Netflix – Séries

Crítica | Kingdom (2019) – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Como afirmei na crítica da 1ª temporada de Kingdom, a série sul-coreana de zumbis passada durante o feudalismo veio como uma lufada de ar fresco para o já bem desgastado sub-gênero. Afinal, não é todo dia que nos deparamos com intrigas palacianas servindo de pano de fundo para uma infestação de desmortos enlouquecidos que, diferente do usual, dormem durante a noite (ou assim nos levaram a crer!).

Mas a temporada inaugural, de seis episódios velozes e furiosos, teve seus problemas, dentre eles uma narrativa sócio-política maniqueísta demais que não permitia o desabrochar da história nos momentos de calmaria sem zumbis e a necessidade de se manter certos segredos – lembrem-se que o primeiro episódio até escondia a natureza da série – que segurava um pouco a pancadaria desenfreada. Continuava sendo uma diversão completa, mas faltava algo.

E a boa notícia é que, agora, não falta mais!

A 2ª temporada, com a mesma quantidade de episódios, utiliza muito bem a vantagem de já ter toda sua premissa explicada, além de não haver qualquer tipo de amarra em termos de reviravoltas ou surpresas para o espectador. O que vemos é a continuação imediata do cliffhanger em que descobrimos que os desmortos não gostam é de frio, com dois episódios quase inteiros repletos de memoráveis sequências de ação de deixar qualquer um roendo as unhas. E o melhor é que até a intriga política por trás acaba se beneficiando disso, já que ela ganha algumas nuances interessantes, como a relativização da relação entre o Conselheiro Real Cho Hak-ju e sua ardilosa filha, a Rainha Cho, e a revelação de que nem toda a casta nobre é composta de gente que não liga para nada a não ser seu próprio umbigo, já que essa característica, antes, ficava restrita ao altivo príncipe herdeiro quixotesco Lee Chang.

Muito claramente existe uma melhor conversa entre os dois “lados” dessa história, algo que é bem-vindo e certamente oriundo da necessidade de se lidar com os zumbis sem intervalos, sempre com soluções engenhosas para permitir um respiro entre sequências sanguinolentas épicas. Ainda acontecem algumas pequenas reviravoltas, como a traição do leal Mu-yeong e o envenenamento de Cho Hak-ju, mas elas são orgânicas, suaves e perfeitamente dentro da lógica estabelecida pela história. Não é mais a surpresa pela surpresa, como a questão dos desmortos acordados durante o dia e sim algo que contribui efetivamente para o desenvolvimento tanto dos personagens quanto da narrativa.

Os dois elementos que realmente diferenciavam a série – sua belíssima fotografia e sua reconstrução de época cuidadosa – continuam firmes e fortes aqui, com os diretores Kim Seong-hun e Park In-Je aproveitando-se ao máximo das filmagens em locação, com planos gerais de fazer o queixo cair como o da sequência da morte de Mu-yeong na floresta gelada com árvores de tronco branco ou quando as hordas de monstros ganham inacreditavelmente boas coreografias em meio a campos abertos em momentos que certamente foram de extrema complexidade cinematográfica tamanha a quantidade de extras e de acontecimentos simultâneos. O figurino salta aos olhos até mesmo na estranha beleza que é ver Lee Chang e seus soldados com túnicas ensopadas de sangue.

Por vezes, é bem verdade, o CGI – normalmente utilizados com parcimônia em alguns panos de fundo – falha e mostra sua “cara”, ameaçando retirar o espectador de determinadas sequências como a da corrida/combate nos telhados do palácio real. Mas a grande verdade é que isso só acontece se quisermos ser muito implicantes, pois é palpável o detalhismo em todos os outros quesitos, com essa sequência que destaquei e que acontece mais para o final da temporada sendo particularmente espetacular.

Desgosto, porém, do subaproveitamento quase criminoso de Seo-bi, a médica vivida por Bae Doona, que parece muito mais um artifício narrativo de revelação das características da planta que ressuscita os mortos do que uma personagem propriamente dita. Do jeito que os roteiros são escritos, ela é como se fosse uma nota de rodapé, um detalhe conveniente para explicar ao espectador aquilo que muitas vezes é perfeitamente possível deduzir apenas com imagens. E, quando ela é inserida na ação – o que só acontece de verdade mais para o final – sua presença é quase invisível. Considerando o belo desenvolvimento que Lee Chang ganhou, ainda que talvez indo rápido demais de príncipe mimado para salvador dos fracos e oprimidos, era de se esperar algo semelhante para a médica, o que acaba não acontecendo, retirando de Doona a oportunidade de brilhar.

Por outro lado, é de se elogiar a forma como a história fica redonda e cuidadosamente encerrada, com todas as pontas sendo devidamente amarradas em um conjunto harmônico e lógico que tem início, meio e fim definidos. É por isso que o epílogo, que só existe para justificar uma 3ª temporada, acaba ficando forçado, introduzindo outros elementos exógenos à trama, mais especificamente o mistério da origem da planta e o verme aparentemente em estase que acorda no rei mirim. Se eu ignorasse esses 10 minutos finais que são completamente expletivos e aceitasse o subaproveitamento de Seo-bi, a temporada seria perfeita não só como temporada, mas também como fechamento de uma saga. Infelizmente, porém, a necessidade tipicamente hollywoodiana tomou de assalto a produção sul-coreana e, muito provavelmente, a história continuará.

Mas não podemos ter tudo, não é mesmo? Se a continuidade é inevitável, só nos resta torcer para que ela seja tão boa quanto a 2ª temporada, com a torcida para que a personagem de Bae Doona ganhe o destaque e a relevância que merece.

Kingdom ( 킹덤, Coréia do Sul – 13 de março de 2020)
Direção: Kim Seong-hun, Park In-Je
Roteiro:  Kim Eun-hee (baseado em seu webcomic)
Elenco: Ju Ji-hoon, Ryu Seung-ryong, Bae Doona, Kim Seong Gyu, Kim Sang-ho, Heo Joon-ho, Jeon Seok-ho, Kim Hye-jun, Jung Suk Won
Duração: 269 min. por episódio (6 episódios no total)

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | Paradise Police – 2ª Temporada

Depois de mais de um ano e meio privando os espectadores de cavalares injeções de incorreção política, escatologia, nojeira e piadas relacionadas quase que exclusivamente com sexo (nem sempre entre humanos) e drogas, Paradise Police volta com uma temporada encurtada de oito episódios para continuar a contar a história da Loucademia de Polícia dos anos 2010 que tenta emular South Park sempre que pode, mas nunca chegando nem perto. Ou seja, um verdadeira alívio!

Como ficou claro ao final da 1ª temporada, Waco O’Guin e Roger Black, criadores da série, resolveram seguir uma estrutura continuada que trabalha um macro-arco narrativo relacionado com a caçada da polícia ao Rei das Drogas da cidade de Paradise, algo razoavelmente incomum para obras do tipo, mas que é muito bem-vindo. Com isso, a ação começa exatamente de onde parou, com Dusty na prisão e Fitz, finalmente revelado como o vilão, comandando o submundo do crime. O lado negativo dessa escolha é que a 2ª temporada fica razoavelmente confinada, muitas vezes simplesmente repetindo a estrutura e as gags anteriores, só que com roupagem levemente diferente.

Dessa forma, não seria de todo equivocado dizer que o que temos é apenas mais do mesmo. Se a própria temporada anterior já começou a se repetir prematuramente, a questão é agravada na continuação, que se mostra sem fôlego para realmente inovar. Se o saco escrotal foi um dos alvos preferidos do humor de O’Guin e Black, ele volta com força total, com direito a um personagem que tem “bolas” avantajadas, com direito à revelação de que Karen tem uma tara por elas. Como disse, é a mesma coisa só que com as proverbiais pequenas diferenças.

