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Crítica | O Declínio (2020)

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Apesar de ser um tema já não tão novo no cinema — vide Mal do Século (1995), de Todd Haynes — , não poderia ser mais atual um filme que explora as lavagens cerebrais feitas por gurus na população através de suas teorias da conspiração. Aliás, para aumentar a coincidência com nosso atual momento, O Declínio também não deixa de ser sobre quarentena e fim dos tempos.

Na trama, conhecemos Antoine (Guillaume Laurin) e sua família. Ainda que você seja ou conhece alguém treinado para tragédias em grande escala, nada supera o nível de preparação deste homem. Quase diariamente, ele acorda sua esposa e filha na madrugada, no susto, para que elas se arrumem rapidamente e eles saiam de carro em direção a ponte da cidade em que vivem. O motivo? Cronometrar o tempo e a cada dia tentar bater um novo recorde. Obviamente, todo esse comportamento é influenciado pelo guru youtuber Alain (Réal Bossé).  

Buscando aprimorar suas “habilidades” de sobrevivência, Antoine e sua esposa vão para um acampamento promovido por Alain, isolado no meio de uma floresta. Lá, eles conhecem outros inscritos no programa e passam a conviver entre si, até que, gradualmente, eles vão descobrindo que não concordam com todas as atitudes daquele homem e que sua metodologia pode ser um tanto quanto radical e desumana.

Apesar de sua premissa interessante e a curta duração de 83 minutos, O Declínio é cansativo. Primeiramente, porque sua introdução é demasiadamente longa. Até o grupo do guru perceber que alguma coisa está errada, já se foi metade do tempo de filme. Por outro lado, não há como negar que o roteiro assinado triplamente (Laliberté, Dionne e Krief) sente prazer em evidenciar as paranoias, preconceitos e as contradições daquelas pessoas, abrindo minimamente o debate para aspectos morais. 

Contudo, isso tudo é descartado para virar um exercício vazio do gênero de perseguição na neve, quase como um gato-e-rato, que vai, justamente, eliminando os personagens que havia aprofundado anteriormente. Ora, me pergunto, não seria mais proveitoso se assumir desde logo como um suspense despretensioso ao invés de gastar tempo tentando parecer um pouco mais complexo? Ou ainda fazer o inverso, se aprofundando na moralidade e na ética que cada escolha feita por aqueles personagens significa.

De mesmo modo, nem considerando O Declínio apenas por sua metade final, na qual vira uma espécie de thriller, dá para dizer que o diretor Patrice Laliberté é eficiente em criar uma atmosfera suficientemente tensa, uma vez que rejeita os artifícios de uma trilha sonora na tentativa de deixá-la mais realista. Pelo contrário, ao rejeitar um certo senso de urgência uniforme, a aposta está em criar picos de tensão que surgem em momentos inesperados, como a explosão da bomba, a armadilha acionada ou a queda no lago. O problema é que isso tudo vai acontecendo com pessoas que nem nos importamos o suficiente.

No fim, a falta de punho firme na decisão dos rumos de O Declínio prejudica o longa. Assim, ele fica tanto no meio termo, dando somente uma pincelada em temas importantes e estudando rasamente seus personagens, como também jamais se entrega numa atmosfera austera de suspense sádica. O que sobra é apenas a evidência de que aquelas pessoas se cegaram tanto com suas preocupações sobre o mundo a ponto de esquecerem que talvez o próprio ser humano e sua natureza sejam o problema.

O Declínio (Jusqu’au déclin / The Decline) – Canadá, 2020
Direção: Patrice Laliberté
Roteiro: Patrice Laliberté, Charles Dionne, Nicolas Krief
Elenco: Réal Bossé, Marc-André Grondin, Guillaume Laurin, Marie-Evelyne Lessard, Marc Beaupré, Marilyn Castonguay, Guillaume Cyr, Isabelle Giroux, Juliette Maxyme Proulx
Duração: 83 min.

Crítica | Coffee & Kareem

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Comédia é um gênero complicado. Mais do que qualquer outro gênero ou tipo específico de filme — incluindo aqui aqueles terrores que desafiam a cada segundo a nossa suspensão da descrença; os dramas com 9 mil símbolos a cada segundo e até aqueles pseudo-políticos de finais abertos que trazem à toda todas a viagens de ácido do público afetado por esse tipo de produção –, as comédias dependem de um conjunto maior de elementos para funcionar e, por mais intensa, dura e agressiva que seja, se não tiver a delicadeza de saber onde aparecer, o que ocultar e que botões apertar, a obra se tornará uma tentativa desesperada pelo riso, o que torna o produto patético. Coffee & Kareem (2020) pende para esse lado da corda.

O diretor Michael Dowse dirigiu um filme bastante similar na safra anterior, Stuber: A Corrida Maluca (2019), cuja fórmula é trocada aqui para uma dinâmica que quase todo mundo gosta: um adulto (normalmente um homem) tentando estreitar laços e convencer uma criança ou adolescente a fazer alguma coisa, na maioria das vezes… apenas conviver civilizadamente. A temática é antiga e faz o público rir disso no cinema pelo menos desde Shirley Temple! Assim, a primeira coisa a se considerar no longa é o fato de que estamos em um território onde pelo menos alguma coisa, nem que seja isoladamente, terá um bom princípio narrativo.

Um policial branco chamado — wait for it… — Coffee (Ed Helms, que continua sem graça) está namorando uma mulher negra chamada Vanessa (Taraji P. Henson) e é com o filho dessa mulher, Kareem (Terrence Little Gardenhigh), que o roteiro fixa a briga que sustenta o filme, numa relação “pai-e-filho” dentro de uma comédia de ação, tendo o mundo dos policiais corruptos como agravador do problema. Como comentei antes, ao menos a premissa dessa relação funciona, e em parte o comportamento dos personagens é ao menos capaz de ensaiar ou gerar algumas risadas na primeira parte do filme. Com piadas que vão do exagero puro e simples do comportamento de uma criança negra da periferia até curiosas incursões no politicamente incorreto, o texto logra um bom empurrão inicial para a ação, somando aí a apresentação soberba da Detetive Watts (Betty Gilpin), disparadamente a melhor personagem do filme, exceto pelo final, onde nada é bom.

O problema é que o mesmo texto que começa a construir algo cheio de possibilidades simplesmente se perde naquilo que ele quer retratar. De repente, o filme não é mais sobre a relação “pai-e-filho” e nem sobre a postura molenga de Coffee na Corporação. Passamos para um plot mais intricado, onde uma porção de esquetes sobre o tráfico e depois sobre policiais corruptos e depois ainda voltando para o relacionamento de Coffee e Vanessa acabam ganhando destaque. Nessa abertura enorme de janelas, os personagens vão perdendo suas melhores características e, como é de praxe em comédias onde isso ocorre, se tornam forçados e completamente desagradáveis. O enxugamento da qualidade dos personagens é tamanho, que até a Detetive Watts termina o filme com uma representação ridícula de seu comportamento,  o que acaba não fazendo nenhum sentido para a personagem, que foi construída como uma mulher muito inteligente.

