Jonathan Frakes

Crítica | Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2

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Pelo menos um leitor matou a grande surpresa reservada para o final da 1ª temporada de Star Trek: Picard, prevendo o uso do golem inacabado visto brevemente no laboratório de Altan Inigo Soong, filho do criador de Data, como o novo corpo de Jean-Luc Picard. Em outras palavras, um twist perfeitamente circular não só para a temática da temporada em si, como para toda a trajetória do protagonista desde que seu coração foi substituído por uma versão mecânica em A Nova Geração e suas assimilações pelos Borg aconteceram como elementos formativos de sua personalidade tanto na clássica série quanto no melhor filme da franquia, Primeiro Contato.

Portanto, por mais que alguns possam virar o nariz para a solução encontrada, tenho para mim que ela foi o encaixe necessário para a temporada inaugural das aventuras de Picard já bem avançado em idade acabar com um saldo positivo, mas ainda ficando aquém de seu verdadeiro potencial. Afinal, se eu aplaudo a escolha dos showrunners em transformar o protagonista em um androide, a jornada até lá foi repleta de altos e baixos, desvios narrativos, fan services deslocados, enfim, uma sucessão de problemas que, por melhor que tenha sido o episódio duplo de encerramento, não foi suficiente para que eles tenham sido curados.

O próprio tratamento que os roteiros deram para a doença terminal de Picard é algo que me incomodou profundamente. Não só o assunto foi introduzido em um breve e críptico diálogo entre o ex-almirante e seu médico, como ele não ganhou qualquer tipo de contexto e, pior ainda, desenvolvimento ao longo da temporada. Ao contrário, ele foi soterrado debaixo de uma extensa minutagem dedicada à bobagens para agradar fãs, como Riker fazendo pizza de coelho-unicórnio (WTF!) ou Sete de Nove surgindo não uma, mas duas vezes como borg ex machina. Com isso, fomos relembrados desse “detalhe” somente na primeira parte de Et in Arcadia Ego que culmina aqui com a providencial morte de Picard justamente no minuto seguinte que ele consegue resolver todo o problema entre sintéticos, Federação e Romulanos. Coincidência é um eufemismo brabo, diria.

Aliás, um de meu receios sobre a resolução do conflito era justamente que tudo acontecesse rapidamente demais e foi exatamente o que aconteceu. Rápido, mas não ilógico, que fique bem claro. Ok, há ilogicidades, mas estas ficam confinadas a coisas como “como é que Narissa estava lá no Cubo sem ser detectada pelos xBs” que podem ser respondidas com algo na linha de “para Sete poder chutar a bunda da moça, arremessando-a em um abismo”, o que pode ser incômodo, mas que sem dúvida é catártico, mesmo que tenhamos que ouvir choramingos arrependidos de Sete para Ríos.

A velocidade dos eventos demonstra muito claramente, mais uma vez, que a temporada foi desequilibrada em termos de ação, com praticamente tudo o que é mais relevante acontecendo de maneira apertada e econômica em meros 40 minutos do episódio final, aí incluindo a já citada luta de Sete contra Narissa, a união providencial de Narek com Ríos, Raffi e o inútil do Elnor, a revelação de que Jurati estava do lado dos humanos depois de sua “traição”, a traição de Soong, a chegada da frota romulana (estranho que o Zhat Vash seja uma organização super-secreta, mas que tem uma frota desse tamanho…), a chegada da frota da Federação (o comando temporário de Riker, aí sim, é um exemplo de ótimo fan service) e, claro, o plano suicida de Picard. Sobre o plano, aliás, ele é a cara de Picard e, nesse quesito, a temporada foi perfeitamente justa com o legado do personagem. Não há nada que signifique mais a essência do adorado ex-capitão do que um sacrifício altruísta dessa natureza, mesmo que ele tenha que ser atrapalhado por diálogos mal escritos e extremamente expositivos do tipo “o exemplo vem de cima” e tal.

