Osric Chau

Crítica | Legends of Tomorrow – 5X00: Crisis on Infinite Earths, Parte Cinco

Crossover como um todo
(não é uma média):

Episódio:

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais partes do crossover e, aqui, das temporadas anteriores da série.

Consigo com certa facilidade comprar o conceito de que há quase uma década, quando o Arrowverse foi concebido, seus showrunners tiveram a visão de que um dia chegariam a adaptar Crise nas Infinitas Terras. Os sinais estão todos lá, desde a aparentemente aleatória nomeação de uma das personagens de Lyla Michaels, a Precursora da maxissérie oitentista em quadrinhos, até a estranha escolha de salpicar os heróis por várias Terras diferentes. Claro que tudo dependeria do sucesso das séries, mas isso foi alcançado muito rapidamente e todas as bases necessárias para a formação da Crise passaram a existir mais fortemente, especialmente depois de Elseworlds, em 2018.

O que eu não consigo comprar é mesmo a execução da coisa toda. Com tantos anos de preparação e tanto espaço para trabalhar uma narrativa dessa magnitude, era de se esperar algo coeso, lógico e divertido para além dos meros fan services que, claro, existem – e deveriam existir mesmo – aos borbotões, mas que não deveriam ser a mola mestra de tudo. De toda maneira, há que se parabenizar os showrunners por efetivamente conseguirem capturar a essência da HQ que deu base ao crossover e colocar tudo na telinha, mesmo que de forma cambaleante. O multiverso que foi originalmente criado recebeu uma enorme sacudida que altera o status quo de todas as séries, digamos, originais da CW: Arrow (que acaba agora, mas ao que tudo indica será substituída por uma que tem a filha do protagonista como a nova Arqueira Verde), The Flash, Supergirl, Legends of Tomorrrow, Black Lightning, Batwoman e, em breve, Superman & Lois, agora, ocorrem em uma mesma terra, a Terra Prime. Por outro lado, as demais séries da DC fora estritamente da CW, ou seja, a excelente Patrulha do Destino, a fraca Titãs, a finada Monstro do Pântano (e se isso significar a potencial volta da série, tanto melhor!) e as vindouras Stargirl e Lanterna Verde ficam cada uma em sua própria Terra, mesmo que a lógica interna para a criação desse outro multiverso não fique nem um pouco clara para além de uma escolha editorial desconectada com os eventos da Crise.

Além disso, a criação de uma “Liga da Justiça” baseada nos Superamigos – com direito a Salão da Justiça e Gleek fujão – foi um toque nostálgico genial e tecnicamente muito útil, pois potencialmente permitirá uma conexão maior entre as séries da CW sem a necessidade específica de mega-crossovers. Esse é o tipo de fan service orgânico, que realmente funciona como homenagem justa a Oliver Queen, o “fundador” do Arrowverse, e como um novo ponto de partida para uma miríade de possibilidades narrativas. Claro que tenho desconfianças enormes sobre o efetivo aproveitamento do conceito pela produtora, mas eu prefiro imaginar um horizonte positivo mesmo tendo que conceber a existência de uma série inteira protagonizada por Katherine McNamara…

Abordando especificamente o episódio que encerra o crossover e que é um capítulo “especial” de Legends of Tomorrow, tecnicamente um prelúdio da vindoura 5ª temporada (daí minha numeração extraoficial 5X00) da série, devo dizer que ele não desaponta como o anterior, mas também não consegue alcançar o nível das Partes Dois (sem dúvida a melhor) e Três (apenas legalzinha). O roteiro, que mantém a pegada cômica que caracteriza LoT, não perde tempo em apresentar a Terra Prime, deixando claro logo de início a fusão de universos resultado do segundo sacrifício de Oliver Queen. São sequências didáticas, com direito a uma ponta de Marv Wolfman, co-roteirista da Parte Quatro e, mais importante do que isso, pai da Crise dos quadrinhos e o Caçador de Marte passeando pelas telas para transferir suas memórias para todos aqueles que não lutaram na pedreira do começo do tempo. Cumprida essa tarefa, que passa pelo enfrentamento de dois vilões mequetrefes, o prato principal é servido: o Anti-Monitor, para surpresa de absolutamente ninguém (e, justiça seja feita, muito na linha dos quadrinhos), está vivinho da silva e com seus dementadores raquíticos a tira-colo. Segue pancadaria genérica cheia de raios (e tiros e chutes!), o agigantamento do vilão na linha dos tokusatsu (e com a mesma qualidade técnica…) e pronto, o bandidão é enviado para o Microverso em uma daquelas soluções tiradas da cartola e executada em 10 segundos.

