Leo G. Carroll

Crítica | Agonia de Amor

Agonia de Amor (The Paradine Case) – EUA, 1947 plano crítico cinema

estrelas 3,5

Agonia de Amor não é apenas um trabalho pouco conhecido de Alfred Hitchcock. O filme também é mal visto pela crítica e pelo público em geral, sendo muitas vezes subestimado devido ao forte teor romântico que lhe pontua o roteiro: um triângulo amoroso que envolve “Tony” Keane (Gregory Peck), sua esposa Gay Keane (Ann Todd) e a femme fatale Sra. Paradine (Alida Valli).

Os planos iniciais de Hitchcock eram de fazer o filme com um elenco principal completamente diferente. No lugar de Gregory Peck encarnando o papel do advogado que se apaixona pela sua cliente e deixa a objetividade profissional de lado para tentar provar a inocência da acusada sem cogitar a possibilidade de ela ter cometido o crime, o diretor queria Laurence Olivier ou Ronald Colman. Segundo o cineasta, Peck não combinava em nada com o papel que precisou representar aqui, algo com o qual concordo plenamente. O ator está visivelmente desconfortável no papel, chega muitas vezes a parecer cômico na representação do advogado e só logra uma boa presença em tela nos momentos em que se debate, longe dos tribunais, com a paixão inflamável que o acomete.

No papel da Sra. Paradine, uma ninfomaníaca acusada de ter matado o marido cego para poder ficar com o amante e cavalariço do falecido Sr. Paradine, Hitchcock queria ninguém menos que Greta Garbo, mas a insistência de Selznick venceu e Alida Valli foi escalada para o papel, mesmo processo que ocorreu na contratação de Gregory Peck. Só que Alida Valli está bem no papel e representa de forma fria e parcialmente sedutora a mulher de forte personalidade à qual deveria dar vida, uma postura que é grandemente ajudada pela trilha sonora, que tem um papel predominante no filme e, nas cenas em que a Sra. Paradine aparece, ganha temas fortes, com as cordas em crescendo, um pequeno arranjo para piano ao fundo e leve melodia dos metais. Esses mesmos temas potentes voltam a aparecer nos blocos amorosos entre o casal Keane, especialmente no destaque à solidão de Gay Keane (uma ótima atuação de Ann Todd) que se percebe “traída” ou “abandonada” pelo marido assim que ele assume o “Caso Paradine”.

Mas, segundo Hitchcock, o maior erro das escalações foi Louis Jourdan para o papel do cavalariço e amante da Sra. Paradine. O cineasta queria que Robert Newton vivesse o personagem: ele pensava em um ator que tivesse compleição rude, bruta e que tivesse “mãos ganchudas, que nem um diabo!“, segundo suas próprias palavras. Levando esse lado em consideração e notando a colossal diferença positiva que Newton traria para o papel e para a trama como um todo, somos obrigados a concordar com o diretor.

Depois de vencer uma intensa batalha com Selznick  no ano anterior, onde conseguiu a muito custo contratar o “casal ideal” (Ingrid Bergman e Cary Grant) para os papéis principais de Interlúdio (1946), Hitchcock era agora vencido pelos aspectos contratuais e de produção impostos por Selznick, o que fez de Agonia de Amor um filme pouco intenso na questão de elenco, mas em contrapartida, notadamente interessante no plano técnico. Já citei a grande importância da trilha sonora para essa obra, mas este é apenas um detalhe dentre outros aqui encontrados.

A primeira hora da projeção é centrada na apresentação das personagens, na paixão repentina de “Tony” Keane pela Sra. Paradine, o desenvolvimento do caso antes do julgamento e o surgimento enigmático de André Latour, inicialmente envolto em sombras e depois mostrado quase que num rompante para o espectador. Esse pequeno suspense intensifica ainda mais as suspeitas e suposições do público, que não sabe ao certo quem escolher para mocinho e vilão ou mesmo sobre o que pensar a respeito da acusada e de Latour, que se torna cada vez mais presente no texto fílmico a partir desse ponto.

Os 50 minutos finais da fita trazem o julgamento como principal foco, com certeza, a melhor parte da obra, exceto pela desconfortável e até constrangedora atuação de Gregory Peck. Em contrapartida, temos a excelente presença de Charles Laughton como o Juiz do caso e uma inesquecível sequência com Ethel Barrymore, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação nesse filme.

