Star Wars

Crítica | The Mandalorian – Chapter 6: The Prisoner

  • Há spoilers.

Acho que todo mundo já conseguiu entender que Mando, o mandaloriano sem nome e sem rosto que protagoniza a série mais badalada do momento, é um badass silencioso e de bom coração com uma das armaduras mais bonitas do meio audiovisual. Mesmo assim, The Prisoner existe única e exclusivamente para reiterar essa fato já deixado sobejamente claro desde mais ou menos o terço final do primeiro episódio.

O roteiro de Christopher Yost e Rick Famuyiwa sequer perde tempo com algum tipo de contextualização ou um mínimo de cuidado narrativo e já joga Mando na base espacial de Ranzar Malk (Mark Boone Junior, de Sons of Anarchy) que o quer, assim como sua nave Razor Crest, para libertar alguém de um transporte prisional da Nova República. Para isso, o mandaloriano é inserido em uma equipe composta de Mayfeld (Bill Burr), um ex-atirador de elite do Império, Burg (Clancy Brown, o eterno Kurgan, de Highlander e que também deu voz a Savage Opress em The Clone Wars), um devaroniano particularmente grande e forte, Xi’an (Natalia Tena), uma Twi’lek que só usa facas e Q9-Zero (Richard Ayoade), um androide que pilota naves como ninguém.

Quando disse que não há cuidado no roteiro, é que ele realmente é o mais básico e rasteiro de todos até agora a tal ponto de até os diversos novos personagens serem extremamente sem graça e repetitivos (Burg e Xi’an só fazem grunhir por exemplo), o que é uma novidade na série. E a ação em si é pouco inspirada, cansativa e óbvia a cada fotograma. E não, não espero ser surpreendido sempre ou mesmo reviravoltas (todos sabem o quanto eu acho twists tirados da cartola desnecessários), mas eu espero que os clichês que vêm sendo usado sem nenhum pudor na série sejam bem empregados. Não é o caso aqui desde o momento em que Mando desaparece só para ressurgir triunfalmente atrás dos primeiros androides que eles enfrentam, passando pela traição de seu grupo e, de novo, pela traição ao final e a “reviravolta” do localizador no bolso do prisioneiro do título.

E, mais uma vez, o bebê Yoda é usado como instrumento de fofura extrema, mas que já está perdendo seu glamour. A essa altura do campeonato, faltando somente dois episódios para a 1ª temporada acabar, parece mais que não há roteiro nem para 30 minutos de episódio (e esse tem 43, o mais longo até agora!) e o tempo remanescente precisa ser preenchido com os olhões pretos ou os dedinhos do bichinho para mostrar o quão sensacional é a arte dos marionetistas que o controlam, o que de fato é, ainda que não cheguem nem aos pés do trabalho de Frank Oz com Yoda nem à absoluta maravilha que é o recente O Cristal Encantado: A Era da Resistência.

Em The Prisoner, nem mesmo aquele senso de aventura que mesmo os mais simples dos episódios anteriores esbanjavam está presente. Em outras circunstâncias, talvez mais no começo da temporada, o episódio poderia ser o típico veículo para deixar evidente as características do protagonista, mas, aqui, ele é só mais do mesmo com o agravante do final completamente disneyficado em que vemos que aqueles que traíram Mando foram deixados vivos, no máximo com chifres quebrados. Tudo bem o mandaloriano mostrar coração e conectar-se com o bebê Yoda ou com outros personagens com quem partilhou a tela, mas sua transformação de destemido caçador de recompensa em super-herói que não mata ninguém é um pouco demais e retira a aura de durão que ele vinha até aqui carregando muito bem.

A direção de Famuyiwa, que volta à série depois de The Child, cumpre sua função, mas, muito parecido com o roteiro que co-escreveu com Yost, pende fortemente para o lado burocrático, algo que simplesmente precisava ser diferente diante da estrutura de espaço confinado e repetitivo que é a nave-prisão. Planos abertos em corredores brancos funcionam bem uma, talvez duas vezes, mas não mais do que isso, especialmente em episódio tão curto, mas o diretor usa e abusa desses momentos sem realmente criar um mínimo de suspense ou estabelecer uma conexão entre os personagens que seja maior do que a óbvia animosidade que existe entre eles. Pelo menos a trilha sonora de Ludwig Göransson continua sendo a melhor trilha dessa fase pós-Disney de Star Wars, com o bônus de a música tema de Mando ganhar ótimas e inéditas variações nesse episódio.

The Prisoner, diferente de Mando, carece de coração, de algo mais que o destaque para além da fofura do bebê Yoda ou da eficiência absoluta do protagonista em face do perigo (que nunca é perigoso o suficiente). Ainda garante diversão daquelas bem basiconas, mas de uma forma que já está caminhando para um completo marasmo narrativo que simplesmente não poderia acontecer nesse final.

The Mandalorian – Chapter 6: The Prisoner (EUA, 13 de dezembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Rick Famuyiwa
Roteiro: Christopher Yost, Rick Famuyiwa
Elenco: Pedro Pascal, Carl Weathers, Bill Burr, Natalia Tena, Clancy Brown, Richard Ayoade, Ismael Cruz Cordova, Mark Boone Junior
Duração: 43 min.

Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi (Marvel Comics)

Espaço: D’Qar (base da Resistência), D’Qar (órbita), Ahch-to, Cantonica (Canto Bight), Crait, Frota Imperial, Frota da Resistência
Tempo: 34 d.B.Y.

Todos os longas-metragens da franquia Star Wars já ganharam adaptações em quadrinhos. Isso é tradição desde 1977, quando a Marvel Comics inaugurou a extremamente bem sucedida publicação mensal com uma bela versão em quadrinhos de Uma Nova Esperança em seis edições que foi seguida de dezenas de outros números que oficialmente começaram o tão querido Universo Estendido. No entanto, com o tempo e com o sucesso da Trilogia Original, essas adaptações tornaram-se cada vez mais escravas de suas respectivas versões cinematográficas, sem espaço para que os autores inserissem seu toques pessoais.

Com isso, as transposições dos filmes para os quadrinhos perderam muito de sua força original durante a Era Dark Horse Comics, com o mesmo valendo para a volta da franquia para a Marvel. Mesmo assim, em linhas gerais, os trabalhos de adaptação nessa galáxia muito, muito distante são acima da média, demonstrando um cuidado bem maior do que outras adaptações modernas de obras cinematográficas. O Despertar da Força ganhou uma minissérie correta por Chuck Wendig e Rogue One uma adaptação bem acima da média por Jody Houser. Depois do lançamento do polêmico e divisivo Os Últimos Jedi, foi a vez de Gary Whitta, que já roteirizara alguns episódios de Star Wars Rebels, tentar sua versão.

O resultado é mais um trabalho que não arrisca desvios do material fonte, permanecendo substancialmente confinado ao que é possível verificarmos no filme, sem tentar ir além ou aproveitar a oportunidade para mergulhar com mais profundidade na mente dos personagens que aborda. Claro que isso não é culpa de Whitta, já que tenho certeza que todo adaptador dos filmes segue um manual ditado pela produção do filme, sem poder desviar-se sem autorização prévia. Mas isso nem de longe é mortal para a narrativa, mas ela, claro, passa a depender mais fortemente da qualidade da obra original em si. Como sou um dos que fortemente defende Os Últimos Jedi, mesmo reconhecendo a existência de alguns problemas de ordem técnica (fiz comentários em forma de crônica, aqui), tenho para mim que a transposição para os quadrinhos funcionou bem, ficando, em termos qualitativos, entre as HQs O Despertar da Força e Rogue One só para fins de comparação.

A narrativa é fluida e Whitta consegue resumir bem os diálogos e eventos do roteiro de Rian Johnson nas seis edições que compõem a minissérie, consistentemente mantendo a voz dos personagens conforme o diretor e roteirista imaginou. Há alguns poucos diálogos e frases que vão além do filme, mas que nada realmente acrescentam à narrativa. Além disso, um dos problemas de Os Últimos Jedi – a montagem falha que torna a temporalidade dos eventos em Ach-to e na órbita de Crait, com a aventura em Canto Bight no meio – é suavizado na minissérie, permitindo transições menos bruscas e menos solavancos nas ações paralelas.

O que desaponta um pouco é a arte de Michael Walsh (Josh Hixson apenas trabalhou com Walsh na última edição) já que seu estilo normalmente mais “rabiscado” e que funciona bem em outras HQs que li, aqui parece corrido, quase um rascunho que foi aproveitado como obra final por falta de tempo para caprichar mais aqui e ali. As feições são muito duras, pouco emotivos e ele perde oportunidade para trabalhar imagens maiores e mais detalhadas de alguns dos momentos mais épicos. Nas sequências de pura ação, por outro lado, ele consegue manejar bem a movimentação dos personagens, algo que pode ser visto especialmente na luta de Rey e Kylo contra a guarda de Snoke depois que o Supremo Líder é morto. As cores de Mike Spicer, por sua vez, são bem escolhidas e aplicadas, mantendo a exata paleta do filme, mas emprestando um toque mais pessoal do artista.

A minissérie Os Últimos Jedi consegue cumprir bem sua função de colocar em quadrinhos todos os eventos do longa-metragem mesmo que Gary Whitta tenha que ter ficado preso ao que vimos nas telonas. Não é uma adaptação que maravilhará o leitor, mas é eficiente o suficiente para justificar sua leitura por aqueles que apreciam HQs baseadas em filmes.

Star Wars: O Despertar da Força (EUA, 2018)
Contendo:
 Star Wars: The Last Jedi #1 a #6
Roteiro: Gary Whitta (com base em roteiro de Rian Johnson)
Arte: Michael Walsh, Josh Hixson (#6)
Cores: Mike Spicer
Letras: Travis Lanham
Editoria: Heather Antos, Tom Groneman, Emily Newcomen, Jordan D. White, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio a setembro de 2018
Páginas: 148

Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker (Sem Spoilers)

Encerrar uma trilogia não é fácil, vide as diversas por aí que acabaram bem mal. Mas encerrar uma terceira trilogia e toda a dita Saga Skywalker depois de 42 anos de uma das mais amadas franquias cinematográficas é uma tarefa praticamente impossível. Mesmo compreendendo essa dificuldade inata, A Ascensão Skywalker consegue desapontar tremendamente e a razão fundamental, que pode ser desmembrada em várias outras, é a aparente falta de planejamento ao longo da Trilogia Sequência.

Na verdade, minto. Não foi falta de planejamento, mas sim o medo de seguir por um caminho pré-determinado em razão de, dentre outros fatores, a recepção dos filmes anteriores, com O Despertar da Força não agradando completamente por ser cópia de Uma Nova Esperança e Os Últimos Jedi não agradando completamente por ser diferente demais. Ou seja, possivelmente ao tentar agradar a gregos e troianos no último capítulo, a Lucasfilm entregou um filme que não só quase que recomeça a história de Rey, Poe e Finn, como em grande parte desconsidera os dois imediatamente anteriores, além de acabar sendo uma colcha de retalhos nostálgica da Trilogia Original. Em outras palavras, um simpática mixórdia cheia de sabres de luz.

Estruturalmente, dois terços do filme são uma gincana parecida com a da célebre comédia oitentista Três Amigos, mas sem o mesmo frescor: o trio de amigos pistoleiros precisa localizar o arbusto cantante para achar o espadachim invisível e, com isso, localizar o esconderijo de El Guapo. Basta trocar os três amigos por cinco (dois deles androides), o arbusto por uma adaga, o espadachim por um mapa piramidal e El Guapo pelo Imperador (Ian McDiarmid de volta) e voilà, eis toda a busca de nossos heróis pela galáxia que, no final das contas, se espremermos, concluiremos que, diferente da de Lucky, Dusty e Ned, não leva a lugar algum de verdade, não passando de uma sucessão de McGuffins mal ajambrados.

Uma coisa, porém, essa longa missão espacial faz bem. Pela primeira vez na nova trilogia, Rey (Daisy Ridley), Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) são vistos como uma trinca e os jovens atores funcionam bem reunidos dessa forma, imediatamente esbanjando química. No entanto, a própria reunião deles atrás do planeta secreto dos Sith é forçada, como se o roteiro, marotamente, quisesse nos fazer engolir que eles sempre foram amigões desse jeito e que houve, de fato, um desenvolvimento narrativo para os personagens do mesmo jeito que Luke, Leia e Han Solo tiveram na Trilogia Original. Mas só que ninguém é bobo e essa tentativa fica só assim mesmo, na tentativa.

