John Dahl

Crítica | Breaking Bad – 2ª Temporada

  • spoilers. Leia, aqui, as críticas de todo nosso material do Universo Breaking Bad.

Mesmo com os problemas trazidos pela greve dos roteiristas de Hollywood que acabaram levando ao encurtamento da 1ª temporada, Vince Gilligan fez, lá, um trabalho memorável de preparação de terreno. E, exatamente um dia antes de completar um ano da exibição do último episódio da temporada inaugural, Breaking Bad voltava à televisão para seu primeiro ano efetivamente completo, com todos os treze capítulos inicialmente planejados.

Usando um enigmático – e, quando completado, absolutamente incrível – artifício de enquadramento da temporada com um trágico evento futuro que tem o condão de deixar muito claro que toda ação tem consequência e, pior, que toda a violência tem consequências violentas, a 2ª temporada da série desenvolve seus personagens com muita cadência e lógica ao mesmo tempo em que introduz todos os demais grandes jogadores que permitirão o completo desabrochar da obra: o Hector Salamanca de Mark Margolis, a Jane Margolis de Krysten Ritter, o Saul Goodman de Bob Odenkirk, o Gustavo Fring de Giancarlo Esposito e, finalmente, o Mike Ehrmantraut de Jonathan Banks, com apenas Jane sendo instrumento narrativo restrito a essa temporada em específico, ainda que as consequências de sua existência reverberem drasticamente até o final de tudo. E o melhor é que todas essas peças móveis, que Gilligan realmente não tem pressa de introduzir e desenvolver, entram na narrativa macro de maneira lógica, sem que os magníficos roteiros precisem fazer muito malabarismo para introduzi-las.

Começando exatamente do ponto em a temporada inaugural parou, descobrimos que o espancamento de N0-Doze por Tuco levou à morte de seu capanga, somente para a amplificação do horror de Walt e Jesse que, ato contínuo, passam a temer por suas vidas. Esse é o gatilho para o encadeamento de eventos que culmina com o doloroso assassinato – sim, assassinato – de Jane, explicando as misteriosas sequências quase que totalmente em preto e branco que iniciam a temporada e que são salpicadas ao longo dela e que envolvem um urso de pelúcia rosa todo chamuscado e sem um olho, além de corpos em frente à casa da família White.

A conexão de eventos é belíssima e muito bem planejada, começando pelo plano de Walt de matar Tuco com veneno, algo que já coloca o protagonista em outro patamar completamente, deixando de vez de ser apenas um professor de química com câncer fazendo de tudo para deixar dinheiro para sua família para ser algo mais, ainda a essa altura não completamente definido, mas vislumbrado pelo uso de sua persona de Heisenberg e pela maneira estupenda quando a câmera enquadra o rosto dele em situações extremas, revelando um misto de raiva incubada com um prazer vilanesco que assusta qualquer um (Bryan Cranston está tão incrível que elogiar é chover no molhado), especialmente Jesse. O arco de Tuco acaba tendo um encerramento apoteótico que envolve a campainha de Hector Salamanca (um personagem sem voz, que mal se mexe, mas que é mais intenso e perfeito que muito vilão por aí), a chegada providencial de Hank procurando Walt e um tiroteio um tantinho conveniente demais em que o agente da DEA sai sem ferimentos físicos, ainda que com profundas cicatrizes psicológicas.

No lado pessoal, o sumiço de Walt catalisa a desconfiança de que há algo errado por parte de Skyler, algo maior do que apenas um eventual romance extraconjugal por parte do marido e que a leva a voltar a trabalhar e a manter-se distante do seio familiar por um bom tempo na temporada, demonstrando que Gilligan não está disposto a simplesmente manter a personagem como uma coadjuvante padrão. O arco narrativo de Skyler, aqui, é, por falta de elogios mais preciso, fora do comum e realmente significativo para a história como um todo, ainda que, como o acidente de avião que não sabemos que é acidente no começo, só percebamos a real dimensão de tudo quando a temporada chega a seu final (Anna Gunn não deixa absolutamente nada a dever a seus pares masculinos). O mesmo vale para um elemento componente desse arco, que é a cleptomania de sua irmã Marie, e que chega a um encerramento técnico aqui e que muita gente acha que foi uma ponta narrativa esquecida. Não foi. Os dividendos desse mini-arco não são gigantes e não alteram o status quo e nem são pagos na 2ª temporada, mas eles existem e estão bem inseridos na série para quem parar para pensar neles (eu os abordarei no momento adequado em crítica futura, assim como a “vilanização” generalizada de Skyler, outra falta de compreensão sobre o que representa a personagem).

