Mohammad Bakri

Crítica | Homeland – 8X09: In Full Flight

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Já começa a ficar constrangedor ver Jenna ser enganada por Carrie. Sim, eu morri de rir com a protagonista engrupindo a agente da CIA mais uma vez (alguém está contando?) para que ela revelasse o esconderijo dos soldados que a estavam caçando, mas confesso que meu lado de crítico chato já começa a ficar cansado do expediente e, mais ainda, de tornar minha suspensão da descrença ainda mais elástica para acomodar uma personagem tão facilmente manipulável como Jenna. Sei que é um detalhe no episódio, mas o fato é que ele ficou muito saliente como um momento importante dentro do roteiro escrito pelos próprios showrunners.

Seja como for, o foco de In Full Flight foi a desesperada procura de Carrie pela caixa preta do Chalk Two, helicóptero onde estavam os presidentes americano e afegão, em Kohat, vilarejo paquistanês que nada mais é do que um enorme bazar onde se vende todo tipo de equipamento bélico imaginável. Com a ajuda do prestativo Yevgeny, Carrie, que faz jogo duplo o tempo todo, revelando apenas o que é estritamente necessário para que ela cumpra sua missão, acaba encontrando o tão cobiçado aparelho em uma sequência que dependeu demais de coincidência para meu gosto. Afinal, considerando a quantidade de lugares possíveis para ela encontrar a sacola de Max, Carrie esbarra nela praticamente na primeira loja em que entra, passeando por filas de prateleiras repletas dos mais variados artigos como se estivesse em um supermercado bem abastecido pré-Coronavírus.

Apesar de essa ação em Kohat ter sido bem conduzida em termos de tensão, com a direção de Dan Attias trafegando bem entre câmera tremida para dar a impressão de documentário e tomadas mais gerais, com cortes paralelos para a perseguição monitorada pela CIA em Cabul, o peso da conveniência narrativa é grande. Deveria ter sido muito mais difícil e perigoso para Carrie encontrar a caixa preta naquele mafuá repleto de figuras ameaçadoras e não algo reputado à pura sorte (ok, não foi exatamente apenas sorte, mas vocês entenderam). Compreendo a necessidade de correr com a narrativa, já que a série está em sua reta final, mas fica evidente que sacrificaram realismo em prol da economia de alguns minutos.

Por outro lado, foi alvissareiro notar que o já mencionado jogo duplo de Carrie teve como resposta a revelação do jogo duplo de Yevgeny que finalmente revela suas garras (apesar de mostrar afeição que reputo genuína pela ex-agente da CIA), aproveitando-se da oportunidade para levar embora a caixa preta com objetivo ainda incerto, mas que certamente tem relação com a proximidade russa com os talibãs e/ou Paquistão e/ou Afeganistão, dependendo do interesse em fazer a vindoura guerra parar, ao revés, concretizá-la. Presumo que muito dos três episódios finais serão dedicados à caçada de Yevgeny e ao conteúdo da caixa, agora que Carrie e nós agora sabemos que tudo não passou de um acidente, algo que pode mudar a política agressiva do presidente marionete americano, ainda que eu tenha poucas esperanças de que essa informação chegará a tempo ou, se chegar, não será descartada como desinformação.

Falando no presidente americano, está aí um personagem que dá vontade de pular na tela para esmurrar. Que sujeito mais sem personalidade! E isso quer dizer, claro, que esse lado da macro-política está funcionando muito bem, com uma ótima atuação de Sam Trammell, especialmente no meio do fogo cruzado entre os personagens de John Zabel e Saul Berenson, com um David Wellington murchinho e completamente desesperançoso em seu canto. Continuo um pouco desapontado com a forma como Zabel entrou na série, como tive a oportunidade de abordar na crítica do episódio anterior, mas sua presença tem valido a pena nem que seja para nos deixar fumegando de raiva.

Aliás, irritante também é a postura “sou o maioral” de Jalal Haqqani, aproveitando-se da execução do pai para arvorar-se como assassino de presidentes e reunindo um exército de talibãs grande o suficiente para assustar até mesmo a fria e pragmática Tasneem Qureishi. A panela de pressão está prestes a explodir e tudo andou tão rápido que isso acaba só reforçando minha conclusão de que a informação da caixa preta, se um dia vier à luz do dia, não terá força para impedir a detonação.

Apesar de In Full Flight ter sido o episódio mais fraco da temporada até agora em razão de suas conveniências narrativas, isso não quer dizer muita coisa, pois o nível do que vem sendo apresentado é altíssimo. Foi apenas um rápido soluço que, espero, a trinca final de episódios mais do que compensará.

Homeland – 8X09: In Full Flight (EUA, 05 de abril de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Dan Attias
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 47 min.

Crítica | Homeland – 8X08: Threnody(s)

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Uma trenodia é uma ode, poema ou composição triste e/ou fúnebre e o 8º episódio da última temporada de Homeland entrega justamente o que promete no título, inclusive com a pluralização da palavra. Chegam ao fim, aqui, não só Haissam Haqqani e, junto com ele, a esperança de paz Oriente Médio, como também o silencioso, tímido, mas corajoso Max Piotrowski, especialista em escuta eletrônica que era o último personagem clássico da série fora Carry e Saul.

O roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, dupla imbatível na escrita da série, novamente entrega um texto afiado, repleto de tensão e angústia que, se não chega a nos dar exatamente esperança especialmente sobre o fim de Max, certamente valoriza muito os acontecimentos, pintando um quadro sombrio para o futuro tanto da protagonista, como da série como um todo. Tornando as mortes interdependentes, os roteiristas deixam claro de início que nada acabará bem e o pior acontece na reunião da sede de sangue e de vingança de G’ulom com a covardia e a falta de personalidade de Hayes, em demonstrações do que de pior o ser humano é capaz.

Toda o nervosismo que o episódio cultiva vem das desesperadas tentativas de David Wellington de ganhar a queda de braço contra John Zabel (Hugh Dancy, marido de Claire Danes) sobre quem tem mais o ouvido do influenciável presidente americano, com o segundo, extremamente belicista, daqueles que acham que tudo se resolve com bomba, tiro e porrada, levando os EUA à proximidade de mais uma guerra, desta vez tendo o Paquistão como alvo. Particularmente, a entrada de Zabel na série, que aconteceu ao final de F**ker Shot Me, e sua alçada a personagem-chave quase que instantaneamente aqui em Threnody(s) incomodou-me muito, por ele ser personagem novo, sem contexto, que deveria ter sido apresentado bem mais cedo na temporada de forma que ele funcionasse melhor aqui. Entendo perfeitamente a necessidade de um personagem assim, para contrabalançar o bom-mocismo de David que realmente parece querer fazer o melhor diante das circunstâncias, mas é justamente por ser evidente essa necessidade que essa peça deveria ter sido usada antes, mesmo que de maneira tangencial.

A grande verdade, porém, é que a história sobrevive a esse “intruso” graças à qualidade do trabalho da dupla de roteiristas e também de Michael Klick na direção que orquestra uma montagem paralela extremamente eficiente que contrapõe os dramas de Haqqani, sempre em planos americanos ou close-ups, e de Max, sempre visto à distância, em planos gerais. Sabemos que não há saída para nenhum dos dois, ganhamos momentos de respiro quando a prisão de Max segura a execução de Haqqani por um tempo, somente para tudo desmoronar em seguida. E, como se isso não bastasse, a reunião dos talibãs sob as mentiras engendradas por Jalal Haqqani é como sal da ferida, tornando toda a situação próxima de uma bomba prestes a explodir.

Mas toda essa desgraça funciona, na verdade, como degraus de uma escada para os torturantes momentos finais de Carrie, que espera o resgate do corpo de Max chorando sobre ele e expiando seus pecados para Yevgeny. A presença de Saul é um bálsamo, pois, com ele ali, tudo correrá bem, ainda que mesmo ali saibamos que as coisas não são tão simples assim. As dúvidas sobre a idoneidade de Carrie depois de seus sete meses presa na Rússia e de seus recentes contatos com Yevgeny precisavam cair sobre ela como uma guilhotina e é exatamente isso que aqueles segundos próximos ao helicóptero em que os soldados querem algemá-la significam. Mesmo que Saul não tivesse mesmo ideia do que estava prestes a acontecer, o mundo de Carrie termina de desabar ali, sem nenhum amigo seu vivo e o único que ela considerava aliado mostrando-se no mínimo impotente. Para o manipulador Yevgeny ser a última esperança de achar a caixa preta do helicóptero dos presidentes, quer dizer que, possivelmente, a agora novamente ex-agente da CIA chegou a seu outro fundo do poço.

A essa altura do campeonato, mesmo com a súplica de Haqqani para que Saul continue o caminho da paz, já não consigo vislumbrar qualquer final próximo do feliz. Não que eu esperasse isso, claro, mas, antes, eu conseguia ver raios de luz no meio da escuridão total e, agora, não mais. Um presidente fraco sendo manipulado por um conselheiro abertamente pró-guerra; a morte de um líder sendo utilizada como mecanismo para recrudescer sentimentos de vingança; uma quase declaração de guerra e uma agente da CIA desertando seu posto e bandeando-se para o lado de alguém cujas intenções estão longe de ser claras. O mundo de Homeland – talvez assim como o nosso – está em frangalhos e reconstruí-lo é um sonho longínquo. Melhor mesmo já irmos nos preparando para mais trenodias…

Homeland – 8X08: Threnody(s) (EUA, 29 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Klick
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 48 min.

Crítica | Homeland – 8X07: F**ker Shot Me

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Na crítica anterior, mencionei que fiquei preocupado que o restante da temporada seria uma busca ao Max e à caixa preta por Carrie, agora fugitiva. F**ker Shot Me é exatamente isso, mas nem de longe há indicação de que os próximos episódios ficarão girando em torno desse assunto. E, mais do que isso, devo dizer que, se o episódio sob análise é o sinal do tipo de abordagem para a caçada, então não tenho do que reclamar se todo o restante for nessa mesma direção.

O mais interessante de tudo até agora é o grau de mistério que os showrunners estão conseguindo imprimir na temporada. Não sabemos exatamente o que Carrie passou durante seu cativeiro na Rússia e se ela está sendo de alguma forma manipulada; não sabemos qual é a exata relação dela com Yevgeny ou mesmo as verdadeiras intenções do espião russo; não temos ideia mais concreta sobre o que aconteceu com o helicóptero dos presidentes e, se houve algum atentado, não há pistas de quem exatamente passou as informações (Carrie seria a escolha mais ousada, mas há outras opções, como até mesmo David Wellington, o assessor do presidente americano). Portanto, estamos já no sétimo episódio e Howard Gordon e Alex Gansa estão nos fazendo caminhar quase que completamente no escuro, mas, ao mesmo tempo, sem parecer que a temporada está emperrada por causa disso.