Perdido o foco e esvaziadas as personagens, pouco sobra de verdadeiramente chamativo na fita. O que temos, no todo, é uma boa promessa, uma boa condução da direção nas cenas mais ágeis, uma presença aplaudível de Betty Gilpin e algumas poucas cenas boas antes da reta final. Não é um filme absolutamente dispensável, mas para ser sincero não é um filme que eu indicaria. Para quem quer algo engraçado e ligado ao mundo do crime, tem produção recente e de qualidade sobre isso acessível a todos (alô alô Magnatas do Crime!). Pensando pelo lado positivo, é até bom que seja assim, porque aí já evita que isso vire mais uma franquia ligada ao mundo de policiais unidos a um civil fora da curva. Mas não dá realmente pra duvidar que tentem fazer. Coitados de nós.

Coffee & Kareem (EUA, 2020)
Direção: Michael Dowse
Roteiro: Shane Mack
Elenco: Ed Helms, Taraji P. Henson, Terrence Little Gardenhigh, Betty Gilpin, RonReaco Lee, David Alan Grier, Andrew Bachelor, William ‘Big Sleeps’ Stewart, Serge Houde, Eduard Witzke, Chance Hurstfield, Diana Bang, Erik McNamee, Samantha Cole, Terry Chen
Duração: 88 min.

Crítica | A Casa (2020)

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Não dá nem pra dizer que o original Netflix Hogar se encaixa na linha dos recentes thrillers psicológicos espanhóis que ganharam tal notoriedade com o alavanque do serviço de streaming, já que não existe a sofisticação de paralelas reviravoltas como sua principal característica, tampouco é também um estudo de status social como Parasita, com o qual vem sendo comparado, pois não apresenta quaisquer reflexões plausíveis ou complementos relevantes no assunto, ficando devidamente no limbo entre essas estéticas. A história gira em torno de Javier, um executivo de marketing bem sucedido afundado em uma crise financeira, forçado a sair de seu apartamento contra sua vontade por não poder pagá-lo. Quando uma nova família adquire o aposento, do qual Javier ainda tem as chaves, o ex-empresário vê uma oportunidade de recuperar sua vida antiga se infiltrando na “casa” e manipulando a rotina daquelas pessoas.

Diante dessa premissa, é inegável que o filme até quer ser parte suspense, gerando a tensão a partir de quais movimentos o protagonista irá fazer para alcançar o seu objetivo, mas o roteiro anula essas possibilidades quando na tentativa de inserção de twists reduz obstáculos a amplificar a imprevisibilidade em um “eu já sabia que isso poderia acontecer”, logo, não tem possibilidade do plano dar errado, consequentemente não há motivos para se preocupar em terceiros atrapalhando a sua execução, que consta basicamente na narrativa inteira. Isso não seria um problema se o roteiro admitisse essa aura fantasiosa na liberdade do exercício de gênero, mas ao se colocar num pano realista discursivo, todas essas saídas de sempre ter um plano B, C ou D para cada situação ditada transparecem a arrogância de se sentir à frente do público mesmo que por trapaça. 

É fácil não apresentar a linha de raciocínio de Javier e ir revelando conforme a conveniência pede, porque no momento em que o acaso age podendo prejudicá-lo, é só inventar que isso estava nos planos da sua cabeça desde o início, assim, o filme vai acumulando incongruências diversas, enquanto finge estar sendo inteligente. Não que um suspense precise ser participativo sempre para poder funcionar, mas é preciso uma cota mínima de pistas ou fatos previamente estabelecidos como sustentáculo de verossimilhança quando os desvios aparecerem, algo que nesse caso some em pouquíssimo tempo de duração, só ficando cada vez mais perdido conforme novos absurdos vão sendo implementados e desculpados em sequência.

Ignorando essa estruturação desleal, sobraria como thriller a possibilidade de ter um lado a torcer como motivação para acompanhar os desdobramentos, mas isso é impossível e até não faz parte do intuito do filme, que coloca Javier como um homem desprezível para simbolizar a verdadeira índole da classe conservadora em uma projeção que ela perca tudo. Contudo, nem analisando o viés dessa maneira simbólica funciona, pois o background pré-surto do personagem é extremamente limitado, fazendo-o parecer puramente maniqueísta, com motivações rasas e uma índole ainda mais distante do realismo pregado na estética. Se nem o protagonista ganha um histórico, quem dirá suas vítimas, em cena somente quando ele as está “stalkeando“. 

Não só não há tempo de criar qualquer vínculo para que nos importemos com as consequências das ações de Javier com eles, como também existe o mesmo parâmetro crítico para elas. Quando colocadas em situações desfavoráveis se transformam no mesmo “monstro” que é o protagonista, assim, não sobra ninguém para torcer e o tédio engole a projeção em completude. Sem contar que os comentários de parasitismo social propostos não saem em nenhum momento do básico da premissa. Lembra em uma primeira camada o recente (e também espanhol) O Poço, só que invertido, os de baixo quando fossem pra cima não dariam o braço a torcer em prol do revanchismo, e os de cima, quando em baixo, comeriam os outros para conseguir o topo de novo e… para por aí. Até pela baixíssima inventividade do thriller, não existem outras provocações sociais fora dessa obviedade.

Diria que o filme nem coloca essas temáticas de propósito, visto a irresponsabilidade de alguns movimentos quando cruzados com as reviravoltas, especialmente as finais, totalmente negligentes com o comportamento de personagens femininas, que já não tinham qualquer destaque e ainda precisam ser ridicularizadas a marionetes objetificadas para o twist acontecer com maior “sadismo”. Fora uma cartada tirada avulsamente para inflar o ego do personagem e não o fazer se sentir tão mal, mesmo depois de todas as atrocidades que cometeu, afinal, no processo alguém “pior” pagou o preço. Pelo menos nesse caso, faz sentido com o objetivo do filme de fazer o telespectador acabar com raiva do sociopata, no bom sentido da superfície crítica que ele leva, mas é a raiva, no mau sentido, de estar vendo um suspense trapaceiro e mal articulado o sentimento de predominância no resto do longa.

A Casa (Hogar, Espanha – 2020)
Direção: Àlex Pastor e David Pastor
Roteiro: Àlex Pastor, David Pastor
Elenco: Javier Gutiérrez, Mario Casas, Bruna Cusí, David Ramírez, David Selvas,  David Verdaguer, Ernesto Collado, Ruth Díaz, Vicky Luengo.
Duração: 103min.

