Philippe Barcinski

Crítica | Não Por Acaso

Analisado numa escala global, os acidentes de trânsito estão entre uma das dez maiores causas de morte. Não muito distante da AIDS, a causa que muitas vezes pode ser evitada ocupa lugar à frente da malária e diabetes. Responsável por dizimar parte importante da nossa força de trabalho, pois acomete muitos jovens entre 15 e 29 anos, os acidentes de trânsito possuem uma série de consequências que podem ser muito prejudiciais para a vida dos sobreviventes lesados e também para a estrutura de suas famílias e relações de trabalho, abaladas com a modificação de cenário. No bojo dos nossos problemas de saúde pública, temos uma série de enfermidades que não possuem vacina para a cura. Acidentes nesta linha, ao contrário, podem ser controlados. No desenvolvimento de Não Por Acaso, por sua vez, temos dois protagonistas controladores obsessivos, homens que diante de suas manias, não conseguem dar conta de controlar as suas respectivas vidas e a gerencia dos que gravitam ao redor.

A abordagem da abertura desta reflexão, isto é, um trágico acidente de trânsito, mudará ainda mais esse panorama. Sem manter a sua estrutura conectada ao sistema padrão de começo, meio e fim lineares, Não Por Acaso é um drama que nos apresenta o cruzamento de vidas diante de um trágico acidente de carro que interliga duas mortes. Sob a direção de Philippe Barcinski, escrito em parceria com Eugenio Puppo e Fabiana Werneck, o drama retrata o cotidiano de pessoas que precisam mudar a fixidez de suas trajetórias para conseguir se adaptar aos obstáculos que se estabelecem, inesperadamente, de maneira realista dentro de uma narrativa sobre “acasos”. O eixo principal deste processo gravita em torno de Pedro (Rodrigo Santoro), dono de uma marcenaria especialista em mesas de sinuca, e Ênio (Leonardo Medeiros), um engenheiro de trânsito que encontra uma filha já na adolescência e tem a sua vida renovada.

Diante do exposto, podemos observar que Não Por Acaso é um filme de personagens, isto é, trama focada no suposto “acaso” das situações alegóricas para a realidade, dos encontros e desencontros inesperados ou indesejados de nosso cotidiano, mas com direcionamento voltado para a construção da dupla protagonista, Ênio e Pedro, ambos bastante controladores dentro de suas funções profissionais e no decorrer de suas dinâmicas pessoais de relacionamento. Pedro é um cara inseguro, em busca de satisfação no trabalho que exerce. Ênio é um homem frio, carregado pelo destino e colocado numa situação, tal como já dito, inesperada, isto é, a chegada de uma filha desconhecida de 16 anos.

A garota surge logo após a morte da esposa do engenheiro, Mônica (Grazielle Moretto). Assim, em sua vida social plana e de emoções contidas, Ênio passa os dias acompanhando as câmeras de vigilância do trabalho, na antecipação de cálculos para evitar possíveis problemas de mobilidade urbana, dando assim, para São Paulo, o mesmo controle que emprega em sua vida metódica e sem espaço para o improviso. Assim como Ênio, Pedro também é bastante controlador, voltado ao seu trabalho como dono de uma marcenaria que realiza um trabalho meticuloso, tal como o jogo de sinuca, produto disponibilizado por sua empresa. A sua vida também muda vertiginosamente depois do acidente de trânsito que ceifou a vida de sua companheira. Lúcia (Leticia Sabatella), a executiva solitária que mora no apartamento da falecida, será a responsável pelos novos desafios do personagem.

Conforme a divulgação, “Dois segundos podem mudar a sua vida”. Essa é uma das máximas do filme que cruza os personagens principais após o acidente que toma de assalto a vida de suas respectivas companheiras. Esse é o mote “crash” de Não Por Acaso, interligar dois homens que perdem os seus amores em face de uma tragédia que envolve atropelamento e batida. Engavetados diante das mudanças, a dupla de protagonistas passa todo o filme como engenheiros de tráfego em ação diante de suas próprias existências, preocupados em colocar em ordem tudo o que foi transformado em transtorno. Assim, temos personagens bem construídos, um clima dramático bem estabelecido, andamento narrativo pouco favorável aos que buscam entretenimento puro, numa trama que também estabelece como mote outra máxima: “controladores nem sempre estão diante do controle”.