Aliás, falando em planeta secreto dos Sith, a reintrodução do Imperador, o que acontece não nos segundos iniciais de projeção, mas sim antes ainda, nos créditos rolantes de abertura, é a prova cabal de que a Lucasfilm/Disney resolveu fazer um soft reboot em sua trilogia. O Sith malvadão é marretado na história com direito a toda uma gigantesca frota nova de destróieres imperais (como se a Primeira Ordem precisasse disso para derrotar meia dúzia de rebeldes em naves enferrujadas) e uma nova missão para Kylo Ren (Adam Driver), que continua sendo o mesmo personagem cheio de dúvidas de antes, sem tirar nem por, mas agora cercado de seus completamente aleatórios Cavaleiros de Ren que não significam absolutamente nada dentro da trama a não ser possíveis novos bonequinhos para serem comprados por ávidos fãs.

Não bastando a gincana e a volta do Imperador, A Ascensão Skywalker é uma impressionante (no mal sentido) coleção de reviravoltas e revelações que fazem o filme andar na base de solavancos. E, pior ainda do que isso, nenhum desses twists é contado com o finesse de Vader revelando a Luke que é seu pai ou Yoda dando a entender que há mais um Jedi ou a revelação de que esse Jedi é Leia. É tudo sem graça, como canja de galinha pré-pronta, e refaz e redireciona tudo – absolutamente tudo – o que foi estabelecido antes e até mesmo desfaz muito facilmente situações e eventos interessantes que são introduzidos no próprio filme (não darei exemplos para evitar spoilers).

Ok, ok. Não tudo. A conexão entre Kylo Ren e Rey na Força, uma excelente concepção de Os Últimos Jedi, é bem desenvolvida aqui e, se esquecermos tudo o que há ao redor, funciona muito bem, contando com um ótimo fio narrativo que tem sua própria lógica e verossimilhança, além de render os melhores momentos dramáticos da fita, ainda que Adam Driver e Daisy Ridley não estejam exatamente brilhantes aqui. Além disso, há uma boa elipse entre um filme e outro que permite que aceitemos mais suavemente que Rey vem treinando sob os auspícios de Leia (Carrie Fisher aparecendo econômica, mas dignamente) por um tempo e, com isso, melhorando exponencialmente seu controle da Força. Provavelmente muita gente reclamará de algumas novas habilidades, mas isso vem no pacote e não me incomodou nem um pouco já que esse aspecto tão importante da saga nunca foi explorado profundamente nos filmes e há muito espaço para manobra.

No entanto, a fotografia escura do terço final da obra incomodou-me muito. Em uma escolha paupérrima de J.J. Abrams e do diretor de fotografia Dan Mindel (Star Trek, John Carter), os conflitos finais na superfície e nos céus do planeta Sith (não é spoiler dizer que ele é encontrado não é mesmo, até porque ele aparece no primeiro minuto de projeção) são quase que completamente no escuro. Se por um lado é interessante usar as sombras para amplificar a sensação de ameaça (a frota imperial na “neblina londrina” ficou indubitavelmente bonita), por outro a ação perde em intensidade. Na superfície então, chega a cansar, especialmente em 3D que contribui para escurecer ainda mais a experiência e fazer o Imperador parecer o Mancha Negra, só que todo carcomido.

Pelo menos Abrams e Mindel capricharam em outras sequências, especialmente nas que se passam nos destroços da segunda Estrela da Morte e no planeta desértico em que Rey enfrenta Kylo Ren em seu Tie Fighter. É uma pena que o roteiro – que passou por uma penca de escritores – seja tão episódico e tão dependente de idas e vindas, pois era perfeitamente possível engatar a história diretamente a partir dos eventos finais de Os Últimos Jedi sem precisar tirar o Imperador da cartola ou retornar ao assunto irritante do parentesco de Rey ou mesmo forçar a inserção constante de todos os elementos nostálgicos possíveis, a começar da volta narrativamente inútil de Lando Calrissian (Billy Dee Williams) e passando até pela trilha sonora de John Williams que caprichou nos leit motifs clássicos, mas sacrificando a novidade no processo.

A Ascensão Skywalker é uma colcha de retalhos que parece refletir enorme hesitação por parte da produtora em seguir um caminho pré-estabelecido por receio de melindrar fãs vocais que normalmente pouco sabem o que querem. Havia um belo filme a partir de Os Últimos Jedi e ele até aparece algumas vezes debaixo dos escombros do que acabou chegando nas telonas, mas é pouco demais para tudo o que podia ser feito. Nostalgia é bom, não tenham dúvida, mas não quando ela vira bengala narrativa para tentar agradar todo mundo.

Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: The Rise of Skywalker, EUA – 2019)
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Chris Terrio, J.J. Abrams (baseado em história de Derek Connolly, Colin Trevorrow, Chris Terrio e J.J. Abrams e personagens de George Lucas)
Elenco: Adam Driver, Daisy Ridley, Billie Lourd, Keri Russell, Carrie Fisher, Mark Hamill, Ian McDiarmid, Kelly Marie Tran, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, John Boyega, Billy Dee Williams, Joonas Suotamo, Dominic Monaghan, Richard E. Grant, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Greg Grunberg, Jimmy Vee, Amir El-Masry, Dave Chapman, Brian Herring
Duração: 141 min.

Crítica | Star Wars #24 a 30 (Marvel – 1979)

Espaço: Espaço profundo, Yavin IV (superfície), Yavin IV (órbita), Centares, Junction, Orleon, Metalorn
Tempo: A Rebelião – Eventos imediatamente posteriores à Batalha de Yavin (0 d.BY)

Retornar ao começo do Universo Expandido de Star Wars é refrescante e fascinante, especialmente considerando a completa falta de material que existia à época sobre a saga além do primeiro filme. E, como se isso não bastasse, diferentemente de abordagens mais modernas, o material dessa era não era sempre dividido em arcos bem definidos de cinco ou seis edições, com histórias ocupando, na grande parte das vezes, no máximo duas edições, mas sempre contando uma história macro maior com edições que conversam umas com as outras.

Depois de separar Han Solo e Chewbacca de Luke Skywalker e Leia Organa no final da edição #24, Archie Goodwin dá um intervalo na saga maior e foca o número seguinte em Obi-Wan Kenobi, em uma história contada em forma de flashback por Leia, conforme ela ouvira de seu pai. Esse one-shot, batizado de Deriva Silenciosa, conta como um Kenobi já experiente, em uma viagem em um cruzeiro espacial até Alderaan, salva todo mundo de piratas espaciais usando sutilmente a Força para manobrar a nave e descobrir como eles foram descobertos em zona perigosa. É como um respiro entre as aventuras mais frenéticas dos heróis usuais da linha narrativa principal.

E é a ela que voltamos nas duas edições seguintes – #25 e 26 – que retorna a ação para Yavin-4, a base rebelde que quase foi salva por Luke ao final de Uma Nova Esperança. Na dobradinha O Cerco de Yavin e Missão Condenada, descobrimos que a base vem sofrendo uma série de ataques de tie-fighters que surgem do nada em sucessão, com os rebeldes cada vez mais perdendo homens e naves e sem saber revidar com eficiência. Cabe então a Luke e Leia, que estavam retornando de Centares, descobrir uma complexa trama que envolve o Barão Tagge, que conta com olhos cibernéticos depois que foi cegado por Darth Vader, desejoso de cair nas graças do Império, tentando derrotar os rebeldes de uma vez por todas lançando as naves inimigas a partir de sua nave mineradora e com o uso de uma gigantesca turbina para “fabricar” tempestades que camuflam os ataques. Há um certo exagero criativo, por assim dizer, em toda a progressão narrativa desse micro-arco, assim como pouquíssimo desenvolvimento de Tagge, que mais parece um daqueles vilões genéricos e extravagantes e que se diferencia por usar óculos que poderiam muito bem sair da coleção de Elton John.

A edição seguinte, #27, com o título O Retorno do Caçador, tem melhor sorte ao reintroduzir um dos melhores vilões desse começo de Universo Estendido e que seria reutilizado no novo cânone: Beilert Valnace, o caçador de recompensas cibernético que odeia androides introduzido um pouco antes, em Star Wars #16. Assim como Vader, ele procura o jovem “sem nome” que destruíra a Estrela da Morte, obtendo sucesso não só em descobrir o sobrenome de Luke, como também enfrentá-lo pela primeira vez em Junction, um entreposto muito parecido com Mos Eisley. A história é simples e tem C3P0 como parceiro de Luke, já que os dois procuram peças para reconstruir R2-D2, avariado no mini-arco anterior, algo que atiça a raiva de Valance por robôs em geral, mas que ao mesmo tempo mostra que o que ele sente é injustificado.

Saindo do núcleo Leia-Luke, a edição #28, O que Aconteceu a Jabba, o Hutt?, é peculiar por mais uma vez abordar o criminoso mencionado por Han Solo em Uma Nova Esperança e que, como sabemos hoje em dia, apareceria no filme original. Mas o Jabba dessa história não é aquela coisa nojenta que é relevada em O Retorno de Jedi, mas sim um bípede substancialmente humanoide, com apenas um rosto alienígena, com direito até a uma espécie de bigode, certamente bem menos ameaçador do que se esperaria, exatamente como visto em Star Wars #2. Novamente, o mote é simplicidade, com Han Solo e seu fiel escudeiro Chewbacca presos no planeta Orleon depois que Millenium Falcon é danificada. Lá, eles são cercados por Jabba e seus minions, mas os grandes vilões mesmo são cupins-de-pedra que destroçam todos e tudo que tocam e que infestam o local.

Encontro Negro, história da edição #29, coloca ninguém menos do que Darth Vader contra Beilert Valance – ciborgue contra ciborgue! – em uma luta para achar Tyler Lucian, um soldado rebelde que deserdara antes da Batalha de Yavin e que, agora, enfrenta o peso da culpa por sua covardia. Seu valor para Vader é que ele sabe o nome de Luke Skywalker. Trata-se de uma história surpreendentemente emocionante e até pesada sob o ponto de vista dramático, com uma bela pancadaria entre os vilões e um final que dificilmente seria repetido em uma HQ moderna voltada para o público infantil. É Archie Goodwin mostrando maestria na condução de uma história auto-contida.

Finalmente, encerrando 1979, a edição #30, Uma Princesa Sozinha!, conta uma missão de Leia ao planeta-fábrica do Império Metalorn, em que a população vive ignorante da existência da Rebelião. O Barão Tagge é novamente o vilão principal, mas a beleza dessa outra narrativa auto-contida é a missão da princesa, que é basicamente plantar a semente do descontentamento pelo jugo vilanesco do Império e não obter planos ou sequestrar pessoas como seria de se esperar. Mais uma história que surpreende por sua originalidade, mesmo que exagere no texto expositivo.

A arte de Carmine Infantino, muito provavelmente, causará estranhamento para o público moderno de Star Wars pela forma “livre” com que ele recria os adorados personagens. Chewbacca particularmente ganha um revisionismo enorme na forma como seu rosto é trabalhado e os demais personagens ganham feições levemente orientalizadas. Mas o mestre Infantino, exatamente por não ficar escravo às feições originais e por ter absoluta liberdade para trabalhar naves e novos personagens – lembrem-se: o Universo Estendido estava ainda em sua tenra infância aqui – entrega um trabalho intenso e belíssimo, com completo controle da fluência narrativa.

Mesmo considerando que todo esse passado remoto da franquia Star Wars foi “apagado” do cânone depois que a Disney comprou a Lucasfilm, em uma decisão polêmica, mas que eu considero acertada para fins comerciais e organizacionais, é interessante lembrar como esse universo já era rico em seu começo e como muita coisa que lemos aqui influenciou obras posteriores. A Força realmente estava com Archie Goodwin!

