Michael Uppendahl

Crítica | Hunters (2020) – 1ª Temporada

Não costumo demorar muito para escrever a crítica de algo que li ou assisti, pois, depois de tanto tempo, treinei-me a formar opinião na medida em que a experiência se desenrola. Mas Hunters foi uma exceção, já que talvez até agora não tenha me decidido exatamente sobre o que escrever sobre a série criada por David Weil, com produção executiva, dentre outros, de Jordan Peele, nome atualmente quente no mundo do entretenimento. Portanto, peço paciência com meu texto abaixo, pois ele oscilará bastante ou, pelo menos, mais do que o normal.

Esperei com ansiedade pela série desde que soube que ela seria sobre caçadores de nazistas nos anos 70 comandados por ninguém menos do que Al Pacino. Premissa e ator irresistíveis demais para ignorar ou tratar apenas como mais uma série dentre tantas outras. Quando ela finalmente aportou no Amazon Prime Video, minha primeira reação foi cair para trás com o tamanho dos episódios: nenhum dos 10 mais curto do que uma hora, sendo que o primeiro com a duração de um longa-metragem! Mas fui em frente seguro que qualquer coisa com caçadores de nazistas não poderia ser menos do que bom e, dito e feito, abri um sorriso de orelha a orelha (sim, me julguem…) em meio a exclamações impublicáveis com aquele começo completamente exagerado em que o nazista foragido nos EUA e que adotou o nome Biff Simpson (Dylan Baker, outro ator de quem gosto muito) chacina toda sua família quando sua identidade é revelada por uma sobrevivente do Holocausto. Início inesperado, pesado, violento, de virar o rosto, mas muito bem executado, capaz de prender qualquer um imediatamente no sofá até o final dos 90 minutos iniciais de lenta construção da narrativa principal que, na verdade, vai além da caça aos nazistas radicados nos EUA e de críticas pesadas à Operação Paperclip, já que ela se refestela com as mais variadas teorias da conspiração e lendas urbanas sobre um mítico Quarto Reich.

Logo fiz a associação e concluí algo como “ah, mas então esse Hunters é mais uma sátira que bebe de uma pegada tarantinesca, maravilha!” e preparei-me para o espetáculo pois caçadores de nazistas com uma lente over the top à la Quentin Tarantino remete a Bastardos Inglórios e Bastardos Inglórios, como todo muno obrigatoriamente há de concordar, é uma obra-prima. Minha vontade de continuar, então, só foi amplificada. Entram em cena, então, a tragédia do jovem Jonah Heidelbaum (Logan Lerman, que começa mal como o “garoto de olhos esbugalhados”, mas que acaba se desenvolvendo bem) cuja avó é assassinada misteriosamente, levando-o a quase ser adotado pelo milionário judeu Meyer Offerman (Pacino em uma atuação interessantemente caricata, que é ao mesmo tempo contida e séria) que, por sua vez, revela-se como o líder de um grupo que há pouco tempo começou a localizar e a liquidar nazistas com requintes de ironia, ou seja, de forma que o genocida sinta um pouco de seu próprio veneno. Nesse grupo, temos a hilária freira durona Harriet, ex-MI6 (Kate Mulvany), a manifestação física do blaxploitation Roxy Jones (Tiffany Boone), a manifestação física dos filmes de artes marciais e dos filmes de guerra dos anos 70 Joe Mizushima (Louis Ozawa), o ator judeu e mestre em disfarces que é tão hábil quanto o Inspetor Clouseau Lonny Flash (Josh Radnor) e o doce e inseparável casal de sobreviventes do Holocausto especialistas em eletrônica e comunicação Murray (Saul Rubinek, ele mesmo um sobrevivente) e Mindy Markowitz (Carol Kane em tocante atuação), cada um contribuindo de seu jeito para a equipe, mas todos com reservas sobre o recrutamento do jovem Jonah, que precisa provar-se, claro.