Jesse é a grande vítima da temporada, com uma atuação soberba de Aaron Paul que jamais imaginaria que o ator seria capaz. Não só ele passa praticamente o tempo todo sendo escorraçado por um Walter cada vez mais inclemente, como seu “romance de fuga” com Jane e que o leva à drogas mais pesadas ainda, acaba em tragédia causada de caso pensado por seu parceiro. Jane é uma daquelas personagens que existem para cumprir uma função específica e, ainda que eu provavelmente preferisse que ela fosse introduzida ainda mais cedo na temporada para que o romance entre os dois pudesse gerar mais frutos e tornar-se mais enraizado na narrativa para quando o terrível clímax chegasse, não tenho como efetivamente reclamar da forma como tudo foi conduzido. Ela é a personagem trágica por excelência, a ovelha de sacrifício, por assim dizer e que tem como objetivo não exatamente mostrar como Jesse é frágil (ou sensível) psicologicamente, mas sim funcionar como um chaga inconciliável entre os protagonistas. Ela é, talvez mais claramente, a semente da destruição que começa a ser germinada aqui.

Em termos do elenco de suporte, talvez o mais importante seja Saul Goodman e não porque ele, depois, ganharia sua própria (e magnífica) série spin-off prelúdio, mas sim porque ele é o personagem de bastidor que é um excelente artifício narrativo para tornar possível o “negócio” de Walt e Jesse. Sem a malemolência de Goodman, a série teria que permanecer lidando com uma estrutura de tráfico pequena, pouco ambiciosa ou que passasse a exigir de maneira exagerada de nossa suspensão da descrença, já que é óbvio que nem Walt, nem Jesse tem capacidade de ser chefões do tráfico. Portanto, o advogado facilitador que “conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém” para absolutamente tudo de mais sombrio – de lavar dinheiro, passando pela criação de “fantasmas eletrônicos” e chegando até à ações típicas de Mr. Wolf, de Pulp Fiction – é também o facilitador da história sendo contada e que torna possível os passos lógicos seguintes, como o aumento da fortuna ilegal da dupla e, claro, os primeiros e hesitantes contatos com Gus Fring, o cuidadoso dono da cadeia de lojas Los Pollos Hermanos que é um dos braços do cartel de drogas no Novo México.

Gilligan mostra o completo domínio de sua arte na 2ª temporada de Breaking Bad, não deixando nada para o azar e jamais trabalhando linhas narrativas que não geram frutos. O próprio formato escolhido para a apresentação da temporada, com o acidente de avião tendo conexão de “seis graus de Kevin Bacon” (na verdade, bem menos que seis graus) com Walter White e seu inexorável mergulho ao inferno, é prova do que ele quer entregar aos espectadores, ou seja, um assustador mecanismo de retroalimentação do mal que se esconde à margem da vida pública que cada um de nós tem. E o showrunner mais do que consegue alcançar seu intento, ainda que ele muito claramente só esteja começando.

Breaking Bad – 2ª Temporada (EUA, de 08 de março a 31 de maio de 2009)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Bryan Cranston, Charles Haid, Terry McDonough, John Dahl, Johan Renck, Peter Medak, Felix Alcala, Michelle MacLaren, Phil Abraham, Adam Bernstein, Colin Bucksey
Roteiro: J. Roberts, George Mastras, Peter Gould, Sam Catlin, Moira Walley-Beckett, Vince Gilligan, John Shiban
Elenco: Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Steven Michael Quezada, Krysten Ritter, Charles Baker, Christopher Cousins, Matt L. Jones, Bob Odenkirk, John de Lancie, Tom Kiesche, Rodney Rush, Michael Shamus Wiles, Raymond Cruz, Giancarlo Esposito, Tess Harper, Mark Margolis, Sam McMurray, Carmen Serano, Jonathan Banks, Jeremiah Bitsui, Nigel Gibbs, Jessica Hecht, Danny Trejo
Duração: 611 min. (13 episódios)

Crítica | Servant – 1X07 a 1X10: Haggis / Boba / Jericho / Baloon

Temporada como um todo
(não é uma média)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Como tirei férias durante os episódios 1X07 a 1X09 de Servant, deixei a temporada chegar ao seu final para trazer as críticas do que faltava. Vamos lá!