Star Wars #24 a 30 (Idem, EUA)
Roteiro: Mary Jo Duffy, Archie Goodwin
Arte: Carmine Infantino
Arte final: Bob Wiacek, Gene Day
Letras: Rick Parker, John Costanza, Joe Rosen
Cores: Petra Goldberg, Glynis Wein
Consultoria editorial: Jim Shooter
Editoria: Archie Goodwin
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: junho a dezembro de 1979
Editoras (no Brasil): Editora DeAgostini
Data de publicação no Brasil: julho e agosto de 2014 (encardenados Comics Star Wars Clássicos #3 e #4)
Páginas: 18 (por edição)

Crítica | Star Wars: Cidadela dos Gritos

Espaço: Horox III (base rebelde provisória), Cidadela de Ktath’atn (Cidadela dos Gritos)
Tempo: A Rebelião – Poucos meses após a Batalha de Yavin

Cidadela dos Gritos é o segundo crossover do universo em quadrinhos de Star Wars a partir do completo reboot feito pela Marvel Comics quando readquiriu a propriedade em 2015. Ao passo que A Queda de Vader, era composto por seis edições, este é composto por apenas cinco, uma dedicada que leva o nome do arco e que dá o pontapé inicial para a história e quatro outras edições dos títulos mensais, aqui no caso Star Wars (logo em seguida ao arco A Guerra Secreta de Yoda) e Doutora Aphra (logo em seguida ao arco Aphra). Em outras palavras, a editora segue seu interessante padrão (na linha editorial Star Wars, que fique claro!) de arcos específicos por vezes intercalados de crossovers bem estabelecidos e fáceis de acompanhar.

A Doutora Aphra, depois de furtar um cristal contendo a consciência de um Jedi milenar chamado Rur, conforme visto em seu primeiro arco, procura a ajuda de Luke Skywalker para destravar seu conteúdo. O objetivo é oferecer Luke como uma curiosidade biológica para uma misteriosa rainha que, uma vez por ano, recebe candidatos de toda a galáxia, escolhendo apenas um e, em troca, oferecendo literalmente qualquer desejo. É, convenhamos, uma premissa um tanto quanto exagerada e mística demais por parte de Kieron Gillen e Jason Aaron, fazendo da tal rainha um ser deveras superpoderoso, capaz de atender desejos e realizar sonhos dos mais aleatórios. Mas, se o leitor aceitar esse pulo de lógica, a história que segue sem dúvida diverte, já que, claro, a tal rainha e todos os seus súditos não são o que parece, escondendo um terrível e mortal segredo na Cidadela dos Gritos.

(1) Krrsantan sendo Krrsantan e (2) Luke “dançando” com a rainha.

O crossover funciona como uma fusão de Drácula, de Bram Stoker, com Alien, o Oitavo Passageiro, salpicada de pitadas de Indiana Jones (notadamente de O Templo da Perdição) graças à presença da sempre ótima – e mais do que trapaceira – Aphra e seus adoráveis androides assassinos, além do delicado Wookie de pelagem preta Krrsantan. Correndo atrás do que é percebido como o sequestro de Luke, Han Solo, Leia Organa e Sana Starros partem para Ktath’atn para salvar o ex-fazendeiro e aspirante a Jedi e acabam envolvendo-se profundamente nos terrores escondidos pela rainha maléfica e sua entourage de soldados de elite com design belíssimo. Em muitos aspectos, a história é uma grande correria repleta de reviravoltas que acaba trazendo a mente a estrutura dos clássicos desenhos do Scooby-Doo, mas, claro, sem a pegada franca de humor, ainda que o texto seja bem leve mesmo diante dos acontecimentos que se desenrolam em deixar a narrativa perder ritmo ou tornar-se morosa.

A arte varia bastante. A melhor delas fica logo no one-shot dedicado que abre o arco, já que o desenho ficou por conta de Marco Checcheto, que, depois, não retorna para a história a não ser nas capas. Seus traços são muito bonitos e fluidos, com todos os personagens muito bem recriados, além de ele ter um enorme cuidado com os panos de fundo e com a tecnologia empregada. Salvador Larroca, que desenha as duas edições de Star Wars, também é um destaque em seu trabalho, com traços talvez menos imponentes e um pouco mais joviais, mas que acrescentam energia à ação. Finalmente, Andrea Broccardo, que ficou responsável pelos dois números de Doutora Aphra, peca por forçar um fotorrealismo feio e completamente desnecessário aos rostos dos personagens e que ele, ainda por cima, faz questão de destacar com uma série de close-ups que assustam mais do que as ações da rainha maléfica.

Muito sinceramente, Cidadela dos Gritos não exatamente justifica a formalidade de crossover desse tipo que, mal ou bem, é sempre um evento de razoável importância ou, pelo menos, deveria ser. Enquanto A Queda de Vader trouxe uma história realmente relevante, aqui o que temos é, apenas, uma aventura divertida que, apesar de acabar em aberto, prometendo um segundo round, não empolga tanto quanto deveria.

Star Wars: Cidadela dos Gritos (Star Wars: Screaming Citadel – EUA, 2017)
Contendo (na ordem de leitura):
 Screaming Citadel #1, Star Wars #31, Doctor Aphra #7, Star Wars #32, Doctor Aphra #8
História: Kieron Gillen, Jason Aaron
Roteiro: Kieron Gillen (Screaming Citadel #1, Doctor Aphra #7 e 8), Jason Aaron (Star Wars #31 e 32)
Arte: Marco Checcheto (Screaming Citadel #1), Salvador Larroca (Star Wars #31 e 32), Andrea Broccardo (Doctor Aphra #7 e 8)
Cores: Andres Mossa (Screaming Citadel #1), Edgar Delgado (Star Wars #31 e 32), Antonio Fabela (Doctor Aphra #7 e 8)
Letras: Joe Caramagna (Screaming Citdadel #1 e Doctor Aphra #7 e 8), Clayton Cowles (Star Wars #31 e 32)
Editoria: Heather Antos, Jordan D. White
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: julho a agosto de 2017
Editora (no Brasil): Panini Comics
Data de publicação no Brasil: agosto de 2019 (encadernado)
Páginas: 112

Crítica | The Mandalorian – Chapter 7: The Reckoning

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

The Mandalorian finalmente retorna para a história principal em um episódio que, ao começar lentamente, bem mais do que o ritmo normalmente acelerado da temporada, deixa logo evidente que ele é a primeira parte de um encerramento duplo. E não há nada de errado nisso, pois, novamente sob a batuta de Deborah Chow, responsável por The Sin, a narrativa ganha compasso e ritmo para Mando reunir os amigos que fez pela galáxia.

Recebendo uma proposta holográfica de Greef Karga com toda cara de armadilha para eliminar o misterioso cliente que originalmente contratara os serviços do caçador de recompensas e que envolve usar o bebê Yoda como isca, Mando parte para recrutar a ajuda de Cara Dune e, percebendo que precisa de uma babá, também Kuiil que, por sua vez, insiste não só em levar consigo três blurrgs, como também ninguém menos do que IG-11, agora um dócil serviçal depois de ser resgatado pelo engenhoso ugnaught. Com isso, os quatro partem para Nevarro para encerrar o assunto de uma vez por todas.

O retorno dos personagens anteriormente apresentados já automaticamente traz estofo e qualidade ao episódio, algo que a direção de Chow, mesmo trabalhando com um roteiro padrão, que não procurar arriscar (a não ser na cena final, se ela for mantida), amplifica sensacionalmente ao trabalhar uma decupagem precisa, com sequências relevantes para o estabelecimento da conexão necessária entre os três heróis que embarcam na Razor Crest. Mesmo acusando lentidão no começo, como mencionado, a montagem prepara a ação na medida certa e constrói um bom suspense em relação às dúvidas de Mando sobre IG-11 e surpreende na sequência noturna em que mynocks de tamanho avantajado atacam o grupo acampamento nos arredores da cidade onde o confronto será realizado.

Pessoalmente, tenho problemas com os diálogos de Karga, que não passam de frases de efeitos costuradas juntas e faladas por um ator que tem dificuldade em mostrar qualquer tipo de habilidade dramática. Carl Weathers funciona bem como personagem de segundo ou terceiro plano, mas, ao ser colocado em primeiro plano, sua imponência torna-se quase cômica, o que não é lá um problema enorme, lógico, já que seu papel não é muito mais profundo do que um recorte de cartolina (como basicamente todos na série, diga-se de passagem), mas que poderia ter sido suavizado com um pouco mais de carinho no texto de Jon Favreau.

A composição cênica do vilarejo tomado de Stormtroopers e dois Scout Troopers com speeder bikes foi nostalgia de boa safra na veia, assim como a ação no quartel general do cliente e a imponente chegada dos Death Troopers (os únicos soldados imperiais que acertam o alvo, pelo visto!) e, claro, do esperado Moff Gideon, vivido por ninguém menos do que o próprio Gus Fring, Giancarlo Esposito, em seu belo Outland TIE fighter. No entanto, achei desnecessário que o Cliente fosse chacinado no tiroteio, considerando que o personagem de Werner Herzog tinha potencial para ser mais explorado, mas o que posso fazer a não ser torcer para que ele tenha sobrevivido, não é mesmo?

Logicamente que o destaque do episódio vai para angustiante sequência final em montagem paralela, com Cara e Mando cercados como nos melhores faroestes e Kuiil desesperado para chegar até a nave e à segurança. É aqui que Deborah Chow mostra toda sua categoria ao usar cortes precisos fazendo micro-elipses e quase nenhum diálogo para esconder os efetivos acontecimentos e só nos mostrar a tragédia, com o bebê Yoda, depois de novamente cair no chão (só fico me lembrando do Sloth, dos Goonies!), ser capturado pelos Scout Troopers e a câmera então se levantar, com pouca profundidade de campo, para lentamente mostrar Kuiil alvejado próximo à Razor Crest. Um momento solene e muito bem trabalhado que, ao contrário da cena do Cliente, que se aparecer vivo é lucro, pede que Kuiil permaneça morto para que todo o efeito dramático seja realizado com dividendos, provavelmente permitindo que IG-11 seja usado como um anjo robótico vingador.

Talvez tivesse sido melhor esperar o episódio final para julgar os dois conjuntamente, mas não há mal algum em abordá-los separadamente como faço aqui, mesmo sendo evidente que eles são uma coisa só. The Reckoning faz a temporada retornar ao mais alto nível de qualidade, preparando um encerramento de arco potencialmente digno, capaz de sedimentar The Mandalorian de vez no imaginário popular.

Obs (com spoilers do novo filme da saga Star Wars): O episódio teve seu lançamento antecipado para o dia anterior da estreia de A Ascensão Skywalker nos EUA e, curiosamente, há uma conexão entre as duas obras, ainda que indireta. O bebê Yoda, que já havia tentado tocar na ferida de Mando em The Child, efetivamente cura uma ferida grave em Greef Karga, exatamente como Rey e Ben Solo fazem no filme.

The Mandalorian – Chapter 7: The Reckoning (EUA, 18 de dezembro de 2019)
Showrunner: Jon Favreau
Direção: Deborah Chow
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Pedro Pascal, Carl Weathers, Gina Carano, Nick Nolte, Taika Waititi, Werner Herzog, Giancarlo Esposito, Adam Pally, Dave Reaves, Chris Bartlett, Drew Hale
Duração: 40 min.

Crítica | Han Solo: Uma História Star Wars (Marvel Comics)

Espaço: Corellia, Frota Imperial (espaço profundo), Mimban, Vandor, Kessel, órbita e espaço ao redor de Kessel, Savareen, Numidian Prime
Tempo: 13-10 a.B.Y.

No processo de leitura das adaptações literária e em quadrinhos de Han Solo: Uma História Star Wars, vi-me apreciando mais a história de origem do personagem que, originalmente, com o anúncio do filme, tive pouco interesse em conhecer, o que pode ter influenciado minha apreciação da obra dirigida por Ron Howard. Não é o que o longa tenha magicamente se transformado em algo excelente, mas consegui gostar mais da aventura descompromissada que ele definitivamente é.

A adaptação em quadrinhos, que, no Universo Star Wars, sempre ganhou tratamento vip pela Marvel Comics (que deveria estender esse tapete vermelho para suas tenebrosas adaptações/prelúdios em quadrinhos do Universo Cinematográfico Marvel), recebeu uma abordagem ainda mais especial, com uma minissérie não das tradicionais seis edições, mas sim sete e todas elas com capas alternativas. Considerando que o filme desapontou nas bilheterias, foi uma surpresa o investimento aqui e um investimento que, devo dizer logo de início, gera dividendos na história.