Crítica | Crip Camp: Revolução Pela Inclusão

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Em 2019, a recém-criada produtora Higher Ground, do casal Barack e Michelle Obama, trazia seu primeiro filme, Indústria Americana. O documentário focava no dia-a-dia de uma fábrica automobilística comprada por chineses, mesclando temas como a troca cultural entre os trabalhadores e questões sindicais. Agora, na segunda produção da dupla, Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, os Obamas também apostam em uma história real que aborda direitos sociais e civis. Todavia, a diferença é que se no filme vencedor do Oscar havia uma certa postura distanciada e insegura de suas intenções, o novo filme da Netflix é uma visão totalmente subjetiva, intimista e nostálgica, com o diretor James Lebrecht, um cadeirante, recordando de suas memórias em um acampamento para deficientes na década de 70 e, posteriormente, a luta política pelos direitos dessas pessoas.

Entre as coisas que mais chamam a atenção no filme, é interessante ver como ele opta por uma mudança de tom muita abrupta. Em sua primeira metade, o que temos é a apresentação de toda aquela vida no acampamento. Primeiro, vem uma insegurança no relato de todas aquelas pessoas, sempre acostumadas com a rejeição. Contudo, rapidamente o clima de alegria e contamina o documentário, seja pelo próprio registro do passado ou pela maneira como Lebrecht está sempre entrevistando seus antigos colegas no presente de maneira descontraída. 

Parece um detalhe bobo, mas a condução de muitas dessas conversas para um lado mais amoroso e sexual é fundamental para quebrar um tabu existente quanto a isso. Justamente por não ser uma visão de fora, que talvez se preocupasse em um lado muito mais apelativo e que explorasse a dor daquelas pessoas, mas sim de alguém que vive aquilo, Lebrecht abraça a normalidade e a banalidade, tornando seu documentário incrivelmente humano. Não que mostrar o sofrimento real daquelas pessoas se tornasse um vitimismo barato, algo absurdo de concluir, mas a opção de uma abordagem mais otimista reforça que todas aquelas pessoas também são humanas e possuem sentimentos como todos os outros da sociedade. Neste sentido, Crip Camp é revolucionário.

Em contrapartida, na segunda metade, a narrativa ruma para caminhos mais sérios. Apesar de ser um tanto quanto anticlimático e contrastante em relação aos acontecimentos do acampamento, a mudança de direção se justifica. Afinal, o filme não é só divertimento e nem teria como ser, pois naquela época era praticamente inexistente o direito daquela minoria. Logo, Crip Camp também não deixa de ser um manifesto. Lebrecht reconhece que sem a existência daquela luta, seu documentário jamais existiria. Assim, nada mais justo do que retribuir aqueles que lutaram fazendo greve de fome por 20 dias durante a luta pelos direitos civis do que postergar a existência dos mesmos no próprio ato de resgatar imagens documentais.

No fim, Revolução Pela Inclusão fica neste meio termo entre mero registro despretensioso eu um documentário político didático típico da Netflix, uma vez que vai se criando a sensação de que talvez o primeiro talvez só exista para reforçar o segundo. Através da estrutura narrativa estabelecida, é precisamente pelos momentos de alegria do início do longa que se aumenta a importância do sacrifício posterior. Se eu falava que Lebrecht agia genuinamente na condução do registro de imagens do acampamento e nas conversas, a espontaneidade dos mesmos acabam perdendo sua força quando são utilizados não como fim em si mesmo, ainda que sejam um meio para uma das causas mais nobres possíveis.  

Crip Camp: Revolução Pela Inclusão (Crip Camp: A Disability Revolution) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicole Newnham, James Lebrecht
Roteiro: Nicole Newnham, James Lebrecht
Elenco: Larry Allison, Dennis Billups, Judith Heumann, James Lebrecht, Evan White
Duração: 107 mins.

Crítica | Troco em Dobro

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Você tem dois adultos brincando de Batman…

Peter Berg e Mark Wahlberg retomam com a parceria de longa data, já é o 5° filme consecutivo que o diretor trabalha com o ator como seu protagonista, mas diferente dos anteriores (O Grande Herói, Horizonte Profundo, Dia de Treinamento e 22 Milhas), esse não diz respeito a uma encenação de fatos trágicos políticos americanos, mas retoma o início da escola do diretor caracterizada pela ação escatológica “Michael Bay”. Dá para dizer que a produção original Netflix se aproxima de um Bad Boys de sua carreira, um buddy cop descomprometido com as raízes sociais em que a história se origina, mas ciente de como utilizá-las em benefício do divertimento com uma narrativa devidamente amarrada em códigos morais confortáveis. 

É quase um filme de herói, onde o instinto de justiça do protagonista, Spencer, fala mais alto que a lei que determinou seu afastamento da polícia após bater no chefe “corrupto”, forçando-o a ter de arranjar seus próprios meios de alcançá-la quando se depara com o assassinato dele no dia de sua soltura. Virando praticamente vigilante, o Batman como o próprio filme menciona e brinca no humor, que com a ajuda de Robin, ou melhor, Falcão (Winston Duke), irá seguir as pistas para tentar desvendar a verdade por trás do assassinato e suicídio do principal suspeito, companheiro de trabalho de Spencer, possivelmente incriminado por terceiros. O segredo desse tipo de filme funcionar geralmente encontra-se no tom, em qual nível de relevância cada elemento será dado, e todo esse timing passa pela mão do editor e da direção, que precisa transparecer um dinamismo que encaixe as diferentes modelações no momento certo. 

É essencial a equidade entre as dosagens na comédia, dentro de uma pitada dramática mínima para que as temáticas do submundo da corrupção policial  movimentem o mistério do crime com um bom nível de engajamento. Nesse caso, pelo menos em boa parte do tempo, as piadas funcionam e não anulam a seriedade calculada para que a história não perca seu público de vista. Um recurso interessante para manter esse equilíbrio é desdobrar a aventura ao mesmo tempo em que elabora a construção da dinâmica da dupla. Parece clichê visualmente falando, mas diferente do que tange à maioria dos filmes do gênero, não existem atritos por questões raciais, geracionais, casos como experiente vs. novato, nem nada do tipo. Spencer e Falcão têm motivações isoladas que se unem por um senso comum situacional plausível, bem digna de herói e sidekick, uma troca de favores que os coloca na mesma ação. 

O entrosamento e o carisma do elenco ajudam o pontapé a funcionar e naturalizam bastante as interações, respeitando um novo molde de relações masculinas saudáveis, sem aquela competição embriagada de quem tem a arma maior. A intersecção entre eles, inclusive, já serve como um comentário pertinente para todo o contexto, ambos foram presos por se deixarem levar a esse tipo de perfil explosivo, cumpriram suas penas devidamente e precisam passar na jornada de investigação por testes para que esse erro não se repita e a justiça seja feita da forma que eles acreditam. Spencer ensina Falcão a luta como a arte defensiva, e Falcão ensina Spencer a se preservar primeiro antes de correr desesperado atrás de um carro para não acabar sendo mordido por um cachorro. São valores simples, mas que nas entrelinhas garantem um propósito bacana ao projeto e não o deixa tão maniqueísta, além do fato de que na primeira vista, são bandidos com índole que salvam o dia de policiais que deveriam estar servindo a lei. 

