Steve Coulter

Crítica | The Hunt (2020)

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Atenção atenção lacradores de todo o mundo! Denunciadores de lacadores de todo o mundo! Direitistas e esquerdistas! Politicamente corretos e incorretos! Que tal caírem na porrada, empunharem armas e… vence quem conseguir sair vivo no final?“. Pois esta deveria ser a sinopse oficial de The Hunt (2020), filme de Craig Zobel, escrito por Nick Cuse e Damon Lindelof (recém-saídos de Watchmen) e que dentre muitas outras coisas, coloca representantes de espectros de pensamento político e de práticas sociais distintas para literalmente lutarem por suas vidas.

A trama significa várias coisas, mas não há absolutamente nada de profundo no enredo, de modo que levar muito a sério a chacota que os roteiristas claramente estão fazendo com toda a gente é produto de mente sandia. Ao mesclar uma porção de ingredientes do horror à dinâmica básica dos filmes de ação, os responsáveis pela obra nos colocam em uma “luta pela vida” que passa a ter um outro significado quando aparece um casal casal no posto de gasolina e joga na cara do espectador uma coleção de frases feitas, defesas de causas e contrariedades em opiniões polêmicas, tudo para efeito simples de ser louco e pseudo-engajado num filme que só quer rir da cara de extremistas e chatos-teóricos-de-todas-as-coisas.

Esse é o tipo de obra que consegue enganar os briguentos por causas nulas. “Ah, mas porque a mensagem…“. Calma aí, que mensagem? Comédias cínicas — especialmente as que brincam com realidade política — tendem a expor um caldeirão de ideias e, em torno delas, colocar os personagens agindo, não necessariamente defendendo algo. Se vocês prestarem bem atenção no final do filme, entenderão que, para começo de conversa, o grande evento da caçada sequer poderia ter existido e a casca supostamente “democrata” dele é o escracho hilário em torno de situações absolutamente reais, mas não colocadas dentro dos contextos corretos. Pegaram a ironia? Pode-se encontrar aí crítica ao “exagero ideológico“, crítica à “postura beligerante” de certos grupos ou “crítica aos extremismos“, mas na real, o filme só está se divertindo em cima da insanidade de algumas pessoas: aqueles que querem levar às últimas consequências as coisas mais banais possíveis… ou aqueles que querem inventar um problema humanitário diferente para cada nova ação daquele que está ao lado.

No todo, The Hunt é uma divertida caçada de gente podre que se acha “gente boa” a um bando de gente podre que se acha “gente boa“. É no exagero, nas piscadelas militarizantes das hilárias e rápidas mortes que vemos no início (Emma Roberts e Justin Hartley foram os melhores!) que o texto constrói a sua zombaria a tudo e a todos, não necessariamente às ideias desses indivíduos, mas à contradição dessas ideias com o mundo à sua volta e à própria hipocrisia dessas pessoas quando confrontadas com situações de crise. A trilha sonora também faz parte da brincadeira, porque cria uma atmosfera clássica e ponderada para uma moderna luta mortal que começa sem motivo e termina com um erro cometido por ego ferido e uma vontade patológica de vingança. Em suma, é uma metáfora empírica para qualquer briga de internet que já vimos ou já tivemos.

Embora engaje de forma inteligente o público, The Hunt peca porque fica apenas na casca mesmo, até na maneira como dá sentido às duas mulheres mais poderosas da obra, maravilhosamente interpretadas por Betty Gilpin (minha favorita) e Hilary Swank. É até possível aceitar o desenvolvimento do filme mantido à base de tiro, porrada e bomba, desde que o destino final da narrativa quisesse chegar em algum lugar tão prático quanto caçada que representou, não apenas na sugestão ou interpretação que joga para o público. Se unirmos o escrupuloso início do filme (um dos meus momentos favoritos da direção de fotografia, junto com a cena do bunker e a da cozinha) com o flashback, entendemos que existe sim um “sentido geral” pretendido pelos roteiristas, mas esse sentido é enfraquecido ao máximo no final. Nem os diálogos rasos e a frequente estupidez de alguns personagens (escolhas propositais, mas cuja repetição enerva um pouco) conseguem frustrar tanto.

A esse despeito, porém, a vitória da Bola de Neve é uma última excelente sacada dos autores. Agora só falta alguém vir aqui comentar que o roteiro é pró-Sanders por causa disso. E claro, dizer que o filme, seus criadores e o crítico que deu 3,5 para a obra são “lacradores” (viu, Laklasteh?). É como eu sempre digo (e como The Hunt deixa bem claro para quem quiser ver): ninguém tem o monopólio da babaquice.

The Hunt (2020) — EUA, 2020
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nick Cuse, Damon Lindelof
Elenco: Betty Gilpin, Hilary Swank, Ike Barinholtz, Wayne Duvall, Ethan Suplee, Emma Roberts, Christopher Berry, Sturgill Simpson, Kate Nowlin, Amy Madigan, Reed Birney, Glenn Howerton, Steve Coulter, Dean J. West, Vince Pisani, Teri Wyble, Steve Mokate, Sylvia Grace Crim, Jason Kirkpatrick, Macon Blair, J.C. MacKenzie, Justin Hartley
Duração: 90 min.