Tudo teria sido praticamente perfeito, portanto, se os roteiros tivessem trabalhado todos esses elementos de ação ao longo de mais alguns episódios, sem esquecer de tornar a doença de Picard algo mais presente e constante em sua vida e não uma nota de rodapé que, de repente, do nada, torna-se relevante e sem transformar Narek em não muito mais do que um mero extra glorificado, considerando toda a importância que ele teve antes. Da mesma forma, o belo epílogo em que ele se reencontra com seu amigo Data na Matrix… digo, na simulação virtual onde a consciência do comandante androide vive, poderia ter ganhado mais solenidade do que apenas um pedaço dos 20 minutos finais de projeção de forma que até a transferência da consciência de Picard para o golem pudesse ser explorada um pouquinho mais, sem que, mais uma vez, precisássemos que os personagens sentassem à mesa para explicar o óbvio ululante.

No entanto, apesar de todos os pesares e assim como a primeira parte desse final, a segunda conseguiu capturar a essência do que faz Star Trek ser Star Trek, algo que esteve infelizmente muito ausente na temporada, entregando um desfecho que funciona bem para a história como um todo e muito bem para quem realmente interessa, ou seja, Jean-Luc Picard. Tomara que os showrunners aprendam um pouco com a experiência e construam uma segunda temporada que dependa menos de afagos nostálgicos e mais de uma história realmente sólida e bem distribuída ao longo dos episódios, de preferência aprofundando os personagens que formam a atual tripulação e não se perdendo com novos ou antigos integrantes que não agreguem nada para a história que será contada.

Star Trek: Picard – 1X10: Et in Arcadia Ego, Part 2 (EUA, 26 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jeri Ryan, Brent Spiner, Jonathan Frakes
Duração: 57 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe

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Seria bem mais honesto aos meus olhos se Star Trek: Picard se chamasse Star Trek: Epilogue. Afinal, a história das filhas de Data é até interessante e bem amarrada na mitologia do ex-Almirante Picard, mas a grande verdade é que, até agora, ela só tem sido mesmo uma espécie de desculpa para que os showrunners revisitem personagens clássicos para dar-lhes histórias que cobrissem as últimas duas décadas e uma espécie de fim, seja ele da natureza que for.

Não que seja terrível a ideia de uma série baseada quase que exclusivamente no saudosismo, mas o ponto é que essa escolha tem soterrado a narrativa que deveria, pelo menos em tese, ser a principal. Se espremermos, os sete episódios que foram ao ar até agora não têm material novo suficiente para preencher nem três de duração regulamentar de 45 minutos. Claro que é muito bacana ver Data, Sete de Nove, Hugh e, agora, Deanna Troi (Marina Sirtis) e William Riker (Jonathan Frakes) novamente depois de tanto tempo, mas o problema reside em que todo esse fan service tem tido um fim em si mesmo, não impulsionando a história efetivamente, talvez com exceção dos flashbacks/sonhos com Data.

Chega a ser cansativo ver Kestra (a simpaticíssima Lulu Wilson), filha de Troi e Riker, agir como uma Trekker e nos contar – usando o diálogo canhestro com Soji como desculpa – toda a importância de Data e o porquê de ele se preocupar em ter uma filha com saliva e muco. É igualmente cansativo todo o gigantesco texto expositivo de vários minutos em momentos diferentes para revelar os detalhes da vida e morte de Thaddeus, filho mais velho da dupla, que tragicamente sonhava em ter um lar que não fosse uma nave espacial e que, certamente fazendo inveja a J.R.R. Tolkien, inventou nada menos do que 12 línguas para seu mundo imaginário, uma delas de uma espécie de borboleta que “fala” com o bater de asas (ohhhh, tão poético…).

Tudo isso fica parecendo material perfeito para uma HQ ou um livro que focasse o intervalo entre a aposentadoria e a volta de todos esses personagens, mas que, em um episódio que deveria ser “de fuga”, em um momento já adiantado de uma temporada de apenas 10 episódios, torna-se uma torneira que jorra informações completamente desnecessárias apenas para fazer os olhinhos dos fãs brilharem. Novamente, nada contra SE os roteiros não cismassem em pegar a história principal e colocar em segundo, por vezes terceiro plano para que todo personagem “de uso único” da temporada ganhasse seu momento para lembrar do passado.