Paralelamente, há a agente do FBI Millie Morris (Jerrika Hinton) – negra e lésbica – que começa a investigar um assassinato patrocinado por Offerman e que abre a caixa preta da infame Operação Paperclip e o jovem americano nazista Travis Leich (Greg Austin, assustador) que é um assassino recrutado pelo misterioso Quarto Reich da Coronel (Lena Olin, mais vilanesca impossível) em meio a um plano de “purificação” daqueles que poderiam facilmente constar em um filme de James Bond. Salientei as características de Millie só para começar a construir meu ponto sobre o que a série começa a tornar-se desde cedo: um balaio de gatos que não consegue firmar exatamente uma personalidade, distanciando-se de minha conclusão inicial de que estaríamos diante de algo na linha de Bastardos Inglórios.

Há, ao longo da série, uma tentativa de abordagem de uma pluralidade gigantesca de assuntos e, mesmo com episódios de duração avantajada, nada acaba realmente ganhando profundidade. É sem dúvida divertido ver Boone encarnado sua Roxy – penteado, figurino, vida particular ativista – como uma super-heroína dos filmes de exploração setentistas, mas, diferente de outra obra-prima de Tarantino, Jackie Brown, Roxy não parece mais do que uma alegoria com um fim em si mesma. E é o mesmo com Joe, com Lonny e até com o casal Murray e Mindy. Cada um é um microcosmo satírico que não mantém uma cola narrativa tão boa assim, ainda que sempre agradável de assistir (já começaram a entender o grau de minha dúvida entre o “gostar” e o “não gostar”?). E a inevitável barriga que os episódios do meio trazem, focando nos amigos de Jonah, na vida pessoal de Millie e assim por diante acabam trazendo um certo arrasto narrativo para a série, que teria se beneficiado e muito de foco.

Mas há mais. E talvez o que mencionarei a seguir seja o maior ponto de estranheza.

Lembram quando disse que adorei a chacina exageradíssima do início do primeiro episódio? Pois bem, ela é, apenas, a ponta do proverbial iceberg. A violência escorre pela tela, muitas vezes cortesia de um Travis que se delicia com cada morte que é capaz de infligir. No entanto, para fins de contextualização, o showrunner não se contenta com o presente da série, retornando à Segunda Guerra Mundial, mais especificamente ao campo de extermínio Auschwitz, um dos lugares mais terríveis que já tive o (des)prazer de visitar. A reconstrução de época tanto dos anos 70 quanto dos anos 40 é magnífica e o próprio campo ganha uma vida assustadoramente próxima do real em termos estéticos. Mas a violência no passado, em meio ao extermínio massivo dos judeus, também ganha uma pegada exagerada como a chacina do começo. Na verdade, minto. Mais exagerada ainda, como o “jogo de xadrez” ou o “concurso de cantor” macabros. Não compartilho, porém, do sentimento de alguns na linha de que isso banaliza os verdadeiros atos hediondos dos nazistas ou que abre espaço para que alguns neguem o Holocausto (negar o Holocausto é coisa de mente doentia, vamos combinar), mas sim que essas escolhas narrativas não são homogêneas na temporada. Se é sátira, então que o tom satírico seja mantido, como o é, por exemplo, em Jojo Rabbit, só para usar uma obra recente como exemplo, mas não acontece isso na série. Essa questão é particularmente visível na forma como todo o arco narrativo – passado e presente – de Murray e Mindy é tratado. Nele, a abordagem é 100% séria e dramática, emocionante mesmo (um dos pontos altos da temporada, não tenho dúvida em afirmar) e o contraste desse enfoque com os demais quebra a unicidade narrativa da temporada com um todo, tornando-a até inclassificável, o que não é algo ruim na maioria dos casos, mas que, aqui, considero ser um problema.