Vocês sabem o que escreverei agora, então perdoem-me a repetição: desperdício de uma boa ideia. Esse epílogo é completamente redundante no aspecto da ameaça mor e poderia ter ficado apenas na apresentação do novo status quo. O reaparecimento do Anti-Monitor é tão mal executado e abordado como se ele fosse mais um vilão da semana que era preferível que o momento “luzinhas estroboscópicas” do embate entre ele e Oliver-Espectro no episódio anterior tivesse significado o fim efetivo da criatura. Teria mais peso assim, mesmo considerando que a luta anterior não teve peso algum. Mas não. Preferiram finalmente reunir os heróis no que até poderia ser uma luta divertida somente para o vilão ser derrotado com um arremesso de um gadget aleatório pela Supergirl.

Só para o leitor ter uma ideia, as sequências de introdução da Terra Prime casadas com as de apresentação das outra Terras e as da  fundação da “Liga da Justiça” poderiam, sozinhas, resultar em um episódio do nível da Parte Dois. Mas, como uma luta era necessária na cabeça dos showrunners, o resultado final é tragado para baixo e apequenado por cacoetes narrativos que simplesmente não precisavam existir aqui. Transformar o Anti-Monitor em “mais um vilão” e, ainda por cima, com tomadas absolutamente patéticas como aquela da Supergirl indo “com raiva” para cima do sujeito – sério, um estudante de cinema de primeiro ano faria melhor com 1/10 do orçamento e com uma atriz ainda pior – é revoltante e um sintoma de um problema muito maior que já cansei de sinalizar ao longo de minhas críticas de Arrow: o pouquíssimo apreço pela qualidade técnica nessa séries só porque o público gosta de ver seus heroizinhos fantasiados a qualquer custo. Mas sei que reclamar é como dar murro em ponta de prego… Agora só nos resta aguardar o próximo crossover e torcer em vão para que ele seja melhor.

P.s.: Deixa eu sonhar que a manutenção explícita da Terra-96 com o Superman grisalho de Brandon Routh significa que teremos uma série dele, ok?

P.s. 2: Quero ver os Super Gêmeos (e Gleek) para já!

P.s. 3: Se é para chutar o pau da barraca, o próximo crossover precisa ser O Relógio do Juízo Final

Legends of Tomorrow – 5X00: Crisis on Infinite Earths, Parte Cinco (EUA, 14 de janeiro de 2020)
Direção: Gregory Smith
Roteiro: Keto Shimizu, Ubah Mohamed
Elenco: Grant Gustin, Caity Lotz, Melissa Benoist, David Harewood, Jon Cryer, Osric Chau, LaMonica Garrett, Tom Cavanagh, Brandon Routh, Cress Williams, Tyler Hoechlin, Dominic Purcell
Duração: 42 min.

Crítica | Arrow – 8X08: Crisis on Infinite Earths, Parte Quatro

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Depois de um desnecessário hiato em seu ambicioso crossover, a CW volta para Crise nas Infinitas Terras com um episódio que por diversas vezes arrisca ser um pouquinho mais do que apenas medíocre, mas jamais consegue realizar seu verdadeiro potencial. Sim, tenho plena consciência que, para muitos fãs, basta o chamado fan service a todo custo e não há nada de intrinsecamente errado nisso se algum senso crítico for mantido, aquele alarme que, pelo menos bem lá no fundo, avise-o de que está vendo algo pálido como o Espectro.

Porque é bem isso que essa quarta parte da tão alardeada Crise é: uma colagem que tenta dar algum sentido ao anunciado sacrifício de Oliver Queen, levando os heróis à supostamente grandiosa batalha final contra o Anti-Monitor. O problema é que as séries do Arrowverse não sabem muito bem o sentido da palavra drama e os roteiros descambam dolorosamente para um pieguice sem fim em que sentimentos nunca são efetivamente vistos, mas sim explicados e verbalizados não uma, não duas, mas diversas vezes ao longo dos breves 40 e poucos minutos de duração de seus episódios. É como se a câmera parasse diante de um narrador que, olhando para o espectador, diz algo como “agora é o momento de ficar triste pela morte desse personagem” ou “essa é a sequência que revela todo o heroísmo desse outro personagem, portanto, aplauda e abra um sorriso” e assim por diante, como se o espectador não tivesse capacidade de processar o que está acontecendo.