E isso resulta em tensão, ansiedade e, claro, uma excelente maneira de se contar uma história. Afinal, com F**ker Shot Me, basicamente lida com Carrie e Yevgeny correndo atrás de Max, com direito a um tour pela 4ª temporada da série quando a agente da CIA mandou bombardear um vilarejo com o objetivo de assassinar Haissam Haqqani. Coincidência ou um ato sacana de Yevgeny, nunca saberemos, mas tenho para mim que o russo não é flor que se cheire e mesmo parecendo sincero com Carrie, não consigo acreditar em uma palavra que sai da boca dele.

Claro que a localização de Max pareceu um pouco fácil  demais e isso eu reputo a uma conveniência proposital de roteiro, somente para conectar Carrie com ele de forma que ele passasse informações sobre o paradeiro da caixa preta, o que pode significar que o último personagem coadjuvante da série pode não ter lá um final feliz… Seja como for, a conexão dessa história com Jalal Haqqani, também razoavelmente conveniente, cria um bom movimento circular dentro da própria temporada e recoloca o filho do líder dos talibãs dentro da narrativa, talvez apontando – apenas especulação! – para sua participação na morte do presidente Warner.

Falando na presidência americana, a conexão do novo e inexperiente presidente Benjamin Hayes com o manipulador presidente G’ulom é mais um elemento que gera temor e ansiedade dentro da temporada, além de, claro, pois isso não fica apenas nas entrelinhas, a óbvia e devida conexão com o mundo real, com resultados que conhecemos. Ou seja, o lado político macro da temporada tem peso e vem ganhando cada vez mais relevo, levando Saul Berenson a maquinar de maneira independente para frustrar os planos da dupla de novos presidentes, ainda que, pelo menos até aqui, sem muito sucesso, só para usar um eufemismo.

Se a morte de Haqqani efetivamente acontecer agora, muito do que a série pode abordar – já que duvido que uma nova guerra no Afeganistão e/ou Paquistão está dentro do orçamento (e esse caminho potencialmente retiraria o foco da protagonista) – será esvaziado, pelo que espero que ele continue vivo por mais alguns episódios. Como isso acontecerá diante daquele julgamento “justíssimo” por que ele passou, não faço a menor ideia, mas essa é mais uma maneira que a série joga com a tensão, algo que os melhores roteiristas de Homeland e que estão presentes nesse episódio e, ainda bem, quase nesta última temporada inteira – Patrick Harbinson e Chip Johannessen – trabalham com absoluta maestria.

F**ker Shot Me pode até ser considerado como um pouco “magro” de história, mas o que ele coloca em tela é essencial para o futuro da temporada e mantém a narrativa bipartida – mas não desconectada – entre o aspecto micro envolvendo Carrie e o macro envolvendo a presidência americana. Jogando com suspense, tensão e mantendo o espectador completamente envolto em mistérios, a série entrega mais um grande exemplar da televisão moderno.

Homeland – 8X07: F**ker Shot Me (EUA, 22 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 55 min.

Crítica | Homeland – 8X06: Two Minutes

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Não sei quantas vezes, em apenas seis episódios, Carrie engrupiu Jenna de todas as formas possíveis a ponto de eu não saber exatamente se eu fico com pena ou com raiva da agente mais incompetente da CIA. Bastou dar uma missão para a sujeita que é garantia que ela não será cumprida.

Por outro lado, Two Minutes, episódio que marca a metade da temporada final de Homeland, cumpre sua missão de fazer a transição entre a complexa armação de tabuleiro que culminou com a morte do presidente Warner e a captura de Max que, por sua vez, carrega a caixa preta do helicóptero e o que está por vir. É muito interessante ver a amplificação da conexão de Carrie com Yevgeny Gromov, até porque eu tinha receio que a jogo de sombras em cima da lealdade da agente bipolar, tema principal da temporada que retorna à base da Trilogia Brody, fosse abafado. Muito ao contrário, o episódio recrudesce esse aspecto, mais uma vez colocando Carrie na mira de Mike e Jenna e, pior ainda, do próprio Saul Berenson, que se sente traído.

A tensa sequência que batiza o episódio é simples, mas muito bem construída, ao mesmo tempo mantendo-nos no escuro sobre as intenções de Yevgeny e sobre a possível manipulação de Carrie por ele, culminando na mais do que esperada segunda fuga dela que, obviamente, não tinha a menor chance de entrar no avião (vai ser muito divertido quando Jenna descobrir que mais uma vez foi ludibriada…). Gosto muito também da forma como Costa Ronin e Claire Danes conseguem formar uma dupla hesitante que esbanja química e conexão em tela, ele com aquele jeito cínico, mas estranhamente sincero que marca Yevgeny e ela com a fúria cheia de hesitação que marca Carrie.