Crítica | Luta Por Justiça

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Quando se pensa no subgênero drama de tribunal e que envolve a questão racial, é difícil não se lembrar da obra-prima O Sol É Para Todos (1962), de Robert Mulligan. Claro, é um tanto quanto injusto estabelecer um patamar tão elevado como base de comparação para Luta por Justiça, principalmente se pensarmos nas disparidades entre o lendário Gregory Peck e Michael B. Jordan — não me entendam mal, pois eu gosto de MBJ, principalmente por Fruitvale Station: A Última Parada. Infelizmente, 57 anos se passaram e é triste constatar que ainda é muito necessário contar histórias sobre como o sistema penitenciário ainda está totalmente preso a uma lógica racista e que, consequentemente, as condenações à morte podem estar atingindo muitos inocentes. Bem, e de que forma o novo filme de Destin Daniel Cretton traz um refresco ao tema que aborda?

Em 1986, o afro-descendente “Johnny D.” (Jammie Fox) fora acusado de matar uma jovem branca em Monroeville, Alabama — no Sul dos Estados Unidos. Condenado a pena de morte e já desesperançoso por conta dos seus advogados anteriores que nada fizeram, aquele homem se vê diante do advogado recém-formado de Harvard, Bryan Stevenson (Michael B. Jordan). Contudo, a diferença deste para os outros é que existe no jovem graduado um grande espírito idealista e que, acima de tudo, por também ser negro, Bryan sabe que ele pode estar diante de uma grande injustiça. Ao constatar que há diversas incongruências nos depoimentos originais, o caso será julgado novamente. 

O primeiro problema de Luta por Justiça se encontra justamente na figura de seu protagonista. Aliás, quem é seu protagonista? O advogado, o condenado, ou a luta racial como um todo? Baseado no livro escrito pelo próprio Bryan Stevenson, fica um pouco claro que o ponto de vista predominante acaba sendo deste. Em um certo momento da trama, o advogado é até acusado de estar pegando estes casos de pena de morte para uma autopromoção de seu trabalho e, de certa forma, a própria lógica do filme é um tanto quanto cúmplice disso. Com uma clássica cara de produção feita para a temporada de premiações e com um roteiro repleto de frases de efeito para que Michael B. Jordan brilhe, entramos em uma questão até paradoxal aqui. 

Afinal, se Luta Para Justiça é para exaltar o ativismo de Stevenson ou para consagrar Jordan, toda a luta racial vira segundo plano dentro da narrativa e, assim, duvida-se de suas intenções. Aliás, ainda que este seja uma autobiografia do advogado, trata-se de um recorte muito estranho que pouco aprofunda suas motivações e deixa seu relacionamento com Eva Ansley (uma desinteressada Brie Larson) solto no meio dos outros acontecimentos. Voltando à questão racial, Cretton opta por retratar os policiais e membros do poder de Monroeville como supremacistas sem compaixão alguma e que sentem até um certo prazer erótico, como na cena da revista ou do próprio policial que morde a boca de prazer ao ver o negro sendo eletrocutado. De fato, não há nenhum problema em ir por este lado, já que, de fato, existem pessoas assim (algo que é muito bem retratado em Infiltrado na Klan), mas me parece meio contraditório que o roteiro vá buscar uma humanização dessas pessoas no terceiro ato, principalmente na figura do promotor vivido por Rafe Spall. Em consequência, toda a redenção do personagem parece servir apenas ao andamento da trama.

De mesmo modo, como uma típica história de tribunal, no qual seu clímax se passa no julgamento final, me impressiona o quanto esta talvez seja uma das cenas mais desinteressante dos últimos tempos dentro deste gênero. Cretton aposta em um plano unicamente no rosto de Jordan e aquilo basicamente se torna uma leitura de roteiro clichê que sai da boca do ator da maneira menos impactante possível. Por um lado, se toda fala que sai da boca de Michael B. Jordan parece ensaiada e pronta para ir ao DVD do Oscar, há de destacar que o que ele faz de melhor é justamente quando seu personagem não fala. O advogado é intimidado pelas forças policiais em algumas cenas e se sente uma mistura de ódio, impotência e medo em seu rosto, ao mesmo tempo que há uma inteligência de não fazer nada de impulsivo, pois sabe que será pior para ele. É justamente uma indignação em sua voz que senti falta na cena do Tribunal, como a imponência de Peck no filme de 1962. 

Por fim, Luta por Justiça é minimamente competente ao trazer para nossas mentes a necessidade de se discutir novamente a pena de morte, mas que nunca se aprofunda o  suficiente tanto neste tema, quanto no racismo institucional. Ao invés disso, ele passa boa parte do tempo funcionando como um episódio medíocre de um seriado de advogado ou com cenas repetitivas mostrando a malvadez dos policiais sulistas. Talvez, caso se mostrasse mais interessado no drama daqueles condenados e suas famílias, o longa poderia soar mais genuíno em sua mensagem e menos uma autopromoção dos feitos de Bryan Stevenson — e, consequentemente, uma autopromoção do próprio Michael B. Jordan em um filme de estúdio pensado estrategicamente para premiações.  

Luta por Justiça (Just Mercy) – USA, 2019
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham
Elenco: Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Brie Larson, O’Shea Jackson Jr., Rafe Spall, Rob Morgan, Tim Blake Nelson, Drew Scheid, Steve Coulter
Duração: 136 min.