Eu poderia continuar apontando as incongruências da temporada nesse aspecto, mas, se eu assim fizesse, teria que começar a soltar spoilers aqui e ali e tenho evitado isso para tornar a crítica mais universal. Creio, porém, que meu ponto tenham já ficado claros e eles podem ser reiterados pelos últimos minutos do derradeiro episódio que são construídos para estabelecer um cliffhanger, claro, mas que também dão vazão a tudo o que há de mais exagerado. O desequilíbrio é claro, mesmo que eu tenha adorado esses minutos finais também, especialmente considerando as possibilidades que eles abrem para um futuro mais louco ainda para a série.

Portanto, como qualquer um pode notar no meu vai-e-vem crítico, não sei bem o que achei de Hunters. Parte de mim adorou o morticínio exagerado, mas outra parte teve dificuldades para assimilar a gangorra estética e a inserção de todas as críticas sociais possíveis que, porém, ganham a profundidade de um pires. No final das contas, ao tentar ser diferente e desafiadora, mas sem a coragem de mergulhar a fundo na sua pegada satírica, a série acaba não conseguindo dizer exatamente o que é e o que pretende ser, misturando tudo (e mais a pia da cozinha, como os americanos dizem) em um conjunto narrativo no mínimo estranho, mas que, tenho que confessar, mantem-se irresistível talvez exatamente por isso.

P.s.: Antes que alguém venha dizer que a avaliação em estrelas não “combina” com meu texto, tenho duas soluções: (1) leiam isso aqui e (2) ignorem as estrelas, pois nem mesmo eu consigo concluir se é isso mesmo…

Hunters – 1ª Temporada (EUA, 21 de fevereiro de 2020)
Criação: David Weil
Direção: Alfonso Gomez-Rejon, Wayne Yip, Nelson McCormick, Dennie Gordon, Millicent Shelton, Michael Uppendahl
Roteiro: David Weil, Nikki Toscano, Mark Bianculli, David J. Rosen, Zakiyyah Alexander,  Eduardo Javier Canto, Ryan Maldonado, Charley Casler
Elenco: Al Pacino, Zack Schor, Logan Lerman, Lena Olin, Jerrika Hinton, Saul Rubinek, Carol Kane, Josh Radnor, Greg Austin, Tiffany Boone, Louis Ozawa, Kate Mulvany, Dylan Baker, Christian Oliver, Jonno Davies, James LeGros, Ebony Obsidian, Caleb Emery, Henry Hunter Hall, Jeannie Berlin, Annie Hägg
Duração:

Crítica | The Hot Zone – Minissérie Completa

O que pode ser mais contagioso que o medo? A minissérie The Hot Zone – Zona de Risco consegue responder ao questionamento no desdobramento dos seis episódios focados na interpretação do paciente zero e de seus contagiados, bem como na chegada do vírus ebola nos Estados Unidos, território que o cinema já fez questão de apresentar como ambiente da histeria coletiva em diversas ocasiões. Sob a direção de Michael Uppendahl e Nick Murphy, guiados pelo roteiro de Kelly Sauders e James V. Hart, dupla responsável pela adaptação do livro homônimo de Richard Preston, a produção foi concebida pela National Geographic, eficientes ao colocar a veterana Julianna Margulies para ocupar o papel da pesquisadora protagonista da história.

Logo na abertura, uma cena bem erguida pelos realizadores estabelece o clima de perigo da narrativa. Somos apresentados ao paciente zero, um homem que passa por situações conflitantes no retorno de uma viagem, tomado pelos sintomas geralmente atribuídos a uma virose: suor, dores de cabeça, vômito constante com traços de sangue, dentre outras coisas desagradáveis. Entre os acontecimentos presentes, situados em 1989, e os flashbacks, seguimos sem linearidade a descrição desta história, contada sob o ponto de vista dos personagens que investigam o assunto há tempos. O que conecta o presente com o passado é a morte de macacos num centro de pesquisa situado em Reston, na Virginia.

