Jessica Brown Findlay

Crítica | Victor Frankenstein

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Excetuando talvez a história do vampiresco Conde Drácula, nenhuma outra história de terror foi tão contada e recontada nas mais diferentes mídias do que a do Dr. Frankenstein, cientista criado por Mary Shelley, que ao tentar vencer a morte gerando o seu próprio ser através da ciência, cria um monstro feito com partes de cadáveres. A ideia de renovar essa trama tão conhecida ao contá-la do ponto de vista do assistente corcunda de Victor Frankenstein, Igor, (que não existe no romance original de  Shelley, tendo sido criado para os filmes da Universal) tinha os seus atrativos. Afinal, em muitas versões, o Corcunda Igor vê o cientista como uma espécie de deus e a jornada da perda da fé do assistente na figura de seu mentor poderia ter rendido um filme bem interessante. Infelizmente, o longa-metragem de Paul McGuigan nunca consegue arranhar qualquer potencial que a premissa poderia ter.

Na trama, um corcunda  autodidata (Daniel Radcliffe), é resgatado pelo cientista Victor Frankenstein (James McAvoy) do circo onde trabalhava sob maus tratos, após Frankenstein testemunhar o corcunda utilizar os conhecimentos anatômicos que aprendeu lendo livros roubados para socorrer uma aerialista acidentada. Victor cura a deformidade do corcunda, e o rebatizando de Igor, torna-o seu assistente. Entretanto, à medida em que vai tomando conhecimento da natureza dos experimentos de reanimação de matéria morta realizados por seu salvador, Igor começa a se perguntar até onde está disposto a ir por fidelidade a Frankenstein. Ao mesmo tempo em que a dupla é caçada por Roderick Turpin (Andrew Scott) — um obcecado inspetor de polícia que os acusa de roubar cadáveres –; Finnegan (Freddie Fox), um inescrupuloso milionário, decide financiar o projeto de Frankenstein de criar um Prometeu Moderno visando possuir um Exército particular.

Parte da proposta inicial do roteiro de Max Landis vai pela janela logo nos primeiros minutos de filme, quando sem grande dificuldade, Frankenstein cura a corcunda de Igor, resolvendo tudo com uma extração de fluídos e um colete ortopédico; tirando do personagem o símbolo do ícone que deveria representar. Ainda assim, o longa poderia ter rendido algo minimamente palatável se soubesse exatamente que história queria contar, o que claramente não é o caso. Victor Frankenstein transita de forma esquizofrênica entre o horror de ação, o thriller vitoriano e uma ação assumidamente mais aventuresca, com direito a um vilão “estilo James Bond” na figura de Finnegan. As escolhas narrativas e estéticas de Victor Frankenstein fazem do filme uma mistura indigesta do Sherlock da BBC (que teve vários episódios comandados pelo diretor deste filme), o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, e o pavoroso Van Helsing de Stephen Sommers que nunca consegue dar a esta mistura de referências uma unidade coesa.

O filme, em boa parte do tempo, parece querer se apresentar como uma aventura quase satírica, o que pode ser percebido especialmente pela atuação de James McAvoy, que vive o cientista do título de forma deliciosamente efusiva e excêntrica. O Frankenstei de McAvoy um maníaco com uma persona quase infantil, e que claramente não tem a dimensão (e se tivesse, não se importaria) de suas ações. Nesses momentos, percebemos que o projeto de Paul McGuigan poderia ter funcionado como uma comédia gótica de ação, que inclusive cresce quando se permite tirar sarro dos signos ligados ao personagem, como a tempestade e a icônica frase “Está Vivo”.

Mas supostamente este deveria ser um filme contado pela perspectiva de Igor, na prática o nosso protagonista (apesar do título), e é ao tentar abordar as dúvidas e conflitos morais do (ex)corcunda de forma articulada com a maluquice quase paródica em torno de Frankenstein, que a obra se perde. O roteiro parece crer que o romance de Igor com a jovem acrobata Lorelei (Jessica Brown Findlay) será capaz de abrir os olhos do jovem para os erros de seu “benfeitor”, mas a relação nunca convence. A crise de confiança dos dois amigos que surge da revelação de segredos horríveis de Frankenstein não transita bem entre os aspectos cômicos e dramáticos da narrativa, nunca permitindo portanto, que nos envolvamos emocionalmente com os personagens, já que os atores parecem estar atuando em projetos diferentes.

