Robbie Robbins

Crítica | Locke & Key – Vol. 5: Clockworks

  • Há spoilers! Leia, aqui, as críticas dos demais volumes.

O penúltimo volume da saga Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, é o famoso “senta aí que está na hora de tudo ser explicado”, algo sempre muito bem-vindo quando a narrativa é recheada de mistérios que vão se amontoando e que nem sempre ganham soluções cuidadosas. Na verdade, a criação da dupla nem é daquelas que deixam o leitor indignado por acumular invencionices sem trazer no mínimo algum tipo de alívio de tempos em tempos que revele a intenção de se abordar aquilo que fica sem resposta. Portanto, é especialmente alvissareiro quando notamos que Hill e Rodriguez fazem das tripas coração, aqui em Clockworks, para deixar o terreno 100% preparado para o apoteótico final.

No entanto, como havia muito a ser coberto pela narrativa, os autores fazem basicamente o exato oposto do volume anterior, que experimentou muito com maneiras diferentes de se contar a história pretendida, resultando mais em uma sucessão de one-shots do que um arco narrativo tradicional e não se arriscam, usando um artifício clássico das artes para chegar aonde querem: o flashback. E não há nem a tentativa de usar parcimoniosamente os flashbacks, já que apenas a segunda edição do arco contém passagens no presente, diretamente impulsionando a narrativa até o ponto em que Dodge, agora possuindo o corpo de Bode, finalmente consegue por suas mãos na chave Ômega.

Mas o mais importante é o mergulho no passado tanto remoto – para o começo de tudo durante a Guerra de Independência dos EUA (é a segunda vez que vemos esse passado, na verdade – quanto especialmente nos eventos que deram origem à vilania de Dodge, algo que é explicado em quatro edições repletas de acontecimentos muito interessantes que não só se preocupam em dar uma excelente origem ao vilão, como também a contextualizar em detalhes tudo aquilo que já aprendemos sobre a mitologia das chaves, da família Locke e do grupo de amigos liderado por Rendell Locke, futuro pai das crianças que protagonizam a saga em quadrinhos. Todo esse flashback é inserido organicamente na história como resultado da descoberta de mais uma chave que permite que Tyler e Kinsey – como fantasmas – observem cada evento importante na história de seu pai.

Hill, porém, não se preocupa em manter Tyler e Kinsey ativamente na história, trabalhando diretamente com Rendell e seus amigos como protagonistas imediatos e partindo do momento em que eles terminam de monta a apoteótica peça de teatro no ano de formatura na escola. Os jovens sabem que, em breve, começarão a esquecer tudo referente às chaves e, influenciados por Rendell, decidem abrir a porta Ômega das cavernas inundadas para obter metal sussurrador (na verdade, demônios de outra dimensão que se transformam em metal ao entrar em nossa dimensão) para criar uma chave nova que permita que eles mantenham alguma mágica na idade adulta. É a ambição que marca o começo da queda do grupo, em uma narrativa que foge das saídas fáceis e investe em uma complexa história que lida com hubris, culpa, preconceito e, claro, morte. Tudo acaba encaixado à perfeição ao que conhecemos sobre as chaves e sobre os irmãos Tyler, Kinsey e Bode, mesmo que, por algumas vezes, Hill tenha que recorrer a uma dose extra de texto expositivo e, infelizmente, algumas redundâncias cansativas, como quando Rendell precisa reiterar o porquê de a mágica só ser acessível a crianças.

Mas os pecados do texto de Hill são compensados por sua ousadia em trabalhar temas adultos e em não abrir mão de conclusões difíceis e antipáticas, com mortes que, apesar de sabermos que aconteceram, continuam chocantes e realmente fortes, bem em linha com a pegada sombria de seu épico. Além disso, a arte de Gabriel Rodriguez chega talvez a seu ponto mais alto quando ele trabalha toda a variedade de chaves no pouco número de páginas que tem sem se perder por um segundo sequer, dando uma fluência invejável ao volume. Há também o cuidado pelo artista em marcar de maneira muito evidente os acontecimentos do passado, mas sempre mantendo seu característico estilo muito levemente arquetípico quando desenha os personagens em seus piores momentos.

