Louis Garrel

Crítica | O Oficial e o Espião

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Olhar para o passado é uma forma de entender o presente. Se o título internacional do novo filme de Roman Polanski, O Oficial e o Espião, remete apenas a um thriller genérico de espionagem (algo que o filme também não nega), a sua essência se encontra na versão original francesa: J’Accuse. Eu acuso. A poderosa afirmação não só remete ao artigo original escrito por Émile Zola para denunciar a injustiça histórica e antissemita no Caso Dreyfus, como também carrega todo o peso inerente da palavra. Ao ser acusado, tanto na França da Terceira República quanto no mundo cibernético atual, basicamente, você já está condenado. 

Se você está lendo este texto provavelmente já sabe que Polanski é um condenado à prisão por estupro de menor e passa o terço final de sua vida trabalhando com cinema em países nos quais ele não pode ser extraditado. Longe de defender ou ter piedade de um ato monstruoso, mas tento entender a intenção de Roman com O Oficial e o Espião. Ironicamente, a história trata do militar Dreyfus, um judeu injustamente acusado de traição e espionagem pelo Exército Francês, sentenciado a 10 anos de reclusão em uma ilha remota, até que o oficial Picquart decide investigar o caso após encontrar algumas contradições nele.

Hoje, a história já sabe que Dreyfus é inocente e que Polanski é um condenado. Então por que a existência desta produção? Por mais que a camada superficial do roteiro faça do filme uma constante busca pela justiça diante do antissemitismo, seu cerne parece estar em uma outra questão. A honra e a morte social do homem. Em um certo momento do filme, Dreyfus tem a chance de se livrar da pena, contanto que aceite as acusações. Não é isso que interessa a ele. Afinal, ainda que livre, o oficial já sabe que está condenado socialmente. Uma cena mostra ele andando pelas ruas, após sua soltura, até que um homem lhe reconhece e parte para o ataque. De mesmo modo, o ex-prisioneiro clama para que o seu tempo de prisão seja considerado na hora de subir a patente. Assim, o que resta é a sua própria honra e o reconhecimento dentro do trabalho, a única coisa que lhe restou.

Claro, não há como desconsiderar o peso que o antissemitismo carrega em O Oficial e o Espião e que este sempre foi um tema presente na cinematografia do diretor (já podendo ser encontrado no seu magnífico curta Lamp). O roteiro de Polanski e de Harris até não se envergonha em resumir o Exército Francês a uma casta de idosos bigodudos preconceituosos, ao ponto que eu não conseguia mais diferenciar quem era quem no meio de tantos personagens secundários dentro daquela hierarquia militar. Enquanto individualiza os injustiçados de sua história, o mal funciona mais como uma estrutura enraizada.

Aliás, a própria escolha de protagonizar Picquart e tornar Dreyfus um mero secundário, funciona de modo a escancarar essa aniquilação social do personagem até mesmo dentro da própria narrativa. Não há dúvidas de que Polanski poderia fazer de O Oficial e o Espião um excelente drama psicológico de um homem isolado em uma ilha, mas o que importa é, justamente, a maneira como sua condenação funciona dentro de um contexto social. Logo, é justamente através de sua não-presença que Dreyfus ganha força. Ele não está presente, mas a constante menção de seu nome torna sua presença viva. Analogamente, isso é algo que pode ser trazido para os dias de hoje. Quanto mais debatemos sobre os crimes do diretor, mais ajudamos a disseminar seu nome.

Precisamente por reconhecer a força das palavras, boa parte do longa se arrasta por verborragias, nas quais Polanski, como diretor, não faz nada mais do que deixar com que o peso delas seja sentido, o que, inevitavelmente, também se torna cansativo. Curioso, no entanto, como esta decupagem das cenas ajuda a construir todo um tom de distanciamento e afastamento dramático, combinando com a montagem abrupta e as elipses temporais, que anulam qualquer grau de envolvimento tanto dos personagens entre si, quanto nosso. Tudo isso parece estar em sintonia com a própria trivialidade que Dreyfus e Picquart enxergam o caso, em um senso de honra e justiça, até como se fosse uma obrigação, e nada mais do que isso.

Por fim, é possível possível enxergar o novo longa de Polanski apenas como um filme de época visualmente competente, e que trata de maneira eficiente um dos maiores casos da história francesa. Todavia, não deixa de ser muito mais interessante pensar na maneira como o diretor se enxerga, equivocadamente, na figura do inocente Dreyfus e reflete sobre os perigos de uma acusação se tornar uma sentença, causando a destruição da reputação de um homem.  Assim, só consigo concluir que Polanski, a esta altura, ele sabe que o veredito do povo já foi dado há muito tempo. No entanto, em sua cabeça, ao que parece, ele ao menos deseja ser reconhecido pelos feitos na “Instituição” em que ele tanto serviu — O Cinema. A maior dignidade que, na sua cabeça, ele ainda pode guardar.

O Oficial e o Espião (J’Accuse)  – França, Itália, 2019
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, Robert Harris
Elenco: Louis Garrel, Jean Dujardin, Emmanuelle Seigner, Grégory Gadebois, Vincent Pérez, Melvil Poupaud, André Marcon, Mathieu Amalric, Vincent Grass
Duração: 132 min

Crítica | Adoráveis Mulheres

“Cansei de ouvir que, à mulher, cabe somente o amor.”

