Oscar 2020

Crítica | Corpus Christi (2019)

Perdoar não é esquecer.

Inspirado em fatos reais, o filme franco-polonês candidato ao Oscar 2020 a Melhor Filme Internacional representando a Polônia é um grande exemplo de narrativa simples, de estrutura até clichê, mas que é tão bem contada e atuada que a obra facilmente se sobressai dentro de sua proposta espiritual que desafia as convenções básicas de que o mal nunca pode converter-se no bem. Corpus Christi, terceiro longa de ficção de Jan Komasa, pede que o espectador deixe-se hipnotizar pelo jovem Daniel, vivido magnificamente por Bartosz Bielenia, e encare o desafio de deixar preconceitos de lado para literalmente passar a compreender que o mundo não é tão preto e branco quanto por vezes parece.

Com cativantes olhos claros e uma capacidade ímpar de passar emoções apenas por meio da intensidade de seu olhar, Bielenia é o centro das atenções da câmera de Komasa que, com a belíssima fotografia enevoada e esverdeada de Piotr Sobocinski Jr., conta a história do devoto detento Daniel que, saindo da prisão, acaba, por uma série de coincidências, assumindo o papel de padre de uma paróquia em um pequeno vilarejo polonês e passando a atuar de maneira pouco ortodoxa para fazer o que acha certo. Em muitos sentidos, já vimos essa obra antes, seja recentemente em Fé Corrompida, seja na imortal obra de Victor Hugo, Os Miseráveis, e a trajetória de Jean Valjean, seja até mesmo na comédia Não Somos Anjos, somente para citar alguns.

No centro do drama, há, claro, a busca de Daniel por redenção por caminhos tortuosos, fingindo ser quem não é, mas, nesse processo, entendendo que talvez sua jornada seja aquela determinada por Deus como sua saída do submundo em que parece ter vivido a vida toda. Na cidadezinha onde ele passa a morar, a população local não demora a conectar-se com sua jovialidade e sua maneira diferente de de pregar, relaxado e fazendo picadinho dos rígidos dogmas cristãos. Mas há um grande pecado ali: um homem, considerado o culpado pela morte de diversos jovens locais, permanece sem o direito de ser enterrado em solo sagrado pela revolta dos pais e mães locais. Vendo no morto um reflexo dele mesmo, Daniel passa a enfrentar a cidade toda para corrigir esse erro e o conflito entre o bem e o mal ganha contornos que vão além do próprio protagonista.

A coloração esverdeada, mas jamais sombria, que a fotografia imprime na película parece ter o papel de passar a impressão de que estamos em um lugar doente, mas que luta para se recuperar de alguma maneira, com Daniel passando a ser o guia espiritual para a redenção coletiva, mesmo que ele mesmo não tenha se redimindo ainda, o que acaba confundindo e reunindo todas as questões. O roteiro é muito bem costurado e sabe usar o silêncio com a mesma força que seus breves diálogos, e Komasa, sendo muito econômico na trilha sonora, potencializa os momentos contemplativos, fazendo o espectador ver, no reflexo dos olhos de Daniel, um pouco de si mesmo.

Apesar do cadenciamento perfeito da iluminação de Daniel e do desenvolvimento da narrativa substancialmente linear, tenho problemas com a resolução da história, que parece forçar acontecimentos e acelerar um desfecho que, mesmo mantendo a lógica que põe o protagonista em constante – e provavelmente insolúvel – conflito interno, acaba criando muito mais um epílogo do que um final propriamente. É como se o final não tivesse agradado o roteirista Mateusz Pacewicz ou como se Jan Komasa não tivesse sabido costurá-lo à narrativa, exigindo mais um passo que parece descolado do todo.

Corpus Christi efetivamente revela o ainda jovem diretor polonês para o mundo e, mais do que isso, coloca Bartosz Bielenia na direção correta para seu desabrochar como ator. Desafiando o espectador, ainda que falhando em seu final, a quase fantasmagórica obra de despertar espiritual captura o coração e a mente, relativizando questões que muitos insistem em abordar de maneira binária.

Corpus Christi (Boze Cialo, Polônia – 2019)
Direção: Jan Komasa
Roteiro: Mateusz Pacewicz
Elenco: Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel, Tomasz Zietek, Barbara Kurzaj Barbara Kurzaj, Leszek Lichota, Zdzislaw Wardejn, Lukasz Simlat, Anna Biernacik, Lidia Bogacz Lidia Bogacz, Malwina Brych, Bogdan Brzyski, Juliusz Chrzastowski, Radoslaw Ciucias, Mateusz Czwartosz
Duração: 115 min.

Crítica | Curtas do Oscar 2020: Animação

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Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Animação em Curta Metragem em 2020 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia, com as traduções em português ao lado quando existirem). Os textos desse compilado são de Davi Lima e Iann Jeliel.

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Kitbull 

EUA, 2019

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por  Davi Lima

As produções da Pixar em geral têm suas obras pautadas em emocionalismo, o que não é um ponto negativo quando se faz boas histórias que comovem. Com o curta animado Kitbull não é diferente.

A oportunidade que o projeto SparkShorts deu para estagiários da Pixar permitiu que uma modelagem 2D dos animais com um cenário praticamente estático, colorizado e com pouca textura tivesse pulsão emotiva bem representativa do estúdio. Circunstâncias adversas e diferenças biológicas entre um cachorro e um gato são a ponte para a formação de uma amizade e encontro com uma vida melhor para os caracterizados animais domésticos aqui.

Em geral, o gatinho preto é acostumado a viver na rua, tem seu canto escondido, embora frágil, como sua caixa de papelão aponta. A personalidade dele é forte o suficiente para encarar um cachorro. Quando chega um para viver perto de sua moradia, há uma interação de casualidades. Com uma edição de som muito viva, assim como a trilha, os momentos se tornam críveis, mesmo com o 2D explícito. Assim, de maneira natural, os dois rivalizam por instinto, porém com atitudes lúdicas diante das circunstâncias em que se encontram. O cachorro permanece preso na coleira e o gato livre no seu lixo.

