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Crítica | O Declínio (2020)

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Apesar de ser um tema já não tão novo no cinema — vide Mal do Século (1995), de Todd Haynes — , não poderia ser mais atual um filme que explora as lavagens cerebrais feitas por gurus na população através de suas teorias da conspiração. Aliás, para aumentar a coincidência com nosso atual momento, O Declínio também não deixa de ser sobre quarentena e fim dos tempos.

Na trama, conhecemos Antoine (Guillaume Laurin) e sua família. Ainda que você seja ou conhece alguém treinado para tragédias em grande escala, nada supera o nível de preparação deste homem. Quase diariamente, ele acorda sua esposa e filha na madrugada, no susto, para que elas se arrumem rapidamente e eles saiam de carro em direção a ponte da cidade em que vivem. O motivo? Cronometrar o tempo e a cada dia tentar bater um novo recorde. Obviamente, todo esse comportamento é influenciado pelo guru youtuber Alain (Réal Bossé).  

Buscando aprimorar suas “habilidades” de sobrevivência, Antoine e sua esposa vão para um acampamento promovido por Alain, isolado no meio de uma floresta. Lá, eles conhecem outros inscritos no programa e passam a conviver entre si, até que, gradualmente, eles vão descobrindo que não concordam com todas as atitudes daquele homem e que sua metodologia pode ser um tanto quanto radical e desumana.

Apesar de sua premissa interessante e a curta duração de 83 minutos, O Declínio é cansativo. Primeiramente, porque sua introdução é demasiadamente longa. Até o grupo do guru perceber que alguma coisa está errada, já se foi metade do tempo de filme. Por outro lado, não há como negar que o roteiro assinado triplamente (Laliberté, Dionne e Krief) sente prazer em evidenciar as paranoias, preconceitos e as contradições daquelas pessoas, abrindo minimamente o debate para aspectos morais. 

Contudo, isso tudo é descartado para virar um exercício vazio do gênero de perseguição na neve, quase como um gato-e-rato, que vai, justamente, eliminando os personagens que havia aprofundado anteriormente. Ora, me pergunto, não seria mais proveitoso se assumir desde logo como um suspense despretensioso ao invés de gastar tempo tentando parecer um pouco mais complexo? Ou ainda fazer o inverso, se aprofundando na moralidade e na ética que cada escolha feita por aqueles personagens significa.

De mesmo modo, nem considerando O Declínio apenas por sua metade final, na qual vira uma espécie de thriller, dá para dizer que o diretor Patrice Laliberté é eficiente em criar uma atmosfera suficientemente tensa, uma vez que rejeita os artifícios de uma trilha sonora na tentativa de deixá-la mais realista. Pelo contrário, ao rejeitar um certo senso de urgência uniforme, a aposta está em criar picos de tensão que surgem em momentos inesperados, como a explosão da bomba, a armadilha acionada ou a queda no lago. O problema é que isso tudo vai acontecendo com pessoas que nem nos importamos o suficiente.

No fim, a falta de punho firme na decisão dos rumos de O Declínio prejudica o longa. Assim, ele fica tanto no meio termo, dando somente uma pincelada em temas importantes e estudando rasamente seus personagens, como também jamais se entrega numa atmosfera austera de suspense sádica. O que sobra é apenas a evidência de que aquelas pessoas se cegaram tanto com suas preocupações sobre o mundo a ponto de esquecerem que talvez o próprio ser humano e sua natureza sejam o problema.

O Declínio (Jusqu’au déclin / The Decline) – Canadá, 2020
Direção: Patrice Laliberté
Roteiro: Patrice Laliberté, Charles Dionne, Nicolas Krief
Elenco: Réal Bossé, Marc-André Grondin, Guillaume Laurin, Marie-Evelyne Lessard, Marc Beaupré, Marilyn Castonguay, Guillaume Cyr, Isabelle Giroux, Juliette Maxyme Proulx
Duração: 83 min.

Crítica | Coffee & Kareem

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Comédia é um gênero complicado. Mais do que qualquer outro gênero ou tipo específico de filme — incluindo aqui aqueles terrores que desafiam a cada segundo a nossa suspensão da descrença; os dramas com 9 mil símbolos a cada segundo e até aqueles pseudo-políticos de finais abertos que trazem à toda todas a viagens de ácido do público afetado por esse tipo de produção –, as comédias dependem de um conjunto maior de elementos para funcionar e, por mais intensa, dura e agressiva que seja, se não tiver a delicadeza de saber onde aparecer, o que ocultar e que botões apertar, a obra se tornará uma tentativa desesperada pelo riso, o que torna o produto patético. Coffee & Kareem (2020) pende para esse lado da corda.

O diretor Michael Dowse dirigiu um filme bastante similar na safra anterior, Stuber: A Corrida Maluca (2019), cuja fórmula é trocada aqui para uma dinâmica que quase todo mundo gosta: um adulto (normalmente um homem) tentando estreitar laços e convencer uma criança ou adolescente a fazer alguma coisa, na maioria das vezes… apenas conviver civilizadamente. A temática é antiga e faz o público rir disso no cinema pelo menos desde Shirley Temple! Assim, a primeira coisa a se considerar no longa é o fato de que estamos em um território onde pelo menos alguma coisa, nem que seja isoladamente, terá um bom princípio narrativo.

Um policial branco chamado — wait for it… — Coffee (Ed Helms, que continua sem graça) está namorando uma mulher negra chamada Vanessa (Taraji P. Henson) e é com o filho dessa mulher, Kareem (Terrence Little Gardenhigh), que o roteiro fixa a briga que sustenta o filme, numa relação “pai-e-filho” dentro de uma comédia de ação, tendo o mundo dos policiais corruptos como agravador do problema. Como comentei antes, ao menos a premissa dessa relação funciona, e em parte o comportamento dos personagens é ao menos capaz de ensaiar ou gerar algumas risadas na primeira parte do filme. Com piadas que vão do exagero puro e simples do comportamento de uma criança negra da periferia até curiosas incursões no politicamente incorreto, o texto logra um bom empurrão inicial para a ação, somando aí a apresentação soberba da Detetive Watts (Betty Gilpin), disparadamente a melhor personagem do filme, exceto pelo final, onde nada é bom.

O problema é que o mesmo texto que começa a construir algo cheio de possibilidades simplesmente se perde naquilo que ele quer retratar. De repente, o filme não é mais sobre a relação “pai-e-filho” e nem sobre a postura molenga de Coffee na Corporação. Passamos para um plot mais intricado, onde uma porção de esquetes sobre o tráfico e depois sobre policiais corruptos e depois ainda voltando para o relacionamento de Coffee e Vanessa acabam ganhando destaque. Nessa abertura enorme de janelas, os personagens vão perdendo suas melhores características e, como é de praxe em comédias onde isso ocorre, se tornam forçados e completamente desagradáveis. O enxugamento da qualidade dos personagens é tamanho, que até a Detetive Watts termina o filme com uma representação ridícula de seu comportamento,  o que acaba não fazendo nenhum sentido para a personagem, que foi construída como uma mulher muito inteligente.

Perdido o foco e esvaziadas as personagens, pouco sobra de verdadeiramente chamativo na fita. O que temos, no todo, é uma boa promessa, uma boa condução da direção nas cenas mais ágeis, uma presença aplaudível de Betty Gilpin e algumas poucas cenas boas antes da reta final. Não é um filme absolutamente dispensável, mas para ser sincero não é um filme que eu indicaria. Para quem quer algo engraçado e ligado ao mundo do crime, tem produção recente e de qualidade sobre isso acessível a todos (alô alô Magnatas do Crime!). Pensando pelo lado positivo, é até bom que seja assim, porque aí já evita que isso vire mais uma franquia ligada ao mundo de policiais unidos a um civil fora da curva. Mas não dá realmente pra duvidar que tentem fazer. Coitados de nós.

