Kirsten Beyer

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning

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Remembrance teve a difícil, mas vitoriosa tarefa de reintroduzir Jean-Luc Picard para a audiência moderna, dando conta de uma trama completamente nova e ao mesmo tempo profundamente enraizada na mitologia do adorado personagem de Patrick Stewart. Maps and Legends, por seu turno, carregou no texto expositivo para correr com a contextualização, muitas vezes se socorrendo de conveniências e esquecendo de fazer pleno uso do meio audiovisual. The End is the Beginning, o terceiro episódio seguido dirigido por Hanelle Culpepper, parece fechar a “trilogia introdutória” da 1ª temporada de Star Trek: Picard, introduzindo três novos personagens (na série), desenvolvendo o lado de Soji no cubo Borg e, claro, finalmente colocando o ex-almirante novamente no espaço.

É muita coisa para abordar em tão pouco tempo, sem dúvida, mas o roteiro de Michael Chabon e James Duff consegue equilibrar melhor exposição com ação, entregando um episódio mais redondo que o anterior que, porém, continua com problemas, mais notavelmente o “paraquedismo” de personagens e de saídas fáceis para questões complexas. Mesmo assim, considerando as quase duas décadas que separam a última aparição de Picard em qualquer tela e a retirada do personagem de sua aposentadoria bucólica em seu vinhedo francês, The End if the Beginning, quando visto em conjunto com os capítulos anteriores, estabelece muito bem a premissa da temporada, engajando o espectador nessa nova aventura e prometendo muito para o que vem por aí.

Iniciando com um flashback que marca o fim da carreira do protagonista na Frota Estelar e que estabelece a razão do relacionamento mais do que estremecido dele com a comandante Raffi Musiker, sua segunda em comando (como é visto em mais detalhes no prelúdio em quadrinhos Star Trek: Picard – Contagem Regressiva), que o culpa por abandonar seu posto e basicamente condená-la ao ostracismo, algo que é reiterado pelo doloroso diálogo dos dois no presente, no trailer de Musiker – vivida por Michelle Hurd – no meio de nada com lugar nenhum. O fascinante nesse aspecto é o esforço que a série faz para desconstruir a imagem perfeita que temos de Jean-Luc Picard. O comandante altivo de A Nova Geração dá lugar a um homem extremamente orgulhoso, que não é capaz de enxergar sua própria arrogância. Musiker coloca mais uma pá nessa cova do “Super Picard” quando joga na cara do ex-almirante sua incapacidade de procurá-la depois de tanto tempo, só fazendo quando precisa de um favor particularmente complicado. E quem achar que isso é um desrespeito ao personagem, pensem novamente, pois isso é, na verdade, uma grande homenagem a ele. Perfeição não tem espaço em uma série de valor e essa humanização de Picard é absolutamente essencial para seu personagem funcionar de verdade em tempos modernos, isso sem falar que a exposição dessas suas características negativas está em consonância com o que ele sempre demonstrou ser, mas que as lentes bondosas anteriores apenas procuravam focar nos aspectos positivos.

A introdução de Cristóbal “Chris” Rios (Santiago Cabrera) e de seu divertido holograma de emergência, que é uma versão menos desgrenhada de si mesmo, carece de qualquer sutileza. Depois de uma sugestão da rabugenta Musiker, Picard simplesmente aparece na impecável ponte da nave do piloto que, ato contínuo, ganha alguns minutos contextualizadores – com e sem Picard – que é mais uma amostragem de um roteiro que precisa correr para firmar sua história. A questão é que isso poderia ser evitado se essa trilogia inicial tivesse balanceado a aparição de seus personagens, talvez trazendo Musiker mais para o começo, o que permitiria que Rio entrasse mais cedo, sem que fosse necessário recorrer a diálogos que didaticamente estabelecem quem ele é e o que ele pensa da Frota Estelar em geral e de Picard em particular. Ou isso ou esses elementos poderiam simplesmente ser introduzidos mais vagarosamente nos próximos capítulos. Seja como for, o personagem em si parece ser interessante e Cabrera parece muito à vontade no papel.

