Netflix Original

Crítica | Altered Carbon: Nova Capa

Nem bem a segunda temporada de Altered Carbon foi lançada, o Netflix seguiu a história de Takeshi Kovacs com um longa animado produzido no Japão, com direção, roteiro e vozes originais japonesas. E, melhor ainda, no lugar de fazer algo completamente independente da série, o que temos é um prelúdio de muitos anos antes dos eventos da primeira temporada (a ação se passa um ano após as “mortes” de Reileen e Quellcrist no Mundo de Harlan) que conversa diretamente com cada uma das duas temporadas.

Usando a técnica de cel-shading (ou emulando-a, não sei), muito comum em games, os diretores Takeru Nakajima e Yoshiyuki Okada criaram uma animação vibrante e extremamente violenta que coloca Takeshi Kovacs (voz original de Tatsuhisa Suzuki) como guarda-costas da jovem tatuadora Holly (Ayaka Asai) que precisa aliar-se a Gena (Rina Satou), uma agente da CTAC, para desvendar um mistério que envolve a cerimônia de sucessão do comando da Yakusa no planeta Latimer. A história é simples, ainda que o roteiro de Dai Satô e Tsukasa Kondo tente, mas não consiga, dar uma roupagem complexa para a trama, com tudo basicamente funcionando como uma grande desculpa de 74 minutos para a pancadaria comer solta.

E ela come solta, podem ter certeza. Aliando um visual cyberpunk nas tomadas exteriores do planeta onde a violência já começa com ninjas mascarados despedaçando agentes do CTAC a torto e a direito, com o mesmo artifício do emprego de um hotel – na verdade, tecnicamente, um ryokan – gerido por uma I.A., desta vez o simpático, mas hesitante Ogai (Jouji Nakata), onde a maioria da ação se passa, a animação consegue cumprir sua missão de manter um passo energético que abafa a completa falta de história com hectolitros de sangue, sensacionais tatuagens de corpo inteiro, desmembramentos variados, muito uso de instrumentos cortantes e armas de fogo poderosas, além de belas armaduras adornando os intermináveis ninjas e, claro, o final boss.

Há até tempo suficiente para que o grande trunfo dos livros de Richard Morgan – os cartuchos que permitem vida eterna e troca de corpos ao bel-prazer – seja bem utilizado como elemento intrínseco à trama, algo que falta na série live-action. Por outro lado, justamente porque o roteiro insiste em criar reviravoltas dentro de reviravoltas para trazer uma pseudo-complexidade à história, por vezes a ação dá espaço a diálogos que têm como única função explicar uma ou duas vezes aquilo que já havia ficado naturalmente claro. Ou subestimaram a inteligência do espectador, ou tiveram que ocupar “espaço” para evitar que a fita fosse classificada com um média metragem. Ou os dois, não sei. Fato é que o blá, blá, blá redundante cansa um pouco, ainda que o visual normalmente estonteante ajude a desviar a atenção dele.

Como disse logo no começo, a ideia de fazer com que Altered Carbon: Nova Capa seja mais um capítulo da série live-action é boa, pois cria unicidade narrativa e permite que o Netflix expanda esse universo sem precisar de orçamentos polpudos. A primeira temporada ganha conexão com Nova Capa na revelação – que acontece bem cedo, aliás – sobre quem realmente é Gena e a segunda temporada encaixa-se à animação pela contratação de Kovacs por Tanaseda Hideki (Kenji Yamauchi), o mesmo matusa que ajuda o Último Emissário no segundo ano da série. Ou seja, aqueles que se importam com continuidade e conexões não terão do que reclamar.

Com um final em aberto que parece prometer outras aventuras nesse período da vida de Kovacs, Altered Carbon: Nova Capa abre uma porta interessante que poderia ser utilizada também em outras séries do serviço de streaming. Só espero que, na próxima missão do protagonista, ele ganhe capa e figurino mais inspirados.

Altered Carbon: Nova Capa (Altered Carbon: Resleeved, Japão/EUA – 19 de março de 2020)
Direção: Takeru Nakajima, Yoshiyuki Okada
Roteiro: Dai Satô, Tsukasa Kondo (baseado em personagens criados por Laeta Kalogridis e nos romances de Richard Morgan)
Elenco: Tatsuhisa Suzuki, Ayaka Asai, Rina Satou, Jouji Nakata, Kenji Yamauchi, Kanehira Yamamoto, Koji Ishii
Duração: 74 min.

Crítica | Kingdom (2019) – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Como afirmei na crítica da 1ª temporada de Kingdom, a série sul-coreana de zumbis passada durante o feudalismo veio como uma lufada de ar fresco para o já bem desgastado sub-gênero. Afinal, não é todo dia que nos deparamos com intrigas palacianas servindo de pano de fundo para uma infestação de desmortos enlouquecidos que, diferente do usual, dormem durante a noite (ou assim nos levaram a crer!).

Mas a temporada inaugural, de seis episódios velozes e furiosos, teve seus problemas, dentre eles uma narrativa sócio-política maniqueísta demais que não permitia o desabrochar da história nos momentos de calmaria sem zumbis e a necessidade de se manter certos segredos – lembrem-se que o primeiro episódio até escondia a natureza da série – que segurava um pouco a pancadaria desenfreada. Continuava sendo uma diversão completa, mas faltava algo.

E a boa notícia é que, agora, não falta mais!

A 2ª temporada, com a mesma quantidade de episódios, utiliza muito bem a vantagem de já ter toda sua premissa explicada, além de não haver qualquer tipo de amarra em termos de reviravoltas ou surpresas para o espectador. O que vemos é a continuação imediata do cliffhanger em que descobrimos que os desmortos não gostam é de frio, com dois episódios quase inteiros repletos de memoráveis sequências de ação de deixar qualquer um roendo as unhas. E o melhor é que até a intriga política por trás acaba se beneficiando disso, já que ela ganha algumas nuances interessantes, como a relativização da relação entre o Conselheiro Real Cho Hak-ju e sua ardilosa filha, a Rainha Cho, e a revelação de que nem toda a casta nobre é composta de gente que não liga para nada a não ser seu próprio umbigo, já que essa característica, antes, ficava restrita ao altivo príncipe herdeiro quixotesco Lee Chang.

Muito claramente existe uma melhor conversa entre os dois “lados” dessa história, algo que é bem-vindo e certamente oriundo da necessidade de se lidar com os zumbis sem intervalos, sempre com soluções engenhosas para permitir um respiro entre sequências sanguinolentas épicas. Ainda acontecem algumas pequenas reviravoltas, como a traição do leal Mu-yeong e o envenenamento de Cho Hak-ju, mas elas são orgânicas, suaves e perfeitamente dentro da lógica estabelecida pela história. Não é mais a surpresa pela surpresa, como a questão dos desmortos acordados durante o dia e sim algo que contribui efetivamente para o desenvolvimento tanto dos personagens quanto da narrativa.

Os dois elementos que realmente diferenciavam a série – sua belíssima fotografia e sua reconstrução de época cuidadosa – continuam firmes e fortes aqui, com os diretores Kim Seong-hun e Park In-Je aproveitando-se ao máximo das filmagens em locação, com planos gerais de fazer o queixo cair como o da sequência da morte de Mu-yeong na floresta gelada com árvores de tronco branco ou quando as hordas de monstros ganham inacreditavelmente boas coreografias em meio a campos abertos em momentos que certamente foram de extrema complexidade cinematográfica tamanha a quantidade de extras e de acontecimentos simultâneos. O figurino salta aos olhos até mesmo na estranha beleza que é ver Lee Chang e seus soldados com túnicas ensopadas de sangue.

Por vezes, é bem verdade, o CGI – normalmente utilizados com parcimônia em alguns panos de fundo – falha e mostra sua “cara”, ameaçando retirar o espectador de determinadas sequências como a da corrida/combate nos telhados do palácio real. Mas a grande verdade é que isso só acontece se quisermos ser muito implicantes, pois é palpável o detalhismo em todos os outros quesitos, com essa sequência que destaquei e que acontece mais para o final da temporada sendo particularmente espetacular.

Desgosto, porém, do subaproveitamento quase criminoso de Seo-bi, a médica vivida por Bae Doona, que parece muito mais um artifício narrativo de revelação das características da planta que ressuscita os mortos do que uma personagem propriamente dita. Do jeito que os roteiros são escritos, ela é como se fosse uma nota de rodapé, um detalhe conveniente para explicar ao espectador aquilo que muitas vezes é perfeitamente possível deduzir apenas com imagens. E, quando ela é inserida na ação – o que só acontece de verdade mais para o final – sua presença é quase invisível. Considerando o belo desenvolvimento que Lee Chang ganhou, ainda que talvez indo rápido demais de príncipe mimado para salvador dos fracos e oprimidos, era de se esperar algo semelhante para a médica, o que acaba não acontecendo, retirando de Doona a oportunidade de brilhar.

