Roy Thomas

Crítica | O Que Aconteceria Se… o Mestre do Kung Fu Fosse um Fora-da-lei?

Doug Moench escrevendo sobre Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu… vocês já sabem o selo que a gente precisa colocar numa história como esta, não é mesmo? Qualidade! O autor tem no currículo uma longa história com o personagem (coisa de pelo menos 100 roteiros para a Master of Kung Fu, série principal do lutador) e não foi à toa que Roy Thomas, à época editor da What If…, chamou o autor para escrever essa versão alternativa do personagem, que se passa na China e no Reino Unido da Terra-79816.

Inicialmente temos uma boa revisão dos passos originais de Shang-Chi em nossa realidade, mostrando como ele se soltou das garras do pai (Fu Manchu) e passou a lutar por ideais de justiça. Nesta nova realidade, o Vigia nos mostra uma mudança específica na noite em que o Dr. James Petrie é assassinado, e as coisas se seguirão de maneira bem diferente até o ato final, quando o espírito e a mente bem educados de Shang-Chi resolvem colocar para fora aquilo que guardavam há bastante tempo sobre as atividades de Fu Manchu: críticas, perguntas e negação das ordens infames vilão.

É claro que lidamos também com uma boa dose de absurdo nessa aventura, especialmente na invasão do palácio de Buckingham, com a tentativa de sequestro da Família Real e, claro, a dominação o Reino Unido. Mas essa estranheza não está aqui por si só e nem é a coisa que mais atenção nos chama nessa história. O conceito que o autor traz para esse tipo de invasão tem algo para além da loucura. Tem um princípio anti-imperialista que, em um estágio final, pretende resgatar a glória da China, acabando com o comunismo e instalando um outro tipo de ditadura. Isso fica claro porque Fu Manchu não tem intenção alguma de guiar qualquer outro governo que não seja com ele eternamente à frente, assim, em um recorte político mais específico, seria apenas a passagem de um regime totalitário para outro.

PLANO CRÍTICO O Que Aconteceria Se… o Mestre do Kung Fu Fosse um Fora-da-lei QUADRINHOS

Um discurso coerente pela vida.

Além dessas interessantes discussões políticas com toques de “cientista louco“, temos uma ótima organização da trama em termos de ritmo. A arte de Rick Hoberg aborda muito bem a interação das lutas e fugas com momentos de reflexão ou cenas mais calmas, garantindo uma leitura o tempo inteiro curiosa pelo que pode acontecer com os personagens. Além disso, os embates são muitíssimo bem pensados e o cenário é colocado de maneira inteligente como parte dos entraves entre mochinhos e bandidos — exceto em alguns quadros da invasão ao Palácio Real, onde reina a bizarrice. Uma coisa que me fez rir muito no decorrer das páginas foi o fato de que a arte e a arte-final (esta a cargo de Bill Wray e Dave Stevens) exibem todos os personagens de modo aplaudível (especialmente Fu Manchu), mas Shang-Chi é majoritariamente representado de forma displicente, muitas vezes parecendo uma pessoa completamente diferente de um quadro para outro.

Quando a grande virada moral da história acontece, o leitor consegue entender perfeitamente os motivos do protagonista e acompanha com gosto as justificativas e a forma como essa nova realidade vem à tona. Sua visão de preservação da vida é muitíssimo coerente, como se pode ver na página que destaco aqui no corpo do texto, uma das coisas mais legais que já encontrei num quadrinho falando sobre esse tema e que, como se sabe, podemos atribuir a assuntos correlatos bastante complexos e que muitas polêmicas geram em nossos dias. Uma fantástica saga de luta e reavaliação moral.

What If? Vol.1 #16: What If Shang-Chi, Master of Kung Fu, Had Remained Loyal to Fu Manchu? (EUA, agosto de 1979)
No Brasil:
 Heróis da TV 2ª Série – n°27 (Editora Abril, 1981)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Rick Hoberg
Arte-final: Bill Wray, Dave Stevens
Cores: Roger Slifer
Letras: Joe Rosen
Capa: Rick Hoberg
Editoria: Roy Thomas
30 páginas

Crítica | O Incrível Hulk #179: Volta o Elo Perdido

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Esta edição da Incrível Hulk Vol.1 traz de volta um antigo inimigo, já referenciado no título e que conheceu o Hulk nas edições #105 e 106 dessa mesma revista. Nos bastidores, não um retorno, mais uma estreia. A partir daqui, Len Wein comandaria os roteiros da série mensal até o número 222, um período de quatro anos com muitas histórias e uma nova cara para as sagas do Golias Verde.

