Sergio Bonelli Editore

Crítica | Nathan Never: Fuzileiros do Espaço e A Última Batalha

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Um dos pontos mais fascinantes da série Nathan Never é a capacidade que seus roteiros têm de mostrar com muita clareza e riqueza de detalhes (ou justificativas históricas e sociais) o por quê o mundo do futuro está como está. Para ser sincero, eu sou o tipo de pessoa 100% pessimista em relação ao futuro da humanidade e ao destino do planeta em coisa de poucos séculos. Dessa forma, a ficção científica crítica, que imagina as lutas que poderemos ter no futuro ou que tipo de mundo haverá para se viver, foi algo que sempre me encantou. E é este tipo de abordagem que vemos aparecer no presente arco de duas edições: Fuzileiros do Espaço (Nathan Never #11) e A Última Batalha (Nathan Never #12).

Na primeira edição, o Agente Especial é encarregado de investigar a morte de um cadete dos Fuzileiros do Espaço chamado John Hartman. Mesmo com uma família tendo poucas posses, a mãe do cadete insiste em contratar a Agência Alfa para ir a fundo no que o relatório do Exército diz sobre a morte do jovem: suicídio. A mãe do militar, porém, não acredita nessa hipótese. E desde a eletrizante cena inicial, o leitor também não acredita. Há algo realmente estranho acontecendo no treinamento desses soldados e isso ficará claro à medida que o roteiro de Antonio Serra explora a situação com muito mais cuidado.

Nathan se infiltra nos Fuzileiros e conhece a Capitã Susan Connery, responsável pelo treinamento de um grupo que tem as notas e o desempenho imensamente superiores ao restante dos soldados. A partir daí, o texto explora não apenas a tentativa de Nathan Never em descobrir o que está acontecendo (e a dificuldade de comunicação com o mundo exterior + a obrigação de representar com excelência o papel de “militar com alto e respeitada carreira” torna tudo mais instigante) mas também as muitas querelas que acontecem dentro do Centro de Treinamento. Embora a arte de Roberto De Angelis me confunda um pouco nos quadros mais fechados, onde em alguns casos eu não consigo divisar algo do cenário e sua interação com o personagem em cena, o projeto em geral é muito bom, especialmente na representação dos trajes espaciais e todo o aparato tecnológico utilizado pelos militares.

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Fuzileiros do Espaço e A Última Batalha inventa de maneira muitíssimo interessante uma versão futurista que mistura patriotismo e nacionalismo, mas agora não ligado à ação patriota ou o amor à base estatal que administra a minha nação, querendo sobrepor-se à outra, constantemente odiando-a. Esse novo tipo de conceito discute o senso de pertencimento dos nascidos na Terra versus os nascidos nas bases espaciais, assim como a diferença de pensamento entre os militares treinados nos dois lugares. Note que o ideal de separação flerta, em última instância, com algo similar à xenofobia, mas o que grita mesmo é a genial revisão do que poderá ser um “patriota-nacionalista-interplanetário” no futuro da Terra.

Cheia de excelentes momentos de luta, fuga e suspense ao longo da investigação, o arco mantém o alto nível da série até o momento, com todas as doze histórias até agora sempre acima de “muito bom”, fazendo até referência a uma das tramas anteriores do título, Terror Abaixo de Zero. Uma trama de caráter político, em seu alcance maior, mas com um enredo disposto a discutir um problema ideológico capaz de intoxicar qualquer mente sugestionável e moral questionável: garantir a suposta vitória ou suposto sucesso de uma iniciativa qualquer através da mentira para a imprensa, da adulteração de documentos, de assassinatos encobertos por motivos alheios aos verdadeiros responsáveis pelo crime e, no fim, sempre em nome de um “ideal maior”. O amor ao pedaço de terra onde se nasceu. Quem diria, não é, Samuel Johnson? Eis aí o momento onde “O patriotismo é o último refúgio do canalha“.