Do outro lado do oceano, o facilmente manipulável presidente Benjamin Hayes – algo que já havia ficado bem claro na relação dele com David Wellington logo depois da morte de Warner – tem um momento daqueles que realmente deu vontade enfiar a cabeça em algum buraco de tanta vergonha alheia quando ele cai no papinho do espertíssimo presidente afegão Abdul Qadir G’ulom (pouco falei de Mohammad Bakri, mas ele está sensacionalmente vilanesco aqui – poderia ser fácil um baita inimigo de James Bond!) para desespero completo de seu chefe de gabinete e de Saul Berenson. Tudo está armado para que a tão almejada paz termine de ruir com uma provável maior presença militar americana no Afeganistão, tudo que G’ulom sempre quis.

Meu único receio, porém, é que a segunda metade da temporada cozinhe essa escalação da guerra em fogo baixo de forma que muito lentamente os episódios sejam ocupados com tudo o que for necessário para que o resgate de Max e a busca pela caixa preta aconteçam, com uma revelação canhestra de que, como Carrie desconfia, o helicóptero do presidente Warner não foi derrubado e sim caiu em razão de um problema mecânico, absolvendo o talibã e colocando a opinião pública contra G’ulom e Hayes ainda a tempo de um final, digamos, mais esperançoso. Mas isso é só algo que me passou pela cabeça enquanto os créditos finais do episódio rolavam, já que, mesmo quando Homeland erra – ou seja, na 4ª temporada – a não série não deixa de ser desafiadora e jamais subestima o espectador. Howard Gordon e Alex Gansa, aliás, tiveram um bom tempo para imaginar um fim digno a esses oito anos de aventuras de Carrie para eles seguirem esse caminho tão pouco imaginativo.

Portanto, ainda que a busca pela caixa preta certamente tenha sua importância, as maquinações políticas americanas, afegãs, paquistanesas e do talibã precisam estar competindo pela atenção do espectador, ali muito perto do já mencionado tema central – e bem pessoal – da temporada. Com Carrie agindo completamente fora da lei e, ainda por cima, em conluio com um espião russo, Homeland tem tudo para ter seis explosivos episódios pela frente, com ótimas chances de Jenna ser enganada mais uma meia dúzia de vezes para tornar tudo ainda melhor.

Homeland – 8X06: Two Minutes (EUA, 15 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Tucker Gates
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 55 min.

Crítica | Homeland – 8X05: Chalk Two Down

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Encerrando a “dobradinha” de episódios que lida com a visita do presidente americano à Cabul para anunciar a paz com o Talibã, Chalk Two Down não perde tem em revelar o pior: Warner não sobreviveu à queda da aeronave. Obviamente que, com isso, desmoronam as conversas e tudo aquilo que Saul Berenson construiu ao longo dos anos.

E o mais interessante é notar que não estamos nem mesmo na metade da temporada final de Homeland. Há muito ainda por vir e, por mais que muito já tenha ocorrido, fica aquela sensação boa de que tudo o que vimos até agora foi uma complexa armação de um tabuleiro para o mergulho efetivo na história. O que acontecerá, já não faço mais apostas. Tinha certeza de que Warner sobreviveria e que a procura pelo presidente ocuparia uma parte substancial da segunda metade da temporada, mas, com ele morto, o jogo muda completamente, com o inseguro vice-presidente Benjamin Hayes recebendo as chaves do reino e não sabendo o que fazer com elas.

Se o futuro parece ser imprevisível, o episódio em si foi, assim como Chalk One Up, um primor de tensão em três frentes. A mais direta é o batalhão de soldados americanos, aí incluindo Max, correndo para o local do acidente para determinar o destino do presidente. A ação é simples, mas muito eficiente na forma como a batalha contra os talibãs vai acontecendo, com uma progressão lenta que leva a uma guerra franca. Muita gente pode virar o nariz para o aparentemente mínimo contingente acompanhando o helicóptero do presidente, mas não só isso faz parte da história sendo contada – se ele fosse acompanhado de mais helicópteros haveria uma guerra completa ali e não era esse o objetivo – como pode ser explicado (ou aceito, ainda que com uma certa dificuldade), pela natureza inicialmente secreta da própria presença de Warner ali.

Além disso, no segundo fronte narrativo, no QG da CIA em Cabul em comunicação com a Casa Branca, vemos a completa confusão mental em que todos se encontram, talvez com exceção de David Wellington, que se mantém frio o tempo todo. Digo isso pois a decisão (ao meu ver acertada) de bombardear o local para evitar que o corpo do presidente fosse capturado pelos talibãs não só revela a insegurança do vice-presidente, como também deixa Saul incapaz de se mexer, de efetivamente raciocinar. Cabe à Carrie, mantendo a cabeça fria, pedir para que Max recupere a caixa preta do helicóptero para que as circunstâncias ao redor do acidente possam ser esclarecidas, o que leva, por sua vez, à amplificação da tensão nas sequências dos soldados tentando sair do local e deixando o especialista literalmente sozinho ao final.

O terceiro fronte é a própria Carrie em sua investigação corrida sobre o que aconteceu que a leva a desconfiar de um técnico militar que haveria trocado o helicóptero do presidente. Novamente, o roteiro joga de maneira inesperada, alimentando-nos com uma linha narrativa padrão – um traidor americano! – que logo revelar ser outra coisa completamente diferente que leva à conclusão, ainda não confirmada, de que a queda do helicóptero talvez tenha sido isso mesmo, apenas uma queda, um acidente comum. Seja qual for a verdade, a questão é que, agora, G’ulom, o vice-presidente afegão que se torna o presidente, manipula os acontecimentos para esquentar sua luta contra Haissam Haqqani, afastando ainda mais as chances de paz.

