Steven Michael Quezada

Crítica | Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

O título do episódio diz tudo: esse parece ser o momento de ruptura que tanto esperamos. Por outro lado, a última fala de Kim – “ou nós nos casamos” – parece ter o condão de nos dar uma rasteira dramática, que deixa todas as portas abertas para o futuro, ou a inexistência de futuro, para o casal Wexler-McGill.

Aliás, escrevi McGill acima mais por uma licença poética, pois Goodman e McGill parecem ser “personagens” cada vez mais indistinguíveis, com o primeiro mantendo-se preponderante por muito mais tempo, como uma segunda personalidade que toma controle de alguém sofrendo de transtorno dissociativo de identidade. São como as formigas comendo o sorvete nas belíssimas sequências de abertura e encerramento de The Guy for This. Isso fica evidente aqui, com toda a lógica por trás do golpe que Goodman aplica não apenas contra o banco Mesa Verde, mas sim contra ninguém menos do que sua companheira Kim Wexler que, antes, resolvera voltar atrás e fechar um acordo financeiro para a saída do último proprietário no terreno destinado ao call center.

O raciocínio faz mesmo muito sentido. Um dos objetivos era apagar qualquer dúvida sobre a idoneidade e ética de Kim e pegá-la de surpresa, com uma reação genuína de raiva e desapontamento, parece, na superfície, uma solução perfeita, talvez a única possível. Mas Jimmy/Saul simplesmente não enxerga que, com isso, ele terminou de quebrar a confiança que Kim tinha nele. Aliás, ao ser confrontado, ele nem mesmo consegue prometer que isso não acontecerá novamente, tamanha é a importância desses golpes para ele. Porque sim, Saul fez o que fez muito mais porque seu plano era bom demais para desperdiçar com a mudança de ideia de Kim do que por qualquer outro sentimento dele em relação a ela. Os hilários anúncios – aquele pessoal que ele sempre contrata ainda está na faculdade??? – que ele produz, assim como a acusação de violação de direitos autorais (essa uma ideia de Kim), realmente pareciam apetitosos demais para Saul deixar de lado e foi absolutamente impagável ver Kevin gradativamente enfurecendo-se como um personagem do Looney Tunes cuja cabeça começa a sair fumaça para depois explodir, algo com que Saul simplesmente contava que aconteceria.

Portanto, nem passa pela cabeça de Saul que Kim tornou-se alvo de seu golpe ou, se passa, ele não consegue entender o que exatamente isso significa para ela. Ah, mas Kim também sente prazer em pequenos golpes e foi ela que começou a arquitetar o ataque ao seu próprio cliente. Sim, sei muito bem disso. Não é segredo algum que ela tem esse conflito interno inconciliável desde o começo da série, mas a questão, aqui, é de confiança mútua com alguém com quem ela vive. Isso fica ainda mais evidente a partir do flashback de abertura para sua adolescência, em que vemos sua mãe, embrigada, chegar tarde para pegá-la em sua escola em Red Cloud, Omaha (lembrando: o mesmo estado onde Gene tem seu Cinnabon…). Confiança é a chave para qualquer relacionamento e não há futuro para Kim e Jimmy sem esse pilar.

Mas e o pedido em casamento? – alguns podem perguntar. Sabem quando estamos tão conectados com alguém ou até mesmo alguma coisa e, na iminência de perder essa pessoa ou coisa acabamos fazendo de tudo para manter o status quo? Pois bem, é assim que eu vejo essa alternativa que Kim dá a Saul (ou seria Jimmy?) no último segundo do episódio. Em poucas palavras, trata-se de desespero, um momento impensado em que uma parte da personagem acha que uma união formal resolverá tudo magicamente. Sabemos que não é assim que a banda toca, especialmente em uma situação em que sequer entendemos exatamente se Kim tem consciência sobre para quem ela fez a proposta, Jimmy ou Saul ou, como já disse, a amálgama indistinguível dos dois. É como se um casamento resolvesse tudo magicamente, algo que ela não acha de verdade, pois ela é adulta e inteligente, mas que, no calor do momento, talvez signifique algo para a Kim esperançosa.