1X07
Haggis

Rain expandiu a mitologia da série ao apresentar o tio de Leanne e apontar para a existência de uma tia, em Haggis, é a vez do lado de Dorothy ganhar uma adição: Natalie, amiga e kinesióloga da perturbada mãe de Jericho que foi responsável pela terapia com o “bebê boneco realista”. Vivida por Jerrika Hinton, a personagem serve fundamentalmente de veículo para o desenvolvimento da ideia que a morte do bebê, nunca antes explicada, não se deu por causas naturais ou algo mais, digamos, mundano, como uma doença.

A presença de Natalie na casa dos Turners não é construída de maneira orgânica, porém, já que a personagem simplesmente está lá cuidando de Dorothy que, se sentindo segura, a dispensa somente para convidá-la para um jantar, gerando desespero em Sean em razão da criança que foi ressuscitada. Considerando a duração padrão dos episódios da série, há uma aceleração de passo muito grande aqui, completamente desproporcional em relação à cadência narrativa anterior.

Há bons momentos de suspense e um particularmente eficiente jump scare quando Leanne derruba Natalie, mas a velocidade vertiginosa dos acontecimentos e o crescente lado sobrenatural que inclui agora rachaduras no chão do porão e um cachorro ressuscitado não exatamente beneficiam a temporada como um todo. Claro que a claustrofobia da mansão dos Turners é muito bem mantida pela direção de Alexis Ostrander e a fotografia escurecida, além das revelações que nunca são completas e abertas, criam um bom grau de ansiedade que mantém alto o interesse pelo desenrolar dessa macabra história.

1X08
Boba

Boba é praticamente o contrário narrativo de Haggis, o que acaba criando um bom equilíbrio na história. Se, no episódio anterior, há muito acontecendo, aqui não há quase nada, ainda que mais uma vez a dose de suspense seja não só alta, como eficiente, tendo Julian como o principal foco quando ele fica sozinho na casa dos Turners para cuidar de Jericho.

O sobrenatural comanda a cadência, com a descoberta, por Julian, de que o bebê voltou a ser um boneco, algo que ele se recusa a acreditar e acha que faz parte de um plano de Leanne e sua família para extorquir dinheiro de Sean e Dorothy. A rotina de completa incredulidade sobre o que pode estar acontecendo, com a constante busca de explicações racionais, é cansativa, mas, em última análise, crível, bastando que o leitor ponha-se no lugar de Julian – ou Sean – diante de uma situação tão estranha como a volta à vida de Jericho.

E a diretora Lisa Brühlmann usa muito bem essa incredulidade e a inegável aflição que o boneco realista automaticamente causa para construir cenas sufocantes que culminam com a em que Julian ameaça jogar o bebê boneco no vão da escada. No entanto, é problemático notar que a temporada parece fiar-se demais em momentos chocantes para fazer sua história avançar, o que retira muito de sua fluidez, substituindo-o por solavancos repentinos. Não é um problema sério diante do tamanho dos episódios, mas é algo que detrai da experiência por subtrair a naturalidade da progressão narrativa.

1X09
Jericho

M. Night Shyamalan volta à direção de um episódio da temporada depois do inaugural e sua presença é facilmente sentida na qualidade do suspense que ele entrega. Sim, boa parte do mérito vai para o roteiro do showrunner Tony Basgallop, que lida com duas linhas temporais, uma no presente e outra que volta ao passado para finalmente revelar como foi a morte de Jericho.

No lugar de transições óbvias, Shyamalan opta pela extrema sutileza e elegância, focando em Dorothy no presente abalada pelos tormentos psicológicos infligidos por uma vingativa Leanne, agora que sabe o que aconteceu, e uma Dorothy sozinha e exausta que acaba esquecendo Jericho no carro durante uma canícula na cidade, levando-o à morte por hipertermia. O horror em si da situação é suficiente para tornar esse o episódio mais difícil de se assistir da temporada, mas o diretor faz questão de amplificar ainda mais a repugnância da situação ao trabalhar tudo muito lentamente, mas sem perder de vista o inevitável.

