Oscar 2020 – filme estrangeiro

Crítica | Corpus Christi (2019)

Perdoar não é esquecer.

Inspirado em fatos reais, o filme franco-polonês candidato ao Oscar 2020 a Melhor Filme Internacional representando a Polônia é um grande exemplo de narrativa simples, de estrutura até clichê, mas que é tão bem contada e atuada que a obra facilmente se sobressai dentro de sua proposta espiritual que desafia as convenções básicas de que o mal nunca pode converter-se no bem. Corpus Christi, terceiro longa de ficção de Jan Komasa, pede que o espectador deixe-se hipnotizar pelo jovem Daniel, vivido magnificamente por Bartosz Bielenia, e encare o desafio de deixar preconceitos de lado para literalmente passar a compreender que o mundo não é tão preto e branco quanto por vezes parece.

Com cativantes olhos claros e uma capacidade ímpar de passar emoções apenas por meio da intensidade de seu olhar, Bielenia é o centro das atenções da câmera de Komasa que, com a belíssima fotografia enevoada e esverdeada de Piotr Sobocinski Jr., conta a história do devoto detento Daniel que, saindo da prisão, acaba, por uma série de coincidências, assumindo o papel de padre de uma paróquia em um pequeno vilarejo polonês e passando a atuar de maneira pouco ortodoxa para fazer o que acha certo. Em muitos sentidos, já vimos essa obra antes, seja recentemente em Fé Corrompida, seja na imortal obra de Victor Hugo, Os Miseráveis, e a trajetória de Jean Valjean, seja até mesmo na comédia Não Somos Anjos, somente para citar alguns.

No centro do drama, há, claro, a busca de Daniel por redenção por caminhos tortuosos, fingindo ser quem não é, mas, nesse processo, entendendo que talvez sua jornada seja aquela determinada por Deus como sua saída do submundo em que parece ter vivido a vida toda. Na cidadezinha onde ele passa a morar, a população local não demora a conectar-se com sua jovialidade e sua maneira diferente de de pregar, relaxado e fazendo picadinho dos rígidos dogmas cristãos. Mas há um grande pecado ali: um homem, considerado o culpado pela morte de diversos jovens locais, permanece sem o direito de ser enterrado em solo sagrado pela revolta dos pais e mães locais. Vendo no morto um reflexo dele mesmo, Daniel passa a enfrentar a cidade toda para corrigir esse erro e o conflito entre o bem e o mal ganha contornos que vão além do próprio protagonista.

A coloração esverdeada, mas jamais sombria, que a fotografia imprime na película parece ter o papel de passar a impressão de que estamos em um lugar doente, mas que luta para se recuperar de alguma maneira, com Daniel passando a ser o guia espiritual para a redenção coletiva, mesmo que ele mesmo não tenha se redimindo ainda, o que acaba confundindo e reunindo todas as questões. O roteiro é muito bem costurado e sabe usar o silêncio com a mesma força que seus breves diálogos, e Komasa, sendo muito econômico na trilha sonora, potencializa os momentos contemplativos, fazendo o espectador ver, no reflexo dos olhos de Daniel, um pouco de si mesmo.

Apesar do cadenciamento perfeito da iluminação de Daniel e do desenvolvimento da narrativa substancialmente linear, tenho problemas com a resolução da história, que parece forçar acontecimentos e acelerar um desfecho que, mesmo mantendo a lógica que põe o protagonista em constante – e provavelmente insolúvel – conflito interno, acaba criando muito mais um epílogo do que um final propriamente. É como se o final não tivesse agradado o roteirista Mateusz Pacewicz ou como se Jan Komasa não tivesse sabido costurá-lo à narrativa, exigindo mais um passo que parece descolado do todo.

Corpus Christi efetivamente revela o ainda jovem diretor polonês para o mundo e, mais do que isso, coloca Bartosz Bielenia na direção correta para seu desabrochar como ator. Desafiando o espectador, ainda que falhando em seu final, a quase fantasmagórica obra de despertar espiritual captura o coração e a mente, relativizando questões que muitos insistem em abordar de maneira binária.

Corpus Christi (Boze Cialo, Polônia – 2019)
Direção: Jan Komasa
Roteiro: Mateusz Pacewicz
Elenco: Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel, Tomasz Zietek, Barbara Kurzaj Barbara Kurzaj, Leszek Lichota, Zdzislaw Wardejn, Lukasz Simlat, Anna Biernacik, Lidia Bogacz Lidia Bogacz, Malwina Brych, Bogdan Brzyski, Juliusz Chrzastowski, Radoslaw Ciucias, Mateusz Czwartosz
Duração: 115 min.