Nathan Never #11 e 12: Fanteria dello Spazio + L’ultima Battaglia (Itália, abril e maio de 1992)
Sergio Bonelli Editore

No Brasil: Mythos (agosto e outubro de 2018)
Roteiro: Antonio Serra
Arte: Roberto De Angelis
Capa: Claudio Castellini
196 páginas

Crítica | Júlia Kendall – Vol.5: Os Reféns

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Neste quinto capítulo da série Aventuras de uma Criminóloga, o roteiristas Giancarlo Berardi e Maurizio Mantero abordam o caso de um comando de ex-soldados que mantém a família de um joalheiro como refém, para forçá-lo a abrir o cofre da loja. A operação é narrada como uma instigante história de ação, investigação e suspense — e traz pela primeira vez uma mulher, Laura Zuccheri, ilustrando uma história de Júlia Kendall –, também mesclando organicamente o grande problema do volume com dramas menores, seja para a vida da criminóloga, seja para os reféns ou os sequestradores.

O texto começa simples, com uma cadência tão bem modulada, que chega a dar um pouco de medo, já que fica aquele ponto de atenção na mente: “será que os roteiristas vão conseguir tratar um tema relacionado a reféns em tão pouco tempo?“. Claro que estamos falando de um quadrinho de 130 páginas, mas o enredo não está direcionado unicamente a um assunto. Não podemos nos esquecer que assim como Nick Raider e como uma porção de histórias de Dylan Dog e Dampyr, Júlia pertence ao gênero giallo, de modo que a particularidade dos assassinatos, a violência com estilo e detalhes, o apelo psicológico e o tratamento ansioso da história (do tipo que deixa a gente esperando que a qualquer momento alguma coisa ruim aconteça, não de maneira sugestiva, mas porque temos base para esperar isso) chamam totalmente a nossa atenção para o texto e nos deixa apreensivos pelo andamento da trama. Só que mais uma vez Berardi nos mostra que não há motivo nenhum para se preocupar.

Ligando os pontos das relações entre os personagens, temos o namorado holandês de uma das sequestradas (linha rápida, mas tratada com perfeita colocação na história, sem forçar a barra e sem fazer com que se torne apenas uma sugestão inútil); o drama particular dos bandidos — que na verdade são ex-militares com TEPT, cada um lidando de forma diferente com a questão –; a pequena história interna do distrito, com uma referência refigurada, hilária e inteligente a Os Assassinatos na Rua Morgue e, por fim, a própria linha de Júlia como assistente do Distrito que acaba tendo que cuidar dos dois núcleos onde existem reféns.

Aproveitando-se de quadros simples para mostrar cenas rápidas de movimento, tiroteio ou ação pura em pelo menos duas dinâmicas opostas no tratamento de um caso de sequestro (uma para a casa do joalheiro, onde está a família, e outra para a loja, onde está o empresário, seus funcionários e clientes) os autores criam uma forte tensão que vai se delineando a cada página, fechando cada ponta a seu tempo (sem correrias ou dissonâncias dramáticas) e terminando com uma piscadela para um problema policial menor, apresentado no início da trama. Uma forma leve de fechar uma crônica pesada como essa e que, infelizmente, sabemos não estar nada longe da realidade em casos assim.

Julia – Le avventure di una criminologa #5: I Sequestrati (Itália, fevereiro de 1999)
Editora original:
 Sergio Bonelli Editore
No Brasil:
 Editora Mythos, 2005 e 2019
Roteiro: Giancarlo Berardi, Maurizio Mantero
Arte: Laura Zuccheri
Capa: Marco Soldi
130 páginas

Crítica | Nathan Never: O Número Zero

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O Número Zero foi o primeiro exercício do trio de criadores de Nathan Never, Antonio Serra, Michele Medda e Bepi Vigna, ou seja, a história que serviu como um rápido laboratório para a formulação da “verdadeira estreia” do personagem com a one-shot Agente Especial Alfa, em junho de 1991. Dois meses antes, porém, os autores conceberam — ao lado do desenhista Roberto De Angelis — uma edição que rapidamente seria considerada rara, a edição zero de Nathan Never, chamada… wait for itO Número Zero.