Esse é um dos principais pontos da investigação diante de algo que os poderosos das Forças Armadas e políticos querem esconder de qualquer maneira: a possibilidade de um contágio em larga escala nos Estados Unidos. Nancy (Margulies) é a responsável por dar os primeiros passos na análise do vírus e nos avisos constantes sobre a necessidade de manter a sociedade em estado de alerta, algo que desagrada as autoridades desejosas da manutenção de uma suposta ordem. No Departamento Médico do Exército dos Estados Unidos, Nancy consegue obter os seus primeiros resultados, constantemente freada pelos desinteressados na midiatização da história.

Coordenadora de Peter (Topher Grace) e Ben (Paul James), cientistas financiados pelo Pentágono, experientes na manipulação de patógenos nocivos, Nancy não mede forças para descobrir questões mais amplas do vírus desconhecido, numa luta que terá até mesmo o seu marido Jerry (Noah Emmerech) como obstáculo, homem receoso dos perigos que a amada corre ao adentrar neste terreno de novidades. Uma de suas principais preocupações é o problemático mentor de Nancy, o inconstante Wade (Liam Cunningham), conhecido por seu temperamento nada ameno, profissional eficiente, mas sem cautela quando a missão é lidar com as artimanhas do poder.

Wade é parte do circuito narrativo dos flashbacks no Catar, na década de 1970, trecho de interação do personagem com os pesquisadores Travis (James D’Arcy) e Melinda (Grace Gunner), todos envolvidos nos perigos da disseminação de um vírus ainda não estudado. Serão os desdobramentos desta época que definem a relação de Wade com Travis, feixe de situações que nos ajuda na compreensão do atual status da amizade de ambos. Foram períodos que ninguém, em ambas as décadas 1980, conhecia protocolos adequados para lidar com uma possível epidemia de ebola.

Tensa em sua primeira metade e menos empolgante nos episódios finais, The Hot Zone – Zona de Risco é uma minissérie que expõe diversos temas interessantes mesmo diante da sua substancial perda de ritmo no desfecho, menos envolvente que o período de estabelecimento e desdobramento da crise. A força motriz da trama é o engajamento da protagonista diante do machismo, das tensões em torno de um vírus que não possui vacina, da preocupação constante por conta de algo que podia ter gerado uma epidemia generalizada, detalhes apresentados pelo desempenho dramático de Julianna Margulies e sua interação com os figurinos que envolvem luvas, roupas protetoras, uso de água sanitária e outros detalhes que reforçam o caráter didático da história.

A equipe técnica responsável por transformar o roteiro em material audiovisual faz o trabalho de maneira competente, sem momentos muito memoráveis, mas capazes de narrar os dramas propostos no texto dos episódios que giram em torno dos 43 minutos de duração. Na direção de fotografia, a dupla François Dagenais e Cameron Duncan dividem as seis partes em três para cada, materiais entregues com unicidade, sem diferenças gritantes nos enquadramentos, movimentos e iluminação. O design de produção, importante para a imersão do espectador num clima militar e de pesquisa também funciona bem, assinado por Mark Hutman. Ele coordena Emilia Roux, Nigel Hutchins e Crystal North, trio responsável pela cuidadosa cenografia, ambientes para circulação dos personagens em suas dinâmicas devidamente representadas pelo setor visual. A condução sonora de Sean Callery também funciona bem, dentro das necessidades dramáticas da série, material, no geral, satisfatório diante de suas propostas.

Produzida pela Scott Free, do cineasta Ridley Scott, a minissérie em questão desenvolve tópicos interessantes sobre microbiologia, ao flertar com os perigos de um vírus que diferente das bactérias, geralmente combatidas com antibióticos, precisam de medicamentos específicos. Cada época possui a sua epidemia representativa, sendo o ebola uma das preocupações responsáveis por tirar o sono de cidadãos e especialistas na larga escala do tecido social estadunidense. Catalisadores do medo, não é de hoje que os vírus surgem como protagonistas de situações histéricas coletivas. A presença do inimigo invisível é de deixar qualquer um inseguro e apavorado. Não apenas destrutivo em sua dimensão física, vírus dessa magnitude questionam vínculos sociais. É o marido que precisa se afastar da esposa e dos filhos por conta do possível contágio durante as atividades no laboratório, é a desconfiança do colega de trabalho ou do vizinho que sentimos a necessidade de manter distantes. Em suma, é o caos distribuídos em vertentes múltiplas. A contrapartida das facilidades obtidas pelo movimento que chamamos de globalização.

