Kang-ho Song

Crítica | Parasita (2019)

Parasite (2019 film) PLANO CRITICO FILME

Desde a sua estreia em longas-metragens, com o filme Cão Que Ladra Não Morde (2000), Bong Joon Ho apresentava características de crítica e sátira sociais aliadas a uma comédia de toques cruéis, cenas de violência e uma abordagem direta sobre como o meio social (em situações normais e extremas) influencia os indivíduos das mais diferentes maneiras. Em Parasita (2019), filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o cineasta reafirma esses elementos nucleares de sua assinatura (aqui, ele escreve o roteiro em parceria com Jin Won Han, que foi diretor de segunda unidade em Okja) e mostra uma grande maturidade ao dirigir um filme longo, relativamente parado — por  ser reflexivo na forma como o drama se constrói — e tremendamente engajante.

Duas famílias são o foco deste enredo. Os Kim, família pobre que vive de dobrar caixas de pizza e que mal possui dinheiro para comer; e os Park, família muito rica que acaba empregando, por indicação, o jovem Ki-woo (Woo-sik Choi), que se torna tutor de inglês da filha mais velha dos abastados, a insegura Da-hye (Ji-so Jung). Uma diferença de classes sociais é imediatamente exposta pelo roteiro, que primeiro ressalta um lado não muito conhecido ou mesmo escondido da Coreia do Sul — a pobreza, a periferia das enormes cidades — e depois usa dessa informação para criar um drama que, embora seja político e crítico, não pontifica sobre esse abismo social. O interesse do diretor é mostrar o meio marcando os indivíduos a ferro e fogo. E essa marca se dá aqui através do trabalho.

Ocorre que a família Kim é trapaceira, embora não sejam exatamente más pessoas. O tipo de crime cometido por eles é conduzido pelo roteiro como uma forma fácil de ganhar dinheiro e, possivelmente, de garantir ascensão social. O contraste entre os espaços físicos é visto no tamanho das casas e nas cores que desenho de produção e fotografia escolheram para cada um deles. Quando vemos os Kim em seu ambiente familiar, temos como destaque ambientes mais escuros, quando não noturnos, sempre com planos que indicam um local apertado, onde esses indivíduos são vistos como insetos, pragas, parasitas amontoados em seu habitat, que se entregam à fumigação de forma simbólica já no início do longa.

Quando passamos para a mansão dos Park, vemos um ambiente mais convidativo, entre marrom e bege no interior e com bastante iluminação, em diferentes tonalidades. Neste lugar, os indivíduos se perdem em meio aos grandes espaços, que de tão impessoal, possibilita a apreciação dos comportamentos fingidos que o roteiro irá desenvolver, quase como se assumisse a mansão como um museu de falsidades, o local onde os muito ricos “são bondosos e ingênuos demais porque têm muito” e onde os pobres veem a oportunidade de se esbaldar, de infestar o espaço de seus empregadores. Para isso há um inteligente, cômico e rápido plano de parasitação, ao longo do qual o roteiro se ergue, jamais deixando as marcas sombrias de lado, mas ainda não abraçando o thriller. Os diálogos afiados e deliciosamente orgânicos mais a atuação excepcional de todo o elenco torna essa jornada de pseudo-escalada da pirâmide social cativante desde o início, da qual a gente não consegue tirar os olhos (é fato que as 2h10 do filme passam que a gente nem vê).

Então há um baque. Seco. Cru. Em questão de segundos o diretor faz com que o nosso humor desça das alturas, e essa constante queda em direção ao inferno social e emocional será a tônica da reta final da obra. O texto nos prepara uma porção de surpresas que se apresentam através de diferentes personagens e motivações. De repente chocam-se núcleos de disputa de poder, sentimento de vingança (pela sensação de perda ou de se sentir discriminado) e pela marcação do domínio entre aquele que tem dinheiro, alguma arma, coragem e aqueles que, para oferecer, só tem mesmo a força de trabalho. As macro relações econômico-sociais são vistas aqui em um pequeno recorte que mescla humor ácido — que se dissipa rápido, dando lugar ao choque — e coloca na mesa outros aspectos da vida dessas pessoas: suas diferentes relações parentais, matrimoniais e de reação a uma situação extrema, tendo, nesse caso, a família como alvo de defesa e ataque.