Coffee & Kareem (EUA, 2020)
Direção: Michael Dowse
Roteiro: Shane Mack
Elenco: Ed Helms, Taraji P. Henson, Terrence Little Gardenhigh, Betty Gilpin, RonReaco Lee, David Alan Grier, Andrew Bachelor, William ‘Big Sleeps’ Stewart, Serge Houde, Eduard Witzke, Chance Hurstfield, Diana Bang, Erik McNamee, Samantha Cole, Terry Chen
Duração: 88 min.

Crítica | A Casa (2020)

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Não dá nem pra dizer que o original Netflix Hogar se encaixa na linha dos recentes thrillers psicológicos espanhóis que ganharam tal notoriedade com o alavanque do serviço de streaming, já que não existe a sofisticação de paralelas reviravoltas como sua principal característica, tampouco é também um estudo de status social como Parasita, com o qual vem sendo comparado, pois não apresenta quaisquer reflexões plausíveis ou complementos relevantes no assunto, ficando devidamente no limbo entre essas estéticas. A história gira em torno de Javier, um executivo de marketing bem sucedido afundado em uma crise financeira, forçado a sair de seu apartamento contra sua vontade por não poder pagá-lo. Quando uma nova família adquire o aposento, do qual Javier ainda tem as chaves, o ex-empresário vê uma oportunidade de recuperar sua vida antiga se infiltrando na “casa” e manipulando a rotina daquelas pessoas.

Diante dessa premissa, é inegável que o filme até quer ser parte suspense, gerando a tensão a partir de quais movimentos o protagonista irá fazer para alcançar o seu objetivo, mas o roteiro anula essas possibilidades quando na tentativa de inserção de twists reduz obstáculos a amplificar a imprevisibilidade em um “eu já sabia que isso poderia acontecer”, logo, não tem possibilidade do plano dar errado, consequentemente não há motivos para se preocupar em terceiros atrapalhando a sua execução, que consta basicamente na narrativa inteira. Isso não seria um problema se o roteiro admitisse essa aura fantasiosa na liberdade do exercício de gênero, mas ao se colocar num pano realista discursivo, todas essas saídas de sempre ter um plano B, C ou D para cada situação ditada transparecem a arrogância de se sentir à frente do público mesmo que por trapaça. 

É fácil não apresentar a linha de raciocínio de Javier e ir revelando conforme a conveniência pede, porque no momento em que o acaso age podendo prejudicá-lo, é só inventar que isso estava nos planos da sua cabeça desde o início, assim, o filme vai acumulando incongruências diversas, enquanto finge estar sendo inteligente. Não que um suspense precise ser participativo sempre para poder funcionar, mas é preciso uma cota mínima de pistas ou fatos previamente estabelecidos como sustentáculo de verossimilhança quando os desvios aparecerem, algo que nesse caso some em pouquíssimo tempo de duração, só ficando cada vez mais perdido conforme novos absurdos vão sendo implementados e desculpados em sequência.

Ignorando essa estruturação desleal, sobraria como thriller a possibilidade de ter um lado a torcer como motivação para acompanhar os desdobramentos, mas isso é impossível e até não faz parte do intuito do filme, que coloca Javier como um homem desprezível para simbolizar a verdadeira índole da classe conservadora em uma projeção que ela perca tudo. Contudo, nem analisando o viés dessa maneira simbólica funciona, pois o background pré-surto do personagem é extremamente limitado, fazendo-o parecer puramente maniqueísta, com motivações rasas e uma índole ainda mais distante do realismo pregado na estética. Se nem o protagonista ganha um histórico, quem dirá suas vítimas, em cena somente quando ele as está “stalkeando“. 

Não só não há tempo de criar qualquer vínculo para que nos importemos com as consequências das ações de Javier com eles, como também existe o mesmo parâmetro crítico para elas. Quando colocadas em situações desfavoráveis se transformam no mesmo “monstro” que é o protagonista, assim, não sobra ninguém para torcer e o tédio engole a projeção em completude. Sem contar que os comentários de parasitismo social propostos não saem em nenhum momento do básico da premissa. Lembra em uma primeira camada o recente (e também espanhol) O Poço, só que invertido, os de baixo quando fossem pra cima não dariam o braço a torcer em prol do revanchismo, e os de cima, quando em baixo, comeriam os outros para conseguir o topo de novo e… para por aí. Até pela baixíssima inventividade do thriller, não existem outras provocações sociais fora dessa obviedade.

Diria que o filme nem coloca essas temáticas de propósito, visto a irresponsabilidade de alguns movimentos quando cruzados com as reviravoltas, especialmente as finais, totalmente negligentes com o comportamento de personagens femininas, que já não tinham qualquer destaque e ainda precisam ser ridicularizadas a marionetes objetificadas para o twist acontecer com maior “sadismo”. Fora uma cartada tirada avulsamente para inflar o ego do personagem e não o fazer se sentir tão mal, mesmo depois de todas as atrocidades que cometeu, afinal, no processo alguém “pior” pagou o preço. Pelo menos nesse caso, faz sentido com o objetivo do filme de fazer o telespectador acabar com raiva do sociopata, no bom sentido da superfície crítica que ele leva, mas é a raiva, no mau sentido, de estar vendo um suspense trapaceiro e mal articulado o sentimento de predominância no resto do longa.

A Casa (Hogar, Espanha – 2020)
Direção: Àlex Pastor e David Pastor
Roteiro: Àlex Pastor, David Pastor
Elenco: Javier Gutiérrez, Mario Casas, Bruna Cusí, David Ramírez, David Selvas,  David Verdaguer, Ernesto Collado, Ruth Díaz, Vicky Luengo.
Duração: 103min.

Crítica | Crip Camp: Revolução Pela Inclusão

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Em 2019, a recém-criada produtora Higher Ground, do casal Barack e Michelle Obama, trazia seu primeiro filme, Indústria Americana. O documentário focava no dia-a-dia de uma fábrica automobilística comprada por chineses, mesclando temas como a troca cultural entre os trabalhadores e questões sindicais. Agora, na segunda produção da dupla, Crip Camp: Revolução Pela Inclusão, os Obamas também apostam em uma história real que aborda direitos sociais e civis. Todavia, a diferença é que se no filme vencedor do Oscar havia uma certa postura distanciada e insegura de suas intenções, o novo filme da Netflix é uma visão totalmente subjetiva, intimista e nostálgica, com o diretor James Lebrecht, um cadeirante, recordando de suas memórias em um acampamento para deficientes na década de 70 e, posteriormente, a luta política pelos direitos dessas pessoas.

Entre as coisas que mais chamam a atenção no filme, é interessante ver como ele opta por uma mudança de tom muita abrupta. Em sua primeira metade, o que temos é a apresentação de toda aquela vida no acampamento. Primeiro, vem uma insegurança no relato de todas aquelas pessoas, sempre acostumadas com a rejeição. Contudo, rapidamente o clima de alegria e contamina o documentário, seja pelo próprio registro do passado ou pela maneira como Lebrecht está sempre entrevistando seus antigos colegas no presente de maneira descontraída. 

