James McAvoy

Crítica | Victor Frankenstein

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Excetuando talvez a história do vampiresco Conde Drácula, nenhuma outra história de terror foi tão contada e recontada nas mais diferentes mídias do que a do Dr. Frankenstein, cientista criado por Mary Shelley, que ao tentar vencer a morte gerando o seu próprio ser através da ciência, cria um monstro feito com partes de cadáveres. A ideia de renovar essa trama tão conhecida ao contá-la do ponto de vista do assistente corcunda de Victor Frankenstein, Igor, (que não existe no romance original de  Shelley, tendo sido criado para os filmes da Universal) tinha os seus atrativos. Afinal, em muitas versões, o Corcunda Igor vê o cientista como uma espécie de deus e a jornada da perda da fé do assistente na figura de seu mentor poderia ter rendido um filme bem interessante. Infelizmente, o longa-metragem de Paul McGuigan nunca consegue arranhar qualquer potencial que a premissa poderia ter.

Na trama, um corcunda  autodidata (Daniel Radcliffe), é resgatado pelo cientista Victor Frankenstein (James McAvoy) do circo onde trabalhava sob maus tratos, após Frankenstein testemunhar o corcunda utilizar os conhecimentos anatômicos que aprendeu lendo livros roubados para socorrer uma aerialista acidentada. Victor cura a deformidade do corcunda, e o rebatizando de Igor, torna-o seu assistente. Entretanto, à medida em que vai tomando conhecimento da natureza dos experimentos de reanimação de matéria morta realizados por seu salvador, Igor começa a se perguntar até onde está disposto a ir por fidelidade a Frankenstein. Ao mesmo tempo em que a dupla é caçada por Roderick Turpin (Andrew Scott) — um obcecado inspetor de polícia que os acusa de roubar cadáveres –; Finnegan (Freddie Fox), um inescrupuloso milionário, decide financiar o projeto de Frankenstein de criar um Prometeu Moderno visando possuir um Exército particular.

Parte da proposta inicial do roteiro de Max Landis vai pela janela logo nos primeiros minutos de filme, quando sem grande dificuldade, Frankenstein cura a corcunda de Igor, resolvendo tudo com uma extração de fluídos e um colete ortopédico; tirando do personagem o símbolo do ícone que deveria representar. Ainda assim, o longa poderia ter rendido algo minimamente palatável se soubesse exatamente que história queria contar, o que claramente não é o caso. Victor Frankenstein transita de forma esquizofrênica entre o horror de ação, o thriller vitoriano e uma ação assumidamente mais aventuresca, com direito a um vilão “estilo James Bond” na figura de Finnegan. As escolhas narrativas e estéticas de Victor Frankenstein fazem do filme uma mistura indigesta do Sherlock da BBC (que teve vários episódios comandados pelo diretor deste filme), o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, e o pavoroso Van Helsing de Stephen Sommers que nunca consegue dar a esta mistura de referências uma unidade coesa.

O filme, em boa parte do tempo, parece querer se apresentar como uma aventura quase satírica, o que pode ser percebido especialmente pela atuação de James McAvoy, que vive o cientista do título de forma deliciosamente efusiva e excêntrica. O Frankenstei de McAvoy um maníaco com uma persona quase infantil, e que claramente não tem a dimensão (e se tivesse, não se importaria) de suas ações. Nesses momentos, percebemos que o projeto de Paul McGuigan poderia ter funcionado como uma comédia gótica de ação, que inclusive cresce quando se permite tirar sarro dos signos ligados ao personagem, como a tempestade e a icônica frase “Está Vivo”.

Mas supostamente este deveria ser um filme contado pela perspectiva de Igor, na prática o nosso protagonista (apesar do título), e é ao tentar abordar as dúvidas e conflitos morais do (ex)corcunda de forma articulada com a maluquice quase paródica em torno de Frankenstein, que a obra se perde. O roteiro parece crer que o romance de Igor com a jovem acrobata Lorelei (Jessica Brown Findlay) será capaz de abrir os olhos do jovem para os erros de seu “benfeitor”, mas a relação nunca convence. A crise de confiança dos dois amigos que surge da revelação de segredos horríveis de Frankenstein não transita bem entre os aspectos cômicos e dramáticos da narrativa, nunca permitindo portanto, que nos envolvamos emocionalmente com os personagens, já que os atores parecem estar atuando em projetos diferentes.

