Severino Silva

Crítica | Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha

Não são só 20 centavos. Também chamados de Manifestações dos 20 Centavos e Jornadas de Junho, os movimentos em prol da contestação do aumento da tarifa do transporte público em diversas cidades brasileiras demarcam a insatisfação popular diante desse estopim que também revelou a insatisfação das pessoas diante da corrupção política no país, os gastos públicos para eventos esportivos internacionais, etc. O auge do movimento, no entanto, foi a repressão policial contra os manifestantes, polêmica que ganhou dimensão internacional e permeou os debates sobre liberdade de expressão no Brasil. É neste ponto que entram as reflexões no documentário Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha, produção focada nestes movimentos sociais para discutir o papel do fotojornalista na sociedade contemporânea. Mídia alternativa, blackblocks, fotógrafos mortos por posturas irresponsáveis de grupos isolados de manifestantes e outros acontecimentos fizeram deste momento histórico brasileiro um período de fortes tensões.

No desenvolvimento do documentário Abaixando a Máquina – Dor e Ética no Fotojornalismo Carioca, nós pudemos acompanhar os desdobramentos da tarefa dos fotojornalistas na dinâmica da captação de imagens no cenário urbano do Rio de Janeiro, abordagem crítica para a função de fotógrafo que representa bem a trajetória deste segmento profissional em qualquer região urbana do nosso planeta, espaços de interações humanas permeadas por tensões e outros tópicos da nossa existência em sociedade. Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha é a continuação dentro da temática, desta vez, menos intensa e interessante, mas num diálogo importante sobre tais manifestações populares que demarcaram as insatisfações de muitos cidadãos brasileiros diante das crises enfrentadas pelos brasileiros em vários setores.

Desde o primeiro filme, “Abaixando a Máquina” busca refletir sobre o “lugar” do fotojornalista na sociedade contemporânea, constantemente em diálogos mediados pela imagem. Com os smartphones cada vez mais avançados, o cidadão repórter tem ganhado espaço e a formalidade do diploma e da certificação perdeu bastante espaço. Diante do cenário, ao longo de seus 90 minutos, questiona-se: o estado brasileiro incitou a violência nas manifestações de rua? Essa pergunta guia e conduz os espectadores diante da radiografia dos movimentos e da forma como a mídia hegemônica trabalhou na divulgação de informações, bem diferente do que foi realizado pelos grupos alternativos, munidos de equipamentos próprios e em constante disputa no que podemos chamar de guerra das imagens, incitados e acusados de agir com violência.

A condução do documentário segue o padrão do filme anterior, tendo a linguagem jornalística acadêmica como fio narrativo para os depoimentos e imagens amadoras, mais volumosas nesta continuação que em seu antecessor, algo interessante contextualmente, mas prejudicial no que tange aos aspectos estéticos. Dentre os temas debatidos, temos a preocupação de determinados grupos hegemônicos na tarefa exercida pela imprensa em sociedade, haja vista o poder de denúncia do jornalismo, em especial, do fotojornalista, afinal, uma imagem às vezes vale mais que mil palavras, não é isso que o ditado popular diz? No entanto, preocupações com a manipulação da imagem se estabeleceram dentro deste campo de atuação, um dentre tantos ameaçados pela ditadura imposta pela cibercultura e suas possibilidades comunicacionais.

Adiante, outros temas são abordados, alguns com afirmativas, outros com questionamentos. Existe foto chocante ou feio é mesmo o nosso dia-a-dia? Como o trabalho em fotojornalismo pode afetar na opinião pública? Quais os impactos do repórter cidadão na transmissão da notícia em tempos de redes sociais e aplicativos? Como o modo de operação horizontal mudou a forma de enviarmos e recebermos mensagens? Por que a mídia independente precisa conviver com a tradicional? O que se ganha ou se perde com isso? Conviver é mesmo preciso? Quais os impactos de matérias sem respaldo, divulgadas por meios de comunicação bem estabelecidos na sociedade? Os oligopólios midiáticos, de fato, atrapalham ou colaboram na transmissão da mensagem diária exercida pelo jornalismo? Sindicatos importam? Essas são algumas das questões levantadas e respondidas pelos depoentes no documentário.

Com roteiro escrito por Guillermo Planel, acompanhamos muitas imagens amadora em paralelo aos depoimentos registrados pela direção de fotografia de Daniel Planel, editadas de maneira dinâmica por César Trindade, também responsável pelas animações e outros efeitos visuais. Desta vez, temos como destaque o uso constante de imagens aéreas, captadas com drones por meio do trabalho de Urbano Trindade. Funcionais, mas estressantes, as imagens externas carecem de qualquer apuro estético, sendo apenas instrumento informativo para os espectadores. Captadas no “calor” de um movimento que infelizmente perdeu o seu foco, muito graças à maneira como os seus participantes foram retratados, em alguns casos, comparados à terroristas, as imagens em Abaixando a Máquina 2 – No Limite da Linha são sociológicas, mas não funcionam esteticamente, tampouco recebem alguma compensação nos trechos com depoimentos, captados por meio do tradicional plano médio, mais preocupado mesmo em informar do que necessariamente exercer a linguagem cinematográfica na produção.

Os depoimentos tomam como direcionamento a máxima “fotojornalista não faz demagogia, faz fotografia”, algo aparentemente simples, mas que desde o filme anterior, tornou-se, digamos, o lema da produção, uma crítica ao status de um importante profissional da informação no bojo de uma sociedade que constantemente desvaloriza o exercício do jornalismo, setor transformado diante das mudanças em nossa dinâmica comunicativa diária. Acusado de tornar a troca de informações precária, o whatsapp é apontado no documentário como um espaço para não aprofundamento, algo que podemos aceitar como possibilidade depois dos resultados as eleições de 2016 e 2018 nos Estados Unidos e Brasil, respectivamente, acontecimentos mediados pela propagação de fake news de grupos desesperados. No geral, o que se põe em debate é a importância do jornalismo participativo, mas sem a desvalorização de quem é profissional.

Abaixando a Máquina – No Limite da Linha — (Brasil, 2016)
Direção: Guillermo Planel
Roteiro: Guillermo Planel
Elenco: Alex Ferro, Alexandre Brum, Ana Branco, Berg Silva, Custódio Coimbra, Daniel Ramalho, Domingos Peixoto, Flávio Damn, Marcelo Carnaval, Márcia Foletto, Orlando Abrunhosa, Severino Silva, Evandro Teixeira, João Baet, Luis Alvarenga, Ivo Gonzalez, Luiz Morier, Guillermo Pinto, Ignácio Ferreira, Vânia Corredo
Duração: 90 min.