E como resultado desse sensacional conflito, ganhamos sequências memoráveis como a da produção dos anúncios, a da espalhafatosa e hilária apresentação de Saul para Kevin e seus advogados e, lógico, o do sensacional diálogo entre Kim e Jimmy ao final de tudo, que mais uma vez serve de palco para que Rhea Seehorn e Bob Odenkirk deem um show de atuação. Tudo funciona muito bem e, apesar da variedade de assuntos sendo tratados, a montagem mantém o fluxo narrativo tinindo, com a fotografia mais uma vez despontando com o cuidado com cada tomada.

Na “outra história” do episódio, vemos o início do plano de Mike para eliminar Lalo da jogada. Mas, antes disso, deixe-me rebobinar e abordar algo que me incomodou. Tudo bem que Dedicado a Max foi um episódio milimetricamente preparado para reunir Mike a Gus novamente. Mais do que entendo – e na verdade, acho essencial para a unicidade narrativa da temporada – que isso precisa acontecer, mas a “queda de Mike”, por assim dizer, não me pareceu profunda o suficiente ou trabalhada adequadamente para justificar de maneira inequívoca seu retorno para debaixo das asas de Gus. Parece que os traumas de Mike foram varridos para debaixo do tapete muito rapidamente, algo pouquíssimo característico em Better Call Saul, como se os showrunners tivessem decididos, de uma hora para a outra, que a separação já deu o que tinha que dar.

Mas, se aceitarmos esse retorno (e eu tirei meia estrela justamente por causa disso, já que, como disse, não gostei), o que resulta daí é mais um bom trabalho da produção em reinserir Mike significativamente na história, com um plano cheio de partes móveis e que retorna à Winner, o episódio 4X10 da série, para resgatar o assassinato do atendente da agência de transferência de dinheiro e o subsequente incêndio criminoso do local por Lalo em um arroubo de raiva incontida. Toda a forma lenta e enviesada que as maquinações de Mike vão tomando forma é um deleite, com o personagem assumindo sua usual identidade de Dave Clark e usando de muita cara-de-pau e poder de persuasão para levar Lalo à cadeia, retirando-o do jogo das drogas da região. Resta saber se ele agora é mesmo carta fora do baralho e o que isso significa para Nacho, em tese o herdeiro natural das operações dos Salamancas.

Wexler v. Goodman pode ser um episódio de virada na série, mas é muito difícil apostar em alguma coisa quando temos Vince Gilligan e Peter Gould como os marionetistas de uma série. Se Kim não pode nem de longe confiar em Jimmy, nós certamente podemos confiar de olhos fechados na capacidade de contar histórias desses espetaculares showrunners.

Better Call Saul – 5X06: Wexler v. Goodman (EUA, 23 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Michael Morris
Roteiro: Thomas Schnauz
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Duração: 51 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X04: Namaste

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Em termos comparativos, Namaste é, provavelmente, o menos chamativo dos episódios da penúltima temporada de Better Call Saul que foram ao ar até agora. Ele é, sem dúvida alguma, o mais fragmentado de todos até agora, tentando abordar todas as linhas narrativas com algum equilíbrio entre elas que acaba dando relativamente pouco tempo a todas, com uma fotografia muito mais funcional do que hipnotizante. Por outro lado, narrativamente, exatamente por fazer a história como um todo andar em bloco, temos mais um grande exemplo de um roteiro azeitado, que sabe exatamente como fazer as peças se encaixarem.

Essa impressão de fragmentação, na verdade, é superficial e não resiste a uma análise um pouco mais cuidadosa. Namaste, em primeiro lugar, observa como quatro de seus personagens lidam com a frustração. Howard, responsável pelo título do episodio e que vimos muito brevemente em 50% Off, parece ter encontrado no budismo sua válvula de escapa para lidar com tudo o que aconteceu com ele e por causa dele nas temporadas anteriores. Sua postura zen e seu improvável convite para que Jimmy volte a trabalhar em seu escritório revelam que ele tem tentado mudar, ainda que não o suficiente, na visão de Jimmy, para justificar qualquer consideração. Muito ao contrário, algumas bolas de boliche bem colocadas mostram muito bem a posição do protagonista sobre essa pseudo-redenção de Howard.