Quando, porém, Paradise Police sai de sua zona de conforto, a comicidade arrisca entrar em ebulição, como é o caso do episódio quase que integralmente dedicado a abordar todas as lendas (e fatos) urbanos que cercam o conglomerado Disney, com direito até mesmo ao assassinato do Pateta e o subsequente uso de sua pele esfolada como disfarce. Episódios como esse – que são raros, vamos combinar – é que mostram o verdadeiro potencial do humor destrutivo da dupla de showrunners e é o que retira Paradise Police simplesmente do rótulo do “mais do mesmo”. Outros exemplos semelhantes é quando as polícias se multiplicam na cidade, uma só de homens, outra só de mulheres e assim por diante, com a exploração muito bem bolada de todos os estereótipos possíveis, além de uma série de estocadas em todos os exageros politicamente corretos que vemos por aí.

Mas a série sem dúvida rateia ao não conseguir trabalhar seu humor de maneira que dependa menos de, por exemplo, Karen bebendo uma garrafa de uísque, vomitando dentro dela e, em seguida, bebendo seu próprio vômito, e galgando um ou dois degraus acima em termos de relevância humorística. Tudo gira em torno da nojeira rasgada, nas piadas sobre fezes – há um episódio quase inteiro sobre a “absurda” e “desrespeitosa” incapacidade de Kevin de defecar na delegacia -, sobre os acessórios sexuais Hopson e sobre o vício em drogas de Bullet. Diverte às vezes, mas, quase sempre o que vemos é algo completamente esquecível que é muito capaz de revoltar os mais sensíveis (não tenho problema com piadas escatológicas, mas confesso que não consegui fazer meu habitual “lanchinho” enquanto assistia a série e tive que pausar quando alguém se aproximava da sala…). Em suma, é humor que tem muito mais um fim em si mesmo do que algo que almeje algum tipo de perenidade como seus diversos pares – inclusive a tão festejada, mas que não sou lá muito fã Rick and Morty – sem dúvida conseguem alcançar.

No final das contas, Paradise Police é diversão rápida e rasteira que acaba conseguindo tirar algumas boas gargalhadas do espectador especialmente quando arrisca ser mais do que é. De resto, no momento em que os créditos começam a rolar, já fica difícil lembrar o que foi assistido.

Paradise Police – 2ª Temporada (Idem, EUA – 06 de março de 2020)
Criação: Waco O’Guin, Roger Black
Direção: Brian Mainolfi, Lauren Andrews, Matt Garofalo
Roteiro: Roger Black, Waco O’Guin, Dan Signer, Steve Tompkins, Rocky Russo, Jeremy Sosenko
Elenco (vozes originais):  David Herman, Tom Kenny, Sarah Chalke, Kyle Kinane, Cedric Yarbrough, Dana Snyder, Grey Griffin, Waco O’Guin, Roger Black
Duração: 242 min. (8 episódios)

Crítica | Altered Carbon – 2ª Temporada

Quando acabei de assistir a 2ª temporada de Altered Carbon, custosa aposta cyberpunk da Netflix baseada na série de romances de Richard Morgan, tive finalmente certeza absoluta de uma coisa que havia começado a se formar em minha mente já na temporada inaugural: estou diante do meu mais novo guilty pleasure que eu defenderei com unhas e dentes até a morte, mesmo tentando manter-me distante o suficiente para trazer uma crítica menos apaixonada. A série tem todos os predicados de uma obra que pode ser classificada dessa forma, a começar por aquele visual sci-fi que parece apuradíssimo se você assistir sem óculos, mas que, na verdade, fica na linha fronteiriça entre o básico e o marginalmente acima do mediano. Os personagens são recortados em cartolina em sua grande maioria e a trama até arrisca digressões filosóficas aqui e ali, mas sem nunca realmente mergulhar de cabeça em nada. Há romances bregas – inclusive um irresistível entre construtos de inteligência artificial que merecia uma série spin-off própria – e, principalmente, pancadaria explícita e incessante do começo ao fim, com direito a uma contagem de corpos bem alta. Ah, claro, não podemos esquecer dos dois vilões que são tão cartunescos que eles inadvertidamente são hilários.

Passada 30 anos depois dos eventos da 1ª temporada, a nova história parece, em seu primeiro episódio, um reboot narrativo completo. Takeshi Kovacs, agora, habita uma nova e altamente militarizada capa (Anthony Mackie substituindo Joel Kinnaman) que faz parte do pacote oferecido pelo matusa Horace Axley (Michael Shanks) – e que inclui a revelação de onde estaria Quellcrist Falconer (Renée Elise Goldsberry) – para que o Último Enviado faça as vezes de guarda-costas para ele. Claro que tudo dá imediatamente errado e, em meio à confusão, o mistério sobre o paradeiro de Falconer (aliás, um parênteses: esses nomes são sensacionais, não?) e o que está acontecendo com os matusas fundadores do Mundo de Harlan, planeta onde nasceu Kovacs e onde toda a ação se passa, que aparecem violentamente mortos de verdade. Com a I.A. Poe (Chris Conner, disparado o melhor ator da série) ainda à tira-colo, mas agora cheio de bugs e temendo perder sua memória se fizer a reinicialização que precisa fazer e unindo-se à caçadora de recompensas com implantes biônicos Trepp (Simone Missick, que tem uma presença em tela invejável e magnética), Kovacs passa a correr contra o tempo para entender o que está acontecendo, ao mesmo tempo que foge da caçada que o Coronel Ivan Carrera (Torben Liebrecht, o primeiro vilão cartunesco e muito divertido em com sua constante cara de mal que muda sutilmente para cara de enfezado) empreende a ele, sob o comando relutante da governadora Danica Harlan (Lela Loren, a segunda vilã cartunesca, que só falta soltar aquelas risadas maquiavélicas enquanto esfrega as mãos), filha de Konrad Harlan (Neal McDonough em uma ponta), fundador da colônia planetária e que está desaparecido.

A trama é repleta de reviravoltas, revelações e de situações que ampliam ainda mais a mitologia da série, especialmente no que diz respeito à raça misteriosa de alienígenas que legou aos humanos o metal que torna possível a criação dos HDs onde a mente humana pode ser gravada, permitindo imortalidade. Discussões sobre o imperialismo, genocídio, corrupção, papel das forças armadas e, claro, do que significa a vida em um universo onde a morte mesmo só existe para poucos, pontilham toda a narrativa, mas nunca avançam a ponto de tornar Altered Carbon uma série contemplativa. Muito longe disso, aliás, o comando da obra por Laeta Kalogridis mira na ação, com muito investimento em sequências de tirar o fôlego e de belíssimas e variadas coreografias de luta das mais diversas naturezas, todas embaladas por uma direção e montagem que privilegiam a visceralidade e a violência explícita.

Eu disse acima que a história “parece” ser um reboot narrativo completo em relação à 1ª temporada, o que, se fosse verdade, seria um desserviço ao que foi estabelecido antes. Na verdade, na medida em que os episódios avançam (são apenas oito no lugar dos 10 anteriores, o que garantem um passo acelerado), o espectador vai percebendo que, muito ao contrário, apesar da troca da capa do protagonista – artifício narrativo estupendo justamente para permitir a troca de atores a cada temporada -, a história alimenta-se sem pudores de tudo o que veio antes, com os roteiros fazendo malabarismos por vezes até desnecessários para trazer todo o elenco anterior de volta de diversas maneiras diferentes. Portanto, a 2ª temporada é uma legítima e lógica continuação da saga de Takeshi Kovacs que tem o mérito de entregar uma história potencialmente ainda mais interessante e que realmente valoriza o protagonista.

Falando nele, muita gente pode querer saber o que achei de Mackie no lugar de Kinnaman e, ainda que o segundo seja, em linhas gerais, um ator muito melhor do que o primeiro, as exigências do papel não são tão grandes assim e Mackie consegue abraçar bem o personagem, acrescentando, talvez, um ar (bem) levemente mais cômico e bonachão que acaba combinando bem com o que a narrativa pede. Claro que as presenças de Chris Conner e de Simone Missick, além de Dina Shihabi como a I.A. Dig 301, ajudam a elevar o sarrafo dramático, retirando um pouco do foco nas caras e bocas de dor e frustração de Mackie, além da quase que ausência completa de emoção da Falconer de Goldsberry, algo que, justiça seja feita, faz parte da personagem. Em outras palavras, não estamos diante do elenco mais inspirado na face da Terra (ou do Mundo de Harlan), mas ele mais do que dá conta do recado com uma boa química entre eles e por vezes até mesmo lampejos de um trabalho acima do esperado como quando Kovacs é torturado por Carrera ou quando a conexão entre Conner e Dig é estreitada.

