Noah Emmerich

Crítica | Confiar (2010)

Na era prévia ao advento dos smartphones e notebooks, dentre outros aparelhos eletrônicos de mobilidade mais ampla que os computadores fixos em nossas salas, escritórios ou quartos, os pais podiam driblar alguns anseios de seus filhos com brinquedos. Era um processo curioso de troca. Ganhar o presente para ficar quieto e deixar a mamãe assistir a novela em paz, ou então, buscar diversão com seu brinquedo e manter o papai espectador do jogo de futebol sem ruídos que pudessem atrapalhar qualquer lance na tela. Hoje esse panorama mudou. A mamãe é quem pode ser a espectadora do jogo, o papai pode estar fixado na novela ou série, bem como os presentes se tornaram agora mais sofisticados, haja vista a quantidade de modelos de tablets, smartphones e outros aparatos tecnológicos. O que mudou além disso tudo?

Os comportamentos e os riscos. Da era dos brinquedos analógicos ao frenético mundo da virtualidade, as famílias passaram por processos de transformação tão abruptos que alguns casos beiram ao ficcional, tamanha a complexidade da situação. A relação do ser humano com os perigos do mundo virtual já foi trabalhada extensamente nos meandros do cinema. Confiar é mais uma abordagem para esta discussão, muito pertinente após uma década de seu lançamento. Muitos tutoriais, palestras, matérias jornalísticas e outros meios didáticos de conscientização já foram exibidos na televisão, nas redes sociais e nos aplicativos, mas parece que mesmo diante de tantas abordagens, ainda não estamos devidamente preparados para as possíveis surpresas oriundas deste admirável e assustador mundo novo que se renova velozmente.

A velocidade do cotidiano em muitos casos não permite que os pais possam acompanhar as redes sociais de seus filhos, os acessos e os contatos realizados em aplicativos, pois a nossa dinâmica atual difere do que tínhamos há duas décadas, por exemplo, era já influenciada pelo virtual, mas que ainda trazia como preocupação maior os perigos do caminho de casa para a escola e as amizades indesejáveis da vizinhança. Na era do smartphone, o perigo pode ser trazido para dentro de casa e ganhar dimensões catastróficas. É o que acontece com a família de Will (Clive Owen) e Lynn (Catherine Keener), pais de Annie (Liana Liberato), uma típica adolescente do mundo globalizado contemporâneo, insegura com sua forma física, sempre a projetar ideais para si com base nas modelos e artistas da mídia.

Eles moram na Califórnia e na abertura da produção somos apresentados a um grupo de pessoas que vive uma aparente vida tranquila, sem estresse, equilibrada, ambiente onde provavelmente essas celeumas jamais penetrariam. Ledo engano. Depois que Will presenteia a filha com um notebook, a vida da jovem muda vertiginosamente. Todas as suas inseguranças são projetadas na rede, o que a leva a conhecer um rapaz, Charlie (Chris Henry Coffey). O encontro é marcado e a jovem, em ebulição com seus hormônios adolescentes, é surpreendida por outra pessoa no local combinado, isto é, um homem mais velho que inicialmente a deixa constrangida, mas que por conta de sua conversa, consegue seduzir a jovem para a sua iniciação sexual. Os pais, ocupados em suas dinâmicas diárias, sequer imaginam toda a situação até o dia que a verdade chega á tona e desestrutura as bases da família aparentemente em ordem.

O tema indigesto, complexo em seus desdobramentos reflexivos, ganha na direção de David Schwimmer uma estrutura didático-pedagógica que funciona mal nos quesitos dramáticos, mas ao menos informa. Com roteiro assinado pela dupla formada por Andy Bellin e Robert Festinger, Confiar é um drama que seria bem mais atraente se apostasse na estrutura documental, pois ao passo que os acontecimentos vão ganhando forma e os conflitos se desdobram em busca de resolução, observamos a urgência de um tutorial. Schwimmer, um dos responsáveis pela ONG Rape Foundation, grupo de apoio às vítimas de assédio e afins, permite que o seu filme apresente ao público como funciona o perfil de um predador sexual na rede, bem como ilustra a forma que a polícia estabelece táticas para investigação criminal na rede.