O filme possui um trabalho de direção de arte interessante; retratando uma Londres suja, sombria e caótica. As sequências de ação por sua vez surgem burocráticas e pouco criativas. As criaturas criadas por Frankenstein ao longo do filme são  visualmente pobres, infelizmente, seja aquelas criadas por um CGI pouco convincente (que são a maioria), ou por um trabalho de maquiagem derivativo e pouco inspirado.

Entre tantas aparições do Dr. Franknestein e de seu monstro nos cinemas e na TV, é pouco provável que esta produção seja lembrada como uma adaptação digna da obra de Mary Shelley. A falta de um foco para o filme sobre como explorar os seus protagonistas, que nunca parece se decidir entre uma abordagem mais satírica e uma abordagem mais contida, somada a uma direção trôpega; fazem desta produção uma bomba, que nem mesmo a ciência de Frankenstein conseguiu trazer à vida.

Victor Frankenstein- Estados Unidos, 2015
Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Max Landis (Baseado nos personagens de Mary Shelley)
Elenco: James McAvoy,Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott, Freddie Fox, Charles Dance, Callum Turner, Daniel Mays, Bronson Webb, Alistair Petrie, Mark Gatiss, Louise Brealey, Guillaume Delaunay, Adrian Schiller, Valene Kane
Duração: 109 minutos.

Crítica | Castlevania – 3ª Temporada

  • spoilers. Leia, aqui, as críticas da temporadas anteriores.

Drácula se foi e, aparentemente, sem o Príncipe das Trevas, o que sobra do universo de Castlevania é muito, mas MUITO papo furado. Na terceira temporada da série que muitos dizem ser a melhor adaptação de um videogame para o audiovisual, Warren Ellis conta uma arrastadíssima história – ou melhor, três arrastadíssimas histórias – que, apesar de visualmente muito bonita, não tem estofo para preencher nem mesmo um curta metragem, literalmente convertendo seus interessantes personagens em personificações da mais completa chatice apática.

Privilegiando diálogos expositivos intermináveis que abordam desde assuntos sérios como um portal para o inferno até coisas banais como uma negociação para a contratação de transporte marítimo, os textos de Ellis parecem o proverbial cão que corre atrás do rabo. Não só tudo parece ter um fim em si mesmo, como as narrativas paralelas não só não conversam, como cada uma delas pouco ou nada se desenvolve. É como se essa temporada inteira de 10 episódios, dois a mais que a anterior, fosse um gigantesco filler que apenas muito de leve arruma o tabuleiro para algo não muito claro que poderá – ou não – vir no futuro e que parece envolver Drácula de alguma forma, talvez por ele ser a tábua de salvação da série.

Peguem, por exemplo, Trevor Belmont, o último membro vivo do clã Belmont e sua companheira Sypha Belnades, uma Oradora super-poderosa. Não só Trevor é trazido à vida com a voz de Richard Armitage, que parece se esforçar muito para manter-se acordado em cada linha de diálogo (o contraste do trabalho dele aqui com o da temporada anterior e, mais ainda, com os podcasts de Wolverine é absurdo), como sua função narrativa é praticamente inexistente para além de beber cerveja e ser o interlocutor de conversas inúteis dos mais variados tipos. Sypha, mesmo com um bom trabalho de dublagem de Alejandra Reynoso, parece mais uma super-heroína de quadrinhos mal-escritos, com direito a mágicas variadas e a uma excitação tão artificial a cada monstro que enfrenta, que fica difícil não rir da moça. E, claro, assim como Trevor, ela não tem real utilidade na história.

Esse tipo de situação é repetida ad nauseam na lerdíssima jornada de Isaac do deserto para onde Drácula o mandara de volta ao Leste Europeu, no modorrento e mais do que completamente clichê relacionamento entre a vampira ninfeta Lenore (Jessica Brown Findlay) e Hector, provavelmente o sujeito mais inocente e bobalhão da animação e, finalmente, na solidão bucólica de Alucard (cansa demais a forma zacksnyderiana pseudo-inteligente como ele é relacionado a Jesus Cristo) quebrada pela chegada dos caçadores de vampiro japoneses Taka (Toru Uchikado) e Sumi (Rila Fukushima), dois personagens que praticamente telegrafam o que farão ao final a cada segundo de presença em tela. E o mais revoltante é que efetivamente há histórias potencialmente interessantes a serem contadas em cada uma dessas linhas narrativas, mas elas simplesmente não andam, bastando notar que, do retorno de Carmilla ao seu castelo até a última cena em que ela aparece, nada – absolutamente nada – de seu plano de criação de um império caminhou para frente em termos de ação. Aliás, sendo muito sincero, até mesmo em palavras a evolução foi tímida.