Do lado visual, é perceptível a economia da produção na computação gráfica. O mundo legitimamente cyberpunk da temporada inaugural não existe mais com tanta força aqui – planetas diferentes, afinal de contas -, pelo que as sequência dessa natureza abrem espaço para cenários mais confinados e, portanto, mais baratos, com o CGI utilizado de maneira mais cirúrgica e nem sempre tão eficientemente, como é o caso das demonstrações do Fogo de Anjo. Aliás, até mesmo os cenários práticos – notadamente em Stronghold, com suas rochas de isopor – sofrem com a redução orçamentária. Mas esses são detalhes desimportantes que ficam em segundo plano diante da história bem cadenciada e pelo maravilhamento que a própria base narrativa – as capas, os HDs nas colunas cervicais, os clones e assim por diante – gera no espectador e que, aqui, ganha uma contextualização maior e mais relevante.

Como todo bom guilty pleasure, quando acabei a 2ª temporada deu vontade não só de assistir tudo novamente – o que obviamente não fiz e provavelmente não farei, pois o dia ainda tem só 24 horas – como de que a Netflix dê um jeito de soltar a 3ª temporada mais rapidamente do que os mais de dois anos que precisou entre a 1ª e a 2ª. Talvez a leitura dos dois outros romances de Morgan que ainda faltam supram minha carência nesse tempo ou, claro, assistir alguns de seus primos mais velhos como Comando para Matar e Stallone Cobra

Altered Carbon – 2ª Temporada (EUA, 27 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento:  Laeta Kalogridis (baseado em romances de Richard Morgan)
Direção: Ciaran Donnelly, M. J. Bassett, Jeremy Webb, Salli Richardson-Whitfield
Roteiro: Laeta Kalogridis, Sarah Nicole Jones, Michael R. Perry, Sang Kyu Kim, Cortney Norris, Adam Lash, Cori Uchida, Nevin Densham, Alison Schapker, Elizabeth Padden
Elenco: Anthony Mackie, Chris Conner, Renée Elise Goldsberry, Simone Missick, Lela Loren, Dina Shihabi, Torben Liebrecht, Will Yun Lee, Michael Shanks, Sen Mitsuji, James Saito, Neal McDonough, Dichen Lachman, Ato Essandoh, Martha Higareda
Duração: 393 min. (8 episódios no total)

Crítica | 3% – 3ª Temporada

3% plano crítico netflix temporada 3

Vou pra rua e bebo a tempestade.

É difícil discutir uma obra que retoma questões marcantes e sequências inspirativas, que outrora deu certo. No caso de 3%, a 3ª Temporada é uma releitura direta da primeira, levantando os mesmos assuntos discutidos sob uma mesma filosofia e ambiente. Esse artifício funciona: relembra o teor chocante da 1ª Temporada, que conseguiu atrair muitas críticas positivas. Por outro lado, realça a questão: repetir assuntos já vistos é uma artimanha eficiente para manter a audiência fiel conquistada anteriormente ou é o reflexo da covardia dos produtores?

De fato, a 1ª Temporada dividiu muito as críticas. O fato, é que indiscutivelmente, 3% surge como uma categoria pouco vista por aqui: a crítica como elemento secundário e imaginário. E talvez esse seja o maior fator para a explosão de audiência que a temporada levou. Uma história que discute meritocracia e desigualdade social sem o semblante que narrativas do gênero carregam, especialmente no Brasil — que tende sempre a lembrar o espectador de que ele “está assistindo a um projeto que quer alfinetar alguém ou alguma coisa” — , era algo um tanto inovador. E isso já foi bastante para projetar 3% tanto nacionalmente quanto internacionalmente. No entanto, apesar da 2ª Temporada turbulenta que desenvolveu aspectos importantes, a série perdeu grande parte do público. A decisão dos produtores não foi diferente de: “então vamos retomar para a primeira temporada?

Claramente retornar com a questão do processo para o Maralto, assunto já discutido antes, seria o mesmo que tratar o espectador como um acéfalo. Felizmente – ou infelizmente -, os roteiristas construíram uma nova maneira de recontar a história. A Concha, fundada por Michele (Bianca Comparato) não é nada mais do que a reconstrução ideológica da estrutura do processo. Tanto que não é um acontecimento mirabolante para que ela propusesse um processo dentro da Concha: bastou uma tempestade de areia aleatória que surgiu literalmente do nada. Se analisarmos a circunstância que desencadeou a história, não está longe de questionarmos o seguinte: “é sério que ergueram uma super construção no meio do deserto mas não tinham um plano de defesa contra tempestades de areia?” De novo, não indo muito distante, percebemos que foi só uma desculpa mal pensada pelos produtores para o início da história. O problema é que os roteiristas tratam, nesse momento, os protagonistas como burros – até porque eles tinham sistema de monitoramento 24 horas, e só perceberam a tempestade quando ela já havia chegado – e, inevitavelmente, tentam brincar com a falta de inteligência dos espectadores.  Não é preciso dizer que isso não dá certo, além de nos deixar extremamente incomodados com tamanha cara de pau, certo?

Depois deste catastrófico primeiro episódio, a série enfim reforça seus pontos positivos. As provas desenvolvidas por Michele são criativas e instigantes; os personagens tem personalidade e boas atuações; as ambientações são incríveis e, pelo menos um elemento diferente da 1ª Temporada: não conseguimos definir para qual lado torcer, se para os eliminados do processo da Concha ou para a Concha. Além disso, destaco a belíssima sequência de Bom Conselho, interpretada por Johnny Hooker, com uma fotografia literalmente impecável, fazendo qualquer um terminar em lágrimas. Pena que, ironicamente, essa sequência é bem parecida com Preciso Me Encontrar, cantada na temporada anterior – está complicado encontrar algo diferente aqui.

Porém, não é difícil percebermos que a Concha é uma reprodução do Maralto, que Michele tem a mesma função que Marcela (Laila Garin) e Ezequiel (João Miguel), que Xavier (Fernando Rubro) repete a personalidade e tem o mesmo papel de Fernando (Michel Gomes), que Glória (Cynthia Senek) tenta substituir o papel de Joana (Vaneza Oliveira), que, por sua vez, se torna a releitura de Ivana (Roberta Calza), entre outros. Isso até funciona e prende o espectador durante todos os episódios. É, de fato, uma “fórmula de sucesso”. Mas até quando os produtores se esconderão no manto da primeira temporada, sem desenvolver a história? Note que literalmente não acontece nada de muito marcante nesta temporada, bastava uma citada em um único episódio para resumir tudo que aconteceu aqui. Sem dúvidas, isso é consequência da releitura do primeiro ano, pois se estamos vendo o que já aconteceu, não há nada de novo. É, resumidamente, um passatempo para enrolar a vivência da série. Pelo menos o final levanta um clima positivo. Poderemos esperar uma 4ª Temporada bem badalada, com um hype maior do que a 2ª. Se essa esperança de recuperar as expectativas foi o objetivo dos produtores, eles conseguiram.

A 3ª Temporada de 3% é interessante de se assistir. Pena que é a repetição de tudo que já vimos antes, em especial a estreia, tornando-se uma temporada inútil do ponto de vista execução da história, mas cativante nas sequências. O que podemos esperar é uma maior ousadia dos produtores (que mostraram interesse em ter, visto o final do presente ano) e assim, uma próxima temporada tão boa e interessante quanto a iniciais. De mais, 3% ainda pode ser considerada uma grande produção brasileira.