Na seara estética, Não Por Acaso é um filme eficiente, com seus enquadramentos e movimentos que captam a atmosfera de uma versão da cidade de São Paulo, caótica, mas poética, um organismo vivo, basicamente um dos personagens que abriga os demais com suas bicicletas circulantes no Minhocão fechado para os carros durante o final de semana. Tudo isso graças ao trabalho correto de Pedro Farkas na direção de fotografia, conjunto de imagens que ganhou acompanhamento da condução musical de Ed Côrtes, suave, sem momentos excessivamente intrusivos, equilibrados na edição de Marcio Canella. A direção de arte, responsável pelos elementos que compõem a visualidade da narrativa, surge para os espectadores de maneira sutil, com toques envolventes, significados expositivos, também eficientes para a composição geral da trama.

Lançado em 2007, Não Por Acaso é uma produção que no desenrolar de seus 90 minutos, nos permite refletir sobre a necessidade de dar conta dos obstáculos diários que nos são apresentados, muitas vezes, grandiosos, fardos complicados em suas resoluções, noutras, problemas menores, mas que sequer temos força para aplicar uma resolução possível. São tópicos possíveis dentro de uma reflexão voltada especificamente ao conteúdo interno da narrativa. Se pensarmos contextualmente, o enredo apresenta como os acidentes de trânsito são impactantes no bojo da família, esfacelada diante de situações que na maioria das vezes, pode ser evitada, afinal, temos em nosso cenário de mobilidade urbana, uma quantidade significativa de condutores pouco responsáveis e também aqueles desinteressados em cumprir as leis.

Não Por Acaso — (Brasil, 2007)
Direção: Philippe Barcinski
Roteiro: André Pereira, Beatriz Manella
Elenco: Branca Messina, Cássia Kiss, Graziella Moretto, Leonardo Medeiros, Letícia Sabatella, Rita Batata, Rodrigo Santoro, Silvia Lourenço
Duração: 90 min.

Crítica | 3% – 3ª Temporada

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Vou pra rua e bebo a tempestade.

É difícil discutir uma obra que retoma questões marcantes e sequências inspirativas, que outrora deu certo. No caso de 3%, a 3ª Temporada é uma releitura direta da primeira, levantando os mesmos assuntos discutidos sob uma mesma filosofia e ambiente. Esse artifício funciona: relembra o teor chocante da 1ª Temporada, que conseguiu atrair muitas críticas positivas. Por outro lado, realça a questão: repetir assuntos já vistos é uma artimanha eficiente para manter a audiência fiel conquistada anteriormente ou é o reflexo da covardia dos produtores?

De fato, a 1ª Temporada dividiu muito as críticas. O fato, é que indiscutivelmente, 3% surge como uma categoria pouco vista por aqui: a crítica como elemento secundário e imaginário. E talvez esse seja o maior fator para a explosão de audiência que a temporada levou. Uma história que discute meritocracia e desigualdade social sem o semblante que narrativas do gênero carregam, especialmente no Brasil — que tende sempre a lembrar o espectador de que ele “está assistindo a um projeto que quer alfinetar alguém ou alguma coisa” — , era algo um tanto inovador. E isso já foi bastante para projetar 3% tanto nacionalmente quanto internacionalmente. No entanto, apesar da 2ª Temporada turbulenta que desenvolveu aspectos importantes, a série perdeu grande parte do público. A decisão dos produtores não foi diferente de: “então vamos retomar para a primeira temporada?