De Parasita eu só não gosto do final. O distanciamento do olhar impiedoso do diretor para algo um pouco mais didático e de braços abertos para o verdadeiro tema do conflito do filme trai parcialmente as consequências que o texto reserva para esses personagens. De certa forma, há uma dupla via de interpretação para o que nós vemos no final. Ainda assim, a permissão desse “sonho/desejo” ou de um real “olhar para o futuro“, nessas cenas, interrompem uma jornada quase cínica de pertencimento e não-pertencimento a certas camadas sociais, frustrando um pouco certos caminhos do roteiro. O filme, no entanto, se mantém em altíssimo patamar. Uma imensa surpresa de Bong Joon Ho, que desafia um pouco a si mesmo e problematiza social e emocionalmente o status quo no mais amplo aspecto possível: afinal, quem, nos arranjos de nossa sociedade, é o parasita de quem?

Parasita (Parasite / Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Jin Won Han
Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park
Duração: 132 min.

Crítica | Expresso do Amanhã

estrelas 5,0

Inspirado na graphic novel francesa Le Transperceneige (publicada no Brasil com o título literal O Perfuraneve), O Expresso do Amanhã é o primeiro filme em língua inglesa do diretor sul-coreano Bong Joon Ho, responsável pelos excelentes Memórias de um Assassino, O Hospedeiro e Mother – A Busca pela Verdade e também uma obra-prima esquecida. Mantendo um clima neo-noir em uma improvável situação pós-apocalíptica enclausurada em um relativamente pequeno ambiente, o diretor mostra seu controle de câmera, sua habilidade para fazer muito com pouco e sua mais absoluta criatividade em uma película imperdível e que já nasce com o status de cult.

Apesar de bem-sucedida na Coréia do Sul, a fita sofreu gigantescos atrasos na distribuição nos EUA e outros importantes territórios, cortesia de Harvey Weinstein, que exigiu um corte de 20 minutos na duração e inserção de narrações de abertura e encerramento, algo veementemente rejeitado pelo diretor. Com o impasse e depois de uma petição online idealizada e fomentada por Denise Heard-Bashur, conhecida “ativista cinematográfica”, a distribuição acabou caindo na mão de outra empresa de menor alcance, o que impediu que a película fosse laureada com um grande circuito.

Mas isso não impediu as críticas positivas oriundas de festivais pelo mundo que aplaudiram a originalidade e ousadia do filme. E, sem dúvida alguma, essa receptividade positiva é muito merecida, pois Expresso do Amanhã consegue, de uma só vez, reinventar o sub-gênero do drama pós-apocalíptico e estabelecer um altíssimo parâmetro para filmes de orçamento médio (a fita custou 40 milhões de dólares, troco se comparado com blockbusters do verão americano, algo que o filme de Joon Ho poderia facilmente ter sido).

Uma comparação imediata, justa e clara seria com Mad Max: Estrada da Fúria. George Miller fez um filme pós-apocalíptico que literalmente trafega única e exclusivamente em linha reta. É uma perseguição indo e outra voltando e, no processo, o diretor entregou uma inesquecível experiência cinematográfica. Arriscaria dizer que Expresso do Amanhã, que antecedeu o quarto Mad Max em dois anos, consegue ir ainda além, pois é também um filme pós-apocalíptico “em linha reta”, mas com subtextos e críticas sócio-econômicas bem mais interessantes. Exagero? Então me acompanhe.