3% – 3 Temporada (Brasil, 2019)
Direção: Jotagá Crema, Daina Giannecchini, Dani Libardi, Philippe Barcinski, César Charlone
Roteiro: Pedro Aguilera, Ivan Nakamura, Denis Nielsen, Guilherme Freitas, Teodoro Poppovic, Juliana Rojas, André Sirangelo, Jotagá Crema, Cássio Koshikumo, Andrea Midori, Marcelo Montenegro, Carol Rodrigues
Elenco: Bianca Comparato, Vaneza Oliveira, Rodolfo Valente, Zezé Motta, Fátima Porphirio, Rafael Lozano, João Miguel, Michel Gomes, Cynthia Senek, Bruno Fagundes, Laila Garin, Thais Lago, Fernanda Vasconcellos, Silvio Guindane, Celso Frateschi, Mel Fronckowiak, Luciana Paes, Amanda Magalhães
Duração: 8 episódios com cerca de 45 min.

Crítica | Grace and Frankie – 6ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores. 

Grace and Frankie é uma série deliciosa em sua premissa e execução, com a quadra de atores principais na terceira idade dando shows de atuação. Os criadores e showrunners Marta Kauffman e Howard J. Morris vinham acertando com constância desde a 1ª temporada, sempre trazendo frescor à narrativa. A única temporada que considero um tropeço é a 5ª, que experimenta um caminho menos coeso, fragmentando sua história em pequenas narrativas que mais parecem esquetes. A esperança era de que, nas duas temporadas finais, a série voltasse aos eixos e é alvissareiro notar que é sem dúvida isso que vemos agora na 6ª.

Ao final de minha crítica anterior, mencionei que era importante, agora com Grace casada com Nick, que os showruuners tivessem coragem para abraçar o novo status quo, evitando a reversão ao estado anterior acontecesse de imediato. Fazendo justamente isso, a temporada faz com que a manutenção de Grace e Nick como um casal seja um de seus eixos centrais, inclusive introduzindo um novo cenário fixo, o  nababesco apartamento do bilionário em San Diego com um sofá que serve de catalisador para que Grace perceba que tem problemas para levantar-se, o que leva à criação, por Frankie, do Rise Up (ou “Ascensão”, em português), um vaso sanitário que levanta o usuário e que é outro eixo narrativo da temporada.

Em outras palavras, no lugar de correr para “apagar” Nick da vida de Grace e fazê-la voltar à casa de praia com Frankie, os roteiros usam essa circunstância – que sim, nada contra a própria premissa da série, o que a torna justamente mais valorosa – para criar uma história relevante ao redor, unindo as duas ainda mais e formando um trio, já que a hilária Joan-Margaret aboleta-se junto à Frankie, para evitar a solidão da hippie octogenária (septuagenária na série). Toda essa dinâmica é muio bem trabalhada, inclusive a que coloca Nick na equação como o marido genuinamente apaixonado por sua nova esposa e que tenta fazer de tudo para agradá-la, inclusive permitir Frankie e sua vida muito mais do que o razoável. É bem verdade que há momentos em que Nick desaparece da história, deixando Grace e Frankie no cenário da casa de praia como se juntas morassem, mas, mesmo que isso incomode um pouco, não é algo que realmente desfaça o casamento sem desafazê-lo, mas sim uma escolha perfeitamente lógica de manter o relacionamento das duas como mola mestra desse lado da história.

É o outro lado da história, que aborda o relacionamento de Sol com Robert que carece de frescor. Há uma repetição temática – o câncer de Sol no lugar dos problemas cardíacos de Robert – que não acrescenta muita coisa ao desenvolvimento dos dois. Ainda é sensacional ver a dupla de atores veteranos claramente divertindo-se como um casal gay que demorou décadas e décadas para sair do armário, mas toda a narrativa, aqui, parece ficar em segundo plano, quase que como um mero apoio ao casal de amigas traídas.

Por outro lado, é uma felicidade perceber que Kauffman e Morris estabeleceram um terceiro vértice narrativo que coloca Brianna nos holofotes. A personagem de June Diane Raphael sempre teve um potencial cômico que ganhava destaque aqui e ali, mas que jamais havia sido brindada com uma história completa e própria. Aqui, porém, o erro é corrigido, já que Brianna tem que lidar com seu relacionamento com Barry (Peter Cambor, outro ótimo comediante) de maneira mais direta e com amplo espaço que nos leva a situações hilárias que vão desde a impregnação do casal de lésbicas com o esperma de Barry durante a Comic-Con até uma proposta muito peculiar de “casamento”. Se eu pudesse eleger um spin-off de Grace and Frankie para ser produzido, ele seria facilmente Brianna and Barry.

No entanto, olhando de maneira mais holística para a temporada e seu encaixe em toda a série, apesar de o nível ter subido muito em relação à desapontadora temporada anterior, já está mesmo na hora da série acabar. Seguir indefinidamente com uma obra dessa natureza é inevitavelmente voltar aos mesmos assuntos seguidas vezes. Tudo bem que o novo produto para idosos de Grace e Frankie e a separação das duas foram aspectos muito bem conduzidos pelo roteiro, mas esses assuntos são recorrentes e não há muito mais leite a ser tirado dessa pedra. A escolha de terminar tudo em mais uma temporada (que terá 16 episódios, a maior de todas), portanto, é mais do que acertada, permitindo que, se tudo der certo, a sensacional quadra de ases da terceira idade encerrem as histórias de seus personagens por cima.

Grace and Frankie – 6ª Temporada (Idem, EUA – 18 de janeiro de 2019)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: Marta Kauffman, David Warren, Ken Whittingham, John Hoffman, Betty Thomas, Marta Cunningham, Ken Whittingham, Rebecca Asher, Alex Hardcastle
Roteiro: Marta Kauffman, Howard J. Morris, David Budin, Brendan McCarthy, Julie Durk, John Hoffman, Julieanne Smolinski, Alex Burnett, Barry Safchik, Michael Platt, Brooke Wied, Elena Crevello, Alex Levy, Ben Siskin, Alex Kavallierou
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Peter Cambor, Ernie Hudson, Tim Bagley, Michael Charles Roman, Brittany Ishibashi, Millicent Martin, Lindsey Kraft, Peter Gallagher, Michael McKean
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

Crítica | Perdidos no Espaço – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas da temporada anterior e de todo nosso material sobre Perdidos no Espaço.

Voltando com a 2ª temporada mais de um ano e meio depois da completa reimaginação da famosa série sessentista, a versão de Perdidos no Espaço do Netflix é, em poucas palavras, uma gostosa aventura espacial que reúne os melhores elementos que as pegadas camp e realista – antitéticas por natureza – podem oferecer. E o segundo ano da série desenvolvida por Matt Sazama e Burk Sharpless com base em criação de Irwin Allen e comandada por Zack Estrin só reitera essa conclusão, já que ele apara arestas, expande esse universo e apresenta novas situações que mantém o espectador constantemente grudado na telinha.

Iniciando sete meses após os eventos da 1ª temporada, vemos os Robinsons, Don West (Ignacio Serricchio) e a Dra. Smith (Parker Posey) perdidos em uma minúscula faixa de areia em um planeta tomado de água e uma atmosfera irrespirável. É Natal e a família toda reunida comemora a data da melhor forma possível, com o episódio inaugural investindo sem pudor na abordagem “família” que a série original tinha, além de trabalhar a vilanesca Smith da melhor forma possível dentro dessa estrutura limitada.

Quando os dois episódios iniciais se encerram lidando com esse planeta em questão, fica a impressão de que o showrunner investirá em “planetas da semana” como forma de contar sua história, mas isso logo se dissipa quando nossos heróis conseguem retornar para a Resolute, retrabalhando a conexão de Will com o robô que, por sinal, permanece sumido por nada menos do que seis episódios, uma aposta arriscada, mas que dá certo, já que abre espaço para as relações humanas com outros personagens que vão ao pouco sendo introduzidos.

Em outras palavras, não temos, aqui, a fórmula mestre da série original. Não são só os Robinsons mais Don West mais Doutora Smith que jogam o jogo nessa reformulação e, francamente, essa escolha é muito bem-vinda, até porque eles permanecem com o protagonismo absoluto, mas com um ecossistema ao redor que permite que os roteiros trabalhem histórias melhores, todas elas ancoradas nos mistérios sobre a verdadeira natureza dos seres cibernéticos que, como descobrimos em detalhes, são absolutamente toda a base da ciência por trás da nave migratória terráquea, com a introdução de Espantalho, um robô violentamente escravizado para o propósito de navegar pelo espaço.