Por outro lado, é de se elogiar a forma como a história fica redonda e cuidadosamente encerrada, com todas as pontas sendo devidamente amarradas em um conjunto harmônico e lógico que tem início, meio e fim definidos. É por isso que o epílogo, que só existe para justificar uma 3ª temporada, acaba ficando forçado, introduzindo outros elementos exógenos à trama, mais especificamente o mistério da origem da planta e o verme aparentemente em estase que acorda no rei mirim. Se eu ignorasse esses 10 minutos finais que são completamente expletivos e aceitasse o subaproveitamento de Seo-bi, a temporada seria perfeita não só como temporada, mas também como fechamento de uma saga. Infelizmente, porém, a necessidade tipicamente hollywoodiana tomou de assalto a produção sul-coreana e, muito provavelmente, a história continuará.

Mas não podemos ter tudo, não é mesmo? Se a continuidade é inevitável, só nos resta torcer para que ela seja tão boa quanto a 2ª temporada, com a torcida para que a personagem de Bae Doona ganhe o destaque e a relevância que merece.

Kingdom ( 킹덤, Coréia do Sul – 13 de março de 2020)
Direção: Kim Seong-hun, Park In-Je
Roteiro:  Kim Eun-hee (baseado em seu webcomic)
Elenco: Ju Ji-hoon, Ryu Seung-ryong, Bae Doona, Kim Seong Gyu, Kim Sang-ho, Heo Joon-ho, Jeon Seok-ho, Kim Hye-jun, Jung Suk Won
Duração: 269 min. por episódio (6 episódios no total)

Crítica | Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max

  • Há spoilers da série. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

E chegamos à metade da penúltima temporada de Better Call Saul, momento solene que significa, basicamente, que só teremos mais 15 episódios dessa maravilha televisiva no total geral. Mas não adianta sofrer por antecipação, não é mesmo? Dedicado a Max parece ser, sob todos os aspectos, um momento de virada, mas não algo apressado ou óbvio e sim algo costurado com elegância e cadência por Vince Gilligan e Peter Gould, além de sensacionais momentos cômicos envelopados em uma penumbra sombria.

Better Call Saul é definido por muitos como uma comédia, mas eu nunca interpretei a série dessa maneira. Sim, há humor embutido em sua narrativa como parte do que é Jimmy McGill, algo amplificado sobremaneira sempre que ele, como Saul Goodman (usando ou não o nome de sua persona trapaceira), faz aquilo que melhor sabe fazer. Portanto, sempre houve risadas e muita diversão nessa jornada cativante de um dos mais bem desenvolvidos personagens da televisão moderna, mas a série é sem dúvida dramática, rivalizando com a própria Breaking Bad em muitos aspectos. Dedicado a Max, de certa forma, tem seu humor em doses mais generosas, à flor da pele, com momentos legitimamente hilários, mas que funcionam muito mais para amplificar a sensação de tudo vai dar errado do que como algo feito para realmente divertir.

Mas não se enganem, pois eu me diverti muito. A belíssima cena em que Kim conta para Jimmy sua conversa com Kevin é absolutamente irretocável, com Rhea Seehorn e Bob Odenkirk tão à vontade que eu seria capaz de assistir um spin-off inteiro só com Odenkirk fazendo Kim e Seehorn Kevin. A cumplicidade entre eles foi maravilhosa, com o retorno, com força total, daquela conexão “bandida” que os dois têm, refestelando-se com pequenos golpes. A excitação fica no ar, assim como a mais plena satisfação dos dois personagens.

E é claro que os criativos golpes de Jimmy – como Saul – para atrapalhar a vida de Kevin e atrasar a evicção do último morador da terra em que o dono do Mesa Verde quer colocar seu call center são, todos eles, de dar câimbras estomacais, com direito ao xerife indeciso que sempre tem que fazer uma ligação e o empreiteiro que fica enfurecido com as óbvias malandragens. Novamente, uma sitcom rasgada tendo Saul Goodman, o advogado malandro, no centro da atenções, entraria facilmente na minha lista de “séries que eu gostaria muito que um dia fossem feitas”.

Mas toda essa comicidade, como disse, não é gratuita e não existe apenas com um fim em si mesma. Ela, muito ao contrário, parece ser um agente catalisador de um futuro sombrio. Já cansei de defender, em resposta a comentários sobre o futuro de Kim, que eu acho que Gilligan e Gould têm planos diferentes para ela do que uma desgraça que leve à sua morte ou algo assim (eu até já especulei que acho que ela aparecerá naquele futuro em preto-e-branco de Jimmy como Gene), mas isso não quer dizer que o futuro dele não será carregado de máculas. Notem bem que Kim parece muito menos interessada em fazer justiça para o velhinho que se recusa a sair de casa do que sabotar seu cliente, como se ela quisesse livrar-se desse fardo, mas sem simplesmente desistir dele. Ah, mas ela é indecisa, alguns dirão. Talvez, mas não é apenas isso. Há uma parte de Kim que gostaria de trocar seus tailleurs bem recortados pelo equivalente feminino dos ternos espalhafatosos de Jimmy. Kim tem Giselle Saint Claire em seu coração, por assim dizer.

Esse seu conflito interno fica evidente quando ela confronta Rich, o sócio sênio do escritório onde trabalha, e que já farejou exatamente essa ambiguidade nela. Mas sua reação quando ele oferece justamente o que ela quer – largar Mesa Verde – é justamente o oposto, como uma criança que só passa a ligar para seu brinquedo antigo novamente quando sua mão diz que vai doá-lo. Esse conflito a corrói, pois, diferente de Jimmy, ela não consegue se sentir à vontade com seus impulsos e isso não pode acabar muito bem profissionalmente para ela, pelo menos não enquanto ela não souber manter um equilíbrio interno ou permitir que uma “personalidade” tome conta da outra.

E se esse subtexto melancólico e sombrio já fica saliente logo abaixo da superfície do lado Jimmy-Kim do episódio, ele é pujante na narrativa focada em Mike, que se recupera de seu ferimento quase auto-infligido em um vilarejo mexicano de casas de barro batido com uma incongruente fonte moderna e preta no centro da praça com a inscrição que dá o título do episódio. Como muita gente lembrará, Max é o apelido de Maximino Arciniega, químico e parceiro de Gus em sua empreitada criminosa que Hector Salamanca assassina a mando de Don Eladio Vuente, chefão do cartel de drogas. Tenho para mim, porém, que Max foi mais do que apenas um parceiro de negócios de Gus e os dois eram amantes.

Essa fonte de pedra preta é como uma chaga, uma marca disforme – apesar de completamente geométrica – que parece representar não exatamente uma homenagem pura a Max por Gus, mas sim o desejo de vingança que sai da boca de Gus como uma pústula ao final do episódio. Mike, que está perdido também entre sentimentos conflitantes, precisa ser resgatado e Gus sabe muito bem disso, oferecendo-lhe mais uma vez um lugar ao seu lado. O contraste desses sentimentos pesados com toda a ambientação bucólica e serena ao redor torna tudo ainda mais terrível e corrosivo.

Dedicado a Max é uma metade de temporada da mais alta categoria que nos faz gargalhar ao mesmo tempo em que tememos pelos nossos personagens queridos. É como quando alguém faz uma brincadeira particularmente espirituosa sobre coisa séria, transformando a risada espontânea em algo que depois, em retrospecto, sentimos vergonha de ter soltado.

Better Call Saul – 5X05: Dedicado a Max (EUA, 16 de março de 2020)
Criação: Vince Gilligan, Peter Gould
Showrunner: Vince Gilligan, Peter Gould
Direção: Jim McKay
Roteiro: Heather Marion
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton, Giancarlo Esposito, Lavell Crawford, Max Arciniega, Javier Grajeda, Josh Fadem, Hayley Holmes, Peter Diseth, Don Harvey, Dean Norris, Steven Michael Quezada
Produtoras: High Bridge Productions, Crystal Diner Productions, Gran Via Productions, Sony Pictures Television
Canal original: AMC
Distribuição no Brasil: Netflix
Duração: 46 min.

Crítica | Paradise Police – 2ª Temporada

Depois de mais de um ano e meio privando os espectadores de cavalares injeções de incorreção política, escatologia, nojeira e piadas relacionadas quase que exclusivamente com sexo (nem sempre entre humanos) e drogas, Paradise Police volta com uma temporada encurtada de oito episódios para continuar a contar a história da Loucademia de Polícia dos anos 2010 que tenta emular South Park sempre que pode, mas nunca chegando nem perto. Ou seja, um verdadeira alívio!

Como ficou claro ao final da 1ª temporada, Waco O’Guin e Roger Black, criadores da série, resolveram seguir uma estrutura continuada que trabalha um macro-arco narrativo relacionado com a caçada da polícia ao Rei das Drogas da cidade de Paradise, algo razoavelmente incomum para obras do tipo, mas que é muito bem-vindo. Com isso, a ação começa exatamente de onde parou, com Dusty na prisão e Fitz, finalmente revelado como o vilão, comandando o submundo do crime. O lado negativo dessa escolha é que a 2ª temporada fica razoavelmente confinada, muitas vezes simplesmente repetindo a estrutura e as gags anteriores, só que com roupagem levemente diferente.

Dessa forma, não seria de todo equivocado dizer que o que temos é apenas mais do mesmo. Se a própria temporada anterior já começou a se repetir prematuramente, a questão é agravada na continuação, que se mostra sem fôlego para realmente inovar. Se o saco escrotal foi um dos alvos preferidos do humor de O’Guin e Black, ele volta com força total, com direito a um personagem que tem “bolas” avantajadas, com direito à revelação de que Karen tem uma tara por elas. Como disse, é a mesma coisa só que com as proverbiais pequenas diferenças.

