Nida Manzoor

Crítica | Doctor Who – 12X05: Fugitive of the Judoon

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Inicialmente eu pensei em só a escrever a crítica deste episódio em conjunto com o próximo, para falar do arco todo. Depois eu me dei conta de que haveria muito para falar e que dividir a argumentação em dois blocos seria a melhor coisa a se fazer. Adotarei, porém, a minha política de paciência desesperada que vocês puderam ver em Spyfall – Part One. Isso quer dizer que: não farei o julgamento da “grande revelação” agora, porque o que temos é apenas isso: a revelação. E embora eu não acredite que tudo seja entregue no capítulo da próxima semana, sei que o bastante será dado para que a gente entenda quem diabos é a “Doutora” interpretada por Jo Martin. Só digo uma coisa: continua mentindo pra mim, BBChibnall! Continua! Agora vamos aos refrescos.

Eu adoro os Judoons. Criados por RTD lá em Smith and Jones, esses rinocerontes bípedes constantemente agindo como força policial mercenária, trabalhando cegamente segundo os protocolos e punindo de forma exagerada qualquer violação às leis que nem todos conhecem, eles sempre me pareceram o tipo de vilão perfeito para um roteiro sobre autoridade, justiça ou algo mais ou menos na linha de espionagem (olha só a temática de novo!), ação e fuga alçar voo suavemente. E em Fugitive of the Judoon isso de fato acontece.

Escrito por Chris Chibnall e Vinay Patel (mesmo autor de Demons of the Punjab), o episódio serve como a construção de mais uma ponte para algo que deve deslanchar com força agora na segunda metade da temporada, de um lado envolvendo a relação da Doutora com o Mestre, e de outro, o conceito da Criança Atemporal + o mistério sobre Ruth — coisas que imagino que irão se afunilar para o drama da destruição de Gallifrey. Nesse ambiente, temos um aproveitamento verdadeiramente interessante dos rinocerontes mercenários, longe da abordagem cômica que eles tiveram em Sarah Jane Adventures e ligados a um serviço que, para surpresa de ninguém, coloca Gallifrey no centro da busca. A surpresa, na verdade, foi o quê eles buscavam, intermediados pela gallifreyana Gat (Ritu Arya).

A história segue de maneira ágil e interessante, com uma intervenção providencial da Doutora para um caso atípico de caça dos Judoons na Terra, mas que acaba se desenrolando para algo ainda maior. O texto, nesse sentido, é quase cirúrgico. Eu ainda tenho problemas com a dinâmica de companions, mas para mim houve uma melhora de quase cem por cento em relação à 11ª Temporada, o que faz com que certos tropeços em relação a essa família sejam vistos com menos raiva (nota: a conversa final, por mais bela que tenha sido pensada, me pareceu forçada por parte dos companions, o único ponto do episódio que eu olho e falo: “isso foi ruim“). Desse modo, Doutora e gangue estão envolvidos nessa misteriosa busca que leva a Time Lady para um lado e os terráqueos para outro, ligando-os à primeira e estupenda surpresa do episódio: o Capitão Jack Harkness (John Barrowman). Quem diria que seria logo o hateado Chris Chibnall quem atenderia a um pedido antigo dos fãs da série nos últimos 10 anos, não é mesmo? E que prazer em ver esse fenomenal personagem de volta!

Mesmo em uma sequência rápida e editada em alternância, o roteiro sabe tratar muito bem o Capitão, brincando com sua pansexualidade, sua comicidade, um pouco de acidez e diálogos rápidos, verdadeiro deleite para o público e surpreendentemente bem escrito (se eu soubesse que ele iria aparecer de fato, estaria tremendo de nervoso, porque né…). E aí temos Ruth. O que eu tenho para falar dessa mulher é que: eu amei cada segundo dela na tela. Eu amei o figurino dela. Eu amei o amálgama de personalidades dela. Eu amei a interação dela com a Doutora (Jodie está ótima nesse episódio, por sinal). Eu amei o mistério, a impossibilidade, o uso do Chameleon Arch para a restituição de suas memórias e personalidade originais. Eu estou encantado. A única coisa que eu espero é que, o que quer que estejam aprontando nas sombras, que seja bem feito. Porque se for, não me importa o quê. Eu já comprei a premissa — embora ache que estão mentindo para nós.