O mote geral é a história de amadurecimento clássica, com Will (Maxwell Jenkins) e o próprio robô (Brian Steele) no epicentro dessa narrativa. O jovem Jenkins mostra mais uma vez ser coração puro e é perfeitamente possível ver como ele mudou não só fisicamente, mas mentalmente de uma temporada para outra, com roteiros que não tornam o personagem apenas mais uma criança para simpatizarmos, mas sim alguém com quem podemos criar empatia imediata. E o mesmo pode ser dito, mais uma vez, do excelente robô de Steele, criado por meio de uma magnífica fusão de efeitos práticos com CGI e um ótimo trabalho de mixagem e edição de som. Falando pouco, mas transmitindo muito, o robozão é de se aplaudir.

Mas o tema amadurecimento perpassa pelos demais jovens Robinsons. Judy (Taylor Russell), a mais velha dos três filhos do casal, é a primeira a se tornar adulta em idade e aquela que carrega nos ombros a responsabilidade de manter a família unida, tendo um passado complicado com seu pai adotivo John (Toby Stephens) que é trabalhado com curtos e eficientes flashbacks que são mais bem inseridos aqui do que os das 1ª temporada foram, demonstrando que os roteiristas aprenderam com seus erros. Penny (Mina Sundwall) é mantida como a “filha inútil” que precisa aprender a viver como sendo a menos científica dos Robinsons, algo que é logo abordado com a ótima ideia de colocá-la como biógrafa da família e fazer com que seu livro – Perdidos no Espaço, claro! – seja um elemento narrativo importante para a primeira metade da temporada.

Maureen (Molly Parker) e John continuam como o carismático casal que se vê tendo que proteger seus filhos de um lado e de resolver absolutamente todos os problemas que aparecem na temporada, desde achar água em um poço até organizar, da noite para o dia, um motim. É aqui que o aspecto camp da série mais se sobressai, com aquelas divertidas conveniências narrativas e soluções e salvamentos de último segundo que fazem parte do DNA de Perdidos no Espaço e que funcionam muito bem ao longo dos 10 episódios da temporada. Afinal, ver Toby Stephens mais uma vez encarnando o Capitão Flint de Black Sails logo no começo da temporada ao velejar a Júpiter 2 não tem preço, não é mesmo? Mas, brincadeiras à parte, mesmo eles precisam crescer e enxergar que seus filhos já não são mais os mesmos e que eles precisam de liberdade para fazer o que escolherem.

E, claro, Parker Posey toma controle absoluto de sua Dra. Smith, com o texto da temporada emprestando-lhe mais nuances e camadas que são muito bem exploradas em momentos críticos, como quando ela precisa avisar Maureen de um perigo, mas acaba não conseguindo por não conseguir “enfrentar” seu próprio bloqueio psicológico em relação a Samantha (Nevis Unipan), filha do homem que matara na temporada anterior. Assim como os demais, esse conflito interno na famigerada Dra. traz desenvolvimento para a personagem e Posey faz uma composição perturbadora e que se diferencia bastante ao mesmo tempo que presta homenagem ao clássico personagem criado por Jonathan Harris.

Os únicos problemas da temporada estão no lado “vilões do momento”. O primeiro deles, Hastings (Douglas Hodge), ganha um enorme alargamento que, apesar de conectar-se com o “pecado original” de Maureen ao alterar os resultados dos teste de Will para fazê-lo ser elegível para Alfa Centauro, não consegue sair da unidimensionalidade vilanesca absoluta. Ele é como um feitor de escravos capaz de tomar todas as piores decisões possíveis em um pacote único e conveniente, somente para dar de cara com os Robinsons. O outro vilão do momento é Ben Adler (JJ Feild) que até ganha aquela aura de “personagem multidimensional”, mas que não passa de bucha de canhão, criado com todo o cuidado possível para ele ser literalmente incinerado ao final. Pelo menos Feild consegue convencer nos sentimentos de seu personagem quase tão raso quanto o de Hodge.

Entretenimento do mais alto gabarito, com ótimos efeitos práticos e de computação gráfica, Perdidos no Espaço é ficção científica que sabe respeitar o material fonte sem medo de alterá-lo para o bem da narrativa e que traz aventuras no estilo clássico, mas com roupagem moderna para encantar a audiência de todas as idades. Diversão, Will Robinson!

Perdidos no Espaço – 2ª Temporada (Lost in Space – Season 2, EUA – 24 de dezembro de 2019)
Desenvolvimento:  Matt Sazama, Burk Sharpless (com base em criação de Irwin Allen)
Showrunner: Zack Estrin
Direção: Alex Graves, Leslie Hope, Jon East, Tim Southam, Jabbar Raisani, Stephen Surjik
Roteiro: Matt Sazama, Burk Sharpless, Zack Estrin, Liz Sagal, Kari Drake, Vivian Lee, Katherine Collins, Daniel McLellan
Elenco: Toby Stephens, Molly Parker, Taylor Russell, Maxwell Jenkins, Mina Sundwall, Ignacio Serricchio, Parker Posey, Brian Steele, Ajay Friese, Sibongile Mlambo, JJ Feild, Sakina Jaffrey, Tattiawna Jones, Jarret John, JJ Feild, Douglas Hodge, Nevis Unipan
Duração: 447 min. (10 episódios no total)

Crítica | Drácula – Minissérie Completa

plano critico dracula série TV

Drácula é um dos personagens mais marcantes da cultura contemporânea, massificado pelo cinema, transformado pelas adaptações televisivas, constantemente retomado em quadrinhos, músicas e outros suportes artísticos, representação cabal da ideia de vampiro que temos calcificada em nosso imaginário. Criado por Bram Stoker num período de mudanças culturais importantes para o estabelecimento de novas ordens sociais ao redor do planeta, o aterrorizante, sagaz, manipulador e sensual conde é uma das imagens que neste processo de constante tradução intersemiótica, tornou-se quase impossível de ser reencenado com algum vigor que denote um tom de novidade e oxigenação, algo que nesta versão, ficou sob a responsabilidade dos criadores, Mark Gatss e Steven Moffat, conhecidos por assinar Sherlock e Doctor Who, séries renomadas na televisão britânica.

A missão foi complexa, mas a Netflix bancou a empreitada e assinou a minissérie que estreou em 2020 e pode ser considerado como um dos primeiros acertos do ano, mesmo com algumas inconsistências dramáticas apresentadas da brusca metade ao seu desfecho, digamos, “ousado demais”. Toda essa ousadia com a obra ponto de partida pode ser encarada como algo positivo, pois permite que a obra ganhe caminhos que anteriormente não havíamos percorrido, mas ainda assim, faltou mais cuidado ao pesar a mão e caminhar pela dispersão. Isso, no entanto, será mais delineado adiante. Creio que antes, seja interessante traçar um breve perfil do personagem, alguém que de tão conhecido, aparentemente dispensa apresentações, não é mesmo? É preciso relembrar, no entanto, que diante de tantas abordagens, às vezes esquecemos as bases de sua mitologia, construída historicamente por meio do próprio texto literário e suas interpretações.

No que tange aos aspectos críticos e históricos da obra que nos serve como ponto de partida, isto é, o romance de Bram Stoker, devemos ressaltar que é uma obra guiada por influências românticas, repleta de traços do gótico, elementos que posteriormente influenciariam o teatro, o cinema e as artes focadas na representação. Escrita por Stoker após um pesadelo que envolvia um vampiro que saia do túmulo, situação que o levou a mergulhar em lendas e pesquisas sobre acontecimentos sobrenaturais, Drácula é uma obra que refletiu o tenso contexto de disputas sociais e territoriais dos britânicos, além do medo em relação às doenças. Espelhos e suas simbologias, a ojeriza aos crucifixos, a longa e heroica linhagem familiar do vampiro, o hábito de dormir numa cova, a resistência ao sol, dentre tantos outros tópicos, são explorados numa obra dividida em cinco diários, com traços modernos, apesar de sua alta carga literária romântica.

