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Crítica | Super 8

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Na oportunidade do diretor J.J. Abrams fazer seu filme em homenagem a Steven Spielberg, ele também exercita, no cinema pós-moderno, a revitalização do drama familiar com o típico suspense alienígena, usando uma interface metalinguística que a câmera Super 8 proporciona para o filme alcançar a conjugação do mundo infanto-juvenil com o universo militarizado de invasão extraterrestre.  

Quando se conhece melhor a filmografia de Steven Spielberg, é possível compreender sua linguagem de encantamento para os temas tratados em seus filmes. Recursos como zoom, gradualmente usado em rostos que olham para o horizonte, escondem do espectador a perspectiva frontal, limitando apenas à perspectiva do personagem que observa algo. Outro recurso é com um movimento de câmera chamado dolly, quando há uma dramatização do contexto e lugar, um tipo de zoom sem mexer na lente, apenas nos trilhos em que a câmera se movimenta, levando quem assiste ao filme a uma aproximação do local em que haverá uma ação determinante na narrativa. O diretor J.J Abrams não apenas utiliza a mesma forma técnica de maneira mais ágil como também homenageia Spielberg pela história que conta. A temática familiar como centro dramático do filme e a trilha sonora melancólica/esperançosa do compositor Michael Giacchino, que reafirma esse centro repetidamente, humanizam o suficiente para que o fantasioso seja válvula de escape e o suspense caminhe para contribuir na ressignificação do conflito do tema. 

Dessa forma, pode-se lembrar de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. de Steven Spielberg, mas apesar de semelhanças, Abrams utiliza o deslocamento temporal (1979), que remete ao mesmo espaço temporal desses filmes de Spielberg, para possibilitar sua narrativa ambivalente em nostalgia fílmica e atendimento a anseios mais contemporâneos. O foco do filme parece ser um acidente de trem, em que alguns garotos e uma garota (Elle Fanning) presenciam por estarem gravando seu filme de zumbi com uma Super 8. Mas quando se entende nas primeiras cenas do filme que a mãe do protagonista Joe Lamb (Joel Courtney) trabalhava em uma metalúrgica e cuidava do filho enquanto o pai era subdelegado da polícia e vivia fora de casa, compreende-se a proposta pós-moderna de retratar uma mulher em um ambiente de trabalho com maioria masculina, assim como uma mãe atenciosa. J.J enfoca em verdade nesse drama familiar, concedendo um mistério quanto a interpretação de uma tragédia envolvendo Elisabeth Lamb (Caitriona Balfe), mãe de Joe, e colocando os homens adultos de seu filme em posições frágeis, em que precisam se provar autossuficientes, seja em seus empregos ou por ausências de mulheres em casa para cuidar de seus filhos. É nessa situação que o grande suspense do monstro escondido é usado como artifício visual, alavancando principalmente os dramas entre Joe e seu pai Jackson Lamb (Kyle Chandler).

A partir dessa nova dinâmica familiar, principalmente se comparada a de E.T. – em que o pai é quem na verdade desaparecia na história daquele filme – a tarefa autoral do roteiro de Abrams começa a ser colocada à prova. Os adolescentes, ao trazerem à tona a gravação de filmes, com a especificação criativa de cada integrante, colocam em pauta o exercício de conexão de um mundo miniaturizado para efeitos especiais e o valor de produção do mundo real. Ou seja, um reflexo do mundo deles no subúrbio de Ohio em comparação ao mundo aparentemente cinematográfico de eventos descomunais envolvendo militares, explosões, armas e mortes de verdade e não falsas como no filme de zumbi que eles constantemente aparecem gravando dentro do filme Super 8. É nisso que consiste o revitalizar do drama, pois é das relações familiares tratadas no filme de maneira mais particular que a metalinguagem transforma tanto o drama, como permite o alcance mais interligado da melancólica situação familiar ao suspense de invasão alienígena.

Por isso pode-se perceber como o diretor usa conexões objetificadas para usar sua metalinguagem como interface. O carro que é mostrado no prelúdio dramático – sobre o acidente com a mãe de Joe – é, também, o utensílio para o engate da aventura dos adolescentes de gravar o filme. Na ação da Super 8 no filme existe tanta a captação da atuação de Elle Fanning como personagem Alice, como também a esposa do detetive no filme de zumbis. Nesse processo, há dois gatilhos: o primeiro para o drama circunstancial, causado pela atuação multifuncional de Alice que emociona Joe e seus amigos, o segundo para relembrar o drama prelúdio, pois há uma esposa pedindo atenção ao marido de cargo investigativo – semelhante ao pai de Joe -, e o terceiro para a preparação do suspense, quando um trem passa pelo cenário da gravação, um valor de produção literal, como diz o juvenil diretor Charles (Riley Griffiths).

