Robert Forster

Crítica | Amazing Stories (2020) – 1X03: Dynoman and the Volt!!

O revival de Amazing Stories – ou Histórias Maravilhosas, como ficou conhecida por aqui – tem exatamente a mesma missão de sua predecessora: trazer histórias de fantasia simples e descompromissadas para um público que não quer mais do que uma dose semanal de algo na linha da boa e velha Sessão da Tarde. E, se lembrarmos de The Cellar e The Heat, os dois primeiros episódios da antologia, esse objetivo tem sido alcançado.

Dynoman and the Volt!! apenas reitera o bom caminho que a série vem seguindo, desta vez usando o clichê de uma história de super-heróis para abordar o clichê de uma história sobre envelhecimento e conexão entre gerações. E, quando uso o termo clichê, não o faço em seu sentido negativo que muitos conectam a ele. Clichê é, ao contrário, apenas um artifício narrativo muito repetido e o que determina se ele será bom ou não é o roteiro como um todo e não seu mero emprego. E, mesmo que as pretensões do episódio não sejam lá estratosféricas, os clichês que vemos em utilização ampla funcionam bem e resultam em uma simpatia de história que, como as demais, deixará o espectador com um sorriso no rosto ao seu final.

Nela, o rabugento e grosseirão Joe Harris (o saudoso Robert Forster em seu penúltimo papel), um homem de terceira idade que sofrera um acidente, muda-se para a casa de seu filho Michael (Kyle Bornheimer) e acaba estabelecendo contato mais estreito com seu neto mais novo Dylan (Tyler Crumley), fã de quadrinhos e que adora criar suas próprias fantasias para sair atrás de gostosuras no Halloween. Os laços entre avô e neto são estabelecidos ao redor de um anel de brinquedo do super-herói Dynoman que chega misteriosamente pelo correio para Joe 60 anos depois de ele o ter encomendado. Obviamente, o anel dá poderes ao ancião e a história parte daí para trabalhar três gerações da família Harris em um conto de aquecer corações.

O roteiro de Peter Ackerman é simples talvez até demais, já que telegrafa cada movimento futuro, além de explicar o que vemos por meio de diálogos que somente existem para serem redundantes. Com isso, a direção de Susanna Fogel não consegue fugir muito do básico e, como não há muita história para realmente ser desenvolvida, acaba valendo-se de elipses que por vezes mostram-se atabalhoadas e perdidas, quebrando um pouco a lógica narrativa. Isso é particularmente sensível na ação do clímax que não faz exatamente muito sentido e parece extremamente corrida, ainda que “bonitinha”.

O que realmente funciona no episódio é a sempre agradável presença de Forster e a imediata conexão do ator com o jovem Crumley, de maneira que os dois acabam formando uma dupla improvável, mas que funciona do começo ao fim. Mais do que isso, o episódio consegue evitar ser muito meloso, mas sem deixar de entregar belos momentos de ternura capitaneados pelos dois e, por vezes, também contando com o Harris “do meio” também bem interpretado pelo simpático Bornheimer.

Na seara dos efeitos especiais, apesar de uso muito esparso de CGI e alguns efeitos práticos, eles são bem empregados e não detraem do resultado final, lembrando que eles não têm um fim e sim mesmo e, portanto, não pesam na narrativa. O objetivo é fazer os efeitos ficarem em segundo, talvez até terceiro plano, só aparecendo quando realmente essenciais para justificar a premissa do episódio.

Dynoman and the Volt!! é um adorável conto de conflito de gerações que tem o pano de fundo “da moda” dos super-heróis, mas que realmente cativa pela marcante presença de Robert Forster em tela. Com mais um acerto, Amazing Stories vem se firmando com um porto seguro para escapismo televisivo de qualidade, o que pode parecer uma contradição em termos, mas que, lá no fundo, não é não.

Amazing Stories – 1X03: Dynoman and the Volt!! (EUA, 20 de março de 2020)
Direção: Susanna Fogel
Roteiro: Peter Ackerman
Elenco: Robert Forster, Tyler Crumley, Kyle Bornheimer, Alison Bell, Toby Nichols, Morgan Gao
Duração: 47 min.

Crítica | Better Call Saul – 5X01: Magic Man

plano crítico Crítica _ Better Call Saul – 5X01 Magic Man

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Depois do maior intervalo entre temporadas até agora, Better Call Saul retorna para seu quinto e penúltimo ano já consolidando Jimmy McGill com o pseudônimo Saul Goodman, que ele passa a usar como sua assinatura oficial de “advogado de bandido chinfrim”, a nova e definitiva direção de sua carreira. Magic Man tem essa função, portanto, de virar a chave completamente entre o passado que Jimmy faz questão de esquecer, especialmente a sombra que seu sobrenome projeta e representa, e o futuro que o recolocará no mercado – em tese para desgosto de Kim – como o malandro que livra malandro da prisão, dentre outras atividades semelhantes. 

