Mark Gatiss

Crítica | Victor Frankenstein

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Excetuando talvez a história do vampiresco Conde Drácula, nenhuma outra história de terror foi tão contada e recontada nas mais diferentes mídias do que a do Dr. Frankenstein, cientista criado por Mary Shelley, que ao tentar vencer a morte gerando o seu próprio ser através da ciência, cria um monstro feito com partes de cadáveres. A ideia de renovar essa trama tão conhecida ao contá-la do ponto de vista do assistente corcunda de Victor Frankenstein, Igor, (que não existe no romance original de  Shelley, tendo sido criado para os filmes da Universal) tinha os seus atrativos. Afinal, em muitas versões, o Corcunda Igor vê o cientista como uma espécie de deus e a jornada da perda da fé do assistente na figura de seu mentor poderia ter rendido um filme bem interessante. Infelizmente, o longa-metragem de Paul McGuigan nunca consegue arranhar qualquer potencial que a premissa poderia ter.

Na trama, um corcunda  autodidata (Daniel Radcliffe), é resgatado pelo cientista Victor Frankenstein (James McAvoy) do circo onde trabalhava sob maus tratos, após Frankenstein testemunhar o corcunda utilizar os conhecimentos anatômicos que aprendeu lendo livros roubados para socorrer uma aerialista acidentada. Victor cura a deformidade do corcunda, e o rebatizando de Igor, torna-o seu assistente. Entretanto, à medida em que vai tomando conhecimento da natureza dos experimentos de reanimação de matéria morta realizados por seu salvador, Igor começa a se perguntar até onde está disposto a ir por fidelidade a Frankenstein. Ao mesmo tempo em que a dupla é caçada por Roderick Turpin (Andrew Scott) — um obcecado inspetor de polícia que os acusa de roubar cadáveres –; Finnegan (Freddie Fox), um inescrupuloso milionário, decide financiar o projeto de Frankenstein de criar um Prometeu Moderno visando possuir um Exército particular.

Parte da proposta inicial do roteiro de Max Landis vai pela janela logo nos primeiros minutos de filme, quando sem grande dificuldade, Frankenstein cura a corcunda de Igor, resolvendo tudo com uma extração de fluídos e um colete ortopédico; tirando do personagem o símbolo do ícone que deveria representar. Ainda assim, o longa poderia ter rendido algo minimamente palatável se soubesse exatamente que história queria contar, o que claramente não é o caso. Victor Frankenstein transita de forma esquizofrênica entre o horror de ação, o thriller vitoriano e uma ação assumidamente mais aventuresca, com direito a um vilão “estilo James Bond” na figura de Finnegan. As escolhas narrativas e estéticas de Victor Frankenstein fazem do filme uma mistura indigesta do Sherlock da BBC (que teve vários episódios comandados pelo diretor deste filme), o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, e o pavoroso Van Helsing de Stephen Sommers que nunca consegue dar a esta mistura de referências uma unidade coesa.

O filme, em boa parte do tempo, parece querer se apresentar como uma aventura quase satírica, o que pode ser percebido especialmente pela atuação de James McAvoy, que vive o cientista do título de forma deliciosamente efusiva e excêntrica. O Frankenstei de McAvoy um maníaco com uma persona quase infantil, e que claramente não tem a dimensão (e se tivesse, não se importaria) de suas ações. Nesses momentos, percebemos que o projeto de Paul McGuigan poderia ter funcionado como uma comédia gótica de ação, que inclusive cresce quando se permite tirar sarro dos signos ligados ao personagem, como a tempestade e a icônica frase “Está Vivo”.

Mas supostamente este deveria ser um filme contado pela perspectiva de Igor, na prática o nosso protagonista (apesar do título), e é ao tentar abordar as dúvidas e conflitos morais do (ex)corcunda de forma articulada com a maluquice quase paródica em torno de Frankenstein, que a obra se perde. O roteiro parece crer que o romance de Igor com a jovem acrobata Lorelei (Jessica Brown Findlay) será capaz de abrir os olhos do jovem para os erros de seu “benfeitor”, mas a relação nunca convence. A crise de confiança dos dois amigos que surge da revelação de segredos horríveis de Frankenstein não transita bem entre os aspectos cômicos e dramáticos da narrativa, nunca permitindo portanto, que nos envolvamos emocionalmente com os personagens, já que os atores parecem estar atuando em projetos diferentes.

O filme possui um trabalho de direção de arte interessante; retratando uma Londres suja, sombria e caótica. As sequências de ação por sua vez surgem burocráticas e pouco criativas. As criaturas criadas por Frankenstein ao longo do filme são  visualmente pobres, infelizmente, seja aquelas criadas por um CGI pouco convincente (que são a maioria), ou por um trabalho de maquiagem derivativo e pouco inspirado.