Expresso do Amanhã exige, com toda certeza, um alto grau de suspensão da descrença. Temos que aceitar que, em futuro próximo, por erro humano, o mundo todo passa por uma fortíssima Era Glacial e os únicos sobreviventes da raça estão dentro de um trem – o Perfuraneve do título da graphic novel em francês e português e do filme em inglês – que trafega ao redor do mundo pela força de um moto-contínuo quase mágico. Temos que aceitar que o trem é auto-suficiente e praticamente eterno e que, ao longo de seus intermináveis vagões, os últimos sobreviventes de uma apocalipse gelado vivem divididos em classes sociais conforme as classes de um trem ou de um avião. Na frente, os mais abastados vivem em luxo absoluto, com restaurantes, bares, escolas, saunas, boates e tudo de “decadente” que a civilização pode oferecer. Atrás, os mais pobres, com trapos para vestir, camas amontoadas para dormir e cuja comida é, única e exclusivamente, uma nojenta gelatina proteica fabricada em vagões intermediários.

Mas o mais sensacional dessa estrutura é que Bong Joon Ho nos faz aceitá-la sem maiores problemas. É fácil detectar as impossibilidades, mas não ligamos e queremos explorar esse gigantescamente longo trem seguindo a revolução encabeçada relutantemente por Curtis Everett (o próprio Capitão América, Chris Evans) depois que o sequestro de duas crianças de seu grupo pelos habitantes da primeira classe acontece. A linha reta que mencionei é a longa luta de Curtis e companhia, vagão por vagão, com a ajuda de seu mentor Gilliam (o veterano e saudoso John Hurt), de seu amigo Edgar (Jamie Bell, o Tintim), Namgoong Minsu (Song Kang-ho, de quase toda a filmografia do diretor) e sua filha clarividente Yona (Ko Asung, a menina de O Hospedeiro). O objetivo é alcançar a locomotiva, lugar quase mítico onde viveria Wilford (Ed Harris), o criador do trem, originalmente para fins turísticos.

Ainda que se possa dizer que a separação em classes sócio-econômicas conforme as classes de um trem é uma forma óbvia demais para se fazer comentários e críticas às “castas”, o fato é que Expresso do Amanhã pode ser visto e apreciado em pelo menos três camadas. A mais superficial seria a da história pela história, em que o foco seria mesmo na aventura e em como ela se desenrola, com as respectivas atuações, fotografia, montagem e efeitos especiais. Nesses aspectos, o trabalho do direitor e equipe é impecável.   

Dentro de uma estrutura confinada, o cineasta se esmera na criatividade para colocar nas telonas sequências de ação originais e chocantes, sempre com um viés exagerado, absurdo, quase pantomímico. Essa escolha estilística não é aleatória, pois ela ajuda o espectador a aceitar o inusitado da premissa da fita e retira qualquer expectativa de “realismo” ou lógica física. “Estamos em um outro universo”, é basicamente esse o recado que ele quer passar. A fotografia de Kyung-pyo Hong, parceiro de Joon Ho em Mother – A Busca Pela Verdade, é quase um personagem da obra. Sem inventar, ele usa tons escuros de cinza e marrom para o “proletariado” e “branco e preto” asséptico para as classes “dominantes”, mas de uma forma orgânica, que casa com perfeição com os figurinos de Catherine George e a direção de arte de Stefan Kovacik. O preto “morte e pobreza” da casta inferior dá lugar ao preto “vida e sofisticação” alguns vagões a frente sem que haja choque de lógica ao espectador. Há uma estranha harmonia na extrema sujeira de um lado e na extrema limpeza de outro que é difícil realmente explicar, mas que permeia toda a película.

Essa sujeira x limpeza, de certa forma, também é caracterizada pela escolha de Chris Evans para encabeçar o elenco. A expectativa que temos – um jovem forte e belo – é pervertida com sua caracterização sofrida e que surpreende por mostrar que, à frente de lentes comandadas por diretor que sabe extrair o melhor de seu elenco, Evans realmente sabe atuar. Não é brilhante, mas cumpre sua função com louvor e, acima de tudo, credibilidade. Do outro lado da moeda, temos uma quase irreconhecível Tilda Swinton, como uma espécie de agente que faz a “junção” entre classes sociais e que é responsável pelo sequestro das crianças. Em uma caracterização afetada, carregada de maquiagem e que inevitavelmente (e não sem querer) lembra Margaret Thatcher, ela amplia a sensação de estranheza e de ação cartunesca que Bong procura imprimir em sua revolução férrea.

