aproveitado.

O Grito 2 (The Grudge 2) — Estados Unidos/Japão, 2006
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Stephen Susco, Takashi Shimizu
Elenco: Amber Tamblyn, Arielle Kebbel, Edison Chen, Jennifer Beals, Sarah Michelle Gellar, Sarah Roemer, Takako Fuji
Duração: 105 min.

Crítica | O Grito

Na esteira do sucesso de Samara e O Chamado, interpretações ocidentais para histórias de espíritos vingativos começaram a adentrar na agenda de realizações estadunidenses, segmento industrial que se interessa bastante em reformular materiais pré-estabelecidos em outras culturas. Com O Grito, o cineasta Takashi Shimizu trouxe para os Estados Unidos alguns elementos do horror japonês, para depois leva-los de volta ao ambiente nipônico. Explico: uma das questões colocadas pelo cineasta durante a realização do filme foi a ambientação da história, com personagens estadunidenses, mas com desenvolvimento dramático no Japão, estratégia para manter as suas conexões com a sua cultura, afinal, Shimizu sequer falava inglês na época e uma interprete acompanhou todo o processo no estúdio.

Escrito em parceria com Stephen Susco, colaborador no desenvolvimento da história para as plateias ocidentais, O Grito acompanha a trajetória de Karen Davis (Sarah Michelle Gellar), assistente social que decide seguir o namorado Doug (Jason Behr) em Tóquio. No local, a sua primeira missão profissional trará, de imediato, grandes problemas. Ela tem a tarefa de tomar conta de uma idosa que em determinado momento, entra em choque e é morta por uma entidade espiritual bem aterrorizante. As circunstancias não são favoráveis para Karen, pois a cuidadora anterior sumiu de maneira misteriosa, sem deixar vestígios. A curiosidade da moça ao vasculhar a casa e encontrar uma porta selada com fita também ajuda na disseminação do que virá adiante.

Como sabemos, na mitologia de O Grito, quando alguém morre numa situação que envolva ódio, uma maldição logo se estabelece. Neste caso, é a casa onde habita os envolvidos na história que serviu de base para todo o mal do enredo, isto é, o assassinato de Kayako (Takako Fuji) e Toshio (Yuza Ozeki), entidades que aparecem constantemente para ceifar as vidas daqueles que atravessam os seus respectivos caminhos. Da sua descoberta ao processo que se segue, a narrativa dá idas e vindas, apresenta algumas fragmentações, mata uma série de pessoas pelo caminho e encerra a sua caminhada de horror com os finais infelizes, típicos das produções orientais, histórias que em suas traduções para o público ocidental, ganham roupagens mais explicativas, tendo em vista atender às demandas dos espectadores do “lado de cá” do planeta.

Diante do exposto, ao longo de seus 91 minutos, O Grito é uma história bastante atmosférica, instigante e com bons momentos de horror, tais como a cena do chuveiro, a assustadora abordagem no elevador e a parte que envolve uma escadaria, além de seus trunfos técnicos, com o “Japão” de estúdio bem construído pela equipe técnica da produção. O que deixa o filme com menos impacto é a aleatoriedade de seu enredo, pois todas as versões de Kayako, sejam as japonesas ou estadunidenses, apresentam o mesmo esquema narrativo. Não há maior desenvolvimento de personagens, as necessidades dramáticas de todos são muito fugazes e a impressão que se tem é a de que somos espectadores de um panorama repleto de colagem de sustos, nada além disso. E a história continua a se repetir até os dias atuais, haja vista o retorno dos personagens em nova roupagem, para a geração de 2020. Será que vai funcionar?

O Grito (The Grudge) — Estados Unidos/Japão, 2004
Direção: Takashi Shimizu
Roteiro: Stephen Susco, Takashi Shimizu
Elenco: Bill Pullman, Clea DuVall, Jason Behr, KaDee Strickland, Sarah Michelle Gellar, William Mapother
Duração: 92 min.