É certo que a linha do romance ou o grandioso foco matrimonial, além de um elenco pouco à vontade, tenham sido decisivos para fazer de Agonia de Amor um filme aquém do que se podia esperar de Alfred Hitchcock. Mas seria um pecado desprezar a obra unicamente por esses elementos. Mesmo não estando entre as melhores direções do Mestre, a trama garante bons momentos para o público, além de um bom sentimento de espera pelo desfecho dos fatos – mesmo que isso fique óbvio em algum ponto – e uma discussão interessante sobre paixão, deveres profissionais, neutralidade no julgamento e casamento. Como sempre, componentes da vida e do comportamento humano dissecados em um enredo fílmico de hitchcockiano.

  • Crítica originalmente publicada em 22 de agosto de 2016. Revisada para republicação em 26/03/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e da elaboração da versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

Agonia de Amor (The Paradine Case) – EUA, 1947
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro:  Alma Reville, David O. Selznick, James Bridie, Ben Hecht (baseado na obra de Robert Hichens)
Elenco: Gregory Peck, Ann Todd, Charles Laughton, Charles Coburn, Ethel Barrymore, Louis Jourdan, Alida Valli, Leo G. Carroll, Joan Tetzel, Isobel Elsom
Duração: 125 min.

Crítica | Quando Fala o Coração

Spellbound-1945 quando fala o coração plano crítico

Um dos primeiros filmes em Hollywood a trabalhar abertamente com a psicanálise em seu enredo, Quando Fala o Coração (Spellbound, no original) teve uma produção fortemente marcada por divergências entre o diretor Alfred Hitchcock e o produtor David O. Selznick, indo do tratamento do tema psicológico que o britânico não levava muito a sério e para o qual o seu chefe queria uma abordagem com flertes quase documentais… até a contratação dos atores principais e o uso da famosa “cena do sonho” no filme, que dos cerca de vinte minutos filmados acabaram entrando apenas dois no corte final.

O roteiro de Ben Hecht e Angus MacPhail se baseia no livro The House of Dr. Edwardes, escrito por Francis Beeding (pseudônimo de Hilary A. Saunders e John Palmer) em 1937, obra para a qual Hitchcock havia pedido a Selznick que obtivesse os direitos. No texto para o cinema, o dilema ficou centrado no relacionamento entre a Doutora Constance Petersen (Ingrid Bergman) e John Ballantyne (Gregory Peck). Ela, uma psiquiatra de boa formação e construindo uma boa carreira. Ele, um homem com amnésia e envolvido em um crime sobre o qual ninguém tem muitas informações, ou seja, um prato cheio para o diretor trabalhar narrativas de culpa, de caça ao inocente e de corrupção de uma boa realidade (ou personalidade) por alguém ou algo essencialmente ruim, contaminador.

O problema é que o roteiro não consegue se desvencilhar do romance. Desde que é estabelecido, esse aspecto do texto interfere na construção óbvia (mas chamativa) de uma questão identitária somada a um dilema moral e um problema jurídico a ser considerado, tudo isso pelos olhos da psicanálise. Em suma, conteúdo relevante é o que não faltava para ser trabalhado aqui, e em partes da obra até conseguimos ver o impacto desse tipo de abordagem, trazendo o melhor dos atores, os pontos mais impactantes da oscarizada trilha sonora de Miklós Rózsa e do verdadeiro suspense que o enredo se propõe dissecar.

A dúvida sobre a identidade de John abre caminhos para que questionamos se ele é perigoso ou não, se ele de fato cometeu o crime e se ele conseguirá provar a sua possível inocência. Em certa medida, o amor entre ele e a personagem de Ingrid Bergman consegue funcionar como aditivo dramático (veja, por exemplo, a tensão nas cenas da estação de trem e na chegada à casa do Dr. Alexander Brulov — personagem de Michael Chekhov, em excelente atuação), mas as declarações açucaradas e deslocadas estragam praticamente tudo, assim como as atitudes irresponsáveis vindas da Doutora Constance, que só poderiam ser aceitáveis se estivéssemos num melodrama de Douglas Sirk, o que não é caso.