Quando, porém, Paradise Police sai de sua zona de conforto, a comicidade arrisca entrar em ebulição, como é o caso do episódio quase que integralmente dedicado a abordar todas as lendas (e fatos) urbanos que cercam o conglomerado Disney, com direito até mesmo ao assassinato do Pateta e o subsequente uso de sua pele esfolada como disfarce. Episódios como esse – que são raros, vamos combinar – é que mostram o verdadeiro potencial do humor destrutivo da dupla de showrunners e é o que retira Paradise Police simplesmente do rótulo do “mais do mesmo”. Outros exemplos semelhantes é quando as polícias se multiplicam na cidade, uma só de homens, outra só de mulheres e assim por diante, com a exploração muito bem bolada de todos os estereótipos possíveis, além de uma série de estocadas em todos os exageros politicamente corretos que vemos por aí.

Mas a série sem dúvida rateia ao não conseguir trabalhar seu humor de maneira que dependa menos de, por exemplo, Karen bebendo uma garrafa de uísque, vomitando dentro dela e, em seguida, bebendo seu próprio vômito, e galgando um ou dois degraus acima em termos de relevância humorística. Tudo gira em torno da nojeira rasgada, nas piadas sobre fezes – há um episódio quase inteiro sobre a “absurda” e “desrespeitosa” incapacidade de Kevin de defecar na delegacia -, sobre os acessórios sexuais Hopson e sobre o vício em drogas de Bullet. Diverte às vezes, mas, quase sempre o que vemos é algo completamente esquecível que é muito capaz de revoltar os mais sensíveis (não tenho problema com piadas escatológicas, mas confesso que não consegui fazer meu habitual “lanchinho” enquanto assistia a série e tive que pausar quando alguém se aproximava da sala…). Em suma, é humor que tem muito mais um fim em si mesmo do que algo que almeje algum tipo de perenidade como seus diversos pares – inclusive a tão festejada, mas que não sou lá muito fã Rick and Morty – sem dúvida conseguem alcançar.

No final das contas, Paradise Police é diversão rápida e rasteira que acaba conseguindo tirar algumas boas gargalhadas do espectador especialmente quando arrisca ser mais do que é. De resto, no momento em que os créditos começam a rolar, já fica difícil lembrar o que foi assistido.

Paradise Police – 2ª Temporada (Idem, EUA – 06 de março de 2020)
Criação: Waco O’Guin, Roger Black
Direção: Brian Mainolfi, Lauren Andrews, Matt Garofalo
Roteiro: Roger Black, Waco O’Guin, Dan Signer, Steve Tompkins, Rocky Russo, Jeremy Sosenko
Elenco (vozes originais):  David Herman, Tom Kenny, Sarah Chalke, Kyle Kinane, Cedric Yarbrough, Dana Snyder, Grey Griffin, Waco O’Guin, Roger Black
Duração: 242 min. (8 episódios)

Crítica | Altered Carbon – 2ª Temporada

Quando acabei de assistir a 2ª temporada de Altered Carbon, custosa aposta cyberpunk da Netflix baseada na série de romances de Richard Morgan, tive finalmente certeza absoluta de uma coisa que havia começado a se formar em minha mente já na temporada inaugural: estou diante do meu mais novo guilty pleasure que eu defenderei com unhas e dentes até a morte, mesmo tentando manter-me distante o suficiente para trazer uma crítica menos apaixonada. A série tem todos os predicados de uma obra que pode ser classificada dessa forma, a começar por aquele visual sci-fi que parece apuradíssimo se você assistir sem óculos, mas que, na verdade, fica na linha fronteiriça entre o básico e o marginalmente acima do mediano. Os personagens são recortados em cartolina em sua grande maioria e a trama até arrisca digressões filosóficas aqui e ali, mas sem nunca realmente mergulhar de cabeça em nada. Há romances bregas – inclusive um irresistível entre construtos de inteligência artificial que merecia uma série spin-off própria – e, principalmente, pancadaria explícita e incessante do começo ao fim, com direito a uma contagem de corpos bem alta. Ah, claro, não podemos esquecer dos dois vilões que são tão cartunescos que eles inadvertidamente são hilários.

Passada 30 anos depois dos eventos da 1ª temporada, a nova história parece, em seu primeiro episódio, um reboot narrativo completo. Takeshi Kovacs, agora, habita uma nova e altamente militarizada capa (Anthony Mackie substituindo Joel Kinnaman) que faz parte do pacote oferecido pelo matusa Horace Axley (Michael Shanks) – e que inclui a revelação de onde estaria Quellcrist Falconer (Renée Elise Goldsberry) – para que o Último Enviado faça as vezes de guarda-costas para ele. Claro que tudo dá imediatamente errado e, em meio à confusão, o mistério sobre o paradeiro de Falconer (aliás, um parênteses: esses nomes são sensacionais, não?) e o que está acontecendo com os matusas fundadores do Mundo de Harlan, planeta onde nasceu Kovacs e onde toda a ação se passa, que aparecem violentamente mortos de verdade. Com a I.A. Poe (Chris Conner, disparado o melhor ator da série) ainda à tira-colo, mas agora cheio de bugs e temendo perder sua memória se fizer a reinicialização que precisa fazer e unindo-se à caçadora de recompensas com implantes biônicos Trepp (Simone Missick, que tem uma presença em tela invejável e magnética), Kovacs passa a correr contra o tempo para entender o que está acontecendo, ao mesmo tempo que foge da caçada que o Coronel Ivan Carrera (Torben Liebrecht, o primeiro vilão cartunesco e muito divertido em com sua constante cara de mal que muda sutilmente para cara de enfezado) empreende a ele, sob o comando relutante da governadora Danica Harlan (Lela Loren, a segunda vilã cartunesca, que só falta soltar aquelas risadas maquiavélicas enquanto esfrega as mãos), filha de Konrad Harlan (Neal McDonough em uma ponta), fundador da colônia planetária e que está desaparecido.

A trama é repleta de reviravoltas, revelações e de situações que ampliam ainda mais a mitologia da série, especialmente no que diz respeito à raça misteriosa de alienígenas que legou aos humanos o metal que torna possível a criação dos HDs onde a mente humana pode ser gravada, permitindo imortalidade. Discussões sobre o imperialismo, genocídio, corrupção, papel das forças armadas e, claro, do que significa a vida em um universo onde a morte mesmo só existe para poucos, pontilham toda a narrativa, mas nunca avançam a ponto de tornar Altered Carbon uma série contemplativa. Muito longe disso, aliás, o comando da obra por Laeta Kalogridis mira na ação, com muito investimento em sequências de tirar o fôlego e de belíssimas e variadas coreografias de luta das mais diversas naturezas, todas embaladas por uma direção e montagem que privilegiam a visceralidade e a violência explícita.

Eu disse acima que a história “parece” ser um reboot narrativo completo em relação à 1ª temporada, o que, se fosse verdade, seria um desserviço ao que foi estabelecido antes. Na verdade, na medida em que os episódios avançam (são apenas oito no lugar dos 10 anteriores, o que garantem um passo acelerado), o espectador vai percebendo que, muito ao contrário, apesar da troca da capa do protagonista – artifício narrativo estupendo justamente para permitir a troca de atores a cada temporada -, a história alimenta-se sem pudores de tudo o que veio antes, com os roteiros fazendo malabarismos por vezes até desnecessários para trazer todo o elenco anterior de volta de diversas maneiras diferentes. Portanto, a 2ª temporada é uma legítima e lógica continuação da saga de Takeshi Kovacs que tem o mérito de entregar uma história potencialmente ainda mais interessante e que realmente valoriza o protagonista.

Falando nele, muita gente pode querer saber o que achei de Mackie no lugar de Kinnaman e, ainda que o segundo seja, em linhas gerais, um ator muito melhor do que o primeiro, as exigências do papel não são tão grandes assim e Mackie consegue abraçar bem o personagem, acrescentando, talvez, um ar (bem) levemente mais cômico e bonachão que acaba combinando bem com o que a narrativa pede. Claro que as presenças de Chris Conner e de Simone Missick, além de Dina Shihabi como a I.A. Dig 301, ajudam a elevar o sarrafo dramático, retirando um pouco do foco nas caras e bocas de dor e frustração de Mackie, além da quase que ausência completa de emoção da Falconer de Goldsberry, algo que, justiça seja feita, faz parte da personagem. Em outras palavras, não estamos diante do elenco mais inspirado na face da Terra (ou do Mundo de Harlan), mas ele mais do que dá conta do recado com uma boa química entre eles e por vezes até mesmo lampejos de um trabalho acima do esperado como quando Kovacs é torturado por Carrera ou quando a conexão entre Conner e Dig é estreitada.