Mas isso tudo, caros leitores, é apenas a primeira camada. A camada facilmente apreciável e capturável por nossos sentidos. Há uma camada logo abaixo, de crítica sócio-econômica que, como disse, é mais do que óbvia se apenas observarmos a história por seu valor de face. É simples concluir que estamos assistindo à luta do proletariado contra o malvado e doentio capitalismo, mas essa estrutura formulaica é boba demais, simplista demais para parar por aí. Vamos além então, para a terceira camada.

Nela, percebemos que esse trem eternamente contornando um congelado planeta Terra não exige nada de ninguém. Não há trabalho, não há criação de riquezas. O proletariado dos vagões “pobres” não é realmente proletariado, pois não são trabalhadores. São apenas pessoas que vivem lá. O mesmo vale para os ricos da outra ponta. Eles não são apostadores em bolsas de valores. Apenas são ricos, pois estão nos vagões certos. Não existe, aqui, aquilo que vemos, por exemplo, no magistral e seminal Metrópolis, de Fritz Lang, filme aliás referenciado aqui e ali em Expresso do Amanhã.

Assim, o confronto da riqueza versus pobreza existe como um fim nele mesmo e não por ditames econômicos. Sim, existe uma função perniciosa no sequestro que catalisa a ação da fita, mas essa questão fica em segundo plano e não justifica exatamente a divisão em classes. Ela parece existir por uma razão ainda mais cruel, ainda mais inaceitável que uma mera alegoria anti-capitalista ou anti-comunista: por puro comodismo. Sim, comodismo. E de ambos os lados. A sociedade pré-trem era dividida em castas e a sociedade no trem, portanto, precisa ser dividida em castas. E o comodismo que é varrido para o lado quando a revolução começa, mas o espectador verá, na medida em que o filme se desenrola, que nem isso é tão simples assim e o final, com um corajoso discurso por parte de Curtis, dá o que pensar e discutir. É isso que grandes filmes devem sempre fazer e é isso que Expresso do Amanhã consegue com facilidade, mesmo depois de encantar os espectadores com a argúcia técnica de Bong Joon Ho e de sua equipe.

Expresso do Amanhã é um filme que provavelmente será lembrado muitos anos no futuro. E merecidamente. Pode ter sofrido na bilheteria por mandos e desmandos de um produtor que acha que sempre sabe o que é melhor para seu público, mas o resultado final é tão magnífico e de cair o queixo que fica difícil imaginar como essa obra de Bong Joon Ho não ganhou naturalmente mais destaque e aclamação mundial.

  • Crítica originalmente publicada em 27 de agosto de 2015.

Expresso do Amanhã (Snowpiercer, EUA/Coréia do Sul/República Tcheca/França – 2013)
Direção: Joon-Ho Bong
Roteiro: Joon-Ho Bong, Kelly Masterson (baseado em graphic novel de Jacques Lob, Benjamin Legrand, Jean-Marc Rochette)
Elenco: Chris Evans, Tilda Swinton, John Hurt, Ed Harris, Jamie Bell, Kang-Ho Song, Octavia Spencer, Ewen Bremner, Ah-Sung Ko, Alison Pill, Luke Pasqualino, Vlad Ivanov, Emma Levie, Steve Park
Duração: 126 min.

Crítica | O Hospedeiro

Quero dizer, ela morreu, mas ainda está viva.