Parece um detalhe bobo, mas a condução de muitas dessas conversas para um lado mais amoroso e sexual é fundamental para quebrar um tabu existente quanto a isso. Justamente por não ser uma visão de fora, que talvez se preocupasse em um lado muito mais apelativo e que explorasse a dor daquelas pessoas, mas sim de alguém que vive aquilo, Lebrecht abraça a normalidade e a banalidade, tornando seu documentário incrivelmente humano. Não que mostrar o sofrimento real daquelas pessoas se tornasse um vitimismo barato, algo absurdo de concluir, mas a opção de uma abordagem mais otimista reforça que todas aquelas pessoas também são humanas e possuem sentimentos como todos os outros da sociedade. Neste sentido, Crip Camp é revolucionário.

Em contrapartida, na segunda metade, a narrativa ruma para caminhos mais sérios. Apesar de ser um tanto quanto anticlimático e contrastante em relação aos acontecimentos do acampamento, a mudança de direção se justifica. Afinal, o filme não é só divertimento e nem teria como ser, pois naquela época era praticamente inexistente o direito daquela minoria. Logo, Crip Camp também não deixa de ser um manifesto. Lebrecht reconhece que sem a existência daquela luta, seu documentário jamais existiria. Assim, nada mais justo do que retribuir aqueles que lutaram fazendo greve de fome por 20 dias durante a luta pelos direitos civis do que postergar a existência dos mesmos no próprio ato de resgatar imagens documentais.

No fim, Revolução Pela Inclusão fica neste meio termo entre mero registro despretensioso eu um documentário político didático típico da Netflix, uma vez que vai se criando a sensação de que talvez o primeiro talvez só exista para reforçar o segundo. Através da estrutura narrativa estabelecida, é precisamente pelos momentos de alegria do início do longa que se aumenta a importância do sacrifício posterior. Se eu falava que Lebrecht agia genuinamente na condução do registro de imagens do acampamento e nas conversas, a espontaneidade dos mesmos acabam perdendo sua força quando são utilizados não como fim em si mesmo, ainda que sejam um meio para uma das causas mais nobres possíveis.  

Crip Camp: Revolução Pela Inclusão (Crip Camp: A Disability Revolution) — Estados Unidos, 2020
Direção: Nicole Newnham, James Lebrecht
Roteiro: Nicole Newnham, James Lebrecht
Elenco: Larry Allison, Dennis Billups, Judith Heumann, James Lebrecht, Evan White
Duração: 107 mins.

Crítica | Troco em Dobro

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Você tem dois adultos brincando de Batman…

Peter Berg e Mark Wahlberg retomam com a parceria de longa data, já é o 5° filme consecutivo que o diretor trabalha com o ator como seu protagonista, mas diferente dos anteriores (O Grande Herói, Horizonte Profundo, Dia de Treinamento e 22 Milhas), esse não diz respeito a uma encenação de fatos trágicos políticos americanos, mas retoma o início da escola do diretor caracterizada pela ação escatológica “Michael Bay”. Dá para dizer que a produção original Netflix se aproxima de um Bad Boys de sua carreira, um buddy cop descomprometido com as raízes sociais em que a história se origina, mas ciente de como utilizá-las em benefício do divertimento com uma narrativa devidamente amarrada em códigos morais confortáveis. 

É quase um filme de herói, onde o instinto de justiça do protagonista, Spencer, fala mais alto que a lei que determinou seu afastamento da polícia após bater no chefe “corrupto”, forçando-o a ter de arranjar seus próprios meios de alcançá-la quando se depara com o assassinato dele no dia de sua soltura. Virando praticamente vigilante, o Batman como o próprio filme menciona e brinca no humor, que com a ajuda de Robin, ou melhor, Falcão (Winston Duke), irá seguir as pistas para tentar desvendar a verdade por trás do assassinato e suicídio do principal suspeito, companheiro de trabalho de Spencer, possivelmente incriminado por terceiros. O segredo desse tipo de filme funcionar geralmente encontra-se no tom, em qual nível de relevância cada elemento será dado, e todo esse timing passa pela mão do editor e da direção, que precisa transparecer um dinamismo que encaixe as diferentes modelações no momento certo. 

É essencial a equidade entre as dosagens na comédia, dentro de uma pitada dramática mínima para que as temáticas do submundo da corrupção policial  movimentem o mistério do crime com um bom nível de engajamento. Nesse caso, pelo menos em boa parte do tempo, as piadas funcionam e não anulam a seriedade calculada para que a história não perca seu público de vista. Um recurso interessante para manter esse equilíbrio é desdobrar a aventura ao mesmo tempo em que elabora a construção da dinâmica da dupla. Parece clichê visualmente falando, mas diferente do que tange à maioria dos filmes do gênero, não existem atritos por questões raciais, geracionais, casos como experiente vs. novato, nem nada do tipo. Spencer e Falcão têm motivações isoladas que se unem por um senso comum situacional plausível, bem digna de herói e sidekick, uma troca de favores que os coloca na mesma ação. 

O entrosamento e o carisma do elenco ajudam o pontapé a funcionar e naturalizam bastante as interações, respeitando um novo molde de relações masculinas saudáveis, sem aquela competição embriagada de quem tem a arma maior. A intersecção entre eles, inclusive, já serve como um comentário pertinente para todo o contexto, ambos foram presos por se deixarem levar a esse tipo de perfil explosivo, cumpriram suas penas devidamente e precisam passar na jornada de investigação por testes para que esse erro não se repita e a justiça seja feita da forma que eles acreditam. Spencer ensina Falcão a luta como a arte defensiva, e Falcão ensina Spencer a se preservar primeiro antes de correr desesperado atrás de um carro para não acabar sendo mordido por um cachorro. São valores simples, mas que nas entrelinhas garantem um propósito bacana ao projeto e não o deixa tão maniqueísta, além do fato de que na primeira vista, são bandidos com índole que salvam o dia de policiais que deveriam estar servindo a lei. 

O problema é que na prática, como filme de gênero, é ainda muito bem vs. mal, pelo menos o roteiro não teve coragem de desvincular isso quando era mais decisivo. Na revelação, extremamente previsível diga-se de passagem, de quem era o responsável pela conspiração de assassinatos e essa moral final é confrontada a ele, pouco interessa o background desse vilão, ele escolhe ser mau por ser mau e ter a ponte para o clímax e o ensinamento final com o protagonista, mesmo que isso contradiga o que o filme quer pregar nas entrelinhas. Existem outros momentos questionáveis assim, principalmente no tratamento de Cissy, personagem de Iliza Shlesinger, renegada a ser a ex-mulher maluca que enchia o saco de Spencer que só dava ouvidos a ela a troco de sexo ou quando precisava de um refúgio para abrigar sua missão. Ou em uma determinada ação violenta do personagem que precisava de uma informação que poderia ter sido feita antes, mas não é só porque o roteiro ficou sem saída, aquelas velhas conveniências, onde as provas plantam na mão dos personagens em momentos de estagnação da investigação. 

Sem conta que a montagem, apesar de absolutamente eficiente em ritmo, não alcança a mesma eficiência na organização das cenas de ação, numa picotagem exagerada e pouco inteligível, funcionando mais pelo contexto geral de urgência da situação do que por sua execução em si, que se não fosse distribuída em ocasiões específicas, deixaria o filme bem cansativo.  Ainda com esses pontos, no geral, a proposta descompromissada de “filme de herói” num contexto policial moderno entretém e se mantém num nível regular, sem sair tanto da sua unidade de tom, ficando acima da média do que vêm sendo as apostas Netflix na vertente de ação.

Troco em Dobro (Spenser Confidential, EUA – 2020)
Direção: Peter Berg
Roteiro: Robert B. Parker e Sean O’Keefe
Elenco: Mark Wahlberg, Winston Duke, Alan Arkin, Iliza Shlesinger,, Michael Gaston, Bokeem Woodbine, Marc Maron, James DuMont, Post Malone, Colleen Camp, Hope Olaide Wilson, Kip Weeks, Brandon Scales.
Duração: 110 min.