Do lado visual, é perceptível a economia da produção na computação gráfica. O mundo legitimamente cyberpunk da temporada inaugural não existe mais com tanta força aqui – planetas diferentes, afinal de contas -, pelo que as sequência dessa natureza abrem espaço para cenários mais confinados e, portanto, mais baratos, com o CGI utilizado de maneira mais cirúrgica e nem sempre tão eficientemente, como é o caso das demonstrações do Fogo de Anjo. Aliás, até mesmo os cenários práticos – notadamente em Stronghold, com suas rochas de isopor – sofrem com a redução orçamentária. Mas esses são detalhes desimportantes que ficam em segundo plano diante da história bem cadenciada e pelo maravilhamento que a própria base narrativa – as capas, os HDs nas colunas cervicais, os clones e assim por diante – gera no espectador e que, aqui, ganha uma contextualização maior e mais relevante.

Como todo bom guilty pleasure, quando acabei a 2ª temporada deu vontade não só de assistir tudo novamente – o que obviamente não fiz e provavelmente não farei, pois o dia ainda tem só 24 horas – como de que a Netflix dê um jeito de soltar a 3ª temporada mais rapidamente do que os mais de dois anos que precisou entre a 1ª e a 2ª. Talvez a leitura dos dois outros romances de Morgan que ainda faltam supram minha carência nesse tempo ou, claro, assistir alguns de seus primos mais velhos como Comando para Matar e Stallone Cobra

Altered Carbon – 2ª Temporada (EUA, 27 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento:  Laeta Kalogridis (baseado em romances de Richard Morgan)
Direção: Ciaran Donnelly, M. J. Bassett, Jeremy Webb, Salli Richardson-Whitfield
Roteiro: Laeta Kalogridis, Sarah Nicole Jones, Michael R. Perry, Sang Kyu Kim, Cortney Norris, Adam Lash, Cori Uchida, Nevin Densham, Alison Schapker, Elizabeth Padden
Elenco: Anthony Mackie, Chris Conner, Renée Elise Goldsberry, Simone Missick, Lela Loren, Dina Shihabi, Torben Liebrecht, Will Yun Lee, Michael Shanks, Sen Mitsuji, James Saito, Neal McDonough, Dichen Lachman, Ato Essandoh, Martha Higareda
Duração: 393 min. (8 episódios no total)

Crítica | Okja

OKJA plano crítico filme bong joo ho

Juntamente com Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, Okja começou sua jornada de exibição com muitas vaias no Festival Cannes, pois ambos traziam o selo da Netflix e… bem, Academias e Organizações ligadas ao cinema não são exatamente conhecidas por abrirem os braços para aquilo que é diferente, seja em temática, em tecnologia ou em pessoal envolvido na produção. Essas coisas levam tempo. Mas se a polêmica em torno das obras realizadas ou exclusivamente distribuídas por plataformas de streaming perdura até hoje (e pelo jeito que o mundo anda, perdurará ainda por muito tempo), a visão geral sobre o filme não ficou apenas na vaia ou na indiferença. Goste ou não do longa, ache ou não que ele seja “mais do mesmo” ao tratar o assunto que trata, a questão é que Bong Joon-ho conseguiu jogar muito bem com os clichês do gênero e verdadeiramente imprimiu sua marca na obra.

Roteirizada pelo próprio diretor, ao lado de Jon Ronson, a película recorta a questão da pegada ecológica humana somada a questões sociológicas, econômicas e corporativistas para o consumo de carne. O filme então começa com uma apresentação chateante e editada de forma confusa, com a CEO da Mirando Corporation (Tilda Swinton) apresentando o novo sonho da carne no mundo, a possibilidade de alimentar quem tem fome e, ainda assim, fazendo bem ao meio ambiente. Por 10 anos, porcos (com cara de peixe-boi) geneticamente modificados foram entregues a fazendeiros selecionados em diversos países. Ao final desse período, o inevitável: um concurso para escolher o “melhor porco”. O roteiro, portanto, foca em uma relação específica, a de Mija (An Seo Hyun) com a porca Okja. Os embates que comentei antes passam a acontecer no confronto entre o núcleo da amizade e o núcleo da exploração.

Após a introdução não tão interessante, o filme ganha um primeiro ato simplesmente maravilhoso. O diretor desloca a ação por inteiro para as montanhas da Coreia do Sul e nos mostra um idílio que mescla fantasia, humanidade e boas doses de sentimentalismo, o que em um primeiro momento é algo positivo para o filme, marcando a relação entre a porca, Mija e seu avô. O espectador não tira da mente por um só momento que um “conflito com a civilização” irá acontecer em breve, mas isso parece algo distante, como distante estão Okja e sua amiga, correndo, brincando e fazendo coisas impossíveis juntas. É apenas quando o afetado personagem de Jake Gyllenhaal entra em cena que a atmosfera muda. E aí sabemos que o momento de felicidade do filme — que tem até uma bela cena de Mija dormindo na barriga de Okja, referenciando Totoro — está para acabar. Aí começam os maiores problemas do filme.

Para atacar frontalmente esse momento de felicidade, o roteiro nos traz duas realidades: a dos anarcoveganos pertencentes à The Animal Liberation (associação que de fato existe) e toda a máquina da Mirando Corporation, cada uma com interesses diferentes para com Okja e sua amiga; e ambas com pensamentos de grandeza, acreditando que estão realmente fazendo o bem, mas com claras contradições em seus atos. Tudo muda daí para frente: a fotografia ganha tons mais cinzentos (e um pouco mais cheio de contraste e filtro na sequência do desfile para a apresentação de Okja ao povo) e a direção acompanha a torrente de acontecimentos, colocando ação via deslocamento dos personagens, movimentando o máximo a câmera em cenas de grande tensão e, aí sim, mergulhando na abordagem crítica central, chamando a atenção para os maus tratos aos animais.

O que me agradou bastante na base do enredo foi a não fofolização da nova CEO da empresa (também vivida por Tilda Swinton). Claro que toda a jornada parece exigir progressivamente da nossa suspensão da descrença, mas na base, não destoa do contexto geral do filme — nem o personagem chato de Gyllenhaal, para falar a verdade, mas esse é difícil de engolir mesmo, sob qualquer ponto de vista. Esse cenário meio cômico e bastante violento entra para o filme apenas como recorte de uma realidade. Ouvi inúmeros comentários ingênuos, ao longo dos anos, exigindo da fita uma intervenção ambiental/política e não apenas a demonstração do salvamento de animais ou denúncia dos horrores feitos com a produção de carne no modo industrial. O que os papas do engajamento político se esquecem é que Okja é uma ficção de aventura e ação com pitadas de fantasia e que olha para um problema real a fim de fazer o seu plot andar. Exigir que esse tipo de filme exponha um petardo analítico ou teórico sobre as lutas contra o sistema de produção e de consumo contemporâneos é produto de mente sandia.

O tratamento entre o misterioso e o redentor do grupo de salvadores de animais e a forma como ele costura uma possibilidade de luta e denúncia foi colocado na medida certa para fazer o conflito fluir. Para quem quer um caminho revolucionário de destruição e reconstrução de um sistema socioeconômico, saiba que a literatura, em diversas áreas do conhecimento, está abarrotada de exemplos. Okja não é um grito de liberdade anti-porcos-capitalistas (hehehe), mas um ótimo recorte de um problema que muitos de nós — eu inclusive — lutamos para ignorar. A chamada do roteiro para uma revisão de hábitos não é via pregação ou Manifesto. E nisso o longa tem um baita sucesso. Nem a linha de convencimento do tipo “olha, se mudar pequenos hábitos…” aparece como uma consolação de meio-caminho. O fato é exposto como parte de qualquer coisa ruim sobre a qual temos conhecimento: as implicações para as vítimas e os muitos lados em torno da causa e da busca pelo remédio ou extinção desse sofrimento. O que cada um vai fazer com isso, não é um drama como Okja que vai dizer. Pois aí está mais um motivo que faz a obra ser uma baita diversão, no fim de tudo: o diretor está apenas preocupado em contar uma boa história. A real discussão, sob qualquer ordem teórica, fica por nossa conta.

Okja (Coreia do Sul,  EUA, 2017)
Direção:
  Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Je-mun Yun, Shirley Henderson, Steven Yeun, Daniel Henshall, Lily Collins, Devon Bostick
Duração: 118 min.

Crítica | Grace and Frankie – 6ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores. 

Grace and Frankie é uma série deliciosa em sua premissa e execução, com a quadra de atores principais na terceira idade dando shows de atuação. Os criadores e showrunners Marta Kauffman e Howard J. Morris vinham acertando com constância desde a 1ª temporada, sempre trazendo frescor à narrativa. A única temporada que considero um tropeço é a 5ª, que experimenta um caminho menos coeso, fragmentando sua história em pequenas narrativas que mais parecem esquetes. A esperança era de que, nas duas temporadas finais, a série voltasse aos eixos e é alvissareiro notar que é sem dúvida isso que vemos agora na 6ª.

Ao final de minha crítica anterior, mencionei que era importante, agora com Grace casada com Nick, que os showruuners tivessem coragem para abraçar o novo status quo, evitando a reversão ao estado anterior acontecesse de imediato. Fazendo justamente isso, a temporada faz com que a manutenção de Grace e Nick como um casal seja um de seus eixos centrais, inclusive introduzindo um novo cenário fixo, o  nababesco apartamento do bilionário em San Diego com um sofá que serve de catalisador para que Grace perceba que tem problemas para levantar-se, o que leva à criação, por Frankie, do Rise Up (ou “Ascensão”, em português), um vaso sanitário que levanta o usuário e que é outro eixo narrativo da temporada.