Joe Hill e Gabriel Rodriguez mantêm o ritmo vertiginoso de Locke & Key em seu penúltimo volume e mostram que o uso de artifícios narrativos corriqueiros como o flashback é sempre muito bem-vindo quando o leitor percebe o quanto de coração foi inserido em cada quadro. Clockworks é a perfeita tempestade antes do apocalipse e uma leitura absolutamente imperdível nesse fascinante mundo mágico que a dupla criou.

Locke & Key – Vol. 5: Clockworks (EUA – 2011/12)
Contendo: Locke & Key: Clockworks #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: julho de 2011 a maio de 2012
Páginas: 154

Crítica | Locke & Key – Vol. 4: Chaves do Reino

  • Há spoilers! Leia, aqui, as críticas dos demais volumes.

Com a mitologia de Locke & Key bem estabelecida ao longo dos três volumes anteriores e com todas as peças devidamente colocadas no tabuleiro, Joe Hill e Gabriel Rodriguez puderam se dar ao luxo de experimentar em Chaves do Reino. No lugar de um arco estruturado de maneira clássica, os criadores escolheram contar essa parte da história com o que pode ser essencialmente classificado como quatro one-shots e um capítulo duplo final que, porém, não dispersam a atenção do leitor em momento algum. Se alguma coisa, a curiosidade só aumenta de edição a edição.

E que tipo de experimentação eles fizeram além de quebrar o arco narrativo em pequenos pedaços? A resposta é múltipla, pois os dois resolveram realmente soltar os freios da criatividade (mais ainda) começando com uma absolutamente adorável edição dedicada a Bill Watterson, o brilhante quadrinista criador de Calvin e Haroldo, uma das melhores tiras em quadrinhos da história da Nona Arte (e quem discordar está errado), com direito à imitação, por Rodriguez, do inconfundível estilo do desenho do roteirista/artista aposentado. Nela, Bode descobre uma chave que o transforma em seu animal totêmico que, no caso, é um pequeno pardal, tendo que enfrentar Dodge que, não muito surpreendentemente, transforma-se em um lobo em um confronto inesquecível e mortal. Em seguida, a dupla dedica uma edição inteira para introduzir Erin Voss na mitologia, uma das amigas de Rendell que, hoje, está internada em um sanatório. Mas essa introdução é utilizada como veículo para a abordagem do preconceito racial, já que Bode e Kinsey usam uma chave que permite a mudança de etnia para tornarem-se negros, o que automaticamente os torna indesejáveis nos olhos de muitos.

Como se isso não bastasse, a edição seguinte acompanha dia-a-dia um mês inteiro na vida dos Lockes e, finalmente, na quarta edição experimental, temos uma abordagem a partir da imaginação fértil de Bode e Rufus e seus brinquedos de guerra. Mas o mais importante dessa brincadeira toda que Hill e Rodriguez fazem é que eles simplesmente não se perdem e não escrevem algo que pode ser classificado como filler ou desimportante para o épico que contam. Cada uma das edições aparentemente soltas – e que, no agregado, introduzem diversas novas chaves – tem relevância para o todo e funcionam efetivamente como um arco completo, mesmo não tendo essa estrutura sob o ponto de vista técnico. E é por isso que mencionei que o leitor tem sua curiosidade potencialmente amplificada aqui, já que cada novo número é algo inteiramente diferente, mas sempre dentro da história macro.

As duas edições finais, no entanto, voltam para o padrão usual da série e alteram completamente o status quo dos personagens ao final, deixando, pela primeira vez, um cliffhanger de arrepiar os cabelos. Chega até mesmo a ser vertiginosa a velocidade com que tudo acontece nesses dois números, mas tudo é muito bem encaixado e lógico dentro da estrutura maior. Arriscaria dizer até mesmo que os autores conseguem efetivamente “recomeçar” a história tamanhas são as alterações feitas no encerramento de Chaves do Reino e que preparam os dois arcos finais de Locke & Key. Algo realmente corajoso e inesperado, tenho para mim.