A cadência imposta pela direção é absolutamente enervante e devastadora em tudo o que cirurgicamente não mostra (jamais vemos o bebê morrendo – seria fácil demais) e na forma como a morte, a podridão e, no fim, a loucura acaba invadindo a mansão-sobrado em que a história se passa enquanto Sean está fora como juiz de um reality show culinário tipo Master Chef em que ele se mostra particularmente desagradável. A conciliação da desgraça que se abate nos Turners com o que Leanne significa para eles ainda permanece como uma névoa impenetrável só explicável pelo mergulho completo no sobrenatural, mas Shyamalan não está preocupado com isso nesse capítulo, procurando, muito ao contrário, torturar o espectador com seu passo lento e inexorável na pior direção possível e que abre um maravilhoso espaço para a melhor atuação de Lauren Ambrose na temporada.

1X10
Baloon

Gostaria de poder dizer que Servant encerra sua primeira temporada em seu ponto mais alto, mas terei que me contentar em afirmar que, apesar de não ser o melhor episódio, Baloon não reverte para a qualidade mediana dos episódios 1X02, 1X03 e 1X04. Nada como olhar para o lado positivo das coisas, não é mesmo?

O ponto é que, depois do horror visceral de Jericho, somos brindados com um episódio narrativamente tumultuado que se passa durante a festa pós-batizado do bebê dos Turners, o que é, claro, o momento exato para o tio de Leanne voltar trazendo a tira-colo a ainda mais sinistra tia May que, como é revelado mais para o final quando a memória de Dorothy é sacudida, foi líder de um culto religioso fanático. Desnecessário dizer, por certo, que o foco fica quase que inteiramente no lado sobrenatural da história e, justamente por ficar aí e por Servant já ter sido renovada para uma 2ª temporada, é que nada de relevante é realmente revelado.

Há uma confirmação – em tese – de que realmente Leanne tem poderes para reviver pessoas e animais e que ela é particularmente importante para o tal culto, mas isso não é exatamente uma surpresa, não é mesmo? Há momentos tensos com o tio George e Sean no porão e Leanne, Tia May e Dorothy no quarto de Jericho, mas tudo não passa da típica enrolação que um episódio final que precisa manter segredo sobre o mistério central acaba sendo obrigado a fazer. Na verdade, pensando em retrospecto, Baloon até poderia funcionar como um completamente críptico encerramento da série como um todo, com a perspectiva de uma outra temporada sendo até uma potencial pedra no sapato que exigirá um bom plano de médio prazo de Basgallop. Tomara que ele o tenha!

Servant – 1X07 a 1X10: Haggis / Boba / Jericho / Baloon (EUA – 27 de dezembro de 2019, 03, 10 e 17 de janeiro de 2020)
Criação e showrunner: Tony Basgallop
Direção: Alexis Ostrander, Lisa Brühlmann, M. Night Shyamalan, John Dahl
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Toby Kebbell, Lauren Ambrose, Nell Tiger Free, Rupert Grint, M. Night Shyamalan, Phillip James Brannon, Tony Revolori, Jerrika Hinton, Boris McGiver
Duração: 30 min. por episódio

Crítica | Ray Donovan – 6ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Ray Donovan é uma série que se manteve firme em sua premissa ao longo de quatro excelentes temporadas, mas que soube iniciar um processo de transformação na quinta, levando seu protagonista às vias de fato consigo mesmo, tendo a morte de sua esposa como principal elemento catalisador. A sexta temporada, então, que foi ao ar entre o final de 2018 e o começo de 2019, pega os cacos que sobraram de Ray e os mói sem dó nem piedade, tragando de vez toda a família Donovan para um intrincado e doloroso processo de reinvenção e ressurgimento. O que começou como a história de um “resolvedor de problemas” de celebridades, transformou-se em um profundo estudo de personagem que trafega entre a vida e a morte com a mesma facilidade com que se bebe um copo de uísque.