Diante desse cenário, o que pode usurpar esse naturalismo captado no curta, ou elevar a qualidade da experiência, é a influência proposital do ser humano na narrativa. O maltrato marcado no corpo do cachorro determina um momento dramático importante que influencia tanto a aproximação final do gatinho quanto a conclusão esperançosa do curta.

Direção: Rosana Sullivan
Roteiro: Rosana Sullivan
Duração: 9 min.

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Memorable (Mémorable)

França, 2019

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por Davi Lima

Para muitas obras artísticas, a máxima é não ser óbvio de maneira alguma. Mas ser compreensível em sua inteligência de abordar o tema com um personagem é essencial. Em um curta de animação, em que a habilidade artística do protagonista representa o auge e a sua grande depressão, nada mais justo que usar a pintura como a própria forma de expressão na obra.

O uso de papel machê, pintado no estilo pós-impressionista de Van Gogh, é mais que uma percepção, é quase metalinguístico dentro do universo criado na mente de um protagonista idoso e pintor, ou um pintor idoso. O não se reconhecer no espelho do personagem parte desse princípio de comentário, em que o divã oficial não é o médico, esse já virou conceito surrealista em deformação representativa de imagem. O divã é a esposa.

Ela é que exercita o que resta, e não se deforma ou muda suas cores, até nisso há uma diferença em como a memória pincelada se mostra. Por aí que o amor do curta se mostra. O que é “desprezível”, até mesmo nas falas de anos retrógrados, são os objetos tecnológicos. A preciosidade é o que ainda pode ser pintado.

E logo esse amor conjunto, pintura e esposa se juntam em ação e imagem. O pintor pinta agora com o dedo e a esposa tem seus traços mais meticulosos que só um esposo pode perceber, mesmo na perda da memória. Só que não é qualquer memória que se degenera, é a de um pintor.

Direção: Bruno Collet
Roteiro: Bruno Collet
Elenco: Dominic Reymond, André Wilms
Duração: 12 min.

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Sister (妹妹)

China, 2018

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por Davi Lima

Como vários curtas-metragens, qualquer intenção emocional tem que ser passada com voracidade devido ao tamanho da produção, apesar que a diversidade artística permite tudo do mais variado, em que a emoção ou a relação sentimental pode surgir após uma reflexão pessoal ou política.

Aqui, nesse curta chinês, encontra-se uma carga de mutação muito significativa dentro da linguagem de stop motion, para que a perda da presença depois seja muito sentida visualmente. De maneira bem simples, a narração parece ter um tom imutável: apenas os bonecos feitos de feltro que constantemente parecem permissíveis em agregar a um contexto de uma foto ou uma imaginação surrealista. Estão sempre em mudança, seja em proporção de tamanho ou em atividades comuns dentro de uma casa.

Então, por essa relação visual tão cristalizada com o meio é que a perda tratada na história não é só sentida pela perspectiva do aborto ou por uma questão cultural – que com certeza influencia até na escolha do curta no Oscar -, existe também dentro da escolha do preto e branco a busca por remeter ao antigo e ao conflito presencial, captado pelo som e pelos movimentos como são do stop motion, a perda mais física na escolha da animação.

Dessa maneira, o objetivo emocional e catártico, junto à voz monotônica, prevalece de forma bem efetiva. A irmã é retratada na narração com tanta realidade pelo irmão que o conflito com a imagem imaginária alavanca ainda mais a descoberta do que realmente significa a proposta emocional da diretora Siqi Song.

Direção: Siqi Song
Roteiro: Siqi Song
Elenco: Bingyang Liu
Duração: 8 min.

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Daughter (Dcera) 

República Tcheca, 2019

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Iann Jeliel

O conflito de ego acumulado é uma maldição que só pode ser quebrada no rito de passagem para uma nova vida. A premissa do curta parte de uma filha tentando se reconectar com o pai que se vê à beira da morte, recuperando memórias, boas e ruins, sobre sua convivência passada. A grande proeza é em como a execução é habilidosa e didática sem parecer óbvia nas idas e vindas dos flashbacks, para especificar o porquê da relação dos dois ser conturbada e principalmente por que tem que ser reconquistada.

Nesse contexto, a montagem aliada à fotografia intercala o dinamismo de acontecimentos em constante desconforto, fechando muito os planos na teoria pela busca de extrair a maior quantidade de sentimentos possível dos personagens, mas quando esses são os bonecos stop motion deformados, o desafio emocional transita no campo surrealista para amplificar a fragilidade daqueles rostos naturalmente pesados diante do acúmulo dramático. Na falta de falas, a própria técnica se comunica, seja através dos sons ou imagens, a ambientação molda a animação conforme a construção dos dois pólos sentimentais mencionados, aliando-os meticulosamente na lírica dos momentos-chave.

A experiência animada predominante é plenamente sensorial e subjetiva, mas estabelece seu vínculo com o público, como todo bom curta, na correlação com sua temática principal de forma realista. Seja um pai, filha, amigo, todos nós temos desentendimentos com alguém importante que pesam quando possivelmente essa pessoa irá deixar o campo físico. Buscamos no fim, e muitas vezes nem dá tempo, uma forma de nos redimirmos com elas para dar o abraço final. Assim, surge a figura do pássaro, no melhor semblante de paz possível, saindo de um mero observador dessa relação e partindo a fazer parte dela, é o contato que os dois nunca tiveram e que a gente não tinha até então com o curta. No belíssimo final, as luzes se acendem no foco e desfoco, e o pássaro encontra o voo para novos horizontes.

