Michael Redgrave

Crítica | Grilhões do Passado (Mr. Arkadin)

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Rosebud não só é a palavra-chave da carreira de Orson Welles, como, talvez, de todo o cinema. Em um último suspiro de vida, o magnata Kane, sussurrava aquilo que era a sua última lembrança de uma vida inocente. Assim, todas suas riquezas materiais acumuladas se mostraram insignificantes diante desta memória. Contudo, diferentemente de Cidadão Kane, o diretor possui outro filme — negligenciado por muitos — no qual sua narrativa também é movida por uma busca que tem sua gênese em uma confissão segundos antes do beijo da morte. Em Grilhões do Passado, a busca não é pelo “que”, mas por “quem”: Arkadin. 

Se a busca pelo passado em Cidadão Kane significa o seu próprio resgate, em Grilhões do Passado, ela significa, opostamente, a sua aniquilação. Em um ciclo vicioso, quanto mais se aproxima da verdade, mais ela se distancia. No primeiro quadro do filme, Welles recorre a uma pergunta que um rei uma vez fizera para um poeta: “o que posso te dar entre tudo o que eu tenho?”, e a seguinte resposta: “só o seu segredo”. Afinal, quem sabe o segredo do rei, controla ele. Portanto, o que se forma aqui é justamente um jogo de poder e influências.

Os jogadores deste jogo são justamente o próprio magnata Gregory Arkadin (Welles) e o contrabandista Guy Van Stratten (Robert Arden). Em um eterno jogo de gato-e-rato, eles estão sempre tentando estar um passo à frente do outro, desde o momento inicial em que se conhecem. Conforme a narrativa avança, o segredo em si torna-se menos importante do que essa guerra fria entre os dois personagens. Aliás, se pararmos pra pensar, toda a motivação central da trama não faz nem muito sentido, uma vez que Arkadin pede para que Stratten investigue mais de seu passado, afirmando ter amnésia, para, posteriormente, destruir as evidências encontradas. Ora, se o milionário quer deixar seu passado enterrado, não seria melhor deixá-lo adormecido?

É justamente neste momento que me lembro do brilhante monólogo de Arkadin, falando sobre a fábula do sapo e do escorpião. O escorpião quer atravessar um rio e pede ajuda para um sapo, que recusa, com medo de ser picado. Em seguida, o inseto afirma que picar não seria lógico, pois os dois afundariam, fazendo com que o outro animal aceite. No meio da travessia, o inseto pica e, enquanto os dois afundam, fala que não conseguiria evitar tal ato, pois isso era natureza. Basicamente, isso diz tudo sobre os personagens de Grilhões do Passado que, no fundo, não são tão diferentes assim e representam a falência de uma estrutura social que já está fadada a autodestrutividade desde sua formação, algo também visto em A Dama de Shangai.

Quando decide enquadrar tanto Arkadin quanto Stratten em constantes contra-plongée, Welles aproxima seus dois protagonistas, que sempre buscam a imponência. São como dois lados de uma mesma moeda. E é algo que faz sentido, se formos pensar que o que difere os dois é apenas a sorte que um deu e o outro não, mas são pessoas que estão sempre tentando tirar proveito de algo. Neste sentido, o longa se assemelha mais ainda com A Dama de Shangai, outra obra do diretor em que um protagonista de moral duvidosa se vê envolvido, ao acaso, com os esquemas de um homem rico que faz um pedido inusitado a ele. 

Inclusive, os dois filmes são prejudicados por uma edição tirada das mãos de Welles e que, sem querer, acabam até contribuindo para um caos narrativo e de ritmo que dialogam com os próprios conflitos de seus protagonistas. Para se ter noção, há 7 versões de Mr. Arkadin (ou Confidential Report, outro título de lançamento) espalhadas pelo mundo e a assistida por mim foi a Corinth Version, descoberta por Peter Bogdanovich e dita como a que mais se assemelha daquilo que o diretor originalmente pretendia.

O que diferencia Grilhões do Passado dentro da filmografia de Welles é que ele parece, principalmente, como uma viagem vertiginosa e psicodélica de duas pessoas presas em labirinto que, no fundo, só tem espaço para a saída de um deles. Na história, uma volta ao mundo é dada e diferentes tipos de pessoas são abordadas— do colecionador de pulgas e a prostituta ao dono de loja de antiguidades e um doente mental — transformando Arkadin em um elo comum que une toda a decadência do sistema de trapaças que ele mesmo faz parte. 

Logo, o que Welles faz é estruturar as relações de poder através de um pesadelo expressionista, por meio de diversas experimentações visuais e uma câmera que constantemente busca enquadrar rostos em close-up como forma de opressão visual. Na sequência do baile à fantasia, fica claro que, na cosmologia de Grilhões do Passado, aquilo que se esconde atrás de uma máscara pode ser tão assustador quanto a máscara em si. No fim, investigar o passado de Arkadin é, na verdade, descobrir como funciona toda a natureza autodestrutiva de uma sociedade corrupta que tenta a todo custo se manter no topo. Do pequeno contrabandista de cigarros ao milionário rico que apoiou Mussolini, está na natureza deles tentar tirar vantagem. E assim, o sapo e o escorpião afundam. 