Crítica | Ultras (2020)

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É difícil não associar Ultras ao longa britânico de mesmo tema, Hooligans, protagonizado por Elijah Wood e Charlie Hunnam. Em um simples reducionismo, poderia-se afirmar que este é uma cópia genérica do outro. Contudo, as duas obras vão para caminhos divergentes. Por um lado, o filme de 2005 assumia ser uma visão de fora para dentro daquele mundo, uma vez que seu protagonista era um jornalista americano tendo contato pela primeira vez com os hooligans ingleses do West Ham. Já neste novo lançamento da Netflix, logo na primeira cena, a câmera segue Sandro “Moicano” (Annielo Arena), o líder dos Apache — torcedores do Napoli — indicando que ele é a nossa referência. Se no primeiro existia um certo deslumbramento com aquele way of life, este, em teoria, deveria mostrar a visão de alguém que já está saturado dele.

Na primeira cena, Sandro está chegando a um casamento de um dos Apaches, no qual todos os integrantes estão presentes e cantarolando as músicas do time. Desde já, se estabelece que não há separação entre a vida privada daqueles homens e suas atividades. Ainda que este início faça parecer que o grupo vive em harmonia, rapidamente vemos que há três subdivisões. Temos os membros-fundadores na faixa dos 50 anos, inclusive o Moicano, que adotam uma postura mais moderada. Opostamente, os skinheads tatuados na faixa dos 30 são mais agressivos e querem fazer a torcida recuperar prestígio. Enquanto isso, entre os dois lados, temos os jovens millennials recém-integrantes que fazem de tudo para conseguir respeito na torcida. 

Pensando o filme dentro das correntes marxistas, é possível ver a antiga geração como os stalinistas, que querem apenas ficar em território napolitano e se mostram contrários à expansão da franquia, além de rejeitarem qualquer contato com o mundo exterior, como na cena em que são hostis a um casal turistas. Por outro lado, a geração mais nova insiste que eles devem rumar para a capital, Roma, e conquistá-la. Logo, o ponto principal que move a história acaba sendo justamente essa divergência de correntes diferentes dentro de um mesmo movimento, que em Ultras acaba sendo representado através deste choque geracional.

No entanto, um dos principais problemas em Ultras é que ele parece estar muito em cima do muro quanto a sua posição sobre o hooliganismo. Isso é algo que se reflete principalmente na direção de Francesco Lettieri e na montagem. Tanto na sequência em que a ala jovem joga bomba na torcida adversária e no momento derradeiro do confronto final, um corte impede que a verdadeira violência seja mostrada. Para um filme que quer falar sobre a brutalidade deste estilo de vida de forma pejorativa, curioso que o mesmo tenha tanto medo em retratar a mesma. Seria justamente através de seu excesso, que veríamos a ignorância despropositada de tudo aquilo, como acontece no terceiro ato de  Hooligans

Claro, a produção italiana também não comete o erro de reduzir os membros das torcidas organizadas em brutamontes que só querem brigar. O roteiro de Lettieri dá espaço para que se mostre um senso de camaradagem entre aqueles homens e que, através do grupo, eles puderam se sentir abraços por alguém. Neste sentido, os melhores diálogos autocríticos acabam sendo entre Sandro e o jovem Angelo (Ciro Nacca), que ele tornou seu protegido após a morte do irmão em uma briga de torcidas. Entretanto, cada tomada de decisão de Ultras nunca parece levar para frente qualquer questão que se proponha a investigar a situação mais profundamente. Ao invés disso, prefere gastar tempo em situações repetidas que evidenciam a solidão de Moicano ou que mostram a ala jovem se perdendo em festas e drogas. Certamente, há aqui uma visão pessimista que é reforçada pela fotografia escura, mas este lado parece nunca gerar um aprendizado para seus personagens. 

No fim, é significante que a última cena seja exatamente como na inicial, indicando uma sensação cíclica de que tudo irá se repetir. Um casamento repentinamente pode virar um funeral. Se há a incerteza neste estilo de vida, há uma certeza: o amor em ser Ultra. Ainda que isso tenha um custo.

Ultras – Itália, 2020
Direção: Francesco Lettieri
Roteiro: Francesco LettieriFrancesco Lettieri
Elenco: Aniello Arena, Ciro Nacca, Simone Borrelli, Daniele Vicorito, Salvatore Pelliccia, Antonia Truppo
Duração: 118 mins

Crítica | O Poço (2019)

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Você já viu este filme antes, mas em outro formato: numa certa aula de História sobre estruturas sociais e em algum momento de uma aula de Geografia ou Sociologia. Ao estabelecer a divisão em classes, castas, estamentos de uma determinada sociedade em um determinado tempo, você já viu um professor desenhar a famosa “pirâmide social“. Esse modelo é bastante utilizado por ser dinâmico ao apontar a importância que cada grupo possui numa civilização, sendo dado, portanto, todos os privilégios possíveis para os que estão no topo da pirâmide e as sobras ou nada para os que estão na base. Evidente que cada formação econômico-social possui caraterísticas mais complexas que a hierarquia em si, mas no fim das contas, a representação continua exata, mesmo havendo contexto, condições e sonhos de oportunidades de ascensão a se considerar dependendo do lugar e tempo histórico analisados.

E por que eu disse que você já viu este filme antes, mas em outro formato? Porque O Poço é “simplesmente” a representação em audiovisual daquela pirâmide social que você tanto viu na lousa e tanto desenhou no caderno. Sim, eu poderia dizer que bastava olhar pela janela ou assistir aos noticiários para ver claramente o funcionamento das pirâmides sociais pelo mundo a fora. Mas quem se importa com a realidade, não é mesmo? Uma das coisas boas da arte é que ela pode nos afastar da realidade para, através da ficção (seja ela baseada em fatos ou não) mostrar aquilo que vivemos no dia a dia. Parece ironia, mas não é. Viver a realidade faz com que as muitas paixões do cotidiano tampem ou alterem a visão de alguns para os problemas à sua volta. Mas quando vemos isso representado num filme, numa série, num livro, aí a coisa parece ganhar a dimensão e a atenção que não estávamos dando. Vai entender.

El Hoyo é o primeiro longa-metragem do diretor Galder Gaztelu-Urrutia, que no cinema tem maior experiência como produtor. Escrito por David Desola e Pedro Rivero, o texto acompanha Goreng (personagem interpretado de maneira aplaudível por Ivan Massagué), que por vontade própria está em uma prisão vertical, modelo que funciona com uma cela por nível e com dois prisioneiros por cela, embora não haja muito controle em relação a isso. A cada mês, os presos são colocados em um nível diferente e isso não seria problema nenhum se essa mudança não significasse acesso a comida: uma plataforma com um verdadeiro banquete desce do nível zero (a cozinha) até o nível 300 e pouco, parando por um tempo determinado em cada nível. O que se vê não é nada estranho a nenhum de nós: as pessoas dos primeiros níveis comem do bom e do melhor e o que não querem + as sobras do que comeram desce para os níveis inferiores. Até chegar a um ponto onde não existe mais comida para os que estão em níveis bem baixos. O canibalismo, para os da base da pirâmide, é a saída.