Direção: Daria Kashcheeva
Roteiro: Daria Kashcheeva
Duração: 15 min.

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Hair Love

EUA, 2019

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por Iann Jeliel

Possivelmente a vencedora da categoria no Oscar, por trazer à tona uma temática pouco falada, mas de ampla representatividade e importância, a lírica ultrarrelacionável e “fofa” de uma animação com grande alcance distributivo e que possivelmente irá alcançar mais pessoas depois de ser premiada. O mais bacana é que em uma primeira camada, Hair, Love é sobre a desconstrução de uma opressão histórica específica, de que as negras não têm cabelo “ruim”, mas no fundo, no fundo, é uma carta de incentivo ao amor próprio, que deve ser criado desde cedo pelos olhares infantis e principalmente compreendido por suas figuras paternas, para que um novo ciclo de desconstrução identitária não se forme, e a partir da atual, já seja possível se desvincular totalmente desses estereótipos.

Desse modo, o curta atinge um ponto de vista muito mais amplo e universal de uma problemática simples, mas extremamente realista e particular. Diante do mal do século, a iniciativa publicitária da Sony é fantástica e recheada de bom coração, mas como lírica, acaba limitando e tornando a articulação do tema um tanto superficial. As ilustrações mais exageradas, como a do pai lutando boxe contra um cabelo indestrutível, ou os ensinamentos via internet, buscam criar um clima de divertimento que soa muito bobinho, mesmo com a intenção do didatismo e linguagem mais reconhecível com todas as idades, é pouco sutil e poderia ser preenchido com facetas menos manipulativas.

É um curta para fazer chorar, e isso fica bem claro em todo o visual colorido, e é bom que faça mesmo, as lágrimas da representatividade em tela são lindas de se ver. Contudo, a temática fala mais alto que sua execução animada de modo arbitrário, mesmo com as diversas camadas do problema expostas, elas só ficam no primeiro comentário. Que bom e tomara que ele seja suficiente para todo o início de uma mudança social.

Direção: Bruce W. Smith, Matthew A. Cherry, Everett Downing Jr.
Roteiro: Matthew A. Cherry
Elenco: Issae Rae
Duração: 7 min.

Crítica | A Sister (Une Soeur)

plano crítico crítica A Sister (Une Soeur) oscar 2020

Em seu terceiro curta, a diretora e atriz francesa Delphine Girard tenta abordar uma tensa situação de violência e sequestro usando, apenas, uma ligação telefônica entre a vítima e uma operadora da polícia encoberta como uma ligação da vítima para sua “irmã” para falar de sua filha, já que o criminoso está ao seu lado no carro. É sem dúvida uma premissa interessante — embora não exatamente original –, mas que Girard executa como um pedaço de uma história.

Não é que não haja um começo (ou quase), meio e fim no curta, ou que Girard não saiba criar tensão na conversa entre Alie (Selma Alaoui), a vítima, e a operadora (Veerle Baetens), mas esse deveria ser o artifício que impulsiona a narrativa e não toda a narrativa. No entanto, aqui, uma coisa se confunde com a outra e, mais do que isso, a premissa se torna tudo o que a diretora tem a apresentar. 

É sem dúvida interessante como a fotografia escurecida e desfocada no lado de Alie evita mostrar rostos ou mesmo a estrada em detalhes, mantendo o espectador razoavelmente desorientado, emulando, com isso, os sentimentos da vítima. E é também interessante como, na outra ponta, a da operadora, as imagens são claras e seu rosto tenso, mas frio, é sempre mantido em foco e tomando quase toda a lente. O problema é que A Sister fica parecendo um experimento, um fragmento de uma ideia bacana que não ganha nenhum desenvolvimento para além da estrutura narrativa em si.

E, muito em razão disso, por mais que o espectador consiga conectar-se com a situação de tensão e, em razão dela, também com a vítima e a operadora, Girard não consegue ir além e tornar as personagens interessantes por elas mesmas. Não há sequer um semblante de arco narrativo, aliás, pois a técnica audiovisual da diretora é um fim em si mesma. 

A Sister é um filme de “treinamento” para Girard, como um TCC, mal comparando. E o resultado é que ela passou raspando.

A Sister (Une Soeur) — Bélgica, 2018
Direção: Delphine Girard
Roteiro: Delphine Girard
Elenco: Veerle Baetens, Selma Alaoui, Guillaume Duhesme
Duração: 16 min.

Crítica | Brotherhood (2018)

Julgar as pessoas pelas aparências é algo que fazemos todos os dias. Sim, todos nós fazemos e sim, todos os dias. Pode ser inconsciente, pode ser sem querer, pode ser de brincadeira, mas nossa capacidade de rotular pessoas como isso ou aquilo é um fato difícil de combater com efetividade. E não quero dizer aqui somente os preconceitos mais nefastos relacionados com raça, religião ou sexo, mas sim todo tipo, desde banalidades como o tipo de roupa que a pessoa usa, até a existência de tatuagens, piercings, forma de se locomover e assim por diante.

A cineasta Meryam Joobeur, em seu quarto curta (terceiro dirigindo sozinha), aborda esse pré-julgamento dentro do contexto dos conflitos armados na Síria e do surgimento de grupos extremistas islâmicos, notadamente o ISIS, mas sem localizar sua obra geograficamente no seio da questão. Muito diferente disso, a ação se passa na Tunísia, com o jovem Malek (Malek Mechergui), depois de longa ausência de casa, retornando ao lar com uma jovem de 13 anos grávida dele e que usa um niqāb completo, inclusive com luvas.

