Oscar 2020 – curtas

Crítica | Curtas do Oscar 2020: Animação

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Seguem as críticas dos cinco indicados ao Oscar de Melhor Animação em Curta Metragem em 2020 (os títulos foram mantidos como indicados pela Academia, com as traduções em português ao lado quando existirem). Os textos desse compilado são de Davi Lima e Iann Jeliel.

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Kitbull 

EUA, 2019

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por  Davi Lima

As produções da Pixar em geral têm suas obras pautadas em emocionalismo, o que não é um ponto negativo quando se faz boas histórias que comovem. Com o curta animado Kitbull não é diferente.

A oportunidade que o projeto SparkShorts deu para estagiários da Pixar permitiu que uma modelagem 2D dos animais com um cenário praticamente estático, colorizado e com pouca textura tivesse pulsão emotiva bem representativa do estúdio. Circunstâncias adversas e diferenças biológicas entre um cachorro e um gato são a ponte para a formação de uma amizade e encontro com uma vida melhor para os caracterizados animais domésticos aqui.

Em geral, o gatinho preto é acostumado a viver na rua, tem seu canto escondido, embora frágil, como sua caixa de papelão aponta. A personalidade dele é forte o suficiente para encarar um cachorro. Quando chega um para viver perto de sua moradia, há uma interação de casualidades. Com uma edição de som muito viva, assim como a trilha, os momentos se tornam críveis, mesmo com o 2D explícito. Assim, de maneira natural, os dois rivalizam por instinto, porém com atitudes lúdicas diante das circunstâncias em que se encontram. O cachorro permanece preso na coleira e o gato livre no seu lixo.

Diante desse cenário, o que pode usurpar esse naturalismo captado no curta, ou elevar a qualidade da experiência, é a influência proposital do ser humano na narrativa. O maltrato marcado no corpo do cachorro determina um momento dramático importante que influencia tanto a aproximação final do gatinho quanto a conclusão esperançosa do curta.

Direção: Rosana Sullivan
Roteiro: Rosana Sullivan
Duração: 9 min.

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Memorable (Mémorable)

França, 2019

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por Davi Lima

Para muitas obras artísticas, a máxima é não ser óbvio de maneira alguma. Mas ser compreensível em sua inteligência de abordar o tema com um personagem é essencial. Em um curta de animação, em que a habilidade artística do protagonista representa o auge e a sua grande depressão, nada mais justo que usar a pintura como a própria forma de expressão na obra.

O uso de papel machê, pintado no estilo pós-impressionista de Van Gogh, é mais que uma percepção, é quase metalinguístico dentro do universo criado na mente de um protagonista idoso e pintor, ou um pintor idoso. O não se reconhecer no espelho do personagem parte desse princípio de comentário, em que o divã oficial não é o médico, esse já virou conceito surrealista em deformação representativa de imagem. O divã é a esposa.

Ela é que exercita o que resta, e não se deforma ou muda suas cores, até nisso há uma diferença em como a memória pincelada se mostra. Por aí que o amor do curta se mostra. O que é “desprezível”, até mesmo nas falas de anos retrógrados, são os objetos tecnológicos. A preciosidade é o que ainda pode ser pintado.

E logo esse amor conjunto, pintura e esposa se juntam em ação e imagem. O pintor pinta agora com o dedo e a esposa tem seus traços mais meticulosos que só um esposo pode perceber, mesmo na perda da memória. Só que não é qualquer memória que se degenera, é a de um pintor.

Direção: Bruno Collet
Roteiro: Bruno Collet
Elenco: Dominic Reymond, André Wilms
Duração: 12 min.

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Sister (妹妹)

China, 2018

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por Davi Lima

Como vários curtas-metragens, qualquer intenção emocional tem que ser passada com voracidade devido ao tamanho da produção, apesar que a diversidade artística permite tudo do mais variado, em que a emoção ou a relação sentimental pode surgir após uma reflexão pessoal ou política.