Com isso, mesmo que não houvesse necessidade premente de conexão mínima entre as várias frentes que são abertas (e, em termos narrativos, há), elas, individualmente, não levam a lugar algum significativo. Sim, vemos alguns segundos de Drácula e sua amada no inferno e Isaac acaba conseguindo construir seu exército e Lenore finalmente “converte” Hector, mas e daí? O que, dentro dessa temporada, isso significa? Ellis, excelente escritor de quadrinhos, conhece muito bem o conceito de arcos narrativos, mas sua temporada não é mais do que pedaços de história que focam em diálogos longos e excessivamente expositivos que parece ter o único objetivo de chegar ao penúltimo episódio em que as pancadarias das histórias de Trevor e Isaac são intercaladas com sequências “transgressoras” de sexo para fazer os olhos de adolescentes nerds brilharem. Em suma, é muito pouco dividendo para tamanha enrolação.

No lugar de contar uma história – ou algumas histórias – Ellis preocupa-se em inserir novos personagens. Temos o florido e enigmático Saint-Germain (Bill Nighy, excelente), o sinistro Juiz sem nome (Jason Isaacs, também ótimo) e o abilolado Sala (Navid Negahban, o Farouk de Legion), líder do priorado, todos batendo cabeça na narrativa de Trevor e Sypha, a bruxa aleatória que manda Isaac para uma cidade aleatória enfrentar um bruxo aleatório e, finalmente, as três vampiras do conselho de Carmilla que são realmente interessantes, mas que acabam ganhando contornos arquetípicos muito pouco inspirados. Com isso, a cola temática vai desaparecendo e oito dos dez episódios da temporada tornam-se o exemplo máximo de como não escrever uma obra audiovisual. Ellis realmente precisa aprender a criar longos diálogos relevantes com alguns cineastas mestres nisso como Woody Allen, Quentin Tarantino ou Charlie Kaufman. Aliás, quer focar em diálogos, então inspire-se em Meu Jantar com André.

Aqueles enfronhados na mitologia da série de games da Konami provavelmente revirarão os olhos e dirão algo como “o crítico não sabe de nada” ou “o crítico não conhece as histórias” e tudo bem com isso, mas o julgamento, aqui, é sobre a temporada, pouco importando se ela é fiel ou não ao material fonte. O importante – para além da opinião pessoal que faz parte de qualquer crítica – é saber se, tecnicamente, uma temporada como essa se segura e a grande verdade é que ela parece muito mais um interlúdio interminável do que algo que possa efetivamente ser chamado de temporada (aliás, problema semelhante – mas com menos duração – da 1ª temporada).

E, no meio dessa enrolação toda, a animação, sempre muito bonita, perde a força quase que completamente. Palmas para o design dos novos personagens, das criaturas da noite e para as poucas sequências de ação, mas não muito mais do que isso, já que as imagens são escravizadas por um texto que simplesmente não dá espaço para elas desabrocharem. É como um pavão enjaulado: até pode ser bonito, mas é triste de se ver.

A terceira temporada de Castlevania, no final das contas, é uma enfadonha e cansativa sucessão de diálogos que não só são pouco inspirados, como didáticos e expositivos ao extremo que tentam dar uma roupagem complexa e sofisticada a histórias simples e rasteiras. Bonito, sem dúvida, mas completamente ordinário.

Castlevania – 3ª Temporada (EUA, 05 de março de 2020)
Direção: Sam Deats, Adam Deats
Roteiro: Warren Ellis
Elenco (vozes originais): Richard Armitage, James Callis, Alejandra Reynoso, Theo James, Adetokumboh M’Cormack, Jaime Murray, Yasmine Al Massri, Jessica Brown Findlay, Ivana Milicevic, Bill Nighy, Navid Negahban, Jason Isaacs, Toru Uchikado, Rila Fukushima, Barbara Steele, Lance Reddick
Duração: 264 min. (10 episódios)