É tudo bem ilustrativo e funciona em prol da reflexão, mas como entretenimento, a narrativa falha miseravelmente. Convencional, o drama aposta na denúncia, faz críticas ao American Apparel e sua moda publicitária que sexualiza jovens, no entanto, nada disso nos permite ir além do conhecimento em torno de questões que tal como abordado antes, seriam mais orgânicas numa estrutura documental. Sem apostar em seus personagens, a direção e o roteiro perdem a oportunidade de nos aproximar, de nos importar com os momentos catárticos, afinal, se não nos identificamos com as criaturas que circulam pela história, a função emotiva se mantém desconectada e não há interesse no que é desenvolvido na tela. Isso é Confiar enquanto drama.

Outro problema: por causa dessa disfunção narrativa, alguns espectadores podem perder o interesse até mesmo pelo didatismo do filme. A mensagem, então, interesse maior da narrativa, pode ser sublimada por esse desinteresse e transformar a experiência em algo ainda mais comprometido. A condução musical de Nathan Larson não empolga, mas funciona bem nas cenas mais contemplativas, voltadas ao drama em profusão, acompanhamento válido para a eficiente direção de fotografia de Douglas Crise, responsável por quadros e movimentos sutis, sem excessos, equilibrados com o ritmo da trama. O design de produção de Michael Shaw também é eficiente, em especial na construção do ambiente doméstico, fornecendo ao filme um clima de família bem estabelecida que logo é destroçada pelos acontecimentos expostos no texto.

Ademais, ao longo dos seus 106 minutos, Schwimmer demonstra ser um ator que sabe gerenciar uma produção cinematográfica. O problema é que a sua escolha didática é morna demais, sem coragem de avançar um pouco mais no polêmico tema, ficando, então, na superfície. O final da trama encerra de acordo com o que geralmente gostamos de contemplar, a normalidade das coisas, a família em busca de reorganização, etc. A mãe ocupa o espaço da agente preocupada com os desdobramentos psicológicos na vida da filha e anseia pela justiça prometida pelos policiais. O pai, por sua vez, arrasado com os acontecimentos, também busca a justiça, mas é quem corre atrás, literalmente, da resolução do caso. Ele é quem protagoniza as breves cenas de tensão. Revoltado, reflete a sua própria condição de publicitário que ao longo da vida lucra com as fotografias de jovens em posicionamentos comprometedores, sexualizados, realidade que ganhara novos contornos depois que a sua filha é vítima de algo que ele sequer havia refletido antes. São conveniências do roteiro, não trabalhadas de maneira suficiente para tornar o filme um entretenimento reflexivo empolgante.

A assistente social Gail Friedman (Viola Davis), em seus diálogos expositivos-explicativos, nos delineia o perfil dos predadores que habitam a rede, isto é, homens mais velhos, alguns casados e com família estabelecida, mas alimentadores de seus anseios pedófilos na destruição das estruturas de outros grupos, um problema cada vez mais crescente no atual mundo da conexão virtual. São “monstros” que captam as variadas garotas como Annie, inseguras, ansiosas e perdidas diante de suas transformações adolescentes. Por meio de logins e IPS difíceis de rastrear, esses seres do submundo virtual confundem as fronteiras, estabelecem a ameaça e muitas vezes causam estragos que não são contornáveis como a história desenvolvida em Confiar. Sinal dos nossos tenebrosos tempos. O que nos resta é a esperança de conseguir contemplar o maior número de conscientizações possíveis e diminuir o impacto de algo praticamente inevitável em nossa dinâmica contemporânea.

Confiar (Trust) – EUA, 2010
Direção:
 David Schwimmer
Roteiro: Andy Bellin, Robert Festinger
Elenco: Brandon Molale, Catherine Keener, Chris Henry Coffey, Clive Owen, Garrett Ryan, Jason Clarke, Liana Liberatz, Nicole Forester, Noah Crawford, Noah Emmerich, Viola Davis
Duração: 105 min.

