Letícia Sabatella

Crítica | Não Por Acaso

Analisado numa escala global, os acidentes de trânsito estão entre uma das dez maiores causas de morte. Não muito distante da AIDS, a causa que muitas vezes pode ser evitada ocupa lugar à frente da malária e diabetes. Responsável por dizimar parte importante da nossa força de trabalho, pois acomete muitos jovens entre 15 e 29 anos, os acidentes de trânsito possuem uma série de consequências que podem ser muito prejudiciais para a vida dos sobreviventes lesados e também para a estrutura de suas famílias e relações de trabalho, abaladas com a modificação de cenário. No bojo dos nossos problemas de saúde pública, temos uma série de enfermidades que não possuem vacina para a cura. Acidentes nesta linha, ao contrário, podem ser controlados. No desenvolvimento de Não Por Acaso, por sua vez, temos dois protagonistas controladores obsessivos, homens que diante de suas manias, não conseguem dar conta de controlar as suas respectivas vidas e a gerencia dos que gravitam ao redor.

A abordagem da abertura desta reflexão, isto é, um trágico acidente de trânsito, mudará ainda mais esse panorama. Sem manter a sua estrutura conectada ao sistema padrão de começo, meio e fim lineares, Não Por Acaso é um drama que nos apresenta o cruzamento de vidas diante de um trágico acidente de carro que interliga duas mortes. Sob a direção de Philippe Barcinski, escrito em parceria com Eugenio Puppo e Fabiana Werneck, o drama retrata o cotidiano de pessoas que precisam mudar a fixidez de suas trajetórias para conseguir se adaptar aos obstáculos que se estabelecem, inesperadamente, de maneira realista dentro de uma narrativa sobre “acasos”. O eixo principal deste processo gravita em torno de Pedro (Rodrigo Santoro), dono de uma marcenaria especialista em mesas de sinuca, e Ênio (Leonardo Medeiros), um engenheiro de trânsito que encontra uma filha já na adolescência e tem a sua vida renovada.

Diante do exposto, podemos observar que Não Por Acaso é um filme de personagens, isto é, trama focada no suposto “acaso” das situações alegóricas para a realidade, dos encontros e desencontros inesperados ou indesejados de nosso cotidiano, mas com direcionamento voltado para a construção da dupla protagonista, Ênio e Pedro, ambos bastante controladores dentro de suas funções profissionais e no decorrer de suas dinâmicas pessoais de relacionamento. Pedro é um cara inseguro, em busca de satisfação no trabalho que exerce. Ênio é um homem frio, carregado pelo destino e colocado numa situação, tal como já dito, inesperada, isto é, a chegada de uma filha desconhecida de 16 anos.

A garota surge logo após a morte da esposa do engenheiro, Mônica (Grazielle Moretto). Assim, em sua vida social plana e de emoções contidas, Ênio passa os dias acompanhando as câmeras de vigilância do trabalho, na antecipação de cálculos para evitar possíveis problemas de mobilidade urbana, dando assim, para São Paulo, o mesmo controle que emprega em sua vida metódica e sem espaço para o improviso. Assim como Ênio, Pedro também é bastante controlador, voltado ao seu trabalho como dono de uma marcenaria que realiza um trabalho meticuloso, tal como o jogo de sinuca, produto disponibilizado por sua empresa. A sua vida também muda vertiginosamente depois do acidente de trânsito que ceifou a vida de sua companheira. Lúcia (Leticia Sabatella), a executiva solitária que mora no apartamento da falecida, será a responsável pelos novos desafios do personagem.