O filme possui um trabalho de direção de arte interessante; retratando uma Londres suja, sombria e caótica. As sequências de ação por sua vez surgem burocráticas e pouco criativas. As criaturas criadas por Frankenstein ao longo do filme são  visualmente pobres, infelizmente, seja aquelas criadas por um CGI pouco convincente (que são a maioria), ou por um trabalho de maquiagem derivativo e pouco inspirado.

Entre tantas aparições do Dr. Franknestein e de seu monstro nos cinemas e na TV, é pouco provável que esta produção seja lembrada como uma adaptação digna da obra de Mary Shelley. A falta de um foco para o filme sobre como explorar os seus protagonistas, que nunca parece se decidir entre uma abordagem mais satírica e uma abordagem mais contida, somada a uma direção trôpega; fazem desta produção uma bomba, que nem mesmo a ciência de Frankenstein conseguiu trazer à vida.

Victor Frankenstein- Estados Unidos, 2015
Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Max Landis (Baseado nos personagens de Mary Shelley)
Elenco: James McAvoy,Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott, Freddie Fox, Charles Dance, Callum Turner, Daniel Mays, Bronson Webb, Alistair Petrie, Mark Gatiss, Louise Brealey, Guillaume Delaunay, Adrian Schiller, Valene Kane
Duração: 109 minutos.

Crítica | His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X07: The Fight to the Death

plano crítico The Fight to the Death his dark materials

  • Há SPOILERS! Confira a crítica para os outros episódios da série aqui.

Mesmo com uma estranha correria para a ocorrência da grande batalha no Norte e, neste episódio, a migração do pessoal do Magisterium para a região boreal, eu tenho gostado dos rumos que Fronteiras do Universo tem tomado nesta reta final da temporada. Tirando a estranha elipse e nenhuma colocação mais sólida sobre Layra & Cia. terem sobrevivido à queda do balão, todo o episódio se desenvolve de maneira muitíssimo interessante, com cenas até bem pesadas para um show aparentemente tão “bonitinho e inofensivo” como este.

Basicamente o que tivemos foi a resolução de alguns casos deixados em aberto antes (especialmente o dilema de rei envolvendo Iorek Byrnison) e o afunilamento dos personagens ligados a Lyra, Sra. Coulter e o Magisterium, dando-nos a impressão de que um evento muito importante está para acontecer, mas que existe bastante receio sobre quem deve dar o primeiro passo. É bem curioso o que vou dizer agora, mas confesso que sinto falta dos gípcios nessa jornada. Este povo esteve em metade da temporada e conseguiu formar um laço tão forte com o público que acaba fazendo falta, especialmente porque não foram substituídos e, pelo menos para mim, não há nenhum núcleo de personagens do qual eu consiga me aproximar tanto quanto o deles.

A direção de Jamie Childs (que começou a fazer um bom nome na TV a partir dos episódios que dirigiu para a 11ª Temporada de Doctor Who) faz um uso belíssimo das paisagens nevadas e usa tomadas de grande impacto como panorâmicas e planos gerais para mostrar a grandeza de determinadas empreitadas, os desafios de espaço geográfico ou uns ambientes macabros para se enfrentar, como a caverna/palácio cheio de sangue já na entrada, o reino de terror do golpista Iofur Raknison. A fotografia trabalha com bastante contraste em todo esse segmento e a direção entrega uma baita luta entre os ursos, com direito a momento que chegamos a estreitar os olhos. Lyra se mostra aqui uma boa manipuladora e ao mesmo tempo alguém que consegue pensar nos caminhos mais improváveis para se sair de uma situação difícil, o que é bem legal de se ver, pois a personagem não fica refém apenas de reagir a coisas que a afetam fisicamente. Ela pensa, e pensa de maneira bem intricada.