Depois do sucesso de Memórias de um Assassino, um drama policial atmosférico e assombroso, Bong Joon Ho partiu para co-escrever e dirigir nada menos do que um filme de monstro na melhor tradição de seus vizinhos japoneses, mas com assinatura mais do que própria. Nascia, então, O Hospedeiro, que se tornou a maior bilheteria da época na Coréia do Sul e, de quebra, revelou o diretor de vez para o ocidente.

Há primeiro que se aplaudir um cineasta que não descansa em berço esplêndido e mantem-se apegado a um tema ou a um tipo de filme. O salto que Bong Joon Ho dá de sua obra anterior angustiante e intimista para sua abordagem no que essencialmente é a premissa de Spectreman – um monstro criado pelos efeitos da poluição! -, mas sem os elementos “espaciais” e com muita crítica social e ambiental, além de estocadas nada discretas nos EUA, foi obviamente muito arriscada, mas novamente muito bem-sucedida.

O maior risco de todos era a oposição do orçamento razoavelmente apertado (algo como 11 milhões de dólares) com a escolha deliberada do diretor de despudoradamente mostrar seu “peixe gigante terrestre carnívoro mutante acrobata” em extensas e explícitas tomadas em plena luz do dia logo de cara, sem fazer o menor suspense, algo que imediatamente já separa O Hospedeiro de praticamente todos os filmes do gênero. Convocando os trabalhos da WETA e da The Orphanage, porém, Bong Jooh Ho fez o máximo com o dinheiro que tinha e o CGI do peixão acabou impressionando mesmo os mais cínicos, especialmente considerando o tempo de exposição do bicharoco diante das câmeras e da interação com humanos, algo sempre difícil. Pode ser que muitos achem que ele não envelheceu bem e isso pode ser verdade, mas é mais verdade ainda que isso pouco importa para a apreciação da obra.

Assim como em todos os filmes de Bong Joon Ho, a premissa da superfície é apenas o estopim para comentários sociais ferinos que, aqui, claro, ganham uma embalagem ambiental poderosa e óbvia como por vezes precisa ser. O roteiro, que se inspirou em um artigo de jornal falando sobre um peixe mutante encontrado no rio Han e também em um incidente real – retratado na sequência de abertura da fita – em que um médico legista militar americano lotado na Coréia do Sul mandou derramar centenas de frascos de formaldeído no esgoto, é repleto de críticas fortes à incompetência e descaso do governo coreano e carrega ecos do processo democrático pelo qual o país passara 20 anos antes, incluindo ao próprio ativismo político quando o texto transforma Park Nam-il (Park Hae-il), irmão do protagonista, em um anacrônico “protestante profissional” sem eira nem beira. E é claro que os Estados Unidos, a “potência maléfica” preferida de todos, é alvo de toda sorte de espancamento audiovisual, notadamente o tal médico legista da abertura, depois o outro que adora uma lobotomia e chegando no nada discreto “agente laranja” e à surreal tentativa de enganar o mundo com a fake news do vírus. No entanto, engana-se quem interpreta o filme apenas como anti-americano, já que isso seria um reducionismo de primário e o diretor pode ser tudo, menos bobo desse jeito. A crítica, ao contrário, é geral, ampla e irrestrita.

Claro que o destaque da obra – além da quimera – fica mesmo com Park Gang-du (Song Kang-ho estrelando o segundo longa seguido do diretor), um vendedor simplório de cabelo pintado que tem sua filha Park Hyun-seo (Ko Asung) capturada pelo monstro. É essa conexão entre os dois, estabelecida de maneira muito eficiente em apenas poucos minutos de projeção, que sustenta o lado dramático do filme mesmo quando Gang-du é retratado de maneira comicamente exagerada e teatral pelo ator seguindo um roteiro que exige exatamente isso do personagem, com Hyun-seo sempre corajosa e inteligente em seu imundo cativeiro subterrâneo. Diria, da mesma forma, que toda a relação familiar dos Parks, que evolui muito claramente ao longo dos 120 minutos com os três irmãos, ao final, formando uma equipe heroica lindamente clichê, é um prazer de se acompanhar.