Entre tantas aparições do Dr. Franknestein e de seu monstro nos cinemas e na TV, é pouco provável que esta produção seja lembrada como uma adaptação digna da obra de Mary Shelley. A falta de um foco para o filme sobre como explorar os seus protagonistas, que nunca parece se decidir entre uma abordagem mais satírica e uma abordagem mais contida, somada a uma direção trôpega; fazem desta produção uma bomba, que nem mesmo a ciência de Frankenstein conseguiu trazer à vida.

Victor Frankenstein- Estados Unidos, 2015
Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Max Landis (Baseado nos personagens de Mary Shelley)
Elenco: James McAvoy,Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott, Freddie Fox, Charles Dance, Callum Turner, Daniel Mays, Bronson Webb, Alistair Petrie, Mark Gatiss, Louise Brealey, Guillaume Delaunay, Adrian Schiller, Valene Kane
Duração: 109 minutos.

Crítica | Drácula – Minissérie Completa

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Drácula é um dos personagens mais marcantes da cultura contemporânea, massificado pelo cinema, transformado pelas adaptações televisivas, constantemente retomado em quadrinhos, músicas e outros suportes artísticos, representação cabal da ideia de vampiro que temos calcificada em nosso imaginário. Criado por Bram Stoker num período de mudanças culturais importantes para o estabelecimento de novas ordens sociais ao redor do planeta, o aterrorizante, sagaz, manipulador e sensual conde é uma das imagens que neste processo de constante tradução intersemiótica, tornou-se quase impossível de ser reencenado com algum vigor que denote um tom de novidade e oxigenação, algo que nesta versão, ficou sob a responsabilidade dos criadores, Mark Gatss e Steven Moffat, conhecidos por assinar Sherlock e Doctor Who, séries renomadas na televisão britânica.

A missão foi complexa, mas a Netflix bancou a empreitada e assinou a minissérie que estreou em 2020 e pode ser considerado como um dos primeiros acertos do ano, mesmo com algumas inconsistências dramáticas apresentadas da brusca metade ao seu desfecho, digamos, “ousado demais”. Toda essa ousadia com a obra ponto de partida pode ser encarada como algo positivo, pois permite que a obra ganhe caminhos que anteriormente não havíamos percorrido, mas ainda assim, faltou mais cuidado ao pesar a mão e caminhar pela dispersão. Isso, no entanto, será mais delineado adiante. Creio que antes, seja interessante traçar um breve perfil do personagem, alguém que de tão conhecido, aparentemente dispensa apresentações, não é mesmo? É preciso relembrar, no entanto, que diante de tantas abordagens, às vezes esquecemos as bases de sua mitologia, construída historicamente por meio do próprio texto literário e suas interpretações.

No que tange aos aspectos críticos e históricos da obra que nos serve como ponto de partida, isto é, o romance de Bram Stoker, devemos ressaltar que é uma obra guiada por influências românticas, repleta de traços do gótico, elementos que posteriormente influenciariam o teatro, o cinema e as artes focadas na representação. Escrita por Stoker após um pesadelo que envolvia um vampiro que saia do túmulo, situação que o levou a mergulhar em lendas e pesquisas sobre acontecimentos sobrenaturais, Drácula é uma obra que refletiu o tenso contexto de disputas sociais e territoriais dos britânicos, além do medo em relação às doenças. Espelhos e suas simbologias, a ojeriza aos crucifixos, a longa e heroica linhagem familiar do vampiro, o hábito de dormir numa cova, a resistência ao sol, dentre tantos outros tópicos, são explorados numa obra dividida em cinco diários, com traços modernos, apesar de sua alta carga literária romântica.

Desta maneira, Drácula foi um romance que também nos apresentou minuciosas descrições de paisagens e comportamentos que a tornaram um material potencialmente cinematográfico, o que deságua na bem-sucedida adaptação televisiva. Assim, tendo como base o material literário, juntamente com todo o percurso histórico de suas traduções intersemióticas, os três episódios foram dirigidos por Damon Thomas Jonny Campbell e Paul Mc Guigan, todos eficientes em buscar a unidade temática da narrativa como um todo, tendo mudança de tom apenas na virada do segundo para o terceiro e último, algo próprio do texto, não necessariamente da direção. Na trama, Jonathan Harker (John Heffernan) é um advogado recém-formado que recebe a incumbência de ir até o castelo do Conde Drácula (Claes Bang), na Transilvânia, tendo como missão assessora-lo diante de algumas questões burocráticas. O seu relacionamento com Mina (Morfydd Clark) é colocado em modo de espera, algo que exige grande paciência dos envolvidos, pois a estadia do personagem no espaço gótico do vampiro vai demorar mais que o imaginado, além de trazer sequelas inesperadas para todos os envolvidos.