A ação no Château Picard, com os romulanos assassinos chegando para eliminá-lo, por seu turno, foi um ótimo momento de ação pura, com excelentes coreografias que, muito acertadamente, mantiveram Picard comendo pelas beiradas, só se aproveitando dos estragos causados pelos mais do que eficientes Laris e Zhaban. Isso é essencial para a verossimilhança da série, que não pode simplesmente jogar um octogenário no meio da pancadaria sem tornar tudo ridículo. Tudo bem que a entrada providencial da doutora Agnes Jurati foi o típico momento clichê para fazer olhos rolarem, mas esse é um pecado menor no contexto geral.

Lá no cubo Borg, que tem a ação paralelizada – em seu fim – com o que acontece na residência de Picard, vemos Soji começar a despertar para o que realmente é: uma androide. A forma como isso é executado, porém, pareceu-me desnecessariamente confusa, a começar pela (re)introdução de Hugh, o ex-drone Borg vivido mais uma vez por Jonathan Del Arco, que deu vida ao personagem em três episódios de A Nova Geração. Agora diretor do Artefato, ele mostra sua admiração por Soji, permitindo-a que entreviste uma romulana que também fora drone Borg. Tudo bem que o objetivo era reiterar a importância de Soji para a temporada, inclusive apelidando-a de “A Destruidora”, mas a trama, aqui, pareceu-me cheia de idas, vindas, explicações estranhas e invencionices que atrapalharam a fluidez da narrativa, algo que nem mesmo a direção firme de Culpepper conseguiu corrigir com eficiência. De certa forma, pareceu um enorme derramamento de mitologia em questão de pouquíssimos minutos que acabou quebrando a tensão do momento.

Seja como for, agora a equipe de Picard parece estar formada, com um objetivo mais ou menos estabelecido (conveniente pacas deixar Musiker achar Bruce Maddox offscreen, não?), a série pode finalmente começar de verdade, sem precisar enxertar mais história pregressa ou salpicar a trama de elementos complicadores só pela vontade de complicar. Por vezes, a simplicidade é o melhor caminho e JL, com toda sua calma e empáfia, parece saber bem disso.

Star Trek: Picard – 1X03: The End is the Beginning (EUA, 06 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Michael Chabon, James Duff
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco
Duração: 43 min.

Crítica | Star Trek: Picard – Contagem Regressiva

É quase que uma regra: hoje em dia, tie-ins em quadrinhos de filmes ou séries de TV na forma de prelúdios ou adaptações não são muito mais do que caça-niqueis que pouco ou nada acrescentam à mitologia e parecem obras apressadas, feitas de qualquer jeito só para cumprir tabela. Mas, ainda bem, toda regra tem exceção e o prelúdio de Star Trek: Picard, lançado como uma minissérie de três edições pela IDW Publishing, é uma grata surpresa.

A editora tem os direitos sobre a franquia Star Trek há alguns anos e tem feito um trabalho bastante abrangente sobre esse vasto universo, incluindo obras que complementam a também recente Star Trek: Discovery, mas sem jamais esquecer das séries clássicas. Era de se esperar, portanto, que Star Trek: Picard ganhasse algum tratamento em quadrinhos e a decisão de se fazer uma história que se passa antes da série faz absolutamente todo sentido possível considerando o “vácuo” que existe entre Jornada nas Estrelas: Nêmesis e o velho Jean-Luc Picard, agora almirante, saindo de sua aposentadoria no bucólico Château Picard.