The Hot Zone – Minissérie Completa /Estados Unidos, 2019
Criação: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Direção: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Roteiro: Kelly Souders, Bryan Peterson
Elenco: Julianna Margulies, James D’Arcy, Topher Grace, Liam Cunningham, Noah Emmerich, Paul James, Lenny Platt, Robert Wisdom, Nick  Searcy, Mark Kelly, Grace Gummer
Duração: 45 min. por episódio (06 episódios no total)

The Hot Zone – Minissérie Completa /Estados Unidos, 2019
Criação: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Direção: Nick Murphy, Michael Uppendahl
Roteiro: Kelly Souders, Bryan Peterson
Elenco: Julianna Margulies, James D’Arcy, Topher Grace, Liam Cunningham, Noah Emmerich, Paul James, Lenny Platt, Robert Wisdom, Nick  Searcy, Mark Kelly, Grace Gummer
Duração: 45 min. por episódio (06 episódios no total)

Crítica | Ray Donovan – 6ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Ray Donovan é uma série que se manteve firme em sua premissa ao longo de quatro excelentes temporadas, mas que soube iniciar um processo de transformação na quinta, levando seu protagonista às vias de fato consigo mesmo, tendo a morte de sua esposa como principal elemento catalisador. A sexta temporada, então, que foi ao ar entre o final de 2018 e o começo de 2019, pega os cacos que sobraram de Ray e os mói sem dó nem piedade, tragando de vez toda a família Donovan para um intrincado e doloroso processo de reinvenção e ressurgimento. O que começou como a história de um “resolvedor de problemas” de celebridades, transformou-se em um profundo estudo de personagem que trafega entre a vida e a morte com a mesma facilidade com que se bebe um copo de uísque.

Começando exatamente do ponto em que a temporada anterior parou, ou seja, com a tentativa de suicídio de Ray (Liev Schreiber) jogando-se de um prédio em Nova York, nós o vemos ser resgatado do rio pelo policial Sean “Mac” McGrath (Domenick Lombardozzi) em circunstâncias estranhas que são explicadas e desenvolvidas ao longo da narrativa inicial e que selam a conexão entre os dois. Ray larga sua vida pregressa e passa a morar com Mac até que é tragado de volta para seu passado pela magnata do entretenimento Samantha Winslow (Susan Sarandon retornando ao seu ótimo papel da temporada anterior) que precisa de sua ajuda para eleger sua protegida Anita Novak (Lola Glaudini) à prefeitura da cidade, custe o que custar. Circulando ao redor de Ray, mas mantendo-se consideravelmente sem conexão direta com o protagonista, vemos os demais membros de sua família lentamente reunindo-se em Nova York por razões diferentes: Bunchy (Dash Mihok) é manobrado por Mick (Jon Voight) a libertá-lo da prisão e dirigir até a outra costa dos EUA, Terry (Eddie Marsan) começa a autodestruir-se entregando-se a lutas mortais em um clube da luta, Daryll (Pooch Hall) começa a produção do filme de longe baseado em roteiro de seu pai, e Bridget (Kerris Dorsey) tenta firmar-se ao lado de Smitty (Graham Rogers).