Claramente retornar com a questão do processo para o Maralto, assunto já discutido antes, seria o mesmo que tratar o espectador como um acéfalo. Felizmente – ou infelizmente -, os roteiristas construíram uma nova maneira de recontar a história. A Concha, fundada por Michele (Bianca Comparato) não é nada mais do que a reconstrução ideológica da estrutura do processo. Tanto que não é um acontecimento mirabolante para que ela propusesse um processo dentro da Concha: bastou uma tempestade de areia aleatória que surgiu literalmente do nada. Se analisarmos a circunstância que desencadeou a história, não está longe de questionarmos o seguinte: “é sério que ergueram uma super construção no meio do deserto mas não tinham um plano de defesa contra tempestades de areia?” De novo, não indo muito distante, percebemos que foi só uma desculpa mal pensada pelos produtores para o início da história. O problema é que os roteiristas tratam, nesse momento, os protagonistas como burros – até porque eles tinham sistema de monitoramento 24 horas, e só perceberam a tempestade quando ela já havia chegado – e, inevitavelmente, tentam brincar com a falta de inteligência dos espectadores.  Não é preciso dizer que isso não dá certo, além de nos deixar extremamente incomodados com tamanha cara de pau, certo?

Depois deste catastrófico primeiro episódio, a série enfim reforça seus pontos positivos. As provas desenvolvidas por Michele são criativas e instigantes; os personagens tem personalidade e boas atuações; as ambientações são incríveis e, pelo menos um elemento diferente da 1ª Temporada: não conseguimos definir para qual lado torcer, se para os eliminados do processo da Concha ou para a Concha. Além disso, destaco a belíssima sequência de Bom Conselho, interpretada por Johnny Hooker, com uma fotografia literalmente impecável, fazendo qualquer um terminar em lágrimas. Pena que, ironicamente, essa sequência é bem parecida com Preciso Me Encontrar, cantada na temporada anterior – está complicado encontrar algo diferente aqui.

Porém, não é difícil percebermos que a Concha é uma reprodução do Maralto, que Michele tem a mesma função que Marcela (Laila Garin) e Ezequiel (João Miguel), que Xavier (Fernando Rubro) repete a personalidade e tem o mesmo papel de Fernando (Michel Gomes), que Glória (Cynthia Senek) tenta substituir o papel de Joana (Vaneza Oliveira), que, por sua vez, se torna a releitura de Ivana (Roberta Calza), entre outros. Isso até funciona e prende o espectador durante todos os episódios. É, de fato, uma “fórmula de sucesso”. Mas até quando os produtores se esconderão no manto da primeira temporada, sem desenvolver a história? Note que literalmente não acontece nada de muito marcante nesta temporada, bastava uma citada em um único episódio para resumir tudo que aconteceu aqui. Sem dúvidas, isso é consequência da releitura do primeiro ano, pois se estamos vendo o que já aconteceu, não há nada de novo. É, resumidamente, um passatempo para enrolar a vivência da série. Pelo menos o final levanta um clima positivo. Poderemos esperar uma 4ª Temporada bem badalada, com um hype maior do que a 2ª. Se essa esperança de recuperar as expectativas foi o objetivo dos produtores, eles conseguiram.

A 3ª Temporada de 3% é interessante de se assistir. Pena que é a repetição de tudo que já vimos antes, em especial a estreia, tornando-se uma temporada inútil do ponto de vista execução da história, mas cativante nas sequências. O que podemos esperar é uma maior ousadia dos produtores (que mostraram interesse em ter, visto o final do presente ano) e assim, uma próxima temporada tão boa e interessante quanto a iniciais. De mais, 3% ainda pode ser considerada uma grande produção brasileira.

3% – 3 Temporada (Brasil, 2019)
Direção: Jotagá Crema, Daina Giannecchini, Dani Libardi, Philippe Barcinski, César Charlone
Roteiro: Pedro Aguilera, Ivan Nakamura, Denis Nielsen, Guilherme Freitas, Teodoro Poppovic, Juliana Rojas, André Sirangelo, Jotagá Crema, Cássio Koshikumo, Andrea Midori, Marcelo Montenegro, Carol Rodrigues
Elenco: Bianca Comparato, Vaneza Oliveira, Rodolfo Valente, Zezé Motta, Fátima Porphirio, Rafael Lozano, João Miguel, Michel Gomes, Cynthia Senek, Bruno Fagundes, Laila Garin, Thais Lago, Fernanda Vasconcellos, Silvio Guindane, Celso Frateschi, Mel Fronckowiak, Luciana Paes, Amanda Magalhães
Duração: 8 episódios com cerca de 45 min.