O lado psicológico pode parecer um capricho no desenvolvimento da obra, mas paga muito bem a nossa espera quando as respostas são dadas, no excelente clímax. Criando maior suporte aos símbolos e a diversas interpretações possíveis para o que o foragido está passando, temos a icônica e sensacional sequência do sonho que foi desenhada por Salvador Dalí e dirigida por William Cameron Menzies (Hitchcock queria que Josef Von Sternberg dirigisse esse bloco, mas não foi possível). Toda a sequência recebe um aplaudível tratamento de “interpretação e resposta” na parte final, com um serviço inteligente de pegar informações do subconsciente e transformá-las em eventos em torno do misterioso assassinato, levando-nos ainda para um baita desfecho satisfatório. É uma pena que a obra dê atenção demais ao seu lado romântico e não foque exclusivamente no suspense e no olhar psicanalítico, aquilo que ela tem de melhor, mas também não é um filme que nos faz terminar a sessão plenamente insatisfeitos com o que vimos.

Quando Fala o Coração (Spellbound) — EUA, 1945
Direção: Alfred Hitchcock, William Cameron Menzies (apenas sequência do sonho)
Roteiro: Ben Hecht, Angus MacPhail
Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming, John Emery, Norman Lloyd, Bill Goodwin, Steven Geray, Donald Curtis, Wallace Ford, Art Baker, Regis Toomey, Paul Harvey, Jean Acker, Irving Bacon, Edward Fielding, Jacqueline deWit, Erskine Sanford
Duração: 111 min.

Crítica | Suspeita

estrelas 4

Quando Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos em 1939, ele começou uma impressionante carreira de muitos acertos. Com Rebecca, seu primeiro filme em solo ianque, ele foi indicado a “meros” 11 Oscars, levando os de filme e fotografia. Em seguida, com Correspondente Estrangeiro, ele foi indicado a mais seis Oscars, mas não amealhou nenhum. Seu terceiro filme, sua única comédia de verdade, Um Casal do Barulho (esse título “sessão da tarde” é ruim demais…), foi um grande sucesso de bilheteria em 1941 e passou a década de 40 sendo adaptado algumas vezes para o rádio e uma vez para o teatro, tamanha sua fama.

Assim, o diretor já tinha uma enorme bagagem de sucessos em território americano e podia se dar ao luxo de escolher seus roteiros e foi o que ele fez com Suspeita, baseado em romance de Anthony Berkeley, escrito a seis mãos, duas delas de sua esposa, Alma Reville, e companheira por toda a vida e peça fundamental para seu sucesso. Assim como no caso de Rebecca, apesar da produção ser americana, Suspeita é tipicamente um suspense britânico, carregado da tensão e das reviravoltas que marcariam a carreira do (ainda em formação) Mestre do Suspense, passado na Inglaterra e contando até com a presença de uma dama e um cavaleiro da Ordem Britânica no elenco (Sir Cedric Hardwicke e Dame May Whitty). A fita também marca a volta de Joan Fontaine a um filme do diretor e a primeira parceria dele com Cary Grant, que geraria outras três grandes obras até 1959.

A narrativa começa bruscamente, sem nenhum tipo de explicação ou tempo para respirar, com o mulherengo Johnnie (Grant) dividindo um vagão da 1ª classe de um trem com a solteirona Lina (Fontaine), mas entregando ao conferente um tíquete de 3ª classe. Ele tanto faz que acaba conseguindo ficar no vagão e olhares são trocados. Sem perder tempo, um romance primeiro platônico se inicia e, depois, vem algo mais sério, resultando no casamento dos dois. Acontece que Johnnie é um salafrário mentiroso, o típico “171”, algo que fica claro desde a sequência no trem, mas Lina, perdidamente apaixonada, acaba tendo que lidar com os vícios de seu marido, o mais importante deles sendo uma certa ojeriza a qualquer coisa que se relacione a “trabalho”.

Os imbróglios em que Johnnie se mete vão se aprofundando e nós, espectadores, vendo o que está acontecendo por intermédio unicamente dos olhos de Lina, ficamos desesperados e torcemos pela heroína, ainda que entendamos que ela não pode simplesmente largá-lo, pois há amor no meio. Resta saber se ele no mínimo é correspondido.