Aqui, nesse curta chinês, encontra-se uma carga de mutação muito significativa dentro da linguagem de stop motion, para que a perda da presença depois seja muito sentida visualmente. De maneira bem simples, a narração parece ter um tom imutável: apenas os bonecos feitos de feltro que constantemente parecem permissíveis em agregar a um contexto de uma foto ou uma imaginação surrealista. Estão sempre em mudança, seja em proporção de tamanho ou em atividades comuns dentro de uma casa.

Então, por essa relação visual tão cristalizada com o meio é que a perda tratada na história não é só sentida pela perspectiva do aborto ou por uma questão cultural – que com certeza influencia até na escolha do curta no Oscar -, existe também dentro da escolha do preto e branco a busca por remeter ao antigo e ao conflito presencial, captado pelo som e pelos movimentos como são do stop motion, a perda mais física na escolha da animação.

Dessa maneira, o objetivo emocional e catártico, junto à voz monotônica, prevalece de forma bem efetiva. A irmã é retratada na narração com tanta realidade pelo irmão que o conflito com a imagem imaginária alavanca ainda mais a descoberta do que realmente significa a proposta emocional da diretora Siqi Song.

Direção: Siqi Song
Roteiro: Siqi Song
Elenco: Bingyang Liu
Duração: 8 min.

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Daughter (Dcera) 

República Tcheca, 2019

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Iann Jeliel

O conflito de ego acumulado é uma maldição que só pode ser quebrada no rito de passagem para uma nova vida. A premissa do curta parte de uma filha tentando se reconectar com o pai que se vê à beira da morte, recuperando memórias, boas e ruins, sobre sua convivência passada. A grande proeza é em como a execução é habilidosa e didática sem parecer óbvia nas idas e vindas dos flashbacks, para especificar o porquê da relação dos dois ser conturbada e principalmente por que tem que ser reconquistada.

Nesse contexto, a montagem aliada à fotografia intercala o dinamismo de acontecimentos em constante desconforto, fechando muito os planos na teoria pela busca de extrair a maior quantidade de sentimentos possível dos personagens, mas quando esses são os bonecos stop motion deformados, o desafio emocional transita no campo surrealista para amplificar a fragilidade daqueles rostos naturalmente pesados diante do acúmulo dramático. Na falta de falas, a própria técnica se comunica, seja através dos sons ou imagens, a ambientação molda a animação conforme a construção dos dois pólos sentimentais mencionados, aliando-os meticulosamente na lírica dos momentos-chave.

A experiência animada predominante é plenamente sensorial e subjetiva, mas estabelece seu vínculo com o público, como todo bom curta, na correlação com sua temática principal de forma realista. Seja um pai, filha, amigo, todos nós temos desentendimentos com alguém importante que pesam quando possivelmente essa pessoa irá deixar o campo físico. Buscamos no fim, e muitas vezes nem dá tempo, uma forma de nos redimirmos com elas para dar o abraço final. Assim, surge a figura do pássaro, no melhor semblante de paz possível, saindo de um mero observador dessa relação e partindo a fazer parte dela, é o contato que os dois nunca tiveram e que a gente não tinha até então com o curta. No belíssimo final, as luzes se acendem no foco e desfoco, e o pássaro encontra o voo para novos horizontes.

Direção: Daria Kashcheeva
Roteiro: Daria Kashcheeva
Duração: 15 min.

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Hair Love

EUA, 2019

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por Iann Jeliel

Possivelmente a vencedora da categoria no Oscar, por trazer à tona uma temática pouco falada, mas de ampla representatividade e importância, a lírica ultrarrelacionável e “fofa” de uma animação com grande alcance distributivo e que possivelmente irá alcançar mais pessoas depois de ser premiada. O mais bacana é que em uma primeira camada, Hair, Love é sobre a desconstrução de uma opressão histórica específica, de que as negras não têm cabelo “ruim”, mas no fundo, no fundo, é uma carta de incentivo ao amor próprio, que deve ser criado desde cedo pelos olhares infantis e principalmente compreendido por suas figuras paternas, para que um novo ciclo de desconstrução identitária não se forme, e a partir da atual, já seja possível se desvincular totalmente desses estereótipos.