O sinistro Gus, por sua vez, encabeça uma sequência absolutamente genial em que ele dá vazão à sua raiva e frustração sendo particularmente detalhista com a limpeza de seu restaurante, fazendo com que seu fiel empregado Lyle limpe a fritadeira por mais duas vezes enquanto espera a ligação de seus capangas sobre os pontos de entrega de dinheiro delatados por Krazy-8 em The Guy For This. A tensão na montagem paralela com a efetiva ação com Hank e Gomez de tocaia e o esfrega esfrega no Los Pollos Hermanos deixa muito claro o cuidado da direção de Gordon Smith, que também escreveu o roteiro. São tomadas propositalmente escuras, que nunca deixam muito evidente o que está por vir. Seria perfeitamente possível, por exemplo, que tudo – nas duas pontas – acabasse em um banho de sangue, mas, no final das contas, tanto para Gus quanto para Hank (outro que precisa lidar com sua frustração de não capturar o bandido), os resultados são, apenas, “aceitáveis”.

Finalmente, ainda no tema da frustração, há a situação de Mike que, aqui, apesar de ganhar um tratamento em tese repetido em relação ao que já vimos, pela primeira vez não fica parecendo uma partícula expletiva dentro do episódio. Seu remorso pelo que foi obrigado a fazer com Werner Ziegler aliado à lembrança da morte de seu filho, o torna instável e auto-destrutivo ao ponto de usar os marginais de perto de sua casa como uma forma de auto-flagelação, com direito até mesmo a uma facada na barriga. Aliás, seu desfalecimento e despertar no que parece ser um vilarejo mexicano muito parecido com o que vimos em Breaking Bad (episódio 4X11), parece apontar para o fato de que Gus mantém uma vigilância sobre ele. Afinal, quem mais que conhece Mike teria os recursos necessários para fazer o que foi feito?

Mas Namaste tem mais. Não só vemos o envolvimento de Jimmy com Howard, com direito a uma sequência de abertura sensacionalmente enigmática em que ele acaba comprando as bolas de boliche em uma loja que, aparentemente, tem de absolutamente tudo, como somos brindados com uma hilária defesa de um cliente dele (ou melhor, de Saul) no Tribunal e que leva Kim a “contratá-lo” para ajudá-la em algo que vem mastigando toda sua noção de ética. Apesar de trabalhar para Mesa Verde e de fazer de tudo para que seu cliente mude o local de construção do call center para permitir que o senhor que ela conhecera no episódio anterior continue morando em sua casa, ela não se dá por satisfeita com a negativa que recebe, o que dá ignição a um plano para equilibrar a balança usando as malandragens jurídicas de Saul. Só a maneira como Saul convence o velhinho a deixar que ele o represente já merece um prêmio de originalidade, sendo que fui forçado a pausar o episódio para acalmar meus espasmos de risadas. Nada como uma foto de bestialidade para convencer um cliente, não é mesmo?

Em outras palavras, Namaste só parece episódico e com um passo apertado em uma verificação de soslaio, sem atenção, pois, na verdade, trata-se de outro episódio da mais alta qualidade narrativa que faz todas as tramas avançarem de maneira cadenciada. Sim, talvez ele peque um pouco na direção de fotografia de Paul Donachie, mas não por ela ser fraca, pois não é, mas sim por não chegar ao patamar dos trabalhos de Marshall Adams nos três episódios anteriores. É a forma abrindo espaço para a função, ainda que os dois fossem perfeitamente conciliáveis.

Better Call Saul – 5X04: Namaste (EUA, 09 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Gordon Smith
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | Breaking Bad – 1ª Temporada

Apesar de Mad Men ter estreado antes, foi Breaking Bad que realmente colocou a AMC no mapa das grandes produtoras de televisão em uma era que ainda não contava com a hegemonia do streaming. E, assim como um número reduzido e muito especial de séries da longeva Era de Ouro da televisão, a história do pai de família com câncer terminal que resolve bandear-se para o crime para não deixar seus entes queridos na penúria, aninhou-se de maneira definitiva no panteão das mais marcantes já feitas.