Começando exatamente do ponto em que a temporada anterior parou, ou seja, com a tentativa de suicídio de Ray (Liev Schreiber) jogando-se de um prédio em Nova York, nós o vemos ser resgatado do rio pelo policial Sean “Mac” McGrath (Domenick Lombardozzi) em circunstâncias estranhas que são explicadas e desenvolvidas ao longo da narrativa inicial e que selam a conexão entre os dois. Ray larga sua vida pregressa e passa a morar com Mac até que é tragado de volta para seu passado pela magnata do entretenimento Samantha Winslow (Susan Sarandon retornando ao seu ótimo papel da temporada anterior) que precisa de sua ajuda para eleger sua protegida Anita Novak (Lola Glaudini) à prefeitura da cidade, custe o que custar. Circulando ao redor de Ray, mas mantendo-se consideravelmente sem conexão direta com o protagonista, vemos os demais membros de sua família lentamente reunindo-se em Nova York por razões diferentes: Bunchy (Dash Mihok) é manobrado por Mick (Jon Voight) a libertá-lo da prisão e dirigir até a outra costa dos EUA, Terry (Eddie Marsan) começa a autodestruir-se entregando-se a lutas mortais em um clube da luta, Daryll (Pooch Hall) começa a produção do filme de longe baseado em roteiro de seu pai, e Bridget (Kerris Dorsey) tenta firmar-se ao lado de Smitty (Graham Rogers).

A variedade narrativa é bem-vinda e muito interessante, especialmente, claro, a que lida com Mick e seus cada vez mais absurdos planos que culminam em uma sequência de desmembramento e enterro de corpos no jardim de Sandy Donovan (Sandy Martin, uma sensacional adição ao elenco) que teria perfeito lugar em alguma obra do surrealismo cinematográfico ou do Teatro do Absurdo de tão inacreditável que é e ao mesmo tempo tão triste por deixar evidente o quão profunda é a conexão dos Donovans com o submundo, com o que de pior há no mundo. Claro que o foco da temporada fica mesmo, como não poderia deixar de ser, em Ray e em sua percepção de que sua vida está completamente descontrolada e que todos ao seu redor sofrem por causa dele. A cada passo que ele dá para a frente, ele é obrigado a retroceder 50, em um processo doloroso física e mentalmente que o coloca em um verdadeiro labirinto de onde dificilmente conseguirá escapar.

Esse labirinto, porém, revela o que reputo ser a única fraqueza da temporada e o elemento que me impede de dar nota máxima para ela: a conexão aleatória de Ray com Mac acaba sendo peça-chave para que ele seja envolvido diretamente no conflito de interesses opostos representados por sua chefe Samantha e o prefeito atual da cidade Ed Ferrati (Zach Grenier). É que Ferrati tem Mac, dentre outros, em sua folha de pagamento de um enorme esquema de corrupção e é impossível não achar conveniente demais que coincidentemente Ray seja salvo por Mac e que com ele crie amizade somente para depois estabelecerem posturas antitéticas. Talvez para alguns isso seja um detalhe, talvez até uma premissa para que a temporada seja aceita como ela é, mas, particularmente, achei preguiça do roteiro em estabelecer tamanhos encaixes aleatórios.

No entanto, a grande verdade é que tudo ao redor desse elemento ruim funciona muito bem, já que o foco não é exatamente nos trabalhos de Ray para Samantha, mas sim na forma como ele e os demais membros de sua família vão finalmente alcançando o fundo do poço para que, então, a catarse possa vir com força total e de maneira muito eficiente nos episódios finais, mesmo que o preço seja potencialmente alto. Ray Donovan sempre deixou o niilismo permear sua narrativa e sua presença é particularmente sentida nessa temporada que desconstrói seus personagens para desnudá-los completamente e, talvez, dizer a nós, espectadores, que eles são assim mesmo, não tem jeito. Há, não tenham dúvida, um resvalar em um trabalho psiquiátrico que pode vir a potencialmente manter a autodestruição de Ray em xeque, mas isso é algo que, provavelmente, só será explorado na temporada seguinte (que está acabando na época em que redijo a presente crítica).

Em meio a todo esse sofrimento, mais uma vez Liev Schreiber tem um grande trabalho dramático, talvez superior até ao da temporada anterior. Melhor ainda, diferente do que veio antes, todo o elenco principal tem espaço de sobra para brilhar e todos conseguem se superar aqui, entregando-se em nuances complexas que eternizam cada um de seus personagens em nossas mentes. É, talvez, a primeira vez que os Donovans realmente mostram suas verdadeiras faces e atuam como um só, com a já mencionada bem-vinda adição de Sandy nessa equação.