Desse modo, o curta atinge um ponto de vista muito mais amplo e universal de uma problemática simples, mas extremamente realista e particular. Diante do mal do século, a iniciativa publicitária da Sony é fantástica e recheada de bom coração, mas como lírica, acaba limitando e tornando a articulação do tema um tanto superficial. As ilustrações mais exageradas, como a do pai lutando boxe contra um cabelo indestrutível, ou os ensinamentos via internet, buscam criar um clima de divertimento que soa muito bobinho, mesmo com a intenção do didatismo e linguagem mais reconhecível com todas as idades, é pouco sutil e poderia ser preenchido com facetas menos manipulativas.

É um curta para fazer chorar, e isso fica bem claro em todo o visual colorido, e é bom que faça mesmo, as lágrimas da representatividade em tela são lindas de se ver. Contudo, a temática fala mais alto que sua execução animada de modo arbitrário, mesmo com as diversas camadas do problema expostas, elas só ficam no primeiro comentário. Que bom e tomara que ele seja suficiente para todo o início de uma mudança social.

Direção: Bruce W. Smith, Matthew A. Cherry, Everett Downing Jr.
Roteiro: Matthew A. Cherry
Elenco: Issae Rae
Duração: 7 min.

Crítica | A Sister (Une Soeur)

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Em seu terceiro curta, a diretora e atriz francesa Delphine Girard tenta abordar uma tensa situação de violência e sequestro usando, apenas, uma ligação telefônica entre a vítima e uma operadora da polícia encoberta como uma ligação da vítima para sua “irmã” para falar de sua filha, já que o criminoso está ao seu lado no carro. É sem dúvida uma premissa interessante — embora não exatamente original –, mas que Girard executa como um pedaço de uma história.

Não é que não haja um começo (ou quase), meio e fim no curta, ou que Girard não saiba criar tensão na conversa entre Alie (Selma Alaoui), a vítima, e a operadora (Veerle Baetens), mas esse deveria ser o artifício que impulsiona a narrativa e não toda a narrativa. No entanto, aqui, uma coisa se confunde com a outra e, mais do que isso, a premissa se torna tudo o que a diretora tem a apresentar. 

É sem dúvida interessante como a fotografia escurecida e desfocada no lado de Alie evita mostrar rostos ou mesmo a estrada em detalhes, mantendo o espectador razoavelmente desorientado, emulando, com isso, os sentimentos da vítima. E é também interessante como, na outra ponta, a da operadora, as imagens são claras e seu rosto tenso, mas frio, é sempre mantido em foco e tomando quase toda a lente. O problema é que A Sister fica parecendo um experimento, um fragmento de uma ideia bacana que não ganha nenhum desenvolvimento para além da estrutura narrativa em si.

E, muito em razão disso, por mais que o espectador consiga conectar-se com a situação de tensão e, em razão dela, também com a vítima e a operadora, Girard não consegue ir além e tornar as personagens interessantes por elas mesmas. Não há sequer um semblante de arco narrativo, aliás, pois a técnica audiovisual da diretora é um fim em si mesma. 

A Sister é um filme de “treinamento” para Girard, como um TCC, mal comparando. E o resultado é que ela passou raspando.

A Sister (Une Soeur) — Bélgica, 2018
Direção: Delphine Girard
Roteiro: Delphine Girard
Elenco: Veerle Baetens, Selma Alaoui, Guillaume Duhesme
Duração: 16 min.

Crítica | Brotherhood (2018)

Julgar as pessoas pelas aparências é algo que fazemos todos os dias. Sim, todos nós fazemos e sim, todos os dias. Pode ser inconsciente, pode ser sem querer, pode ser de brincadeira, mas nossa capacidade de rotular pessoas como isso ou aquilo é um fato difícil de combater com efetividade. E não quero dizer aqui somente os preconceitos mais nefastos relacionados com raça, religião ou sexo, mas sim todo tipo, desde banalidades como o tipo de roupa que a pessoa usa, até a existência de tatuagens, piercings, forma de se locomover e assim por diante.

A cineasta Meryam Joobeur, em seu quarto curta (terceiro dirigindo sozinha), aborda esse pré-julgamento dentro do contexto dos conflitos armados na Síria e do surgimento de grupos extremistas islâmicos, notadamente o ISIS, mas sem localizar sua obra geograficamente no seio da questão. Muito diferente disso, a ação se passa na Tunísia, com o jovem Malek (Malek Mechergui), depois de longa ausência de casa, retornando ao lar com uma jovem de 13 anos grávida dele e que usa um niqāb completo, inclusive com luvas.