O problema é que na prática, como filme de gênero, é ainda muito bem vs. mal, pelo menos o roteiro não teve coragem de desvincular isso quando era mais decisivo. Na revelação, extremamente previsível diga-se de passagem, de quem era o responsável pela conspiração de assassinatos e essa moral final é confrontada a ele, pouco interessa o background desse vilão, ele escolhe ser mau por ser mau e ter a ponte para o clímax e o ensinamento final com o protagonista, mesmo que isso contradiga o que o filme quer pregar nas entrelinhas. Existem outros momentos questionáveis assim, principalmente no tratamento de Cissy, personagem de Iliza Shlesinger, renegada a ser a ex-mulher maluca que enchia o saco de Spencer que só dava ouvidos a ela a troco de sexo ou quando precisava de um refúgio para abrigar sua missão. Ou em uma determinada ação violenta do personagem que precisava de uma informação que poderia ter sido feita antes, mas não é só porque o roteiro ficou sem saída, aquelas velhas conveniências, onde as provas plantam na mão dos personagens em momentos de estagnação da investigação. 

Sem conta que a montagem, apesar de absolutamente eficiente em ritmo, não alcança a mesma eficiência na organização das cenas de ação, numa picotagem exagerada e pouco inteligível, funcionando mais pelo contexto geral de urgência da situação do que por sua execução em si, que se não fosse distribuída em ocasiões específicas, deixaria o filme bem cansativo.  Ainda com esses pontos, no geral, a proposta descompromissada de “filme de herói” num contexto policial moderno entretém e se mantém num nível regular, sem sair tanto da sua unidade de tom, ficando acima da média do que vêm sendo as apostas Netflix na vertente de ação.

Troco em Dobro (Spenser Confidential, EUA – 2020)
Direção: Peter Berg
Roteiro: Robert B. Parker e Sean O’Keefe
Elenco: Mark Wahlberg, Winston Duke, Alan Arkin, Iliza Shlesinger,, Michael Gaston, Bokeem Woodbine, Marc Maron, James DuMont, Post Malone, Colleen Camp, Hope Olaide Wilson, Kip Weeks, Brandon Scales.
Duração: 110 min.

Crítica | Ultras (2020)

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É difícil não associar Ultras ao longa britânico de mesmo tema, Hooligans, protagonizado por Elijah Wood e Charlie Hunnam. Em um simples reducionismo, poderia-se afirmar que este é uma cópia genérica do outro. Contudo, as duas obras vão para caminhos divergentes. Por um lado, o filme de 2005 assumia ser uma visão de fora para dentro daquele mundo, uma vez que seu protagonista era um jornalista americano tendo contato pela primeira vez com os hooligans ingleses do West Ham. Já neste novo lançamento da Netflix, logo na primeira cena, a câmera segue Sandro “Moicano” (Annielo Arena), o líder dos Apache — torcedores do Napoli — indicando que ele é a nossa referência. Se no primeiro existia um certo deslumbramento com aquele way of life, este, em teoria, deveria mostrar a visão de alguém que já está saturado dele.

Na primeira cena, Sandro está chegando a um casamento de um dos Apaches, no qual todos os integrantes estão presentes e cantarolando as músicas do time. Desde já, se estabelece que não há separação entre a vida privada daqueles homens e suas atividades. Ainda que este início faça parecer que o grupo vive em harmonia, rapidamente vemos que há três subdivisões. Temos os membros-fundadores na faixa dos 50 anos, inclusive o Moicano, que adotam uma postura mais moderada. Opostamente, os skinheads tatuados na faixa dos 30 são mais agressivos e querem fazer a torcida recuperar prestígio. Enquanto isso, entre os dois lados, temos os jovens millennials recém-integrantes que fazem de tudo para conseguir respeito na torcida. 

Pensando o filme dentro das correntes marxistas, é possível ver a antiga geração como os stalinistas, que querem apenas ficar em território napolitano e se mostram contrários à expansão da franquia, além de rejeitarem qualquer contato com o mundo exterior, como na cena em que são hostis a um casal turistas. Por outro lado, a geração mais nova insiste que eles devem rumar para a capital, Roma, e conquistá-la. Logo, o ponto principal que move a história acaba sendo justamente essa divergência de correntes diferentes dentro de um mesmo movimento, que em Ultras acaba sendo representado através deste choque geracional.

No entanto, um dos principais problemas em Ultras é que ele parece estar muito em cima do muro quanto a sua posição sobre o hooliganismo. Isso é algo que se reflete principalmente na direção de Francesco Lettieri e na montagem. Tanto na sequência em que a ala jovem joga bomba na torcida adversária e no momento derradeiro do confronto final, um corte impede que a verdadeira violência seja mostrada. Para um filme que quer falar sobre a brutalidade deste estilo de vida de forma pejorativa, curioso que o mesmo tenha tanto medo em retratar a mesma. Seria justamente através de seu excesso, que veríamos a ignorância despropositada de tudo aquilo, como acontece no terceiro ato de  Hooligans

Claro, a produção italiana também não comete o erro de reduzir os membros das torcidas organizadas em brutamontes que só querem brigar. O roteiro de Lettieri dá espaço para que se mostre um senso de camaradagem entre aqueles homens e que, através do grupo, eles puderam se sentir abraços por alguém. Neste sentido, os melhores diálogos autocríticos acabam sendo entre Sandro e o jovem Angelo (Ciro Nacca), que ele tornou seu protegido após a morte do irmão em uma briga de torcidas. Entretanto, cada tomada de decisão de Ultras nunca parece levar para frente qualquer questão que se proponha a investigar a situação mais profundamente. Ao invés disso, prefere gastar tempo em situações repetidas que evidenciam a solidão de Moicano ou que mostram a ala jovem se perdendo em festas e drogas. Certamente, há aqui uma visão pessimista que é reforçada pela fotografia escura, mas este lado parece nunca gerar um aprendizado para seus personagens. 

No fim, é significante que a última cena seja exatamente como na inicial, indicando uma sensação cíclica de que tudo irá se repetir. Um casamento repentinamente pode virar um funeral. Se há a incerteza neste estilo de vida, há uma certeza: o amor em ser Ultra. Ainda que isso tenha um custo.