Num ritmo que dialoga com o livro que lhe serve como ponto de partida, há vários flashbacks, todos em paralelo aos relatos de Harker para a Irmã Agatha Van Helsing (Dolly Wells), uma freira bem à frente de seu tempo e com ideias revolucionárias para alguém que além de mulher, atendia às demandas patriarcais da Igreja Católica. Suas perguntas são incisivas, dinâmicas, sem espaço para titubeios, numa postura de alguém que deseja algo além da anotação dos fatos. Ela quer mesmo interpretá-los. Logo adiante, há os primeiros embates, a travessia do conde para a Inglaterra (um dos melhores extensos momentos), com a entrada e saída de um feixe relativamente amplo de personagens que servem de condutores para a evolução de Drácula enquanto personagem dúbio, ansioso por dar contas de suas necessidades dramáticas.

Ele fala como um filósofo, mas faz intervenções como um humorista inteligente, sem nunca ser fútil, mas também sempre diante de discursos encorpados. Sua sede de sangue não poupa ninguém e a viagem na embarcação, contada para um personagem importante depois de um inesperado (óbvio) plot twist, climatizam a transição da série com sua primeira metade em diálogo com o romance, numa narrativa que expõe os fatos como se estivéssemos de fato diante de relatos epistolares, para mais adiante, libertar-se num discurso pop frenético e cheio de liberdades para alguém que vem de uma relativamente longa tradição literária. No tempo presente, Drácula terá como missão, dialogar com Lucy (Lydia West), proposta para ser sua noiva pela eternidade e uma nova versão da personagem de Dolly Wells.

Uma análise que dê conta da minissérie Drácula deve levar em consideração os seus elementos estéticos, apresentados de maneira cuidadosa ao longo dos três episódios de 90 minutos. A dupla formada por Julian Court e Tony Slater Ling assumiu a direção de fotografia, virtuosista, dinâmica, frenética e com seus filtros e tons que mesclam a iluminação estourada em breves passagens, para o horror do vampiro protagonista, em paralelo aos momentos obscuros, trechos que permitem ao vampiro brilhar intensamente com os seus diálogos e presença charmosa. A sua presença diante do design de produção de Arwell Jones é notável, pois os cenários de Hannah Nicholson e os adereços da direção de arte de Harry Trown permite nós, espectadores, possamos mergulhar na atmosfera criada pelos realizadores, reforçada pelos efeitos visuais da equipe de Lukasz Bukowiecki, responsáveis pelas imagens conduzidas pela textura percussiva da dupla formada por David Arnold e Michael Price. Sarah Arthur, ao assinar os figurinos, trabalhou cuidadosamente nos trajes dos coadjuvantes que gravitam em torno do protagonista, um vampiro cheio de estilo, tanto nas cenas do passado quanto nas incursões contemporâneas.

Diante do exposto, Drácula é uma minissérie visualmente deslumbrante, mas dramaticamente estéril? Não, mas também não apresenta uma estrutura favorável para a sua “perfeição” dramatúrgica, ao pecar em suas transições bruscas. A vinda do personagem de 1897 para o mundo contemporâneo é intrigante em seu primeiro momento, mas depois torna a história mais dispersiva, com perda gradual de “tom”. O final, por sua vez, é tão ambíguo quanto a sexualidade de Drácula, personagem que não dispensa um pescoço masculino ou alguma insinuação de tom sexual quando o interesse é conquistar o líquido que o mantém enérgico, isto é, o viscoso e latente sangue humano. A ideia de contaminação, uma discussão já presente no livro de Bram Stoker, ganha na adaptação um novo formato, verossímil, por sinal. Ademais, Claes Bang tem a virtude de criar o seu Drácula próprio, sem precisar emular outras interpretações históricas já renomadas.

Isso é um dos principais pontos que torna a minissérie uma produção com pontos satisfatórios. São tantas falas notáveis que dá vontade de anotar tudo e ficar fazendo cards para postagem nas redes sociais, tamanha a intensidade de seu texto, diante de uma interpretação que tornam as palavras mais interessantes do que de fato já são. É um dos pontos favoráveis que só não ganham melhor desenvolvimento por conta das falhas já mencionadas, mas que acredito, podem ser relevadas diante da atmosférica primeira metade. A forma como nós, humanos, lidamos com a morte, ganha espaço nesta minissérie que não deixa de se posicionar em torno de reflexões sobre vaidade, luxúria, ambiguidade nos relacionamentos sexuais, imagem de aparências nas redes sociais e tantos outros tópicos, numa narrativa que ao trazer o famoso vampiro para outro contexto, não apenas o faz emergir neste espaço, mas o coloca em diálogo crítico com as ideias e objetos que o circundam.

Drácula – Minissérie Completa (Polônia, EUA, 04 de janeiro de 2020)
Criadora: Mark Gatiss, Steven Moffat
Direção: Jonny Campbell, Paul McGuigan, Damon Thomas
Roteiro: Mark Gatiss, Steven Moffat
Elenco: Claes Bang, Dolly Wells, Morfydd Clark, Jonathan Aris, John Heffernan, Lydia West, Matthew Beard, Sacha Dhawan, Mark Gatiss, Joanna Scanlan, Nathan Stewart-Jarrett, Chanel Cresswell
Duração: 3 episódios, com cerca de 90 min.