Hitchcock usa todos os truques que conhece para despistar o espectador, fazendo como um mágico faz ao subir no palco. Poucos personagens coadjuvantes são introduzidos: apenas o pai e a mãe de Lina (o cavaleiro e a dama da Ordem Britânica), Beaky (Nigel Bruce), um amigo/cúmplice de Johnny e Isobel (Auriol Lee), uma amiga de Lina e escritora de romances policiais. Com isso, ele tem tempo de trabalhar a excelente química existente entre Grant e Fontaine, unindo e separando o casal com as mais diversas situações suspeitas. Quando Beaky finalmente entra na trama no segundo ato e funciona como peça-chave para o terceiro, Hitchcock consegue usar a narrativa de forma que ele seja um elemento importante para o andamento da obra e não alguém que está lá para preencher a tela. Com Beaky, por exemplo, Hitchcock usa jogos de tabuleiro para criar pistas visuais (nada discretas, aliás) e para contrastar a esperteza de Johnny com a aparente inocência de Beaky.

A trilha sonora também é fundamental para a criação do suspense, como Hitchcock mesmo faria de maneira quase que insuperável em Psicose.  Usando Wiener Blut, valsa de Strauss, como tema constante para o casal, ele manobra a composição, alterando seu tempo e seu arranjo para passar sentimentos completamente diferentes, como alegria, tensão e tristeza. Franz Waxman (que viria a trabalhar em Janela Indiscreta) compõe o resto da premiada trilha original, com notas fortes e eletrizantes quando a narrativa exige, mas sem uma qualidade marcante, que realmente deixe uma impressão duradoura.

Hitchcock, porém, mesmo com um material fonte interessante para trabalhar e que ele torna ainda mais interessante em filme, acaba errando com a utilização de Isobel. Apesar da personagem ser introduzida razoavelmente cedo na estrutura da obra, ela ganha uma desproporcional atenção no terço final, algo que não é nem esperado e muito menos orgânico para o desfecho, ainda que importante. Parece até que algo foi “perdido” na mesa de montagem, assim como acontece com a brusquidão do início da fita, que nos joga os personagens no colo de forma pouco ortodoxa.

Mas Suspeita funciona muito bem apesar de seus problemas aqui e ali. A manutenção do suspense por Hitchcock literalmente até os segundos finais do filme e as excelentes atuações do atores principais fazem da quarta empreitada do diretor em solo americano uma delícia de diversão, com um charme irresistível. Não à toa, ele concorreu a três Oscars, de melhor filme (a terceira indicação consecutiva de um filme de Hitchcock nessa categoria), trilha sonora e melhor atriz, levando o de atriz (Fontaine), a única vez em que um ator em obra do Mestre do Suspense ganharia esse prêmio. Nada mal para um britânico perdido no Novo Mundo, não é mesmo?

  • Crítica originalmente publicada em 28 de fevereiro de 2014. Revisada para republicação em 11/02/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do Mestre do Suspense e da elaboração de uma versão definitiva do Especial do diretor aqui no Plano Crítico.

Suspeita (Suspicion, EUA – 1941)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison, Alma Reville (baseado em romance de Anthony Berkeley)
Elenco: Cary Grant, Joan Fontaine, Cedric Hardwicke, Nigel Bruce, Dame May Whitty, Isabel Jeans, Heather Angel, Auriol Lee, Reginald Sheffield, Leo G. Carroll
Duração: 99 min.

Crítica | Rebecca, A Mulher Inesquecível

estrelas 4,5

François Truffaut: Está satisfeito com Rebecca?

Alfred Hitchcock: Não é um filme de Hitchcock. É uma espécie de conto e a própria história data do fim do século XIX. Era uma história bem velhinha, bem fora de moda. Naquela época havia muitas escritoras: não tenho nada contra, mas Rebecca é uma história sem nenhum humor.

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Alfred Hitchcock mudou-se para os Estados Unidos no final de 1939, a convite do badalado produtor David O. Selznick, que tinha acabado de lançar …E O Vento Levou. A princípio, o diretor britânico estrearia em Hollywood com uma adaptação de Titanic, mas Selznick mudou de ideia sobre o projeto e, aproveitando a simpatia de Hitchcock para com a obra de Daphne Du Maurier (de quem já adaptara para o cinema A Estalagem Maldita e futuramente viria adaptar Os Pássaros), comprou os diretos do romance Rebecca e se propôs a produzir o filme, com Hitchcock na direção.