Ultras – Itália, 2020
Direção: Francesco Lettieri
Roteiro: Francesco LettieriFrancesco Lettieri
Elenco: Aniello Arena, Ciro Nacca, Simone Borrelli, Daniele Vicorito, Salvatore Pelliccia, Antonia Truppo
Duração: 118 mins

Crítica | O Poço (2019)

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Você já viu este filme antes, mas em outro formato: numa certa aula de História sobre estruturas sociais e em algum momento de uma aula de Geografia ou Sociologia. Ao estabelecer a divisão em classes, castas, estamentos de uma determinada sociedade em um determinado tempo, você já viu um professor desenhar a famosa “pirâmide social“. Esse modelo é bastante utilizado por ser dinâmico ao apontar a importância que cada grupo possui numa civilização, sendo dado, portanto, todos os privilégios possíveis para os que estão no topo da pirâmide e as sobras ou nada para os que estão na base. Evidente que cada formação econômico-social possui caraterísticas mais complexas que a hierarquia em si, mas no fim das contas, a representação continua exata, mesmo havendo contexto, condições e sonhos de oportunidades de ascensão a se considerar dependendo do lugar e tempo histórico analisados.

E por que eu disse que você já viu este filme antes, mas em outro formato? Porque O Poço é “simplesmente” a representação em audiovisual daquela pirâmide social que você tanto viu na lousa e tanto desenhou no caderno. Sim, eu poderia dizer que bastava olhar pela janela ou assistir aos noticiários para ver claramente o funcionamento das pirâmides sociais pelo mundo a fora. Mas quem se importa com a realidade, não é mesmo? Uma das coisas boas da arte é que ela pode nos afastar da realidade para, através da ficção (seja ela baseada em fatos ou não) mostrar aquilo que vivemos no dia a dia. Parece ironia, mas não é. Viver a realidade faz com que as muitas paixões do cotidiano tampem ou alterem a visão de alguns para os problemas à sua volta. Mas quando vemos isso representado num filme, numa série, num livro, aí a coisa parece ganhar a dimensão e a atenção que não estávamos dando. Vai entender.

El Hoyo é o primeiro longa-metragem do diretor Galder Gaztelu-Urrutia, que no cinema tem maior experiência como produtor. Escrito por David Desola e Pedro Rivero, o texto acompanha Goreng (personagem interpretado de maneira aplaudível por Ivan Massagué), que por vontade própria está em uma prisão vertical, modelo que funciona com uma cela por nível e com dois prisioneiros por cela, embora não haja muito controle em relação a isso. A cada mês, os presos são colocados em um nível diferente e isso não seria problema nenhum se essa mudança não significasse acesso a comida: uma plataforma com um verdadeiro banquete desce do nível zero (a cozinha) até o nível 300 e pouco, parando por um tempo determinado em cada nível. O que se vê não é nada estranho a nenhum de nós: as pessoas dos primeiros níveis comem do bom e do melhor e o que não querem + as sobras do que comeram desce para os níveis inferiores. Até chegar a um ponto onde não existe mais comida para os que estão em níveis bem baixos. O canibalismo, para os da base da pirâmide, é a saída.

O modelo de estratificação social é representado aqui de forma muito inteligente e também muito clara. Somada a essa visão geral da sociedade, alguns espectadores podem até fazer leituras específicas atribuindo símbolos, metáforas e arquétipos aos personagens em cena, embora eu advirta que isso deva ser feito com cuidado porque o roteiro está claramente preocupado em apresentar algo intensamente crítico no exterior (a prisão vertical e a questão da comida) enquanto o particular de cada personagem e suas características psicológicas, emocionais, etc. servem como molas para tornar a trama ainda mais diferente, ponto exato onde o filme começa a ter problemas, já que as coisas acabam se opondo demais e o espectador, que em um momento achava estar lidando unicamente com algo mais prático, mais socialmente identificável, crítico, relacionável, deve considerar pitadas de fantasia horrorífica e alguns elementos inexplicáveis no final.

O confinamento e as condições de vida aqui são ainda ressaltados pelo tipo de cenário utilizado, pela simplicidade do set — um simples e eficiente trabalho do desenho de produção — e pela opressiva direção de fotografia, destacando ao mesmo tempo sentimentos de solidão, abandono, perigo e doença através de diferentes filtros de cores no decorrer do filme e dependendo do tipo de ação em jogo (vermelho, azul e cinza formam a paleta básica aqui). Dada a situação inicial e entendido como funciona a prisão, o roteiro procura integrar ao definhamento físico, as típicas perturbações emocionais e psicológicas de quem está sob constante stress, isolamento e privação de alguma coisa. Até aí, tudo coerente com a proposta do filme, inclusive as alucinações, que passam a ser frequentes a partir de certo ponto. Mesmo com esse exagero e sem nenhum sentido prático além dela mesma, é possível lidar com essa escolha do roteiro. O que não dá para lidar é com os buracos no argumento para a existência da prisão e com o arco da criança perdida.

SPOILERS!

Depois de tudo o que vimos os adultos passarem, é absolutamente impossível aceitar que uma criança esteja salva, aparentemente sem marcas de violência física e bem nutrida, como a menina que Goreng e Baharat encontram. Esse derradeiro caminho do roteiro (a descida da dupla em cima da plataforma) nos faz questionar, inclusive, o por quê Miharu não havia encontrado a filha até aquele momento. É improvável que ela tenha ficado em níveis muito baixos em algum momento, mas diante do que vimos se repetir, também parece improvável que a mãe não tenha conseguido descer até um nível onde a garota estava por todo esse tempo. Este é o ponto do filme em que perguntas demais aparecem e onde a realidade dá lugar ao horror de caráter sobrenatural, com mistérios desnecessários brotando.

Não há, em essência, nada para se entender de forma prática no fim do filme, apenas aludir a significados de ordem simbólica. E aí se fecha o ciclo de impasses: é perfeitamente aceitável integrar realismo ao sobrenatural, numa trama que se pretende crítica à sociedade, desde que o espaço realista permaneça em evidência. O que ocorre no final de O Poço é uma fuga de tema. Sim, “a mensagem” através da menina (supõe-se que) chegará à administração, mas e aí? E aquele nível do chão? E aquela alucinação final com Trimagasi? Goreng estava morto? Mas aí o filme falha na representação do personagem nessa reta final, como protetor da menina, não? Vejam a quantidade de perguntas que surgem por conta de um capricho falho do roteiro.

Antes tivessem mantido a objetividade dura e angustiante das classes sociais comparadas à prisão e deixassem essa mística dose de lado. Ainda assim, ficaria sem explicação as condições verdadeiras para a entrada na própria prisão e o contexto social que a gerou. Mas pelo menos o filme fecharia o seu ciclo dentro daquilo que ele faz de melhor: espelhar de maneira gore a realidade do mundo hoje. E se pensarmos bem nos termos de “pegar para si apenas o que é necessário, deixando também para os outros que precisam“, a obra, que estreou na Espanha em novembro de 2019, se torna uma verdadeira profecia para o consumo de víveres e produtos de higiene que a realidade do planeta sob o Coronavírus nos traz em 2020. Senhoras e senhores, bem-vindos à civilização do animal mais inteligente do planeta.