Seus dois irmãos mais novos e sua mãe recebem Malek com alegria e alívio, imediatamente fazendo-o sentir-se em casa, mesmo considerando a “estranha” silenciosamente presente. No entanto, Mohamed (Mohamed Grayaâ), o patriarca, tem uma postura imediatamente fria e distante, imediatamente acusando seu filho mais velho de abandonar a família ao deus dará, sem pensar duas vezes, para integrar-se ao Estado Islâmico na Síria. Mas o ponto focal do desconforto do pai é a presença da moça grávida com o corpo completamente escondido pela vestimenta (uma prisão!) preta, levando-o a tomar uma decisão sobre o que fazer sobre a situação mesmo que isso signifique o impensável.

O roteiro de Joobeur propositalmente vai ao extremo. Ela não está preocupada em abordar a questão de maneira nuançada e arrisca tornar sua obra simplesmente maniqueísta e sentimental, como um novelão em 25 minutos. Mas a roteirista e diretora demonstra saber exatamente como podar seu texto para deixá-lo enxuto e direto, seguindo uma lógica irrefutável que reúne o pior do sentimento humano, ao mesmo tempo que permite que o espectador se compadeça pelo profundamente pelo pai que, basicamente, nos representa, ou seja, nós, os preconceituosos que mencionei no parágrafo de abertura. Ao trabalhar a tensão de “árabe para árabe”, Joobeur parece manter o assunto próximo de seu peito, mas a grande verdade é que a discussão que ela propõe é absolutamente universal e vai muito além do que está lá em frente à câmera.

Aliás, o que está em frente à câmera é lindíssimo, com um lirismo maravilhoso oriundo de um trabalho de câmera impecável que sabe quando trabalhar planos-detalhe em oposição a tomadas gerais, além de manipular de forma precisa a profundidade de campo. Ela faz um poema audiovisual que se apoia muito mais em imagens do que em palavras, com o pequeno grupo de atores – os irmãos do filme são também irmãos na vida real -, especialmente Grayaâ, transmitindo sentimentos sem aparentemente qualquer esforço. O único porém fica por conta da elipse final que faz uso de uma montagem paralela que não funciona em sua plenitude, quebrando a fluidez narrativa e manchando apenas um pouco o resultado final que, porém, permanece firme e forte.

Brotherhood – a Irmandade do título é a de sangue e também a sanguinária – nos leva por um caminho terrível, mas esperado, que, porém, exige que paremos por um tempo para pensar nas consequências e entender os reflexos disso em nosso cotidiano. Talvez o preconceito “por reflexo” seja um mal tão profundamente embrenhado na sociedade que nem consigamos mais reconhecê-lo. E é aí que o problema realmente aparece.

Brotherhood (Ikhwène, Tunísia/Canadá/Catar/Suécia – 2018)
Direção: Meryam Joobeur
Roteiro: Meryam Joobeur
Elenco: Kais Ayari, Mohamed Grayaâ, Mouldi Kriden, Jasmin Lazid, Walid Loued, Alaeddine Mandhouj, Chaker Mechergui, Malek Mechergui, Rayene Mechergui, Salha Nasraoui
Duração: 25 min.

Crítica | Nefta Football Club

No cartaz de Nefta Football Club, a frase de efeito para chamar atenção do público é: “dois irmãos encontram um burro usando fones de ouvido no deserto”. E fica a impressão que o diretor francês Yves Piat, em seu segundo curta, seguindo Tempus Fugit, de 2001, primeiro imaginou justamente essa situação e, depois, escreveu um roteiro ao redor. Ou isso ou, pior ainda, ele teve a ideia para a cena final – que não abordarei aqui para não dar spoiler – e, então, criou quase 17 minutos de história para chegar até ela.