Os eventos abordados no breve prelúdio, portanto, tratam diretamente de um momento marcante na carreira do capitão, quando ele saiu do comando da Enterprise para o comando da U.S.S. Verity, nos esforços para evacuar os romulanos de seu império, agora ameaçado pela supernova de seu sol. Tendo como imediato a especialista em cultura romulana, comandante Raffi Musiker, Picard logo se encarrega de viajar até Yuyat Beta, colônia romulana que a Frota Estelar sequer sabia de sua existência, para retirar de lá 10 mil colonos. Toda a primeira edição é dedicada à contextualização desse novo status quo para Picard, com o cuidado de tornar bastante explícita a animosidade das autoridades romulanas em relação à evacuação de seus planetas, já que esses esforços são vistos não como uma estratégia humanitária, mas sim como um engodo para a dominação do império pela Federação dos Planetas. Ou seja, são os romulanos sendo romulanos.

O que parece ser uma missão razoavelmente corriqueira para Picard, que vinha se dedicando a esses esforços há quatro anos, logo se complica quando o almirante descobre que há quatro ou cinco milhões de seres nativos de Yuyat Beta que foram escravizados pelos romulanos e que os romulanos, comandados pela Governadora Shiana, não querem que seja evacuados. Picard sendo quem é não demora e entra em conflito com seus anfitriões, somente para envolver-se em uma revolta que conta com a ajuda do casal romulano Zhaban e Laris que, na série, são os ajudantes de Picard em seu vinhedo e que, aqui, ganham uma interessante história pregressa como agentes do Tal Shiar, grupo dissidente secreto com ambiciosa agenda própria.

Kirsten Beyer e Mike Johnson têm uma tarefa ingrata na minissérie, pois ela é curta demais para o tamanho da história que criaram. Mas há que comendá-los pelo seu poder de concisão nas três curtas edições que trabalham desde a contextualização necessária, até as várias reviravoltas que a missão de paz de Picard passa ao longo das pouco mais de 100 páginas. O texto é célere, ainda que por vezes – especialmente no começo – seja carregado de exposição, algo que reputo inevitável considerando o pouco espaço que a IDW conceceu aos roteiristas. Por outro lado, há momentos em que a velocidade narrativa dá espaço para conveniências que claramente só existem para resolverem os imbróglios criados, como a forma fácil demais com que Picard toma de volta a Verity (se é que posso chamar isso de “tomar de volta”) e como tudo acaba em um piscar de olhos. Talvez seja o melhor que pudesse ser feito em tão pouco tempo, mas, por outro lado, é uma pena que essa correria tenha atrapalhado uma história potencialmente magnífica.

Seja como for, como um prelúdio de série de TV, Beyer e Johnson entregam uma obra realmente relevante, que não só joga luz sobre momento importante – e até agora não visto – sobre o passado de Picard pós-Nêmesis, como também desenvolve uma origem robusta para Zhaban e Laris, indo muito além de “dois romulanos que o almirante salvou”, além de permitir alguma contextualização para a comandante Raffi Musiker, que entra na série no final do segundo episódio. A arte de Angel Hernandez, por sua vez, é apenas burocrática, com alguns visuais bonitos, mas nada terrivelmente original ou memorável, ainda que ela seja eficiente o suficiente para a proposta dos roteiristas.

O prelúdio em quadrinhos de Star Trek: Picard revela um potencial enorme para mais histórias sobre esse período na vida de Jean-Luc Picard como capitão da U.S.S. Verity e abre os horizontes para a própria série sobre o personagem saindo de sua aposentadoria. Um grande acerto da IDW e, sem dúvida alguma, uma bem-vinda exceção à regra dos tie-ins desapontadores.