Seus dois irmãos mais novos e sua mãe recebem Malek com alegria e alívio, imediatamente fazendo-o sentir-se em casa, mesmo considerando a “estranha” silenciosamente presente. No entanto, Mohamed (Mohamed Grayaâ), o patriarca, tem uma postura imediatamente fria e distante, imediatamente acusando seu filho mais velho de abandonar a família ao deus dará, sem pensar duas vezes, para integrar-se ao Estado Islâmico na Síria. Mas o ponto focal do desconforto do pai é a presença da moça grávida com o corpo completamente escondido pela vestimenta (uma prisão!) preta, levando-o a tomar uma decisão sobre o que fazer sobre a situação mesmo que isso signifique o impensável.

O roteiro de Joobeur propositalmente vai ao extremo. Ela não está preocupada em abordar a questão de maneira nuançada e arrisca tornar sua obra simplesmente maniqueísta e sentimental, como um novelão em 25 minutos. Mas a roteirista e diretora demonstra saber exatamente como podar seu texto para deixá-lo enxuto e direto, seguindo uma lógica irrefutável que reúne o pior do sentimento humano, ao mesmo tempo que permite que o espectador se compadeça pelo profundamente pelo pai que, basicamente, nos representa, ou seja, nós, os preconceituosos que mencionei no parágrafo de abertura. Ao trabalhar a tensão de “árabe para árabe”, Joobeur parece manter o assunto próximo de seu peito, mas a grande verdade é que a discussão que ela propõe é absolutamente universal e vai muito além do que está lá em frente à câmera.

Aliás, o que está em frente à câmera é lindíssimo, com um lirismo maravilhoso oriundo de um trabalho de câmera impecável que sabe quando trabalhar planos-detalhe em oposição a tomadas gerais, além de manipular de forma precisa a profundidade de campo. Ela faz um poema audiovisual que se apoia muito mais em imagens do que em palavras, com o pequeno grupo de atores – os irmãos do filme são também irmãos na vida real -, especialmente Grayaâ, transmitindo sentimentos sem aparentemente qualquer esforço. O único porém fica por conta da elipse final que faz uso de uma montagem paralela que não funciona em sua plenitude, quebrando a fluidez narrativa e manchando apenas um pouco o resultado final que, porém, permanece firme e forte.

Brotherhood – a Irmandade do título é a de sangue e também a sanguinária – nos leva por um caminho terrível, mas esperado, que, porém, exige que paremos por um tempo para pensar nas consequências e entender os reflexos disso em nosso cotidiano. Talvez o preconceito “por reflexo” seja um mal tão profundamente embrenhado na sociedade que nem consigamos mais reconhecê-lo. E é aí que o problema realmente aparece.

Brotherhood (Ikhwène, Tunísia/Canadá/Catar/Suécia – 2018)
Direção: Meryam Joobeur
Roteiro: Meryam Joobeur
Elenco: Kais Ayari, Mohamed Grayaâ, Mouldi Kriden, Jasmin Lazid, Walid Loued, Alaeddine Mandhouj, Chaker Mechergui, Malek Mechergui, Rayene Mechergui, Salha Nasraoui
Duração: 25 min.

Crítica | Nefta Football Club

No cartaz de Nefta Football Club, a frase de efeito para chamar atenção do público é: “dois irmãos encontram um burro usando fones de ouvido no deserto”. E fica a impressão que o diretor francês Yves Piat, em seu segundo curta, seguindo Tempus Fugit, de 2001, primeiro imaginou justamente essa situação e, depois, escreveu um roteiro ao redor. Ou isso ou, pior ainda, ele teve a ideia para a cena final – que não abordarei aqui para não dar spoiler – e, então, criou quase 17 minutos de história para chegar até ela.

E não haveria problema algum se fosse algo assim se Nefta Football Club oferecesse mesmo que marginalmente mais do que dois irmãos tunisianos encontrando um burro com fones de ouvido na fronteira entre seu país e a Argélia. Porque sim, a situação em si é inusitada e razoavelmente divertida – especialmente quando o dono do burro, desesperado atrás do animal, explica o porquê de ele estar com fones de ouvido -, mas… é tudo o que posso dizer de realmente positivo sobre o curta. Ah, claro, as duas crianças são simpáticas e tal, mas não há tempo ou vontade do texto para criar uma conexão maior com elas e a dupla que procura o burro é literalmente esquecida depois que a interação de natureza musical acaba.

Não que o curta não seja agradável ou que não valha a pena assistir os rápidos 17 minutos, mas é que, mesmo considerando o tom cômico que Piat tenta imprimir, a obra não consegue nem ser exatamente uma comédia ou um drama, ficando em um limbo entre uma coisa e outra sem qualquer tentativa de se trazer um subtexto que faça a experiência ganhar mais camadas. É, mal comparando, como um esquete do Saturday Night Live em um dia particularmente pouco inspirado, que possivelmente levará a sorrisos, mas não a risos e que será esquecido tão logo os créditos começam a subir na tela.

Até mesmo a fotografia só faz o básico, com planos gerais que se aproveitam da bonita paisagem desértica da região, mas que param por aí, sem qualquer finesse técnico que a faça ir além do que mostra. É, muito sinceramente, a definição de platitude audiovisual.

Nefta Football Club, portanto, ganha pontos pela premissa, mas perde quase tudo em sua execução trivial demais que desperdiça o potencial cômico e possíveis comentários sócio-econômicos aqui e ali além do óbvio ululante. Uma pena.

Nefta Football Club (França, Tunísia, Argélia – 2018)
Direção: Yves Piat
Roteiro: Yves Piat
Elenco: Eltayef Dhaoui, Mohamed Ali Ayari, Lyès Salem, Hichem Mesbah
Duração: 17 min.

Crítica | For Sama

Passado proeminentemente em um hospital improvisado durante o cerco de Aleppo pelas tropas do regime de Bashar Al-Assad, as comparações de For Sama com The Cave, documentário que também concorre ao Oscar 2020 nessa categoria, é inevitável. Em essência, temos duas obras com a mesma mensagem e compostas de imagens obtidas no fronte por quem vive na região e em um mesmo tipo de local, diferenciando-se apenas pela estrutura narrativa e pela abordagem estilística.