Desta maneira, Drácula foi um romance que também nos apresentou minuciosas descrições de paisagens e comportamentos que a tornaram um material potencialmente cinematográfico, o que deságua na bem-sucedida adaptação televisiva. Assim, tendo como base o material literário, juntamente com todo o percurso histórico de suas traduções intersemióticas, os três episódios foram dirigidos por Damon Thomas Jonny Campbell e Paul Mc Guigan, todos eficientes em buscar a unidade temática da narrativa como um todo, tendo mudança de tom apenas na virada do segundo para o terceiro e último, algo próprio do texto, não necessariamente da direção. Na trama, Jonathan Harker (John Heffernan) é um advogado recém-formado que recebe a incumbência de ir até o castelo do Conde Drácula (Claes Bang), na Transilvânia, tendo como missão assessora-lo diante de algumas questões burocráticas. O seu relacionamento com Mina (Morfydd Clark) é colocado em modo de espera, algo que exige grande paciência dos envolvidos, pois a estadia do personagem no espaço gótico do vampiro vai demorar mais que o imaginado, além de trazer sequelas inesperadas para todos os envolvidos.

Num ritmo que dialoga com o livro que lhe serve como ponto de partida, há vários flashbacks, todos em paralelo aos relatos de Harker para a Irmã Agatha Van Helsing (Dolly Wells), uma freira bem à frente de seu tempo e com ideias revolucionárias para alguém que além de mulher, atendia às demandas patriarcais da Igreja Católica. Suas perguntas são incisivas, dinâmicas, sem espaço para titubeios, numa postura de alguém que deseja algo além da anotação dos fatos. Ela quer mesmo interpretá-los. Logo adiante, há os primeiros embates, a travessia do conde para a Inglaterra (um dos melhores extensos momentos), com a entrada e saída de um feixe relativamente amplo de personagens que servem de condutores para a evolução de Drácula enquanto personagem dúbio, ansioso por dar contas de suas necessidades dramáticas.

Ele fala como um filósofo, mas faz intervenções como um humorista inteligente, sem nunca ser fútil, mas também sempre diante de discursos encorpados. Sua sede de sangue não poupa ninguém e a viagem na embarcação, contada para um personagem importante depois de um inesperado (óbvio) plot twist, climatizam a transição da série com sua primeira metade em diálogo com o romance, numa narrativa que expõe os fatos como se estivéssemos de fato diante de relatos epistolares, para mais adiante, libertar-se num discurso pop frenético e cheio de liberdades para alguém que vem de uma relativamente longa tradição literária. No tempo presente, Drácula terá como missão, dialogar com Lucy (Lydia West), proposta para ser sua noiva pela eternidade e uma nova versão da personagem de Dolly Wells.

Uma análise que dê conta da minissérie Drácula deve levar em consideração os seus elementos estéticos, apresentados de maneira cuidadosa ao longo dos três episódios de 90 minutos. A dupla formada por Julian Court e Tony Slater Ling assumiu a direção de fotografia, virtuosista, dinâmica, frenética e com seus filtros e tons que mesclam a iluminação estourada em breves passagens, para o horror do vampiro protagonista, em paralelo aos momentos obscuros, trechos que permitem ao vampiro brilhar intensamente com os seus diálogos e presença charmosa. A sua presença diante do design de produção de Arwell Jones é notável, pois os cenários de Hannah Nicholson e os adereços da direção de arte de Harry Trown permite nós, espectadores, possamos mergulhar na atmosfera criada pelos realizadores, reforçada pelos efeitos visuais da equipe de Lukasz Bukowiecki, responsáveis pelas imagens conduzidas pela textura percussiva da dupla formada por David Arnold e Michael Price. Sarah Arthur, ao assinar os figurinos, trabalhou cuidadosamente nos trajes dos coadjuvantes que gravitam em torno do protagonista, um vampiro cheio de estilo, tanto nas cenas do passado quanto nas incursões contemporâneas.

Diante do exposto, Drácula é uma minissérie visualmente deslumbrante, mas dramaticamente estéril? Não, mas também não apresenta uma estrutura favorável para a sua “perfeição” dramatúrgica, ao pecar em suas transições bruscas. A vinda do personagem de 1897 para o mundo contemporâneo é intrigante em seu primeiro momento, mas depois torna a história mais dispersiva, com perda gradual de “tom”. O final, por sua vez, é tão ambíguo quanto a sexualidade de Drácula, personagem que não dispensa um pescoço masculino ou alguma insinuação de tom sexual quando o interesse é conquistar o líquido que o mantém enérgico, isto é, o viscoso e latente sangue humano. A ideia de contaminação, uma discussão já presente no livro de Bram Stoker, ganha na adaptação um novo formato, verossímil, por sinal. Ademais, Claes Bang tem a virtude de criar o seu Drácula próprio, sem precisar emular outras interpretações históricas já renomadas.

Isso é um dos principais pontos que torna a minissérie uma produção com pontos satisfatórios. São tantas falas notáveis que dá vontade de anotar tudo e ficar fazendo cards para postagem nas redes sociais, tamanha a intensidade de seu texto, diante de uma interpretação que tornam as palavras mais interessantes do que de fato já são. É um dos pontos favoráveis que só não ganham melhor desenvolvimento por conta das falhas já mencionadas, mas que acredito, podem ser relevadas diante da atmosférica primeira metade. A forma como nós, humanos, lidamos com a morte, ganha espaço nesta minissérie que não deixa de se posicionar em torno de reflexões sobre vaidade, luxúria, ambiguidade nos relacionamentos sexuais, imagem de aparências nas redes sociais e tantos outros tópicos, numa narrativa que ao trazer o famoso vampiro para outro contexto, não apenas o faz emergir neste espaço, mas o coloca em diálogo crítico com as ideias e objetos que o circundam.

Drácula – Minissérie Completa (Polônia, EUA, 04 de janeiro de 2020)
Criadora: Mark Gatiss, Steven Moffat
Direção: Jonny Campbell, Paul McGuigan, Damon Thomas
Roteiro: Mark Gatiss, Steven Moffat
Elenco: Claes Bang, Dolly Wells, Morfydd Clark, Jonathan Aris, John Heffernan, Lydia West, Matthew Beard, Sacha Dhawan, Mark Gatiss, Joanna Scanlan, Nathan Stewart-Jarrett, Chanel Cresswell
Duração: 3 episódios, com cerca de 90 min.

Crítica | The Witcher – 1ª Temporada

the witcher plano crítico série TV

As primeiras notícias sobre a adaptação de The Witcher —  da obra do escritor polonês Andrzej Sapkowski — para a Netflix surgiram em 2017, sendo confirmadas pela empresa em maio daquele ano e com a contratação de Lauren Schmidt como showrunner da série. A escolha não foi à toa. Schmidt já havia assinado a co-produção executiva de séries como Demolidor, Os DefensoresThe Umbrella Academy então não era alguém nova em produções de peso e caráter heroico/sobrenatural. A diferença aqui é que a profissional assume a cadeira principal de produtora executiva da Saga de Geralt de Rívia, e talvez o seu principal desafio nesta temporada inicial foi tentar impedir um tsunami de informações ao longo de oito episódios, mesmo que cada um deles tenha em média uma hora de duração.

Sim, vamos começar falando de ritmo e isso é quase um golpe do destino. Voltando para 2017, antes do anúncio da série, a Netflix já cogitava a adaptação da saga em um longa-metragem, e foi a vice-presidente de produções internacionais da casa, Kelly Luegenbiehl, quem convenceu os chefões a não condensarem tantos livros em um único filme, pois havia material demais para ser trabalhado. Uma série era o mais indicado. Ora, não é preciso ser nenhum gênio para entender que esse dilema inicial seguido da aceitação de produção do show veio com alguma condição, e como espectadores sentimos isso no tempo, na quantidade de informações (ou o tipo delas, mas falaremos sobre isso adiante) e a maneira como se encadeiam no final da série. Como se a obrigação fosse a de trazer diversas informações ao longo de arcos distintos para dar um caráter épico já na 1ª Temporada e, dependendo do andar da carruagem, um recorte mais escrupuloso seria feito numa possível renovação. Bem, ao menos a parte de planejamento de produção e marketing deu certo. Cerca de um mês antes de estrear, a série já tinha garantido a sua 2ª Temporada. Mas não sem um bom preço.