A publicação dessa pequena revista aconteceu originalmente em mínima escala e ela só se tornaria conhecida do grande público da Sergio Bonelli Editore, em maior distribuição, no mês de dezembro de 1991, por ocasião do lançamento de A Zona Proibida, sétimo volume da série regular do herói, da qual O Número Zero foi um adendo especial — o que era possível pelo fato de ser uma aventura curta, com apenas 16 páginas. Na trama, estamos em uma Estação em órbita, onde o professor Hecht é encontrado morto, dois meses depois de ter sequestrado um garoto gênio chamado Gene Smith, até então, sob as asas do Instituto Hawking. Preocupados com o que poderia acontecer ao menino, o Instituto contrata a famosa Agência Alfa para encontrá-lo.

Conhecido como “Número Zero”, Gene serve como cobaia para diversos experimentos do Instituto (Nathan Never não sabia disso), então não importa qual lado que se olhe, o menino está em maus lençóis. Em campo, Nathan Never até diante de um mistério. A primeira parte de sua investigação não leva a lugar algum porque o comportamento dos sequestradores parece não fazer nenhum sentido. Até que uma emergência na região de gravidade zero aparece e então o Agente se vê diante das respostas que procurava.

O roteiro resolve rápido e bem essa questão das pistas, mas a reta final da história certamente clama por melhor contexto. À medida que os bandidos são vencidos e o peso moral do texto se ergue, imaginamos que seria mais interessante a soma de algumas páginas para justificar o acordo mudo de Nathan Never com o menino e o próprio destino que ele levou, embora a manutenção do mistério aqui seja um fator importante, desse modo, penas uma sugestão bastaria.

Iniciando a série com uma investigação rápida e um final que dá grande peso ao julgamento do leitor sobre quem é Nathan Never e também sobre o funcionamento esse mundo futuro em que ele vive, O Número Zero se tornou uma espécie de “origem de luxo” do personagem, um dos quadrinhos-teste da Bonelli que abriu as portas para uma longeva e elogiada série de ficção científica.

Nathan Never #0: Il Numero Zero (Itália, abril de 1991)
Editora original: Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Antonio Serra, Michele Medda, Bepi Vigna
Arte: Roberto De Angelis
16 páginas

Crítica | Dylan Dog: Através do Espelho

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Rowena, uma antiga paixão de Dylan Dog, está dando uma festa a fantasia e tudo parece correr bem no salão de dança, mas desde o momento em que esta história de Tiziano Sclavi começa, percebemos que existe um convidado muito especial no lugar. Sem perder tempo, o roteiro nos apresenta o mistério do espelho já nas primeiras páginas, e a partir da intriga aí causada, vai mexer com a nossa percepção da realidade (estamos vendo a Rowena verdadeira ou a Rowena do outro lado do espelho? A Morte, em si?) e trazer outra investigação cheia de camadas e possibilidades de interpretação para Dylan Dog.

Das nove tramas anteriores do personagem, apenas A Beleza do Demônio e A Zona do Crepúsculo possuem um nível tão vasto de abordagem para coisas inexplicáveis ou muito misteriosas da existência humana e do Universo. Ou seja, após lidar com o Diabo (ou um tipo de) e com a remodelagem do próprio corpo na dimensão de quase-existência  (que conhecemos já em estado crítico) chega um novo concorrente ao páreo: a Morte. Eu nem preciso discorrer por muito tempo sobre essa personalidade, não é mesmo? Desde muito pequenos nós tomamos ciência da morte e passamos a vida inteira com uma única e imutável certeza, que é a de que não importa o que a gente faça, se a gente tem medo ou se é corajoso, se a gente tem ou não uma crença, se cuida ou não da saúde: todos vamos morrer. E é com esse fato que o roteiro de Através do Espelho brinca, não só flertando com história de Alice e A Máscara da Morte Vermelha, mas novamente com a questão dimensional.

Existe até um princípio narcísico envolvido na trama, que está repleta de espelhos e reflexos em diversas superfícies, condição que se ajusta na ideia para que a “grande diversão” da Morte começasse numa festa a fantasia. Essa necessidade de fingir, de ver o outro de outra forma diferente, de tentar descobrir a verdade por trás da máscara é um dos princípios que o autor trabalha no decorrer do texto, assim com Giampiero Casertano o faz na arte, representando fielmente duas pinturas lindas de Magritte, a saber, A Reprodução Proibida (do homem no espelho) e Tempo Trespassado (do trem saindo da lareira): a primeira dialogando com a identidade e a segunda com as dimensões e o tempo de ação das pessoas ou das coisas. E já que estou falando da arte, vale citar aqui uma referência explicada pelo próprio Casertano, que disse ter se inspirado na compleição e movimentos do ator Bengt Ekerot no clássico O Sétimo Selo para desenhar a Morte.