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UM PEDIDO MUITO IMPORTANTE PARA QUEM FOR COMENTAR

Se você for falar sobre teorias e rumores  no seu comentário, por tudo o que é mais sagrado nesse mundo, coloque-as em uma parágrafo separado do seu comentário geral, com o aviso de “TEORIAS ABAIXO!“. Eu estou fugindo de toda e qualquer teoria aprimorada e rumores diversos a respeito dos episódios, e preciso desse aviso para saber onde parar de ler os comentários que trouxerem essas ideias. Mas encorajo quem quiser escrever sobre, porque tem os que não se importam com isso e gostam de se aprofundar e discutir teorias. Sigam em frente! Só deixem marcado o momento onde você começará a falar sobre o assunto!

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SOBRE A POSSIBILIDADE DE RETCON

Esta é a óbvia primeira impressão que podemos ter do que foi apresentado nesse episódio, certo? Sobre esse assunto, já vou deixar aqui a minha opinião, porque aí não preciso voltar a ele no próximo episódio. Minha ideia sobre retcons é exatamente a mesma que tenho sobre sequências, pré-sequências, spin-offs e afins: paradoxalmente humana. O que isso quer dizer? Simples: em teoria, eu não gosto de nada disso. Eu preferia ter um produto inédito, original, no lugar de cada uma dessas coisas. Mas aí vem o paradoxo humano: mesmo não gostando da possibilidade (normalmente porque tenho um acúmulo de más experiências com isso), eu estou totalmente disposto a abraçá-las se:

  1. A premissa e apresentação para essas coisas forem interessantes e bem vendidas;
  2. A execução do projeto for de qualidade;
  3. A relação direta com o original não o descaracterize, não retire a sua essência.

E no fim você pode dizer: “ah, mas isso é tudo muito pessoal” e sim, é isso aí mesmo. É a minha visão sobre a questão e tenho certeza que você também tem a sua. Coisa de seres humanos, não é? Cabeças e corações diferentes, ideias e sentimentos diferentes. Assim, se de fato a coisa for o que se vendeu para nós aqui, minha ideia inicial é de medo e rejeição. Mas pela minha crítica acima vocês já viram que o ponto 1 da minha lista de três foi cumprido. Se não falharem nos outros dois, cá estará mais um paradoxo de consumo ganhando a luz.

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SOBRE O “EFEITO PRÓXIMO DOUTOR”

Alguns amigos me escreveram aludindo à possibilidade de isto ser igual ao que vimos em The Next Doctor, com David Morrissey vivendo “Um Doutor”. Está claro, porém, que não é a mesma coisa. Ainda no primeiro ato daquele Especial de Natal a gente já tinha sacado que não se tratava DE FATO de um outro Doutor. Aqui, a personagem de Jo Martin é completamente diferente. Ela tem uma TARDIS, ela é uma Time Lady e ela é DE FATO a mesma pessoa (outra encarnação) da 13ª! Isso também não é teoria, pois está literalmente dito no episódio! Desse modo, não estamos diante de um “Efeito Próximo Doutor”. O que quer que seja, é outra coisa. E a única alusão próxima disso que já tivemos na série, que eu consigo me lembrar, foi aquela cena ou interpretação (polêmica? Para mim, não) de batalha mental do 4º Doutor contra Morbius em The Brain of Morbius. Ai ai ai…

Doctor Who – 12X05: Fugitive of the Judoon (Reino Unido, 26 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor, Jamie Magnus Stone
Roteiro: Chris Chibnall, Vinay Patel
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Jo Martin, John Barrowman, Neil Stuke, Ritu Arya, Paul Kasey, Richard Price, Nicholas Briggs, Michael Begley, Katie Luckins, Judith Street
Duração: 45 min.

Crítica | Doctor Who – 12X04: Nikola Tesla’s Night of Terror

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Depois de Orphan 55, creio que a maioria de nós estava com os dois pés atrás em relação ao que poderia aparecer na série e ora… vejam só que coisa interessante veio a seguir! Um episódio histórico (e daí já é possível ficar nervoso só com a ideia, porque não é fácil fazer arcos históricos funcionarem bem) que coloca na tela um dos grandes gênios da História: Nikola Tesla. Segundo a própria sinopse da BBC, o episódio se passa em 1903, e embora a Doutora diga “1900” para a vilã, eu entendi como se ela estivesse se referindo à década (os anos 1900) e não a este ano em específico. A rigor, porém, isso não importa muito.

Um dos impasses que eu pessoalmente tenho quando vejo representações de duas personas históricas “rivais” na ficção (Mozart X Salieri é um dos casos mais famosos) é o fato de os roteiristas — no presente caso, Nina Metivier — caírem na armadilha dramática de gerar conflito não diante da simplicidade factual entre os indivíduos, mas diante de declarada criação de guerra e ódio por um, em oposição ao louvor do outro. Evidente que eu sei que se trata de uma ficção e não de um documentário, e também sei que Thomas Edison era relativamente parecido com o que o texto mostra aqui. Mas ele não era nada estúpido, e muitas vezes isso é praticamente esfregado na nossa cara durante o episódio. Sim, Tesla era um homem muitíssimo mais sagaz, inteligente, melhor cientista/inventor e até melhor pessoa que Edison, mas ainda assim retratar Edison do jeito que majoritariamente retrataram nesse episódio me pareceu um exagero bobo, que poderia ser evitado.

