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Crítica | Cicatrizes (2019)

A realidade de famílias com casos de crianças desaparecidas é realmente dramática. O tempo de espera, a investigação, a busca pessoal, os inúmeros sentimentos envolvidos e a forma como a vida se organiza a partir da tragédia, quando nem a criança nem o corpo são encontrados, deixam claras as feridas que esse tipo de situação causa em todos os envolvidos. Em Cicatrizes (2019), o diretor Miroslav Terzic se debruça sobre esse tema, mas não de um modo unicamente realista ou quase documental, como vemos em muitas obras do gênero.

SPOILERS!

Escrito por Elma Tataragic, Cicatrizes tem como base uma realidade presente na vida de muitas famílias sérvias, que é a de crianças desaparecidas ainda muito novas, muitas delas ainda na maternidade. Em ditaduras como as do Chile e da Espanha existem centenas relatos bem conhecidos a esse respeito, de bebês que eram reportados para os pais como se estivessem nascido mortos, mas na verdade eram sequestrados e dados ou vendidos para outras famílias. Neste filme sérvio, o roteiro também aborda essa realidade, centrando a história na cidade de Belgrado e numa mistura de suspense e melodrama, fazendo-nos acompanhar a vida de Ana e sua busca, há 18 anos, por um filho morto no nascimento e cujo corpo o hospital numa mostrou.

A atriz Snezana Bogdanovic é quem carrega a linha dramática da obra, fazendo um trabalho primoroso na maneira como esconde ou, na maioria das vezes, controla seus mais intensos sentimentos. O filme é basicamente o seu ponto de vista desesperançado, em uma cidade de cores sem graça e que parece estacionada no tempo, assim como muita coisa na vida dessa personagem, que escanteou a filha e infernizou a vida da polícia, da obstetra, dos funcionários do hospital e de sua própria família, com a ideia fixa de que o menino a que ela deu à luz não está morto. E se está, ela quer saber onde foi enterrado. Ou porque nunca foi mostrado o corpo para ela ou para o pai da criança.

O roteiro cria bem rapidamente a sensação de deslocamento de Ana em seu dia a dia. Infelizmente Tataragic não acerta no desenvolvimento da filha e deixa muito frouxa a linha de participação da irmã da protagonista, mas mesmo esses casos são pontos negativos menores, cujo incômodo é mais localizado e não consegue impregnar negativamente o filme, que é uma verdadeira experiência angustiante. Em dado momento, o espectador tem a impressão que o texto seguirá um caminho de intriga e teoria da conspiração; em outro, há leves nuances de realismo mágico, com personagens desaparecendo de cena; e em outros, tememos pela vida da mãe, que nosso julgamento se divide em classificar como neurótica ou alguém que está vendo a verdade onde a maioria não está.

A ausência de música na maior parte da obra serve para nos colocar mais solidamente na crua realidade dessa família, mesmo que elementos ficcionais façam parte da vida da protagonista. Muitas cenas com tomadas em becos escuros e cenários desertos também reforçam a ideia de isolamento em oposição à força policial e, ao que parece, bandidos contratados para fazer com que Ana pare de procurar pelo filho.

A parte final de Cicatrizes traz algo que para alguns espectadores pode parecer um problema de roteiro (o que não é) ou gerar conflitos de interpretação. Na minha leitura, a polícia conseguiu um documento forjado de adoção, algo que Ana sabia que não podia lutar contra. Em nenhum momento eu realmente achei que esse documento fosse verdade, mesmo que Ana não tenha desmentido para o Comissário, e isso pelo simples fato de que se fosse um caso de adoção, não fazia sentido nenhuma haver uma longa investigação aberta pela polícia, mudanças obviamente criminosas no registro da prefeitura para o nome dos pais do menino, a contratação de criminosos para amedrontar Ana ou a confirmação do marido e da irmã de que o filho de fato havia morrido, segundo informação do hospital. Se o menino tivesse sido entregue para adoção, esse conjunto de situações não seria possível.