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A jornada da ceifadora nessa história vem acompanhada de situações paralelas, de memórias do passado para alguns personagens e narrativas em verso e prosa sobre a inevitabilidade da morte e uma espécie de carma ou destino se agarrando ao processo, tudo isso sem cair para uma linha de interpretação religiosa ou sem se entregar completamente a uma visão fantasiosa. Este é o charme das aventuras de Dylan Dog, na verdade. Muito do que ele investiga tem diversos lados para se enxergar, considerar, julgar e explicar, de modo que o sobrenatural ganha ares de mito e assume-se como verdade apenas para aqueles que tiveram a experiência (e o leitor que as viu acontecer). É um dilema interessante.

O que temos aqui é uma junção de visões e histórias sobre a morte, costuradas de maneira bastante inteligente. Alguns momentos podem até representar uma dispersão da trama central, mas ainda assim obedecem à lógica da história como um todo. Através do Espelho é uma daquelas aventuras que fazem a gente ter medo do nosso próprio reflexo, depois de lê-la. Ou de tirar fotos. Ou de pensar no reloginho da vida que não para de tiquetaquear para todos nós.

Dylan Dog #10: Através do Espelho (Attraverso lo specchio ) — Itália, julho de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Giampiero Casertano
Capa: Claudio Villa (original), Alex Dante (especial e não oficial, usada nesta crítica)
100 páginas

Crítica | Dylan Dog: Alfa e Ômega

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O título dessa história já diz muito para qualquer pessoa que tenha algum conhecimento da mitologia bíblica. Alfa e Ômega são letras do alfabeto grego (a primeira e a última) e aparecem como simbolismo para a essência de Deus e o caráter de sua natureza indescritível, como nos mostra o Livro do Apocalipse (embora essa mesma referência de ser “o primeiro e o último” também possa ser encontrada em diversos lugares das profecias de Isaías e em outros lugares do Apocalipse, além do famoso Capítulo 22). Nesta nona edição da série do Detetive do Pesadelo, o mesmo conceito é utilizado por Tiziano Sclavi dentro de um cenário de ficção científica — que em certo momento fez a história mais parecer algo ligado a Nathan Never do que ao próprio Dylan Dog, para falar a verdade.

A aventura começa em junho de 1987, quando Amy e Daniel estão namorando em um carro, num lugar afastado, e então aparece uma suposta estrela cadente que acaba se transformando em algo mais, um pesadelo que teria ainda uma outra transformação adiante. Para quem gosta de ficção científica, uma história desse porte traz à memória diversas comparações ou referências bem precisas, desde certas abordagens na literatura e no cinema sobre relações sexuais entre aliens e humanos, até obras como 2001: Uma Odisseia no Espaço, o clássico Planeta dos Macacos e, de maneira ainda mais direta, Blade Runner, o Caçador de Androides. Aplicado a um conceito de terror e investigação + ceticismo inicial, esse tipo de trama ganha um sabor diferente, assustando ao mesmo tempo em que reflete sobre a vida, a existência e as ações do homem ou a forma como podem agir seres vindos do Espaço para a Terra.

Aqui o roteiro demora um pouco mais de tempo para engatar, o que não é bom numa história com essa temática. O início, inclusive, tem um sentido geral que se mostra bem diferente daquilo que é mostrado nas páginas finais da revista, e isso até poder ser bastante positivo em termos de experiência de leitura, mas que depõe contra a estrutura de roteiro pensada por Sclavi. Vale dizer que eu não defendo que o autor deveria plantar algo mais profundo e menos “espetáculo” desde o início — embora isso não fosse ruim. Meu apontamento é de coerência mesmo. Sua linha inicial é de uma ordem, enquanto a final é de outra, como se fizesse parte de uma história diferente. E é curioso essa falha na abordagem, porque o autor já havia feito o mesmo exercício de forma exemplar em A Beleza do Demônio, e num contexto bem mais difícil de se acertar, convenhamos.

