Richard Burton

Crítica | O Mais Longo dos Dias

O Mais Longo dos Dias é, ainda hoje, um dos filmes de guerra mais importantes de todos os tempos. Quem assiste a ele atualmente pode não tirar proveito das qualidades desse verdadeiro tour de force cinematográico da década 60, que representa um dos momentos mais decisivos da história do século XX – o Dia D. Isso se deve em grande medida à concepção atual dos filmes de guerra, que prezam pela representação realista e sangrenta do combate. De fato, é estranho imaginar que um evento histórico como o notório desembarque na praia de Omaha seja representado em menos de 10 minutos em O Mais Longo dos Dias, enquanto o mesmo consuma quase o triplo do tempo, com intensidade cinemática incomparavelmente mais brutal, em O Resgate do Soldado Ryan. Mas é preciso, de saída, compreender que a superprodução co-dirigida por Ken Annakin, Andrew Marton, Bernhard Wicki e Darryl F. Zanuck debruça-se muito mais sobre a narrativa histórica do que sobre a humana. Sim, é possível separar as duas, ainda que isso obviamente traga algumas limitações a O Mais Longo dos Dias, que minha crítica não ignorará.

Baseado no livro homônimo, escrito por Cornelius Ryan, o longa-metragem segue todos os passos da Operação Overlord e, embora haja alguns anacronismos históricos aqui e acolá e algumas falhas de continuidade, é notável o esforço por dar conta de toda a história, com máxima riqueza de detalhes e precisão historiográfica. Os primeiros trinta minutos de projeção são relativamente morosos e se dedicam a revelar os bastidores da operação, todos os riscos envolvidos e o receio de todos os generais e comandantes quanto à possibilidade de sucesso diante do banho de sangue que estaria por vir. Embora o filme não empolgue em seu introito, há cenas marcantes e dignas de nota, como aquela em que o boneco “Rupert” é apresentado aos combatentes, que se assustam com a demonstração. Esses bonecos foram realmente usados para distrair os soldados alemães, que abriram fogo contra eles pensando que fossem paraquedistas americanos. Eis aí um bom exemplo de detalhes que agradam ao espectador mais ávido pelo relato fiel dos fatos e pelas curiosidades daquele fatídico 6 de junho de 1944.

O filme destaca-se também pela direção poderosa da equipe de diretores. Cada um deles ficara responsável por um lado da narrativa – o dos americanos, o dos alemães, o dos franceses e o dos ingleses. É admirável como, apesar dessa divisão, o filme todo funciona como uma unidade bem coesa e, em nenhum momento, temos a impressão de estarmos assistindo a uma colcha de retalhos do ponto de vista estilístico. Todos os diretores garantem momentos memoráveis, com tomadas aéreas muito bem executadas e muita dinâmica de câmera no campo de batalha. A movimentação das tropas e toda a tática militar é exibida com vigor e excelência por exemplo na cena em que os fuzileiros franceses tomam o Casino Ouistreham. Para os aficcionados por plano-sequência, esse certamente é um dos melhores da história da sétima arte. Em Omaha, os soldados americanos avançam sob uma chuva de balas por uma extensão de praia que não parece ter fim. Quem nos dá essa sensação é a ótima escolha do diretor por um travelling lateral de tirar o fôlego. Embora Kubrick já tivesse usado e abusado deles em Glória Feita de Sangue, é inegável o seu poder aqui. Estamos diante de uma das maiores batalhas da história das guerras.

O Mais Longo dos Dias não dá grande enfoque aos soldados individualmente. Nem em suas histórias pessoais nem em seu sofrimento e seu companheirismo em dias tão sombrios. Essa é uma grande limitação da opção que diretores e roteiristas fizeram por adaptar um livro histórico preservando sua essência historiográfica. É admirável como a adaptação audiovisual cumpre à risca a sua proposta. Mas, ao mesmo tempo, em uma fita de quase três horas de duração, sente-se a falta de maior presença do elemento humano. Afinal de contas, estamos diante do cinema e, portanto, da arte. A frieza quase científica com que são tratados os combatentes de todos os países envolvidos incomoda. Quando o paraquedista John Steele fica preso à torre da igreja em Saint-Mère Église e vê seus companheiros sendo arrasados, sentimos certo alívio por notar a dimensão humana vindo à baila. Esse é um dos escassos momentos em que um soldado comum será enquadrado em primeiro plano, dando vazão às suas angústias. Mas cabe dizer que isso só acontece por se tratar de um incidente notável de tão insólito.

Nesse sentido, parece-me até um paradoxo o investimento em um elenco tão estelar, incluindo nomes como Henry Fonda, John Wayne, Richard Burton e Robert Mitchum, para representar personagens com tão pouco desenvolvimento. Obviamente, quando em cena, todos os principais atores de O Mais Longo dos Dias entregam ótimas interpretações. Mas a escalação de nomes tão gigantescos ainda me parece mais um chamariz mercadológico do que uma necessidade dramatúrgica de fato. Em todo o caso, a obra como um todo se sai muito bem e segue, tanto tempo depois, sendo o título definitivo no cinema para compreender o Dia D desde a sua arquitetura à sua execução e às suas consequências. A fotografia em preto e branco contribui não para tornar o filme datado, mas para torná-lo um clássico de seu tempo. Mas, ainda assim, um clássico e, portanto, capaz de gerar interesse inesgotável. A Operação Overlord ainda não encontrou no cinema nada que a narrasse melhor do que O Mais Longo dos Dias. Saibamos nos render a isso.

O Mais Longo dos Dias (The Longest Day – EUA, 1962)
Direção: Ken Annakin, Andrew Marton, Bernhard Wicki e Darryl F. Zanuck
Roteiro: Romain Gary James Jones, David Pursall, Cornelius Ryan, Jack Seddon
Elenco: Henry Fonda, John Wayne, Richard Burton, Robert Mitchum, Paul Anka, Eddie Albert
Duração: 178 min.