Mas claro que Nepenthe lida também com a trama principal de duas maneiras. Uma sacrificando Hugh em mais uma demonstração de que os personagens coadjuvantes, nessa temporada, têm, de uma forma ou de outra, vida curta. Eles são utilizados apenas quando necessários – outras vezes nem isso, pois não dá para dizer que a presença de Sete foi exatamente necessária – e descartados logo em seguida, seja com uma singela despedida, seja com, no caso aqui, uma morte besta que poderia ter sido evitada pelo ninja romulano que, por sua vez, até ganha bons momentos de pancadaria, mas que ainda não mostrou a que veio para além desses breves arroubos de ação.

A outra maneira é na perseguição à La Sirena por Narek, o romulano que não toma banho, com direito a um flashback que finalmente revela o que aconteceu com a Dra. Jurati naquele fatídico encontro com a Comodoro Oh, chefe da segurança da Frota Estrelar. E que flashback… hummm… porcaria, não? Bastou a vulcana fazer a fusão mental com a doutora para ela “descobrir” que o universo será destruído se os sintéticos forem autorizados a existir e em momento algum agir como uma cientista e indagar sobre o que ela viu. Afinal, para que, não é mesmo? É muito melhor engolir uma pílula rastreadora logo de cara e concordar, assim como quem não quer nada, em matar o ex-namorado assim que o encontrar, além de sabotar a missão de um honrado ex-Almirante. Faz MUITO mais sentido do que parar para pensar um pouco, pesquisar e, por incrível que pareça, até mesmo conversar com as pessoas ao seu redor! Talvez Jurati seja uma crítica social, como a encarnação audiovisual das hordas de internautas que leem somente as manchetes de artigos de redes sociais e acreditam piamente no que está escrito sem qualquer bom senso ou verificação… Se for assim, pelo menos a personagem tem uma função nobre, caso contrário tomara que ela não saia de seu coma ou morra engasgada com bolo…

Se eu fosse unicamente pela nostalgia, minha avaliação do episódio seria muito mais alta, mas a grande verdade é que nostalgia só é boa em filmes e séries se ela não se torna o centro da história, invertendo completamente a lógica narrativa. Convenhamos que só pelo fato de a série chamar-se Star Trek: Picard, trazendo Patrick Stewart de volta, toda a dose necessária de saudosismo já estava devidamente preenchida e com folga. Mas não. Aparentemente isso não era o suficiente e, no lugar de contar uma história nova, olhando para a frente e apenas por vezes lembrando-se do passado, os showrunners resolveram olhar para trás o tempo todo, apenas de vez em quando olhando para a frente. Uma pena.

Star Trek: Picard – 1X07: Nepenthe (EUA, 05 de março de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Doug Aarniokoski
Roteiro: Samantha Humphrey, Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, Isa Briones, Peyton List, Jonathan Frakes, Marina Sirtis, Jonathan Del Arco, Tamlyn Tomita
Duração: 59 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X05: Stardust City Rag

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Quando Stardust City Rag acabou, minhas reações foram de felicidade pelo retorno efetivo de Sete de Nove e de dúvida sobre o que eu realmente havia achado do episódio como um todo. Ver Jeri Ryan novamente em ação como a ex-Borg de Voyager em um capítulo que faz pela personagem o que a série tem feito por Jean-Luc, ou seja, preencher o espaço de tempo entre o fim de sua série e o momento atual foi um grande presente, mas, por outro lado, o capítulo é — mais uma vez — entulhado de informações que atravancam seu desenvolvimento.

Mas, considerando as estrelas que abrem a presente crítica, não é mistério algum o que, depois de muito processar, achei de Stardust City Rag, ou seja, nada menos do que o melhor episódio da temporada até agora, ainda que essa minha conclusão não tenha sido se dado sem muita relutância. O ponto mais relevante para chegar onde cheguei foi que a aventura passada em Freecloud, uma Las Vegas espacial, é puro Star Trek old school, cheia de conveniências e momentos exagerados que não são feitos para serem levados a sério (Picard todo afetado de boina e tapa-olho? SIM!!!) mas com uma boa dose de desenvolvimento narrativo e sem sequências no Cubo Borg, o que sempre ajuda. Além disso, o capítulo quebra o molde estrutural da série, algo que vem no momento certo.