O modelo de estratificação social é representado aqui de forma muito inteligente e também muito clara. Somada a essa visão geral da sociedade, alguns espectadores podem até fazer leituras específicas atribuindo símbolos, metáforas e arquétipos aos personagens em cena, embora eu advirta que isso deva ser feito com cuidado porque o roteiro está claramente preocupado em apresentar algo intensamente crítico no exterior (a prisão vertical e a questão da comida) enquanto o particular de cada personagem e suas características psicológicas, emocionais, etc. servem como molas para tornar a trama ainda mais diferente, ponto exato onde o filme começa a ter problemas, já que as coisas acabam se opondo demais e o espectador, que em um momento achava estar lidando unicamente com algo mais prático, mais socialmente identificável, crítico, relacionável, deve considerar pitadas de fantasia horrorífica e alguns elementos inexplicáveis no final.

O confinamento e as condições de vida aqui são ainda ressaltados pelo tipo de cenário utilizado, pela simplicidade do set — um simples e eficiente trabalho do desenho de produção — e pela opressiva direção de fotografia, destacando ao mesmo tempo sentimentos de solidão, abandono, perigo e doença através de diferentes filtros de cores no decorrer do filme e dependendo do tipo de ação em jogo (vermelho, azul e cinza formam a paleta básica aqui). Dada a situação inicial e entendido como funciona a prisão, o roteiro procura integrar ao definhamento físico, as típicas perturbações emocionais e psicológicas de quem está sob constante stress, isolamento e privação de alguma coisa. Até aí, tudo coerente com a proposta do filme, inclusive as alucinações, que passam a ser frequentes a partir de certo ponto. Mesmo com esse exagero e sem nenhum sentido prático além dela mesma, é possível lidar com essa escolha do roteiro. O que não dá para lidar é com os buracos no argumento para a existência da prisão e com o arco da criança perdida.

SPOILERS!

Depois de tudo o que vimos os adultos passarem, é absolutamente impossível aceitar que uma criança esteja salva, aparentemente sem marcas de violência física e bem nutrida, como a menina que Goreng e Baharat encontram. Esse derradeiro caminho do roteiro (a descida da dupla em cima da plataforma) nos faz questionar, inclusive, o por quê Miharu não havia encontrado a filha até aquele momento. É improvável que ela tenha ficado em níveis muito baixos em algum momento, mas diante do que vimos se repetir, também parece improvável que a mãe não tenha conseguido descer até um nível onde a garota estava por todo esse tempo. Este é o ponto do filme em que perguntas demais aparecem e onde a realidade dá lugar ao horror de caráter sobrenatural, com mistérios desnecessários brotando.

Não há, em essência, nada para se entender de forma prática no fim do filme, apenas aludir a significados de ordem simbólica. E aí se fecha o ciclo de impasses: é perfeitamente aceitável integrar realismo ao sobrenatural, numa trama que se pretende crítica à sociedade, desde que o espaço realista permaneça em evidência. O que ocorre no final de O Poço é uma fuga de tema. Sim, “a mensagem” através da menina (supõe-se que) chegará à administração, mas e aí? E aquele nível do chão? E aquela alucinação final com Trimagasi? Goreng estava morto? Mas aí o filme falha na representação do personagem nessa reta final, como protetor da menina, não? Vejam a quantidade de perguntas que surgem por conta de um capricho falho do roteiro.

Antes tivessem mantido a objetividade dura e angustiante das classes sociais comparadas à prisão e deixassem essa mística dose de lado. Ainda assim, ficaria sem explicação as condições verdadeiras para a entrada na própria prisão e o contexto social que a gerou. Mas pelo menos o filme fecharia o seu ciclo dentro daquilo que ele faz de melhor: espelhar de maneira gore a realidade do mundo hoje. E se pensarmos bem nos termos de “pegar para si apenas o que é necessário, deixando também para os outros que precisam“, a obra, que estreou na Espanha em novembro de 2019, se torna uma verdadeira profecia para o consumo de víveres e produtos de higiene que a realidade do planeta sob o Coronavírus nos traz em 2020. Senhoras e senhores, bem-vindos à civilização do animal mais inteligente do planeta.

O Poço (El Hoyo) — Espanha, 2019
Direção: Galder Gaztelu-Urrutia
Roteiro: David Desola, Pedro Rivero
Elenco: Ivan Massagué, Zorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale, Alexandra Masangkay, Zihara Llana, Mario Pardo, Algis Arlauskas, Txubio Fernández de Jáuregui, Eric Goode, Óscar Oliver, Chema Trujillo, Miriam Martín, Gorka Zufiaurre, Miriam K. Martxante
Duração: 94 min.

Crítica | Okja

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Juntamente com Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, Okja começou sua jornada de exibição com muitas vaias no Festival Cannes, pois ambos traziam o selo da Netflix e… bem, Academias e Organizações ligadas ao cinema não são exatamente conhecidas por abrirem os braços para aquilo que é diferente, seja em temática, em tecnologia ou em pessoal envolvido na produção. Essas coisas levam tempo. Mas se a polêmica em torno das obras realizadas ou exclusivamente distribuídas por plataformas de streaming perdura até hoje (e pelo jeito que o mundo anda, perdurará ainda por muito tempo), a visão geral sobre o filme não ficou apenas na vaia ou na indiferença. Goste ou não do longa, ache ou não que ele seja “mais do mesmo” ao tratar o assunto que trata, a questão é que Bong Joon-ho conseguiu jogar muito bem com os clichês do gênero e verdadeiramente imprimiu sua marca na obra.

Roteirizada pelo próprio diretor, ao lado de Jon Ronson, a película recorta a questão da pegada ecológica humana somada a questões sociológicas, econômicas e corporativistas para o consumo de carne. O filme então começa com uma apresentação chateante e editada de forma confusa, com a CEO da Mirando Corporation (Tilda Swinton) apresentando o novo sonho da carne no mundo, a possibilidade de alimentar quem tem fome e, ainda assim, fazendo bem ao meio ambiente. Por 10 anos, porcos (com cara de peixe-boi) geneticamente modificados foram entregues a fazendeiros selecionados em diversos países. Ao final desse período, o inevitável: um concurso para escolher o “melhor porco”. O roteiro, portanto, foca em uma relação específica, a de Mija (An Seo Hyun) com a porca Okja. Os embates que comentei antes passam a acontecer no confronto entre o núcleo da amizade e o núcleo da exploração.

Após a introdução não tão interessante, o filme ganha um primeiro ato simplesmente maravilhoso. O diretor desloca a ação por inteiro para as montanhas da Coreia do Sul e nos mostra um idílio que mescla fantasia, humanidade e boas doses de sentimentalismo, o que em um primeiro momento é algo positivo para o filme, marcando a relação entre a porca, Mija e seu avô. O espectador não tira da mente por um só momento que um “conflito com a civilização” irá acontecer em breve, mas isso parece algo distante, como distante estão Okja e sua amiga, correndo, brincando e fazendo coisas impossíveis juntas. É apenas quando o afetado personagem de Jake Gyllenhaal entra em cena que a atmosfera muda. E aí sabemos que o momento de felicidade do filme — que tem até uma bela cena de Mija dormindo na barriga de Okja, referenciando Totoro — está para acabar. Aí começam os maiores problemas do filme.

Para atacar frontalmente esse momento de felicidade, o roteiro nos traz duas realidades: a dos anarcoveganos pertencentes à The Animal Liberation (associação que de fato existe) e toda a máquina da Mirando Corporation, cada uma com interesses diferentes para com Okja e sua amiga; e ambas com pensamentos de grandeza, acreditando que estão realmente fazendo o bem, mas com claras contradições em seus atos. Tudo muda daí para frente: a fotografia ganha tons mais cinzentos (e um pouco mais cheio de contraste e filtro na sequência do desfile para a apresentação de Okja ao povo) e a direção acompanha a torrente de acontecimentos, colocando ação via deslocamento dos personagens, movimentando o máximo a câmera em cenas de grande tensão e, aí sim, mergulhando na abordagem crítica central, chamando a atenção para os maus tratos aos animais.