No presente enredo, temos essencialmente uma continuação para a edição anterior, curiosamente chamada de Triunfo na Terra-Dois, uma história com Adam Warlock, cujas consequências se veem aqui: o Recorder 211 (Analyzer) coloca o Hulk em um foguete e direciona o Monstro para a sua Terra original, tendo aí o gancho que dará início a mais uma história, com a já conhecida realidade de troca de corpos + não adequação e surpresas de transformação que o Hulk originalmente apresenta, ganhando, nas mãos de Wein, uma toada mais sentimental  — e no presente caso, familiar.

O bom dessa edição — e é interessante notar que este é um dos temas recorrentes na obra de Len Wein — é que vemos um tratamento diferente dado aos monstros, bem como uma problematização da própria condição, vindo basicamente de uma premissa de relacionamentos fraternos, por incrível que pareça. Primeiro, o Elo Perdido (Lincoln) é integrado à família Brickford, o que já mostra um caráter de máxima humanidade desses indivíduos, colocando em casa alguém com uma estranha (para dizer o mínimo) aparência e completamente perdido. O texto brinca um pouco com o nome do lugar e com a apresentação da família central. Imaginamos brevemente se o povo de Lucifer Falls não está ligado a algum tipo de ação maligna, um culto ou seita… mas não. O texto permanece focando na humanidade e, dela, passa para a esperada e explosiva relação entre os brutamontes.

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O miolo da história, na base do Exército e em torno do General Thaddeus “Thunderbolt” Ross, somado às questões militares, estão aqui apenas para contextualizar o entorno e criar âncoras para o retorno de Bruce Banner ao seu meio social, por assim dizer. Todavia, esse lado não apresenta nada de interessante para a saga, muito pelo contrário, é uma das partes chatas da revista que a gente não vê a hora que passe rápido, para voltarmos ao lugar que realmente interessa aqui.

Infelizmente, a finalização adota uma certa facilidade ao mostrar o “histórico futuro” do envenenamento por radiação causado por Lincoln, contudo não é exatamente uma decisão ruim do roteirista. Ela apenas é rápida demais e aparece em um contexto de cosias muito mais trabalhadas, por isso que destoa e causa estranheza (negativa), minimizando um pouco a qualidade da trama. Mas a estreia de Len Wein à frente da Incrível Hulk se mantém muito acima da média, com um trabalho de “encontro de gigantes” que não prioriza a força e sim os sentimentos. Um baita começo.

Incredible Hulk Vol.1 #179 (EUA, setembro de 1974)
No Brasil:
O Incrível Hulk #21 (RGE, 1980)
Roteiro: Len Wein
Arte: Herb Trimpe
Arte-final: Jack Abel
Cores: Glynis Wein
Letras: John Costanza
Capa: Herb Trimpe
Editoria: Roy Thomas
24 páginas

Crítica | Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu (Special Marvel Edition #15 e 16)

plano crítico Crítica _ A Origem de Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu!

As duas edições que trago aqui à discussão (números #15 e 16 da revista Special Marvel Edition) marcaram as primeiras aparições de Shang Chi, o Mestre do Kung Fu nos quadrinhos. Com roteiro de Steve Englehart e arte fantástica de Jim Starlin e Al Milgrom, essa estreia nos mostra um personagem complexo na medida certa, sem nenhum arroubo melodramático em sua história de origem (que não é bem lá uma história de origem, no sentido de nos mostrar todo o processo que o levou a se tornar Shang-Chi: a mudança que ocorre com ele aqui é moral, de devoção e lealdade) e com habilidades de luta fascinantes.