No entanto, vamos começar pelo que não gostei — e talvez tenha desgostado o suficiente para chegar a uma avaliação mais baixa, só que acabei relevando pela brincadeira da coisa toda –, que pode ser resumido no “bonde de Freecloud”. Entendo perfeitamente todos terem suas razões para irem até lá: Picard quer achar Bruce Maddox, Raffi quer reconciliar-se com seu filho (mais clichê que isso, impossível) e Sete quer a boa e velha vingança na base do “doa a quem doer”. Maravilha. O problema é que essa convergência toda como uma conjunção astral de horóscopo mequetrefe é preguiça pura de roteiro, quase como um retorno à forma oitentista de se escrever séries de TV. Peguem Sete de Nove e se perguntem: o que raios a levou a salvar Picard ao final de Absolute Candor? As coincidências se amontoam de forma incômoda sem que o texto já lotado de tecno-baboseiras e referências ao passado para os fãs da séries, se preocupe em oferecer uma nesga de explicação que permita que o espectador retire “intervenção divina” da lista de possibilidades.

Acontece que parte do problema foi também parte da solução. O roteiro bobinho de Kirsten Beyer exala Star Trekdas antigas”, especialmente aqueles episódios de aventura pura cheio de momentos completamente absurdos, mas sempre muito divertidos. Além disso, a manutenção do foco em Sete de Nove torna o passo dinâmico mesmo quando ele entra na perigosa trilha do “senta aí para eu te contar uma historinha”, com Ryan voltando à sua personagem como se nunca tivesse saído dela. 

Aliás, diria que foi um toque de gênio trazer Icheb (aqui vivido por Casey King) de volta nem que tenha sido para matá-lo da maneira mais dramática possível. Funcionou bem como flashback de abertura tanto para justificar a fúria de Sete quanto para afagar os fãs de Voyager. Além disso, a montagem clássica de “preparação/execução” de plano esdrúxulo tendo Raffi como mentora na La Sirena e o restante de tripulação no planeta foi de abrir sorrisos de satisfação desde o já citado Picard de boina e tapa-olho, passando pelo hilário grandalhão Sr. Vup (Dominic Burgess) e chegando no capitão Ríos, que finalmente mostra alguma personalidade que não seja uma réplica latina e com folículos capilares de Picard. 

O drama sério foi também bem sublinhado no episódio. Não falo do reencontro brega e totalmente fora de contexto de Raffi com seu filho e nora, pois isso foi completamente descartável, mas sim de basicamente tudo envolvendo Sete de Nove. Sua história com o grupo de foras-da-lei, sua busca de vingança, sua manipulação dupla de Picard e sua inclemência foram os pontos altos do episódio ao ponto de eu ter ficado triste por ela não ter se juntado (ainda) em definitivo ao grupo e por eu secretamente desejar uma minissérie spin-off só dela chutando bundas por aí. 

Do lado da evolução da narrativa, a revelação do paradeiro de Soji por Bruce Maddox e, depois, seu assassinato pela Dra. Agnes Jurati (que confirma suspeita de um leitor sobre sua conversão ou lavagem cerebral), pareceram meio que marretados no episódio, como se a roteirista tivesse escrito essa cena depois, mas, no final das contas, combinou com o estilo conveniente da história anterior em que os buracos de roteiro são fechados na base do “vamos que vamos e paciência”. Tem vezes que isso é aceitável e, para mim, foi o caso aqui.

Ou seja, no final das contas, Stardust City Rag carrega os mesmos problemas que a série já vinha mostrando, quase todos eles conectados com a dificuldade em aliar a história do presente com o passado de seus personagens. Mas, assim como o figurino de cafetão espacial que Ríos é obrigado a usar, o episódio dá uma roupagem tão absurda à narrativa que ela sem querer acabou funcionando. Bem, pelo menos funcionou para mim. E não sem relutância.

Star Trek: Picard – 1X05: Stardust City Rag (EUA, 20 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Kirsten Beyer
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Evan Evagora, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Jeri Ryan, Dominic Burgess, Necar Zadegan, John Ales, Mason Gooding, Landry Allbright, Kay Bess, Ayushi Chhabra, Casey Childs, Casey King
Duração: 45 min.

Crítica | Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor

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Conforme aprendemos nesse episódio e que inclusive está em seu título, a ordem de freiras romulanas Qowat Milat tem como princípio basilar o “caminho da absoluta franqueza” e, inspirado nele, tenho que ser direto: Star Trek: Picard até que não é ruim, mas a série precisa urgentemente ser mais do que a infinita reunião de uma nova equipe para o ex-almirante Jean-Luc Picard e, por mais, eu quero dizer que toda aquela trama envolvendo Soji no cubo Borg também não está funcionando a contento. Pronto, tendo tirado isso da frente, deixe-me começar a análise de Absolute Candor.