Em outras palavras, no lugar de correr para “apagar” Nick da vida de Grace e fazê-la voltar à casa de praia com Frankie, os roteiros usam essa circunstância – que sim, nada contra a própria premissa da série, o que a torna justamente mais valorosa – para criar uma história relevante ao redor, unindo as duas ainda mais e formando um trio, já que a hilária Joan-Margaret aboleta-se junto à Frankie, para evitar a solidão da hippie octogenária (septuagenária na série). Toda essa dinâmica é muio bem trabalhada, inclusive a que coloca Nick na equação como o marido genuinamente apaixonado por sua nova esposa e que tenta fazer de tudo para agradá-la, inclusive permitir Frankie e sua vida muito mais do que o razoável. É bem verdade que há momentos em que Nick desaparece da história, deixando Grace e Frankie no cenário da casa de praia como se juntas morassem, mas, mesmo que isso incomode um pouco, não é algo que realmente desfaça o casamento sem desafazê-lo, mas sim uma escolha perfeitamente lógica de manter o relacionamento das duas como mola mestra desse lado da história.

É o outro lado da história, que aborda o relacionamento de Sol com Robert que carece de frescor. Há uma repetição temática – o câncer de Sol no lugar dos problemas cardíacos de Robert – que não acrescenta muita coisa ao desenvolvimento dos dois. Ainda é sensacional ver a dupla de atores veteranos claramente divertindo-se como um casal gay que demorou décadas e décadas para sair do armário, mas toda a narrativa, aqui, parece ficar em segundo plano, quase que como um mero apoio ao casal de amigas traídas.

Por outro lado, é uma felicidade perceber que Kauffman e Morris estabeleceram um terceiro vértice narrativo que coloca Brianna nos holofotes. A personagem de June Diane Raphael sempre teve um potencial cômico que ganhava destaque aqui e ali, mas que jamais havia sido brindada com uma história completa e própria. Aqui, porém, o erro é corrigido, já que Brianna tem que lidar com seu relacionamento com Barry (Peter Cambor, outro ótimo comediante) de maneira mais direta e com amplo espaço que nos leva a situações hilárias que vão desde a impregnação do casal de lésbicas com o esperma de Barry durante a Comic-Con até uma proposta muito peculiar de “casamento”. Se eu pudesse eleger um spin-off de Grace and Frankie para ser produzido, ele seria facilmente Brianna and Barry.

No entanto, olhando de maneira mais holística para a temporada e seu encaixe em toda a série, apesar de o nível ter subido muito em relação à desapontadora temporada anterior, já está mesmo na hora da série acabar. Seguir indefinidamente com uma obra dessa natureza é inevitavelmente voltar aos mesmos assuntos seguidas vezes. Tudo bem que o novo produto para idosos de Grace e Frankie e a separação das duas foram aspectos muito bem conduzidos pelo roteiro, mas esses assuntos são recorrentes e não há muito mais leite a ser tirado dessa pedra. A escolha de terminar tudo em mais uma temporada (que terá 16 episódios, a maior de todas), portanto, é mais do que acertada, permitindo que, se tudo der certo, a sensacional quadra de ases da terceira idade encerrem as histórias de seus personagens por cima.

Grace and Frankie – 6ª Temporada (Idem, EUA – 18 de janeiro de 2019)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: Marta Kauffman, David Warren, Ken Whittingham, John Hoffman, Betty Thomas, Marta Cunningham, Ken Whittingham, Rebecca Asher, Alex Hardcastle
Roteiro: Marta Kauffman, Howard J. Morris, David Budin, Brendan McCarthy, Julie Durk, John Hoffman, Julieanne Smolinski, Alex Burnett, Barry Safchik, Michael Platt, Brooke Wied, Elena Crevello, Alex Levy, Ben Siskin, Alex Kavallierou
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Peter Cambor, Ernie Hudson, Tim Bagley, Michael Charles Roman, Brittany Ishibashi, Millicent Martin, Lindsey Kraft, Peter Gallagher, Michael McKean
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

Crítica | Indústria Americana

Indústria Americana, de certa forma uma continuação de The Last Truck: Closing of a GM Plant, de 2009, é o primeiro filme da Higher Ground Productions, produtora nascente de ninguém menos do que Barack e Michelle Obama. E isso é o que de melhor posso dizer sobre esse documentário dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert, focado na entrada da Fuyao, empresa chinesa fabricantes de vidros automobilísticos, em território americano, ocupando a fábrica da GM fechada em 2008 e que fora objeto do documentário anteriormente citado.

Diferente do que muitos podem imaginar, documentários não são documentos assépticos e sem opiniões que precisam analisar cada lado da história de maneria isenta e equilibrada. A “contaminação” dessas obras por ideologias, posicionamentos políticos, religiosos, sócio-culturais e tudo mais fazem parte do jogo e, muito francamente, é o que dá o sabor para a grande maioria delas, especialmente quando o espectador discorda da abordagem assumida, já que é isso que gera o debate sadio e, nessa esteira, o aprendizado. A questão é que, para que isso ocorra, é necessário que o documentário tenha um objetivo e um caminho claro a ser trilhado, sob pena de os assuntos que aborda ou ficarem incompletos ou, no final das contas, parecerem uma compilação de informações soltas sobre determinada situação.

E é exatamente isso o que acontece em Indústria America. Se o curta documental The Last Truck – que concorreu ao Oscar em sua categoria em 2006 – tinha um objetivo claro, que era documentar o fechamento da fábrica da GM e a demissão de três mil funcionários em Moraine, Ohio, o novo longa da dupla de diretores atira para todos os lados sem parar para mirar e, portanto, acaba não acertando em nada, pelo menos não de maneira significativa e duradoura. E olha que não é por falta de questões interessantes para abordar.

Se inicialmente os conflitos culturais entre americanos e chineses – a visão que cada “lado” tem do outro trafega por todos os estereótipos que podemos imaginar – ganha relevo e parece sedimentar as bases da narrativa, isso logo é deixado de lado para que a formação ou não de um sindicato de trabalhadores passe a ser o foco por algum tempo, somente para novamente abrir espaço para outros assuntos paralelos como a viagem de um grupo de americanos para a sede chinesa da empresa e a mudança de postura corporativa em relação ao comando da filial americana. Ainda que seja perfeitamente possível concatenar as narrativas soltas em uma linha temporal lógica, esse não é um trabalho que deve ser jogado no colo do espectador, especialmente considerando que as questões não são abraçadas de verdade pela narrativa e sim salpicadas aqui e ali na medida em que há imagens ou sons gravados clandestinamente para apimentar o documentário.

Com isso, não fica exatamente claro se Bognat e Reichert estão criticando o sistema capitalista como responsáveis por todas as mazelas do mundo (se você ouviu um som agora, foram meus olhos revirando) ou se o objetivo é mostrar o quão inconciliáveis são as posturas americana e chinesa em termos corporativos e sociais ou se o foco está mesmo nas questões de aproximação cultural entre os dois países ou, ainda, se a questão fica restrita às vantagens e desvantagens do sindicalismo. Ao tentar abordar tudo, os diretores não abordam nada com profundidade e coesão e sequer conseguem transmitir seu posicionamento sobre determinado assunto. É como se Indústria Americana fosse a costura mal feita de dois ou três potencialmente interessantes documentários em curta-metragem que a produção tinha em mãos.

Os Obamas poderiam ter escolhido material melhor para fazer sua estreia no audiovisual. Indústria Americana sofre de falta de foco e de sofreguidão narrativa que, porém, por levarem o carimbo do querido casal presidencial americano, provavelmente terá todos os seus defeitos convenientemente esquecidos para continuar ganhando todas as láureas possíveis.

Indústria Americana (American Factory, EUA – 2019)
Direção: Steven Bognar, Julia Reichert
Com: Junming ‘Jimmy’ Wang, Robert Allen, Sherrod Brown, Dave Burrows, Austin Cole, John Crane, John Gauthier, Rob Haerr, Cynthia Harper, Wong He, Timi Jernigan, Jill Lamantia, Jeff Daochuan Liu, Shawnea Rosser, Rebecca Ruan-O’Shaughnessy
Duração: 110 min.

Crítica | Perdidos no Espaço – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas da temporada anterior e de todo nosso material sobre Perdidos no Espaço.

Voltando com a 2ª temporada mais de um ano e meio depois da completa reimaginação da famosa série sessentista, a versão de Perdidos no Espaço do Netflix é, em poucas palavras, uma gostosa aventura espacial que reúne os melhores elementos que as pegadas camp e realista – antitéticas por natureza – podem oferecer. E o segundo ano da série desenvolvida por Matt Sazama e Burk Sharpless com base em criação de Irwin Allen e comandada por Zack Estrin só reitera essa conclusão, já que ele apara arestas, expande esse universo e apresenta novas situações que mantém o espectador constantemente grudado na telinha.

Iniciando sete meses após os eventos da 1ª temporada, vemos os Robinsons, Don West (Ignacio Serricchio) e a Dra. Smith (Parker Posey) perdidos em uma minúscula faixa de areia em um planeta tomado de água e uma atmosfera irrespirável. É Natal e a família toda reunida comemora a data da melhor forma possível, com o episódio inaugural investindo sem pudor na abordagem “família” que a série original tinha, além de trabalhar a vilanesca Smith da melhor forma possível dentro dessa estrutura limitada.