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Corrado Roi está claramente se divertindo nos desenhos dessa história, não só levando de maneira muito inteligente a relação entre realidade, horror e sci-fi, como também brincando no processo, com referências visuais aos Smurfs, a um episódio hilário de Asterix e os Bretões (a cena do homenzinho e seu verdejante campo que tanto tempo demorou para se tornar “quase perfeito“) e às próprias indicações cinematográficas que o roteiro traz. Como disse antes, a história tem um peso e uma qualidade bem maiores no final do que no início, e a forma como se encerra marca mais uma vez a visão de Dylan Dog para as coisas além da imaginação. É uma história solidamente acima da média, mas que pega fôlego tarde demais para conseguir voos muito altos. Ainda assim, daria abertura para uma espécie de continuação, num crossover entre Dylan e Martin Mystère chamado O Fim do Mundo. Mas isso é assunto para uma outra ocasião.

Dylan Dog #9: Alfa e Ômega (Alfa e Omega) — Itália, junho de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Corrado Roi
Capa: Claudio Villa
100 páginas

Crítica | Dylan Dog: O Retorno do Monstro

PLANO CRITICO DYLAN DOG O RETORNO DO MONSTRO

Em algum lugar em Gales, em maio de 1971, vários assassinatos brutais acontecem. Logo nas primeiras páginas de O Retorno do Monstro, Tiziano Sclavi nos apresenta esse terrível cenário de morte (um massacre, na verdade), que servirá de guia para o desenvolvimento desta oitava aventura de Dylan Dog.

Depois de vemos os corpos mutilados de diversas maneiras na casa da família Steele, atravessamos 16 anos e chegamos ao tempo presente (1987, no caso, ano em que a edição foi publicada), em Londres, com Dylan sendo contratado por uma sobrevivente para investigar o tal “retorno do monstro”. Isso quer dizer que Damien, o condenado pelo massacre de 71, fugiu do hospital psiquiátrico onde estava internado. Um hospital de onde era impossível fugir… a não ser que o interno não fosse humano — conceito parcialmente abordado no texto, mas de maneira pouco eficiente ou informativa, deixando muitas dúvidas e buracos sobre o elemento “mutante” desse personagem.

No aspecto puramente ligado ao giallo, a história é interessante e até divertida. Como sempre acontece nas boas tramas do gênero esperamos que mais mortes aconteçam a qualquer momento, mas aqui, o roteiro equilibra esse lado dentro de uma perspectiva mais séria e que só entenderemos no final, adicionando um certo sabor gótico à saga (com aquele ideal de maldição inquebrável) e finalizando o tormento de mais uma Steele sofrendo de cegueira… e possivelmente de algo que pode evoluir para uma atitude mais descontrolada e mortal.

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O processo de investigação é bastante simples, mais teórico do que prático e infelizmente o papel de Groucho na história é mal trabalhado, sem contar que ele é rapidamente retirado da trama, sem maiores explicações ou conexões interessantes com o que está acontecendo. Seria melhor, nesse caso, se o personagem não tivesse aparecido efetivamente, apenas citado; ou que tivesse participado “à distância” dos planos de Dylan para colher provas e buscar outros documentos sobre o massacre do passado, a fim de entender a ameaça do presente.

Gosto bastante da arte de Luigi Piccatto na parte final da história, com todas aquelas armadilhas no castelo sobre o qual a mansão dos Steele foi construída. É o tipo de labirinto, busca e fuga que deixa a trama mais interessante. E mesmo que aí faltem elementos que poderiam elevar a qualidade da história — o espaço é tão bacana e tão cheio de possibilidades, que o leitor lamenta o não-uso do castelo para incrementar o significado, causas ocultas ou outras forças quaisquer em torno do massacre –, o leitor aproveita cada momento da correria do detetive. Uma investigação simples de Dylan Dog para um crime terrível e com um final de ares cinematográficos. Não é uma história exemplar, mas é uma boa história.

Dylan Dog #8: O Retorno do Monstro (Il ritorno del mostro) — Itália, maio de 1987
Editora original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Record (1992), Conrad (2002)
Roteiro: Tiziano Sclavi
Arte: Luigi Piccatto
Capa: Claudio Villa
100 páginas