A variedade narrativa é bem-vinda e muito interessante, especialmente, claro, a que lida com Mick e seus cada vez mais absurdos planos que culminam em uma sequência de desmembramento e enterro de corpos no jardim de Sandy Donovan (Sandy Martin, uma sensacional adição ao elenco) que teria perfeito lugar em alguma obra do surrealismo cinematográfico ou do Teatro do Absurdo de tão inacreditável que é e ao mesmo tempo tão triste por deixar evidente o quão profunda é a conexão dos Donovans com o submundo, com o que de pior há no mundo. Claro que o foco da temporada fica mesmo, como não poderia deixar de ser, em Ray e em sua percepção de que sua vida está completamente descontrolada e que todos ao seu redor sofrem por causa dele. A cada passo que ele dá para a frente, ele é obrigado a retroceder 50, em um processo doloroso física e mentalmente que o coloca em um verdadeiro labirinto de onde dificilmente conseguirá escapar.

Esse labirinto, porém, revela o que reputo ser a única fraqueza da temporada e o elemento que me impede de dar nota máxima para ela: a conexão aleatória de Ray com Mac acaba sendo peça-chave para que ele seja envolvido diretamente no conflito de interesses opostos representados por sua chefe Samantha e o prefeito atual da cidade Ed Ferrati (Zach Grenier). É que Ferrati tem Mac, dentre outros, em sua folha de pagamento de um enorme esquema de corrupção e é impossível não achar conveniente demais que coincidentemente Ray seja salvo por Mac e que com ele crie amizade somente para depois estabelecerem posturas antitéticas. Talvez para alguns isso seja um detalhe, talvez até uma premissa para que a temporada seja aceita como ela é, mas, particularmente, achei preguiça do roteiro em estabelecer tamanhos encaixes aleatórios.

No entanto, a grande verdade é que tudo ao redor desse elemento ruim funciona muito bem, já que o foco não é exatamente nos trabalhos de Ray para Samantha, mas sim na forma como ele e os demais membros de sua família vão finalmente alcançando o fundo do poço para que, então, a catarse possa vir com força total e de maneira muito eficiente nos episódios finais, mesmo que o preço seja potencialmente alto. Ray Donovan sempre deixou o niilismo permear sua narrativa e sua presença é particularmente sentida nessa temporada que desconstrói seus personagens para desnudá-los completamente e, talvez, dizer a nós, espectadores, que eles são assim mesmo, não tem jeito. Há, não tenham dúvida, um resvalar em um trabalho psiquiátrico que pode vir a potencialmente manter a autodestruição de Ray em xeque, mas isso é algo que, provavelmente, só será explorado na temporada seguinte (que está acabando na época em que redijo a presente crítica).

Em meio a todo esse sofrimento, mais uma vez Liev Schreiber tem um grande trabalho dramático, talvez superior até ao da temporada anterior. Melhor ainda, diferente do que veio antes, todo o elenco principal tem espaço de sobra para brilhar e todos conseguem se superar aqui, entregando-se em nuances complexas que eternizam cada um de seus personagens em nossas mentes. É, talvez, a primeira vez que os Donovans realmente mostram suas verdadeiras faces e atuam como um só, com a já mencionada bem-vinda adição de Sandy nessa equação.

Chega a ser impressionante como Ray Donovan consegue se reinventar, recusando-se a ficar parada em uma estrutura fixa. Resta saber se foi aqui o fundo do poço da família ou se há mais a ser escavado.

Ray Donovan – 6ª Temporada (Idem, EUA – 28 de outubro de 2018 a 13 de janeiro de 2019)
Criação: Ann Biderman
Showrunner: David Hollander
Direção: Allen Coulter, Tucker Gates, Robert McLachlan, Michael Uppendahl, Zetna Fuentes, Tarik Saleh, John Dahl, Joshua Marston, David Hollander
Roteiro: David Hollander, Miki Johnson, Chad Feehan, Sean Conway
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Pooch Hall, Katherine Moennig, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Susan Sarandon, Graham Rogers, Domenick Lombardozzi, Kate Arrington, Tony Curran, Lola Glaudini, Gerard Cordero, Sandy Martin, Alexandra Turshen, Zach Grenier, Alan Alda
Duração: 654 min. (12 episódios)