Conforme a divulgação, “Dois segundos podem mudar a sua vida”. Essa é uma das máximas do filme que cruza os personagens principais após o acidente que toma de assalto a vida de suas respectivas companheiras. Esse é o mote “crash” de Não Por Acaso, interligar dois homens que perdem os seus amores em face de uma tragédia que envolve atropelamento e batida. Engavetados diante das mudanças, a dupla de protagonistas passa todo o filme como engenheiros de tráfego em ação diante de suas próprias existências, preocupados em colocar em ordem tudo o que foi transformado em transtorno. Assim, temos personagens bem construídos, um clima dramático bem estabelecido, andamento narrativo pouco favorável aos que buscam entretenimento puro, numa trama que também estabelece como mote outra máxima: “controladores nem sempre estão diante do controle”.

Na seara estética, Não Por Acaso é um filme eficiente, com seus enquadramentos e movimentos que captam a atmosfera de uma versão da cidade de São Paulo, caótica, mas poética, um organismo vivo, basicamente um dos personagens que abriga os demais com suas bicicletas circulantes no Minhocão fechado para os carros durante o final de semana. Tudo isso graças ao trabalho correto de Pedro Farkas na direção de fotografia, conjunto de imagens que ganhou acompanhamento da condução musical de Ed Côrtes, suave, sem momentos excessivamente intrusivos, equilibrados na edição de Marcio Canella. A direção de arte, responsável pelos elementos que compõem a visualidade da narrativa, surge para os espectadores de maneira sutil, com toques envolventes, significados expositivos, também eficientes para a composição geral da trama.

Lançado em 2007, Não Por Acaso é uma produção que no desenrolar de seus 90 minutos, nos permite refletir sobre a necessidade de dar conta dos obstáculos diários que nos são apresentados, muitas vezes, grandiosos, fardos complicados em suas resoluções, noutras, problemas menores, mas que sequer temos força para aplicar uma resolução possível. São tópicos possíveis dentro de uma reflexão voltada especificamente ao conteúdo interno da narrativa. Se pensarmos contextualmente, o enredo apresenta como os acidentes de trânsito são impactantes no bojo da família, esfacelada diante de situações que na maioria das vezes, pode ser evitada, afinal, temos em nosso cenário de mobilidade urbana, uma quantidade significativa de condutores pouco responsáveis e também aqueles desinteressados em cumprir as leis.

Não Por Acaso — (Brasil, 2007)
Direção: Philippe Barcinski
Roteiro: André Pereira, Beatriz Manella
Elenco: Branca Messina, Cássia Kiss, Graziella Moretto, Leonardo Medeiros, Letícia Sabatella, Rita Batata, Rodrigo Santoro, Silvia Lourenço
Duração: 90 min.

Crítica | Querida Mamãe

Cenas de engarrafamento em uma breve passagem e um personagem central a dizer para outro: “presta mais atenção no trânsito da próxima vez”. Um filme sobre o trânsito em São Paulo, considerado um dos pontos mais caóticos da mobilidade urbana contemporânea? Uma narrativa sobre os impactos dos acidentes de trânsito no bojo das relações familiares? Ou então, será um filme sobre como uma situação de mobilidade ocasionou o encontro entre pessoas de necessidades distintas, com desdobramentos que envolvem todos os personagens que gravitam em torno da história? Essas são algumas perguntas que podem surgir diante da premissa de Querida Mamãe, drama inspirado na peça teatral de Maria Adelaide Amaral. Em resposta ao primeiro questionamento, não, a trama não é sobre mobilidade urbana, tampouco, em resposta ao segundo questionamento, é uma narrativa sobre os impactos dos acidentes no seio familiar.

A terceira questão é a mais próxima do filme, nó instalado para ser desatado pelos personagens ao longo dos desdobramentos dramáticos. Sob a direção de Jeremias Moreira Filho, a produção lançada em 2007 retrata, ao longo de seus 95 minutos, o cotidiano nada agradável de Heloísa (Letícia Sabatella), uma médica que vive um casamento tedioso com Sérgio (Morat Descartes), publicitário que vive num mundo de inovações, mas se apresenta constantemente com postura machista extraída de narrativas dos anos 1950. Para piorar, a profissional precisa lidar com Priscila (Bruna Carvalho), a sua filha problemática, tal como toda adolescente chata que se preze. O leitor pode se perguntar: fica pior? Sim, ela ainda odeia profundamente a doméstica que trabalha em sua casa há décadas e possui conflitos não resolvidos com a sua mãe, Ruth (Selma Egrei). É a presença do caos em todas as instâncias da vida desta protagonista.