Para começar, há bem mais espaço para que todas as situações do filme sejam trabalhadas com vagar e com acréscimos de outras sequências que não estão no longa ou que aparecem por lá de maneira diferente. Robbie Thompson não chega sequer a usar o material extra da adaptação literária, mas, mesmo assim, entrega uma minissérie que não só respeita o material fonte, como acrescenta a ele e, melhor ainda, consegue viver independente dele, como uma aventura espacial protagonizada por um personagem particularmente muito convencido e cheio de si aprendendo todas as lições possíveis ao longo dos três anos em que a história se passa, considerando a elipse existente entre sua fuga de Corellia e seu encontro com Beckett e sua gangue em Mimban (curiosamente, esse é o primeiro planeta do universo literário expandido de Star Wars, tendo aparecido no clássico Splinter of the Mind’s Eye, de 1978).

Cada personagem de apoio também ganha um bom espaço relativo para conectar-se com a história macro, incluindo Val e Rio Durant, com os destaques, claro, ficando com Tobias Beckett – o modelo que inspira o futuro Han Solo -, Chewbacca e Qi’ra. Até mesmo os vilões Enfys Nest e Dryden Vos, de seus respectivos jeitos próprios, claro, ganham uma abordagem que vão além de seus respectivos arquétipos. O roteirista esforça-se de maneira bem sucedida para circundar o fato de Chewie falar em grunhidos – ou, tecnicamente, Shyriiwook – algo que Gerry Duggan também conseguira fazer na minissérie solo do personagem. Sem basear-se na bengala da tradução de Han Solo por todo o tempo ou pela tradução automática entre colchetes, Thompson consegue passar a necessária mensagem só com as inflexões possíveis das onomatopeias ilegíveis que ele utiliza, algo que o trabalho de letreiramento de Joe Caramagna captura e amplifica à perfeição.

A arte de Will Sliney é outra demonstração de um capricho fora do comum até mesmo para as adaptações de longas de Star Wars da Marvel, já que o trabalho do artista é lindíssimo, com enorme cuidado nos detalhes de cada personagem e de cada equipamento utilizado na minissérie. Seus traços “pintados” embelezam os movimentos e as expressões dos personagens, funcionando inclusive para Chewie e para os terríveis seres que comandam Han e Chewie em Corellia. Além disso, seu comando da progressão de quadros é muito boa, mesmo que, por vezes, ele acabe estabelecendo elipses que podem confundir quem não estiver prestando atenção. E, apesar de ele não usar com constância, suas páginas duplas – como a da imagem da Millenium Falcon que usei para ilustrar esse artigo – cumprem maravilhosamente bem a função dupla de contar a história e de deslumbrar o leitor.

Mesmo sendo um filme que muita gente desgosta, sua adaptação em quadrinhos é uma das melhores já feitas (e olha que há diversas adaptações por aí – confiram todas elas aqui) e merece ser conferida. Quem sabe o efeito de tornar o longa mais interessante que eu senti não se repete?

Han Solo: Uma História Star Wars (Solo: A Star Wars Story, EUA – 2017)
Contendo: Solo: A Star Wars Story #1 a 7
Roteiro: Robbie Thompson
Arte: Will Sliney
Cores: Federico Blee (#1, 2, 3, 5 e 7), Andres Mossa (#3, 4 e 6), Stefani Rennee (#3 e 6)
Letras: Joe Caramagna
Capas: Phil Noto
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 2018 a abril de 2019
Páginas: 162

Crítica | Star Wars #31 a 38 (Marvel – 1980)

Espaço: Tatooine, Junction
Tempo: A Rebelião – Eventos a Batalha de Yavin e O Império Contra-Ataca

Depois de três anos bem sucedidos na expansão do Universo Star Wars em quadrinhos, a Marvel Comics aproximava-se de um momento importante, o lançamento de O Império Contra-Ataca nos cinemas em meados de 1980. No lugar de parar suas mensais da franquia e criar edições dedicadas ao vindouro grande evento, a editora simplesmente continuou normalmente a publicar suas histórias ao longo do ano, brilhantemente costurando os eventos de Império dentro das edições #39 a 44, algo que seria impensável nos dias de hoje. Com isso, os leitores da época não sofreram qualquer solução de continuidade e puderam muito facilmente continuar acompanhando as publicações mês a mês normalmente. A crítica abaixo, portanto, aborda as edições #31 a 38 de Star Wars, que são todos os números do ano de 1980 que antecederam a adaptação de Império.

Diferente das edições anteriores, normalmente compostas de arcos curtos e diversos one-shots, os números 31 a 37 contam uma história única dividida envolvendo a família Tagge que é dividida em duas partes bem definidas, mas completamente conectadas. Apenas a edição #38 é solta, mas chegarei nela no devido tempo.

Com a introdução do Barão Tagge no arco anterior sobre o cerco a Yavin IV, o vilão de visão cibernética cortesia do sabre de luz de Darth Vader volta para uma vingança dupla contra o Lorde Sith e Luke Skywalker que frustrara seus planos.  Com ajuda de Silas, seu irmão cientista, e de Ulric, seu irmão comandante de um cruzador imperial, o barão (cujo primeiro nome é Orman) faz um experimento em Tatooine com o objetivo de criar uma arma capaz de colocá-lo em boa luz perante o Imperador ao mesmo tempo que espera que Luke apareça por ali por ser sua terra natal.

O leitor precisa aceitar o estilo de vilão de James Bond que Orman inegavelmente é, com tudo o que decorre daí: armas mirabolantes (no caso uma que congela tudo) e planos mais ainda que dependem de uma boa quantidade de coincidências e conveniências. Se aceitar, a história funcionará. Caso contrário, tudo não passará de um exercício em exageros e bravatas. Feita a ressalva, claro que Luke acaba em Tatooine e, coincidentemente, ainda esbarra em Han Solo e Chewbacca na boa e velha cantina de Mos Eisley, com o grupo não demorando e acabando no meio do deserto, sendo ajudados por Jawas. E, também sem demora, eles testemunham a arma de Tagge em pleno funcionamento e enfrentam o vilão no planeta.

Há espaço, também, para Luke reconectar-se com Fixer e Camie, seus amigos de juventude junto com Biggs, que foram cortados de Uma Nova Esperança, mas cujos trechos filmados podem ser encontrados por aí. É, nessa primeira parte, uma aventura simples, mas fluída e simpática, além de sempre dinâmica ao revisitar o primeiro planeta da saga. Na segunda parte do arco, Luke é atraído para uma complexa armadilha armada pela bela Domina Tagge e por ninguém menos do que Darth Vader no planeta Monastery. Novamente, o jogo de vingança é o que movimenta a trama, além de finalmente Vader descobrir a identidade do rebelde responsável pela destruição de Estrela da Morte. 

Há muitas idas e vindas e traições duplas, além de surpresas, mas Archie Goodwin consegue costurar uma narrativa que nunca perde o fôlego e prende a atenção do leitor constantemente. Além disso, ele conseguem colocar Luke e Vader em confronto, mas sem ferir a lógica do filme que estrearia naquele ano, ainda que não haja exatamente um gancho narrativo completo que leve até Império. Toda essa história lidando com a família Tagge foi desenhado por Carmine Infantino, com seu estilo muito característico e quase “deformado” para os Stormtroopers, Vader e com rostos humanos “de boneca”. É uma arte que exige costume e gosto adquirido, mas que funciona muito bem a partir do momento em que o leitor se acostuma. 

A edição #38, como já disse, conta uma história fechada e sem conexão com o que veio antes e o que viria depois. Trata-se de um filler que foi fruto de um problema de planejamento editorial, já que a edição anterior já mencionava que a seguinte seria o começo de Império. Aqui, Luke e Leia enfrentam uma nave voo-mecânica depois que sua fuga de um cruzador imperial. A história de Goodwin é quase lisérgica, bebendo de sci-fi “viajante” que, confesso, não funciona muito bem no contexto de Star Wars. Mesmo assim, a leitura é boa e fácil, por vezes até emocionante. 

Preparando o leitor para o melhor filme da saga sem realmente adiantar nada ou dar sequer pistas do que aconteceria – até porque duvido que a Lucasfilm tenha informado algo para a Marvel Comics — as edições de 1980 da clássica publicação de Star Wars que ainda teria vida longa e próspera são um deleite. A Força realmente estava com Archie Goodwin!

Star Wars #31 a 38 (Idem, EUA)
Roteiro: Archie Goodwin
Arte: Carmine Infantino, Michael Golden
Arte final: Bob Wiacek, Gene Day, Terry Austin
Letras: Jim Novak, John Costanza, Joe Rosen
Cores: Carl Gafford, Petra Goldberg, Nelson Yomtov, Michael Golden
Consultoria editorial: Jim Shooter
Editoria: Archie Goodwin, Danny Fingeroth
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Data de publicação original: janeiro a agosto de 1980
Páginas: 18 (por edição)

Crítica | Star Wars: Alvo Vader

Espaço: Ficari, Coruscant, Yuw, cinturão de asteroides Fellio, Arvina, Heva, Frota Imperial, Lowik (base rebelde secreta), Ryarten (flashback), Fuacha (flashback), Mytar (flasback), Chorin (flashback), Academia Carida (flashback), Qhulosk (flashback), Mimban (flashback)
Tempo: A Rebelião – entre os eventos de Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca

Valance, o caçador de recompensa ciborgue, apareceu pela primeira bem cedo no Universo Expandido de Star Wars, mais precisamente na edição #16 da primeira HQ mensal da franquia, em meados de 1978, repetindo suas aparições outras diversas vezes. O personagem, ex-Stormtrooper que teve seu corpo destroçado em combate e, depois, reconstruído muita na linha do que aconteceu com Darth Vader, sempre odiou não só o Lorde Sith como também todo e qualquer androide ou robô, fazendo questão de destruí-los sempre que tem oportunidade.

Somente muitos anos depois é que o personagem ganhou seu primeiro nome – Beilert – graças à expansão The Hunt Within: Valance’s Tale, do jogo Star Wars Miniatures, fabricado pela Wizards of the Coast e escrito por Jason Fry. E, como todo bom personagem, ele foi “ressuscitado” no novo cânone de Star Wars pela Marvel Comics, aparecendo como cadete imperial amigo de Han Solo na minissérie Han Solo: Cadete Imperial, escrito por Robbie Thompson como uma espécie de mini-expansão de sua própria adaptação em quadrinhos de Han Solo: Uma História Star Wars. E é o mesmo Thompson que coloca Beilert Valance em destaque na minissérie em seis edições Alvo Vader, em que ele e um grupo de caçadores de recompensa são contratados pela organização criminosa A Mão Escondida para assassinar Darth Vader.

É sempre complicado contar uma história cujo final conhecemos. Afinal, considerando que a aventura se passa antes dos eventos de O Império Contra-Ataca, não há nenhuma chance de Valance e companhia conseguirem matar o Lorde Sith. O que resta, portanto, é a forma como a história é contada, com Thompson aproveitando para dar mais estofo a Valance e também a cada um de seus companheiros: Honnah, uma rastreadora gamorreana, Urrr’k, uma sniper tusken, Chio Fain, um hacker ardenniano e R9-19, um androide que não demora cinco segundos e é eliminado pelo ciborgue. Além disso, o próprio Vader caça A Mão Escondida em razão da relação da organização com a Aliança Rebelde, algo que também é costurado na narrativa e que nos permite ver um lado mais sombrio, por assim dizer, daqueles que conhecemos com sendo do lado do bem.

Mas o grande objetivo do roteirista é mesmo destacar Valance como o grande estrategista invencível e durão que não economiza na loucura de seus planos para se aproximar de Vader e eliminá-lo. É, portanto, diversão descompromissada de alta octanagem para reposicionar o caçador de recompensas como mais um importante personagem do novo cânone e, ao mesmo tempo, servir de teaser para a já anunciada mensal Star Wars: Caçadores de Recompensa, que terá o ciborgue como líder e começará em março de 2019. Portanto, nesse aspecto o texto de Thompson é bem-sucedido, já que ele não se preocupa muito em complicar, mas sim, apenas, explodir e atirar.