Muitos comparam O Hospedeiro com Tubarão, mas a única comparação que eu considero que realmente procede é a antitética: enquanto o filme de Steven Spielberg é de queima lenta, esconde seu monstro e o usa homeopaticamente, o de Bong Joon ho é o exato oposto. De similaridade fica mesmo só o ótimo uso das críticas sociais, ainda que de ordens bem diferentes e o sucesso de bilheteria que as obras tiveram. Seja como for, os dois filmes marcaram época e é possível que O Hospedeiro torne-se tão duradouro no imaginário popular quanto Tubarão, ainda que nem de longe tão revolucionário.

Sem contentar-se com mais do mesmo, Bong Joon Ho, em sua terceira produção, pegou o gênero de nicho de “filme de monstro” e o virou de cabeça para baixo, mostrando que é sempre possível renovar abordagens. Basta criatividade e esforço, algo que o cineasta parece ter para dar e vender.

O Hospedeiro (Gwoemul – Coréia do Sul, 2006)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Won-jun Ha, Chul-hyun Baek
Elenco: Kang-ho Song, Hee-Bong Byun, Hae-il Park, Doona Bae, Ko Asung, Dal-su Oh, Jae-eung Lee, Dong-ho Lee, Je-mun Yun, David Anselmo, Martin Lord Cayce, Scott Wilson, Brian Rhee
Duração: 120 min.

Crítica | Memórias de um Assassino

Há uma razão por que as pessoas dizem que eu tenho olhos de xamã.

O amadurecimento cinematográfico de Bong Joon Ho foi meteórico. Iniciando seu trabalho de direção de longas com o já muito bom Cão Que Ladra Não Morde, o cineasta alcançou impressionante nível de excelência apenas três anos depois, com seu trabalho seguinte, um drama policial perturbador que romanceia o caso real de um estuprador e assassino em série da segunda metade dos anos 80 na Coréia do Sul a partir da peça teatral homônima escrita por Kwang-rim Kim. Se seu primeiro filme tinha um tom abertamente cômico, apesar da premissa exótica e que exige mais do espectador do que apenas passividade, em Memórias de um Assassino (não sei como ficaria a tradução do título original coreano, mas o americano – “Memórias de Assassinato” – é bem mais elegante) o diretor muda completamente o tom e trabalha uma questão séria e pesada.

Bong Joon Ho, porém, não perde a veia cômica, ainda que, aqui, ela seja discreta diante da solenidade do assunto e basicamente utilizada para demonstrar a barbaridade dos “métodos investigativos” dos detetives Park Doo-man (Song Kang-ho) e Cho Yong-koo (Kim Roe-ha) que basicamente se resumem a bolar as teorias mais idiotas possíveis que são alimentadas aos suspeitos na base de violência policial para arrancar confissões. E o tipo de comicidade é o mesmo de sua obra anterior, inquieta, incômoda, que envergonha o espectador por achar graça daquilo, especialmente quando o suspeito é Baek Kwang-ho (Park No-shik), um rapaz com problemas mentais. E tudo só fica pior quando, logo no começo da fita, o chefe de polícia comemora a chegada do detetive Seo Tae-yoon (Kim Sang-kyung), vindo especialmente de Seul para ajudar nas investigações e que não só tem uma postura sisuda de “policial da capital”, como também se utiliza de métodos investigativos que pelo menos inicialmente parecem seguir o manual de instruções. A oposição do recém-chegado aos dois detetives provincianos cria uma chaga procedimental enorme que o roteiro co-escrito pelo diretor com Sung-bo Shim mantém aberta ao dividir a narrativa nos dois enfoques, de certa forma criando uma atmosfera competitiva.