E não haveria problema algum se fosse algo assim se Nefta Football Club oferecesse mesmo que marginalmente mais do que dois irmãos tunisianos encontrando um burro com fones de ouvido na fronteira entre seu país e a Argélia. Porque sim, a situação em si é inusitada e razoavelmente divertida – especialmente quando o dono do burro, desesperado atrás do animal, explica o porquê de ele estar com fones de ouvido -, mas… é tudo o que posso dizer de realmente positivo sobre o curta. Ah, claro, as duas crianças são simpáticas e tal, mas não há tempo ou vontade do texto para criar uma conexão maior com elas e a dupla que procura o burro é literalmente esquecida depois que a interação de natureza musical acaba.

Não que o curta não seja agradável ou que não valha a pena assistir os rápidos 17 minutos, mas é que, mesmo considerando o tom cômico que Piat tenta imprimir, a obra não consegue nem ser exatamente uma comédia ou um drama, ficando em um limbo entre uma coisa e outra sem qualquer tentativa de se trazer um subtexto que faça a experiência ganhar mais camadas. É, mal comparando, como um esquete do Saturday Night Live em um dia particularmente pouco inspirado, que possivelmente levará a sorrisos, mas não a risos e que será esquecido tão logo os créditos começam a subir na tela.

Até mesmo a fotografia só faz o básico, com planos gerais que se aproveitam da bonita paisagem desértica da região, mas que param por aí, sem qualquer finesse técnico que a faça ir além do que mostra. É, muito sinceramente, a definição de platitude audiovisual.

Nefta Football Club, portanto, ganha pontos pela premissa, mas perde quase tudo em sua execução trivial demais que desperdiça o potencial cômico e possíveis comentários sócio-econômicos aqui e ali além do óbvio ululante. Uma pena.

Nefta Football Club (França, Tunísia, Argélia – 2018)
Direção: Yves Piat
Roteiro: Yves Piat
Elenco: Eltayef Dhaoui, Mohamed Ali Ayari, Lyès Salem, Hichem Mesbah
Duração: 17 min.

Crítica | The Neighbors’ Window

Quantas vezes não paramos para observar e para cobiçar a vida alheia? E não digo que fazemos isso de caso pensado ou com algum traço de maldade ou inveja – pelo menos não na maioria das vezes, quero crer -, mas sim como parte natural de nosso dia-a-dia, seja olhando casualmente pela janela de casa, do transporte ou mesmo simplesmente vendo alguém do outro lado da rua ou em alguma praça ou parque. Muitas vezes olhamos e pensamos como aquela outra pessoa ou pessoas tem uma vida melhor que a nossa e como seria bacana se fosse possível trocar de lugar com ela/elas, seja em razão de idade, de dinheiro, de estilo de vida ou de qualquer outra razão.

Se não levada ao extremo, esse olhar vicariante é sadio, podendo refletir ambição, nostalgia, saudade e uma infinidade de outros sentimentos. “Ah, se eu fosse mais jovem”, lamentam os mais velhos e “se fosse mais velho, poderia fazer isso ou aquilo”, afirmam os mais novos. Esse raciocínio, inicialmente estruturado em volta de algo que lembra o clássico Janela Indiscreta, é o que move The Neighbor’s Window (em tradução livre e direta, “A Janela do Vizinho“), primeiro curta-metragem de ficção de Marshall Curry, mais conhecido como documentarista festejado responsável por Briga de RuaIf a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation FrontUma Noite no Madison Square Garden, todos indicados ao Oscar.

Em 20 minutos, Curry nos apresenta ao casal Alli (Maria Dizzia) e Jacob (Greg Keller), pais de duas crianças e esperando uma terceira que descobre que o casal que se mudou recentemente para o prédio em frente não se preocupa muito em fechar as cortinas quando transa ou faz qualquer outra coisa. Alli e Jacob são ainda jovens, mas o casal em frente é ainda mais jovem e, aparentemente, recém-casado, esbanjando energia e virilidade que a dupla de pais simplesmente não tem mais. O tempo passa – e Curry é particularmente eficiente em trabalhar elipses – e o casal indiscreto torna-se basicamente parte da vida de Alli e Jacob, que passam a ter até um binóculo para observar suas ações em maiores detalhes.