Quando os dois episódios iniciais se encerram lidando com esse planeta em questão, fica a impressão de que o showrunner investirá em “planetas da semana” como forma de contar sua história, mas isso logo se dissipa quando nossos heróis conseguem retornar para a Resolute, retrabalhando a conexão de Will com o robô que, por sinal, permanece sumido por nada menos do que seis episódios, uma aposta arriscada, mas que dá certo, já que abre espaço para as relações humanas com outros personagens que vão ao pouco sendo introduzidos.

Em outras palavras, não temos, aqui, a fórmula mestre da série original. Não são só os Robinsons mais Don West mais Doutora Smith que jogam o jogo nessa reformulação e, francamente, essa escolha é muito bem-vinda, até porque eles permanecem com o protagonismo absoluto, mas com um ecossistema ao redor que permite que os roteiros trabalhem histórias melhores, todas elas ancoradas nos mistérios sobre a verdadeira natureza dos seres cibernéticos que, como descobrimos em detalhes, são absolutamente toda a base da ciência por trás da nave migratória terráquea, com a introdução de Espantalho, um robô violentamente escravizado para o propósito de navegar pelo espaço.

O mote geral é a história de amadurecimento clássica, com Will (Maxwell Jenkins) e o próprio robô (Brian Steele) no epicentro dessa narrativa. O jovem Jenkins mostra mais uma vez ser coração puro e é perfeitamente possível ver como ele mudou não só fisicamente, mas mentalmente de uma temporada para outra, com roteiros que não tornam o personagem apenas mais uma criança para simpatizarmos, mas sim alguém com quem podemos criar empatia imediata. E o mesmo pode ser dito, mais uma vez, do excelente robô de Steele, criado por meio de uma magnífica fusão de efeitos práticos com CGI e um ótimo trabalho de mixagem e edição de som. Falando pouco, mas transmitindo muito, o robozão é de se aplaudir.

Mas o tema amadurecimento perpassa pelos demais jovens Robinsons. Judy (Taylor Russell), a mais velha dos três filhos do casal, é a primeira a se tornar adulta em idade e aquela que carrega nos ombros a responsabilidade de manter a família unida, tendo um passado complicado com seu pai adotivo John (Toby Stephens) que é trabalhado com curtos e eficientes flashbacks que são mais bem inseridos aqui do que os das 1ª temporada foram, demonstrando que os roteiristas aprenderam com seus erros. Penny (Mina Sundwall) é mantida como a “filha inútil” que precisa aprender a viver como sendo a menos científica dos Robinsons, algo que é logo abordado com a ótima ideia de colocá-la como biógrafa da família e fazer com que seu livro – Perdidos no Espaço, claro! – seja um elemento narrativo importante para a primeira metade da temporada.

Maureen (Molly Parker) e John continuam como o carismático casal que se vê tendo que proteger seus filhos de um lado e de resolver absolutamente todos os problemas que aparecem na temporada, desde achar água em um poço até organizar, da noite para o dia, um motim. É aqui que o aspecto camp da série mais se sobressai, com aquelas divertidas conveniências narrativas e soluções e salvamentos de último segundo que fazem parte do DNA de Perdidos no Espaço e que funcionam muito bem ao longo dos 10 episódios da temporada. Afinal, ver Toby Stephens mais uma vez encarnando o Capitão Flint de Black Sails logo no começo da temporada ao velejar a Júpiter 2 não tem preço, não é mesmo? Mas, brincadeiras à parte, mesmo eles precisam crescer e enxergar que seus filhos já não são mais os mesmos e que eles precisam de liberdade para fazer o que escolherem.

E, claro, Parker Posey toma controle absoluto de sua Dra. Smith, com o texto da temporada emprestando-lhe mais nuances e camadas que são muito bem exploradas em momentos críticos, como quando ela precisa avisar Maureen de um perigo, mas acaba não conseguindo por não conseguir “enfrentar” seu próprio bloqueio psicológico em relação a Samantha (Nevis Unipan), filha do homem que matara na temporada anterior. Assim como os demais, esse conflito interno na famigerada Dra. traz desenvolvimento para a personagem e Posey faz uma composição perturbadora e que se diferencia bastante ao mesmo tempo que presta homenagem ao clássico personagem criado por Jonathan Harris.

Os únicos problemas da temporada estão no lado “vilões do momento”. O primeiro deles, Hastings (Douglas Hodge), ganha um enorme alargamento que, apesar de conectar-se com o “pecado original” de Maureen ao alterar os resultados dos teste de Will para fazê-lo ser elegível para Alfa Centauro, não consegue sair da unidimensionalidade vilanesca absoluta. Ele é como um feitor de escravos capaz de tomar todas as piores decisões possíveis em um pacote único e conveniente, somente para dar de cara com os Robinsons. O outro vilão do momento é Ben Adler (JJ Feild) que até ganha aquela aura de “personagem multidimensional”, mas que não passa de bucha de canhão, criado com todo o cuidado possível para ele ser literalmente incinerado ao final. Pelo menos Feild consegue convencer nos sentimentos de seu personagem quase tão raso quanto o de Hodge.

Entretenimento do mais alto gabarito, com ótimos efeitos práticos e de computação gráfica, Perdidos no Espaço é ficção científica que sabe respeitar o material fonte sem medo de alterá-lo para o bem da narrativa e que traz aventuras no estilo clássico, mas com roupagem moderna para encantar a audiência de todas as idades. Diversão, Will Robinson!

Perdidos no Espaço – 2ª Temporada (Lost in Space – Season 2, EUA – 24 de dezembro de 2019)
Desenvolvimento:  Matt Sazama, Burk Sharpless (com base em criação de Irwin Allen)
Showrunner: Zack Estrin
Direção: Alex Graves, Leslie Hope, Jon East, Tim Southam, Jabbar Raisani, Stephen Surjik
Roteiro: Matt Sazama, Burk Sharpless, Zack Estrin, Liz Sagal, Kari Drake, Vivian Lee, Katherine Collins, Daniel McLellan
Elenco: Toby Stephens, Molly Parker, Taylor Russell, Maxwell Jenkins, Mina Sundwall, Ignacio Serricchio, Parker Posey, Brian Steele, Ajay Friese, Sibongile Mlambo, JJ Feild, Sakina Jaffrey, Tattiawna Jones, Jarret John, JJ Feild, Douglas Hodge, Nevis Unipan
Duração: 447 min. (10 episódios no total)

Crítica | Dois Papas

The-Two-Popes plano critico dois papas

Duas visões muito distintas do que é a igreja e de como ela deve ser gerida encontram-se neste Dois Papas (2019), filme dirigido por Fernando Meirelles para a Netflix. No centro da obra, dois religiosos católicos — Joseph Ratzinger (Bento XVI, interpretado por Anthony Hopkins) e Jorge Bergoglio (Francisco, interpretado por Jonathan Pryce) — em um momento bastante conturbado para a igreja, com diversas investigações acontecendo em torno do líder religioso e uma visão geral de que para se manter viva, a igreja precisava de reformas. E é justamente nesse tablado de crise que o roteiro de Anthony McCarten começa a sua jornada, centrando a história nos diálogos entre o Papa e o Cardeal.

Jonathan Pryce e Anthony Hopkins estão absolutamente fascinantes em seus papéis. A semelhança física dos dois atores com os personagens históricos que representam já é algo notável (palmas para a equipe de maquiagem!), mas a coisa vai muito além das aparências. Os dois atores assumem a seriedade e o pensamento desses dois religiosos e recebem um texto forte, respeitoso e muito verdadeiro sobre aquilo que o mundo pensa a respeito da igreja como um todo, tando o lado daqueles que não possuem religião, quanto o lado dos religiosos. Os dilemas de fé e de vida aqui representados podem ser compreendidos por qualquer um.

O fascínio em torno do ritual religioso começa cedo no filme, com a morte de João Paulo II e o início do Conclave que elegeria Bento XVI. O texto se constrói através de um paralelismo entre trajetórias, com Ratzinger assumindo o cargo em Roma e Bergoglio iniciando o processo de sua aposentadoria, para a qual precisava da aprovação do novo pontífice. Fernando Meirelles sabe separar muito bem as diferentes abordagens visuais para as cenas na Argentina (mais documentais, com fotografia sem grande garbo e montagem mais rápida) e para as cenas na Itália, especialmente nos espaços religiosos. Como os figurinos “oficiais” já possuem um grande impacto e beleza por si só, coube à fotografia e à direção aproveitar ao máximo as locações e a presença de dois grandes atores levando adiante uma conversa teológica, mostrando que a visão da Bíblia e a própria tradição eclesiástica são mutáveis e ajustáveis, abraçando as necessidades dos fiéis em novos tempos à luz dos mandamentos divinos.

