Peppino De Filippo

Crítica | As Tentações do Doutor Antônio (Boccaccio ’70)

estrelas 4,5

Dirigido por Federico Fellini entre duas de suas grandes obras-primas (A Doce Vida e Oito e Meio), As Tentações do Doutor Antônio é um dos curtas que fazem parte do projeto Boccaccio ’70, dividindo espaço com projetos assinados por Mario Monicelli, Luchino Visconti e Vittorio De Sica.

O curta-metragem é uma “comédia à italiana”: hilária reflexão que ao mesmo tempo expõe o lado da angústia, da loucura e do medo que eventualmente atormentam as pessoas. Embebida num contexto social específico, esse tipo de comédia aqui trabalhada por Fellini e seus roteiristas logra trazer para o espectador uma experiência adicional, particular, que nesse caso é a crítica ao pudor extremo e de cunho religioso, fruto de visíveis complicações psicológicas que marcam para sempre a vida do Doutor Antônio (Peppino De Filippo, numa fantástica interpretação).

Pela primeira vez Fellini usou um conteúdo sexual ligado a valores religiosos em um filme, uma crítica que ele faria à igreja diversas vezes a partir de então, a começar de Oito e Meio, seu longa-metragem seguinte. Embora a autoridade religiosa ou mesmo a devoção tivessem aparecido em filmes anteriores do diretor, é em As Tentações do Doutor Antônio que elas surgem envoltas em ironia e dentro de um contexto onírico, mais uma das características recorrentes na obra posterior do cineasta.

O argumento é engenhoso desde o início, porque mostra que a tentação (e nesse caso, já fazemos a relação com uma força demoníaca) é na verdade uma criancinha vestida de anjo e que aparece a maior parte das vezes em situações que jamais atribuiríamos à antítese da ideia de pecado, e é muito importante pensarmos nesses termos, porque o pecado, aqui, é realmente uma ideia absorvida durante os anos e acalentada por possíveis condições psíquicas/sentimentais/sociais do Doutor em questão: fanatismo religioso, Complexo de Édipo, misoginia, homossexualidade, repressão social, fetiches, loucura…

Aparentemente trata-se de um personagem bastante simples, mas no decorrer do filme, percebemos a sua complexidade e o modo notável como o roteiro dá voz a cada uma dessas fases, que se apresentam de maneira sutil, o que é bastante admirável dado o pequeno tempo de duração da obra. Além disso, vemos conceitos/sentimentos/pulsões do protagonista serem desconstruídos e reconstruídos no decorrer da projeção. O Doutor Antônio luta contra tudo aquilo que ele era ou se achava contra, mas no final se deixa seduzir, mesmo que por um curtíssimo espaço de tempo.

Anita Ekberg personifica grandiosamente a femme fatale do pesadelo do Doutor, e não apenas isso, ela também dá corpo uma parte do conceito de “mulher felliniana” que veríamos desfilar nos longas do cineasta daí em diante — e que víramos como prévia em A Doce Vida, lançado dois anos antes desse curta. Essa parte do conceito traz mulheres de belos rostos, penteados estilosos, um toque marcante de maquiagem, belo figurino e seios fartos, além de atributos corporais que geralmente marcam a genérica preferência do homem latino de meados do século XX para as mulheres. Perceba que esse mesmo modelo feminino já pode ser visto em Oito e Meio ou Toby Dammit, assim como o seu lado oposto de beleza, tendo como exemplo a Saraghina de Oito e Meio, que mesmo não sendo bela, traz os grande seios, atributo central das matronas fellinianas.

Por fim, o Doutor Antônio não consegue lidar com tanta informação, mudança, renúncia, aceitação e luta em tão pouco tempo. Ele tenta fugir de algo pelo qual se sente atraído (será mesmo?) e essa fuga esbarra na imagem social que ele construiu para si: o defensor da pureza e do decoro para o “cidadão de bem“. A única fuga que realmente lhe trará paz é a loucura. Ele enfim se vê livre para amar e desejar sem ter medo ou se sentir culpado e atormentado pelas ameaças de arder no inferno. Suas tentações deixaram de ser algo a se reprimir para se tornarem algo a saudável a se fazer, exatamente como dava a entender o metafórico jingle do cartaz que desencadeou a sua metamorfose: Beba mais leite.

  • Crítica originalmente publicada em 19 de novembro de 2013. Revisada para republicação em 16/03/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Boccaccio’70: As Tentações do Dr. Antônio (Boccaccio ’70: Le tentazioni del dottor Antonio, Itália/França, 1962)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Goffredo Parise, Tullio Pinelli, Brunello Rondi
Elenco: Anita Ekberg, Peppino De Filippo
Duração: 50 min.