No entanto, o volume não é exatamente perfeito como o anterior. Para desmascarar Dodge, Hill recorre primeiro a uma conveniência de momento e, segundo, a textos expositivos. Trata-se do momento em que descobrimos que Rufus consegue ver e ouvir o fantasma de Sam Lesser que, agora, voltou-se para o lado do bem e decide aproveitar a oportunidade para contar tudo sobre Dodge. E, por tudo, leia-se cada detalhe do vilão, algo que o próprio Sam não deveria conhecer. Foi um momento fora da curva na qualidade costumeira do texto de Hill, que acaba pecando logo em um momento chave (sem trocadilho!) para a história.

Mesmo com essa escorregada, Locke & Key permanece de altíssima qualidade em seu quarto arco. Com o novo status quo tanto para Dodge quanto para Bode, simplesmente tudo pode acontecer nos volumes finais.

Locke & Key – Vol. 4: Chaves do Reino (Locke & Key – Vol. 4: Keys to the Kingdom, EUA – 2010/11)
Contendo: Locke & Key: Keys to the Kingdom #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: agosto de 2010 a abril de 2011
Páginas: 152

Crítica | Locke & Key – Vol. 3: Coroa de Sombras

  • Há spoilers!

Quem já leu minhas críticas dos volumes anteriores de Locke & Key notou que nas duas vezes descrevi a narrativa de Joe Hill como de queima lenta, com o autor simplesmente não tendo pressa alguma em fazer sua história evoluir a passos largos, preferindo “comer pelas beiradas”, alimentando os leitores com excelentes aperitivos que prezam sabor no lugar de quantidade. E Coroa de Sombras não é diferente, já que mais uma vez a cadência é vagarosa, mas absolutamente deliciosa, daquelas que é impossível parar de ler.

Talvez o grande segredo de Hill não esteja na originalidade da premissa de sua criação, ou seja, na existência de chaves e fechaduras com características mágicas que permitem a seus utentes desde a troca de sexo, passando pela transformação em fantasma e chegando até, nesse terceiro volume, nas habilidades de agigantar-se como nos melhores tokusatsu e, claro, de acordar e controlar sombras com a tal coroa do título. O verdadeiro valor no que o filho de Stephen King escreve está na capacidade de criar e desenvolver personagens perfeitamente relacionáveis na forma como lidam com a tragédia da perda brutal de um ente querido. É envigorante notar que há muito menos preocupação em trazer surpresas rocambolescas a cada página do que há em estabelecer as personalidades de Ellie, Tyler, Kinsey e Bode Locke e de trabalhar cada um deles de maneira constante, sem temor de investir páginas e mais páginas em ações que aparentam – só aparentam! – não levar a lugar algum.

Claro que, em Coroa de Sombras, o grande destaque narrativo fica mesmo por conta de Ellie que, depois do trauma de perder o marido e de ser estuprada, socorre-se da bebida para suportar a vida, para aguentar o medo de perder seus amados filhos para alguma outra tragédia. Sua queda já vinha sendo semeada ao longo dos volumes anteriores, mas, aqui, ela ganha grande enfoque, com a arte de Gabriel Rodriguez representando com o definhamento físico da matriarca aquilo por que ela está psicologicamente passando. É algo doloroso até de se ler, especialmente em uma obra em quadrinhos – mídia normalmente voltada para um público mais jovem – de teor sobrenatural, mas a humanidade da “destruição” de Ellie é algo que funciona magnificamente bem dentro do contexto trágico da saga sendo desenrolada bem vagarosamente por Hill.

Em meio a isso, vemos a reação violenta da destemida (literalmente) Kinsey, que não aceita que a mãe fuja de suas responsabilidades, a tentativa de conciliação que faz com que Tyler amadureça a olhos vistos e o pavor nos olhos do jovem Bode. Mesmo que Locke & Key não contivesse a trama sobrenatural, só esses elementos já seriam justificativas mais do que suficientes para o leitor de quadrinhos mergulhar nessa história.