A história se desenrola de maneira rítmica, sempre mantendo os casais separados e firmando o ponto-de-vista único a partir dos olhos de Jacob e Alli, especialmente Alli. Claro que há um desenvolvimento narrativo que não abordarei aqui para manter a crítica sem spoilers, mas que serve de deflagrador da relativização completa da situação.

Tudo é feito de maneira muito elegante e a dupla principal de atores tem enorme naturalidade, sendo fácil criar empatia por eles. Curry, no entanto, exagera nas conveniências e no didatismo quando seu curta está para ser encerrado, não deixando absolutamente nada para o espectador concluir por conta própria. As imagens falam por si só, mas o vício de marinheiro de primeira viagem (em obras de ficção) provavelmente levou Curry a escrever um final que só falta ser desenhado em uma lousa. Não é mortal para o aproveitamento da lição do curta, mas é de revirar os olhos pela obviedade.

The Neighbor’s Window, mesmo sendo falho em sua finalização, revela que Curry tem excelente controle de sua câmera e sabe – até certo ponto, pelo menos – escrever apenas com imagens. A simplicidade da história ganha boa execução e a lição, mesmo esfregada na cara do espectador, é valiosa.

The Neighbors’s Window (EUA, 2019)
Direção: Marshall Curry
Roteiro: Marshall Curry
Elenco: Maria Dizzia, Greg Keller, Juliana Canfield, Bret Lada, Sadie Zamulinsky, Tanner Zamulinsky, India Earhart, Niko Perrin
Duração: 20 min.

Crítica | Walk Run Cha-Cha

A prolífica documentarista Laura Nix, responsável, dentre outros, por Inventing Tomorrow (2018) e The Yes Men Are Revolting (2014) pontuou 2019 com apenas um trabalho na direção e roteiro, o curta-metragem Walk Run Cha-Cha que, em 20 minutos, aborda um casal de meia-idade que imigrou do Vietnã para a Califórnia, nos EUA, e redescobriu-se na pista de dança. Diferente de outros trabalhos mais engajados, o objetivo de Nix, aqui, é abordar o amor que vence fronteiras e a paixão pela dança em uma pegada bonita e singela que, porém, não oferece muito mais do que apenas o que está na superfície.

Chipaul e Millie se conheceram ainda adolescentes em seu país natal, namorando por um curto período de tempo até que a família de Chipaul decidiu fugir do jugo comunista para ter algum futuro nos EUA. Millie, porém, ficou para trás, mas um nunca esqueceu do outro, com Chipaul, bem mais tarde, fazendo de tudo – e conseguindo – trazer seu amor seu país adotivo. Aprendemos isso por meio de entrevistas com a dupla cujas vozes são justapostas a imagens deles dançando ou sentando para fazer as entrevistas, mas de maneira dessincronizada para dar um charme à narrativa que é direta e sem firulas.

Há uma tentativa de se estabelecer uma elipse – ou talvez duas – que nos leva do primeiro encontrou dos dois até a reunificação e casamento nos EUA, mas Nix não é bem-sucedida em seu esforço, o que acaba quebrando a fluidez da proposta de seu roteiro. A simplicidade da história, que poderia ter ganhado contornos mais interessantes, talvez com imagens de época no Vietnã e uma contextualização histórica maior do que meras pinceladas aqui e ali por parte principalmente de Chipaul, acaba emprestando um caráter de conto-de-fadas que sem dúvida é capaz de trazer sorrisos aos rostos dos espectadores, mas não algo duradouro, que torne Walk Run Cha-Cha particularmente memorável.

Esteticamente, Nix trabalha primordialmente com câmeras paradas que se beneficiam do movimento dos dançarinos – tanto da dupla imigrante quanto de seus professores – e uma fotografia suave que reitera a abordagem fabulesca para essa história de amor. Mas, como a história sendo contada, não há nada particularmente especial também nesse quesito e tudo parece desaguar para a pièce de résistance, ou seja, um simpático, mas brevíssimo número de dança ao final ao som de The Carpenters. Bonito, sem dúvida, mas que não tem tanta força assim para marcar o espectador ou para efetivamente até justificar a história sendo contada.