Este, aliás, é o grande ponto de separação entre os dois religiosos e, apesar da mensagem de amizade e proximidade que o filme nos traz, o fato é que a cisão religiosa (dentro e fora da alta cúpula) prossegue firme e forme durante todo o papado de Francisco, especialmente pelas declarações de maior acolhimento, assistência, amor ao próximo e a Deus… basicamente a reafirmação do Evangelho proposto por Cristo e que, por um motivo bastante incompreensível, tem gerado um inconformismo notável em certos grupos. Essa tendência já é possível ver no filme como uma parte da oposição de ideias entre os protagonistas, condição que gera, de maneira bastante orgânica, uma aproximação fraterna (e espiritual, claro) entre eles. A câmera adota excelentes ângulos para mostrar a visão do espaço pelos olhos desses indivíduos, o que também reflete a maneira como eles se comportam, cabendo ao roteiro inserir muitos pontos de humor (todos bem pensados) e alguns momentos ternos e inesquecíveis entre os dois homens.

A coisa muda bastante quando chega o flashback e, posteriormente, as “imagens reais”. Esse momento de distanciamento não é ruim em si mesmo, mas se torna um pequeno estorvo para o filme. Primeiro, as cenas curtas que apresentam o passado de Bergoglio são um bom aperitivo. Mas o roteiro aumenta muitíssimo esse bloco, dando-nos praticamente um outro filme, deslocando a trama daquilo que ela tem de melhor (os diálogos, debates e quaisquer interações entre os dois atores principais) para um ato que age como grande distração, embora seja isoladamente interessante e com um grande peso para o discurso de mudança, perdão e reafirmação da fé que o longa trará no final, agora dentro da esfera confessional onde as fragilidades de cada um vêm à tona. O flashback para o passado do Papa Francisco mostra seus terríveis erros, assim como alguns breves momentos indicam os erros terríveis do Papa Bento XVI. Por mais nuances de propaganda que a obra tenha (e que obra não tem, não é mesmo?), o roteiro não permite uma visão totalmente defensora ou condenatória dos Papas, mostrando-os como líderes, mas também humanizando-os o bastante para indicar que todos precisam lutar para se tornar alguém melhor.

Belas imagens, trilha sonora e atuações soberbas fazem de Dois Papas um drama que fala ao coração de qualquer espectador. Claro que para os religiosos há um significado maior em tudo o que está aqui, mas aquilo que se debate, a trajetória e mesmo o conflito interno à instituição desses indivíduos podem falar a todos, porque constituem um bom drama. Dando espaço demais às cenas do passado e perdendo a mão na miríade de imagens sobre as viagens do Papa Francisco (das quais a única bem utilizada e necessária é aquela com o discurso sobre os imigrantes e refugiados), o filme é minado por uma estranha ambição documental ou de fechamento de um ciclo com profundo realismo. Mas não deixa de ser uma boa produção. E uma porta de entrada para a discussão sobre a igreja e a fé em tempos onde alguns milhares de cristãos são verdadeiras máquinas de odiar e reproduzir mentiras, supostamente em nome de Deus e em defesa do Cristianismo…

Dois Papas (The Two Popes) — Reino Unido, Itália, Argentina, EUA, 2019
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Sidney Cole, Thomas D Williams, Federico Torre, Pablo Trimarchi, Walter Andrade, Juan Miguel Arias, Lisandro Fiks, Fabricio Martin, Matthew T. Reynolds, María Ucedo
Duração: 125 min.

Crítica | Perdi Meu Corpo

Se seis personagens um dia procuraram por seu autor e, claro, significado, na obra imortal de Luigi Pirandello, porque um twist macabro – mas lírico – que coloca uma mão decepada procurando seu corpo, seria inimaginável? A animação francesa de Jérémy Clapin, em sua estreia em longas-metragens, baseada em romance de Guillaume Laurant, que co-escreveu o roteiro (e que foi responsável também por O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Uma Viagem Extraordinária), é uma jornada que procura discutir, ou pelo menos colocar em perspectiva, o conflito eterno entre o determinismo e o livre-arbítrio, entre o destino inevitável e nossa tentativa de fugir dele.

A premissa estranhíssima já captura a imaginação do espectador a partir dos primeiros segundos em que vemos a referida mão “escapando” de uma geladeira em um necrotério ou hospital e aprendendo a andar na ponta dos dedos exatamente como o Coisa (ou Mãozinha), da Família Addams. A combinação do que esperamos de algo assim, provavelmente um filme de horror, com uma leveza desconcertante que nos faz efetivamente torcermos pela mão silenciosa, mas muito esperta, carrega facilmente a narrativa sem que sequer uma linha de diálogo seja necessária. As aventuras dessa mão tentando retornar a seu “dono” a faz passar por espetaculares momentos que vão desde um pombo enxerido no telhado de um prédio, passando por endemoniados ratos no metrô em uma sequência legitimamente tensa, até sobrevoos na cidade à la Mary Poppins, formam todo o coração do longa, mas um coração que carece de significado sem que prestemos atenção às sequências em flashback para momentos diferentes na vida do jovem Naoufel (Hakim Faris).

Sendo inicialmente abordado sem uma estrutura imediatamente discernível, a vida de Naoufel vai pontilhando a jornada da mão que, não demora, e por dedução inescapável, concluímos que é a dele. Com isso, outra camada de curiosidade e leve mistério é acrescentada: como o jovem perdeu sua mão? Mas a resposta a essa pergunta não é o que movimenta a narrativa, mas sim a luta da mão contra seu destino, sua recusa em aceitar passivamente sua situação. Naoufel, por sua vez, visto nos referidos flashbacks para sua infância tenra em preto e branco quando capturava todos os sons com um gravador de fita cassete e um microfone e para seu passado recente em Paris como entregador de pizza, em uma peça pregada pelo destino (olha ele aí!), sem rumo, sem saber o que faze a não ser passar os dias em uma rotina inglória, mas que ele aceita sem reclamar. A mão e o Naoufel que conhecemos são bem diferentes e a convergência dessas duas linhas narrativas, por mais surreal que possa ser, estabelece a progressão da história e tudo o que precisamos saber sobre nós mesmo, vamos dizer assim.

O roteiro de Clapin e Laurant, no entanto, acabam caindo na armadilha do lugar-comum, com Naoufel enamorando-se por Gabrielle (Victoire Du Bois) e estabelecendo um relação, a partir do jovem entregador de pizza, que começa de maneira bonita, mas entra em um viés um tanto quanto perturbador, com ele “perseguindo” a garota de todo jeito possível e omitindo informações. É bem verdade que as habilidades sociais de Naoufel são próximas de inexistentes, mas a abordagem desse seu romance platônico é problemática não só por colocá-lo sob uma luz ruim, quase obsessiva, como também pelo simples fato de não ser interessante o suficiente ou mesmo definidor para os eventos que ocorrem a seguir, pelo menos não daquela maneira que olhamos e concluímos algo como “bem, não podia ser de outro jeito mesmo”. O lirismo tão bem construído no lado da mão e nos flashbacks para a infância de Naoufel se perdem consideravelmente nesse lado mais comum da história, ainda que Gabrielle seja acertadamente mantida distante, como um sonho inalcançável e não exatamente como uma personagem bem desenvolvida.

A grande vantagem, porém, é que não só a jornada da mão é, toda ela, muito bem trabalhada do começo ao fim, como os lindos 10 minutos finais funcionam como a proverbial cereja no bolo. Além disso, Clapin mostra um cuidado grande na forma como ele aborda o mundo a partir do ponto de vista do membro decepado, mantendo a câmera muito próxima da ação e, claro, do chão, por vezes ocupando a perspectiva em primeira pessoa (ou seria primeira mão?), além de estabelecer movimentos realistas tanto quanto o possível e extremamente humanos, como quando a mão senta na beirada de um prédio ou de um piano exatamente como seria na realidade. A forma como mãos variadas são também enfocadas e metaforizadas sem que elas pareçam intrusivas, merece aplausos, mantendo acesa e multiplicando a estranha premissa. Igualmente, a fotografia transita muito bem entre as duas narrativas, privilegiando tons mais escuros na jornada da mão e cores mais vivas no desabrochar de Naoufel, com os traços da animação em si, que parecem sair das páginas de uma HQ, em um processo digital que emula traços 2D. Há, também, um quê de caricatura nas figuras humanas ou, pelo menos, de arquétipos, inclusive no caso de Naoufel, o que ajuda a universalizar a narrativa e tornar a estranha história muito relacionável.

Mesmo tropeçando na história do romance adolescente, Perdi Meu Corpo é uma grata surpresa na categoria de animação de 2019 que trabalha o inusitado, o macabro e o tenso de forma lírica e repleta de significados, capaz de fazer qualquer um parar e pensar na vida e que caminho seguir, se é que podemos mesmo escolher o caminho. Jérémy Clapin, já em seu primeiro trabalho de monta, revela um manejo impressionante sobre sua arte e, arriscaria dizer, cria um moderno e bizarro clássico instantâneo.

Perdi Meu Corpo (J’ai Perdu Mon Corps, França – 2019)
Direção: Jérémy Clapin
Roteiro: Jérémy Clapin, Guillaume Laurant (baseado em romance de Guillaume Laurant)
Elenco: Hakim Faris, Victoire Du Bois, Patrick d’Assumçao, Alfonso Arfi, Hichem Mesbah, Myriam Loucif, Bellamine Abdelmalek, Maud Le Guenedal, Nicole Favart, Quentin Baillot, Céline Ronté, Deborah Grall, Pascal Rocher, Bruno Hausler, Jocelyn Veluire, Raymond Hosni
Duração: 81 min.