Originalmente imaginada para ter nove episódios, Breaking Bad já começou sofrendo pela greve dos roteiristas na época, tendo sua encomenda reduzida para apenas sete, o que obrigou Vince Gilligan a tomar alguns atalhos narrativos aqui e ali, mas que salvou da morte prematura pelo menos um personagem muito importante (Jesse ou Hank seria ceifado ao final da temporada). Gilligan, que firmou-se no meio televisivo com sua crescente participação em Arquivo X – de consultor criativo chegou até a co-produtor executivo da série principal e criador e produtor executivo do spin-off The Lone Gunmen -, desafiou-se a si mesmo com a auto-imposta premissa de uma série em que o protagonista tornava-se o antagonista, algo muito raro no audiovisual e que carrega evidentes riscos embutidos. Construindo a narrativa quase que como uma atmosfera de faroeste moderno dando a roupagem para uma narrativa de gângster, o showrunner, logo em sua encurtada primeira temporada, estabeleceu muito fortemente as bases de seu épico de 62 episódios ao longo de cinco temporadas.

A escalação de dois atores até experiente em papeis para a televisão, mas que permaneciam na obscuridade, foi o primeiro grande acerto de Gilligan para além da premissa simples, mas genial. Ninguém, à época, sabia o que esperar de Bryan Cranston e de Aaron Paul, respectivamente Walter White, o professor de química de meia-idade que é diagnosticado com câncer no pulmão em estágio 3 e Jesse Pinkman, consumidor e traficante local de drogas que fora aluno de Walt, e esse jogo de expectativas faz muito bem à temporada inaugural. Afinal, é impossível não compadecer-se com o dilema de Walter White, com esposa grávida e um filho adolescente com paralisia cerebral e que se vê diante da morte sem capacidade de deixar sua família com dinheiro suficiente para ter uma vida decente. Seu encontro fortuito com Jesse leva a um plano arriscado e desesperado: Walt usaria sua habilidade em química para cozinhar cristais de metanfetamina da mais alta qualidade que o jovem venderia, com os dois dividindo o lucro. Muito do que vemos na tela, não tenham dúvida, foi trazido por essa dupla de atores criando e desenvolvendo seus personagens a partir da direção de Gilligan, em uma temporada que, apesar de curta, realmente transforma os dois.

O segundo grande acerto de Gilligan foi fazer uma temporada que não se contentava em apenas contar uma história muito interessante. Disso, a televisão estava e está cheia. Ele precisava de algo mais e esse algo mais foi a qualidade da fotografia, em um trabalho que, já na primeira temporada, demonstrou um apuro técnico kubrickiano, daqueles de realmente encantar sem que fossem necessários levar em consideração outros elementos. Para começar, a filmagem digital ficou apenas em segundo plano, com Gilligan privilegiando o celuloide e o uso de câmeras com filme de 35 mm, uma raridade já na época (eles tentaram emplacar o CinemaScope, mas a Sonye a AMC não compraram a ideia). Com isso, contraste, granulação e as tomadas em plano geral de tirar o fôlego ganharam o palco, elevando o custo de produção, mas retirando Breaking Bad do lugar-comum (havia até um receio da semelhança narrativa com Weeds, mas que não procede para além do básico). Além disso, a seleção e emprego da paleta de cores fazem da direção de fotografia de John Toll no episódio piloto algo parecido com uma tempestade perfeita que abriu espaço para que Reynaldo Villalobos, nos seis episódios seguintes, trabalhasse o ambiente desértico das filmagens em locação em Alburquerque, Novo México (escolhido unicamente por razões fiscais – quem diria que o Leão resultaria em algo tão bom!) como mais um importante personagem da história sendo contada. A mensagem é clara: vemos, na ambientação, a desesperança de Walter White, sua desolação diante de uma situação impossível cuja única saída parece ser o mergulho no crime.

Finalmente, o terceiro tiro na mosca da produção foi contar uma história que ia além da relação entre Walt e Jesse e o que a virada deles para o crime sério reflete nos demais. São pequenos detalhes como, por exemplo, a forma como a narrativa encara um casamento de longa data, sem firulas, colocando a crueza do dia-a-dia, do tédio do cotidiano para ser mais preciso, em primeiro plano. Anna Gunn, que já havia se provado em Deadwood, vive Skyler, a esposa grávida de Walt, como uma mulher firme em sua posição moral, algo que é trabalhado com a descoberta da cleptomania de Marie Schrader (Betsy Brandt), irmã de Skyler. Hank Schrader (Dean Norris), por seu turno, é razoavelmente recortado em cartolina aqui nessa primeira temporada, como o arquétipo do agente do D.E.A. que existe primordialmente para criar a conexão entre Walt e Jesse e, claro, para servir de contraponto à empreitada criminosa dos dois. É também alvissareiro notar que RJ Mitte, que vive Walter White Jr. e que, assim como seu personagem, tem paralisia cerebral, não fica apenas em segundo plano, com sua presença adicionando ao drama de Walt e sendo muito bem costurada à narrativa.