O Poço (El Hoyo) — Espanha, 2019
Direção: Galder Gaztelu-Urrutia
Roteiro: David Desola, Pedro Rivero
Elenco: Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale, Alexandra Masangkay, Zihara Llana, Mario Pardo, Algis Arlauskas, Txubio Fernández de Jáuregui, Eric Goode, Óscar Oliver, Chema Trujillo, Miriam Martín, Gorka Zufiaurre, Miriam K. Martxante
Duração: 94 min.

Crítica | Altered Carbon: Nova Capa

Nem bem a segunda temporada de Altered Carbon foi lançada, o Netflix seguiu a história de Takeshi Kovacs com um longa animado produzido no Japão, com direção, roteiro e vozes originais japonesas. E, melhor ainda, no lugar de fazer algo completamente independente da série, o que temos é um prelúdio de muitos anos antes dos eventos da primeira temporada (a ação se passa um ano após as “mortes” de Reileen e Quellcrist no Mundo de Harlan) que conversa diretamente com cada uma das duas temporadas.

Usando a técnica de cel-shading (ou emulando-a, não sei), muito comum em games, os diretores Takeru Nakajima e Yoshiyuki Okada criaram uma animação vibrante e extremamente violenta que coloca Takeshi Kovacs (voz original de Tatsuhisa Suzuki) como guarda-costas da jovem tatuadora Holly (Ayaka Asai) que precisa aliar-se a Gena (Rina Satou), uma agente da CTAC, para desvendar um mistério que envolve a cerimônia de sucessão do comando da Yakusa no planeta Latimer. A história é simples, ainda que o roteiro de Dai Satô e Tsukasa Kondo tente, mas não consiga, dar uma roupagem complexa para a trama, com tudo basicamente funcionando como uma grande desculpa de 74 minutos para a pancadaria comer solta.

E ela come solta, podem ter certeza. Aliando um visual cyberpunk nas tomadas exteriores do planeta onde a violência já começa com ninjas mascarados despedaçando agentes do CTAC a torto e a direito, com o mesmo artifício do emprego de um hotel – na verdade, tecnicamente, um ryokan – gerido por uma I.A., desta vez o simpático, mas hesitante Ogai (Jouji Nakata), onde a maioria da ação se passa, a animação consegue cumprir sua missão de manter um passo energético que abafa a completa falta de história com hectolitros de sangue, sensacionais tatuagens de corpo inteiro, desmembramentos variados, muito uso de instrumentos cortantes e armas de fogo poderosas, além de belas armaduras adornando os intermináveis ninjas e, claro, o final boss.

Há até tempo suficiente para que o grande trunfo dos livros de Richard Morgan – os cartuchos que permitem vida eterna e troca de corpos ao bel-prazer – seja bem utilizado como elemento intrínseco à trama, algo que falta na série live-action. Por outro lado, justamente porque o roteiro insiste em criar reviravoltas dentro de reviravoltas para trazer uma pseudo-complexidade à história, por vezes a ação dá espaço a diálogos que têm como única função explicar uma ou duas vezes aquilo que já havia ficado naturalmente claro. Ou subestimaram a inteligência do espectador, ou tiveram que ocupar “espaço” para evitar que a fita fosse classificada com um média metragem. Ou os dois, não sei. Fato é que o blá, blá, blá redundante cansa um pouco, ainda que o visual normalmente estonteante ajude a desviar a atenção dele.

Como disse logo no começo, a ideia de fazer com que Altered Carbon: Nova Capa seja mais um capítulo da série live-action é boa, pois cria unicidade narrativa e permite que o Netflix expanda esse universo sem precisar de orçamentos polpudos. A primeira temporada ganha conexão com Nova Capa na revelação – que acontece bem cedo, aliás – sobre quem realmente é Gena e a segunda temporada encaixa-se à animação pela contratação de Kovacs por Tanaseda Hideki (Kenji Yamauchi), o mesmo matusa que ajuda o Último Emissário no segundo ano da série. Ou seja, aqueles que se importam com continuidade e conexões não terão do que reclamar.

Com um final em aberto que parece prometer outras aventuras nesse período da vida de Kovacs, Altered Carbon: Nova Capa abre uma porta interessante que poderia ser utilizada também em outras séries do serviço de streaming. Só espero que, na próxima missão do protagonista, ele ganhe capa e figurino mais inspirados.

Altered Carbon: Nova Capa (Altered Carbon: Resleeved, Japão/EUA – 19 de março de 2020)
Direção: Takeru Nakajima, Yoshiyuki Okada
Roteiro: Dai Satô, Tsukasa Kondo (baseado em personagens criados por Laeta Kalogridis e nos romances de Richard Morgan)
Elenco: Tatsuhisa Suzuki, Ayaka Asai, Rina Satou, Jouji Nakata, Kenji Yamauchi, Kanehira Yamamoto, Koji Ishii
Duração: 74 min.

Crítica | Kingdom (2019) – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Como afirmei na crítica da 1ª temporada de Kingdom, a série sul-coreana de zumbis passada durante o feudalismo veio como uma lufada de ar fresco para o já bem desgastado sub-gênero. Afinal, não é todo dia que nos deparamos com intrigas palacianas servindo de pano de fundo para uma infestação de desmortos enlouquecidos que, diferente do usual, dormem durante a noite (ou assim nos levaram a crer!).

Mas a temporada inaugural, de seis episódios velozes e furiosos, teve seus problemas, dentre eles uma narrativa sócio-política maniqueísta demais que não permitia o desabrochar da história nos momentos de calmaria sem zumbis e a necessidade de se manter certos segredos – lembrem-se que o primeiro episódio até escondia a natureza da série – que segurava um pouco a pancadaria desenfreada. Continuava sendo uma diversão completa, mas faltava algo.

E a boa notícia é que, agora, não falta mais!

A 2ª temporada, com a mesma quantidade de episódios, utiliza muito bem a vantagem de já ter toda sua premissa explicada, além de não haver qualquer tipo de amarra em termos de reviravoltas ou surpresas para o espectador. O que vemos é a continuação imediata do cliffhanger em que descobrimos que os desmortos não gostam é de frio, com dois episódios quase inteiros repletos de memoráveis sequências de ação de deixar qualquer um roendo as unhas. E o melhor é que até a intriga política por trás acaba se beneficiando disso, já que ela ganha algumas nuances interessantes, como a relativização da relação entre o Conselheiro Real Cho Hak-ju e sua ardilosa filha, a Rainha Cho, e a revelação de que nem toda a casta nobre é composta de gente que não liga para nada a não ser seu próprio umbigo, já que essa característica, antes, ficava restrita ao altivo príncipe herdeiro quixotesco Lee Chang.