Crítica | Super 8

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Na oportunidade do diretor J.J. Abrams fazer seu filme em homenagem a Steven Spielberg, ele também exercita, no cinema pós-moderno, a revitalização do drama familiar com o típico suspense alienígena, usando uma interface metalinguística que a câmera Super 8 proporciona para o filme alcançar a conjugação do mundo infanto-juvenil com o universo militarizado de invasão extraterrestre.  

Quando se conhece melhor a filmografia de Steven Spielberg, é possível compreender sua linguagem de encantamento para os temas tratados em seus filmes. Recursos como zoom, gradualmente usado em rostos que olham para o horizonte, escondem do espectador a perspectiva frontal, limitando apenas à perspectiva do personagem que observa algo. Outro recurso é com um movimento de câmera chamado dolly, quando há uma dramatização do contexto e lugar, um tipo de zoom sem mexer na lente, apenas nos trilhos em que a câmera se movimenta, levando quem assiste ao filme a uma aproximação do local em que haverá uma ação determinante na narrativa. O diretor J.J Abrams não apenas utiliza a mesma forma técnica de maneira mais ágil como também homenageia Spielberg pela história que conta. A temática familiar como centro dramático do filme e a trilha sonora melancólica/esperançosa do compositor Michael Giacchino, que reafirma esse centro repetidamente, humanizam o suficiente para que o fantasioso seja válvula de escape e o suspense caminhe para contribuir na ressignificação do conflito do tema. 

Dessa forma, pode-se lembrar de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. de Steven Spielberg, mas apesar de semelhanças, Abrams utiliza o deslocamento temporal (1979), que remete ao mesmo espaço temporal desses filmes de Spielberg, para possibilitar sua narrativa ambivalente em nostalgia fílmica e atendimento a anseios mais contemporâneos. O foco do filme parece ser um acidente de trem, em que alguns garotos e uma garota (Elle Fanning) presenciam por estarem gravando seu filme de zumbi com uma Super 8. Mas quando se entende nas primeiras cenas do filme que a mãe do protagonista Joe Lamb (Joel Courtney) trabalhava em uma metalúrgica e cuidava do filho enquanto o pai era subdelegado da polícia e vivia fora de casa, compreende-se a proposta pós-moderna de retratar uma mulher em um ambiente de trabalho com maioria masculina, assim como uma mãe atenciosa. J.J enfoca em verdade nesse drama familiar, concedendo um mistério quanto a interpretação de uma tragédia envolvendo Elisabeth Lamb (Caitriona Balfe), mãe de Joe, e colocando os homens adultos de seu filme em posições frágeis, em que precisam se provar autossuficientes, seja em seus empregos ou por ausências de mulheres em casa para cuidar de seus filhos. É nessa situação que o grande suspense do monstro escondido é usado como artifício visual, alavancando principalmente os dramas entre Joe e seu pai Jackson Lamb (Kyle Chandler).

A partir dessa nova dinâmica familiar, principalmente se comparada a de E.T. – em que o pai é quem na verdade desaparecia na história daquele filme – a tarefa autoral do roteiro de Abrams começa a ser colocada à prova. Os adolescentes, ao trazerem à tona a gravação de filmes, com a especificação criativa de cada integrante, colocam em pauta o exercício de conexão de um mundo miniaturizado para efeitos especiais e o valor de produção do mundo real. Ou seja, um reflexo do mundo deles no subúrbio de Ohio em comparação ao mundo aparentemente cinematográfico de eventos descomunais envolvendo militares, explosões, armas e mortes de verdade e não falsas como no filme de zumbi que eles constantemente aparecem gravando dentro do filme Super 8. É nisso que consiste o revitalizar do drama, pois é das relações familiares tratadas no filme de maneira mais particular que a metalinguagem transforma tanto o drama, como permite o alcance mais interligado da melancólica situação familiar ao suspense de invasão alienígena.