O que me agradou bastante na base do enredo foi a não fofolização da nova CEO da empresa (também vivida por Tilda Swinton). Claro que toda a jornada parece exigir progressivamente da nossa suspensão da descrença, mas na base, não destoa do contexto geral do filme — nem o personagem chato de Gyllenhaal, para falar a verdade, mas esse é difícil de engolir mesmo, sob qualquer ponto de vista. Esse cenário meio cômico e bastante violento entra para o filme apenas como recorte de uma realidade. Ouvi inúmeros comentários ingênuos, ao longo dos anos, exigindo da fita uma intervenção ambiental/política e não apenas a demonstração do salvamento de animais ou denúncia dos horrores feitos com a produção de carne no modo industrial. O que os papas do engajamento político se esquecem é que Okja é uma ficção de aventura e ação com pitadas de fantasia e que olha para um problema real a fim de fazer o seu plot andar. Exigir que esse tipo de filme exponha um petardo analítico ou teórico sobre as lutas contra o sistema de produção e de consumo contemporâneos é produto de mente sandia.

O tratamento entre o misterioso e o redentor do grupo de salvadores de animais e a forma como ele costura uma possibilidade de luta e denúncia foi colocado na medida certa para fazer o conflito fluir. Para quem quer um caminho revolucionário de destruição e reconstrução de um sistema socioeconômico, saiba que a literatura, em diversas áreas do conhecimento, está abarrotada de exemplos. Okja não é um grito de liberdade anti-porcos-capitalistas (hehehe), mas um ótimo recorte de um problema que muitos de nós — eu inclusive — lutamos para ignorar. A chamada do roteiro para uma revisão de hábitos não é via pregação ou Manifesto. E nisso o longa tem um baita sucesso. Nem a linha de convencimento do tipo “olha, se mudar pequenos hábitos…” aparece como uma consolação de meio-caminho. O fato é exposto como parte de qualquer coisa ruim sobre a qual temos conhecimento: as implicações para as vítimas e os muitos lados em torno da causa e da busca pelo remédio ou extinção desse sofrimento. O que cada um vai fazer com isso, não é um drama como Okja que vai dizer. Pois aí está mais um motivo que faz a obra ser uma baita diversão, no fim de tudo: o diretor está apenas preocupado em contar uma boa história. A real discussão, sob qualquer ordem teórica, fica por nossa conta.

Okja (Coreia do Sul,  EUA, 2017)
Direção:
  Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Je-mun Yun, Shirley Henderson, Steven Yeun, Daniel Henshall, Lily Collins, Devon Bostick
Duração: 118 min.

Crítica | Entre Realidades

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O passado nem sempre é um lugar que queremos acessar, principalmente se ele guarda uma experiência traumática familiar. Há muitas formas tentar seguir a vida normalmente e esconder para baixo do tapete todos esses problemas. Entre elas, torna-se comum a busca por um isolamento social e por uma rotina tão protocolar que praticamente ligamos o piloto automático. Assim, a alienação parece ser o jeito mais fácil de achar um escapismo imediato. Este é o caso de Sarah (Alison Brie), que divide seu tempo em trabalhar como artesã e visitas a um estábulo, além de, nas horas vagas, assistir ao seriado fictício Purgatório (que lembra vagamente uma sátira de Supernatural) e visitar o túmulo de sua mãe.

Aliás, essa poderia ser muito bem a vida de qualquer cidadão médio: ir para seu trabalho e chegar em casa para assistir um seriado que, apesar de sua qualidade duvidosa, aliena e prende sua atenção. Todavia, há algo que diferencia Sarah das outras pessoas. Não só possui um sonambulismo que assusta sua colega de apartamento (Debby Ryan) e faz com que acorde em lugares inusitados, mas a protagonista passa a sonhar com pessoas que ela ainda irá conhecer na vida real e isso faz com que seja tomada por pensamento paranoico envolvendo clonagem e alienígenas, muito influenciado pelo programa de TV que assiste.

Obviamente, não é preciso dizer que Entre Realidades segue uma narrativa na qual ficamos tão desnorteados e confusos quanto Sarah, alternando entre a realidade e sonhos surrealistas. Seguindo o ponto de vista da protagonista, o filme tenta colocar nossa crença à prova. Estaria ela realmente sofrendo uma conspiração ou é tudo um surto psicótico por conta de sua depressão não assumida? O roteiro de Baena e da própria Brie deixa espaço para as duas interpretações, o que acaba sendo uma armadilha, já que nenhuma delas é desenvolvida bem o suficiente. Nem a metáfora para a depressão ganha mais do que uma cena de conversa com um psicólogo e nem o suspense se sustenta apenas por si só, apoiando-se constantemente em sua trilha sonora futurista que induz a ansiedade, quanto na encantadora atuação de Brie.

Falando em Alison Brie, é um mistério para mim como a atriz ainda não tenha conseguido um papel de maior destaque na carreira cinematográfica. Sua atuação em Entre Realidades é como um aperfeiçoamento de tudo que ela fez em séries como Community e GLOW até aqui, sendo principalmente uma pessoa que esbanja pureza e inocência, algo que acaba trazendo muita credibilidade para algumas situações um tanto quanto ridículas que sua personagem passa. Logo, Brie torna possível a existência de uma adulta que acredita estar vivendo dentro de um universo paralelo, o que ainda não é suficiente para impedir que várias cenas provoquem vergonha alheia, como a do cemitério ou a do banho de incenso na casa. 

Dentro desta lógica, penso até que no terço final o longa propositalmente vá perdendo sua conexão com a realidade conforme a protagonista embarca em sua loucura, mas Baena confia demais no poder imagético de seus sonhos acordados e negligencia uma maior exploração de da cabeça de Sarah ou das próprias informações que ele vai soltando casualmente. No fim, Entre Realidades parece ser um filme que fica no meio termo entre um episódio mal explorado de Arquivo X, uma sátira aos conspiracionistas norte-americanos e uma visão do mundo sob a ótica de alguém com problemas mentais. Uma pena que este último subtexto apenas pareça uma desculpa para que Baena brinque de tentar criar uma narrativa lyncheana, o que acaba sendo apenas genérico e sem foco definido. 

Entre Realidades (Horse Girl) – USA, 2020
Direção: Jeff Baena
Roteiro: Jeff Baena, Alison Brie
Elenco: Alison Brie, John Reynolds, Debby Ryan, Molly Shannon, John Ortiz, Jay Duplass, Robin Tunney, Paul Reiser
Duração: 104 min.

Crítica | Modo Avião (2020)

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Não é uma má ideia se apropriar da pauta do avanço tecnológico como antagonista das ações humanas. Principalmente quando o tema é facilmente suportado apenas pelo roteiro, ou seja, não precisa desenvolver grandes efeitos cinematográficos que inevitavelmente exigiriam grandes verbas. Modo Avião compra o argumento e até consegue engajar uma boa crítica contra o excesso de tecnologia, mas peca na sobreposição indesejável de figuras estereotipadas, com personalidade supérfluas que nunca existiriam na vida real. Além disso, deixa transparecer a tentativa desesperada de agradar o público-alvo, construindo momentos que a trama de imediato não suporta. Na história, Ana (Larissa Manoela) é uma influencer dependente da tecnologia. Quando seu vício no celular ocasiona um grave acidente de trânsito, a garota precisa cumprir uma pena na fazenda do seu avô Germano (Erasmo Carlos). O problema, no entanto, é que o local não possui acesso à internet.