Mas a boa notícia é que, também do lado “mágico” da narrativa, Joe Hill se sobressai, engrossando o misticismo por trás das chaves e fechaduras que pontilham o volume e, logo de início, trazendo mais um mistério sobre Dodge – ou Lucas Caravaggio ou Zack Wells, como queiram – quando o vemos em sua forma de espírito com algum tipo de mecanismo (uma espécie de chave como ele mesmo diz ao fantasma do assassino Sam Lesser. O que exatamente é aquilo e o que significa, fica para volumes posteriores, pois é impressionante como a história do conflito entre Dodge e Sam é bem conduzida na primeira edição, com a segunda já focando quase que exclusivamente em Kinsey e as novas amizades que faz na escola com pessoas “diferentes” como ela. Quando o mini-arco das sombras começa, há uma pegada exclusiva de ação sobrenatural que, porém, em nada diminui ou afasta os elementos humanos do volume. Muito ao contrário, por mais exagerados que os embates possam parecer, eles são orgânicos à proposta de Hill, fazendo absolutamente todo sentido e, mais do que isso, reiterando e amplificando o lado psicológico da história.

A arte de Rodriguez acompanha a maturidade do texto de Hill não só ao trabalhar os aspectos humanos que a narrativa exige, como é o caso do já citado definhamento de Ellie, como também ao afastar de vez o leve tom arquetípico que carregava nas pistas visuais sobre quem é “do bem” e que é “do mal”, algo que era e continua sendo completamente desnecessário. Seus traços, portanto, estão mais sutis e, com isso, mais bonitos e condizentes com os diálogos e com a construção de cada personagem, mas sem que o autor precise se conter quando Hill tira o pé do freio sobrenatural. Afinal, a forma como o desenhista aborda o duelo de fantasmas na edição inicial e a invasão das sombras nas edições finais do volume é de se tirar o chapéu em termos de originalidade e cuidado com detalhes. Há, de certa forma, até uma falta de sutileza nesse aspecto, mas isso é algo exigido pela história e não extrapolado desnecessariamente pelo artista, o que resulta em um conjunto harmônico e agradabilíssimo de se ler.

Coroa de Sombras é, até o momento, o ponto mais alto na já alta qualidade de Locke & Key. Um drama de horror bem arquitetado que entende que o terror verdadeiro não está apenas em monstros embaixo da cama, mas sim, principalmente, em nós mesmos, escondido nas profundezas de nossas mentes. Será muito interessante ver a direção que essa história tomará!

Locke & Key – Vol. 3: Coroa de Sombras (Locke & Key – Vol. 3: Crown of Shadows, EUA – 2009/10)
Contendo: Locke & Key: Crown of Shadows #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: novembro de 2009 a julho de 2010
Páginas: 153

Crítica | Locke & Key – Vol. 2: Jogos Mentais

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  • spoilers!

No segundo volume de Locke & Key, Joe Hill continua sua estratégia de queima-lenta, fazendo o leitor saborear cada um de seus devaneios criativos sem trazer resultados práticos corridos somente para  solucionar um mistério atrás do outro. Se Bem-Vindo a Lovecraft foi um aperitivo saboroso, Jogos Mentais é uma entrada que aguça os sentidos e prepara o que promete ser um inesquecível prato principal.

Usando a chave da mente que o jovem Bode Locke achou ao final do volume anterior, a história da vez lida com memórias e lembranças, o trampolim que Hill precisava para sedimentar, por intermédio do uso de flashbacks, que todo o mistério sobre as chaves, fechaduras e a mulher – agora homem – que residia no poço adjacente à Keyhouse, antecede e muito o começo cronológico da história sendo contada, voltando no mínimo para quando o assassinado patriarca da família tinha a idade que seu filho Tyler tem agora. Não demora muito e a excelente memória de um idoso professor de literatura, começa a abrir as portas para descobrirmos que Zack Wells – o nome adotado pela criatura do poço, valendo notar que “well” é “poço” em inglês – já fora Lucas Caravaggio há uma vida atrás e que ele, agora, em razão de uma conexão passada que vai aos poucos sendo revelada, vive com a professora Ellie Whedon, que, por sua vez, tem um filho autista. 

Essa história que lentamente expande esse fascinante universo místico criado por Hill, é costurada pela revelação da função da chave da mente, capaz de literalmente abrir a cabeça das pessoas de forma que seu conteúdo possa ser alterado ao bel-prazer, seja inserindo ou retirando memórias. Não só o lado mágico da narrativa é escancarado, já que Bode logo conta tudo para seus irmãos, como Lucas é trazido para esse círculo restrito, colocando o vilão em posição de extrema vantagem em relação aos Locke. 