Quando o autor arrisca-se a ir um pouco além, porém, ele se complica e entrega um resultado errático. A impressão que temos é que Valance odeia Vader, mas nenhuma razão muito específica é dada mesmo quando seu passado remoto é abordado. E o mesmo vale para a suposta origem da organização criminosa que ele caça, que recebe uma contextualização no mínimo muito estranha com a minissérie já bem avançada. Não é, de forma alguma, porém, algo mortal para a compreensão da linha bem simplista da narrativa, mas sem dúvida incomoda o leitor mais atento, até porque não eram elementos realmente necessários para o bom desenvolvimento de Valance.

No lado da arte, Alvo Vader é uma mixórdia. São nada menos do que seis desenhistas e uma penca de outros coloristas se revezando nas seis edições, cada um com seu estilo próprio, que acaba retirando qualquer traço de unicidade visual. Não são artes individualmente ruins, longe disso, com destaque para o trabalho de Marc Laming na primeira edição e para Georges Duarte na última, mas essa proliferação de artistas em uma minissérie tão curta depõe contra o resultado final e dá a impressão que tudo foi feito de qualquer jeito só para encerrar logo a história.

Como uma forma de introduzir Beilert Valance de uma vez por todas no novo Universo Estendido de Star Wars, Alvo Vader cumpre sua função e diverte de maneira rasa. Tomara que a mensal que terá o personagem em destaque, porém, tenha mais a oferecer do que apenas isso.

Star Wars: Alvo Vader (Star Wars: Target Vader, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Target Vader #1 a 6
Roteiro: Robbie Thompson
Arte: Marc Laming (#1), Chris Bolson (#1 e 5), Stefano Landini (#2 a 4 e 6), Roberto Di Salvo (#5 e 6), Marco Failla (#5), Georges Duarte (#6)
Cores: Neeraj Menon (#1 a 4 e 6), Jordan Boyd (#1), Andres Mossa (#1), Federico Blee (#1 e 4), Erick Arciniega (#1), Giada Marchisio (#4), Rachelle Rosenberg (#5 e 6)
Letras: Clayton Cowles (#1 a 3), Joe Caramagna (#4 a 6)
Capas: Nic Klein
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 03 de julho a 11 de dezembro de 2019
Páginas: 141

Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker (Com Spoilers)

  • Contém spoilers! Leia a crítica sem spoilers aqui, e confira aqui nossa coleção de textos sobre Star Wars, em constante expansão.  

Será que eles fazem isso de propósito? Só pode ser isso. Tem que ser isso. Só pode ser de propósito…

Ame o produto, odeie o produto, consuma o produto

Certa vez alguém me disse: “você só se torna um legítimo fã de Star Wars a partir do momento em que odeia [alguma coisa de] Star Wars”. Pode parecer apenas um comentário irônico a respeito dos desprazeres do fandom, mas por outro lado faz até sentido: dá para odiar aquilo que diz respeito a algo que simplesmente não te importa?

Dada a multiplicidade de obras explorando o universo criado por George Lucas, a chance é altíssima de que alguma coisa no meio do caminho entre Uma Nova Esperança e o que quer que tenha tentado sucedê-lo simplesmente não caia bem. Não caia nada bem. E então vem o ressentimento, a irritação, a rejeição completa e total dessa nova peça , tão detestada justamente por não encaixar direito no quebra-cabeças tão querido que você trazia no coração. Para alguns, um quebra-cabeças de apenas duas ou três peças, para outros podem ser centenas  —  não importa.

O ponto é que o ódio vem porque a nova peça destoa, incomoda e arruina aquele todo impecável e livre de falhas que era a galáxia muito, muito distante até então. “Tudo era tão perfeito até “X” acontecer e agora veja só, todas essas memórias, toda essa magia, toda a minha infância/adolescência/juventude/vida adulta estão destruídas. Muito obrigado pela punhalada nas costas, George Lucas/J. J. Abrams/Rian Johnson/Jar Jar Binks!”

Esse poder místico da série, embora encontre paralelos em outras franquias, provavelmente deve-se à genialidade sui generis da Trilogia Original, um cinema que, por mais que pudesse ter objetivamente suas limitações, resultou em um conjunto muito superior à soma de suas partes nos mais diversos níveis imagináveis. O time criativo capitaneado pelo jovem George Lucas não apenas “engarrafou relâmpago”: ele engarrafou Hefesto inteiro e saiu vendendo trovões nas salas de projeção e pequenos raiozinhos de polietileno em embalagens da Kenner.

Quase meio século depois, seguimos amando e odiando Star Wars, e a franquia segue sendo comentada nesse misto de sentimentos verdadeiros com as tentativas vãs de contê-los: o cinismo cool, o tecnicismo dos críticos, os boicotes cultistas, os artigos em busca do clickbait perfeito. Tentativas de tampar com a peneira o poder ainda avassalador do relâmpago de um filme barato de 1977. E isso tudo, claro, refletindo nas tentativas da titânica Casa do Camundongo em manter o seu Hefesto de 4 bilhões de dólares bem engarrafadinho e devidamente produtivo.

Aproveitando o momento para um breve corolário. Eu creio ter consciência do meu status: eu amo (o meu quebra-cabeças pessoal de) Star Wars. Não é algo universal. Para quem não foi acometido por essa condição, a dinâmica deve ser simplesmente outra. Também deve haver conversa interessante para se ter nesse meio. Mas eu só posso falar desse lugar. Eu leio (e releio) os livros e quadrinhos em detrimento de coisas potencialmente melhores, idem para os jogos —  putz, minha maior expectativa em relação a A Vingança dos Sith era saber se o Quinlan Vos tinha alguma chance de aparecer! Ou seja, nesse momento, vos escreve um crítico 100% comprometido e parcializado sob essa condição, para bem e para mal… Eu me diverti com o filme, gostei de várias cenas que considero objetivamente boas e até mesmo com outras nem tanto. Ao invés de ressaltar por várias vezes o que funcionou para mim, que foram dois componentes bem básicos: a caracterização do elenco principal (até certo ponto do filme) e o aspecto de aventura, quero tentar passar por eles mas me ater nos “porquês” a respeito do que não funcionou.

Dr. John Watson vs. Sir Arthur Conan Doyle

Dentre todas as trapalhadas da Disney em lidar com essa Trilogia Sequência que agora se encerra, é possível que a que inicialmente tome corpo no imaginário do público seja a suposta grande “richa” de bastidores: J. J. Abrams vs. Rian Johnson. Porém, por mais que essa briga se reproduza entre os fãs na forma dos defensores ferrenhos de duas abordagens igualmente cheias de elementos indefensáveis, acredito que a verdadeira disputa aqui seja entre duas figuras mais inusitadas: o fictício Dr. John Watson e seu criador em carne e osso, Sir Arthur Conan Doyle. Me refiro às perspectivas intra-narrativa (watsoniana) e extra-narrativa (doylista) com que se pode observar o universo diegético desses novos lançamentos.

A primeira, “watsoniana”, nos faz coincidir com o ponto de vista interno da narrativa  —  o “John Watson de Star Wars”, o misterioso autor que, in loco, cordialmente nos escreve “A long time ago, in a galaxy far, far away…” sem assinar nada embaixo, e segue nos relatando os eventos a partir de seu ponto de vista tácito.

Esse pobre coitado frequentemente parece ser esquecido em prol do segundo ponto de vista, “doylista”, que permeia a experiência de interpretação dos fãs ao jogar frequentemente para um locus externo o ponto de apoio da narrativa. Nós sabemos muito bem quem escreveu aquela frase, e também que o texto introdutório, ao invés de miraculosamente traduzido do basic para o inglês/português e transmitido por vários anos-luz até chegar aqui, foi meticulosamente escrito com base em intenções de marketing, expectativas de retorno e reações de grupos focais. E não abrimos mão de nos lembrar disso na hora de tentar apontar os motivos pelos quais um dos filmes nos desapontou.

Esse deslize em direção ao doylismo torna toda a discussão em torno das obras mais pantanosa e nebulosa do que o necessário: de repente, ao invés de nos ocuparmos dos autênticos elementos dramáticos que, afinal de contas, foram o que inicialmente nos fisgaram e nos mantiveram motivados ao ponto de ir ao cinema de madrugada em pleno meio da semana, estamos vociferando maldições em direção às grandes corporações, nos desgastando em meio ao fogo cruzado do tedioso review-bombing e dos absurdos tomatômetros e fantasiando disputas fúteis entre diretores na busca por encontrar a origem de tamanha vilania do mundo real.

Não que o jovem George Lucas não possa ter tido, obviamente, suas inspirações e motivações mundanas, sejam elas quais foram. É que, originalmente afastada de todo esse contexto extra-narrativo massivo, sua película seminal conseguiu disfarçar muito bem esse fato inconveniente. Se eu tivesse que resumir o mais brevemente possível o porque eu acho que o primeiro “Guerra nas Estrelas” é um filme tão bom, eu diria que é porque ele te transporta com uma facilidade inacreditável direto para o coração de um universo diegético único. Faz até parecer que é fácil!

De forma absolutamente improvável, apoiado em um contexto favorável onde Lucas ainda não tinha tomado para si o controle total de suas produções (e, com isso, descartado o senso crítico pela janela tal qual Darth Sidious fez com Mace Windu), O Império Contra-Ataca nos trucou em cima desse feito inicial de forma brilhante, adicionando novas camadas de dramaticidade e recheando a narrativa com elementos riquíssimos de toda boa jornada heroica que garantiram que Luke, Leia e Han se tornassem o que se tornaram no imaginário pop.

A partir de então, a marca penou para reencontrar e repetir a essência por trás dessa dobradinha miraculosa. Sim, convenhamos, sem cinismo e com todo o amor que a franquia merece: desde O Retorno de Jedi, Star Wars no cinema tem sido, em medidas variáveis, um show de derivativismo, auto-indulgência e comentários “meta” a respeito da própria grandeza e importância. Em uma era em que a discussão dos filmes transcende de longe os limites da experiência da sala de cinema, se antecipando por meses antes e se alongando por anos depois com uma intensidade sem paralelos, esse efeito “meta” só foi sendo cada vez mais potencializado, mudando o que o “evento” de lançamento de um filme significa efetivamente — e em nenhuma franquia no mesmo nível do que nessa.

A Ascensão Skywalker é apenas o climax explosivo dessa tensão crescente entre expectativas impossíveis e auto-referencialidade sem limites, mais de trinta anos cozinhando pelos cantos de cada produção que levou a marca. É onde essas forças se chocaram com tamanha potência que fizeram explodir as fronteiras do universo diegético da Galáxia rumo às Regiões Desconhecidas da sala de cinema. Nem precisamos comprar a sessão em 3D para sentir os escombros voando diretamente da tela em nossa direção!

Eu estava determinado a não ser doylista demais neste texto, queria criticar o filme sob uma perspectiva protegida de todo “ruído externo”. Mas me parece um feito impossível: o próprio filme rompe qualquer barreira que houvesse antes entre os dois pontos de vista, fazendo Doyle descer uma bicuda na cara de um incauto Watson logo na introdução, e prosseguindo com seu implacável espancamento até que o pobre doutor tivesse saudades de seus tempos de guerra.

Com a sutileza imagética de literalmente milhares de cruzadores imperiais levantando da tumba e poluindo o céu em uma completa agressão aos sentidos, à credibilidade e ao bom senso, a narrativa da trilogia que se iniciou com cuidado recalcitrante termina no estouro ridiculamente cartunesco de um Imperador morto-vivo fritando uma frota inteira de batalha espacial com os improváveis relâmpagos de um roteirismo que soaria rasteiro até mesmo em uma fanfic de iniciante.

Como foi que chegamos aqui, mesmo?

