Stephen Surjik

Crítica | Perdidos no Espaço – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas da temporada anterior e de todo nosso material sobre Perdidos no Espaço.

Voltando com a 2ª temporada mais de um ano e meio depois da completa reimaginação da famosa série sessentista, a versão de Perdidos no Espaço do Netflix é, em poucas palavras, uma gostosa aventura espacial que reúne os melhores elementos que as pegadas camp e realista – antitéticas por natureza – podem oferecer. E o segundo ano da série desenvolvida por Matt Sazama e Burk Sharpless com base em criação de Irwin Allen e comandada por Zack Estrin só reitera essa conclusão, já que ele apara arestas, expande esse universo e apresenta novas situações que mantém o espectador constantemente grudado na telinha.

Iniciando sete meses após os eventos da 1ª temporada, vemos os Robinsons, Don West (Ignacio Serricchio) e a Dra. Smith (Parker Posey) perdidos em uma minúscula faixa de areia em um planeta tomado de água e uma atmosfera irrespirável. É Natal e a família toda reunida comemora a data da melhor forma possível, com o episódio inaugural investindo sem pudor na abordagem “família” que a série original tinha, além de trabalhar a vilanesca Smith da melhor forma possível dentro dessa estrutura limitada.

Quando os dois episódios iniciais se encerram lidando com esse planeta em questão, fica a impressão de que o showrunner investirá em “planetas da semana” como forma de contar sua história, mas isso logo se dissipa quando nossos heróis conseguem retornar para a Resolute, retrabalhando a conexão de Will com o robô que, por sinal, permanece sumido por nada menos do que seis episódios, uma aposta arriscada, mas que dá certo, já que abre espaço para as relações humanas com outros personagens que vão ao pouco sendo introduzidos.

Em outras palavras, não temos, aqui, a fórmula mestre da série original. Não são só os Robinsons mais Don West mais Doutora Smith que jogam o jogo nessa reformulação e, francamente, essa escolha é muito bem-vinda, até porque eles permanecem com o protagonismo absoluto, mas com um ecossistema ao redor que permite que os roteiros trabalhem histórias melhores, todas elas ancoradas nos mistérios sobre a verdadeira natureza dos seres cibernéticos que, como descobrimos em detalhes, são absolutamente toda a base da ciência por trás da nave migratória terráquea, com a introdução de Espantalho, um robô violentamente escravizado para o propósito de navegar pelo espaço.

O mote geral é a história de amadurecimento clássica, com Will (Maxwell Jenkins) e o próprio robô (Brian Steele) no epicentro dessa narrativa. O jovem Jenkins mostra mais uma vez ser coração puro e é perfeitamente possível ver como ele mudou não só fisicamente, mas mentalmente de uma temporada para outra, com roteiros que não tornam o personagem apenas mais uma criança para simpatizarmos, mas sim alguém com quem podemos criar empatia imediata. E o mesmo pode ser dito, mais uma vez, do excelente robô de Steele, criado por meio de uma magnífica fusão de efeitos práticos com CGI e um ótimo trabalho de mixagem e edição de som. Falando pouco, mas transmitindo muito, o robozão é de se aplaudir.

Mas o tema amadurecimento perpassa pelos demais jovens Robinsons. Judy (Taylor Russell), a mais velha dos três filhos do casal, é a primeira a se tornar adulta em idade e aquela que carrega nos ombros a responsabilidade de manter a família unida, tendo um passado complicado com seu pai adotivo John (Toby Stephens) que é trabalhado com curtos e eficientes flashbacks que são mais bem inseridos aqui do que os das 1ª temporada foram, demonstrando que os roteiristas aprenderam com seus erros. Penny (Mina Sundwall) é mantida como a “filha inútil” que precisa aprender a viver como sendo a menos científica dos Robinsons, algo que é logo abordado com a ótima ideia de colocá-la como biógrafa da família e fazer com que seu livro – Perdidos no Espaço, claro! – seja um elemento narrativo importante para a primeira metade da temporada.