A criação do lutador começou a circular pelo escritório da Casa das Ideias no final de 1972, após o sucesso dos três primeiros episódios da série Kung Fu, que estreou em fevereiro daquele ano e teve mais dois episódios exibidos no final do segundo semestre. No pacote de elementos criativos, os autores pensaram em elencar semelhanças do protagonista com Bruce Lee (óbvio), mas isso só seria realmente aplicado na arte a partir da edição #18 da revista solo do protagonista (numeração cumulativa da antiga Special Marvel Edition, renomeada The Hands of Shang-Chi, Master of Kung Fu) sob os desenhos de Paul Gulacy.

O contexto para o personagem principal é intimista, familiar, baseado em um código de honra e conduta que expõe o discípulo a uma servidão inquestionável diante de seu Mestre, nesse caso, o próprio pai: Fu Manchu, personagem pulp de Sax Rohmer para o qual a Marvel conseguiu os direitos de uso. Fu Manchu apareceu pela primeira vez no conto The Zayat Kiss (outubro de 1912) e teve sua primeira publicação de grande alcance no ano seguinte, com o romance O Mistério do Dr. Fu-manchu, coletânea de diversos contos do personagem. Sua colocação no roteiro de Steve Englehart é poderosa, misteriosa, faz jus ao respeito/temor/dominação que exerce sobre as pessoas e cria um impacto bem maior quando Shang-Chi resolve se livrar dele, após descobrir que pessoa de fato era este seu pai.

plano crítico Crítica Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu! (Special Marvel Edition #15 e 16) plano crítico

A chegada do conhecimento para Shang-Chi tem um caráter filosófico, reflexivo, mas em nenhum momento a ação abandona essas duas revistas para dar lugar exclusivo a linhas existencialistas no texto. Na edição #15 vemos o motivo pelo qual o jovem de 19 anos rompe laços com o pai e na edição #16 vemos uma consequência imediata disso, ou seja, a sua vida em Nova York após abandonar a morada de Fu Manchu e seu encontro com o único amigo que tinha até então, Midnight (M’Nai), cuja tragédia aparece como mais um capítulo de horrores para a vida do protagonista. Nas duas tramas ele se engaja em lutas incríveis e a arte de Jim Starlin explora a sua movimentação pelo ambiente, a perspectiva em relação aos cenários e a sequência de golpes pelos quadros de maneira primorosa.

Essas edições iniciais apresentando o personagem são quase um tratado sobre como unir um conceito meio genérico de máfia — ligada a uma figura chinesa — e ao mesmo tempo colocar de maneira muito bonita valores relacionados às artes marciais e como elas podem guiar uma pessoa, não apenas na pancadaria, mas também no caráter e na visão de mundo, chegando a um resultado que não poderia ser outro: a escolha do caminho da justiça.

Special Marvel Edition Vol.1 #15 e 16 (EUA, dezembro de 1973, janeiro de 1974)
No Brasil:
 Kung Fu n°2, (Ebal, 1974), Mestre do Kung Fu n°1 (Bloch, 1975, ), Grandes Heróis Marvel 1ª Série – n°3 (Abril, 1984), Coleção Histórica Marvel: Mestre do Kung Fu n°1 (Panini, 2018).
Roteiro: Steve Englehart
Arte: Jim Starlin
Arte-final: Al Milgrom
Cores: Steve Englehart
Letras: Tom Orzechowski
Capas: Jim Starlin, Al Milgrom
Editoria: Roy Thomas
48 páginas

Crítica | O Que Aconteceria Se… Outra Pessoa se Transformasse em Nova?

O Que Aconteceria Se… Outra Pessoa se Transformasse em Nova marvel plano crítico quadrinho

Nesta 15ª edição da série What If…?, o maior destaque está nos diferentes desenhistas que receberam a tarefa de ilustrar quatro realidades diferentes onde o manto de Nova acabou caindo em mãos de pessoas com as mais diversas jornadas de vida, motivação e trajetória de uso desse poder. Todas as histórias possuem um bom princípio narrativo e um bom fim, mas o que impede que a edição tenha um resultado final muito melhor, no cômputo de todas as histórias, são os diálogos e o desenvolvimento de Marv Wolfman para essas tramas.