Chega a ser impressionante como Ray Donovan consegue se reinventar, recusando-se a ficar parada em uma estrutura fixa. Resta saber se foi aqui o fundo do poço da família ou se há mais a ser escavado.

Ray Donovan – 6ª Temporada (Idem, EUA – 28 de outubro de 2018 a 13 de janeiro de 2019)
Criação: Ann Biderman
Showrunner: David Hollander
Direção: Allen Coulter, Tucker Gates, Robert McLachlan, Michael Uppendahl, Zetna Fuentes, Tarik Saleh, John Dahl, Joshua Marston, David Hollander
Roteiro: David Hollander, Miki Johnson, Chad Feehan, Sean Conway
Elenco: Liev Schreiber, Jon Voight, Paula Malcomson, Eddie Marsan, Dash Mihok, Pooch Hall, Katherine Moennig, Kerris Dorsey, Devon Bagby, Susan Sarandon, Graham Rogers, Domenick Lombardozzi, Kate Arrington, Tony Curran, Lola Glaudini, Gerard Cordero, Sandy Martin, Alexandra Turshen, Zach Grenier, Alan Alda
Duração: 654 min. (12 episódios)

Crítica | For All Mankind – 1X09: Bent Bird

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

O maior problema de Bent Bird não está localizado no episódio, mas sim na temporada como um todo, mais especificamente na forma como a personagem Molly Cobb, a primeira mulher a pisar na Lua, foi trabalhada a partir do final de Into the Abyss. Ela simplesmente desapareceu nos três episódios seguintes, somente ganhando uma breve menção em Rupture, o capítulo anterior, claramente com o objetivo de reintroduzi-la artificialmente aqui. Ronald D. Moore, já disse antes, não tem conseguido equilibrar bem a manutenção dos personagens em tela, usando-os apenas quando conveniente, o que retira muito da organicidade da história que conta.

Mesmo assim, Bent Bird é um baita episódio que reúne corretamente boas doses de drama, ação e uma chocante reviravolta que quase o transforma em um digno candidato a episódio final de temporada, já que o próximo provavelmente não conseguirá ultrapassá-lo em termos de qualidade, ainda que eu torça para que consiga esse feito para que o primeiro ano de For All Mankind acabe no topo. Dividindo a narrativa em três núcleos, o roteiro de David Weddle e Bradley Thompson (responsáveis pelo outro melhor episódio da temporada, Into the Abyss) continua a abordar a dor de Karen Baldwin pela perda de seu filho, estabelece uma crise na órbita da Terra com a turbina da Apollo 24 se recusando a ligar e, finalmente, coloca Ed Baldwin em uma espécie de “ponto sem volta” em sua trajetória como veterano de guerra e pai que recentemente perdeu o filho, descobrindo o fato não por sua esposa ou amigos, mas sim por intermédio do inimigo.

É particularmente bom ver que a morte de Shane não é algo passageiro apenas para chocar e que reverbera fortemente na estrutura narrativa. Shantel VanSanten continua aproveitando toda a oportunidade possível para mostrar a qualidade de seu trabalho como atriz, convencendo-nos muito facilmente do drama de Karen que leva a personagem a começar a pensar em quem exatamente ela é, passando a entender que talvez ela seja definida por quem está a seu redor – marido, filho e amigos – e não por méritos próprios. Ao procurar o socorro de Wayne, marido de Molly e provavelmente a única pessoa capaz de compreender o que está passando, o roteiro arrisca trabalhar o assunto de maneira expositiva demais, mas a química dos dois personagens (aqueles que ficam!) é gostosa o suficiente, com uma conversa relevante o suficiente para manter o interesse na discussão que têm até o fim.