Os póstumos Jedi

Entre as duas produções mornas dessa nova trilogia até então, eu fui pego mais fácil pelo divertido e empolgante show de ilusionismo de O Despertar da Força. Apesar de contar com momentos geniais, tomado em seu todo eu não gostei de Os Últimos Jedi (“Ohhhh, então esse aí é um desses!”). Para mim, ele briga (e possivelmente perde) com Ataque dos Clones como filme da saga que eu menos gosto  —  e sem a vantagem do vínculo de nostalgia que eu possuo em relação à Trilogia Prelúdio (nós existimos e ainda seremos a maioria!). Consigo entender, respeitar e até concordar com alguns dos pontos que os espectadores de opinião mais favorável apontaram sobre a película, mas ainda assim ela jamais me desceu como algo além de um grande (ainda que belíssimo) balde de água fria sobre as promessas do antecessor, pobre e preguiçosamente pretensioso em termos de desenvolvimento de seus personagens e temas centrais.

Raramente, no entanto, eu me senti compreendido em termos do que exatamente me desagradou naquele filme: ao invés de pensar na inconsistência interna e má execução de toda a subtrama de Canto Bight (para mim, a sequência mais medíocre de eventos de toda a saga nos cinemas) ou na forma desnecessariamente vaga e lenta com que a narrativa explora seus momentos de inegável brilhantismo, por exemplo, a discussão frequentemente degradou na polarização entre os que vêem os trajes invisíveis do Imperador Rian Johnson (um roupãozinho todo trabalhado em ouro muito maneiro, ouvi dizer!) e os que não conseguem enxergá-los por “n” motivos externos. “Subversão de expectativas” vs. “jogar seguro na nostalgia”  —  como se as infinitas possibilidades de Star Wars se resumissem a essa escolha binária simples!

Sob uma perspectiva watsoniana, não se resumem. Os livros, HQs, games e tudo o mais estão aí para provar: a riqueza desse universo compartilhado é imensa, e ele foi capaz de gerar muitos frutos dignos de elogio e credibilidade para além dos seus sucessos (e fracassos) cinematográficos. Infelizmente, no mundo dos filmes e sob uma perspectiva doylista, parece que o prognóstico não foi favorável, ao menos sob os olhos de nosso Imperador Camundongo. E a “recepção mista/dividida” do filme anterior aparentemente foi o suficiente para gerar impacto no já fragilizado processo criativo do capítulo final. Lado a lado ao (ao invés do?) trabalho narrativo, a recepção do público e o blábláblá hiperbólico das mídias sociais, revestido de uma importância até então inédita.

Já sofrendo absurda e obviamente da total ausência de planejamento prévio e coordenação mínima de esforços nas salas de roteiro, a Trilogia Sequência acabou se revelando ironicamente ainda menos do que a Trilogia Prelúdio na medida em que abandonou qualquer intento cinematográfico autêntico e aceitou de vez seu destino como mero produto. Eu sei, é um criticismo clichê, genérico e previsível  —  mas, ainda sim, é a descrição mais acurada a que eu consigo chegar. Isso é tão explícito que me faz pensar que talvez J. J. (ou talvez a presença etérea na Força de todos os diretores que o precederam) esteja nos passando uma mensagem de propósito nos momentos mais absurdos da película. “Olha o que vocês fizeram, com sua nostalgia cega e seu desejo rábico por baldes de pipoca em forma de capacete de stormtrooper!”.

Desculpa, seu Abrams, mas essa culpa eu não carrego. Se o trabalho (nada inevejável) dos times de marketing é mapear o frisson dos fãs ensandecidos em busca de diretrizes para garantir retornos futuros da marca, acredito que o compromisso de um time criativo sério, em um mundo ideal, deveria ser o de ignorar esses babacas nem que custe os empregos deles jamais assinar embaixo de uma peça publicitária como se tivesse entregado um filme. É preguiçoso, é tacanho, chega a ser desrespeitoso pelo fato de ser muito menos do que a série, como patrimônio cultural coletivo, merecia. Cada pequena “pontada” desferida contra Os Últimos Jedi ao longo dessa ego-trip insana de J.J. Abrams me confirmava a impressão de que esse elemento é imprescindível para termos uma compreensão mais completa do que se passa aqui. É o primeiro filme da saga que exige, nesse nível, uma contextualização externa para tentar fazer algum sentido sobre suas escolhas. E isso é significativo, não?

Querida, revivi o Palpatine

Desde a icônica introdução textual fica já evidente o nível danoso de auto-consciência do filme a respeito de sua natureza. Você, que achava que tinha vindo assistir ao terceiro capítulo de uma trilogia, logo percebe que não se trata disso. Se trata sobretudo de uma formalidade, um cumprimento de obrigação contratual. Após investir em dois longas inteiros inexplicavelmente dedicados à construção de momentum com bem pouco payoff, chegamos aqui absolutamente a lugar nenhum, em termos narrativos. “Palpatine está de volta, e agora mais poderoso do que nunca! Poderão nossos heróis se juntarem para vencê-lo com o poder da amizade?”.

Nem mesmo na edição de conclusão do arco mais descartável do gibi mais sem vergonha de Star Wars eu acho que já vi uma martelada de enredo com tamanha cara de pau quanto essa passagem realizada entre os Episódios VIII e IX. Algum tipo de esclarecimento sobre a premissa de que a Resistência precisaria se reerguer das cinzas, sobre qual é seu atual status agora e tudo mais? Tensão política e social entre a Primeira Ordem e a Resistência? Efeitos das jornadas pessoais de Rey (Daisy Ridley), Finn (John Boyega), Poe (Oscar Isaac), Rose (Kelly Marie Tran), Chewie (Joonas Suotamo), Leia (Carrie Fisher) e quem mais quer que estivesse presente na escapada final da Millenium Falcon após a Batalha de Crait? Desenvolvimentos de qualquer tipo a respeito das consequências dos eventos significativos dos dois últimos filmes?

Nada disso. Palpatine (Ian McDiarmid) está de volta porque sim, e é hora de nossos heróis começarem a caça ao tesouro do titio J.J. logo, porque se demorar demais é capaz dele criar novas “caixas do mistério” sem futuro algum! Aparentemente, essa é a melhor forma que a equipe criativa e um orçamento tendendo ao infinito encontrou para encerrar, tecnicamente, três trilogias. O que não era para ser um problema até então: mesmo com o time de marketing tagerelando sobre ser esse o final da “Saga Skywalker” (e o fato de que os episódios numerados tradicionalmente se restringiam a ela), narrativamente até então a Trilogia Sequência se encontrava bem posicionada para se resolver bem assim que amarrase os arcos pessoais de seus personagens. Ao reviver o grande vilão dos seis filmes anteriores, no entanto, o que se conseguiu foi colocar uma nova camada de pressão sobre a produção: além de ter que servir aos caprichos do “vai-não-vai” advindo do dramalhão que circundou o filme anterior, agora essa película também se torna responsável por encerrar não uma narrativa de três, mas sim de nove filmes. Diga-se o que quiser sobre as infames prequels de Lucas, mas narrativamente O Retorno de Jedi continuou a servir como encerramento perfeito e redondinho de uma trama transgeracional em seis capítulos.

Que fique claro: óbvio que é parte do estilo (e charme) de Star Wars adotar, sempre que possível, a estratégia in medias res  —  ou seja, criar narrativas que nos jogam de cara no meio de situações complexas dispensando a exposição de elementos-chave que nos levaram até ali. Não é por menos que a franquia se iniciou no quarto episódio e tudo mais, certo? Na verdade, a única transição que dispensou o recurso foi aquela entre os dois Episódios anteriores a esse. Porém há uma enorme diferença entre um time skip, por mais preguiçoso que seja, e um completo giro de 180 graus em direção a um outro filme surgido do nada e completamente incompatível com as linhas narrativas dispostas até ali. Ainda que teoricamente fosse possível inserir um retorno-surpresa do Imperador a essa altura do campeonato, certamente que um cuidado maior do que essa deturpação do crawl text era necessário para a coisa funcionar em qualquer nível não-caricato.

A partir desse novo foco, eleito não a partir dos ganchos narrativos disponíveis, mas do éter da genialidade de Abrams, a única coisa que conecta os conflitos, temas e elementos centrais de Os Últimos Jedi com A Ascensão Skywalker (e, por tabela, inclusive com O Despertar da Força) são os arquétipos de nosso trio principal, alguns elementos do lore da série tomados de forma o mais geral possível e um esboço de arco tumultuosamente realizado entre Rey e Kylo Ren/Ben (Adam Driver)  —  o único fio condutor que não acaba completamente em curto-circuito ao final do kamehameha Sith do Imperador zumbi.

A Resistência e a Primeira Ordem são duas entidades que, na passagem do primeiro para o segundo ato do filme, simplesmente cedem lugar a “pessoal do bem” versus “exército do mal”, respectivamente. Cada movimento do (desajeitadamente acelerado) primeiro ato do filme mal consegue disfarçar seu caráter burocrático, telegrafando necessidades pouco otimizadas do roteiro preguiçoso em tentar nos convencer que, de alguma forma, os ganchos narrativos oferecidos até então poderiam desembocar organicamente em uma investida da Resistência contra uma frota Sith que brotou ex nihilo nas Regiões Desconhecidas da Galáxia. Qual era a necessidade de que fosse assim? Era a única saída para se obter um espetáculo visual tão hiperbólico e vazio que deverá causar pesadelos terríveis para Michael Bay para todo o resto de sua vida, se é que isso era inevitável em temos marketeiros? Não dava para chegar nesse mesmo final inevitável de alguma forma minimamente elegante ou, quem sabe, racional?

A ascensão MacGuffin

Ironicamente, o corre-corre inicial dá origem a algumas das sequências que mais me agradaram em todo o filme. Mesmo inseridos em mais uma gincana de caixa do mistério, nosso grupo de heróis funciona muito bem em todos os níveis. A busca pelo rastreador Sith me fez lembrar alguns dos meus elementos favoritos de Star Wars, justamente aqueles até então esquecidos no desfile de auto-homenagens que foi essa nova trilogia.

Falo do senso de aventura espacial imprevisível e despreocupada, repleta de elementos misteriosos a cada virada do roteiro e embalada pela interação de um elenco carismático formado por um conjunto de arquétipos muito interessantes. O tipo de tonalidade vista nas sequências iniciais de O Retorno de Jedi, ou então, indo mais longe na coisa, que pontuava as aventuras lá do início do antigo Universo Expandido, como os quadrinhos originais da Marvel e o livro Splinter of The Mind’s Eye, nas quais as regras e o lore ainda não eram bem estabelecidos o suficiente, reinando assim a imaginação selvagem dos roteiristas inspirados pela obra-prima audiovisual original e nada mais.

E isso tudo com o mérito de uma tão bem-vinda originalidade: nosso grupo de heróis lembra suficientemente a tripulação clássica da Millenium Falcon, sem correspondê-la ponto-a-ponto o suficiente para tornar a coisa um exercício em futilidade — um mérito, em se tratando do Star Wars de J. J. Abrams. As relações internas no grupo convencem bastante, nos fazendo lamentar que “não tenhamos tido tempo” para explorar essa dinâmica antes (claro, mais importante foi o desfile de clichês pretensiosos da inexplicável digressão a Canto Bight!), o que também não desculpa Abrams da forma preguiçosa com que ele tenta nos convencer de que ele faz outra coisa aqui que não recortar situações sem grande sustentação narrativa para além do imediato.

A tensão entre Finn e Poe, a exploração de habilidades inéditas na Força através da misteriosa ligação entre Rey e Ben, a ideia da adaga Sith com a mensagem intradutível e a subsequente missão para hackear C3-PO (Anthony Daniels)  —  tudo isso recheia o ato inicial com ares de um divertido swashbuckler espacial, nos fazendo lembrar que, afinal de contas, essa doideira toda nasceu de um pastiche de Flash Gordon. Adorei e me diverti por cada segundo disso tudo, mesmo por entre o peso do ritmo caricaturalmente acelerado.

Anthony Daniels realiza sua volta da vitória com o C3-PO mais engraçado desde Uma Nova Esperança, Daisy Ridley ecoa algumas da melhores performances de cavaleiros Jedi do passado, com seu próprio twist pessoal, e o restante do elenco de heróis entrega performances no mínimo à altura de seus melhores momentos na série até então. No geral, senti que especialmente nessa sequência inicial de caçada aos MacGuffins o filme trouxe uma pegada mais fiel à caracterização dos personagens cuidadosa e demoradamente feita na abertura dessa trilogia, algo que faltou ao Episódio anterior e que infelizmente torna a desaparecer a partir do segundo ato do filme.