Em suma, Heloísa é uma mulher tremendamente amarga. Vive também uma crise na profissão e seus dias se tornam mais coloridos quando atende Leda (Cláudia Missura), uma artista plástica que provoca em seu interior uma erupção de sentimentos nunca antes expressados. Como é constantemente divulgado, ocorrências na seara do trânsito ocasionam danos de ordem física, psicológica, além de custos na economia. Considerado como uma das principais causas de morte no mundo inteiro, as sequelas físicas e psicossociais tornam tais acidentes um problema de saúde pública, tratado no roteiro de Querida Mamãe como uma breve, mas pontual motivação para colocar personagens diante de seus dilemas e necessidades dramáticas. Será na paixão súbita pela paciente que a médica mudará bruscamente a sua vida, numa instalação de rebeldia bastante estrondosa para a vida de todos: sua mãe, marido e filha.

Após onze anos de espera pela versão cinematográfica, o público que conhecia o texto teatral teve a oportunidade de conhecer a tradução intersemiótica de Querida Mamãe e o resultado artístico não foi satisfatório. Como dito na abertura, não estamos diante de um filme sobre trânsito, mas de alguma forma retrata as suas consequências, pois foi por meio de um acidente que Heloísa conheceu a mulher que mudou à sua maneira de ver as coisas, sempre nubladas, cinzentas e sem perspectiva. A trama nos faz refletir sobre danos que ultrapassam as questões físicas. Há, na família de Heloísa, cicatrizes psicológicas aparentemente irreparáveis, num feixe de mágoas circular e danoso. Todos estão muito agressivos, bruscos, teatrais, o que nos mostra que mais uma vez, um filme brasileiro não consegui compreender que o desempenho dramático em cinema segue outro viés, diferente dos palcos, algo que a direção não soube guiar e por isso, transformou a narrativa numa composição de diálogos e entonações tediosas que não dialogam com elementos substanciais da linguagem audiovisual.

Diante do exposto, nem para novela Querida Mamãe se adequa. A trilha sonora de Marcos Levy não é lá muito intrusiva. Não traz nada de memorável, mas também não ajuda na decomposição do filme, algo que é problema exclusivo de sua adaptação entre suportes e falha por conta de quem assumiu o comando da história. Os conflitos, como é de se esperar, não avançam. Os personagens tentam, por meio de seus desempenhos histriônicos, se movimentar, mas o texto impede qualquer evolução. Sem progressão, o tédio se estabelece com total força, espalhado pelos espaços concebidos por Antonio de Freitas e sua direção de arte pálida, sem vida, tal como os personagens e o próprio filme. A reflexão sobre a falta de comunicabilidade e forte preconceito dentro de uma família em forte crise interna é perceptível, mas faltou uma condução melhor por parte da realização, tão desgovernada quanto o acidente que quase ceifou a vida de um dos personagens e deu pontapé para os conflitos da história desta trama falha.

Querida Mamãe — (Brasil, 2017)
Direção: Dani Carneiro, Jeremias Moreira Filho
Roteiro:Dani Carneiro, Jeremias Moreira Filho
Elenco: Adolfo Moura, Amanda Magalhães, Anderson Mr. Guache, Bruna Carvalho, Calú Araripe, Carla Masumoto, Claudia Missura, Fernanda Viacava, Genésio de Barros, Graça Andrade, Leandro Mazzini, Lena Roque, Letícia Sabatella, Lucas Branco, Manuela Freire, Marat Descartes, Marcos Reis, Mateus Sousa, Selma Egrei
Duração: 95 min.