Crítica | The Crown – 3ª Temporada

  • Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.

Os mais de dois anos de intervalo entre as segunda e terceira temporadas de The Crown podem ter sido resultado de exigências inerentes à produção, mas esse distanciamento ajudou na absorção de uma das mais ousadas escolhas recentes da televisão e que, acho, jamais aconteceu na mesma magnitude e circunstâncias: a troca integral do elenco principal. Saem Claire Foy, Matt Smith e Vanessa Kirby como, respectivamente, a Rainha Elizabeth II, o Duque de Edimburgo e a Princesa Margaret, e entram Olivia Colman, Tobias Menzies e Helena Bonham Carter nesses inesquecíveis papeis.

Tendo sacramentado o elenco original, a substituição do elenco se dá por insistência do showrunner Peter Morgan para tornar o envelhecimento dos personagens algo mais natural, sem precisar recorrer a maquiagem ou próteses, com a “troca” ocorrendo logo nos primeiros segundos de projeção de maneira extremamente elegante e reverencial, por intermédio da alteração da efígie da rainha nos selos de seu reino. Mesmo considerando que seria possível a trinca original continuar por pelo menos mais essa temporada, já que suas contrapartidas da realeza têm 34 (Margaret), 41 (Elizabeth) e 43 anos em 1964, quando a história começa, creio que essa foi uma escolha mais do que acertada já que os eventos que vemos desenrolar na tela vão até 1977, no jubileu de prata da rainha, e, por melhor que fosse o trabalho de maquiagem, Foy, com 35 anos, teria sua excelente performance habitual potencialmente maculada. Além disso, Colman, com 45 anos, tem um rosto consideravelmente mais maduro e sério, características essenciais para a forma como essa temporada aborda a rainha, agora uma mulher perfeitamente adequada ao peso da coroa que carrega, tendo domado todos os seus sentimentos a tal ponto que, na maioria das vezes, ela esquece que, lá no fundo, ainda é humana e pode se dar ao luxo de deixar-se afetar pelos eventos ao seu redor, sejam eles felizes ou tristes.

E esse é realmente o triunfo da temporada: fazer a protagonista trafegar no fio da navalha, em um delicado trabalho que a coloca muitas vezes sob uma luz ruim, capaz de transformá-la em vilã aos olhos do público. Colman, que é uma das grandes atrizes britânicas de sua geração, entrega uma performance magnificamente fria nas primeiras camadas, mas sempre deixando que semblantes de calor e humanidade escapem aqui e ali por um olhar, por um breve tremor na boca ou por sua postura, algo que é intensificado cirurgicamente pelos magníficos trabalhos dos quatro diretores que se encarregaram, neste ano, de trazer a trama monárquica à vida. Em termos de fisicalidade porém, quem mais consegue se aproximar de sua contrapartida da vida real logo no começo da temporada é Tobias Menzies e seu Philip, um personagem consideravelmente mais abertamente sensível, ainda que sempre resoluto em suas opiniões sobre a quase completa santidade dos rituais da monarquia. Helena Bonham Carter, por seu turno, é a que deixou o maior abismo na forma como vive sua personagem se comparada com sua antecessora no papel, algo que é proposital dado o crescimento exponencial da amargura de Margo tanto com seu agora marido Antony Armstrong-Jones (Ben Daniels substituindo Matthew Goode) quanto com sua família, mas sem nunca deixar de ressaltar os traços do amor que sente por eles, por mais incongruente que isso possa parecer.

Outra grande diferença dessa temporada em relação às demais é seu caráter mais fortemente episódico, ou seja, com cada capítulo abordando uma história específica com começo, meio e fim que somente em pouquíssimos casos ganham interconexões. Essa foi mais uma escolha ousada de Peter Morgan, pois ele arriscou que sua criação perdesse a sensação de unicidade, passando a ser uma coleção de anedotas sobre a vida da realeza britânica no século XX. No entanto, novamente vê-se o cuidadoso planejamento do showrunner e seu talento para contar uma história. Afinal, não é todo mundo que é capaz de escrever o roteiro cinematográfico de Frost/Nixon, composto, basicamente, de uma longa entrevista real, e manter a atenção do espectador. O que ele faz é escolher um tema central que não necessariamente é trabalhado em primeiro plano o tempo todo, mas que fica permanentemente nas entrelinhas, com a escolha, aqui, sendo o enfraquecimento da percepção favorável da monarquia pelo povo britânico, algo que reflete a realidade dos fatos históricos, especialmente com a vitória do Partido Trabalhista logo no começo da temporada, quebrando a hegemonia do Partido Conservador (os Tories) e marcando a entrada do Primeiro Ministro Harold Wilson (Jason Watkins), de tendências socialistas que são pontuadas por vários elementos do primeiro episódio, como a brevíssima participação de John Lithgow novamente como Winston Churchill e a paranoia relacionada com uma infiltração da KGB no governo britânico.

Ao longo dos episódios, acurácia história e liberdade ficcional se misturam em uma obra superlativa, que nasceu para exigir as pontuações mais hiperbólicas do público e dos críticos. Da mesma maneira que a crise econômica britânica é trabalhada genialmente em Margaretologia, um episódio leve, com uma perfeita participação de Clancy Brown (o Kurgan, de Highlander) como o presidente americano Lyndon Johnson, com consequências nefastas pessoalmente para a princesa Margo, a temporada é capaz de lidar de forma sombria com uma infelizmente famosa tragédia ocorrida em Aberfan (também título do episódio), uma cidade mineradora, em 1966, demonstrando o quão difícil e injusto é o papel de Rainha da Inglaterra e o quanto Elizabeth II está conformada nessa sua fase da vida, pagando um preço caríssimo por isso.

Eu certamente poderia escrever sem parar sobre cada um dos episódios da temporada, mas, prezando a brevidade, não o farei. No entanto, não posso deixar de destacar duas novas adições ao elenco que trouxeram não só uma qualidade dramatúrgica ainda mais assombrosa à série, quanto um sabor melancólico, mas belíssimo às histórias, já que esses novos personagens são uns dos poucos fora do pequeno núcleo principal que têm narrativa continuada. A primeira adição é a de Jane Lapotaire como a Princesa Alice, mãe de Philip que, no terceiro episódio – Bubbikins – enternece corações ao ser trazida para o palácio real em razão do golpe de estado em andamento na Grécia, onde vive como freira. Sua presença é inteligentemente usada para dar ainda mais estofo ao marido da rainha, colocando-o em dúvida sobre sua função, sobre seus feitos, algo que é notadamente explorado durante a chegada do homem à lua que vemos sob seu prisma em Poeira Lunar, o sétimo episódio.

A segunda adição é a de Josh O’Connor como o Príncipe Charles, filho mais velho da rainha e herdeiro do trono. Não só o jovem ator é fisicamente muito parecido à sua contrapartida viva, como sua atuação é um primor que desmistifica aquela impressão midiática que certamente a maioria das pessoas tem sobre o príncipe. Aqui, o que vemos é um rapaz inocente, sensível, honesto e, sobretudo, amoroso, que não entende ainda o que se espera dele um dia e que, por isso, não consegue compreender seu lugar no mundo. O episódio que o introduz, Tywysog Cymru, o sexto, é um primor de construção de personalidade, usando sua coroação como Príncipe de Gales para relativizá-lo completamente em meio ao sentimento fortemente nacionalista do País de Gales, região britânica com costumes e, principalmente, língua próprias. E essa delicadeza na retratação de Charles continua e é acentuada em Na Corda Bamba, o oitavo episódio, que estabelece o começo de seu relacionamento com Camilla Shand, vivida por Emerald Fennell, e que chega a seu clímax em Imbróglio, o capítulo seguinte que também retorna ao tema da mineração, só que sob outro enfoque e que, para quem conhece a história verdadeira, deixa pontas soltas para a próxima temporada que verá a chegada de Margaret Thatcher como Primeira Ministra.

Não tenho nenhuma dúvida em afirmar desde já – ainda na metade do projeto de Peter Morgan – que The Crown é uma das melhores e mais ricas séries da década, capaz de transformar assuntos potencialmente áridos em uma sinfonia narrativa quase sem par que assombra por ter um elenco soberbo, um design de produção de fazer o queixo cair e por nos fazer rever o século XX a partir de um olhar elegante e sublime. E isso fica ainda mais incrível quando mais uma vez lembramos que estamos falando de uma obra que não teve cerimônia em trocar todo o seu elenco principal de um ano para o outro.

The Crown – 3ª Temporada (EUA/Reino Unido – 17 de dezembro de 2019)
Criação: Peter Morgan
Direção: Benjamin Caron, Christian Schwochow, Jessica Hobbs, Sam Donovan
Roteiro: Peter Morgan, James Graham, David Hancock
Elenco: Olivia Colman, Tobias Menzies, Helena Bonham Carter, Marion Bailey, Charles Dance, John Lithgow, Derek Jacobi, Geraldine Chaplin, Ben Daniels, Jason Watkins, Erin Doherty, Jane Lapotaire, Josh O’Connor, Michael Maloney, Emerald Fennell, Andrew Buchan, Finn Elliot, Clancy Brown, Mark Lewis Jones, Tim McMullan, Harry Treadaway
Duração: 481 min. (10 episódios no total)