E é esse aspecto do roteiro que torna a história ainda mais intrigante e com um final que pode trazer um sabor bem amargo para alguns espectadores. O fato é que há uma tentativa de comunicação entre mãe e filho neste fim, uma característica simples, mas muito bonita, que flerta novamente com algo meio fantasioso, vide o fato de o menino ter o mesmo TOC da mãe, arrumando a peça com os cavalos de porcelana na entrada da casa. Cicatrizes é um filme que exala a dor de uma realidade triste, vivida não apenas na Sérvia, mas que no presente caso ganha ares ficcionais ainda mais tenebrosos e com decisões do roteiro que, admito, podem afastar uma parte do público.

Cicatrizes (Savovi) — Sérvia, 2019
Direção: Miroslav Terzic
Roteiro: Elma Tataragic
Elenco: Snezana Bogdanovic, Marko Bacovic, Jovana Stojiljkovic, Vesna Trivalic, Dragana Varagic, Pavle Cemerikic, Igor Bencina, Radoje Cupic, Ksenija Marinkovic, Rade Markovic, Radoslav ‘Rale’ Milenkovic, Jelena Stupljanin, Bojan Zirovic
Duração: 105 min.

Crítica | O Farol (2019)

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Existem maneiras diferentes de conseguir uma profunda imersão do público naquilo que se está mostrando para ele, e um dos modos mais eficientes disso é fundamentar a imersão na forma e no conteúdo da obra. Em O Farol (2019), o diretor Robert Eggers (do amplamente discutido e por muitos amado A Bruxa) faz isso desde o momento em que a tela clareia e nos mostra uma razão de aspecto em 1.19:1, o quase-quadrado encontrado em inúmeros filmes dos anos 1920 e 30, com destaque para obras do Expressionismo Alemão, de onde o diretor empresta concepções visuais e a forma bastante estilizada de conceber a fotografia, assinada por Jarin Blaschke.

O tipo de lente escolhida e a maneira diferente de revelação do filme fazem com que a tonalidade do preto e banco, a impressão geral da época retratada e a composição dos quadros (com homenagens a uma boa quantidade de diretores clássicos, com mais evidências para Fritz Lang) impulsionem o primeiro papel de imersão que O Farol exige, fazendo com que o público sinta, desde os primeiros minutos, uma forte ameaça e a insistente presença — há ecos de O Corvo aqui — de um grande mal na ilha onde está o farol pelo qual Thomas Wake (Willem Dafoe) é responsável, agora em companhia de um zelador temporário, o belo e silencioso jovem Ephraim Winslow (Robert Pattinson). A claustrofobia, então, é o primeiro elemento de preparação para que os instintos primitivos desses indivíduos venham à tona.

Robert e Max Eggers não pouparam esforços para tornar o filme exagerado, sujo, aterrador, barulhento, chamando o máximo de atenção para a trajetória desses dois homens isolados em um espaço que pouco a pouco os enlouquece e, de maneira interessante, manipula também a visão do espectador sobre o que está acontecendo. Diferente de A Bruxa, que jogava com a quietude e fazia a trajetória da desgraça até a ascensão de uma mulher, aqui em O Farol temos a tempestade (literal e metaforicamente) como destaque e a trajetória da suja normalidade para a suja decadência física e mental de dois homens ou… de um estágio ou tipo de masculinidade. Com diálogos inspirados em documentos históricos (de onde veio a construção do dialeto dos homens do mar) e referências literárias para a ambientação na ilha, relação do indivíduo com o farol e vida em isolamento vindas de Herman Melville e Robert Louis Stevenson, o filme explora um tempo onde o mito é importante, igualmente sustentando a ameaça como algo atemporal.