For Sama é montado como um diário da jornalista síria Waad Al-Kateab para sua filha Sama, nascida durante a guerra civil por que passa seu país, com uma pegada não completamente linear que nos leva do presente da fita – o ano de 2016 – para o início da tentativa da população, pegando carona na Primavera Árabe, de derrubar a ditadura da linhagem de Assad. Além disso, Waad e seu co-diretor Edward Watts, não economizam na inserção de filmagens extremamente gráficas, talvez a principal diferença em relação a The Cave, que tenta ser mais sutil. Apesar de nenhum documentário sobre essa guerra ser exatamente fácil de assistir, For Sama é particularmente difícil pela forma gráfica em que as mortes são efetivamente encaradas, sem filtros e sem nenhuma tentativa de atenuar seus impactos.

As idas e vindas temporais – a cada vez que voltamos para 2016, o documentário avança um mês no cerco de Aleppo – são muito bem-vindas e muito bem trabalhadas como forma de se contextualizar a história sendo contada, até porque, como o título deixa claro, trata-se de uma forma de Waad e de seu marido, o médico Hamza, diretor do mencionado hospital improvisado, de “conversar” com a Sama do futuro e de justificar suas escolhas pessoais de não abandonar a cidade e de manter a menina sempre junto com eles. Se pessoalmente é possível que o espectador tenha dúvidas da prudência de se fazer o que o casal fez com Sama, expondo-a aos bombardeios aéreos diários ao local tanto com mísseis comuns quanto com bombas “sujas” enquanto havia alternativas a isso que eles propositalmente não exerceram, sob o ponto-de-vista puramente narrativo – o que exige uma certa frieza de análise, não tenham dúvida – é a presença constante da bebezinha e seu futuro incerto que dão o recheio de tensão e medo que diferencia esse documentário de outros sobre a mesma temática.

Há, também, a riqueza das imagens capturadas por Waad. Ela não tem o gabarito técnico para oferecer material que não seja a “filmagem tremida de câmera na mão”, mas isso não é empecilho algum para que seu vasto material – foram mais de 400 horas desde 2011 – não resulte em uma obra que entrega uma panorama ao mesmo tempo macro e micro da história dessa terrível e criminosa guerra civil que assola o país, com um desenvolvimento digno de filme de suspense (de terror, na verdade) que a filmagem em estilo de guerrilha só amplifica. E é refrescante ver a preocupação em voltar no tempo diversas vezes para enfocar no sentimento de revolta crescente da população jovem local iniciando um movimento cheio de esperanças, somente para ver tudo desabar na medida em que os anos passam. Triste, sem dúvida, mas essa rica contextualização é muito interessante, ainda que por algumas vezes o sentimentalismo que descamba para “ah, minha casinha” e “minhas plantinhas morreram” seja um pouco demais dentro do esquema geral do que já fica sobejamente claro.

Teria sido talvez mais interessante trabalhar ainda mais com as sequências brutais do passado, com elipses menores para a crescente destruição da cidade. Há um vazio temporal razoavelmente grande que fica sem preenchimento com imagens sem razão aparente que não seja escolha dos diretores, talvez mais interessados em focar o presente da fita. No entanto, esses possíveis enxertos, que certamente alongariam o documentário – que é razoavelmente curto e, portanto, poderia se dar ao luxo de ganhar extensões – teriam o condão de criar transições mais suaves entre a Aleppo do começo da revolta e a Aleppo de 2016, basicamente terra arrasada.

Mesmo sem isso, porém, For Sama é um retrato poderoso da crueldade de uma guerra que faz vítimas indiscriminadamente e usando os mais sujos expedientes e de um povo que não se acovarda diante de um prognóstico sombrio sobre suas chances de sobrevivência. Não é somente uma lição para Sama e sim para todos nós, mesmo tão distante de um conflito dessas dimensões.

For Sama (Reino Unido, Síria – 2019)
Direção: Waad Al-Kateab, Edward Watts
Com: Waad Al-Kateab, Hamza Al-Kateab, Sama Al-Kateab
Duração: 100 min.

Crítica | The Neighbors’ Window

Quantas vezes não paramos para observar e para cobiçar a vida alheia? E não digo que fazemos isso de caso pensado ou com algum traço de maldade ou inveja – pelo menos não na maioria das vezes, quero crer -, mas sim como parte natural de nosso dia-a-dia, seja olhando casualmente pela janela de casa, do transporte ou mesmo simplesmente vendo alguém do outro lado da rua ou em alguma praça ou parque. Muitas vezes olhamos e pensamos como aquela outra pessoa ou pessoas tem uma vida melhor que a nossa e como seria bacana se fosse possível trocar de lugar com ela/elas, seja em razão de idade, de dinheiro, de estilo de vida ou de qualquer outra razão.

Se não levada ao extremo, esse olhar vicariante é sadio, podendo refletir ambição, nostalgia, saudade e uma infinidade de outros sentimentos. “Ah, se eu fosse mais jovem”, lamentam os mais velhos e “se fosse mais velho, poderia fazer isso ou aquilo”, afirmam os mais novos. Esse raciocínio, inicialmente estruturado em volta de algo que lembra o clássico Janela Indiscreta, é o que move The Neighbor’s Window (em tradução livre e direta, “A Janela do Vizinho“), primeiro curta-metragem de ficção de Marshall Curry, mais conhecido como documentarista festejado responsável por Briga de RuaIf a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation FrontUma Noite no Madison Square Garden, todos indicados ao Oscar.