Maureen (Molly Parker) e John continuam como o carismático casal que se vê tendo que proteger seus filhos de um lado e de resolver absolutamente todos os problemas que aparecem na temporada, desde achar água em um poço até organizar, da noite para o dia, um motim. É aqui que o aspecto camp da série mais se sobressai, com aquelas divertidas conveniências narrativas e soluções e salvamentos de último segundo que fazem parte do DNA de Perdidos no Espaço e que funcionam muito bem ao longo dos 10 episódios da temporada. Afinal, ver Toby Stephens mais uma vez encarnando o Capitão Flint de Black Sails logo no começo da temporada ao velejar a Júpiter 2 não tem preço, não é mesmo? Mas, brincadeiras à parte, mesmo eles precisam crescer e enxergar que seus filhos já não são mais os mesmos e que eles precisam de liberdade para fazer o que escolherem.

E, claro, Parker Posey toma controle absoluto de sua Dra. Smith, com o texto da temporada emprestando-lhe mais nuances e camadas que são muito bem exploradas em momentos críticos, como quando ela precisa avisar Maureen de um perigo, mas acaba não conseguindo por não conseguir “enfrentar” seu próprio bloqueio psicológico em relação a Samantha (Nevis Unipan), filha do homem que matara na temporada anterior. Assim como os demais, esse conflito interno na famigerada Dra. traz desenvolvimento para a personagem e Posey faz uma composição perturbadora e que se diferencia bastante ao mesmo tempo que presta homenagem ao clássico personagem criado por Jonathan Harris.

Os únicos problemas da temporada estão no lado “vilões do momento”. O primeiro deles, Hastings (Douglas Hodge), ganha um enorme alargamento que, apesar de conectar-se com o “pecado original” de Maureen ao alterar os resultados dos teste de Will para fazê-lo ser elegível para Alfa Centauro, não consegue sair da unidimensionalidade vilanesca absoluta. Ele é como um feitor de escravos capaz de tomar todas as piores decisões possíveis em um pacote único e conveniente, somente para dar de cara com os Robinsons. O outro vilão do momento é Ben Adler (JJ Feild) que até ganha aquela aura de “personagem multidimensional”, mas que não passa de bucha de canhão, criado com todo o cuidado possível para ele ser literalmente incinerado ao final. Pelo menos Feild consegue convencer nos sentimentos de seu personagem quase tão raso quanto o de Hodge.

Entretenimento do mais alto gabarito, com ótimos efeitos práticos e de computação gráfica, Perdidos no Espaço é ficção científica que sabe respeitar o material fonte sem medo de alterá-lo para o bem da narrativa e que traz aventuras no estilo clássico, mas com roupagem moderna para encantar a audiência de todas as idades. Diversão, Will Robinson!

Perdidos no Espaço – 2ª Temporada (Lost in Space – Season 2, EUA – 24 de dezembro de 2019)
Desenvolvimento:  Matt Sazama, Burk Sharpless (com base em criação de Irwin Allen)
Showrunner: Zack Estrin
Direção: Alex Graves, Leslie Hope, Jon East, Tim Southam, Jabbar Raisani, Stephen Surjik
Roteiro: Matt Sazama, Burk Sharpless, Zack Estrin, Liz Sagal, Kari Drake, Vivian Lee, Katherine Collins, Daniel McLellan
Elenco: Toby Stephens, Molly Parker, Taylor Russell, Maxwell Jenkins, Mina Sundwall, Ignacio Serricchio, Parker Posey, Brian Steele, Ajay Friese, Sibongile Mlambo, JJ Feild, Sakina Jaffrey, Tattiawna Jones, Jarret John, JJ Feild, Douglas Hodge, Nevis Unipan
Duração: 447 min. (10 episódios no total)

Crítica | See – 1X06: Silk

*A imagem acima não corresponde ao episódio, pois não localizei nenhuma com resolução razoável.

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios. 

Depois da “grande” reviravolta ao final de Plastic, que revela que Maghra é, na verdade, uma princesa, uma explicação convincente para o fato de ela não ter evitado o massacre do povo com que viveu grande parte da vida e que seus filhos corressem perigo com apenas um balançar de sinos tornou-se extremamente necessária. Era isso ou a série criada por Steven Knight não se sustentaria de maneira minimamente lógica por muito mais tempo. A pergunta que se faz, então, é: será que Silk veio para salvar a temporada?