Tudo acontece muito rapidamente no episódio, que tem uma montagem extremamente eficiente, quase frenética, que mantém o espectador tão desnorteado quanto os personagens que vemos na telinha. Há até mesmo um uso mais presente de câmera na mão para amplificar essa sensação ruim de que ninguém sabe de verdade o que está fazendo e que nos coloca mais diretamente no meio da pancadaria seja como mais um soldado tendo que se defender dos talibãs ou mais um analista vendo boquiaberto os eventos se desenrolarem.

Depois de dois episódios que mudam o jogo completamente, os showrunners Howard Gordon e Alex Gansa têm a missão de rearrumar o tabuleiro narrativo no próximo episódio, que marca a metade da temporada, para que, então, a história possa progredir em uma direção que é difícil de prever dado os acontecimentos. O importante é que o papel de Carrie não se perca em meio as acontecimentos macro, voltando para a fascinante linha narrativa sobre seu cativeiro na Rússia que a transforma em uma nova versão de Brody.

Homeland – 8X05: Chalk Two Down (EUA, 08 de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Alex Graves
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 47 min.

Crítica | Homeland – 8X04: Chalk One Up

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Tenho a mais absoluta certeza de que muita gente desdenhará de Chalk One Up por ele ser completamente previsível. Afinal, era mais do que óbvio que, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa muita errada aconteceria com o processo de paz capitaneado por Saul Berenson e que a viagem do presidente Warner para o Afeganistão para anunciar a paz não em Cabul, não no QG da CIA, mas sim no posto avançado americano no meio do nada com coisa nenhuma era a oportunidade perfeita para que essa “alguma coisa” acontecesse. Não havia a mais remota possibilidade de o helicóptero de Warner não ser abatido, especialmente depois que Max, compadecendo-se pelos jovens soldados do batalhão que o adotou como amuleto da sorte, decide não embarcar na aeronave.

Mesmo que eu compreenda o desdém, aproveitarei a oportunidade que esse episódio me dá para reiterar algo que repito há anos aqui no site: previsibilidade, na grande maioria das vezes, não é algo negativo, como muitos tendem a concluir, mas sim positivo, pois significa que a lógica interna daquele filme ou série vem sendo obedecida. Acho absolutamente sem sentido obras que fazem das tripas coração para nos apresentar a reviravoltas tiradas magicamente da cartola e que estão tão divorciadas da trama que parece que elas foram criadas antes e a partir dela a história foi escrita e não o contrário. Um resultado previsível mostra que o roteiro – ou os roteiros, no caso de uma série – trouxe elementos suficientes para tornar aquele resultado o único ou pelo menos um dos únicos possíveis. E é exatamente esse o caso de Chalk One Up.

Pensem aqui comigo: alguém realmente acreditava que o processo de paz no Oriente Médio aconteceria em um estalar de dedos, isso se realmente fosse acontecer na série? Se você realmente achava isso, então é porque talvez ainda acredite em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa (desculpe se mandei spoilers agora…). Homeland nunca jogou da maneira mais segura e nunca subestimou o espectador e não havia razão para começar agora tratando justamente essa questão altamente complexa sob todos os pontos de vista como algo trivial. Seria o equivalente a descobrirem uma pílula mágica para curar a bipolaridade de Carrie Matheson de forma que tudo acabasse bem na série. Portanto, algo grande precisava acontecer e, quando a própria Carrie sugere a vinda do presidente para Cabul, sua morte/sequestro/desaparecimento era o que simplesmente tinha que acontecer.

Portanto, imprevisibilidade não deveria ser algo almejado, mas sim temido. O que é realmente importante detectar é se todos os caminhos realmente “levam a Roma” e se a execução da “manobra” foi eficiente e tenho para mim que Chalk One Up acertou nos dois quesitos. A convergência narrativa é mais do que clara pelos pontos que mencionei acima, pelo que resta abordar a forma como tudo acontece e que é a verdadeira cereja nesse bolo que foi o roteiro  de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, uma das duplas de roteiristas mais tradicionais na série. E a simplicidade foi a chave de tudo. com o capítulo inteiro girando em torno do discurso do presidente Warner perante o surpreso pelotão no meio do deserto, com direito a transmissão para o mundo todo. Com apenas esse artifício, os roteiristas foram capazes de criar um momento terno de agradecimento genuíno a Carrie por todo o seu sacrifício na Rússia, colocar os jogadores inimigos e amigos do Oriente Médio em uma mesma sala e, de quebra, tornar o conflito político entre Warner e seu vice-presidente ainda mais saliente.

Além disso, simultaneamente aos eventos envolvendo Warner, que estão na esfera macro, o roteiro também preocupou-se em paralelizar essa ação com a esfera micro, mais especificamente a quase-sequestro de Samira por seu cunhado, para levá-la de volta a seu vilarejo e forçá-la a casar com ele. A tensão das sequências – Warner fazendo seu discurso, tudo dando certo, enquanto Samira era cada vez mais soterrada pela insistência e violência da “tradição muçulmana” – criou um conjunto narrativo belíssimo, mantendo a ação propriamente dita em um nível bem discreto, com apenas um helicóptero sendo alvejado em câmera e Carrie apenas apontando uma arma para os sequestradores. De certa forma, é um recado a nós: a paz não só não vem, como os costumes religiosos arraigados não serão largados facilmente. Mudar até pode ser possível, mas o preço é terrível e pode ser que não se queira pagar o preço.