Apesar de ter marcado presença em seis categorias do Oscar 2020, a nomeação de Adoráveis Mulheres para Melhor Filme acabou pegando muita gente de surpresa, visto que a obra não apareceu em outras premiações. Entretanto, isso de maneira alguma é um demérito ou diminui sua qualidade, já que a nova adaptação do romance escrito por Louisa May Alcott é uma encantadora história de luta e amor, nos mais diversos significados possíveis dessas palavras.

Dirigido por Greta Gerwig, a fita gira em torno, essencialmente, de quatro irmãs: Josephine “Jo” March (Saoirse Ronan), Margaret “Meg” March (Emma Watson), Elizabeth “Beth” March (Eliza Scanlen) e Amy March (Florence Pugh). Filhas de Marmee March (Laura Dern), vivem suas vidas normais e sem grandes luxos enquanto os Estados Unidos passam pela Guerra da Secessão, cuja qual seu pai (Bob Odenkirk) é um dos combatentes. Enquanto aguardam o retorno do único homem da casa, as jovens, todas ligadas ao mundo artístico de alguma forma, precisam lidar com o adoecimento de Beth, que enfrenta uma doença que havia superado mas retornou ainda mais forte.

Os acontecimentos da película se desenrolam num período de sete anos, entre o final e os primeiros anos após o fim da guerra. Para contar os fatos ocorridos ao longo dos anos, a diretora opta por uma narrativa que viaja constantemente entre o presente e o passado. Ainda que logo no início do filme isso cause certa confusão, até pelo uso exagerado de cortes, fazendo a direção apresentar informações demais ao público, Gerwig não demora em acertar a mão e torna essa variação de tempo uma das principais qualidades de sua obra.

Para marcar o passado, onde a família, apesar de apreensiva pela presença do pai na guerra, vive momentos majoritariamente felizes, com as garotas cheias de energia em sua adolescência e com Beth saudável, a direção opta pelo uso de cores extremamente vibrantes tanto no figurino das personagens quanto em toda a mise-en-scène. Além disso, também há o uso bastante alto da saturação, causando uma forte impressão de vivacidade em todas as cenas.

Com relação ao presente, porém, acontece o contrário. A tela fica tomada por cores frias e tons escuros, assim como uma saturação baixa, trazendo tristeza e frieza ao filme, que ficam ainda maiores com as diversas cenas em meio às grandes quantidades de neve.

Essas idas e vindas no tempo também dialogam com os eventos da história. Por exemplo, a relação de Theodore “Laurie” Laurence (Timothée Chalamet) com as irmãs March poderia tranquilamente ser definida dessa forma. Por ter o ar galanteador e ser um jovem abastado, Laurie, mesmo tendo em Jo sua grande paixão, tenta, em maior ou menor grau, alguma investida com todas as March, com exceção de Beth.

Também é interessante perceber como cada área artística influencia na construção das personalidades de cada um. Peguemos a personagem de Ronan, por exemplo. Árdua leitora, Jo March escreve contos e romances e tem o sonho de tornar-se uma grande escritora. Dona de uma personalidade forte e até referida, após determinado incidente, como garoto, ela vai à Nova Iorque com objetivo de conseguir publicar seus escritos. No entanto, esbarra no machismo gritante da época, em que nada do que escreve é bom o suficiente, já que suas histórias possuem personagens femininas fortes e protagonistas e “isso não vende” porque “é heróico demais” e “falta romance”. Mesmo com essas adversidades, seu ímpeto questionador e irrefreável a fazem seguir em frente, demonstrando a influência dos livros em sua formação e sua enorme determinação.

Outro ponto de extrema importância na fita é a trilha sonora. Presente praticamente ao longo de toda a projeção, a composição de Alexandre Desplat é essencial para transmitir toda a emoção da narrativa. Por vezes crescendo gradativamente e em outros casos aparecendo com grande furor, Desplat transforma pequenos momentos em grandes acontecimentos, justificando por completo sua indicação para Melhor Trilha Sonora.

E impossível não comentar sobre o figurino, tão importante para um filme de época. Ainda que sejam absolutamente belas, as peças de roupas criadas por Jacqueline Durran se destacam, de fato, pelas cores. Trabalhando em perfeita harmonia com a paleta de cores, o figurino ajuda a identificar sentimentos e personalidades, como após um triste evento vemos Marmee March completamente de preto a não ser por um lenço vermelho em seu pescoço, marcando não somente seu amor pela pessoa mas também seu amoroso caráter.

Adoráveis Mulheres é uma obra visualmente encantadora e com uma ótima narrativa, que expõe as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no século XIX, criadas com o único propósito de casar, sem abrir mão do romance. Uma mescla de muita qualidade de Greta Gerwig entre a luta e o amor.

Adoráveis Mulheres (Little Women) — Estados Unidos, 2019
Direção: Greta Gerwig
Roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Jayne Houdyshell, Chris Cooper, Meryl Streep
Duração: 135 minutos