Em órbita da Terra, a Apollo 24, comandada por Ellen e tendo o veterano Deke e o descendente de chinês Harrison Liu na tripulação, não consegue partir para a Lua em razão do citado problema na turbina, que se recusa a ligar. Uma operação de conserto é montada às pressas, de certa forma adiantando o cronograma da viagem de Tracy como comandante de sua missão, tendo Molly como segunda em comando, mas usando um foguete mais fraco que só permite a chegada até a órbita justamente para que a peça necessária seja substituída. Há pouco tempo para o episódio desenvolver a sequência de ação espacial, já que esse foi o capítulo mais curto até agora, mas o que é mostrado é suficientemente excitante e bem coreografado para nos deixar agarrando o braço da poltrona com toda a força possível. Apesar de Liu ser eliminado sem sequer tornar-se um personagem propriamente dito, o resgate de Molly, literalmente perdida no espaço, me fez lembrar de Gravidade em termos de qualidade técnica e construção de tensão. Algo me dizia que ela dificilmente morreria assim, mas mesmo com isso em mente, a sequência foi tensa e bem trabalhada também em Terra ao enquadrar Margo como uma líder fria e calculista e Gordo como o herói que sempre teve potencial para ter, mas que seus vícios impediam, o que provavelmente o reaproximará de Tracy, que também tem espaço para mostrar seus nervos de aço.

Finalmente, lá na superfície lunar, Ed, torturado pela morte do filho, tenta recompor-se minimamente, somente para dar de cara com um cosmonauta que, na maior cara-de-pau possível, é flagrado utilizando o elevador da base americana para chegar ao fundo da cratera Shackleton. Teria sido esse o objetivo dos russos ao correrem para contar para Ed que Shane estava morto? Um plano maquiavélico para desestabilizar Ed e permitir furto de pesquisa e tecnologia? Esse tipo de paranoia fica esplendidamente plantada não só na mente de Ed, como também do espectador, criando alguns segundos tensos na borda da cratera, mas que logo se mostram anti-climáticos.

No entanto, esse momento é usado como prelúdio para a chegada do cosmonauta à Jamestown, desesperado por ar. Toda a sequência foi magistralmente orquestrada de forma a dar a entender que Ed talvez pudesse chegar à redenção, à algum tipo de expiação de seu sentimento de culpa ao salvar o cosmonauta e, quem sabe, estabelecer algum tipo de laço com ele. Mas esse seria o caminho mais fácil, mais evidente para a série de Moore, e o showrunner elege fazer do título – Pássaro Torcido ou “quebrado” – não só uma alusão direta aos problemas da Apollo 24, como também ao próprio Ed, isolado e cheio de melaconlia, tendo que extravasar sua raiva da pior maneira possível e potencialmente criando um incidente internacional que só esquentará a Guerra Fria.

Mantendo o mistério sobre o fim da Apollo 24, que perde a capacidade de se comunicar; colocando o FBI novamente como instrumento opressor contra aqueles que não se encaixam em um padrão preconceituoso pré-estabelecido e chocando-nos com a frieza assassina de Ed, Bent Bird poderia facilmente ser um season finale explosivo. O fato de haver mais um episódio pode ser um problema, mas espero fortemente que seja uma bênção para essa série que demorou, mas definitivamente achou seu caminho.

For All Mankind – 1X09: Bent Bird (EUA, 13 de dezembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: John Dahl
Roteiro: David Weddle, Bradley Thompson
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge, Nate Corddry
Duração: 48 min.

Crítica | For All Mankind – 1X10: A City Upon a Hill

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo é um dos melhores thrillers espaciais realistas do cinema, reunindo tensão de arrancar os cabelos com uma boa dose de humanidade tanto no espaço quanto na Terra. Ronald D. Moore, fico feliz em afirmar, conseguiu fazer seu próprio Apollo 13 agora, bem no finalzinho da 1ª temporada de For All Mankind, com o magnífico A City Upon a Hill. São 76 minutos de um roteiro azeitado de Matt Wolpert e Ben Nedivi e uma direção precisa de John Dahl (melhor ainda do que sua própria direção do já excelente episódio anterior) que tocam as teclas certas entre ação, emoção e crítica social, encerrando a temporada com chave de ouro e, melhor ainda, sem nenhum grande cliffhanger, daqueles que deixam o espectador pendurado no meio de algum momento crítico, mostrando que não é necessário recorrer a esse tipo de artifício barato para se contar uma baita história. E olha que eu tinha certeza, como escrevi na última crítica, que o episódio final não seria capaz de ser melhor que Bent Bird

Com a situação da Apollo 25 já resolvida depois do resgate de Molly, quase toda a atenção do capítulo se vira à Apollo 24 que, como descobrimos logo no início, continua queimando o combustível de sua turbina, acelerando descontrolada na direção do espaço profundo. Ellen está desfalecida e acorda com os gritos desesperados de Deke, pendurado lado de fora da nave, com um rombo em sua roupa espacial e um grave ferimento. Sem comunicação alguma com Houston, os dois começam a tomar medidas para reduzir a velocidade e corrigir o rumo de forma a alcançarem – e ficarem – na órbita lunar, o que consome todo o combustível e os deixa aquém do número exato que precisavam. Ou seja, muito barulho por nada, já que não há mais saída a não ser escolher como morrer.

