Maria Dizzia

Crítica | The Neighbors’ Window

Quantas vezes não paramos para observar e para cobiçar a vida alheia? E não digo que fazemos isso de caso pensado ou com algum traço de maldade ou inveja – pelo menos não na maioria das vezes, quero crer -, mas sim como parte natural de nosso dia-a-dia, seja olhando casualmente pela janela de casa, do transporte ou mesmo simplesmente vendo alguém do outro lado da rua ou em alguma praça ou parque. Muitas vezes olhamos e pensamos como aquela outra pessoa ou pessoas tem uma vida melhor que a nossa e como seria bacana se fosse possível trocar de lugar com ela/elas, seja em razão de idade, de dinheiro, de estilo de vida ou de qualquer outra razão.

Se não levada ao extremo, esse olhar vicariante é sadio, podendo refletir ambição, nostalgia, saudade e uma infinidade de outros sentimentos. “Ah, se eu fosse mais jovem”, lamentam os mais velhos e “se fosse mais velho, poderia fazer isso ou aquilo”, afirmam os mais novos. Esse raciocínio, inicialmente estruturado em volta de algo que lembra o clássico Janela Indiscreta, é o que move The Neighbor’s Window (em tradução livre e direta, “A Janela do Vizinho“), primeiro curta-metragem de ficção de Marshall Curry, mais conhecido como documentarista festejado responsável por Briga de RuaIf a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation FrontUma Noite no Madison Square Garden, todos indicados ao Oscar.

Em 20 minutos, Curry nos apresenta ao casal Alli (Maria Dizzia) e Jacob (Greg Keller), pais de duas crianças e esperando uma terceira que descobre que o casal que se mudou recentemente para o prédio em frente não se preocupa muito em fechar as cortinas quando transa ou faz qualquer outra coisa. Alli e Jacob são ainda jovens, mas o casal em frente é ainda mais jovem e, aparentemente, recém-casado, esbanjando energia e virilidade que a dupla de pais simplesmente não tem mais. O tempo passa – e Curry é particularmente eficiente em trabalhar elipses – e o casal indiscreto torna-se basicamente parte da vida de Alli e Jacob, que passam a ter até um binóculo para observar suas ações em maiores detalhes.

A história se desenrola de maneira rítmica, sempre mantendo os casais separados e firmando o ponto-de-vista único a partir dos olhos de Jacob e Alli, especialmente Alli. Claro que há um desenvolvimento narrativo que não abordarei aqui para manter a crítica sem spoilers, mas que serve de deflagrador da relativização completa da situação.

Tudo é feito de maneira muito elegante e a dupla principal de atores tem enorme naturalidade, sendo fácil criar empatia por eles. Curry, no entanto, exagera nas conveniências e no didatismo quando seu curta está para ser encerrado, não deixando absolutamente nada para o espectador concluir por conta própria. As imagens falam por si só, mas o vício de marinheiro de primeira viagem (em obras de ficção) provavelmente levou Curry a escrever um final que só falta ser desenhado em uma lousa. Não é mortal para o aproveitamento da lição do curta, mas é de revirar os olhos pela obviedade.

The Neighbor’s Window, mesmo sendo falho em sua finalização, revela que Curry tem excelente controle de sua câmera e sabe – até certo ponto, pelo menos – escrever apenas com imagens. A simplicidade da história ganha boa execução e a lição, mesmo esfregada na cara do espectador, é valiosa.

The Neighbors’s Window (EUA, 2019)
Direção: Marshall Curry
Roteiro: Marshall Curry
Elenco: Maria Dizzia, Greg Keller, Juliana Canfield, Bret Lada, Sadie Zamulinsky, Tanner Zamulinsky, India Earhart, Niko Perrin
Duração: 20 min.