Walk Run Cha-Cha é um pequeno lembrete de que pequenas coisas podem significar o mundo para muita gente. Uma mensagem inspiradora que sem dúvida tem o seu valor, mas que, porém, o documentário não sabe enriquecer para além de seu valor de face.

Walk Run Cha-Cha (Idem, EUA – 2019)
Direção: Laura Nix
Roteiro: Laura Nix
Com: Chipaul Cao, Millie Cao, Maksym Kapitanchuk, Elena Krifuks
Duração: 20 min.

Crítica | In the Absence

Em 2014, o ferry Sewol, que fazia o transporte de 476 pessoas, a maioria alunos de uma escola secundária, de Incheon até a ilha de Jeju, na Coréia do Sul, naufragou. Na verdade, ele adernou lentamente até, horas depois, afundar quase que completamente. Essa tragédia, como tantas outras que, como brasileiros, testemunhamos em nosso dia-a-dia em menor ou maior proporção, poderia ter sido evitada. Não necessariamente o naufrágio em si, mas sim a perda de vidas, já que somente 164 pessoas foram resgatadas.

In the Absence é um documentário em curta metragem dirigido por Yi Seung-jun que perfeitamente documenta o acidente e a mais absoluta incompetência das autoridades em fazer alguma coisa – qualquer coisa! – de útil para as vítimas, apenas uma das infindáveis atrocidades da presidência de Park Geun-hye, que foi alvo de um bem-sucedido processo de impeachment entre 2016 e 2017. Quando digo perfeitamente, quero dizer exatamente isso: em apenas 28 minutos, o cineasta, fazendo apenas uso de imagens e gravações da tragédia e da investigação parlamentar, além de depoimentos de sobreviventes, mergulhadores e parentes das vítimas, conta a história e suas consequências detalhadamente em uma narrativa forte, assustadora e emocionante.

O cineasta não tenta florear sua obra e cria um documento didático no melhor sentido possível, sem recorrer a explicações cansativas, mas, ao mesmo tempo, indo a fundo nos detalhes do ocorrido, com imagens e áudios realmente destruidores. Com muito material ao seu dispor em razão dos anos decorridos e das investigações que se seguiram, Yi Seung-jun foi capaz de brilhantemente parear as imagens do naufrágio em si com o áudio do que estava ocorrendo no mesmo momento no gabinete da presidente, revelando a inacreditável “bateção de cabeça” das autoridades que se mostram muito mais preocupadas em ter câmeras apontadas para o navio do que efetivamente resgatar alguém.

É exasperante assistir In the Absence, especialmente quando transpomos esse tipo de absurdo completamente evitável para situações que acontecem todos os dias no Brasil há décadas. Se imaginamos que esse tipo de coisa só pode acontecer aqui e outros países subdesenvolvidos, chega a ser uma surpresa completa o nível de incompetência demonstrado no documentário, além da gigantesca covardia do capitão do navio que, assim o do Costa Concordia, na Itália, em 2012, foi o primeiro a abandonar o navio.

Mas o que realmente impressiona é o timing do cineasta em mostrar exatamente o que é necessário para tornar In the Absence uma obra que faz tudo o que um documentário dessa natureza deve fazer: apresentar o caso e abordar suas consequências. Claro que ele toma posicionamento sobre o ocorrido – e que outro posicionamento alguém em sã consciência poderia tomar -, mas até isso ocorre organicamente, a partir da mencionada sincronização de imagens e áudio e pelo uso de depoimentos duros e tristes, mas que não se alongam e vão diretamente ao ponto.

In the Absence é a magistral documentação de uma tragédia e, mais do que isso, uma sóbria, respeitosa e elegante homenagem audiovisual para as vítimas do naufrágio e seus parentes, além de uma condenação furiosa de um governo perdido. Sem dúvida alguma, uma aula de cinema documental que muitos documentaristas não conseguem repetir com muito mais tempo e orçamento.

In the Absence (Coréia do Sul, 2018)
Direção: Yi Seung-jun
Com:
Duração: 28 min.