Particularmente não gostei do artifício do “desaparecimento” inicial do helicóptero do presidente, pois pareceu apenas um truque narrativo barato, mas sou forçado a concluir que a direção de Seith Mann triunfa no paralelismo das duas sequências principais e na forma lenta como ele as conduz, esticando ao máximo o tempo para, de um lado, nos dar uma nesga de esperança de que nada acontecerá a Warner e, de outro, para nos fazer concluir que Samira não tem salvação. Claro que o resultado é justamente o oposto – novamente previsível, mas com execução magistral – e é evidente que, agora, o jogo mudou completamente. Mas temos que lembrar que acabamos de acabar apenas o terço inicial da temporada final e há muito terreno ainda para ser coberto, com o pelotão de Max provavelmente sendo eleito para resgatar Warner (se ele vivo estiver, mas acho que está) e provavelmente tendo que enfrentar Jalal e seus seguidores enquanto Carrie e Saul quebram a cabeça para tentar entender o que exatamente aconteceu e como Yevgeny Gromov entra nessa equação, porque sim, não tenho dúvidas de que ele está envolvido no que aconteceu.

Se Chalk One Up é previsível? Com certeza! E que venham mais magníficas previsibilidades como essa!

Homeland – 8X04: Chalk One Up (EUA, 1º de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Seith Mann
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 47 min.

Crítica | Homeland – 8X03: False Friends

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Sob qualquer ponto de vista, False Friends era um episódio difícil de se executar. O sequestro de Saul por Haqqani ao final do episódio anterior foi uma inevitável – e lógica – repetição temática dentro da série, mas que simplesmente não poderia receber o tratamento anterior, nem mesmo algo que se protraísse demais no tempo. Por outro lado, correr para solucionar a questão poderia ser um tiro no pé.

Então, para segurar o pepino, os showrunners arregaçaram as mangas e trataram de escrever esse roteiro, fazendo o melhor possível para circunavegar o óbvio problema apontado acima. O resultado não foi perfeito, mas tenho para mim que não havia solução perfeita para a sinuca de bico em que eles mesmo se colocaram e, no final das contas, o que chegou às telinhas foi o que podia ser feito, o que, em Homeland, não é nem de longe sinal de algo medíocre ou trivial.

A equação para solucionar esse problema teve como objetivo dar corpo ao drama não de Saul, mas sim de Haqqani, colocando seu único filho como traidor ou, mais precisamente, como marionete nas mãos maquiavélicas de Tasneem Qureshi. Com isso, a resolução aparentemente rápida para a prisão de Saul é “trocada” pela forma como Haqqani é forçado a lidar com toda a situação, humanizando ainda mais o personagem que faz de tudo para não executar Jalal (Elham Ehsas), mesmo que isso signifique mantê-lo como seu inimigo e, pior ainda, enfraquecer-se perante seus comandados.

Além disso, Alex Gansa e Howard Gordon aproveitam a oportunidade para transferir a ação brevemente para o outro lado do oceano e mostrar o presidente Ralph Warner (Beau Bridges) pela primeira vez na temporada e introduzir, por intermédio do aconselhamento de David Wellington (Linus Roache também de volta ao seu papel), um problema interno que Warner está prestes a enfrentar: a fome política do vice-presidente Benjamin Hayes (Sam Trammell). São cenas curtas carregadas de texto expositivo para acelerar a compreensão imediata (o que é bom ao mesmo tempo que é ruim, se é que vocês me entendem), mas que emprestam um outro panorama à temporada, reiterando que a luta pela paz não é nem de longe apenas algo puro (ainda que eu ache que, para os fins da série, Saul e Haqqani verdadeiramente acreditem nessa possibilidade), mas sim apenas outro instrumento político. Basta ver o conselho que Carrie dá a Warner em videoconferência para notar o quanto é importante “vender” a paz como vitória para fins de continuidade política do presidente.

Falando em Carrie, outro elemento que o episódio volta a discutir mais diretamente é sua lealdade aos EUA depois dos sete meses que passou em um sanatório na Rússia. Sua relação com o ardiloso Yevgeny Gromov é intensificada, assim como sua vigilância pela própria e desconfiadíssima CIA em uma sequência de observação e espionagem que faz uma belíssima homenagem à obra-prima A Conversação, de Francis Ford Coppola. E o melhor é que, ainda que mais peças tenham sido adicionadas ao quebra-cabeças, ainda não está claro o que realmente aconteceu e o que o espião russo quer.

Portanto, no final das contas, False Friends (o título é mais do que perfeito, não?) consegue acertar bastante considerando que o episódio não tinha muito para onde ir. A introdução das tensões políticas internas tanto nos EUA quanto no Talibã ampliam a complexidade da temporada, o mesmo valendo para seu tema central, que é a sanidade de Carrie Matheson. O que realmente já cansou é a mais do que ridícula situação em que Max se encontra no fronte de guerra, servindo de amuleto da sorte para os soldados ao seu redor. Confesso que se esfregarem a mão nele mais uma vez, ficarei feliz se Max metralhar meia dúzia daqueles caras…

Se Homeland continuar adicionando complexidade política nesse passo apertado, fico com receio que apenas 12 episódios não deem conta do recado. Por outro lado, não tenho muitas razões para duvidar da capacidade de Gansa e de Gordon de entregarem um final digno para uma das melhores séries da última década.