As primeiras cenas do longa são interessantes. Modo Avião não demora a apresentar seu rumo principal, colocando a protagonista em momentos de perigo já na primeira cena. Também não enrolam a apresentar os personagens, tais como os papéis de cada um dentro da trama. Assim, pulamos todo aquele primeiro ato desgastante que normalmente os longas (especialmente os brasileiros) costumam ter. E isso seria um elogio se desconsiderássemos o restante da obra. Com a necessidade notável de apressar o andar da carruagem, o projeto perigosamente salta em direção ao estereótipo acentuado: os personagens agem da forma mais óbvia possível para que supram a falta de explicação aprofundada que poderia estar no primeiro ato. Por exemplo, o desejo desenfreado de Ana por tecnologia é algo citado nos primeiros minutos do longa. E isso inevitavelmente voltaria a aparecer, já que de certa forma é o ponto central do filme.

No entanto, relembrar esse aspecto por meio de ações furtivas da personagem é diferente de citar a todo momento esse elemento. A protagonista age a todo momento como a garota agonizada por não ter um aparelho telefônico, chegando a brigar com uma garota para que a deixe usar o celular (e isso acontece duas vezes!). Isso torna as ações da personagem repetitivas, de modo que parece mais um deboche com o público. Ora, já percebemos esse desejo compulsivo de Ana, então vamos continuar a história? construir novas ações para a personagem que, pelas entrelinhas, relembrem essa dependência? Em outras palavras, acelerar a história para que ela não fique desgastante é um grande feito, entretanto se for para tratar o telespectador como alguém que não é capaz de entender a narrativa apenas com um comentário ou ação nas primeiras cenas, seria melhor que tivesse um primeiro ato tradicional.

De mais, a crítica principal é ofuscada pela presença desnecessária de um romance que rouba a cena e da transição repentina da personalidade de Ana. Quando a protagonista chega no sítio, por exemplo, ela está completamente irritada. Dois dias depois ela é demonstrada sorridente e alegre, aproximando cada vez mais suas relações com o avô que até umas horas atras era representado como um sentimento de repulsa. Detalhe que isso fica ainda pior quando lembramos do estereótipo citado: sequências anteriores de Ana aparecer feliz no novo ambiente, ela estava brigando desesperadamente com o avô para que conseguisse ir à cidade e acessar a internet. Ora, se Ana era literalmente uma dependente da tecnologia, e as cenas queriam ressaltar isso, não faz sentido nenhum essa transição abrupta de personalidades. Mas é claro que isso tem um propósito: o marketing (que, destaco, é uma das artimanhas  mais podres que o cinema pode oferecer).

É notável a vontade dos roteiristas em banalizar a história de modo que se tornasse mais um romance adolescente, que certamente atrairia um público maior que uma narrativa onde o tema central é uma crítica. Assim, encontramos o amor sem sentido e mal construído de Ana e João (André Luiz Frambach), que claramente é só uma ação de marketing a fim de atrair o público infanto-juvenil. O maior problema, entretanto, é que isso destrói completamente a ideia inicial do longa, e tudo a partir de então passa a rodar em torno desse núcleo. Até o desfecho é fruto desse romance forçado, de modo que a dependência tecnológica da protagonista não é resolvida e, enfim, termina sem resposta. 

Ao menos todos os personagens tem boas atuações, e os cenários também não deixam a desejar. As caracterizações estão perfeitas (talvez impecáveis) e encontramos uma boa direção de fotografia. Mesmo com algumas dificuldades em visualizar o que estava escrito nas telas dos celulares, é inevitável que o ponto forte desse filme está na produção. Infelizmente, a boa escolha da parte técnica é atrapalhada por roteiristas que forçam estereótipos pois acham que o espectador é burro; além de se renderem a momentos toscos a fim de atrair mais público para a obra.

Modo Avião – Brasil, 2020
Direção: César Rodrigues
Roteiro: Alice Name, Bomtempo, Alberto Bremer, Jonathan Davis, Renato Fagundes
Elenco: Larissa Manoela, Erasmo Carlos, André luiz Frambach, Edu D’Azevedo, Nayobe Nzainab, Katiuscia Canoro, Dani Ornellas, Adriano Fanti
Duração: 96 minutos.

Crítica | Joias Brutas

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Cinco anos antes de Joias Brutas, em 2014, os irmãos Benny e Josh Safdie dirigiam o longa Amor, Drogas e Nova York. Naquela história, a moradora de rua Harley estava presa em uma rotina que se baseava em conseguir dinheiro suficiente para comprar uma quantia de drogas que lhe deixasse anestesiada por um dia. Na manhã seguinte, a mesma coisa, e assim ia passando o tempo, um dia após o outro. Assim, era como se a protagonista estivesse sempre confiando seu futuro ao acaso ou na sorte. Afinal, não há como prever o aparecimento de um surto psicótico ou uma overdose. Já em Bom Comportamento, de 2017, o fugitivo Connie entrava uma crescente de decisões impulsivas que iam formando uma grande bola de neve, na tentativa de conseguir dinheiro para pagar a fiança de seu irmão preso. De certo modo, o novo trabalho dos Safdies é um grande amálgama desses dois filmes.

Em Joias Brutas, o joalheiro e judeu Howard Ratner (Adam Sandler) — assim como os outros protagonistas dos Safdies —  possui um vício. No seu caso, apostar, não só com dinheiro, mas, consequentemente, com a sua própria vida. Após conseguir uma rara pedra de opala de mineradores da Etiópia, Ratner começa diversas negociações paralelas e acaba se enrolando com todas elas. Todavia, para quitar suas dívidas anteriores, ele vai se afundando em mais apostas arriscadas, principalmente envolvendo jogos de basquete.

Desde o início somos transportados para a frenética vida de Ratner. Ele é um personagem que está em constante movimento e sempre ao telefone negociando novos esquemas que surgem decorrentes dos anteriores. Se não há nenhum momento de respiro durante a narrativa, é porque o filme segue a mesma lógica de um mercado financeiro especulativo. Não há tempo de pensar, só de uma reagir imediatamente, em uma relação muito direta entre causa e consequência que parece se reinventar através de um caos a todo momento. Se Joias Brutas é uma experiência tão sufocante desde que começa, um dos principais motivos é porque, nós, com uma visão de fora, conseguimos ver que o protagonista está cavando sua própria cova, ao mesmo tempo que ele está totalmente cego diante do jogo que está imerso.

Para Howard, cada ato desesperado é como uma tentativa de retomar controle de algo que já está totalmente longe de seu alcance. Mais do que estar no poder, como ele indica em uma determinada conversa com Kevin Garnett (jogador de basquete que interpreta a si mesmo), é sobre ter a sensação de comando. Este mesmo raciocínio é o que acontece com o próprio Garnett, que, quando está sob a posse da pedra de opala, acredita que faz partidas melhores na NBA

Como alguém que se aventurou em apostas, fica fácil, para mim, entender toda essa questão central de falso-controle que envolve o protagonista. Lembro de passar horas discutindo com amigos sobre a lógica de uma roleta. Entre várias apostas possíveis, uma delas é se a próxima bola a ser sorteada será da cor preta ou vermelha. A chance de cada uma são iguais, sempre. Entretanto, eu só entrava com dinheiro toda vez que havia, no mínimo, uma sequência de cinco bolas de uma cor para apostar contra ela. Na minha cabeça, eu tinha a impressão de que era mais seguro apostar assim. No entanto, estou apenas me enganando, pois nada impede que venha a sexta bola da mesma cor. Não há como ser mais esperto que o próprio sistema.