Crítica | Honeyland (2019)

O mais sensacional nas artes é como determinadas obras conseguem capturar nossa atenção e nossos sentimentos de maneira tão completa sem que esperemos ou sequer consigamos racionalizar o porquê. Honeyland é uma dessas raridades audiovisuais que está acima de classificações ou definições, algo que certamente tentarei fazer ao longo da presente crítica, mas que o leitor faria melhor em simplesmente parar por aqui e, antes de ler meus comentários, conferir essa obra-prima macedônia que a Academia, sabiamente, colocou como concorrente não só à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, como também à de Melhor Documentário, algo sem precedentes e que mostra a importância de premiações como o Oscar em divulgar obras que, de outra maneira, seriam quase que completamente ignoradas.

Na superfície, Honeyland nos conta a história de Hatidze Muratova, uma criadora de abelhas de meia idade que vive em um vilarejo abandonado sem luz e sem esgoto em região montanhosa da Macedônia apenas com sua mãe já bem idosa e muito doente, que mal consegue se levantar da cama. Ela obtém mel de maneira sustentável usando técnicas milenares e vende jarros dessa delícia por alguns Euros na capital Escópia, que é o único momento de sua vida que ela parece se conectar com a chamada civilização. No entanto, quebrando essa sua eterna solidão, uma família nômade turca torna-se sua vizinha, em uma relacionamento que, se de início parece beneficiar a senhora com contato humano, depois revela-se negativo para seu modo de vida.

Mas, como disse, essa é a superfície da complexa narrativa construída por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov em sua obra. O documentário, que em momento algum faz uso de narração em off, legendas explicativas ou mesmo entrevistas e que mantém as câmeras posicionadas sempre de maneira não intrusiva, com ninguém olhando diretamente para elas, o que só amplifica a sensação do naturalismo da obra, aborda um sem-número de assuntos interessantíssimos e atualíssimos que o espectador precisa absorver para apreciar de verdade a riqueza do que a fita tem a oferecer.

Portanto, se mergulharmos para logo abaixo da camada narrativa básica, encontraremos de cara uma abordagem não-catequizadora e não-alarmista sobre o meio ambiente e sua manipulação pela Humanidade. Hatidze representa o Homem pré-Revolução Industrial, pré-processo civilizatório intenso, representa o equilíbrio perfeito entre nossa capacidade de viver em harmonia com o que a natureza têm a nos oferecer, com uma exploração responsável e sustentável. A criadora de abelhas tem consciência, baseado em aprendizado e vivência de décadas, que é essencial que utilizemos os recursos naturais da maneira menos intrusiva possível, retirando o que é necessário, mas devolvendo também o que é preciso para que eles se auto-regenerem. A família nômade que chega barulhenta ao pacífico local de moradia de Hatidze e sua mãe representa a “civilização”, a chegada do “progresso”. As aspas são importantes, pois esses dois termos precisam sempre ser relativizados sempre, com a compreensão do bem que eles trazem, mas também do preço que cobram para existir.

Clique na seta para entender como Honeyland surgiu.

Quando acabei de assistir Honeyland, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: como é que os documentaristas chegaram até Hatidze Muratova? Afinal, dado seu isolamento da civilização, era pouco provável que alguém simplesmente a conhecesse e tenha decidido contar a história de sua vida. Minha curiosidade, então, levou-me a uma breve pesquisa que decidi resumir aqui, separadamente da crítica, por não haver lugar nela para esse tipo de abordagem.

É interessante lembrar logo de início que o documentário se fia tão pouco em explicações e contextualizações, que mal dá para saber onde ele se passa. A Macedônia é mencionada apenas uma vez e sua capital, Escópia, aparece também uma vez, sendo mencionada pelo nome, o que já dá pistas sobre onde tudo acontece: Hatidze Muratova e sua mãe Nazife são as duas últimas habitantes do vilarejo de Bekirlija, mais ou menos a 80 quilômetro da capital, em um região montanhosa remota e de difícil acesso. A equipe de documentaristas estava por ali para filmar um documentário em curta-metragem patrocinado pelo governo sobre o rio Bregalnica, o segundo maior do país que, recentemente, tem sido alvo de controvérsias em relação à poluição.