Quando o primeiro episódio começou, a minha primeira reação foi um estreitar de olhos e inclinação da cabeça em um grau que indica “sei não, hein…“. Após terminar o oitavo capítulo, voltei para rever essas primeiras cenas e ainda as acho um mau começo, agradecendo a Merlin que o mesmo padrão não tenha sido a tônica do show, que sim, é muito bom. O roteiro segue as pegadas de Geralt (Henry Cavill), um bruxo caçador de monstros que procura ganhar dinheiro e, na medida do possível, viver em paz ou ter apenas os seus tormentos pessoais para se preocupar, algo que ele jamais consegue, obviamente. No decorrer dos episódios, um arco envolvendo o seu destino, o destino de uma poderosa feiticeira chamada Yennefer (Anya Chalotra) e o da princesa Cirilla (Freya Allan) — que também tem uma boa dose de mistérios e segredos ainda por descobrir — é erguido. Como é de praxe em boas fantasias literárias e suas respectivas adaptações, o cerne da questão envolve o amplo deslocamento dos personagens, um amplo leque de criaturas e inimigos de ocasião e um contexto de Universo que apesar das particularidades entre as cidades e reinos, possui uma tônica geral para o recorte do momento. E como era de se esperar, a tônica aqui é a guerra.

Henry Cavill está incrível no papel do protagonista. Eu não tive nenhum contato com o original, então não sei se essa construção do personagem vem de lá ou é uma leitura do ator, mas tudo o que ele faz com o personagem aqui funciona: a imposição de autoridade numa postura pacífica, majoritariamente silenciosa e de voz sempre em tom médio para baixo, o que exige relaxamento do ator para que uma colocação mais gutural da voz seja feita; a exibição de um temperamento que transita entre alguns alinhamentos mas que tem os pés na visão pragmática ou de exercício da justiça dependendo da situação; e por fim, a excelente base de coreografia de lutas com espada que o ator nos traz, tornando o drama mais interessante de se assistir, pois a magia, ainda que existindo em muitos níveis aqui, não está colocada como a única saída ou facilitador de situações (bom… há um pouco disso na batalha final, mas convenhamos, é emocionante demais), afinal estamos em um Universo de reinos, logo, a espada e outras armas ou modos de luta para além da magia são necessárias pela simples contextualização da obra.

Os diretores souberam aproveitar muito bem as paisagens na Hungria, Polônia e Ilhas Canárias onde a temporada foi filmada. Existem inúmeras mudanças de cenários (assim como de figurino e maquiagem, que são excelentes), todas muito bem concebidas e tratadas com bons efeitos, assim como a execução de magia ao longo da série inteira. Vertentes diferentes são apresentadas e, ao passo que cada arco se desenvolve, o espectador tem a oportunidade de ver como os personagens crescem e adicionam ainda mais truques à sua lista. O grande problema disso é que no arco da Princesa Cirilla e, em parte, na própria evolução de Geralt, esse aspecto de desenvolvimento se perde porque temos uma linha temporal dividida entre passado e presente. Se este é um andamento vindo da literatura, certamente não coube bem na adaptação. Para piorar, as mudanças na fotografia e figurinos são mínimas e o andamento do plot em dois tempos não é esclarecido desde o começo, o que confunde desnecessariamente o público ou complica algo que poderia ser imensamente mais simples. É por conta dessa divisão que muitos episódios funcionam mais como “monstro da vez” do que como desenvolvimento de algo maior.

Particularmente achei todo o arco de Ciri entre fraco e ruim, em temos de construção, salvando-se aí os aspectos técnicos e a atuação de Freya Allan. O arco do bardo me chateou mais do que agradou, talvez porque o roteiro insistiu demais no tema das gracinhas fora de hora (isso só funciona bem, a longo prazo e com essa abordagem, na literatura) e fez com que terminasse abruptamente, com um discurso meio fora de tom de Geralt para o músico, infelizmente vindo depois da melhor jornada isolada da temporada, que foi a caça ao dragão. Na outra ponta da régua temos uma boa apresentação e desenvolvimento (mesmo escorregando no miolo) da Irmandade dos Magos, trazendo questões de política e brigas internas que os tornam mais interessantes — quando vistos em confronto com iguais — e a Irmandade em si ainda mais real, complexa e com mais intrigas para serem trabalhadas. Do início ao fim o tema da magia e das lutas cruas e violentas se mantém em alta e condizente com o projeto (minhas favoritas são a luta de Geralt no mercado da primeira cidade — uma das sequências de luta mais bem dirigidas da temporada — e a luta contra a Striga; além, é claro da luta final entre os dois exércitos e os dois times de magos) .

Embora Geralt tenha seu desenvolvimento atrapalhado pela escolha de linha temporal dupla (tomara que isso não volte na 2ª Temporada), a caminhada do personagem é no geral bem arquitetada, sem contar que Cavill está (é) maravilhoso no papel. Yennefer tem o segundo melhor arco deste ano, um dos mais bem explorados no campo pessoal, sentimental, mágico e de crescimento da personagem como um todo, mais até que o do próprio protagonista, além de ter a fascinante Anya Chalotra no papel, cuja beleza é ainda mais chamativa com a maquiagem pesada, as lentes e o figurino escuro.

Meus votos é que na próxima temporada, sem a necessidade de mostrar que tem um Universo rico e cheio de possibilidades (ou seja, eliminando sequências que não servem para nada, como aquela de Ciri na floresta protegida pelas mulheres) e muitos casos isolados de “Geralt persegue e mata o monstro“, o roteiro consiga fortalecer a linha central do programa e também o nosso foco naquilo que realmente importa. Depois de uma boa introdução como a desta temporada, creio que será possível sim. Assunto é o que não falta. Que o Caos permita, pois.

The Witcher – 1ª Temporada (Polônia, EUA, 20 de dezembro de 2019)
Criadora: Lauren Schmidt
Direção: Alik Sakharov, Alex Garcia Lopez, Charlotte Brändström, Marc Jobst
Roteiro: Lauren Schmidt, Jenny Klein, Beau DeMayo, Declan de Barra, Sneha Koorse, Haily Hall, Mike Ostrowski (baseado na obra de Andrzej Sapkowski)
Elenco: Henry Cavill, Freya Allan, Joey Batey, MyAnna Buring, Tom Canton, Anya Chalotra, Eamon Farren, Björn Hlynur Haraldsson, Adam Levy, Jodhi May, Lars Mikkelsen, Maciej Musial, Mimi Ndiweni, Royce Pierreson, Wilson Radjou-Pujalte, Anna Shaffer, Amit Shah, Therica Wilson-Read, Judit Fekete
Duração: 8 episódios, com cerca de 60 min.

Crítica | The Crown – 3ª Temporada

  • Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Os mais de dois anos de intervalo entre as segunda e terceira temporadas de The Crown podem ter sido resultado de exigências inerentes à produção, mas esse distanciamento ajudou na absorção de uma das mais ousadas escolhas recentes da televisão e que, acho, jamais aconteceu na mesma magnitude e circunstâncias: a troca integral do elenco principal. Saem Claire Foy, Matt Smith e Vanessa Kirby como, respectivamente, a Rainha Elizabeth II, o Duque de Edimburgo e a Princesa Margaret, e entram Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter nesses inesquecíveis papeis.