Depois de introduzir Laris e Zhaban, romulanos da ordem Tal Shiar que Picard salvou e que, agora, trabalham em seu vinhedo e a doutora Agnes Jurati, especialista em androides e de apresentar Raffi, a ex-imediata do almirante, que, por sua vez, introduz o comandante Rios (e seus mais do que convenientes hologramas-paus-para-toda-obra), é chegada a hora de apresentar mais gente do passado de Picard. Não só a ordem das freiras guerreiras Qowat Milat é tirada da cartola como parte do drama de Picard sobre o fim da evacuação dos romulanos depois do ataque em Marte, como os showrunners aparentemente precisavam criar uma espécie de filho postiço para o protagonista que, claro, hoje em dia, é um ninja romulano mortal que faria inveja a Snake Eyes e Storm Shadow juntos.

Todo aquele flashback fofinho de Picard de chapéu panamá e roupa de linho branco (brega mandou lembranças) em Vashti foi uma sucessão interminável de “rolação de olhos” para mim. E a coisa fica ainda mais estranha se considerarmos que Picard levou Laris e Zhaban para casa, mas não voltou para resgatar o então jovem Elnor com quem ele estabeleceu profunda conexão e que as freiras deixaram claro que ele não tinha lugar ali. É muita vontade de criar um sidekick para Picard brincar de ser pai…

E, claro, toda aquela ação no presente em Vashti também não ajudou muito, pois foi uma sucessão de clichês mal ajambrados de estranho em terra estranha, de reconexão com o antigo protegido (agora vivido por Evan Evagora)  e, pior, de uma ameaça completamente aleatória em órbita que dá espaço para a chegada ainda mais aleatória de Sete de Nove (Jeri Ryan). O roteiro de Michael Chabon não consegue nem mesmo consertar a situação confusa no cubo Borg que só fica mais enevoada e desinteressante a cada capítulo.

Mas calma, não é o fim do mundo. Eu nem mesmo detestei o episódio. Ele ficou ali um pouquinho acima da linha média porque, convenhamos, Patrick Stewart é Patrick Stewart e, ainda por cima, o episódio é dirigido por ninguém menos do que Jonathan Frakes, o próprio Número Um e que foi responsável por três filmes da franquia Star Trek, dentre eles Nêmesis, que considero o melhor, e que tem se provado um excelente diretor de TV. É ele que consegue fazer uma limonada diretorial do limão roteirístico de Chabon, trabalhando boas sequências tanto na ponte da La Sirena (Picard não resistindo o comando foram excelentes momentos cômicos e ao mesmo tempo enervantes) quanto na superfície do planeta, especialmente a sequência de ação no bar romulano que culminou com uma cabeça decepada por Elnor.

No entanto, voltando ao começo de meus comentários, chega. Não dá mais para a 1ª temporada de Star Trek: Picard girar em torno da construção de uma nova tripulação para o resgate de Soji. O artifício não só já deu o que tinha que dar, como cansa pela introdução mais do que conveniente de gente perfeita para as funções necessárias. Além disso, a trama no cubo Borg simplesmente precisa tomar tenência e rumo, pois, até agora, ela não passa de uma bobagem cheio de invencionices que serve de desculpa para o romance do romulano com a androide. Afinal, há um potencial enorme nesse revival de A Nova Geração que seria um crime se fosse desperdiçado!

Star Trek: Picard – 1X04: Absolute Candor (EUA, 13 de fevereiro de 2020)
Desenvolvimento: Kirsten Beyer, Akiva Goldsman, Michael Chabon, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Jonathan Frakes
Roteiro: Michael Chabon
Elenco: Patrick Stewart, Alison Pill, Isa Briones, Michelle Hurd, Santiago Cabrera, Harry Treadaway, David Paymer, Jamie McShane, Tamlyn Tomita, Orla Brady, David Carzell, Wendy Davis, Chelsea Harris, Peyton List, Ann Magnuson, Marti Matulis, Jonathan Del Arco, Jeri Ryan, Evan Evagora
Duração: 45 min.