Chegando lá, eles literalmente esbarraram com Hatidze e, em um momento iluminado, alteraram completamente o projeto para colocar a criadora de abelhas como centro das atenções. No entanto, a chegada dos nômades turcos e todos os demais acontecimentos não foram nem de longe imaginados e tudo aconteceu por uma conjunção astral impressionante que, porém, exigiu que a equipe ficasse por ali não por alguns meses, mas sim por nada menos do que três anos em regime semi-intensivo, ou seja, três ou quatro dias seguidos literalmente acampados em frente à casa de Hatidze, seguidos de dois ou três dias na “civilização” até para poder comprar mantimentos de forma a manterem-se “invisíveis” dentro do que era humanamente possível. O resultado foi a geração de 400 horas de filmagem, o que torna o trabalho de seleção e de montagem para chegar aos quase 90 minutos finais quase inimaginável.

Que visão a desses documentaristas!

A família turca vem como um furacão. As crianças – são seis! – logo estabelecem uma conexão com Hatidze, que passa a apreciar, por seu turno, a quebra de seu exílio quase que completo do mundo. Mas a civilização vem à cavalo e é imparável e logo os problemas começam a aparecer. Vemos, nesse pequeno recorte de mundo, algo que é lugar-comum na História: os meios de produção massificados destruindo a vida artesanal. Mas a diferença é que, de maneira absolutamente naturalística, efetivamente vemos isso acontecer diante de nossos olhos. Não estamos diante de uma obra de ficção ou de um documentário que reconstrói eventos históricos para fins didáticos. É perfeitamente possível enxergarmos a Natureza dobrando-se ao Homem aqui e isso é ao mesmo tempo fascinante e aterrador.

Essa mesma análise pode ser expandida para o consumismo e, mais ainda, para os sistemas econômicos. Que maior exemplo do capitalismo selvagem existe do que a técnica de terra arrasada, de pegar tudo o que está disponível e largar os restos ao deus dará? O mel sendo vendido na base de potinhos artesanalmente preenchidos não se sustenta diante da chegada da civilização e basta ampliar essa noção e aplicá-la a praticamente tudo ao nosso redor – do sistema bancário até as embalagens de plástico de uso único – para compreendermos a grandeza de Honeyland em toda sua pequeneza e, sim, beleza.

Afinal, a equipe de produção guiada pela dupla de diretores consegue trabalhar as imagens de maneira impecável, emprestando lirismo a toda a narrativa, seja aproveitando-se da paisagem pedregosa natural da região, seja usando iluminação natural para capturar as cores da natureza ao redor ou demonstrando o mais absoluto cuidado em colocar em evidência tomadas quase microscópicas envolvendo a criação das abelhas. E isso tudo, como já mencionei, de maneira não intrusiva a ponto de o espectador efetivamente esquecer que há uma câmera a poucos centímetros do rosto profundamente vincado de Hatidze. É uma obra de arte também nesses aspectos estéticos que se somam a uma trilha sonora discreta que apenas pontua a solidão e a vastidão da natureza, por vezes também estabelecendo tensão entre o “antes” e o “depois”, entre o passado e o futuro.

Mesmo apenas em sua superfície Honeyland é inesquecível. Se quisermos manter o foco no relacionamento terno, mas ríspido com sua mãe bem velhinha, nas lembranças breves de seu passado e na maneira artesanal como ela cria abelhas, há muito o que degustar e apreciar. É como voltar ao passado, mas mantendo-se no presente, percebendo como nossa vida dita moderna, muitas vezes em metrópoles, convive com a vida de pessoas que a maior alegria é poder pintar o cabelo uma vez ou outra para mostrar para absolutamente ninguém ou mastigar com alegria e voracidade um delicioso favo de mel recém-extraído da colmeia. Ou seja, há para todos os gostos nesse multifacetado documentário que consegue ser também um tratado de macroeconomia, ambientalismo, vida em sociedade e, melhor, tudo isso sem que o espectador seja tratado como incapaz de entender o que vê.

P.s.: Vou dizer aqui e agora, nadando contra a maré: olhando para os candidatos a Melhor Filme Internacional (ou Estrangeiro, como queiram) no Oscar 2020, Honeyland é o melhor para mim. Sim, melhor até mesmo que Parasita.

Honeyland (Idem, Macedônia – 2019)
Direção: Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov
Com: Hatidze Muratova, Nazife Muratova, Hussein Sam, Ljutvie Sam
Duração: 86 min.