Apesar de Rebecca marcar a estreia do Mestre do Suspense nos Estados Unidos, trata-se na verdade de um filme tipicamente britânico, com a maior parte do elenco principal composto por britânicos. Assim, Hitchcock se sentiu em casa no quesito “equipe de trabalho” e, mesmo que tivesse Selznick dando ordens e interferindo nas filmagens com frequência, a produção não foi difícil, apenas não foi prazerosa para o diretor, que além do produtor rigoroso, tinha que lidar com um romance de época num momento de sua carreira em que o suspense já se alvorava no topo de suas ambições de filmagem.

A história é dividida em duas partes dramáticas. Na primeira, temos Maxim de Winter (Laurence Olivier) e a futura segunda Sra. de Winter (Joan Fontaine), personagem que nunca é chamada pelo nome… um mistério que o diretor segura até o fim da obra, sem nos revelar. Essa primeira observação é interessante porque mostra muita coisa da personalidade dependente e subserviente dessa jovem senhora que se casa com um homem cuja esposa falecida é adorada e lembrada por todos à sua volta.

Já a segunda parte do filme acompanha o longo caminho percorrido pela personagem de Joan Fontaine para se adaptar à casa e conquistar o seu lugar num mundo que parece só haver espaço para Rebecca, a mulher inesquecível.

A despeito da indiferença de Hitchcock para com o filme, trata-se de uma obra verdadeiramente notável, um início esplêndido do cineasta em Hollywood. O suspense não é o verdadeiro gênero da película, mas o drama psicológico que se desenrola na tela tem uma forte presença de elementos caros ao diretor, algo que foi ressaltado a contento no roteiro e também na concepção estética, partindo da música marcante de Franz Waxman e da excelente direção de arte de Lyle R. Wheeler, que tinha acabado de receber um Oscar por seu trabalho em …E O Vento Levou.

Hitchcock guia a história por um caminho que não só engana e prende o espectador como também o faz perceber a mudança visual de um ponto a outro da fita. Enquanto o casal protagonista está em Monte Carlo, percebemos um maior número de cenas em externas, fotografia mais clara e ambientes menores e bastante preenchidos, deixando claro uma aparência de verão feliz e amor nascente. Todavia, quando a jovem Sra. de Winter chega à nova casa, vemos aumentar drasticamente o número de cenas em internas, presença de cenas noturnas, prenúncio de tempestade, névoa e cômodos sempre muito grandes, deixando a personagem de Joan Fontaine pequena e perdida em meio a tanta pompa e na overdose de objetos e hábitos da falecida Rebecca. E quando a verdade vem à tona, de uma maneira orgânica e num acertado ritmo dramático, o espectador fica sem chão.

Durante o filme, tem-se a oportunidade de presenciar todo tipo de comportamento, desde ameaças e medo até demonstrações de amor, uma avalanche de sentimentos que desembocam no final com a medonha Sra. Danvers defendendo o santuário de sua amada e antiga patroa e a teia que a todos prendia se desfazendo, mesmo que o ambiente que lhe sustentara ainda pairasse na cena final.

Rebecca, a Mulher Inesquecível é um grande filme de Alfred Hitchcock, um drama de característica misteriosa com direito a dominação psicológica, tormentos e acusações a uma jovem frágil e sem grande poder de ação para mudar um mundo que parece querer afastá-la a todo custo. Poucos diretores conseguiram trabalhar tão bem pela primeira vez fora de casa, realizando um filme que não tinha lá muito appeal e um produtor ao estilo da personagem da Sra. Danvers. Isso só mostra o quão afiado Hitchcock estava a essa altura de sua carreira, depois de passar anos treinando e aprendendo em sua terra natal. Agora, com maior orçamento, mais experiência e melhor equipe de produção, ele estava pronto para mostrar que sabia fazer grandes filmes e Rebecca é o primeiro passo desse notável momento.

  • Crítica originalmente publicada em 18 de março de 2014. Revisada para republicação em 25/01/20, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca) – EUA, 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, Philip MacDonald, Michael Hogan (baseado na obra de Daphne Du Maurier).
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Gladys Cooper, Florence Bates, Melville Cooper.
Duração: 130 min.