Por isso pode-se perceber como o diretor usa conexões objetificadas para usar sua metalinguagem como interface. O carro que é mostrado no prelúdio dramático – sobre o acidente com a mãe de Joe – é, também, o utensílio para o engate da aventura dos adolescentes de gravar o filme. Na ação da Super 8 no filme existe tanta a captação da atuação de Elle Fanning como personagem Alice, como também a esposa do detetive no filme de zumbis. Nesse processo, há dois gatilhos: o primeiro para o drama circunstancial, causado pela atuação multifuncional de Alice que emociona Joe e seus amigos, o segundo para relembrar o drama prelúdio, pois há uma esposa pedindo atenção ao marido de cargo investigativo – semelhante ao pai de Joe -, e o terceiro para a preparação do suspense, quando um trem passa pelo cenário da gravação, um valor de produção literal, como diz o juvenil diretor Charles (Riley Griffiths).

Ao longo da narrativa, além de Alice, que serve como atriz, Joe como maquiador, Cary (Ryan Lee) como projeto de Michael Bay com efeitos práticos de explosões, Preston (Zach Mills) como captador de som, Martin (Gabriel Basso) como intérprete do detetive de zumbis e Charles como diretor, todos os integrantes servem minuciosamente para a progressão da história. No caso de Joe, Alice e Charles, suas funções são reflexo de suas personalidades dramáticas e interações que injetam a problematização da puberdade, esfera controlada se comparada a um ambiente caótico que a cidade (Lillian) deles se transforma.

Como é de praxe em filmes de invasão extraterrestre, ou de mistério com alienígenas, o governo, por meio dos militares, torna o sigilo em insegurança, enquanto ataques diretos e indiretos à população ocorrem. Assim como a função dos garotos na produção do filme, a função profissional do pai de Joe como policial influencia da mesma forma no interligar do contexto maior de caos social – que um policial deve proteger – como no contexto familiar, que ironicamente como pai também deveria proteger o filho. Então, na busca de proteção, de superação da perda da mãe, ele é maquiador de sua realidade, o que faz trens de brinquedos e carrega a lembrança de sua mãe a todo momento no bolso, uma espécie de mcguffin – objeto que move parte da narrativa, mas é irrelevante em boa parte do tempo – que J.J Abrams utiliza em seus roteiros. Mais uma objetificação do drama, assim como o carro, mas agora de maneira mais explícita e por vezes tão reincidente que soa simplista demais em proporção à sutileza que organiza o drama do filme  

E assim como o filme constantemente se rearranja para que a realidade verdadeira venha a ser trabalhada, seja em retomar o drama familiar, no aparecer do ser misterioso, ou com a interface metalinguística de fazer um filme de zumbis, Alice e seu pai Louis (Ron Eldard) são a conexão final que o diretor alcança a humanidade que submete toda a sua trama.

Alice não é uma mera paixonite adolescente e Louis, um pai irresponsável ou frágil sem a esposa. O casting de Elle Fanning se torna precioso pois a atriz carrega o trabalho difícil de trazer Joe à realidade de maneira convincente. Ela precisa interpretar seus personagens nos filmes dos garotos e sua própria personagem Alice que, em conjunto, faz a realidade maquiada de Joe ser real, que ele se importe novamente com sua vida, como sua mãe aparentemente lhe causava. Joe não permite que seu trem de brinquedo seja destruído e toma a iniciativa de resolver o mistério do filme. Da mesma forma, quando Louis vê o monstro e se mostra enlouquecido, isso também se torna conexão à realidade da invasão que Joe passa a acreditar, quando conversa com pai de Alice . Enquanto seu pai, Jackson, precisa entrar no gênero de ação, assim como nos filmes do filho, para entender a realidade, se travestir de militar para assumir o papel de pai. Desse modo, a interface da metalinguagem vai se esvaindo até Abrams entregar um filme de invasão extraterrestre, principalmente quando o diretor Charles confronta o maquiador que conquistou a garota e fica de fora da ação para cuidar de Martin, seu ator protagonista.