Ao longo da narrativa, além de Alice, que serve como atriz, Joe como maquiador, Cary (Ryan Lee) como projeto de Michael Bay com efeitos práticos de explosões, Preston (Zach Mills) como captador de som, Martin (Gabriel Basso) como intérprete do detetive de zumbis e Charles como diretor, todos os integrantes servem minuciosamente para a progressão da história. No caso de Joe, Alice e Charles, suas funções são reflexo de suas personalidades dramáticas e interações que injetam a problematização da puberdade, esfera controlada se comparada a um ambiente caótico que a cidade (Lillian) deles se transforma.

Como é de praxe em filmes de invasão extraterrestre, ou de mistério com alienígenas, o governo, por meio dos militares, torna o sigilo em insegurança, enquanto ataques diretos e indiretos à população ocorrem. Assim como a função dos garotos na produção do filme, a função profissional do pai de Joe como policial influencia da mesma forma no interligar do contexto maior de caos social – que um policial deve proteger – como no contexto familiar, que ironicamente como pai também deveria proteger o filho. Então, na busca de proteção, de superação da perda da mãe, ele é maquiador de sua realidade, o que faz trens de brinquedos e carrega a lembrança de sua mãe a todo momento no bolso, uma espécie de mcguffin – objeto que move parte da narrativa, mas é irrelevante em boa parte do tempo – que J.J Abrams utiliza em seus roteiros. Mais uma objetificação do drama, assim como o carro, mas agora de maneira mais explícita e por vezes tão reincidente que soa simplista demais em proporção à sutileza que organiza o drama do filme  

E assim como o filme constantemente se rearranja para que a realidade verdadeira venha a ser trabalhada, seja em retomar o drama familiar, no aparecer do ser misterioso, ou com a interface metalinguística de fazer um filme de zumbis, Alice e seu pai Louis (Ron Eldard) são a conexão final que o diretor alcança a humanidade que submete toda a sua trama.

Alice não é uma mera paixonite adolescente e Louis, um pai irresponsável ou frágil sem a esposa. O casting de Elle Fanning se torna precioso pois a atriz carrega o trabalho difícil de trazer Joe à realidade de maneira convincente. Ela precisa interpretar seus personagens nos filmes dos garotos e sua própria personagem Alice que, em conjunto, faz a realidade maquiada de Joe ser real, que ele se importe novamente com sua vida, como sua mãe aparentemente lhe causava. Joe não permite que seu trem de brinquedo seja destruído e toma a iniciativa de resolver o mistério do filme. Da mesma forma, quando Louis vê o monstro e se mostra enlouquecido, isso também se torna conexão à realidade da invasão que Joe passa a acreditar, quando conversa com pai de Alice . Enquanto seu pai, Jackson, precisa entrar no gênero de ação, assim como nos filmes do filho, para entender a realidade, se travestir de militar para assumir o papel de pai. Desse modo, a interface da metalinguagem vai se esvaindo até Abrams entregar um filme de invasão extraterrestre, principalmente quando o diretor Charles confronta o maquiador que conquistou a garota e fica de fora da ação para cuidar de Martin, seu ator protagonista.

Por fim, se torna um filme sobre conexão emocional em si, que até o alien consegue sentir. E o resultado de que tudo não passa de um acidente, um fato fatídico. Na verdade, isso não torna o filme de conclusão aleatória, e sim de que as coisas não acontecem por acaso, embora não se discuta sobre as transformações. Tais mudanças são exercitadas na imagem, objetos e funções de roteiro que podem até “tecnicizar” o filme pretensamente intimista de J.J. Abrams; porém, em seu espírito “spielberguiano” de inocência é que sua tal técnica modernizada inspirada em Spielberg é um espelhamento do filme como um todo. Os zoom e a captação de olhares que se abrem para uma nova realidade, ou melhor, para a verdadeira realidade.

Super 8 (Super 8) – EUA, 2011
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams
Elenco: Joel Courtney, Ryan Lee, Zach Mills, Riley Griffiths, Gabriel Basso, Elle Fanning, Kyle Chandler, Ron Eldard, Glynn Turman, Caitriona Balfe, Noah Emmerich.
Duração: 112 min.