A variedade vertiginosa de paisagens e mundos mostrados remedia um pouco do senso claustrofóbico do filme anterior  —  quero crer que não exatamente por esse motivo, já que a insistência babaquíssima do filme em desfilar “indiretas” para supostamente agradar os espectadores que não curtiram a entrada anterior é talvez o signo mais podre do corporativismo que, infelizmente, exala pelos cantos desse filme.

Não que essas qualidades todas anulem os problemas relativos à caçada pelo artefato Sith que, no final das contas, é a textual definição do MacGuffin. Embora o termo possa ser usado de forma ampla para designar o papel que esse tipo de dispositivo tem na construção de roteiros, esse caso particular é praticamente a definição textual da ideia em seu pior sentido. O que define o MacGuffin é que ele é vazio e possui uma relação cíclica com a narrativa. Ele é necessário porque a narrativa precisa que ele seja  —  e o caso aqui é que se tratam literalmente das coordenadas mágicas para o terceiro ato do filme. E é nesse sentido que, por mais divertida que essa aventura inicial seja, a coisa toda começa a se desmontar…

O adormecer da Força

Logo abaixo dessa caçada pelo artefato Sith, que se encerra já passada a metade do filme encontramos… nada! As reais e inegáveis limitações do enredo começam a pipocar na medida em que percebemos que as facções em conflito já abandonaram o roteiro. General Hux (Domhnall Gleeson) se torna finalmente um personagem gostável por cerca de três minutos antes de ser sumariamente executado por uma cópia do Tarkin mais uma das criações originais de Abrams, o General Pryde (Richard E. Grant). Uma linha de diálogo tenta semear algum mistério em torno do figura — jura, mesmo? A essas alturas? Após essa fuga, não resta mais qualquer vínculo narrativo entre os personagens principais e a facção que foi construída ao longo de dois filmes.

Na verdade o que ocorre é apenas a explicitação disso: a Primeira Ordem se torna um conceito totalmente obsoleto literalmente nas primeiras cenas do filme, a partir do momento em que Kylo Ren já não se foca mais nos ideais da facção, mas sim em sua relação na Força com seu novo e aleatório mentor que conjurou do éter um poder destrutivo que torna todas as três guerras retratadas pela saga um exercício de redundância sem sentido. Já a Resistência, pouquíssimo trabalhada após um filme que tanto se debruçou a respeito de seu significado, se mantém um elenco de apoio sem face ou peso narrativo algum, aguardando o momento para ser convocada para a batalha final. Fora os gatos-pingados que são capitaneados por Poe na investida final, o que realmente parece reforçar o exército contra os cruzadores inexplicavelmente tripulados de Palpatine são os reforços milagrosamente convocados por Lando (Billy Dee Williams, sacado da manga sem muito compromisso toda vez que o roteiro parece poder se servir de um fanservice rápido e teoricamente eficiente) antes da batalha final. “São apenas… pessoas!”. Misericórdia…

Finn e Poe recebem o que parecem as versões resumidas de algumas das subtramas imaginadas para os personagens sob um contexto completamente diferente. O bando de stormtroopers desertores de Jannah é um conceito visualmente e narrativamente bem bacana, com potencial para expandir o personagem de Finn. Ou seja, várias qualidades que ressoariam muito bem em um outro momento que não o iminente desfecho total de uma saga de nove filmes a ocorrer dentro da próxima hora. Fora isso, a coisa toda acaba sendo construída mais como forma de tirar o ex-stormtrooper do caminho de Rey (irônico, vindo de quem se mantém em tamanha vantagem em relação aos erros do filme anterior), livrando-a para prosseguir com a última linha narrativa ainda de pé nessa bagunça toda: sua ligação na Força com Kylo e a jornada deste rumo ou à danação eterna e potencial destruição da Galáxia, ou à redenção.

A exploração dass habilidades de ambos nos garante não apenas momentos incríveis de ação como verdadeiros espetáculos visuais e — por que não? — dramáticos ao longo de toda a película. Mesmo depois que o restante do filme entra em stand-by, a maioria das cenas com Ridley e Driver na tela não deixa nunca de empolgar e entreter. A batalha no deserto é um belíssimo espetáculo visual de ação, enquanto a jornada pelos escombros da Estrela da Morte cumpre bem revisitar o local sob uma atmosfera especialmente tensa e clautrofóbica. A batalha climática não decepciona, encaixando o inevitável sacrifício de Leia em uma montagem bem feita e muito eficiente. Por sua vez, a aparição de Han Solo (Harrison Ford) e a subsequente cena de redenção de Ben, ecoando a cena já icônica de O Despertar da Força, completa uma conclusão emocionalmente ressoante para a trama pessoal do último Skywalker — o que, no contexto atual, é um luxo do qual praticamente nenhum outro personagem desfruta. Definitivamente um dos pontos altos de fanservice filme, ganhando do ótimo reencontro de Rey com Luke (Mark Hamill), que sofre de um ritmo exageradamente acelerado.

Infelizmente, mesmo esses acertos se dão contra o pano de fundo da revelação, também inevitável, a respeito da real ascendência de Rey. A pobreza de espírito e secura criativa da decisão em “revelar” Palpatine como o avô de Rey não advém tanto da teimosia em negar Os Últimos Jedi (embora talvez a Disney devesse ter considerado responder ao patético abaixo-assinado requisitando o cancelamento imediato do filme, se era para lidar com a coisa desse jeito) — a série tem toda uma tradição em retconnar as relações de parentesco de seus protagonistas, Obi-Wan Kenobi já saberia muito bem. A argumentação infame do mestre de Anakin é revivida aqui na total cara de pau (“It was the truth, from a certain point of view…“) e, teoricamente, o crime não é tão diferente quanto fazer de Vader o pai de Luke após o filme inicial declarar que isso definitivamente não era o caso.

O único detalhe é que, enquanto revelar que Vader é o pai de Luke adicionou tensão e construiu uma camada de complexidade sobre uma narrativa que, para todos os efeitos, já se encontrava em seu ápice, a revelação chocha a respeito de Rey não apenas é mal e porcamente executada na tela, mas ainda por cima consegue a façanha de amarrar o destino de nossa protagonista, ponto central e principal da identidade de toda essa trilogia, com o elemento absolutamente mais frágil e sem sentido do filme, leia-se o revivido Palpatine. Não bastasse literalmente exumar o Imperador e colocá-lo suspenso como um fantoche na ponta de uma estrutura para ser morto por nossos heróis e, enquanto finalmente morre novamente, declarar que estamos todos nós livres dessa agonia (como 3pO exclamou desejar na areia movediça), o roteiro consegue se “saladizar” ainda mais ao tentar conjurar algum tipo de vínculo emocional não entre Rey e Palpatine-zumbi aleatório. Veja bem, não é entre Rey e uma das figuras vilanescas mais icônicas da franquia (ausente nesse filme), mas sim entre Rey e um plot-device desprovido de qualquer lastro narrativo.

Algo semelhante poderia ser dito a respeito da revelação, também forçada na época, de que Leia era irmã gêmea de Luke. Esse tipo de obsessão genealógica só escapa da total ridiculeza e se justifica para além do fanservice se esse tipo de coisa trouxer algum potencial para a trama. O que é que foi ganho ao declarar Rey uma Palpatine aos 45 do segundo tempo? Sacrificando uma exploração temática conquistada pelo filme anterior em uma de suas melhores partes, a opção acaba por ser o derradeiro desastre do conjunto todo, relegando Ben a um papel secundário na batalha final e, no desenrolar definitivo das coisas, fazendo com que o sacrifício final de Anakin, que amarrava perfeitamente o conjunto inconstante dos seis primeiros filmes (trazendo o profetizado equilíbrio para a Força), seja substituído por uma virada roteirística de Rey sobre Palpatine, encerrando “em família” a ameaça revivida e tornando os Skywalker elementos secundários no grande esquema das coisas.

“Like my father before me!”

“Ah, mas no final de tudo ela adota o nome da família que, na prática, a adotou!” Muito bacana (ainda que clichê e previsibilíssimo), mas isso perde totalmente o ponto a respeito do peso narrativo de se falar em uma “Saga Skywalker”. É o mesmo motivo pelo qual a conversa fiada do filme anterior sobre “Esqueça o passado e os mitos, todo mundo pode ser um mito!” desceu mal para tanta gente. Não, não me refiro ao apego sentimentalista e infantil às maravilhas do passado idealizado: embora esse também exista, é bem menos universal e poderosa do que muitos parecem pensar quando convém. O que interessa em uma história de linhagem e legado, mesmo em uma perspectiva intra-narrativa, são as ideias de continuidade da jornada heroica.

O herói é o ponto de vista narrativo, a figura de identificação do espectador dentro do universo retratado. Elementos de linhagem e herança envolvem e funcionam ao fazer com que a jornada heroica ultrapasse a finitude do mortal que atualmente ocupa o posto de protagonista, unificando jornadas parciais em torno de um mesmo destino. Por isso dizer “Esqueça o passado, olha como tudo pode começar de novo a qualquer momento e é mais interessante ainda!” tem como efeito abalar esse processo identificatório, dividindo as percepções do público de acordo com a forma como cada um se orienta a partir dessa recomendação. Não tem a ver com a real descendência do personagem ou no quanto ela foi indiciada anteriormente seja por Watson, seja por Doyle.

Ironicamente, essa sequência final remexe e enfatiza de forma ainda mais grosseira o erro do predecessor, trocando a jornada pessoal de Rey por um adendo de última hora, tentando artificialmente fazê-lo passar por um desenvolvimento pessoal do seu arco e praticamente reservando ao epílogo a nomeação da personagem como herdeira de Skywalker. Não há atalhos para esse tipo de coisa — ou, se há, é preciso saber pelo menos qual é o caminho que se está tentanto percorrer.

É embalada por esse vazio temático que a batalha final acaba por não ser mais entre a Resistência e a Primeira Ordem, polos fundadores do conflito dramático dessa trilogia, mas sim entre genéricos “bem” e “mal”. Não importa mais quem faz parte ou não da Resistência ou o quanto essa força de ataque se encontra totalmente superada pelo poder ridiculamente sem limites do Imperador. Não importa quem é que tripula todos aqueles cruzadores imperiais que literalmente brotaram da lama (minha teoria é de que é um exército de clones de Snoke). Não importa que nada disso tenha ligação com a situação política da Galáxia.

Veja bem o quanto isso tudo não importa: a batalha final literalmente teve que se deslocar para fora dos limites da Galáxia conhecida, já que esse espaço já não sustentava ligação alguma com o plot. O vilão principal não tem nenhuma ligação com os eventos mostrados até então, exceto uma única troca de diálogo ao início do filme, e agora está muito ocupado quebrando toda a credibilidade da Força para se importar. Por fim, com Rey sem ter muita ideia para trocar com seu avô (já que eles são tão estranhos quanto Luke e Vader eram na primeira vez em que cruzaram olhares) e vice-versa, a única saída é essa: “Eu sou todos os Sith!” / “Ah é? Então eu sou todos os Jedi!”. Escopo e escala ampliados ao ponto de perder-se totalmente o foco e o lastro dramático, e ao fim de tudo esse combate desprovido de ponto de vista não é nada: muito menos do que a intentada “referência” ao combate final de O Retorno de Jedi, trata-se apenas de uma pontuação meta-narrativa sobre o fim da saga.

“Todos contra todos, o bem vence o mal, voltemos para casa pra uma última rodada de auto-homenagens!”

. . .

Assim é que a Trilogia Sequência, na verdade, acabou não sendo sequer uma trilogia a rigor: são apenas três filmes justapostos. Um conjunto que conta com sua cota de momentos brilhantes mas cujo todo, no entanto, é menor do que a soma de suas partes. Três filmes que agradam tanto pela nostalgia quanto além dela, mas pecam sobretudo no apego desinspirado ao passado: seja para produzir imitações óbvias, seja para supostamente negá-lo em nome de imitações menos óbvias. Perdendo tempo com “correções de curso” tacanhas, ironicamente este capítulo final consegue obter resultados negativos por vias totalmente diversas, quando não insiste (sem querer?) no que estava por trás do que não funcionou naquele caso para muita gente.