A resposta não é nem de longe um sim, infelizmente, mas, por outro lado, também não é um não retumbante. A questão toda é que, no lugar de racionalizar suas inações, Maghra, provocada por Tamacti Jun, apenas oferece explicações que não eram lá realmente necessárias, além de serem basicamente aquela receita de bolo de fubá bem simplesinha, feita com massa semipronta e doses cavalares de desleixo. Aprendemos, com um breve flashback, que, apesar de mais nova que sua irmã Kane, seu pai moribundo desejava que Maghra tomasse o trono, por ver na outra a semente da loucura ou da incapacidade de governar. Logo em seguida, agora sem apoio de flashback, ou seja, marretando um preguiçoso texto expositivo de maneira inclemente, a princesa explica que tentou um golpe, mas que Tamacti Jun, ao manter-se fiel à Kane, acabou frustrando-o, fazendo-a fugir do reino levando Jerlamarel, aparentemente o homem mais irresistível do mundo, a tira-colo.

Em outras palavras, aquilo que eu temia parece concretizar-se: Kane é movida a amor perdido e Maghra, de certa forma, a vingança por não ter conseguido fazer o que queria, levando o homem que enxerga com prêmio de consolação? É sério que See não consegue ver o quão ridículo isso é se continuar dessa forma? E não interpretem meu desgosto como exortação para que haja qualquer subtexto de pegada feminista ou algo do gênero, mas sim, apenas, sob o ponto de vista narrativo. Afinal, quantas vezes já não vimos esse tipo de história antes? Precisamos mesmo de uma série que se passa em um futuro apocalíptico em que a humanidade regrediu e ficou cega, mas continua com o mesmo tipo de reme-reme padrão que qualquer estagiário de roteirista escreveria como dever de casa de seu curso de Cinema?

Pelo menos temos a traição completamente sem sentido de Boots para sacudir um pouco o episódio. Eu disse completamente sem sentido? Ah, me desculpem. É só idiota mesmo. Mas pelo menos isso acabou levando nossos heróis para uma caverna que convenientemente conta com bioluminescência onde convenientemente mora a mãe do rapaz e que convenientemente ajuda os prisioneiros pouco tempo depois – mas tempo o suficiente para que tenhamos que ouvir as lamentações descabidas de Paris – que eles são encarcerados na jaula convenientemente menos vigiada possível. Conveniências à parte, até que a fotografia noturna de tons azulados das sequências cavernosas foi muito bem manejada por Jules O’Loughlin, com a pancadaria envolvendo Baba Voss mais uma vez funcionando eficientemente, mesmo que tenhamos que aceitar aquela escalada um pouco rápida e fácil demais ali no final.

Assim como no episódio anterior, gostei das sequências de Kane na fábrica de seda, pois ela trabalharam de maneira crível a ingenuidade da rainha que está no mundo real pela primeira vez na vida e, ainda por cima, sozinha. Era mais do que óbvio que o interesse da outra escrava não era genuíno, mas essa obviedade, diferente da revelação de Maghra, fez todo sentido narrativo e foi bem utilizada, com consequências potencialmente interessantes para a estirada final da temporada.

Voltando à pergunta do primeiro parágrafo, portanto, o que Silk fez foi desviar a atenção do espectador para outras questões no lugar de enfrentar as incongruência dos roteiros anteriores, algo que, desconfio, jamais acontecerá. Agora só me resta torcer para que as motivações das irmãs tenham mais camadas do que apenas amor adolescente por um homem misterioso transformado em loucura e obsessão e que Baba Voss tenha mais oportunidades para usar instrumentos cortantes, de preferência em plena luz do dia mesmo, com todo o sangue em CGI que temos direito.

See – 1X06: Silk (EUA – 22 de novembro de 2019)
Criação: Steven Knight
Direção: Stephen Surjik
Roteiro: Steven Knight, Jonathan E. Steinberg, Dan Shotz
Elenco: Jason Momoa, Sylvia Hoeks, Alfre Woodard, Hera Hilmar, Christian Camargo, Archie Madekwe, Nesta Cooper, Yadira Guevara-Prip, Mojean Aria
Duração: 54 min.