Por seu turno, em Jamestown, respiramos aliviados ao vermos o cosmonauta russo vivo, mas amarrado na base por um Ed enfurecido e completamente alheio a tudo que ocorreu e está ocorrendo em sua operação de resgate. A perda de seu filho e sua paranoia anti-soviética o deixam cego, apenas pensando no que os “vilões” estão construindo/perfurando lá na base deles. Se existe algum momento menos do que absolutamente perfeito no episódio, este é o desenvolvimento do relacionamento entre os dois astronautas, que segue detalhe por detalhe a cartilha clichê de inimigos que se tornam amigos, com direito até mesmo a um simpaticíssimo cosmonauta soviético que se torna o “bonzinho” na história toda. No entanto, a grande verdade é que a relação entre os dois não só representa visualmente exatamente o que foi a Guerra Fria, fazendo perfeito sentido lógico dentro da história macro sendo contada, como Joel Kinnaman e Mark Ivanir estabelecem perfeita química juntos desde o início mais beligerante até o final “fofinho”, com os dois melhores amigos se despedindo. Portanto, a sequência é mais do que completamente perdoável.

Ajuda muito também que, uma vez acordado para a realidade dos fatos, Ed não hesita em decolar para resgatar seus resgatadores, em uma baita sequência de ação em órbita lunar que funciona muito bem também em razão da coragem de Ellen e de todo o contexto fornecido antes que a faz sair do armário para Deke, somente para descobrirmos que Deke nutre profunda homofobia, mesmos que, nos últimos segundos de vida, mesmo não se arrependendo, demonstra ter consciência do que é. É uma inversão de expectativa enorme, já que Deke Slayton, personagem real vivido pelo simpático Chris Bauer, não só é um herói veterano da Corrida Espacial, como, também, o responsável final por colocar mulheres na Lua. O espectador é “ensinado” a esperar dele as melhores reações, mesmo quando é durão e, aqui, uma rasteira nos é dada, demonstrando que mesmo o melhor entre nós esconde segredos sombrios e reações impensadas.

Na Terra, a narrativa relacionada com a homofobia ganha eco com Karen aproximando-se da bartender Pam Horton, que é secretamente apaixonada por Ellen, na busca de alguém para ouvir suas realizações como mulher de um astronauta. O preconceito – de outro tipo – também é materializado pela deportação de Octavio Rosales, pai de Aleida, dos EUA, deixando a menina completamente desamparada. E, por completamente, leia-se no sentido mais amplo, já que nem Margo, incapaz de criar conexões, a ajuda quando a jovem mais precisa.

Considerando que a cena pós-créditos (sim há cena pós-créditos – corram lá para ver!) faz o maior salto temporal da série até agora – algo como sete ou oito anos, para 1983 – será interessante ver quem do elenco será mantido e em que capacidade, que outros personagens serão adicionados e, claro, como Aleida entrará nessa equação. Com nova tecnologia à disposição dos americanos e não exatamente uma base, mas uma colônia lunar, a temporada termina novamente reforçando sua cara de ficção científica realista dentro dessa história alternativa que Ronald D. Moore demorou, mas conseguiu desenvolver maravilhosamente bem.

For All Mankind – 1X10: A City Upon a Hill (EUA, 20 de dezembro de 2019)
Criação: Ronald D. Moore
Direção: John Dahl
Roteiro: Matt Wolpert, Ben Nedivi
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Chris Agos, Matt Battaglia, Chris Bauer, Jeff Branson, Dan Donohue, Colm Feore, Ryan Kennedy, Eric Ladin, Steven Pritchard, Rebecca Wisocky, Tait Blum, Arturo Del Puerto, Noah Harpster, Krys Marshall, Tracy Mulholland, Dave Power, Mason Thames, Olivia Trujillo, Sonya Walger, Lenny Jacobson, Edwin Hodge, Nate Corddry, Meghan Leathers
Duração: 76 min.