Crítica | Ministério do Espaço

plano crítico ministério do espaço Ministry of Space

estrelas 4

Warren Ellis é amplamente conhecido pelos seus roteiros sagazes, com narrativa extremamente bem construída e marca principal na ficção científica, com obras no currículo como Transmetropolitan, Planetary, The Authority, Global Frequency, dentre tantas outras, seja criação própria, seja no trabalho com personagens de outros autores. Na verdade, Ellis é um dos poucos roteiristas que realmente sabem tratar a complexidade e as implicações amplas da ficção científica nos quadrinhos, tanto na formatação das histórias quanto em seu conteúdo crítico, sempre ligado a coisas do mundo real.

Essa mistura de super heroísmo (nas entrelinhas) com heroísmo humano, forte tendência à space opera e crítica social apresenta-se como dinamite nos textos do autor e, mesmo quando não se trata de um trabalho glorioso como é o caso de Ministério do Espaço (minissérie em 3 edições publicada nos Estados Unidos entre 2001 e 2004), ainda é possível ver inventividade na sua forma de contar a história e, principalmente, elementos históricos metamorfoseados em outra realidade — embora a metamorfose aqui, a questão do “ouro do Holocausto”, seja ‘simples demais’ diante da grandiosidade de todo restante do texto.

Pensem em uma Terra onde a Corrida Espacial da década de 1950 colocou o Reino Unido à frente dos Estados Unidos e da União Soviética e você terá o grande cenário de Ministério do Espaço. A trama começa ainda na Segunda Guerra Mundial e avança para o ano de 2001, já com o tal Ministério estabelecido, seu criador (Sir John Dashwood) transformado em um herói internacional e os seus esforços para a conquista do espaço tendo chegado à Lua, Marte e Saturno, além de ter minas de extração em diversos asteroides e dos satélites e grandes estações espaciais na órbita da Terra.

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À primeira vista, trata-se de uma obra-prima, mas infelizmente não é. Se analisarmos o conteúdo por partes, chegaremos à divina arte de Chris Weston e às excelentes cores de Laura Martin, e aí teremos algo realmente primoroso. Weston, com sua arte milimétrica e variando as abordagens do realismo de traços muitos grossos e finalizados com sombras… a quadros de traços finos e bastante descritivos — com destaque para as dobras dos uniformes militares ou as rugas e vincos de expressão dos personagens. A esta variação, acrescentamos alguns quadros de fazer cair o queixo, dentre os quais, a sensacional explosão da nave Ariane em Woomera, 1962. Laura Martin também faz um excelente trabalho nesse quadro, com variações dentro da paleta de cores quentes que dá toda a veracidade possível à explosão.

Ainda é necessário destacar o desenho das naves do Ministério do Espaço, os quadros de exploração espacial com arte-final que lembra um pouco Moebius e a gama de detalhes por quadro que temos em toda a história, algo que torna a obra quase inteira digna de ser ampliada e colocada em quadros na parede.

A parte decepcionante aqui está na reta final, com uma explicação imoral (mas nem de perto absurdamente impactante, como era de se esperar) para o “orçamento negro” que ajudou a criar o Ministério. A única coisa realmente boa desse aspecto é que os cidadãos dessa Grã Bretanha rica e a situação geopolítica gerada pelo tal “dinheiro imoral” não será revertida pela descoberta de tal imoralidade, e essa é a melhor coisa do texto. É como se o autor estivesse jogando na cara do leitor todos os ótimos produtos consumidos com sangue e miséria de povos de países periféricos do mundo atual. A situação é forte, claro, mas dentro da história é apenas “ok”, colocada de supetão e sem uma finalização digna para o porte da trama até ali.

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Ministério do Espaço sobrevive muito mais pela qualidade da arte do que de seu texto, mas é preciso dizer que Ellis não faz um trabalho ruim. Ele “apenas” é pouco exigente e pouco interessante no final. A obra é capaz de nos fazer pensar sobre o que teria ou não teria mudado se o Reino Unido de fato tivesse tomado a frente da corrida espacial. Pelo menos o aspecto da segregação racial, nessa realidade do livro, permanece ativa. E perguntamos com algum pesar se o tipo de facilidade que essa supremacia espacial trouxe para os britânicos vale o alto preço social e histórico pago para que ela acontecesse. A mesma pergunta que podemos fazer dos gigantescos sucessos econômicos (Corporações e Estados no centro do sistema) na contemporaneidade.

Ministério do Espaço (Ministry of Space) — EUA, 2001 – 2004
Publicação no Brasil: Devir, 2014
Roteiro: Warren Ellis
Arte: Chris Weston
Cores: Laura Martin
100 páginas