Julianne Moore

Crítica | Ensaio Sobre a Cegueira

Fernando Meirelles é bastante claro quanto ao desafio que teve de enfrentar para adaptar Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, para o cinema. O primeiro obstáculo encontrado havia ocorrido na década de 90, pouco tempo depois de o diretor brasileiro ter lido o romance. O pedido fora negado pelo escritor português sem titubear. Saramago, um dos escritores contemporâneos em língua portuguesa com traços estilísticos mais fortes, era incisivo em sua recusa: seus livros não davam filmes. Era o que pensava na época. Ainda seriam necessários mais de 10 anos para que o projeto de Meirelles fosse desengavetado e o prestigiado escritor depositasse seu voto de confiança nas habilidades do brasileiro e lhe desse o seu beneplácito. O resultado é notório – Saramago terminou a primeira sessão do filme aos prantos. Em profunda emoção.

Penso que essa emoção tenha chegado justamente por ter compreendido que ali, na tela do cinema, nascia uma obra nova, com sua própria linguagem e seus próprios meios para reler os eventos ocorridos com os mesmos homens e mulheres. Claro que Meirelles conservou muitos aspectos literários em sua adaptação, como a imprecisão das ambientações e a ausência de nomes de personagens, conhecidos apenas por alguns de seus traços físicos e profissionais, como a rapariga de óculos, o velho com a venda preta, o médico e a mulher do médico. Contudo, em outros quesitos, o diretor e o roteirista fizeram questão de não se agarrar ipsis litteris ao texto original, construindo muito mais um thriller apocalíptico muito bem acabado e deixando a reflexão filosófica e moral como um subtexto a ser destrinchado pelo próprio espectador ao longo de e após o desfecho dessa releitura tão dura e agressiva de Ensaio Sobre a Cegueira.

Mas é um ledo engano pensar que o filme se transforma em um horror comercial convencional – algo que mataria completamente as virtudes da obra em si. O que temos é apenas a escolha especialmente da direção de Meirelles em apostar mais nos acontecimentos em si e permitir uma participação mais ativa do público no processo de julgamento (algo que certamente deve ter agrado imensamente a Saramago). Para dar a seu filme todo o poder de desorientação e caos contido no romance, o brasileiro evita a escatologia explícita presente no livro (em que os corpos dos personagens literalmente aparecem maculados pela sujeira e por seus excrementos) e aposta essencialmente na agressividade da própria técnica de direção. Meirelles usa muita alternância entre planos abertos e fechados (que não parecem se decidir por se aproximar daqueles homens ou manter um passo de distância deles) e um número incontável de desfoques da objetiva. Incomoda o público não pela explicitude gráfica, mas pela persistência em não ofertar repouso no próprio olhar sobre os eventos, que vão se tornando um verdadeiro inferno sobre a Terra.

A cinematografia é igualmente interessante, pois conspurca a própria paleta de cores com a ideia de uma “cegueira branca”. É válido notar que esse excesso de luminosidade, que perpassa toda a obra, desde o primeiro achaque do primeiro cego até a cura inexplicada de todos os enfermos, demonstra claramente que aqui se trata de uma cegueira pelo excesso, não pela falta. Por mais óbvio que seja dizer, o branco é a união de todas as cores básicas, enquanto o preto é produto da ausência de todas elas. Há reflexões sobre os excessos mais perniciosos do nosso tempo no romance original e que coadunam com essa alegoria. Mas o roteiro da adaptação fílmica aposta muito mais no poder literalmente visual dessa ideia e não estraga essa aposta tentando explicá-la. Volto ao ponto: Ensaio sobre a Cegueira, enquanto obra de cinema, não tenta simplesmente converter literatura em imagem, mas sim encontrar seus métodos próprios.

Cenas como a do estupro coletivo das mulheres, filmada no escuro e com algum distanciamento da câmera, não tornam o acontecimento menos impactante. Pelo contrário, Meirelles toma o cuidado de preservar a dignidade física de suas personagens femininas, pois sabe que mostrar essa violação não é o mote aqui, podendo incorrer até mesmo no risco de criar um espetáculo com viés sexista bastante vituperioso. Assim, interessa-lhe mais a devassa da humanidade como um todo. O modus operandi de uma sociedade reduzida a níveis tão baixos de civilidade. O mal, que se reorganiza em condições tão extremas para que finalmente percebamos que continuamos a devorar-nos uns aos outros como animais, adoecidos por uma cegueira tão singular – “cegueira branca”. Tudo isso, é claro, só pode ser lido nas entrelinhas do filme. É algo para ser digerido muito tempo depois de uma experiência sensorial humanamente devastadora.

Fernando Meirelles acreditava tanto que o poder simbólico das imagens era a melhor alternativa para as reflexões filosóficas e morais da prosa que Saramago soubera tão bem trabalhar, que o longa-metragem contém até um interessante acréscimo. O cineasta brasileiro recria a tela A Parábola dos Cegos, do maravilhoso pintor Peter Paul Brueghel, na cena em que os seus enfermos saem de mãos dadas do manicômio. A alusão é possante: ainda é possível surgir o imperativo do outro enquanto guarida e amparo. Ainda que seja na lama e no fim de tudo. Certamente um dos pontos de maior emoção de Saramago enquanto espectador de cinema foi ter aprendido essa comovente lição – a de que o cinema não destrói a imaginação, como havia dito na recusa inicial ao projeto, mas que pode sim fomentá-la. E o mais impressionante: às vezes, com apenas um fotograma.

Ensaio Sobre a Cegueira (Japão/Brasil/Canadá – 2008)
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar
Elenco: Alice Braga, Mark Ruffalo, Julianne Moore, Danny Glover
Duração: 118 minutos.