Homeland – 8X03: False Friends (EUA, 23 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Keith Gordon
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 52 min.

Crítica | Homeland – 8X02: Catch and Release

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Homeland é uma obra de ficção, claro, mas a série sempre primou pelo realismo, especialmente no que se refere à intrincada geopolítica que procura abordar. E a derradeira temporada, talvez a primeira a mergulhar de cabeça na desejada paz no Oriente Médio, vem para primeiro discutir exatamente que paz é essa que todos dizem que almejam, usando isso como pano de fundo para momentos de tensão que explodem precisamente logo nesse segundo episódio e que efetivamente arma o que está por vir.

Sempre abracei um conceito que meu pai me ensinou, de que o Homem é, fundamentalmente, um ser beligerante. Somos formados e moldados por conflitos tanto em escala global quanto em escala pessoal e a paz é algo que mais se parece com utopia, com algo que precisamos dizer que queremos sob pena de enlouquecermos, mas que, lá no fundo, sabemos ser impossível. Uma visão pessimista, sem dúvidas, mas olhando apenas para o presente e ao nosso redor, diria que é uma visão realista, especialmente no que se refere ao Oriente Médio. E Catch and Release deixa isso dolorosamente evidente quando afirma que mesmo os americanos só querem a paz como veículo para a retirada estratégica de suas tropas e não como algo verdadeiramente duradouro. Talvez Saul Berenson mantenha acesa a chama da esperança e Mandy Patinkin está incrível em passar esse sentimento quando ouve a gravação da conversa telefônica de Haqqani com seu filho que Max obteve, mas tudo ao redor dele conspira contra, desde seu próprio governo, passando pelos afegãos, pelos paquistaneses, pelos russos e, claro, pelos próprios talibãs.

A teia que esse episódio joga nesse panorama impossível é muito bem trabalhada, com cada elemento sendo uma decorrência lógica do que vimos em Deception Indicated e do que efetivamente vemos no mundo real. Carrie precisa recorrer à chantagem para fazer com que o vice-presidente afegão volte atrás em sua declaração de que não soltará os prisioneiros talibãs, condição fundamental para as conversas de paz continuarem, a filha do presidente afegão conspira para derrubar de vez as tratativas com um atentado à Haqqani que coloca Saul em maus lençóis e, por trás disso tudo, os russos, representados pelo ardiloso Yevgeny Gromov, manipula tudo por trás, inclusive – e especialmente – a própria Carrie. É um labirinto complexo que, muito propriamente, nos impede de ver qualquer saída minimamente razoável, já apontando para um final que não consigo imaginar que seja sequer próximo do feliz.

E é disso que Homeland é feito, essencialmente: cenários impossíveis que até ganham resoluções “cinematográficas” para agradar seu público, mas que nunca são fáceis ou mesmo agradáveis. O maior exemplo disso é o final da temporada anterior que forçou Carrie a abrir mão de sua filha e a entregar-se ao cativeiro russo, retornando completamente destruída psicologicamente, com efeitos que, felizmente, foram carregados para a última temporada como parte de seus pilares. Duvidar do que a agente enregou ou não aos russo é um brilhante retorno à Trilogia Brody, mas ter Yevgeny de volta como personagem ativo é esfregar sal da ferida, algo que fica ainda mais terrível quando as imagens e sons do passado que até agora nos deixaram ver parecem indicar que o russo e Carrie tiveram uma relação mais próximo ainda do que só carrasco e prisioneira, mas como resultado da privação de Carrie de seus medicamentos, não como algo genuíno.

Saindo do eixo central de personagens da série, devo dizer que tenho gostado muito da forma como a agente Jenna (Andrea Deck) vem sendo usada na temporada. Apresentada como alguém ainda verde, o que automaticamente manteve Carry distante, aqui ela tem seu papel expandido e percebemos que ela realmente ainda tem muito a aprender, logo estragando a entrevista falsa com Samira Noori (Sitara Attaie), nome tão gentilmente cedido por Yevgny. Tomara que Jenna (e possivelmente até Samira) ganhe crescente destaque na temporada. No lado paquistanês, a traiçoeira Tasneem (Nimrat Kaur), personagem que foi apresentada na série lá na 4ª temporada e que fez gigantescos estragos, continua com um papel pequeno, mas essencial que também espero ver expandido em razão de seus laços com Haqqani e com o talibã.

Mesmo que eu mantenha minha posição inicial de que eu gostaria de ter visto mais de Carrie Matheson no hospital militar antes de ir para campo, é inegável que não teríamos um episódio dessa categoria para armar a temporada sem a agente bipolar em Cabul. E o melhor é que, aqui, tivemos Saul também em ação, resultando em seu sequestro (de novo!) por Haqqani e uma simpática coronhada de AR-15. Se é verdade que, se queremos paz, devemos nos preparar para a guerra, Catch and Release fez isso muito bem!

Homeland – 8X02: Catch and Release (EUA, 16 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie
Duração: 42 min.

Crítica | Homeland – 8X01: Deception Indicated

  • Há spoilersLeia, aqui, as críticas das demais temporadas.  