Essa posição mais pessoal, no entanto, não me impediu de aproveitar a história. Em primeiro lugar, é maravilhoso ver uma interação tão orgânica entre personalidade histórica e Doutora, o que valida de imediato a trama. Sendo Tesla e Edison inventores, homens da ciência, a presença de ambos com o tipo de ameaça que temos aqui parece algo esperado, compreensível que tenha acontecido, ainda mais quando falamos desse tipo de vilã, a Rainha dos Skithra (Anjli Mohindra, a Rani de Sarah Jane Adventures), povo aparentemente primo dos Racnoss, que nesse caso está recolhendo sucata e artefatos de diversas raças pelo Universo. Usando uma nave venusiana, armas silurianas, unidade de dobra klendoviana, ressonador dulliriano e um orbe de Thassor (alterado e enviado especialmente para encontrar Tesla), a Rainha dos Skithra se mostra uma sobrevivente a todo custo e sua presença na Terra é ao mesmo tempo um genial e acidental evento.

Alguns espectadores devem ter se perguntado se a brincadeira com Tesla receber sinais de Marte tinha algum fundo de verdade ou era apenas um elo de ligação com a parte puramente sci-fi do episódio. Pois bem, a resposta é sim, o verdadeiro Tesla de fato tentava se comunicar com Marte e deixou escapar isso em 1899 para um pequeno grupo de espectadores de suas invenções, o que gerou as risadas e zombarias que o presente texto retrata muito bem. Num primeiro momento eu não queria aceitar a presença desses vilões na Terra, mas a ligação dos pontos é realmente muito bem feita: o Tesla de Doctor Who recebe uma mensagem de rádio vinda de Marte e a responde. Daí acha que não vai dar em nada, mas na verdade atrai os Skithra para a Terra, que a mando da Rainha começam a procurar pelo homem que respondeu o sinal. É um plot simples, mas bem fechadinho, assim como o plano geral da Doutora e de Tesla para vencer o inimigo da vez. Em aventuras desse porte, normalmente o ponto final força demais barra, mas aqui a iniciativa funciona. Não é perfeita (especialmente pela presença da Rainha no laboratório), mas funciona.

A atuação de Goran Visnjic como Nikola Tesla é incrível. Gosto da delicadeza que ele imprime ao personagem em diversos momentos, o jeito que ele tem de conter a raiva e principalmente a representação de seu pensamento científico e visão de mundo. Aquele diálogo que ele tem com a Doutra sobre inventar coisas, sobre ser diferente, sobre pensar coisas que os outros não entendem é tocante e ao mesmo tempo muitíssimo condizente com mentalidades científicas à frente de seu tempo. Um dos momentos mais legais do episódio, onde a Doutora, mais uma vez, tem seu espaço para brilhar e os companions, mesmo não tendo tanta coisa para fazer, pelo menos são colocados em um bom ritmo de afazeres fora da tela, de modo que não parece que eles foram apenas esquecidos no churrasco.

Dos setores técnico, a melhor coisa desse episódio é definitivamente a trilha sonora. Tanto o acompanhamento simples como os temas específicos compostos para personagens são belíssimos, e meu maior destaque vai para aquele puro e sensacional ataque da orquestra que a gente ouve quando a câmera vai aumentando o alcance da lente e mostra a nave como um todo, revelando o perigo que Yas e Tesla estão correndo. A música nesse momento dá medo e engrandece imensamente a cena, me lembrando a mesma dinâmica que ouvimos em Demons of the Punjab, só que dessa vez mais intensa, mais sombria e com muito mais destaque na edição de som.

O pêndulo da qualidade da série agora parece que está novamente no campo das coisas interessantes. Que as ondas da corrente alternada nos tragam episódios nesta mesma seara até o fim da temporada. #amem

Doctor Who – 12X034: Nikola Tesla’s Night of Terror (Reino Unido, 19 de janeiro de 2020)
Direção: Nida Manzoor
Roteiro: Nina Metivier
Elenco: Jodie Whittaker, Bradley Walsh, Tosin Cole, Mandip Gill, Robert Glenister, Goran Visnjic, Anjli Mohindra, Haley McGee, Paul Kasey, Robin Guiver, Erick Hayden, Russell Bentley, Brian Caspe, Shaun Mason
Duração: 45 min.