Falando em atmosfera, a fotografia de Kim Hyung-ku é um dos grandes triunfos da obra, com um trabalha minucioso de captura de imagens em escuridão quase total e chuva, que Bong Joon Ho, também com a ajuda da perfeitamente sincronizada trilha sonora do compositor japonês Tarô Iwashiro, usa com enorme esmero para criar um ambiente de opressão, de completa ausência de saída, com especial destaque para os angustiantes minutos finais. Muitos equalizam essa abordagem com os filmes noir de outrora, classificando Memórias de um Assassino com neo-noir, mas não sei se a obra realmente se encaixa no conceito para além do policial durão que chega de cidade grande para solucionar terríveis crimes. Há uma qualidade muito própria no resultado final que, diria, se assemelha muito mais a Seven: Os Sete Pecados Capitais (curiosamente o segundo longa de outro grande cineasta que amadureceu muito rapidamente) do que, por exemplo, Relíquia Macabra ou Blade Runner. Mesmo assim, as comparações com Seven talvez também não sejam as melhores, pois o citado ar cômico que toma principalmente o primeiro terço da projeção e que conta com uma paleta de cores viva e muito diferente, afasta o filme do espetacular thriller de David Fincher.

Mas Memórias de um Assassino é ainda mais interessante se pararmos para pensar em seu subtexto sócio-político. Assim como no Brasil, a Coréia do Sul, em 1986, passava por um processo de fim de ditadura militar e de democratização de suas instituições, algo que em uma análise perfunctória pode parecer não se conectar à trama detetivesca. No entanto, a inquietude da população civil é um importante pano de fundo para a narrativa, mas que fica somente ali, como comentário indireto ao que acontece em primeiro plano. O espectador mais atento notará justificativas dentro do roteiro para a ausência de uma forma policial maior no local dos assassinatos que se conectam diretamente com protestos pela nação e certamente estabelecerá uma ponte direta da violência que é a mera existência de uma ditadura com a violência policial representada pelos detetives provincianos. Mas como em basicamente toda sua filmografia, Bong Joon Ho não é um cineasta de maniqueísmos óbvios e o desenvolvimento narrativo de Seo Tae-yoon, o detetive citadino que pode ser visto como a “chegada da civilização”, derruba essa nossa impressão inicial.

A duração teoricamente avantajada para uma trama detetivesca que não carrega tanta complexidade é apenas uma possível impressão inicial sem a conferência do filme, pois a narrativa, apesar de longe – bem longe! – de ser composta de sequências de ação prende a atenção do começo ao fim, fazendo a minutagem correr vertiginosamente sem que percebamos. Isso é particularmente interessante, pois a atmosfera leve (dentro do possível) que marca o começo do filme, vai sendo substituída por uma pegada sombria crescente, mas que é tão natural e tão bem costurada que se torna imperceptível. Além disso, para criar uma atmosfera capaz de visualmente estabelecer claustrofobia apesar de diversas tomadas em plano aberto, é necessário tempo e é necessário cadência narrativa. E o filme tem isso de sobra, algo que o elenco encabeçado pelo excelente Song Kang-ho tira o máximo proveito.

Memórias de um Assassino é, sem ficar pisando em ovos, uma obra-prima, algo que poucos cineastas de começo de carreira podem dizer que têm, colocando Bong Joon Ho em companhia de grandes nomes da Sétima Arte como o próprio Fincher, Jean-Luc Godard e Orson Welles nesse quesito. Nada mal para para alguém com apenas 34 anos à época em um país de cultura cinematográfica então ainda razoavelmente insipiente.  

Memórias de um Assassino (Salinui Chueok – Coréia do Sul, 2003)
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho, Sung-bo Shim (baseado em peça de Kwang-rim Kim, por sua vez baseada em fatos reais)
Elenco: Kang-ho Song, Sang-kyung Kim, Roe-ha Kim, Jae-ho Song, Hee-Bong Byun, Seo-hie Ko, Tae-ho Ryu, No-shik Park, Hae-il Park, Mi-seon Jeon, Young-hwa Seo, Woo Go-na, Ok-joo Lee, Jong-ryol Choi
Duração: 131 min.