Vejam a transformação de Oliver no Espectro. Ela simplesmente acontece depois que um completamente aleatório Jim Corrigan (Stephen Lobo) faz seu vudu lá em Purgatório, empalidecendo o Arqueiro, alterando sua voz (oba!) e emprestando-lhe um manto. Zero de drama. Zero de lógica interna. Mas, como se isso não bastasse, Oliver-Espectro já nasce pronto e 100% no comando de seus novos poderes, e, como um passe de mágica, resgata os Paragons lá do meio do nada com coisa nenhuma e os coloca em uma busca aleatória que só serve para passear pelos recônditos nostálgicos das variadas séries desse multiverso dentro da Força da Aceleração, o que, ironicamente, desacelera o episódio e o transforma em uma sucessão cansativa de diálogos modorrentos e olhares perdidos especialmente de Barry, Kara e Sara.

Em seguida, vejam a batalha do Espectro contra o Anti-Monitor e dos demais heróis contra os dementadores magricelas que morrem com socos e chutes. Não só o que acontece nos dois embates é completamente aleatório do tipo “raio sai dos olhos do personagem” e “todos se juntam para um olhar mortal depois que alguém pega uma página do livro do Monitor”, como não é possível perceber uma gota sequer de perigo ou de urgência. Claro que eu sei que esse tipo de sensação é complicado de se obter em séries e filmes de super-heróis, pois esse pessoal colorido tende a nunca morrer e, quando morrem, logo voltam à vida, mas um bom roteiro e uma direção minimamente consistente conseguem circunavegar o problema e entregar algo no mínimo excitante.

Mas não. O que vemos é um monte de personagem fantasiado em uma pedreira fazendo coreografias tão inspiradas quanto a segunda morte de Oliver Queen. Eu já disse isso uma vez e repetirei aqui: até mesmo eu, que nunca consegui gostar de Arrow, acho que o protagonista da primeira série de super-heróis da CW merecia um destino mais marcante do que esse. Ah, ok, ele “salvou o multiverso” e “criou a Terra Prime” e isso é mais do que o suficiente para justificar o foguinho lá no final do episódio seguinte (sim, estou me adiantando!), mas meu ponto não é esse e sim o sentimento que temos no momento da morte. Se conseguirmos nos afastar um momento de nosso lado fanboy, notaremos com muita clareza que não há qualquer traço de drama ali e sim, apenas, um péssimo ator se fingindo de morto com base em um roteiro escrito na base de emojis e pontos de exclamação.

Não é que a quarta parte da Crise seja tão imprestável quanto o tenebroso primeiro capítulo, mas ela não consegue nem chegar perto da excelente Parte Dois ou mesmo continuar no elã da razoável Parte Três. A solução dada para Oliver não só parece preguiçosa, como tudo o que acontece para encerrar – para fins do episódio – toda a crise, aí incluído o flashback para Mar Novu fazendo besteira ao tentar viajar para o começo dos tempos, parece simplista e barato, algo jogado de qualquer jeito nas telas sem um encadeamento lógico que sustente a narrativa. É ao mesmo tempo levemente divertido pela própria bobagem da coisa toda e tremendamente frustrante por mostrar em breves sequências, como os bons momentos cômicos com Lex Luthor (e olha que eu não suporto essa versão do vilão de Jon Cryer), tudo o que o crossover poderia ter sido.

P.s. Para que serviu mesmo o personagem de Osric Chau?

Arrow – 8X08: Crisis on Infinite Earths, Parte Quatro (EUA, 14 de janeiro de 2020)
Showrunners: Marc Guggenheim, Beth Schwartz
Direção: Glen Winter
Roteiro: Marv Wolfman, Marc Guggenheim
Elenco: Stephen Amell, Grant Gustin, Caity Lotz, Melissa Benoist, David Harewood, Jon Cryer, Osric Chau, LaMonica Garrett
Duração: 42 min.