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Paralelamente, o tio Dunk, que também começa a se lembrar de Lucas em um passado enevoado, tem sua participação na história expandida com a revelação de que ele é gay e com sua necessidade de sair da mansão para focar em suas aulas de arte. O que parece ser uma narrativa paralela no começo não sai da mira do autor e tudo acaba ganhando forte conexão, sempre prestigiando a ampliação da teia narrativa, no presente e no passado, tendo o misterioso e manipulador Lucas Caravaggio como pivô. 

Se a chave de abrir mentes parece estranha e razoavelmente inútil quando sua função base é revelada pela primeira vez, seus usos vão ganhando complexidade e relevância na medida da progressão do segundo volume, mesmo que Hill acabe recorrendo a uma ou duas conveniências narrativas para forçar explicações, como o atraso de Tyler com as leituras da escola ou o desejo de Kinsey de mudar quem é. No entanto, com a arte de Gabriel Rodriguez representando brilhantemente as manifestações das mentes dos personagens, por vezes retratando toda uma vida a partir das percepções distorcidas de suas memórias em intrincados painéis únicos que são de cair o queixo, podemos facilmente relevar os atalhos tomados pelo roteirista.

Falando em Rodriguez, vale destacar também como trabalha os flashbacks de maneira cinematográfica, não só fazendo o usual, como dedicar páginas sequenciais a eventos passados, como também fundindo as linhas temporais por meio de narração e justaposição de imagens. É um trabalho maduro, bem estruturado e que enriquece sobremaneira a história sendo contada por Hill.

Jogos Mentais é mais um excelente capítulo na saga de horror que Joe Hill cuidadosamente constrói. E algo me diz que ele ainda nem arranhou a superfície do potencial de seu banquete narrativo.

Locke & Key – Vol. 2: Jogos Mentais (Locke & Key – Vol. 2: Head Games, EUA – 2009)
Contendo: Locke & Key: Head Games #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: janeiro a julho de 2009
Editora no Brasil: Editora Geektopia (Novo Século)
Data de publicação no Brasil: fevereiro de 2020 (encadernado)
Páginas: 156

Crítica | Locke & Key – Vol. 1: Bem-Vindo a Lovecraft

Joseph Hillström King, filho do meio de ninguém menos do que Stephen King, decidiu ingressar na vida literária sem depender diretamente do sucesso do pai, adotando o nom de plume Joe Hill em 1997. Tendo sua identidade secreta revelada em 2007, mesmo ano que publicou seu primeiro romance, Hill manteve o nome que escolheu e, ato contínuo, expandiu suas atividades para os quadrinhos logo no ano seguinte, lançando a primeira edição de Locke & Key em fevereiro de 2008, alcançando imediato sucesso.

E o sucesso foi mesmo merecido, já que, muito diferente de HQs comuns, que correm para entregar ao leitor uma recompensa muitas vezes sacrificando qualidade no processo, Hill decidiu trilhar o caminho mais difícil e contar uma história de queima lenta. Ao final de Bem-Vindo a Lovecraft, o primeiro volume da série composto por seis edições, a impressão que fica é que tudo não passou de um prólogo, de uma introdução a um fascinante universo que é apenas vislumbrado aqui.

Mas não se enganem. Quando digo “prólogo”, não quero de forma alguma rebaixar a obra ou afirmar que pouco ou nada acontece. Muito ao contrário, Hill mostra imediato gabarito para atiçar a curiosidade do leitor começando sua narrativa pelo brutal assassinato de Rendell Locke, pai de família, no que parece ser um assalto cometido por dois particularmente violentos adolescentes. Mas nada é o que parece ser em Locke & Key e Hill, usando narrativa não-linear, vai e volta no tempo para contar os detalhes do que aconteceu e para abordar as consequências da morte de Rendell para seus filhos Tyler, Kinsey e Bode, além de sua esposa, que acabam tendo que retornar para a mansão da família Locke, na cidade fictícia de Lovecraft, em uma ilha na costa de Massachusetts.