Crítica | A Vida em Mim

Horror e fascínio. Essas duas reações aparentemente antagônicas são provavelmente inevitáveis depois de assistir A Vida em Mim, uma péssima versão em português tanto para o título em inglês (A Vida Me Ultrapassa) quanto em sueco (As Crianças Apáticas) do curta-metragem que aborda a Síndrome da Resignação, condição que afeta crianças e adolescentes traumatizados e as coloca em um sono profundo semelhante ao coma. Em 40 minutos, os diretores John Haptas e Kristine Samuelson correm para apresentar a estranhíssima situação, usando três crianças afetadas pela doença na Suécia.

O horror vem pela situações em si. Vemos as crianças inertes tendo que ser tratadas constantemente pelo pais, com alimentação via tubo no nariz e massagens e exercícios constantes para evitar atrofia muscular, isso sem falar em passeios, banhos e tudo mais para dar um semblante de vida digna aos pequenos. O horror também vem pelos breves comentários sobre o que cada família de minoria étnica enfrentou em seus países de origem, no caso na União Soviética e nos Bálcãs, algo que enfocado apenas muito brevemente para dar contexto ao pedido de asilo na Suécia e a doença das crianças, aparentemente também conectada com a incerteza sobre a legalização de seu refúgio no país escandinavo, o que pode significar a necessidade de retorno para o inferno de onde vieram.

O fascínio vem pela síndrome em si, pelo que tudo indica uma espécie de mecanismo de defesa involuntário que afasta as crianças da realidade, tornando mais “fácil” (para elas) seu enfrentamento. No entanto, pouco se sabe de verdade sobre as causas da doença e o porquê da existência de uma concentração maior justamente na Suécia, ainda que existam casos também em outros países. Há depoimentos de médicos e cientistas ao longo do curta, mas muito pouco é realmente dito além da conexão da violência e incerteza na vida das famílias com o tal coma auto-induzido de algumas das crianças.

Se o horror fica bem estabelecido no pouco tempo de duração da obra, o fascínio pede mais e quase nada vem em resposta. O lado científico ou mesmo sócio-político da coisa é pouco trabalhado, com o texto insistindo em colocar a Suécia contra a parede, dizendo que o país simplesmente tem que dar asilo a todas as famílias imigrantes que pedirem. Sei muito bem que a onda de imigração é um problema mundial de difícil resolução e que muitos países têm criminosamente se fechado ao recebimento de refugiados. Não é, porém, o caso da Suécia, mas os diretores parecem não se importar muito e pintam o país com toda a frieza possível, inclusive ao usar belíssimas tomadas de drones de paisagens congeladas.

Em outras palavras, no lugar de saciar a curiosidade do espectador abordando, por exemplo, casos de Síndrome de Resignação que existem hoje em campos de refugiados na Austrália ou o porquê de a concentração se dar na Suécia com imigrantes do leste europeu ou, mais ainda, voltando ao passado com situações semelhantes descritas tanto nos anos 90, como também em campos de concentração nazistas na Segunda Guerra Mundial. Nada disso é mencionado e eu só sei porque pesquisei pós-documentário.

Pode ser que esse não tenha sido o objetivo dos cineastas, mas A Vida em Mim ficou incompleto sem que pelo menos essas questões fossem resvaladas no lugar de tentar dizer que a Suécia é intolerante nas entrelinhas (ou não tão nas entrelinhas assim). A solução mágica não me parece ser simplesmente a abertura indiscriminada de fronteiras, mas os diretores parecem achar que é e, com isso, retiram um pouco do peso que seu curta poderia ter.

Mesmo falhando em aprofundar a narrativa na questão principal, A Vida em Mim abre nossos olhos para as consequências nefastas da onda de refugiados nas crianças. Não bastassem as bombas, os ataques químicos e toda a violência física e psicológica como espancamento, tortura e estupro, aqueles que conseguem escapar ainda precisam enfrentar uma condição que, ironicamente, parece ter sido tirada de contos de fada justamente para crianças. Fascinante, sem dúvida. Mas horrível.

A Vida em Mim (Life Overtakes Me/De Apatiska Barnen, Suécia/EUA – 2019)
Direção: John Haptas, Kristine Samuelson
Com: Henry Ascher, Nadja Hatem, Mikael Billing, Karl Sallin, Elizabeth Hultcrantz, Gellert Tamas, Anne-Liis von Knorring
Duração: 40 mim.