Me perdoem pela digressão acima, mas tal analogia me pareceu cabível como um resumo do que é assistir Joias Brutas. O personagem vivido por Sandler possui tanta convicção que está contornando a situação que chegamos a nos iludir, junto com ele, conforme a progressão da trama. O pior ainda é que o roteiro escrito pelos próprios Safdies e por Ronald Bronstein nos manipula justamente porque cede pequenas vitórias momentâneas, apenas para trazer uma catástrofe maior no segundo seguinte. Chega a ser curioso que no meio da história, Howard receba uma ligação positiva do seu médico sobre o resultado da colonoscopia que ele havia realizado no início do filme. Ele fica genuinamente aliviado por alguns segundos, mas não consegue nem assimilar este momento, porque está discutindo no meio de seu escritório.

Aliás, nessa lógica de um protagonista que está constantemente precisando se provar, a escolha de Adam Sandler acaba sendo a melhor possível. Com exceção de Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson, o ator parecia ter entrado em uma zona de conforto nesta década em papéis cômicos voltados para um nicho muito específico de público. Desta vez, assim como o próprio Howard, Joias Brutas soa como uma grande prova para Sandler mostrar seu valor e que, no fundo, o declínio de sua carreira teve muito mais a ver com escolhas erradas do que sua capacidade como ator. Há um misto de sofrimento e de energia que vai se adaptando muito bem para cada situação que o personagem se encontra, acompanhando a bipolaridade de picos do longa. 

Por fim, em Joias Brutas, os Safdies fogem do submundo dos junkies, das drogas e dos rejeitados de seus filmes anteriores, mas, no fundo, eles apenas estão mostrando o outro lado da mesma moeda. Agora, eles vão para uma Nova York dos leilões, dos empresários, rappers e apostas para abordar o mesmo tema: o vício. E, pobre ou rico, o vício é a ruína do homem. Algo que os diretores parecem entender melhor do que ninguém no cinema norte-americano moderno. 

Joias Brutas (Uncut Gems) – USA, 2019
Direção: Josh Safdie e Benny Safdie
Roteiro: Josh Safdie, Benny Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Adam Sandler, Julia Fox, Lakeith Stanfield, Idina Menzel, Kevin Garnett, Judd Hirsch, The Weeknd, Tilda Swinton, John Amos, Trinidad James, Eric Bogosian, Marcia DeBonis, Pom Klementieff,  Natasha Lyonne
Duração: 135 min.

Crítica | Sombra Lunar

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É triste reconhecer que Sombra Lunar tinha tudo para ser um ótimo filme, mas que se destrói pela necessidade de abranger um público que o roteiro e a ideia  inicial não planejavam atingir. As primeiras cenas, por exemplo, não conversam com o decorrer da trama, que é repleto de um drama familiar desnecessário. Além disso, a película é mais uma que serve como exemplo para obras que utilizam viagem no tempo em sua narrativa: mesmo que cuidadosamente pensada, vai terminar com inúmeros furos e questões não respondidas. Sombra Lunar conta a história de Locke (Boyd Holbrook), um policial da Filadélfia que investiga um caso de serial killer com o investigador Holt (Michael C. Hall). No entanto, o caso ganha novas repercussões quando Locke passa a associar a investigação a uma garota que consegue viajar no tempo a cada nove anos.

Eu não entendo como um projeto que mostra um cérebro fritando em uma chapa de hambúrguer nos primeiros minutos logo se torna um drama familiar com conceitos clichês. É nítido que Sombra Lunar ainda tenta resgatar o elemento fúnebre da abertura durante a trama, porém depois que a dramaticidade é incluída, esse elemento fica escondido. São inúmeras as cenas de ação (que, porventura, são mal filmadas) seguidas de sequências do protagonista precisando lidar com a filha pequena. Não satisfeitos, os roteiristas introduzem uma relação familiar do investigador com Locke que, além de ser mal explorado, não tinha qualquer motivo para estar lá. Essa relação só aumenta o efeito sentimental que a ideia inicial (policial com viagem no tempo) claramente não suporta. Isso não significa que o protagonista não deveria ter uma vida pessoal, com uma filha e uma esposa falecida abordadas. No entanto, bastava uma citação para que entendêssemos as motivações e a história dele. O problema, enfim, está no excesso de drama familiar em uma obra que tem seus pilares no gênero policial, na ação e no mistério. 

Esse artifício demonstra o interesse do filme em alcançar um público que não deveria estar incluso – no caso, o público juvenil. Se fosse só um drama familiar, seria um erro dos roteiristas e ponto. Porém, também é notório o clichê envolvido nos diálogos, puxando para um lado mais infantil. Esse clichê não é visto em qualquer diálogo das cenas de ação, por exemplo, ou ao menos lembrados. Considerando que as sequências fora dos laços familiares do protagonista são pesadas e voltadas a um público mais adulto, encontramos uma pergunta  no filme: afinal, quem deveria estar assistindo? Alguém que procura um suspense policial com cenas pesadas e um roteiro não tão óbvio se sentirá incomodado com as sequências dramáticas; ou outro que procura um drama familiar… bem, com certeza estaria assistindo o filme errado.

Isso tudo também é base para mostrar que o drama familiar, além de abaixar drasticamente a nota oferecida ao filme, não foi benéfico em nenhum aspecto da obra. Só descobrimos esse lado clichê da trama quando assistimos, não sendo citado no trailer ou na sinopse. Dessa forma, alguém que procura algo mais voltado para o sentimental, não encontrará interesse nenhum em Sombra Lunar. Então, qual a necessidade deste elemento estar presente?

SPOILERS

Mais uma vez a viagem no tempo ocasiona inúmeros furos que, para serem refutados, seria necessário construir uma narrativa totalmente diferente – e isso não seria benéfico para ninguém. O arco da antagonista Rya (Cleopatra Coleman) deixa inúmeras questões que são vagamente respondidas, mas que qualquer reflexão nos deixa minimamente inquietos. Por exemplo, a própria antagonista diz que não é possível modificar a linha do tempo, ou seja, se ela morreu nas mãos de Locke em 1988 durante uma viagem no tempo, inevitavelmente isso deve se repetir. Então, como foi que a primeira pessoa viajou no tempo e mudou o futuro apocalíptico retratado na primeira cena do filme? Mais: se Locke é o principal responsável para que Rya se torne voluntária como viajante do tempo, e considerando que ele só se tornou físico especializado na área por causa dos acontecimentos com a garota em 1988, como Rya foi a primeira a viajar no tempo se na primeira vez que ela viajou Locke não era físico? Esses são dois exemplos de questões que a trama não responde. É claro que tem muitos outros.

Por outro lado, as cenas policiais são interessantes e a ousadia em envolver policial com viagem no tempo é inovador. É uma pena que esse recurso é desfocado pelo drama familiar excessivo e por inúmeras questões não respondidas (comuns em filmes do gênero). Deixo apenas um apelo talvez extremista: deixem de fazer filme com viagem no tempo. No geral, não funciona como deveria.

Sombra Lunar (In the Shadow of the Moon) – EUA, 2019
Direção: Jim Mikcle
Roteiro: Gregory Weidman, Geoffrey Tock
Elenco: Boyd Holbrook, Cleopatra Coleman, Bokeem Woodbine, Michael C. Hall, Rudi Dharmalingam, Al Maini, Quincy Kirkwood, Sarah Dugdale, Rachel Keller, Ryan Allen, Tony Nappo, Philippa Domville, Tony Craig, Gabrielle Gaham, Julia Knope
Duração: 115 min.