Crítica | Mulheres e Luzes

Quando foi para trás das câmeras para fazer Mulheres e Luzes, seu primeiro filme, Federico Fellini não era um iniciante na arte do Cinema. Já havia trabalhado como roteirista de programas de rádio e de gags para filmes, envolveu-se com o neorrealista Roberto Rossellini, chegando a ser indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1947, juntamente com Sergio Amidei e outros, por seu trabalho em Roma, Cidade Aberta.

Seu trabalho com Rossellini acabou levando-o a forjar laços de amizade com Alberto Lattuada, com quem escreveu Sem Piedade, dirigido por este último, e esses laços levaram os dois a co-dirigirem Mulheres e Luzes. Apesar do fracasso comercial que foi o filme, ele é um ótimo começo de carreira e já delinearia muito bem o trabalho de Fellini nas décadas seguintes.

Como o título original (Luci del Varietà) deixa claro , a fita versa sobre o teatro de variedades, algo muito próximo, assim como o circo, ao coração do diretor italiano. E seu carinho por esses artistas mambembes que reflete, de certa forma, a vida na Itália não muito depois da Segunda Guerra Mundial, com muita pobreza e tentativas de reconstrução, fica evidente a cada fotograma de Mulheres e Luzes, uma pequena grande obra desse inesquecível diretor.

A história é enganosamente simples: um grupo de artistas vai de cidade em cidade fazendo seu pequeno show de variedades. Em uma dessas viagens, a estonteante Liliana “Lily” Antonelli (Carla Del Poggio) acaba se juntando ao grupo ao enfeitiçar o diretor Checco Dal Monte (Peppino De Filippo). Ela mal sabe atuar e dançar, mas sua forma física acaba atraindo clientela e, claro, gerando rusgas internas no grupo, com muitos dos artistas sentindo ciúmes da moça, especialmente Melina, namorada de Checco, vivida pela esposa de Fellini, Giulietta Masina.

A tentativa desenfreada de Lily de subir na carreira pode ser vista de duas maneiras: um ato feito de caso pensado, sem que ela se importe em que calos pisa ou como algo que ocorre em virtude sim de sua vontade em crescer, mas aliado à sua inocência. As duas interpretações são plenamente possíveis, ainda que a primeira seja a mais fácil e direta. No entanto, a atuação de Del Poggio carrega um ar de dubiedade, de deslumbramento, que dá uma cor especial ao filme e gera a dubiedade que apontei.

Checco é que é o incorrigível e unidimensional nessa história toda. Ele corre atrás do “rabo de saia” disponível e, quando Lily entra no circuito, ele só tem olhos para ela, esquecendo-se completamente de Melina, que, como fica claro, é absolutamente devotada a Checco. E tanto Peppino De Fillipo quanto Giulietta Masina estão excelentes na película, com especial destaque para Masina que, em seu primeiro papel, de certa maneira já cria o molde segundo o qual forjaria seus futuros personagens.

A narrativa é objetiva, mas carrega muitas nuances e a fotografia de Otello Martelli (que viria a se tornar um parceiro de Fellini) em preto-e-branco, trabalhando com muita luz natural nos locais abertos para transparecer aridez, abandono e luzes mais mudas e discretas para filmagens em locais fechados, passando a impressão de pobreza, umidade e desleixo completo, que acaba contrastando com a genuína alegria da trupe de atores em atuar sob quaisquer condições. Eles vivem para aquilo e o ambiente basicamente não interessa desde que eles tenham uns aos outros. E esse senso de união, de amizade é o que é quebrado pela luminosa presença de Lily, apesar dos esforços de Melina em fazer de tudo para manter o grupo coeso, mesmo que para isso ela tenha que sacrificar sua própria felicidade.

Fellini voltaria um sem número de vezes ao meio artístico para tirar inspiração para seus filmes. Mulheres e Luzes foi a obra que abriu o magnífico e prolífico caminho do diretor que influenciaria diversos outros.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de maio de 2013. Revisada para republicação em 20/01/2020, como parte da versão definitiva do Especial Federico Fellini aqui no Plano Crítico.

Mulheres e Luzes (Luci del Varietà, Itália – 1950)
Direção: Federico Fellini, Alberto Lattuada
Roteiro: Federico Fellini, Alberto Lattuada, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano (não creditado)
Elenco: Peppino De Filippo, Carla Del Poggio, Giulietta Masina, John Kitzmiller, Dante Maggio, Checco Durante, Gina Mascetti, Giulio Calì, Silvio Bagolini, Giacomo Furia, Mario De Angelis, Vanja Orico, Enrico Piergentili, Renato Malavasi, Joseph Falletta, Folco Lulli
Duração: 97 min.