Tyler, o filho mais velho e de aparência física mais próxima do pai, debate-se sobre seu papel no assassinato e toda a culpa que sente pelo ocorrido. Kinsey, a filha do meio de personalidade forte, tenta tornar-se invisível em seu novo lar para justamente não ter que falar sobre seu passado. O pequeno Bode, por sua vez, é o primeiro a notar que a Keyhouse (ou Casa da Chave, em tradução direta, o que faz dobradinha com o nome Locke, já que “lock” significa tranca, daí o nome da HQ), nome que a mansão dos Locke tem, não é um lugar comum e que há chaves e portas muito especiais por ali que ele começa a destrancar com toda sua curiosidade de criança inocente. E, finalmente, há a matriarca que, apesar de ter razoavelmente pouco destaque nesse primeiro volume, carrega nos ombros a responsabilidade – quase paranoia – de proteger seus filhos de mais tragédia, o que cobra um alto preço físico e psicológico dela.

Mas o núcleo familiar e a forma como seus membros lidam com a dor da perda e com o trauma da violência não são os únicos enfoques de Joe Hill. Ao contrário, ele emprega um bom número de páginas para lidar com Sam Lesser, o assassino de Rendell. Preso na Costa Oeste, onde os Locke moravam, o criminoso se mostra peça-chave na narrativa e com uma conexão muito maior com a família do que é possível entrever no início da história. A cadência da narrativa de Hill é particularmente cirúrgica nesse lado da história, já que os acontecimentos com Lesser vão sendo conectados – passado e presente – com o que vemos desenrolar na Keyhouse, especialmente no que se refere às descobertas de Bode sobre as chaves e as trancas e, principalmente, sobre uma misteriosa entidade que reside em um poço proibido nos fundos da mansão. Claro que os contornos lovecraftianos de Locke & Key, que não são surpresa alguma, obviamente, vão sendo aos poucos intensificados e costurados aos conceitos estabelecidos pelo autor.

Em termos de construção de mundo, portanto, Bem-Vindo a Lovecraft é uma aula de narrativa. Joe Hill trata a HQ como um romance – mas entendendo e respeitando perfeitamente bem as características próprias de cada mídia – e costura uma história sólida, rica, extremamente violenta e repleta de surpresas muito interessantes que estabelecem um universo próprio e com ótima lógica interna. Há apenas uma conveniência de roteiro, envolvendo a forma como Bode encontra uma chave ao final, que não funciona de verdade e retira o leitor desse mergulho mágico por alguns momentos.

A arte de Gabriel Rodriguez, que estabeleceu prolífica parceria com Hill desde o início, é um achado, já que o desenhista consegue trabalhar com a mesma eficiência o mundano e o sobrenatural, especialmente quando suas amarras são soltas na Keyhouse, uma belíssima, mas assustador mansão gótica que tem todos os predicados clássicos da “casa mal-assombrada”. Seu domínio sobre a progressão narrativa é excelente mesmo diante das exigências de Hill com seu vai-e-vem temporal que é tão integral à trama quanto a mansão. O único senão é a tendência do artista em trabalhar as feições de seus personagens de acordo com suas características psicológicas, o que faz, por exemplo, com que Sam Lesser seja feio e os membros da família Locke bonitos, em um maniqueísmo que, pelo menos aqui, nesse volume, era desnecessário.

Bem-Vindo a Lovecraft é um delicioso aperitivo que afeta e envolve completamente o palato de quem o digere, aguçando a curiosidade sobre os pratos que serão servidos a seguir. Um incrível começo de história e um mais incrível ainda começo de carreira nos quadrinhos de um autor que definitivamente tem voz própria e não precisa do nome do pai para fincar-se nas artes.

Locke & Key – Vol. 1: Bem-Vindo a Lovecraft (Locke & Key – Vol. 1: Welcome to Lovecraft, EUA – 2008)
Contendo: Locke & Key: Welcome to Lovecraft #1 a 6
Roteiro: Joe Hill
Arte: Gabriel Rodriguez
Cores: Jay Fotos
Letras: Robbie Robbins
Editoria: Chris Ryall, Justin Eisinger
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: fevereiro a julho de 2008
Editora no Brasil: Novo Século
Data de publicação no Brasil: outubro de 2017 (encadernado)
Páginas: 168