Grilhões do Passado (Mr. Arkadin)  – França, Espanha, Suíça, 1955
Direção: Orson Welles
Roteiro: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Michael Redgrave, Patricia Medina, Akim Tamiroff, Mischa Auer, Paola Mori, Peter van Eyck, Grégoire Aslan, Katina Paxinou, Suzanne Flon, Robert Arden
Duração: 99 min.

Crítica | A Dama Oculta (1938)

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A história da produção de A Dama Oculta foi bastante agitada. Em 1937, o diretor Roy William Neill foi contratado para guiar uma obra chamada The Lost Lady. Ele e uma parte da equipe viajaram para a (antiga) Iugoslávia para dirigir as cenas de ligação e ambientação da obra (que cobrem o primeiro ato do longa), mas foram expulsos do país assim que as autoridades locais descobriram que a nação não era representada positivamente pelo enredo. A dificuldade de continuar com o projeto a partir dali fez com que a primeira fase de produção fosse engavetada. E assim morreu The Lost Lady.

Um ano depois, o roteiro foi cair no colo de Alfred Hitchcock, que com um orçamento menor, começou a trabalhar com os roteiristas Sidney Gilliat (A Estalagem Maldita) e Frank Launder para alterar detalhes estruturais do início e fim do texto original, mudando também muita coisa do que se tinha adaptado da obra The Wheel Spins, escrita por Ethel Lina White (Silêncio nas Trevas), especialmente em relação à Srta. Froy. No todo, o filme traz para a ficção o complexo e incômodo cenário político pelo qual a Europa passava naquele final de anos 1930, pouco mais de um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Embora tenha sido filmado em diversos estúdios, linhas férreas e campos militares do Reino Unido, o filme manteve uma identidade visual “exótica” muitíssimo interessante graças ao olhar acurado do diretor para o que deveria ou não colocar na tela, e principalmente à maravilhosa direção de arte e aos figurinos nas dependências do hotel — que fica “em algum lugar da Europa Central”, onde praticamente todo o primeiro ato se passa (o restante é na estação da pequena cidade). Nesses primeiros minutos de projeção, temos a impressão que estamos assistindo a uma comédia despreocupada, com toques culturais e um pouquinho de crítica aos costumes da sociedade da época, com destaque para o papel da mulher. É um início lento (em termos de impacto causado pelas coisas que vemos), mas bem divertido e com pistas que são retomadas com muita inteligência na parte final da película.

O texto cria uma situação leve e incômoda (abrindo as portas para a comédia) colocando passageiros de diferentes nacionalidades esperando o desbloqueio dos trilhos após uma forte nevasca. Parece um filme dos irmãos Marx, para falar a verdade. E é aí que conhecemos a Srta. Froy (May Whitty), Iris (Margaret Lockwood) e o musicólogo Gilbert (Michael Redgrave), personagens que protagonizariam isoladamente o segundo ato do filme. Eu acho a sequência de ligação entre o “acidente” de Iris, ainda na plataforma, e tudo o que acontece depois, dentro do tem, uma excelente sacada do roteiro. Hitchcock, já um Mestre em distrair a atenção do público e fazer joguinhos de suspense em camadas diferentes, brinca com ideias de conspiração e dubiedade em relação à percepção e memórias da jovem protagonista, que é o que verdadeiramente chama a atenção no enredo, muito mais do que a revelação de todo o plano e do que o lado político, ainda bom, mas um tantinho destoante no final.

Um mistério com uma mescla de humor, distração do público e personagens que enfrentam um interessante teste (como se fosse um processo de amadurecimento que afeta até a vida amorosa dos mais jovens), A Dama Oculta é um dos trabalhos da fase britânica de Hitchcock que mais demonstram a essência da filmografia do diretor. E ainda tem o benefício de poder ser lido por um outro viés, como um filme de espionagem bastante peculiar, não só pela escolha do espião da vez, mas pelo drama intricado (e devo ressaltar mais uma vez, divertido) que o envolve. Embora haja algum exagero no tratamento das cenas dos passageiros isentões que só estavam preocupados com críquete e do advogado com sua querela matrimonial, o filme se mantem solidamente no alto e garante uma baita sessão.

  • Crítica originalmente publicada em 04 de março de 2014. Revisada para republicação em 20/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

A Dama Oculta (The Lady Vanishes) — Reino Unido, 1938
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Sidney Gilliat, Frank Launder (baseado na obra de Ethel Lina White)
Elenco: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Emile Boreo, Googie Withers, Sally Stewart, Philip Leaver, Selma Vaz Dias, Catherine Lacey
Duração: 96 min.