Na passagem dos dias, a câmera investiga as mais simples atividades tornarem-se um martírio. É a partir daí que se evidencia a mudança dos isolados, um humilhando e outro humilhado, sendo esta a esteira de desenvolvimento do enredo e dos personagens, linha amparada visual e tematicamente pela obra de H.P. Lovecraft, que opunha a grandeza de grandes entidades e forças incontroláveis do céu, da terra e das águas à insignificância do homem, que ao menor contato com essas forças, entra em uma espiral de loucura. No filme, a mitologia se une às ações práticas e ao que a direção e o desenho de produção nos entrega: a subida e descida da longa escada do farol, o mistério da luz (diante da qual apenas o mais velho se vê no direito de estar, como uma espécie de fruto proibido), a história das gaivotas e mesclas de vida real com deidades — Netuno é citado e Proteu é simbolicamente relacionado ao homem mais velho — ou alterações inexplicáveis na passagem do tempo e perspectiva de quem faz o quê. Personagens e espectadores são colocados no meio desse jogo e compartilham um processo de loucura.

Quem guia isso de maneira absolutamente fascinante é a dupla protagonista. Dafoe é o guia: o homem mais velho que aparentemente domina tudo o que acontece nesse lugar. Ele tem muitas histórias para contar e uma forma nada simpática de tratar o novo zelador. Sua transformação é suave, com poucos momentos de explosão. Para ele, é como se estivesse revivendo algo, e o ator assume essa figura entre o conformismo pacífico e a carranca daquele que sabe muito mas é infame demais para compartilhar qualquer informação com qualquer pessoa, então segue explorando e, de certa forma, evitando ou provocando o mais jovem. Robert Pattinson, por sua vez, ganha um personagem mais difícil, porque precisa manter certa característica principal (a timidez, o silêncio) diante da insanidade que pouco a pouco o consome. E o que o ator faz com isso é um verdadeiro deleite para o espectador. Ele consegue passar perfeitamente nuances de maldade em olhares, em estilos de explosão emocional e, principalmente, na tomada de atitude em relação ao seu parceiro de isolamento.

O quê o farol representa, a esta altura, pouco importa, porque sempre estará atrelado a algo parcialmente abstrato, numa relação cheia de conflitos, toxidade, paranoia, desejos e violência, em atmosfera que chama à loucura. Aí está o intenso barulho do vento, das gaivotas e do mar cada vez mais revolto (grande trabalho de edição e mixagem de som aqui), o barulho da buzina e dos maquinários do farol e o contraste entre a intensa luz e a escuridão, tendo a assombrosa trilha sonora de Mark Korven como um fantasma destinado a tornar tudo ainda mais difícil. No processo, fluídos humanos, gases, gritos e violência física assumem o protagonismo e substituem os supostamente civilizados por suas versões primitivas. Ou, em outra análise, fazem com que a essência polida e supostamente domesticada de nossa espécie esteja livre para agir, agora não sob um arranjo social, mas justamente pela ausência deste. As causas da volta ao primitivo em O Farol são de ordem mística, não sociológica.

Se no final do filme temos problemas no uso de uma elipse que é uma armadilha (seria melhor que a cena seguinte não existisse, mas existindo, então que o momento diante da luz fluísse de modo que pudéssemos acompanhar a ida de Ephraim Winslow até a praia, onde cumpre uma espécie de punição à la Prometeu, “por ter roubado o fogo dos deuses“), ainda conserva-se o aspecto geral de horror e derrocada de alguém que ousou zombar e interferir no funcionamento de algo maior que ele mesmo. Por isso que a ideia geral de proteção e guia que simbolicamente atribuímos a um farol se corrompe nesse Universo. Ou melhor, é mostrada em uma outra camada de intenções, afinal, alguém iluminado, mesmo que não queira, pode atrair os mais variados horrores para o seu meio. E não é de hoje que sabemos que o mal também pode morar na luz.

O Farol (The Lighthouse) — EUA, Brasil, 2019
Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers, Max Eggers
Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson, Valeriia Karaman
Duração: 109 min.