Ainda que inegavelmente divirta e empolgue por entre espetáculos visuais, apelos nostálgicos, personagens carismáticos e sequências muito bacanas de ação, A Ascensão Skywalker sofre de problemas profundos de roteiro que se fazem sentir especialmente no contexto em que o filme se encontra: não apenas fechando uma trilogia desconcertada e mal-planejada, mas tentando se passar por fechamento de um conjunto narrativo muito maior e mais rico do que a produção consegue alcançar em qualquer momento. Não seria uma tarefa fácil para o time criativo, nem que dentre esses filmes que o antecedem não estivessem alguns dos maiores fenômenos da cultura pop até hoje. Que esse seja o caso acabou sendo um agravante ainda maior para o grande deslize da produção que, nos melhores momentos, pelo menos consegue divertir em meio à tanta tensão interna. Mas seria isso o suficiente para ficar à altura da conclusão de toda a saga? Para ficar à altura de Star Wars?

Ou será que eles fazem isso de propósito, para “manter o balanço” necessário da Força da franquia que depende tanto da frustração quanto da apreciação de seus espectadores? Uma coisa é certa: essa trilogia dará origem a diversos fãs legítimos de Star Wars!

Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: The Rise of Skywalker, EUA – 2019)
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Chris Terrio, J.J. Abrams (baseado em história de Derek Connolly, Colin Trevorrow, Chris Terrio e J.J. Abrams e personagens de George Lucas)
Elenco: Adam Driver, Daisy Ridley, Billie Lourd, Keri Russell, Carrie Fisher, Mark Hamill, Ian McDiarmid, Kelly Marie Tran, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, John Boyega, Billy Dee Williams, Joonas Suotamo, Dominic Monaghan, Richard E. Grant, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Greg Grunberg, Jimmy Vee, Amir El-Masry, Dave Chapman, Brian Herring
Duração: 141 min.

Star Wars previu mesmo a tecnologia do futuro?

“Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante”, assim a franquia Star Wars dá início às histórias que, definitivamente, fazem com que pensemos no futuro.

Um novo capítulo, apresentando um jovem Han Solo, chega aos cinemas nesta semana e impulsiona nossa imaginação sobre o que poderá vir por aí.

Levando isso em conta, separei alguns exemplos da tecnologia apresentadas nos filmes Star Wars que estão a caminho de tornarem-se realidade, para exemplificar como a interconexão será necessária para levar alguns destes conceitos ao mundo em que vivemos.


♦ O sabre de luz

Nada é tão simbólico em Star Wars quanto o sabre de luz. Nas últimas quatro décadas, desde sua estreia, inúmeras crianças e adultos se envolveram em batalhas épicas com sabres de luz.

A verdade é que provavelmente eles jamais se tornarão reais. Mas calma, os cientistas do MIT e de Harvard não descobriram uma maneira de fazer “matéria fotônica” de fótons de luz? E um dos cientistas envolvidos não disse que fazia total sentido comparar a matéria fotônica com o que constitui os sabres de luz?

Bem, é verdade que os pesquisadores disparam fótons de luz por meio de um gás de rubídio super-resfriado, fazendo com que a luz se acumule para, assim, formar moléculas que poderiam possivelmente se unir na formação de uma espada. Mas estas armas estão muito, muito distantes da realidade.


♦ Speeders

Os speeders estão presentes por toda a franquia Star Wars, desde a primeira viagem do jovem Luke Skywalker, de Tatooine (cronologicamente falando), até a aparição no trailer do novo “Han Solo:

Uma História Star Wars“. Speeders são veículos aéreos que viajam próximos à superfície terrestre. Sua tecnologia talvez seja a mais próxima da realidade, entre as exibidas pela saga.

Por exemplo, o veículo flutuante Aero-X se parece bastante com as motos speeder de Star Wars, levitando sobre dois rotores, com base em um projeto da década de 1960 que foi abandonado por causa de questões de estabilidade.

Segundo sua criadora, a Aerofex diz que o veículo responde como uma motocicleta, voa até 3 metros acima do chão à 72,5 km/h e pode ser usada para tudo, desde patrulhamento de fronteiras, pecuária, e até em buscas e salvamentos.


♦ Robôs

O universo de Star Wars é repleto de robôs, e eles fazem quase tudo, desde traduzir “6 milhões de formas de comunicação” (C3PO) até agir como um mecânico de nave espacial durante o voo (R2D2).

Eles têm muito mais funções e uma inteligência artificial (IA) muito superior às dos robôs de hoje, mas essa diferença está diminuindo.

O Robotnaut 2 da NASA (R2) tem forma humana e a destreza similar a de um astronauta. Foi desenvolvido para concluir tarefas simples, repetitivas ou especialmente perigosas, de acordo com a NASA.

Já o robô Asimo da Honda pode chutar uma bola de futebol, fazer tarefas domésticas e subir escadas. Entre suas funções: empurrar carrinhos, servir bebidas e desligar as luzes ou fechar as portas. Seus possíveis usos incluem ajudar pessoas com dificuldade de locomoção.

Robôs agrícolas estão executando, ou sendo desenvolvidos para executar, uma variedade de tarefas: aplicação de herbicidas (máquinas See & Spray), colheita de morangos (Harvest Croo Robotics) e realizar o levantamento topográfico de culturas para melhorar a performance nas lavouras (Agribotix).


♦ Hologramas

A súplica da princesa Leia, “Me ajude Obi-Wan Kenobi, você é minha única esperança”, talvez seja o uso mais famoso dos frequentes hologramas de Star Wars.

Óculos de realidade mista, como o HoloLens da Microsoft, projeta imagens 3D em ambientes do mundo real, permitindo que pessoas manipulem as imagens. Claro que o Obi-Wan não precisava desses óculos.

O Holovect MKII pode desenhar imagens 3D no ar com luz, mas seu criador aponta que as imagens não são geradas como um holograma. Então não estamos tecnicamente lá ainda, mas já estamos chegando perto.


♦ Imaginação e interconexão

A imaginação que impulsiona filmes de ficção científica como Star Wars também inspira a invenção, e grande parte da tecnologia fictícia que vem se tornando realidade exigirá interconexão, em outras palavras, a troca de dados privados entre empresas. Isso já vem acontecendo em nossos data centers.

Por exemplo, a Inteligência Artificial, que alimenta robôs cada vez mais parecidos com humanos, precisa de uma interconexão direta, segura e próxima, pois envolve a ligação com uma gama de usuários, aplicações em nuvem, máquinas e fontes de dados para funcionar como deveria.

Em termos de big data, para as volumosas informações recolhidas por robôs agricultores, a interconexão entre as bases de dados e os serviços de análise é extremamente necessária para processar os dados em tempo real e produzir conhecimentos rapidamente.

E as tecnologias de realidade mista e de realidade virtual, que podem fazer hologramas aparecerem, precisam da interconexão, pois dependem de dispositivos relativamente sofisticados, excelente conectividade de rede e infraestrutura robusta de nuvem para atender às expectativas do usuário.

Star Wars desperta a imaginação, enquanto a interconexão impulsiona a inovação. Essa combinação de imaginação/interconexão pode não nos trazer os sabres de luz, mas é poderosa, e faz com que essa tecnologia que tanto nos impressiona nos filmes esteja menos “em uma galáxia distante”, mas sim mais próxima de nós.

Por: Jim Poole
Vice-presidente da área de desenvolvimento de negócios da Equinix, empresa global de interconexão e data center.

Crítica | Star Wars: Allegiance (Jornada para Star Wars: A Ascensão Skywalker)

O “selo” Jornada para Star Wars da Marvel Comics funciona como prelúdios em forma de minisséries para os filmes principais da franquia lançados pela Lucasfilm depois de sua aquisição pela Disney. O Despertar da Força ganhou uma história repleta de enigmas batizada de Império Despedaçado, Os Últimos Jedi foi agraciado com uma história focada na subaproveitada Capitã Phasma e, agora, A Ascensão Skywalker recebe um prelúdio que coloca a General Leia e o piloto Poe Dameron em missões separadas para tentar reconstruir a Resistência.

Diferente dos prelúdios em quadrinhos dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel que, normalmente, parecem histórias feitas às pressas e de qualquer jeito só para cumprir tabela, os de Star Wars trazem elementos interessantes que, mesmo que não acrescentem informações essenciais para a compreensão dos filmes que antecedem (e nem poderiam, não é mesmo?), funcionam bem dentro do conceito de Universo Expandido, algo que a própria Marvel Comics fez com muito sucesso ainda em 1977. Allegiance não é uma história com grandes pretensões e não tem sequer o objetivo de fazer uma ponte muito clara entre filmes, sendo muito mais apenas uma aventura simpática que parte da quase eliminação da Resistência que vimos em O Último Jedi e coloca os heróis em histórias paralelas que, apesar de nunca sequer tangenciarem, caminham na mesma direção.

Quando a minissérie em quatro edições começa, a Primeira Ordem é apresentada como uma força que não tem a menor dó em eliminar todos os planetas que tiveram alguma conexão com a Resistência. Por seu turno, o pequeno grupo rebelde liderado por Leia Organa precisa de mais armas e mais naves para começar a reerguer-se e contra-atacar. Poe Dameron, Finn e BB-8 estão em uma missão na lua de Avedot para recuperar armas da Nova República e Leia, Rey, Rose, C-3P0 e Chewbacca partem para Mon Cala, lar dos Mon Calamari e dos Quarren, para convencer seu monarca a ceder-lhes as naves que eles tão desesperadamente precisam.

De um lado, Poe e Finn têm que enfrentar os caçadores de recompensa originalmente introduzidos no Universo Star Wars na minissérie Galaxy’s Edge, tie-in da nova “terra” dedicada à criação de George Lucas nos parques americanos da Disney. Trata-se de uma história pouco inspirada, básica mesmo, que não traz nem surpresas e nem um pingo sequer de tensão. Claro que jamais esperaria que os heróis sequer sofressem arranhões na história, mas falta senso de urgência e algo que tenha no mínimo relevância narrativa maior do que só preencher páginas. Por outro lado, a história de Leia lutando contra a oposição dos Quarren isolacionistas ao seu pedido encontra ressonância maior dentro desse universo, já que coloca um planeta inteiro na berlinda, planeta esse, claro, lar do inesquecível Almirante Ackbar, falecido em Os Últimos Jedi, mas que deixou um filho, Aftab, que respeita Leia e o legado do pai. Não só a narrativa é substancialmente mais interessante nessa trama carregada de política e salpicada por bons momentos de ação, como ela reposiciona os Mon Calamari mais uma vez como um dos mais importantes povos militarísticos do lado do bem na saga, algo visto originalmente em O Retorno de Jedi, depois (ou antes, dependendo do ponto de vista) em Rogue One e, finalmente, em Os Últimos Jedi, com possível repetição em A Ascensão Skywalker se o mínimo da HQ for utilizado no filme.

Apesar do desequilíbrio na qualidade das histórias paralelas, a leitura é fluida e prazerosa já que o roteiro de Ethan Sacks consegue capturar bem as vozes dos personagens em um texto simples, mas bem amarrado. E, completando a sensação de unicidade, a arte de Luke Ross trabalha bem os visuais dos mais conhecidos personagens sem ficar completamente escravo às suas versões live-action, além de dar vida pujante e diversificada aos planetas que povoam a narrativa, mesmo que ele, no final das contas, não se arrisque muito e mantenha uma cadência básica, quase burocrática.

Star Wars: Allegiance não mudará a vida de ninguém e, em termos comparativos, é a mais fraca minissérie do selo Jornada para Star Wars, ainda que não seja uma obra daquelas desavergonhadamente dentro da categoria caça-níquel. Mesmo assim, os fãs da franquia terão o que apreciar nas aventuras dos personagens como um tira-gosto do que está por vir.

Star Wars: Allegiance (Idem, EUA – 2019)
Contendo: Star Wars: Allegiance #1 a 4
Roteiro: Ethan Sacks
Arte: Luke Ross
Cores: Lee Loughridge
Letras: Clayton Cowles
Capas: Marco Checchetto
Editoria: Tom Groneman, Mark Paniccia, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 09 a 30 de outubro de 2019
Páginas: 103