Por fim, se torna um filme sobre conexão emocional em si, que até o alien consegue sentir. E o resultado de que tudo não passa de um acidente, um fato fatídico. Na verdade, isso não torna o filme de conclusão aleatória, e sim de que as coisas não acontecem por acaso, embora não se discuta sobre as transformações. Tais mudanças são exercitadas na imagem, objetos e funções de roteiro que podem até “tecnicizar” o filme pretensamente intimista de J.J. Abrams; porém, em seu espírito “spielberguiano” de inocência é que sua tal técnica modernizada inspirada em Spielberg é um espelhamento do filme como um todo. Os zoom e a captação de olhares que se abrem para uma nova realidade, ou melhor, para a verdadeira realidade.

Super 8 (Super 8) – EUA, 2011
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams
Elenco: Joel Courtney, Ryan Lee, Zach Mills, Riley Griffiths, Gabriel Basso, Elle Fanning, Kyle Chandler, Ron Eldard, Glynn Turman, Caitriona Balfe, Noah Emmerich.
Duração: 112 min.

Crítica | The Hot Zone – Minissérie Completa

O que pode ser mais contagioso que o medo? A minissérie The Hot Zone – Zona de Risco consegue responder ao questionamento no desdobramento dos seis episódios focados na interpretação do paciente zero e de seus contagiados, bem como na chegada do vírus ebola nos Estados Unidos, território que o cinema já fez questão de apresentar como ambiente da histeria coletiva em diversas ocasiões. Sob a direção de Michael Uppendahl e Nick Murphy, guiados pelo roteiro de Kelly Sauders e James V. Hart, dupla responsável pela adaptação do livro homônimo de Richard Preston, a produção foi concebida pela National Geographic, eficientes ao colocar a veterana Julianna Margulies para ocupar o papel da pesquisadora protagonista da história.

Logo na abertura, uma cena bem erguida pelos realizadores estabelece o clima de perigo da narrativa. Somos apresentados ao paciente zero, um homem que passa por situações conflitantes no retorno de uma viagem, tomado pelos sintomas geralmente atribuídos a uma virose: suor, dores de cabeça, vômito constante com traços de sangue, dentre outras coisas desagradáveis. Entre os acontecimentos presentes, situados em 1989, e os flashbacks, seguimos sem linearidade a descrição desta história, contada sob o ponto de vista dos personagens que investigam o assunto há tempos. O que conecta o presente com o passado é a morte de macacos num centro de pesquisa situado em Reston, na Virginia.

Esse é um dos principais pontos da investigação diante de algo que os poderosos das Forças Armadas e políticos querem esconder de qualquer maneira: a possibilidade de um contágio em larga escala nos Estados Unidos. Nancy (Margulies) é a responsável por dar os primeiros passos na análise do vírus e nos avisos constantes sobre a necessidade de manter a sociedade em estado de alerta, algo que desagrada as autoridades desejosas da manutenção de uma suposta ordem. No Departamento Médico do Exército dos Estados Unidos, Nancy consegue obter os seus primeiros resultados, constantemente freada pelos desinteressados na midiatização da história.

Coordenadora de Peter (Topher Grace) e Ben (Paul James), cientistas financiados pelo Pentágono, experientes na manipulação de patógenos nocivos, Nancy não mede forças para descobrir questões mais amplas do vírus desconhecido, numa luta que terá até mesmo o seu marido Jerry (Noah Emmerech) como obstáculo, homem receoso dos perigos que a amada corre ao adentrar neste terreno de novidades. Uma de suas principais preocupações é o problemático mentor de Nancy, o inconstante Wade (Liam Cunningham), conhecido por seu temperamento nada ameno, profissional eficiente, mas sem cautela quando a missão é lidar com as artimanhas do poder.