Tendo sacramentado o elenco original, a substituição do elenco se dá por insistência do showrunner Peter Morgan para tornar o envelhecimento dos personagens algo mais natural, sem precisar recorrer a maquiagem ou próteses, com a “troca” ocorrendo logo nos primeiros segundos de projeção de maneira extremamente elegante e reverencial, por intermédio da alteração da efígie da rainha nos selos de seu reino. Mesmo considerando que seria possível a trinca original continuar por pelo menos mais essa temporada, já que suas contrapartidas da realeza têm 34 (Margaret), 41 (Elizabeth) e 43 anos em 1964, quando a história começa, creio que essa foi uma escolha mais do que acertada já que os eventos que vemos desenrolar na tela vão até 1977, no jubileu de prata da rainha, e, por melhor que fosse o trabalho de maquiagem, Foy, com 35 anos, teria sua excelente performance habitual potencialmente maculada. Além disso, Colman, com 45 anos, tem um rosto consideravelmente mais maduro e sério, características essenciais para a forma como essa temporada aborda a rainha, agora uma mulher perfeitamente adequada ao peso da coroa que carrega, tendo domado todos os seus sentimentos a tal ponto que, na maioria das vezes, ela esquece que, lá no fundo, ainda é humana e pode se dar ao luxo de deixar-se afetar pelos eventos ao seu redor, sejam eles felizes ou tristes.

E esse é realmente o triunfo da temporada: fazer a protagonista trafegar no fio da navalha, em um delicado trabalho que a coloca muitas vezes sob uma luz ruim, capaz de transformá-la em vilã aos olhos do público. Colman, que é uma das grandes atrizes britânicas de sua geração, entrega uma performance magnificamente fria nas primeiras camadas, mas sempre deixando que semblantes de calor e humanidade escapem aqui e ali por um olhar, por um breve tremor na boca ou por sua postura, algo que é intensificado cirurgicamente pelos magníficos trabalhos dos quatro diretores que se encarregaram, neste ano, de trazer a trama monárquica à vida. Em termos de fisicalidade porém, quem mais consegue se aproximar de sua contrapartida da vida real logo no começo da temporada é Tobias Menzies e seu Philip, um personagem consideravelmente mais abertamente sensível, ainda que sempre resoluto em suas opiniões sobre a quase completa santidade dos rituais da monarquia. Helena Bonham Carter, por seu turno, é a que deixou o maior abismo na forma como vive sua personagem se comparada com sua antecessora no papel, algo que é proposital dado o crescimento exponencial da amargura de Margo tanto com seu agora marido Antony Armstrong-Jones (Ben Daniels substituindo Matthew Goode) quanto com sua família, mas sem nunca deixar de ressaltar os traços do amor que sente por eles, por mais incongruente que isso possa parecer.

Outra grande diferença dessa temporada em relação às demais é seu caráter mais fortemente episódico, ou seja, com cada capítulo abordando uma história específica com começo, meio e fim que somente em pouquíssimos casos ganham interconexões. Essa foi mais uma escolha ousada de Peter Morgan, pois ele arriscou que sua criação perdesse a sensação de unicidade, passando a ser uma coleção de anedotas sobre a vida da realeza britânica no século XX. No entanto, novamente vê-se o cuidadoso planejamento do showrunner e seu talento para contar uma história. Afinal, não é todo mundo que é capaz de escrever o roteiro cinematográfico de Frost/Nixon, composto, basicamente, de uma longa entrevista real, e manter a atenção do espectador. O que ele faz é escolher um tema central que não necessariamente é trabalhado em primeiro plano o tempo todo, mas que fica permanentemente nas entrelinhas, com a escolha, aqui, sendo o enfraquecimento da percepção favorável da monarquia pelo povo britânico, algo que reflete a realidade dos fatos históricos, especialmente com a vitória do Partido Trabalhista logo no começo da temporada, quebrando a hegemonia do Partido Conservador (os Tories) e marcando a entrada do Primeiro Ministro Harold Wilson (Jason Watkins), de tendências socialistas que são pontuadas por vários elementos do primeiro episódio, como a brevíssima participação de John Lithgow novamente como Winston Churchill e a paranoia relacionada com uma infiltração da KGB no governo britânico.

Ao longo dos episódios, acurácia história e liberdade ficcional se misturam em uma obra superlativa, que nasceu para exigir as pontuações mais hiperbólicas do público e dos críticos. Da mesma maneira que a crise econômica britânica é trabalhada genialmente em Margaretologia, um episódio leve, com uma perfeita participação de Clancy Brown (o Kurgan, de Highlander) como o presidente americano Lyndon Johnson, com consequências nefastas pessoalmente para a princesa Margo, a temporada é capaz de lidar de forma sombria com uma infelizmente famosa tragédia ocorrida em Aberfan (também título do episódio), uma cidade mineradora, em 1966, demonstrando o quão difícil e injusto é o papel de Rainha da Inglaterra e o quanto Elizabeth II está conformada nessa sua fase da vida, pagando um preço caríssimo por isso.

Eu certamente poderia escrever sem parar sobre cada um dos episódios da temporada, mas, prezando a brevidade, não o farei. No entanto, não posso deixar de destacar duas novas adições ao elenco que trouxeram não só uma qualidade dramatúrgica ainda mais assombrosa à série, quanto um sabor melancólico, mas belíssimo às histórias, já que esses novos personagens são uns dos poucos fora do pequeno núcleo principal que têm narrativa continuada. A primeira adição é a de Jane Lapotaire como a Princesa Alice, mãe de Philip que, no terceiro episódio – Bubbikins – enternece corações ao ser trazida para o palácio real em razão do golpe de estado em andamento na Grécia, onde vive como freira. Sua presença é inteligentemente usada para dar ainda mais estofo ao marido da rainha, colocando-o em dúvida sobre sua função, sobre seus feitos, algo que é notadamente explorado durante a chegada do homem à lua que vemos sob seu prisma em Poeira Lunar, o sétimo episódio.

A segunda adição é a de Josh O’Connor como o Príncipe Charles, filho mais velho da rainha e herdeiro do trono. Não só o jovem ator é fisicamente muito parecido à sua contrapartida viva, como sua atuação é um primor que desmistifica aquela impressão midiática que certamente a maioria das pessoas tem sobre o príncipe. Aqui, o que vemos é um rapaz inocente, sensível, honesto e, sobretudo, amoroso, que não entende ainda o que se espera dele um dia e que, por isso, não consegue compreender seu lugar no mundo. O episódio que o introduz, Tywysog Cymru, o sexto, é um primor de construção de personalidade, usando sua coroação como Príncipe de Gales para relativizá-lo completamente em meio ao sentimento fortemente nacionalista do País de Gales, região britânica com costumes e, principalmente, língua próprias. E essa delicadeza na retratação de Charles continua e é acentuada em Na Corda Bamba, o oitavo episódio, que estabelece o começo de seu relacionamento com Camilla Shand, vivida por Emerald Fennell, e que chega a seu clímax em Imbróglio, o capítulo seguinte que também retorna ao tema da mineração, só que sob outro enfoque e que, para quem conhece a história verdadeira, deixa pontas soltas para a próxima temporada que verá a chegada de Margaret Thatcher como Primeira Ministra.

Não tenho nenhuma dúvida em afirmar desde já – ainda na metade do projeto de Peter Morgan – que The Crown é uma das melhores e mais ricas séries da década, capaz de transformar assuntos potencialmente áridos em uma sinfonia narrativa quase sem par que assombra por ter um elenco soberbo, um design de produção de fazer o queixo cair e por nos fazer rever o século XX a partir de um olhar elegante e sublime. E isso fica ainda mais incrível quando mais uma vez lembramos que estamos falando de uma obra que não teve cerimônia em trocar todo o seu elenco principal de um ano para o outro.

The Crown – 3ª Temporada (EUA/Reino Unido – 17 de dezembro de 2019)
Criação: Peter Morgan
Direção: Benjamin Caron, Christian Schwochow, Jessica Hobbs, Sam Donovan
Roteiro: Peter Morgan, James Graham, David Hancock
Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Marion Bailey, Charles Dance, John Lithgow, Derek Jacobi, Geraldine Chaplin, Ben Daniels, Jason Watkins, Erin Doherty, Jane Lapotaire, Josh O’Connor, Michael Maloney, Emerald Fennell, Andrew Buchan, Finn Elliot, Clancy Brown, Mark Lewis Jones, Tim McMullan, Harry Treadaway
Duração: 481 min. (10 episódios no total)