Muito claramente existe uma melhor conversa entre os dois “lados” dessa história, algo que é bem-vindo e certamente oriundo da necessidade de se lidar com os zumbis sem intervalos, sempre com soluções engenhosas para permitir um respiro entre sequências sanguinolentas épicas. Ainda acontecem algumas pequenas reviravoltas, como a traição do leal Mu-yeong e o envenenamento de Cho Hak-ju, mas elas são orgânicas, suaves e perfeitamente dentro da lógica estabelecida pela história. Não é mais a surpresa pela surpresa, como a questão dos desmortos acordados durante o dia e sim algo que contribui efetivamente para o desenvolvimento tanto dos personagens quanto da narrativa.

Os dois elementos que realmente diferenciavam a série – sua belíssima fotografia e sua reconstrução de época cuidadosa – continuam firmes e fortes aqui, com os diretores Kim Seong-hun e Park In-Je aproveitando-se ao máximo das filmagens em locação, com planos gerais de fazer o queixo cair como o da sequência da morte de Mu-yeong na floresta gelada com árvores de tronco branco ou quando as hordas de monstros ganham inacreditavelmente boas coreografias em meio a campos abertos em momentos que certamente foram de extrema complexidade cinematográfica tamanha a quantidade de extras e de acontecimentos simultâneos. O figurino salta aos olhos até mesmo na estranha beleza que é ver Lee Chang e seus soldados com túnicas ensopadas de sangue.

Por vezes, é bem verdade, o CGI – normalmente utilizados com parcimônia em alguns panos de fundo – falha e mostra sua “cara”, ameaçando retirar o espectador de determinadas sequências como a da corrida/combate nos telhados do palácio real. Mas a grande verdade é que isso só acontece se quisermos ser muito implicantes, pois é palpável o detalhismo em todos os outros quesitos, com essa sequência que destaquei e que acontece mais para o final da temporada sendo particularmente espetacular.

Desgosto, porém, do subaproveitamento quase criminoso de Seo-bi, a médica vivida por Bae Doona, que parece muito mais um artifício narrativo de revelação das características da planta que ressuscita os mortos do que uma personagem propriamente dita. Do jeito que os roteiros são escritos, ela é como se fosse uma nota de rodapé, um detalhe conveniente para explicar ao espectador aquilo que muitas vezes é perfeitamente possível deduzir apenas com imagens. E, quando ela é inserida na ação – o que só acontece de verdade mais para o final – sua presença é quase invisível. Considerando o belo desenvolvimento que Lee Chang ganhou, ainda que talvez indo rápido demais de príncipe mimado para salvador dos fracos e oprimidos, era de se esperar algo semelhante para a médica, o que acaba não acontecendo, retirando de Doona a oportunidade de brilhar.

Por outro lado, é de se elogiar a forma como a história fica redonda e cuidadosamente encerrada, com todas as pontas sendo devidamente amarradas em um conjunto harmônico e lógico que tem início, meio e fim definidos. É por isso que o epílogo, que só existe para justificar uma 3ª temporada, acaba ficando forçado, introduzindo outros elementos exógenos à trama, mais especificamente o mistério da origem da planta e o verme aparentemente em estase que acorda no rei mirim. Se eu ignorasse esses 10 minutos finais que são completamente expletivos e aceitasse o subaproveitamento de Seo-bi, a temporada seria perfeita não só como temporada, mas também como fechamento de uma saga. Infelizmente, porém, a necessidade tipicamente hollywoodiana tomou de assalto a produção sul-coreana e, muito provavelmente, a história continuará.

Mas não podemos ter tudo, não é mesmo? Se a continuidade é inevitável, só nos resta torcer para que ela seja tão boa quanto a 2ª temporada, com a torcida para que a personagem de Bae Doona ganhe o destaque e a relevância que merece.

Kingdom ( 킹덤, Coréia do Sul – 13 de março de 2020)
Direção: Kim Seong-hun, Park In-Je
Roteiro:  Kim Eun-hee (baseado em seu webcomic)
Elenco: Ju Ji-hoon, Ryu Seung-ryong, Bae Doona, Kim Seong Gyu, Kim Sang-ho, Heo Joon-ho, Jeon Seok-ho, Kim Hye-jun, Jung Suk Won
Duração: 269 min. por episódio (6 episódios no total)

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | Paradise Police – 2ª Temporada

Depois de mais de um ano e meio privando os espectadores de cavalares injeções de incorreção política, escatologia, nojeira e piadas relacionadas quase que exclusivamente com sexo (nem sempre entre humanos) e drogas, Paradise Police volta com uma temporada encurtada de oito episódios para continuar a contar a história da Loucademia de Polícia dos anos 2010 que tenta emular South Park sempre que pode, mas nunca chegando nem perto. Ou seja, um verdadeira alívio!

Como ficou claro ao final da 1ª temporada, Waco O’Guin e Roger Black, criadores da série, resolveram seguir uma estrutura continuada que trabalha um macro-arco narrativo relacionado com a caçada da polícia ao Rei das Drogas da cidade de Paradise, algo razoavelmente incomum para obras do tipo, mas que é muito bem-vindo. Com isso, a ação começa exatamente de onde parou, com Dusty na prisão e Fitz, finalmente revelado como o vilão, comandando o submundo do crime. O lado negativo dessa escolha é que a 2ª temporada fica razoavelmente confinada, muitas vezes simplesmente repetindo a estrutura e as gags anteriores, só que com roupagem levemente diferente.

Dessa forma, não seria de todo equivocado dizer que o que temos é apenas mais do mesmo. Se a própria temporada anterior já começou a se repetir prematuramente, a questão é agravada na continuação, que se mostra sem fôlego para realmente inovar. Se o saco escrotal foi um dos alvos preferidos do humor de O’Guin e Black, ele volta com força total, com direito a um personagem que tem “bolas” avantajadas, com direito à revelação de que Karen tem uma tara por elas. Como disse, é a mesma coisa só que com as proverbiais pequenas diferenças.

Quando, porém, Paradise Police sai de sua zona de conforto, a comicidade arrisca entrar em ebulição, como é o caso do episódio quase que integralmente dedicado a abordar todas as lendas (e fatos) urbanos que cercam o conglomerado Disney, com direito até mesmo ao assassinato do Pateta e o subsequente uso de sua pele esfolada como disfarce. Episódios como esse – que são raros, vamos combinar – é que mostram o verdadeiro potencial do humor destrutivo da dupla de showrunners e é o que retira Paradise Police simplesmente do rótulo do “mais do mesmo”. Outros exemplos semelhantes é quando as polícias se multiplicam na cidade, uma só de homens, outra só de mulheres e assim por diante, com a exploração muito bem bolada de todos os estereótipos possíveis, além de uma série de estocadas em todos os exageros politicamente corretos que vemos por aí.