Wade é parte do circuito narrativo dos flashbacks no Catar, na década de 1970, trecho de interação do personagem com os pesquisadores Travis (James D’Arcy) e Melinda (Grace Gunner), todos envolvidos nos perigos da disseminação de um vírus ainda não estudado. Serão os desdobramentos desta época que definem a relação de Wade com Travis, feixe de situações que nos ajuda na compreensão do atual status da amizade de ambos. Foram períodos que ninguém, em ambas as décadas 1980, conhecia protocolos adequados para lidar com uma possível epidemia de ebola.

Tensa em sua primeira metade e menos empolgante nos episódios finais, The Hot Zone – Zona de Risco é uma minissérie que expõe diversos temas interessantes mesmo diante da sua substancial perda de ritmo no desfecho, menos envolvente que o período de estabelecimento e desdobramento da crise. A força motriz da trama é o engajamento da protagonista diante do machismo, das tensões em torno de um vírus que não possui vacina, da preocupação constante por conta de algo que podia ter gerado uma epidemia generalizada, detalhes apresentados pelo desempenho dramático de Julianna Margulies e sua interação com os figurinos que envolvem luvas, roupas protetoras, uso de água sanitária e outros detalhes que reforçam o caráter didático da história.

A equipe técnica responsável por transformar o roteiro em material audiovisual faz o trabalho de maneira competente, sem momentos muito memoráveis, mas capazes de narrar os dramas propostos no texto dos episódios que giram em torno dos 43 minutos de duração. Na direção de fotografia, a dupla François Dagenais e Cameron Duncan dividem as seis partes em três para cada, materiais entregues com unicidade, sem diferenças gritantes nos enquadramentos, movimentos e iluminação. O design de produção, importante para a imersão do espectador num clima militar e de pesquisa também funciona bem, assinado por Mark Hutman. Ele coordena Emilia Roux, Nigel Hutchins e Crystal North, trio responsável pela cuidadosa cenografia, ambientes para circulação dos personagens em suas dinâmicas devidamente representadas pelo setor visual. A condução sonora de Sean Callery também funciona bem, dentro das necessidades dramáticas da série, material, no geral, satisfatório diante de suas propostas.

Produzida pela Scott Free, do cineasta Ridley Scott, a minissérie em questão desenvolve tópicos interessantes sobre microbiologia, ao flertar com os perigos de um vírus que diferente das bactérias, geralmente combatidas com antibióticos, precisam de medicamentos específicos. Cada época possui a sua epidemia representativa, sendo o ebola uma das preocupações responsáveis por tirar o sono de cidadãos e especialistas na larga escala do tecido social estadunidense. Catalisadores do medo, não é de hoje que os vírus surgem como protagonistas de situações histéricas coletivas. A presença do inimigo invisível é de deixar qualquer um inseguro e apavorado. Não apenas destrutivo em sua dimensão física, vírus dessa magnitude questionam vínculos sociais. É o marido que precisa se afastar da esposa e dos filhos por conta do possível contágio durante as atividades no laboratório, é a desconfiança do colega de trabalho ou do vizinho que sentimos a necessidade de manter distantes. Em suma, é o caos distribuídos em vertentes múltiplas. A contrapartida das facilidades obtidas pelo movimento que chamamos de globalização.

The Hot Zone – Minissérie Completa /Estados Unidos, 2019
Criação: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Direção: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Roteiro: Kelly Souders, Bryan Peterson
Elenco: Julianna Margulies, James D’Arcy, Topher Grace, Liam Cunningham, Noah Emmerich, Paul James, Lenny Platt, Robert Wisdom, Nick  Searcy, Mark Kelly, Grace Gummer
Duração: 45 min. por episódio (06 episódios no total)

The Hot Zone – Minissérie Completa /Estados Unidos, 2019
Criação: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Direção: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Roteiro: Kelly Souders, Bryan Peterson
Elenco: Julianna Margulies, James D’Arcy, Topher Grace, Liam Cunningham, Noah Emmerich, Paul James, Lenny Platt, Robert Wisdom, Nick  Searcy, Mark Kelly, Grace Gummer
Duração: 45 min. por episódio (06 episódios no total)