Em 20 minutos, Curry nos apresenta ao casal Alli (Maria Dizzia) e Jacob (Greg Keller), pais de duas crianças e esperando uma terceira que descobre que o casal que se mudou recentemente para o prédio em frente não se preocupa muito em fechar as cortinas quando transa ou faz qualquer outra coisa. Alli e Jacob são ainda jovens, mas o casal em frente é ainda mais jovem e, aparentemente, recém-casado, esbanjando energia e virilidade que a dupla de pais simplesmente não tem mais. O tempo passa – e Curry é particularmente eficiente em trabalhar elipses – e o casal indiscreto torna-se basicamente parte da vida de Alli e Jacob, que passam a ter até um binóculo para observar suas ações em maiores detalhes.

A história se desenrola de maneira rítmica, sempre mantendo os casais separados e firmando o ponto-de-vista único a partir dos olhos de Jacob e Alli, especialmente Alli. Claro que há um desenvolvimento narrativo que não abordarei aqui para manter a crítica sem spoilers, mas que serve de deflagrador da relativização completa da situação.

Tudo é feito de maneira muito elegante e a dupla principal de atores tem enorme naturalidade, sendo fácil criar empatia por eles. Curry, no entanto, exagera nas conveniências e no didatismo quando seu curta está para ser encerrado, não deixando absolutamente nada para o espectador concluir por conta própria. As imagens falam por si só, mas o vício de marinheiro de primeira viagem (em obras de ficção) provavelmente levou Curry a escrever um final que só falta ser desenhado em uma lousa. Não é mortal para o aproveitamento da lição do curta, mas é de revirar os olhos pela obviedade.

The Neighbor’s Window, mesmo sendo falho em sua finalização, revela que Curry tem excelente controle de sua câmera e sabe – até certo ponto, pelo menos – escrever apenas com imagens. A simplicidade da história ganha boa execução e a lição, mesmo esfregada na cara do espectador, é valiosa.

The Neighbors’s Window (EUA, 2019)
Direção: Marshall Curry
Roteiro: Marshall Curry
Elenco: Maria Dizzia, Greg Keller, Juliana Canfield, Bret Lada, Sadie Zamulinsky, Tanner Zamulinsky, India Earhart, Niko Perrin
Duração: 20 min.

Crítica | Walk Run Cha-Cha

A prolífica documentarista Laura Nix, responsável, dentre outros, por Inventing Tomorrow (2018) e The Yes Men Are Revolting (2014) pontuou 2019 com apenas um trabalho na direção e roteiro, o curta-metragem Walk Run Cha-Cha que, em 20 minutos, aborda um casal de meia-idade que imigrou do Vietnã para a Califórnia, nos EUA, e redescobriu-se na pista de dança. Diferente de outros trabalhos mais engajados, o objetivo de Nix, aqui, é abordar o amor que vence fronteiras e a paixão pela dança em uma pegada bonita e singela que, porém, não oferece muito mais do que apenas o que está na superfície.

Chipaul e Millie se conheceram ainda adolescentes em seu país natal, namorando por um curto período de tempo até que a família de Chipaul decidiu fugir do jugo comunista para ter algum futuro nos EUA. Millie, porém, ficou para trás, mas um nunca esqueceu do outro, com Chipaul, bem mais tarde, fazendo de tudo – e conseguindo – trazer seu amor seu país adotivo. Aprendemos isso por meio de entrevistas com a dupla cujas vozes são justapostas a imagens deles dançando ou sentando para fazer as entrevistas, mas de maneira dessincronizada para dar um charme à narrativa que é direta e sem firulas.

Há uma tentativa de se estabelecer uma elipse – ou talvez duas – que nos leva do primeiro encontrou dos dois até a reunificação e casamento nos EUA, mas Nix não é bem-sucedida em seu esforço, o que acaba quebrando a fluidez da proposta de seu roteiro. A simplicidade da história, que poderia ter ganhado contornos mais interessantes, talvez com imagens de época no Vietnã e uma contextualização histórica maior do que meras pinceladas aqui e ali por parte principalmente de Chipaul, acaba emprestando um caráter de conto-de-fadas que sem dúvida é capaz de trazer sorrisos aos rostos dos espectadores, mas não algo duradouro, que torne Walk Run Cha-Cha particularmente memorável.

Esteticamente, Nix trabalha primordialmente com câmeras paradas que se beneficiam do movimento dos dançarinos – tanto da dupla imigrante quanto de seus professores – e uma fotografia suave que reitera a abordagem fabulesca para essa história de amor. Mas, como a história sendo contada, não há nada particularmente especial também nesse quesito e tudo parece desaguar para a pièce de résistance, ou seja, um simpático, mas brevíssimo número de dança ao final ao som de The Carpenters. Bonito, sem dúvida, mas que não tem tanta força assim para marcar o espectador ou para efetivamente até justificar a história sendo contada.

Walk Run Cha-Cha é um pequeno lembrete de que pequenas coisas podem significar o mundo para muita gente. Uma mensagem inspiradora que sem dúvida tem o seu valor, mas que, porém, o documentário não sabe enriquecer para além de seu valor de face.

Walk Run Cha-Cha (Idem, EUA – 2019)
Direção: Laura Nix
Roteiro: Laura Nix
Com: Chipaul Cao, Millie Cao, Maksym Kapitanchuk, Elena Krifuks
Duração: 20 min.

Crítica | Honeyland (2019)

O mais sensacional nas artes é como determinadas obras conseguem capturar nossa atenção e nossos sentimentos de maneira tão completa sem que esperemos ou sequer consigamos racionalizar o porquê. Honeyland é uma dessas raridades audiovisuais que está acima de classificações ou definições, algo que certamente tentarei fazer ao longo da presente crítica, mas que o leitor faria melhor em simplesmente parar por aqui e, antes de ler meus comentários, conferir essa obra-prima macedônia que a Academia, sabiamente, colocou como concorrente não só à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, como também à de Melhor Documentário, algo sem precedentes e que mostra a importância de premiações como o Oscar em divulgar obras que, de outra maneira, seriam quase que completamente ignoradas.