Mas é claro que o destaque fica mesmo para o empreendimento criminoso de Walt e Jesse que cozinham metanfetamina da mais alta qualidade primeiro em um trailer no meio do deserto – em uma das sequências mais inesquecíveis da TV – e, depois, no porão da casa de Jesse, casa essa assombrada por tudo o que acontece lá ao longo da temporada, inclusive e especialmente uma lição importante sobre ácido fluorídrico e banheiras de porcelana… E é também aqui que os atalhos que Gilligan toma para converter sua temporada de nove episódios em sete ficam mais evidentes. Talvez rapidamente demais, Walt trafegue de um humilde professor diagnosticado com câncer que se preocupa com sua família para alguém capaz de enfrentar, cara-a-cara e com direito a explosivo, o maior traficante local, Tuco Salamanca (Raymond Cruz). Por um lado, é sensacional ver como os roteiros retiram as opções de Walt e demonstram principalmente sexualmente, seu prazer em caminhar no lado sombrio da Força. Por outro, chega a ser um tantinho conveniente que seus embates sempre deem certo, por mais improváveis que eles sejam, aumentando o sarrafo da suspensão da descrença (em especial no apressado roubo de metilamina), mas, não tenham dúvida, sem nem de longe desmerecer a temporada. Afinal, Gilligan faz o melhor que era possível diante das circunstâncias e, mais ainda, Bryan Cranston – que, pelo menos no meu livro, nunca mostrou-se um grande ator fora de Breaking Bad – faz o impossível em tornar crível duas facetas completamente opostas de um mesmo personagem. Acreditamos no inseguro e doente Walter White da mesma forma que acreditamos no confiante e violento Heisenberg e é isso que, no final das contas, realmente importa.

Breaking Bad era uma série improvável que transformou-se em um fenômeno cultural. Sua 1ª temporada já tem todos os contornos que justificam essa adoração e revelam Vince Gilligan em toda sua glória extremamente detalhista que foi capaz de ir além de apenas contar uma história, preocupando-se com cada elemento formativo dessa sua arriscada narrativa que, como poucas obras antes, perverte o conceito de protagonista e esmaga todas as expectativas que possamos ter sobre o que é uma série de TV.

  • A crítica original, escrita em 2010, foi completamente dissolvida em ácido para dar lugar a essa aqui, novinha em folha e (espero) pura como os cristais de WW.

Breaking Bad – 1ª Temporada (EUA, de 20 de janeiro a 09 de março de 2008)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Vince Gilligan, Adam Bernstein, Jim McKay, Tricia Brock, Bronwen Hughes, Tim Hunter
Roteiro: Vince Gilligan, Patty Lin, George Mastras, Peter Gould
Elenco: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Steven Michael Quezada, Carmen Serano, Maximino Arciniega, Charles Baker, Raymond Cruz, Jessica Hecht, Tess Harper, Matt L. Jones, Rodney Rush, Marius Stan
Duração: 345 min. (sete episódios)

Crítica | Better Call Saul – 5X03: The Guy for This

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Sei muito bem que esse foi o tão aguardado episódio de Better Call Saul em que mais dois queridos personagens de Breaking Bad foram reintroduzidos, mas a grande verdade é que a volta de Hank Schrader (Dean Norris) e Steven Gomez (Steven Michael Quezada), por mais divertida e nostálgica que possa ter sido, foi apenas os confeitos em cima de um bolo já muito saboroso. Em outras palavras, é legal e tal ter os dois ampliando a conexão com a série original, mas eles são apenas detalhes em The Guy for This.