Star Trek: Picard – Contagem Regressiva (Star Trek: Picard – Countdown, EUA – 2019/29)
Contendo: Star Trek: Picard – Countdown #1 a 3
Roteiro: Kirsten Beyer, Mike Johnson
Arte: Angel Hernandez
Cores: Joana Lafuente
Letras: Neil Uyetake
Editoria: Chase Marotz
Editora original: IDW Publishing
Data original de publicação: novembro e dezembro de 2019 e janeiro de 2020
Páginas: 107

Crítica | Star Trek: Picard – 1X01: Remembrance

A nova Era de Ouro das séries de TV, turbinada pela entrada pesada de um sem-número de concorrentes que, seguindo o modelo do Netflix, querem oferecer conteúdo próprio via streaming, tem provocado uma garimpagem sem paralelo por material para ser adaptado, o que é sempre uma boa notícia, já que potencializa a existência de obras que de outra maneira permaneceriam esquecidas. O outro lado da moeda é que a estratégia tipicamente hollywoodiana de se reciclar e ressuscitar propriedades que já carregam um público cativo embutido e que, portanto, reduzem o risco, vem sendo também empregada com força.

A CBS, proprietária da franquia televisiva Star Trek, usou Star Trek: Discovery como o principal veículo de divulgação de seu serviço de streaming CBS All Access e, navegando nesse sucesso, agora expande ainda mais seus produtos baseados na imortal criação de Gene Roddenberry com Star Trek: Picard, tirando da aposentadoria o almirante Jean-Luc Picard, capitão da Enterprise na sensacional e longeva Star Trek: A Nova Geração, que foi ao ar entre 1987 e 1994 e também em quatro longas. Muito diferente de Discovery, que partia de material substancialmente inédito dentro desse universo, a nova série tinha o desafio de equilibrar o legado de Picard, o que significa, claro, uma cuidadosa contextualização e a apresentação de uma nova história que efetivamente justificasse sua existência, algo tão esquecido em obras que são trazidas à vida depois de tanto tempo no limbo.

De certa maneira, o roteiro de Akiva Goldsman e James Duff para Remembrance, que partiu de história dos dois e também de Michael Chabon e Alex Kurtzman, mostra um pouco de sofreguidão em ter certeza de que os desafios que mencionei acima seriam ultrapassados com sucesso, o que acaba deixando o episódio razoavelmente tumultuado e carregado tanto de informações pregressas para trabalhar o espaço temporal entre praticamente o final de Nêmesis e o começo da temporada quanto de informações que servem para armar a estrutura do que está por vir. É decididamente algo difícil de se fazer, especialmente quando lembramos que os roteiristas precisaram dar conta de 18 anos de Jean-Luc Picard longe das telas, período que inclusive introduziu a chamada linha temporal Kelvin, inaugurada pelo filme de 2009.

Tenho para mim, porém, que Goldsman e Duff mais acertaram do que erraram e isso fundamentalmente porque eles se mantiveram firmes em uma linha mestra que está muito clara no título escolhido para a série: Picard. No lugar de inventarem uma história exógena ao personagem, a dupla de roteiristas criaram algo que efetivamente parte do amado personagem vivido por Patrick Stewart. Não que a história comece em razão de Picard, mas sim porque toda a narrativa parece estar profundamente amarrada na mitologia do personagem. Não só o androide Data (Brent Spiner), que se sacrificou por seu capitão em Nêmesis é fundamental para esse pontapé inicial – e, suspeito, para muito mais do que apenas isso – como toda a conexão de Picard com seres cibernéticos, inclusive sua “possessão” pelos Borgs, é premissa narrativa para o que se desenvolve aqui.

No entanto, o espectador que não conhece a história de Picard não é esquecido e essa é uma das razões pelas quais há uma fatia razoável de tempo dedicado a contextualizações, o que inevitavelmente leva a textos expositivos, inclusive com o uso do artifício de uma entrevista com o almirante aposentado em sua vinícola na França que funciona tanto para afirmar sua importância, como para apresentar os grandes eventos nesse intervalo temporal: Romulus, planeta natal dos romulanos, foi destruído (esse evento é o que “cria” a linha temporal Kelvin e que ejeta o Spock Prime para o outro universo) e Picard largou o comando da Enterprise para ajudar nos esforços de evacuação, somente para que sintéticos sabotassem os esforços, transformando Marte – planeta que estava recebendo os romulanos – em um inferno e levando a duas decisões da Frota Estelar, a proibição da criação de androides e o fim das missões de resgate. Picard, discordando das decisões, aposentou-se.