Na superfície, Honeyland nos conta a história de Hatidze Muratova, uma criadora de abelhas de meia idade que vive em um vilarejo abandonado sem luz e sem esgoto em região montanhosa da Macedônia apenas com sua mãe já bem idosa e muito doente, que mal consegue se levantar da cama. Ela obtém mel de maneira sustentável usando técnicas milenares e vende jarros dessa delícia por alguns Euros na capital Escópia, que é o único momento de sua vida que ela parece se conectar com a chamada civilização. No entanto, quebrando essa sua eterna solidão, uma família nômade turca torna-se sua vizinha, em uma relacionamento que, se de início parece beneficiar a senhora com contato humano, depois revela-se negativo para seu modo de vida.

Mas, como disse, essa é a superfície da complexa narrativa construída por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov em sua obra. O documentário, que em momento algum faz uso de narração em off, legendas explicativas ou mesmo entrevistas e que mantém as câmeras posicionadas sempre de maneira não intrusiva, com ninguém olhando diretamente para elas, o que só amplifica a sensação do naturalismo da obra, aborda um sem-número de assuntos interessantíssimos e atualíssimos que o espectador precisa absorver para apreciar de verdade a riqueza do que a fita tem a oferecer.

Portanto, se mergulharmos para logo abaixo da camada narrativa básica, encontraremos de cara uma abordagem não-catequizadora e não-alarmista sobre o meio ambiente e sua manipulação pela Humanidade. Hatidze representa o Homem pré-Revolução Industrial, pré-processo civilizatório intenso, representa o equilíbrio perfeito entre nossa capacidade de viver em harmonia com o que a natureza têm a nos oferecer, com uma exploração responsável e sustentável. A criadora de abelhas tem consciência, baseado em aprendizado e vivência de décadas, que é essencial que utilizemos os recursos naturais da maneira menos intrusiva possível, retirando o que é necessário, mas devolvendo também o que é preciso para que eles se auto-regenerem. A família nômade que chega barulhenta ao pacífico local de moradia de Hatidze e sua mãe representa a “civilização”, a chegada do “progresso”. As aspas são importantes, pois esses dois termos precisam sempre ser relativizados sempre, com a compreensão do bem que eles trazem, mas também do preço que cobram para existir.

Clique na seta para entender como Honeyland surgiu.

Quando acabei de assistir Honeyland, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: como é que os documentaristas chegaram até Hatidze Muratova? Afinal, dado seu isolamento da civilização, era pouco provável que alguém simplesmente a conhecesse e tenha decidido contar a história de sua vida. Minha curiosidade, então, levou-me a uma breve pesquisa que decidi resumir aqui, separadamente da crítica, por não haver lugar nela para esse tipo de abordagem.

É interessante lembrar logo de início que o documentário se fia tão pouco em explicações e contextualizações, que mal dá para saber onde ele se passa. A Macedônia é mencionada apenas uma vez e sua capital, Escópia, aparece também uma vez, sendo mencionada pelo nome, o que já dá pistas sobre onde tudo acontece: Hatidze Muratova e sua mãe Nazife são as duas últimas habitantes do vilarejo de Bekirlija, mais ou menos a 80 quilômetro da capital, em um região montanhosa remota e de difícil acesso. A equipe de documentaristas estava por ali para filmar um documentário em curta-metragem patrocinado pelo governo sobre o rio Bregalnica, o segundo maior do país que, recentemente, tem sido alvo de controvérsias em relação à poluição.

Chegando lá, eles literalmente esbarraram com Hatidze e, em um momento iluminado, alteraram completamente o projeto para colocar a criadora de abelhas como centro das atenções. No entanto, a chegada dos nômades turcos e todos os demais acontecimentos não foram nem de longe imaginados e tudo aconteceu por uma conjunção astral impressionante que, porém, exigiu que a equipe ficasse por ali não por alguns meses, mas sim por nada menos do que três anos em regime semi-intensivo, ou seja, três ou quatro dias seguidos literalmente acampados em frente à casa de Hatidze, seguidos de dois ou três dias na “civilização” até para poder comprar mantimentos de forma a manterem-se “invisíveis” dentro do que era humanamente possível. O resultado foi a geração de 400 horas de filmagem, o que torna o trabalho de seleção e de montagem para chegar aos quase 90 minutos finais quase inimaginável.

Que visão a desses documentaristas!

A família turca vem como um furacão. As crianças – são seis! – logo estabelecem uma conexão com Hatidze, que passa a apreciar, por seu turno, a quebra de seu exílio quase que completo do mundo. Mas a civilização vem à cavalo e é imparável e logo os problemas começam a aparecer. Vemos, nesse pequeno recorte de mundo, algo que é lugar-comum na História: os meios de produção massificados destruindo a vida artesanal. Mas a diferença é que, de maneira absolutamente naturalística, efetivamente vemos isso acontecer diante de nossos olhos. Não estamos diante de uma obra de ficção ou de um documentário que reconstrói eventos históricos para fins didáticos. É perfeitamente possível enxergarmos a Natureza dobrando-se ao Homem aqui e isso é ao mesmo tempo fascinante e aterrador.

Essa mesma análise pode ser expandida para o consumismo e, mais ainda, para os sistemas econômicos. Que maior exemplo do capitalismo selvagem existe do que a técnica de terra arrasada, de pegar tudo o que está disponível e largar os restos ao deus dará? O mel sendo vendido na base de potinhos artesanalmente preenchidos não se sustenta diante da chegada da civilização e basta ampliar essa noção e aplicá-la a praticamente tudo ao nosso redor – do sistema bancário até as embalagens de plástico de uso único – para compreendermos a grandeza de Honeyland em toda sua pequeneza e, sim, beleza.