Mas a série sem dúvida rateia ao não conseguir trabalhar seu humor de maneira que dependa menos de, por exemplo, Karen bebendo uma garrafa de uísque, vomitando dentro dela e, em seguida, bebendo seu próprio vômito, e galgando um ou dois degraus acima em termos de relevância humorística. Tudo gira em torno da nojeira rasgada, nas piadas sobre fezes – há um episódio quase inteiro sobre a “absurda” e “desrespeitosa” incapacidade de Kevin de defecar na delegacia -, sobre os acessórios sexuais Hopson e sobre o vício em drogas de Bullet. Diverte às vezes, mas, quase sempre o que vemos é algo completamente esquecível que é muito capaz de revoltar os mais sensíveis (não tenho problema com piadas escatológicas, mas confesso que não consegui fazer meu habitual “lanchinho” enquanto assistia a série e tive que pausar quando alguém se aproximava da sala…). Em suma, é humor que tem muito mais um fim em si mesmo do que algo que almeje algum tipo de perenidade como seus diversos pares – inclusive a tão festejada, mas que não sou lá muito fã Rick and Morty – sem dúvida conseguem alcançar.

No final das contas, Paradise Police é diversão rápida e rasteira que acaba conseguindo tirar algumas boas gargalhadas do espectador especialmente quando arrisca ser mais do que é. De resto, no momento em que os créditos começam a rolar, já fica difícil lembrar o que foi assistido.

Paradise Police – 2ª Temporada (Idem, EUA – 06 de março de 2020)
Criação: Waco O’Guin, Roger Black
Direção: Brian Mainolfi, Lauren Andrews, Matt Garofalo
Roteiro: Roger Black, Waco O’Guin, Dan Signer, Steve Tompkins, Rocky Russo, Jeremy Sosenko
Elenco (vozes originais):  David Herman, Tom Kenny, Sarah Chalke, Kyle Kinane, Cedric Yarbrough, Dana Snyder, Grey Griffin, Waco O’Guin, Roger Black
Duração: 242 min. (8 episódios)

Crítica | Better Call Saul – 5X04: Namaste

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Em termos comparativos, Namaste é, provavelmente, o menos chamativo dos episódios da penúltima temporada de Better Call Saul que foram ao ar até agora. Ele é, sem dúvida alguma, o mais fragmentado de todos até agora, tentando abordar todas as linhas narrativas com algum equilíbrio entre elas que acaba dando relativamente pouco tempo a todas, com uma fotografia muito mais funcional do que hipnotizante. Por outro lado, narrativamente, exatamente por fazer a história como um todo andar em bloco, temos mais um grande exemplo de um roteiro azeitado, que sabe exatamente como fazer as peças se encaixarem.

Essa impressão de fragmentação, na verdade, é superficial e não resiste a uma análise um pouco mais cuidadosa. Namaste, em primeiro lugar, observa como quatro de seus personagens lidam com a frustração. Howard, responsável pelo título do episodio e que vimos muito brevemente em 50% Off, parece ter encontrado no budismo sua válvula de escapa para lidar com tudo o que aconteceu com ele e por causa dele nas temporadas anteriores. Sua postura zen e seu improvável convite para que Jimmy volte a trabalhar em seu escritório revelam que ele tem tentado mudar, ainda que não o suficiente, na visão de Jimmy, para justificar qualquer consideração. Muito ao contrário, algumas bolas de boliche bem colocadas mostram muito bem a posição do protagonista sobre essa pseudo-redenção de Howard.

O sinistro Gus, por sua vez, encabeça uma sequência absolutamente genial em que ele dá vazão à sua raiva e frustração sendo particularmente detalhista com a limpeza de seu restaurante, fazendo com que seu fiel empregado Lyle limpe a fritadeira por mais duas vezes enquanto espera a ligação de seus capangas sobre os pontos de entrega de dinheiro delatados por Krazy-8 em The Guy For This. A tensão na montagem paralela com a efetiva ação com Hank e Gomez de tocaia e o esfrega esfrega no Los Pollos Hermanos deixa muito claro o cuidado da direção de Gordon Smith, que também escreveu o roteiro. São tomadas propositalmente escuras, que nunca deixam muito evidente o que está por vir. Seria perfeitamente possível, por exemplo, que tudo – nas duas pontas – acabasse em um banho de sangue, mas, no final das contas, tanto para Gus quanto para Hank (outro que precisa lidar com sua frustração de não capturar o bandido), os resultados são, apenas, “aceitáveis”.

Finalmente, ainda no tema da frustração, há a situação de Mike que, aqui, apesar de ganhar um tratamento em tese repetido em relação ao que já vimos, pela primeira vez não fica parecendo uma partícula expletiva dentro do episódio. Seu remorso pelo que foi obrigado a fazer com Werner Ziegler aliado à lembrança da morte de seu filho, o torna instável e auto-destrutivo ao ponto de usar os marginais de perto de sua casa como uma forma de auto-flagelação, com direito até mesmo a uma facada na barriga. Aliás, seu desfalecimento e despertar no que parece ser um vilarejo mexicano muito parecido com o que vimos em Breaking Bad (episódio 4X11), parece apontar para o fato de que Gus mantém uma vigilância sobre ele. Afinal, quem mais que conhece Mike teria os recursos necessários para fazer o que foi feito?

Mas Namaste tem mais. Não só vemos o envolvimento de Jimmy com Howard, com direito a uma sequência de abertura sensacionalmente enigmática em que ele acaba comprando as bolas de boliche em uma loja que, aparentemente, tem de absolutamente tudo, como somos brindados com uma hilária defesa de um cliente dele (ou melhor, de Saul) no Tribunal e que leva Kim a “contratá-lo” para ajudá-la em algo que vem mastigando toda sua noção de ética. Apesar de trabalhar para Mesa Verde e de fazer de tudo para que seu cliente mude o local de construção do call center para permitir que o senhor que ela conhecera no episódio anterior continue morando em sua casa, ela não se dá por satisfeita com a negativa que recebe, o que dá ignição a um plano para equilibrar a balança usando as malandragens jurídicas de Saul. Só a maneira como Saul convence o velhinho a deixar que ele o represente já merece um prêmio de originalidade, sendo que fui forçado a pausar o episódio para acalmar meus espasmos de risadas. Nada como uma foto de bestialidade para convencer um cliente, não é mesmo?

Em outras palavras, Namaste só parece episódico e com um passo apertado em uma verificação de soslaio, sem atenção, pois, na verdade, trata-se de outro episódio da mais alta qualidade narrativa que faz todas as tramas avançarem de maneira cadenciada. Sim, talvez ele peque um pouco na direção de fotografia de Paul Donachie, mas não por ela ser fraca, pois não é, mas sim por não chegar ao patamar dos trabalhos de Marshall Adams nos três episódios anteriores. É a forma abrindo espaço para a função, ainda que os dois fossem perfeitamente conciliáveis.

Better Call Saul – 5X04: Namaste (EUA, 09 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Gordon Smith
Roteiro: Gordon Smith
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.