Crítica | O Último Amor de Casanova

Casanova não é o tipo de personagem histórico que aceita qualquer base de enredo. Mesmo que o roteirista pense ou queira adaptar algo da vida e obra do homem, focando em sua velhice ou num pitoresco episódio de sua vida, a questão vai muito além de uma simples retratação do grande aventureiro com as mulheres que ele foi, dentre muitas outras cosias. Mas parece que Benoît Jacquot não pensa assim. E tanto sua direção quando seu roteiro escrito em parceria com Jérôme Beaujour e Chantal Thomas não conseguem nem capturar o espírito da época e do personagem, nem transmitir o que quer que tenham pensado neste terrível O Último Amor de Casanova (2019).

A obra se passa no final do século XVIII, com Casanova já velho, escrevendo e narrando uma de suas aventuras mais marcantes, a “última”, que vivera 30 anos antes, em Londres, onde se refugiou depois de ter sido exilado. E o primeiro grande problema do filme foi caracterizar o ator Vincent Lindon da pior maneira possível, numa espécie de anti-Casanova desde a escolha das perucas (uma pior e mais bagunçada que a outra) e da maquiagem também horrível — se bem que o diretor que fotografia resolveu escurecer tanto o filme e colocar tanto filtro desnecessário nas cenas, que a maquiagem acaba sendo um problema menor. Lindon também não é o tipo de homem lindão que se espera de um ator representando Casanova, mas isso não teria problema se sua caracterização fosse cheia de classe, garbo e bastante cuidado, mostrando ao menos em público um lado mais asseado do famoso escritor e aventureiro italiano. Só que esta está longe de ser a realidade aqui.

O público espera uma acomodação mais rápida do exilado em Londres e imagina que sua última aventura seja qualquer coisa, menos o produto de um melodrama que descaracteriza tudo o que conhecemos do personagem. E sim, estamos falando de uma ficção, logo, o diretor e os roteiristas poderiam fazer qualquer coisa aqui, desde que obedecessem a um princípio narrativo coerente. Se eu quero desconstruir uma figura qualquer da História (real ou fictícia), minha proposta geral deve girar em torno dessa desconstrução e não começar aludindo a absolutamente todo o escopo “mítico” que se tem diante de tal indivíduo, para depois fazê-lo se comportar como alguém completamente diferente. Falta coerência, falta foco no estabelecimento e desenvolvimento do romance e falta… Casanova.

Um dos setores com o qual não temos nenhum problema no decorrer da obra é a trilha sonora. O compositor Bruno Coulais (Coraline, O Diário de uma Camareira, versão de 2015) alterna bem o uso das peças para cravo com belíssimas (e bastante sombrias) linhas para orquestra. Através da música, a sensação de deslocamento e falta de rumo do personagem consegue ser passada de maneira clara, justamente pelo contraste no uso dos instrumentos, mas essa ambientação é algo que o roteiro não consegue acompanhar. O Último Amor de Casanova é uma história de amor que não funciona com personagens comuns e muito menos com o seu personagem-título. Os ótimos figurinos e a direção de arte são outros aspectos que ajudam a nos segurar um pouco mais na sessão, e a cena do baile tem uma estranha e ao mesmo tempo interessante dinâmica na direção de Jacquot. Todo o restante é uma confusão insossa coberta por uma calda de melodrama cuja missão principal parece ser irritar o público. A tirar pela qualidade do filme e aquilo que pretende retratar, não é espantoso que este tenha sido o último amor de um dos homens mais sedutores da História.

O Último Amor de Casanova (Dernier amour) — França, 2019
Direção: Benoît Jacquot
Roteiro: Benoît Jacquot, Jérôme Beaujour, Chantal Thomas (baseado na obra de Giacomo Casanova)
Elenco: Vincent Lindon, Stacy Martin, Valeria Golino, Julia Roy, Nancy Tate, Anna Cottis, Hayley Carmichael, Christian Erickson, Nathan Willcocks, Jesuthasan Antonythasan, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, Lionel Robert, Wolfgang Pissors, Catherine Bailey, David Tudor-Glover
Duração: 98 min.