Afinal, a equipe de produção guiada pela dupla de diretores consegue trabalhar as imagens de maneira impecável, emprestando lirismo a toda a narrativa, seja aproveitando-se da paisagem pedregosa natural da região, seja usando iluminação natural para capturar as cores da natureza ao redor ou demonstrando o mais absoluto cuidado em colocar em evidência tomadas quase microscópicas envolvendo a criação das abelhas. E isso tudo, como já mencionei, de maneira não intrusiva a ponto de o espectador efetivamente esquecer que há uma câmera a poucos centímetros do rosto profundamente vincado de Hatidze. É uma obra de arte também nesses aspectos estéticos que se somam a uma trilha sonora discreta que apenas pontua a solidão e a vastidão da natureza, por vezes também estabelecendo tensão entre o “antes” e o “depois”, entre o passado e o futuro.

Mesmo apenas em sua superfície Honeyland é inesquecível. Se quisermos manter o foco no relacionamento terno, mas ríspido com sua mãe bem velhinha, nas lembranças breves de seu passado e na maneira artesanal como ela cria abelhas, há muito o que degustar e apreciar. É como voltar ao passado, mas mantendo-se no presente, percebendo como nossa vida dita moderna, muitas vezes em metrópoles, convive com a vida de pessoas que a maior alegria é poder pintar o cabelo uma vez ou outra para mostrar para absolutamente ninguém ou mastigar com alegria e voracidade um delicioso favo de mel recém-extraído da colmeia. Ou seja, há para todos os gostos nesse multifacetado documentário que consegue ser também um tratado de macroeconomia, ambientalismo, vida em sociedade e, melhor, tudo isso sem que o espectador seja tratado como incapaz de entender o que vê.

P.s.: Vou dizer aqui e agora, nadando contra a maré: olhando para os candidatos a Melhor Filme Internacional (ou Estrangeiro, como queiram) no Oscar 2020, Honeyland é o melhor para mim. Sim, melhor até mesmo que Parasita.

Honeyland (Idem, Macedônia – 2019)
Direção: Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov
Com: Hatidze Muratova, Nazife Muratova, Hussein Sam, Ljutvie Sam
Duração: 86 min.

Crítica | In the Absence

Em 2014, o ferry Sewol, que fazia o transporte de 476 pessoas, a maioria alunos de uma escola secundária, de Incheon até a ilha de Jeju, na Coréia do Sul, naufragou. Na verdade, ele adernou lentamente até, horas depois, afundar quase que completamente. Essa tragédia, como tantas outras que, como brasileiros, testemunhamos em nosso dia-a-dia em menor ou maior proporção, poderia ter sido evitada. Não necessariamente o naufrágio em si, mas sim a perda de vidas, já que somente 164 pessoas foram resgatadas.

In the Absence é um documentário em curta metragem dirigido por Yi Seung-jun que perfeitamente documenta o acidente e a mais absoluta incompetência das autoridades em fazer alguma coisa – qualquer coisa! – de útil para as vítimas, apenas uma das infindáveis atrocidades da presidência de Park Geun-hye, que foi alvo de um bem-sucedido processo de impeachment entre 2016 e 2017. Quando digo perfeitamente, quero dizer exatamente isso: em apenas 28 minutos, o cineasta, fazendo apenas uso de imagens e gravações da tragédia e da investigação parlamentar, além de depoimentos de sobreviventes, mergulhadores e parentes das vítimas, conta a história e suas consequências detalhadamente em uma narrativa forte, assustadora e emocionante.

O cineasta não tenta florear sua obra e cria um documento didático no melhor sentido possível, sem recorrer a explicações cansativas, mas, ao mesmo tempo, indo a fundo nos detalhes do ocorrido, com imagens e áudios realmente destruidores. Com muito material ao seu dispor em razão dos anos decorridos e das investigações que se seguiram, Yi Seung-jun foi capaz de brilhantemente parear as imagens do naufrágio em si com o áudio do que estava ocorrendo no mesmo momento no gabinete da presidente, revelando a inacreditável “bateção de cabeça” das autoridades que se mostram muito mais preocupadas em ter câmeras apontadas para o navio do que efetivamente resgatar alguém.

É exasperante assistir In the Absence, especialmente quando transpomos esse tipo de absurdo completamente evitável para situações que acontecem todos os dias no Brasil há décadas. Se imaginamos que esse tipo de coisa só pode acontecer aqui e outros países subdesenvolvidos, chega a ser uma surpresa completa o nível de incompetência demonstrado no documentário, além da gigantesca covardia do capitão do navio que, assim o do Costa Concordia, na Itália, em 2012, foi o primeiro a abandonar o navio.

Mas o que realmente impressiona é o timing do cineasta em mostrar exatamente o que é necessário para tornar In the Absence uma obra que faz tudo o que um documentário dessa natureza deve fazer: apresentar o caso e abordar suas consequências. Claro que ele toma posicionamento sobre o ocorrido – e que outro posicionamento alguém em sã consciência poderia tomar -, mas até isso ocorre organicamente, a partir da mencionada sincronização de imagens e áudio e pelo uso de depoimentos duros e tristes, mas que não se alongam e vão diretamente ao ponto.

In the Absence é a magistral documentação de uma tragédia e, mais do que isso, uma sóbria, respeitosa e elegante homenagem audiovisual para as vítimas do naufrágio e seus parentes, além de uma condenação furiosa de um governo perdido. Sem dúvida alguma, uma aula de cinema documental que muitos documentaristas não conseguem repetir com muito mais tempo e orçamento.

In the Absence (Coréia do Sul, 2018)
Direção: Yi Seung-jun
Com:
Duração: 28 min.