Esse é o contexto. A história em si da nova série envolve a misteriosa chegada da jovem Dahj (Isa Briones) que, depois de um atentado a sua vida que revela que ela é muito mais do que aparenta ser, procura a ajuda de Picard, rosto que ela vê em sua mente e com quem sente uma conexão imediata, o mesmo acontecendo do lado do aposentado octogenário. O compasso de conexões com o passado se intensifica com Picard, conscientizando-se de que relaxar em um vinhedo não é a vida que ele realmente quer mesmo nesse estágio avançado de sua carreira, partindo para tentar descobrir quem exatamente é Dahj. Nesse processo, muita coisa acontece – ainda que a ação em si não seja constante, ainda bem – e a construção de universo que o roteiro faz ganha corpo exponencialmente e amarra passado, presente e futuro por meio de pesadelos, artefatos e revelações bombásticas.

Patrick Stewart continua mostrando vigor mesmo na terceira idade e a direção de Hanelle Culpepper não poupa o ator de close-ups, demonstrando que não há vergonha alguma em deixar evidente a passagem de tempo. Até mesmo Brent Spinner como Data não tem sua idade apagada como em tese deveria ter por razões óbvias, ganhando breves, mas significativas participações que respeitam seu personagem, mas não se preocupam em mascarar o que não precisa ser mascarado com CGI ou mesmo maquiagem mais pesada ainda. E, melhor ainda, o roteiro não transforma Picard em um super-herói atlético, o que parece ter sido a razão principal para os poucos momentos de ação pura, com o cuidado de mostrar o almirante aposentado mal conseguindo subir escadas. Se é para trazer de volta personagens que deveriam ter 80 ou 90 anos, nada de fingir que eles têm 60 ou 50. Além disso, Star Trek nunca foi necessariamente afeita à pancadaria incessante – Discovery e a linha Kelvin são exceções bem-vindas, mas que deveriam permanecer como exceções – e Picard, nesse aspecto, é mais old school.

Mas o CGI existente, basicamente focado em dar vida às cidades – é particularmente bacana ver Paris – é muito eficiente e cumpre sua função. Não chega a ser espetacular principalmente porque a série ainda não exigiu isso da equipe criativa, mas há potencial para que ele seja do excelente nível de Discovery assim que a ação for levada ao espaço.

Claro que as referências estão em todos os lugares, da música de abertura, passando pelo chá earl grey, até o nome de seu cachorro, mas, diferente de fan services vazios que são a praga de muitas produções atuais, aqui eles carregam significado e lógica. Claro que há exageros aqui e ali, mas não é nada que interfira na narrativa ou que pareça ter sido construído para que determinada referência exista, isso se o espectador aceitar que a narrativa que parte das características pessoais de Picard, como mencionei acima, não são fan services, pelo menos não da forma como eles são usualmente utilizados.

A 8ª série da franquia Star Trek definitivamente começa com o pé direito e, mesmo que não necessariamente vá para onde nenhuma outra série jamais esteve, pelo menos mostra que esse vasto universo tem ainda muitas boas histórias para serem contadas. E se isso significa que relíquias do passado precisam ser reviradas e reaproveitadas na febre de se conseguir material para ser adaptado, então que assim seja.

Star Trek: Picard – 1X01: Remembrance (EUA, 23 de janeiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Hanelle Culpepper
Roteiro: Akiva Goldsman, James Duff (baseado em história de Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman e James Duff)
Elenco: Patrick Stewart, Isa Briones, Alison Pill, Brent Spiner, Orla Brady, Jamie McShane, De Niro
Duração: 44 min.