A primeira realidade alternativa dessa saga se dá na Terra-79715, onde o poder de Nova é dado a uma mulher que assume a vingança como o maior foco de sua vida, ou seja, encontrar e fazer o assassino de seu marido pagar pelo que lhe tirou. Com desenhos de Walt Simonson e Bob Wiacek, vemos Helen Taylor entrar em uma fúria assassina pelo mundo do crime, matando e espancando todo mundo que vê pela frente, cega em sua vingança e achando que todos (inclusive o Quarteto Fantástico) está conta ela. Trata-se de uma reflexão interessante sobre a vingança como sentimento e como norte para as ações da vida inteira de uma pessoa, uma linha de pensamento que fica ainda mais amarga no final, quando descobrimos aonde está o procurado assassino que acabou levando Helen Taylor a esse estágio e, por fim, colocando-a na Zona Negativa.

Já na Terra-15797, os poderes são passados para um homem negro, em situação de rua, chamado Jesse. Desenhada por Carmine Infantino e Frank Springer, essa trama poderia ser a melhor do volume porque se passa em uma Terra onde não existem super-heróis, o que coloca o vagabundo com o manto de Nova em uma posição bem curiosa, já que ele não sabe o que é aquilo ou como usar. O roteiro torna o problema central grande dessa vez, apresentando uma invasão Skrull, mas mesmo com muita coisa em mãos para fazer a história funcionar, nada de muito interessante acaba aparecendo. As ideias transversais são interessantes, o homem defendendo as crianças no orfanato que lhe deu abrigo também… mas o texto desvia rápido demais dos cenários e não dá tempo para que o personagem central se desenvolva (exceto no primeiro conto, todos os outros sofrem do mesmo mal) e mesmo com um belo significado no encerramento, a aventura me pareceu bem chatinha.

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Como era de se esperar, tinha que ter Peter Parker no meio, não é mesmo? Ross Andru e Frank Giacoia ilustram este capítulo da Terra-51977, onde a história do Homem-Aranha que conhecemos é misturada à origem do Nova e, mais uma vez, temos um início interessante que rapidamente descamba para algo um tanto intragável. O menino Parker aqui é um mimado que realmente acredita ser um cara azarado, amaldiçoado. Por um lado, é possível entender o princípio de pensamento dele, mas é bem ridículo que essa culpa seja assumida aqui como um elemento fatal, de criminoso mesmo, quando na verdade é algo colateral, circunstancial. Se alguém morre do coração por ficar preocupado demais com alguém, a culpa aqui tem nome: doença do coração, não este tal alguém. Sem esse discernimento, a história — que tem bons momentos — acaba irritando progressivamente.

No derradeiro conto, na Terra-97751, um criminoso recebe o manto de Nova e, nesse caso, não se redime. Em vez disso, entra para o time dos grandes vilões, ao lado do Doutor Destino, Caveira Vermelha e Esfinge (Anath-Na Mut), um grupo que dizima os heróis da Terra. Este é o meu conto favorito da revista, porque tem a linha de ação mais coerente e mais livre de diálogos e ações estúpidas. Os desenhos de George Perez e Tom Palmer dão um ar épico à saga e a maneira compreensível com que as coisas terminam — gente dessa laia vive traindo uns aos outros — torna a história ainda melhor e com uma conclusão que mais uma vez traz uma reflexão sobre o caráter da busca de alguém, aquilo que definiu para sua vida e que tipo de mundo ou cenário está lutando para ter no final.

What If? Vol.1 #15: What If Nova Had Been Four Other People? (EUA, julho de 1979)
No Brasil: 
Almanaque Premiere Marvel n°2 (Editora RGE, abril de 1982)
Roteiro: Marv Wolfman
Arte: John Buscema, Walt Simonson, Carmine Infantino, Ross Andru, George Perez
Arte-final: Joe Sinnott, Bob Wiacek, Frank Springer, Frank Giacoia, Tom Palmer
Cores: Michele Wolfman, Nel Yomtov, Roger Slifer
Letras: Michael Higgins, Irv Watanabe
Capa: Rich Buckler, Joe Sinnott, Irv Watanabe
Editoria: Roy Thomas, Marv Wolfman
36 páginas