Depois de quase dois anos, Homeland volta às telinhas para sua oitava e derradeira temporada em uma jornada brilhante, ainda que não perfeita, desde sua estreia em 2011, com o começo do que chamo Trilogia Brody. E, mesmo tendo tido tanto tempo para pensar no que poderia ser o mote desse encerramento, fui pego de surpresa por uma escolha tão simples e óbvia, mas tão maravilhosamente lógica e circular, que Deception Indicated imediatamente capturou minha atenção: se a série começou com as suspeitas da agente bipolar da C.I.A. Carrie Matheson (Claire Danes) sobre a lealdade do soldado americano Nicholas Brody (Damian Lewis), que passou anos preso pelo talibã, então nada melhor do que ela acabar com suspeitas sobre a própria Carrie depois que ela passou 213 dias em um gulag russo, privada de seus medicamentos e sendo torturada.

Melhor do que isso é que o roteiro de Debora Cahn e do showrunner Alex Gansa não se contenta em deixar as suspeitas unicamente ao encargo de um agente carrancudo que a interroga em um sanatório militar na Alemanha quando o episódio começa, mas sim ao transformar a protagonista em uma narradora não confiável, ao não só fazer o espectador duvidar do que ela fala, como também semear dúvidas na própria Carrie, que passa a ter sua já perturbada mente assombrada pela terrível possibilidade de ela ter revelado os nomes de sua rede de espiões e infiltrados. O episódio é, portanto, angustiante e desesperador, voltando a usar a bipolaridade de Carrie como fio condutor da narrativa, algo que sempre tem enorme potencial quando é bem explorado como nas duas temporadas anteriores.

Saul Berenson (Mandy Patinkin), agora o todo-poderoso conselheiro do presidente Warren (Beau Bridges, que ainda não apareceu, mas que foi introduzido na temporada anterior), está em meio a negociações de paz exatamente com o talibã de ninguém menos do que Haissam Haqqani (Numan Acar, que também ainda não apareceu), aquele mesmo personagem que fez um acordo sombrio com Dar Adal (F. Murray Abraham) ao final da cambaleante quarta temporada e cujo arco, até agora, permanecia aberto para frustração de muitos (minha inclusive!). Só isso já é outra notícia alvissareira para quem acompanha a série, já que, ao que tudo indica, teremos um desfecho para essa ponta que havia sido largada por completo (talvez propositalmente). Não demora, porém, e o vice-presidente do Afeganistão manifesta-se publicamente recusando a libertar prisioneiros talibãs em poder de seu governo, elemento fundamental de negociação, exigindo que Berenson tome medidas desesperadas e reincorpore Carrie para uma missão em Cabul.

Devo dizer que teria gostado mais do episódio se ele tivesse ido mais devagar com a louça. Carrie no hospital ainda tinha muito a oferecer e sua retirada de lá ainda na metade do capítulo foi um pouco frustrante, especialmente considerando a velocidade com que ela imediatamente entra em ação, algo que chega até a ser desnorteador. Sim, compreendi perfeitamente a proposta de revelar o assassinato de um de seus informante pelos talibãs como chave para a dúvida interna de Carrie sobre os 180 dias que ela não se lembra estando em poder dos russos, mas isso poderia ter vindo talvez de outra forma ou até mesmo no episódio seguinte, sem precisar movimentar a trama na velocidade da luz logo em seu início.

E a rapidez dos acontecimentos também acaba atrapalhando a fluidez da missão de Max Piotrowski (Maury Sterling), que volta não só à campo, mas no meio do fogo cruzado no Vale de Korangal, no Afeganistão, em uma missão de conserto de equipamento de espionagem em território hostil e tremendamente perigoso, cercado de um pelotão que logo se afeiçoa do calado personagem. Último personagem da “velha guarda” da série fora Carrie e Saul, a presença de Max, aqui, não só é abrupta como diferente de tudo que vimos antes em relação a ele, pelo que Deception Indicated teria lucrado mais se, no lugar de se preocupar em deslocar Carrie do hospital quase que instantaneamente, tivesse preparado melhor o terreno para o especialista em escutas eletrônicas. Ainda que a missão dele já seja claramente conectada aos acontecimentos ao redor de Saul, será interessante ver como isso evoluirá e se ele será mantido apartado do restante do elenco, talvez desenvolvendo seu pelotão.

Claire Danes está novamente impressionante em seu papel, com uma performance natural, que deixa sua personagem constante à beira do abismo, prestes a pular. Sua reações em momentos chave, como quando ela confronta seu interrogador no sanatório, recebe a notícia de Saul de que ela voltará à ativa ou quando ela descobre sobre o assassinato de seu informante são de se tirar o chapéu, com a atriz prometendo um tour de force final que tornará Carrie uma das mais memoráveis personagens da televisão moderna.

A correria do episódio, porém, tem um lado muito positivo, já que ele deixa, em relativamente poucos minutos, o circo perfeitamente armado para o que vem por aí, costurando as suspeitas sobre Carrie em um tecido que de maneira genial retorna à premissa original da série, devolvendo a personagem ao Oriente Médio,  e, finalmente, trazendo Haqqani e, claro, seu torturador russo Yevgeny Gromov (Costa Ronin) de volta. E assim, com o tabuleiro devidamente posto, os 11 episódios finais têm todas as peças necessárias para encerrar Homeland com toda a pompa e circunstância que a série merece.

Homeland – 8X01: Deception Indicated (EUA, 09 de fevereiro de 2018)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Debora Cahn, Alex Gansa
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain
Duração: 55 min.