Da mesma maneira, o roteiro de Peter Gould – que, junto com Vince Gilligan, comanda o show – torna o futuro de Saul (ou seria mais correto dizer “o presente”?)  ainda mais enigmático ao resolver parcialmente o mistério do taxista que pareceu reconhecer Gene como Saul na temporada anterior, colocando o personagem pela primeira vez em um frenesi que promete trazer ação para esses homeopáticos, mas sempre belos e tensos momentos em preto e branco. Vale também fazer a devida celebração da micro-ponta do saudoso Robert Forster como Ed, o vendedor de aspirador de pó que trabalha como forjador de identidades (ou o contrário), no que parece ser seu penúltimo papel gravado antes do falecimento em 2019. Será interessante ver como esse “futuro” potencialmente será resolvido ao final da série.

No presente da temporada, o grande foco fica mesmo no esfuziante Jimmy finalmente escolhendo seu caminho e fazendo de tudo para torná-lo uma realidade, o que inclui distribuir os telefones “burners” com discagem direta para ele e descontos de 50% na representação de crimes não-violentos em um excelente e perfeitamente apropriado começo para o Saul que conhecemos. A tenda de circo literalmente armada em local em que os marginais de toda sorte transitam, com o leal grandalhão Huell Babineux como leão de chácara foi um toque particularmente genial da produção, com a direção de Bronwen Hughes tirando o melhor proveito possível do efeito antitético entre as cores relacionasses a Saul e as sombras aos bandidos. 

Aliás, é chover no molhado, eu sei, mas a direção de fotografia de Better Call Saul continua seguindo as melhores escolas cinematográficas, não só trabalhando simetrias – a tomada de dentro do caminhão que transporta os alemães é Rastros de Ódio todinha! -, como também formas inventivas de movimentar a câmera como ganhamos a perspectiva em “primeira pessoa” das drogas sendo jogadas pelo cano ou quando vemos o contra-plongée de dentro do saco de compras de Saul. Eu poderia facilmente escrever “balbuciando” elogios para esse aspecto da série, mas, considerando que venho abordando-a por episódio desde o começo, estaria apenas me repetindo.

Também é uma repetição falar da qualidade da atuação de Bob Odenkirk. Mesmo a maioria dos espectadores tendo-o conhecido como o advogado malandro dos termos espalhafatosos em Breaking Bad, o ator construiu uma evolução absolutamente crível ao longo dessa sua jornada desde Slippin’ Jimmy até Saul, algo que nem mesmo suas feições compreensivelmente mais envelhecidas – que os showrunners, acertadamente, não procuraram esconder com maquiagem exagerada – conseguem atrapalhar.

Rhea Seehorn como Kim Wexler é outra que consegue fazer frente ao seu colega mastigador de cenários. A atriz demonstra uma tristeza interior pelo que ela claramente percebe ser a queda de Jimmy, mas sem apelar para momentos claramente emotivos. São pequenos gestos, breves olhares e discreta linguagem corporal que revelam seu incômodo, algo amplificado pelo vício de Kim por toda a enganação que Saul representa, algo que vemos, aqui, no fantástico momento em que ela mente para seu cliente exatamente na linha da sugestão de Saul que, em um primeiro momento, ela rejeita veementemente. É torturante – mas por outro lado sem preço – ver as nuances de seu trabalho que ainda precisa ser reconhecido de verdade nas premiações. 

A assunção da identidade de Saul Goodman por Jimmy, porém, não é o único assunto do episódio. Na outra ponta – e ainda contando uma história substancialmente apartada, o que continua me incomodando – vemos o desfecho do assassinato do alemão Werner Ziegler que leva a um plano intricado que envolve o retorno do restante da equipe para seus respectivos países por Mike e uma mentira bem contada por Gus para Juan Bolsa e o altamente desconfiado Lalo Salamanca. São momentos carregados de diálogo expositivo que têm a dupla função de nos lembrar o que aconteceu e de encerrar a questão para que a narrativa possa, em tese, focar no embate entre Gus e Lalo, com Mike pedindo as contas pelo momento. 

Tenho para mim que, por mais que o elenco nesse lado da história seja quase que igualmente arrasador, com a fotografia abraçando todas as oportunidades possíveis para trabalhar Giancarlo Esposito da maneira mais ameaçadora possível, como um Darth Vader das drogas (e do frango), a narrativa se beneficiaria muito de uma aproximação maior com a história de Saul, nem que seja na base do aprofundamento da relação de Mike com ele. Do jeito que está, Better Call Saul parece ainda trabalhar duas linhas narrativas paralelas que apenas muito raramente tangenciam. 

A espera interminável pelo retorno da série mais do que valeu a pena, pois Magic Man vem para reiterar que sim, estamos diante de uma das melhores obras televisivas em andamento. Um feito ainda mais impressionante se lembrarmos que se trata de um prelúdio para outra série espetacular, mas que, pelo menos em meu livro, já está comendo poeira de sua irmã mais nova.

Better Call Saul – 4X10: Winner (EUA, 08 de outubro de 2018)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan
Direção: Bronwen Hughes
Roteiro: Peter Gould
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Robert Forster, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 55 min.