Não me levem a mal: são detalhes bem inseridos, que não parecem forçados dentro da estrutura do prelúdio e que ganham tempo de tela justo, que não detrai do que realmente importa, mas, mesmo assim, são detalhes. Afinal, mesmo que a conversão de Krazy-8 em informante do DEA – explicando algo revelado por Hank a Walter White depois do fim do traficante em Breaking Bad – seja bem engendrada, com uma justificativa inteligente que transforma o personagem em um peão de Lalo em seu plano para derrubar Gus Fring, o foco do episódio fica mesmo em Jimmy e especialmente em Kim, cada um deles “o cara certo” do título em sua luta contra o determinismo.

Para começar, notem o medo de Jimmy ao ser levado por Nacho para um encontro com Lalo. Aquele ali é Jimmy ainda (a magnificamente bem filmada metáfora das formigas e do sorvete deixa isso evidente), alguém que escolheu ser Saul para desbravar um nicho de advocacia em que ele poderia ser bem-sucedido, mas que está prestes a ser devorado pela voracidade de traficantes pesados, muito diferente dos pequenos marginais responsáveis por crimes, digamos, menores, que são seus alvos efetivos. Seu suor, sua hesitação, sua forma atabalhoada de lidar com a situação na garagem para onde é levado mostra, como mencionei em minha crítica anterior, que Saul é mesmo apenas uma identidade assumida, mas que ainda não tomou conta da de Jimmy, mesmo que, novamente me socorrendo das formigas, esteja prestes a ser dominante. Ele luta contra aquilo, mas sabe que não pode evitar o destino e é obrigado a dobrar-se e fazer o que lhe é comandado.

Kim, por seu turno, está feliz por ter um dia inteiro só de casos pro bono que é o que ela realmente ama fazer. Mas seu grande cliente pagante, Mesa Verde, exige sua presença imediata e ela também não tem como fugir daquilo. A conexão com o drama de Jimmy é evidente, mas a diferença é que Kim não tem duas personalidades, mesmo considerando que, por vezes, ela sinta prazer em dar pequenos golpes aqui e ali. Portanto, o drama, para ela, é mais dilacerante e inconciliável, sem que ela enxergue uma válvula de escape que não seja, por enquanto, arremessar garrafas de cerveja pela varanda de seu apartamento.

Rhea Seehorn há tempos vinha demonstrando sua profundidade dramática que ainda, criminosamente, não foi reconhecida nas grande premiações e, aqui, ela tem vários de seus melhores momentos. Seja no tribunal defendendo não exatamente seus clientes, mas sim sua vontade inamovível de permanecer ali, descartando Mesa Verdade, seja na expulsão de um senhor de sua propriedade para a construção de um call center (Up – Altas Aventuras feelings!), a atriz demonstra não dever absolutamente nada a mais ninguém do elenco, batendo de frente muito facilmente com o alarido colorido de Bob Odenkirk. Sua capacidade de fazer uma Kim sempre impecável, sisuda mesmo, mas que demonstra por todos os poros sua vontade de fazer o que considera nobre, dá gosto de ver, além de deixar o coração quebrado quando tudo conspira para ela não alcançar seus objetivos.

Esse conflito entre livre arbítrio e determinismo ganha cores e contexto também com o drama familiar de Nacho, aqui ilustrado por seu desejo de salvar seu pai dessa vida que ele também foi forçado a mergulhar de cabeça. A ironia é que ele quer tirar o pai dali a força, usando de subterfúgios para comprar o negócio da família por intermédio de um laranja. Michael Mando é outro que merece ser reconhecido pela forma como consegue desenvolver seu personagem de um simples bandidinho a um homem conflitado, repleto de dilemas insolúveis. Apenas as sequências com Mike é que realmente pareceram deslocadas no episódio não só por não rimar completamente com o restante da narrativa (ok, há um certo determinismo no caso dele também, mas existe uma distância maior), como também por não acrescentar nada que os eventos em 50% Off não tivessem já deixado sobejamente claros.

The Guy for This começa com um fan service divertido e bem colocado, mas ele – ainda bem! – logo abre espaço para uma discussão muito mais profunda e de viés sombrio. Parece que não há mesmo mais saída para Jimmy e para Kim. O futuro (aquele lá do Cinnabon) está posto. O único detalhe é que Vince Gilligan e Peter Gould já demonstraram que não ligam muito para isso não… e ainda bem!

Better Call Saul – 5X03: The Guy for This (EUA, 02 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Michael Morris
Roteiro: Ann Cherkis
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 54 min.