Diferente do episódio passado, as cenas no nosso mundo estão bem colocadas no episódio e mesmo que não possua uma ligação direta ou imediata com o Universo de Lyra, carrega um bom peso de ação, o bastante para nos entreter e para equilibrar melhor a balança de ritmo no episódio. Eu só acho muito estranho que em um Universo a gente perceba o roteiro correndo para aglutinar o máximo de coisas possíveis em um único Finale (vocês que leram o livro veem uma explicação plausível para isso?) e no outro as coisas andem em ritmo lento demais — embora não a ponto de estragar a nossa experiência ou atrapalhar o episódio, vale-se dizer. E a propósito: dois episódios seguidos repetindo o mesmo trecho de gravação com Andrew Scott? Faltou dinheiro para fazer mais cenas de contexto?

Se as linhas gerais do que entendemos como “motivos para todo mundo ir para o Norte” estiverem corretas, eu fico imaginando o que pode sobrar de realmente excitante para a próxima temporada que já foi confirmada há tempos. E olhem que nunca subestimo o poder de um bom roteiro, mas mesmo eu que não li uma única página do livro consigo perceber que estão gastando uma boa quantidade de munição aqui. De toda forma, falta apenas uma semana para a gente descobrir as consequências disso tudo, ou seja, onde é que o roteiro irá nos deixar. Espero que pelo menos o núcleo de Will Parry avance consideravelmente. Já o restante… confesso que não tenho ideia do que querer ou esperar a respeito.

His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X07: The Fight to the Death — Reino Unido, 15 de dezembro de 2019
Direção: Jamie Childs
Roteiro: Jack Thorne (baseado na obra de Philip Pullman)
Elenco: Dafne Keen, Ruth Wilson, Ruta Gedmintas, Ariyon Bakare, Amir Wilson, Nina Sosanya, Gary Lewis, Lewin Lloyd, Lin-Manuel Miranda, Morfydd Clark, Asheq Akhtar, Kit Connor, Robert Emms, Joi Johannsson, James McAvoy, Joe Tandberg
Duração: 55 min.

Crítica | Operação Presente

O que esperar de um filme natalino intitulado Operação Presente? No mínimo, uma ode ao verbo que está entre os cinco mais conjugados do período: “presentear”, claro, haja vista o nome da produção que guia a reflexão em questão. Dirigida por Sarah Smith e por Barry Cox, dupla que também assumiu o roteiro, em parceria com Peter Baynham, a animação versa sobre o processo de organização e entrega dos presentes natalinos pelo Papai Noel e sua equipe de colaboradores, comandada sob um grupo de líderes bem organizados diante da missão mais importante do ano no contexto de suas histórias.

Lançado em 2011, Operação Presente é uma produção que descortina a história de Arthur (voz de James McAvoy), filho de Papai Noel, o vigésimo de sua linhagem. Ele é quem veste a camisa das tarefas familiares e se encanta diante da felicidade de cada criança a receber o seu presente. Há beleza e virtude na ação e por ser desajeitado, o jovem não é a primeira opção de seus pais no comando da atividade num futuro próximo. Como desafio, há o aumento populacional que impede a tarefa de ser algo simples, ao contrário, é repleta de obstáculos desafiadores.

Com seu tamanho gigantesco, a nave S1 é o meio de transporte para a entrega dos presentes, sem renas e trenós, elementos considerados como coisa do passado. Assim, o filme entrega uma de suas discussões, focada em tecnologia, ao refletir como o Papai Noel consegue entregar tantos presentes em apenas uma noite? Debate da contemporaneidade, era dos aplicativos e da democratização em larga escala da cibercultura, com o ofício herdado por gerações comandado por meio de monitoramentos, computadores e outros itens de alta tecnologia.

O Papai Noel (voz de Jim Broadbent) já prepara os jovens para assumir missões no futuro, tal como o Vovô Noel (voz de Bill Nighy) fez quando necessário. Steve (Hugh Laurie), inicialmente colocado para ser o sucessor, recebe um cargo administrativo no processo de organização da entrega de presentes, haja vista a sua praticidade na atividade, sem deixar espaço para sentimentalismo ou distrações que o atrapalhe no exercício de sua função, afinal, a divulgação do filme delineia no cartaz: “já pensou como dois bilhões de presentes são entregues numa só noite?”.

Diante dos conflitos mais básicos, algo toma a preocupação dos envolvidos de maneira mais urgente. Após todas as entregas, descobre-se que uma garota do sudoeste da Inglaterra não recebeu o seu presente. Assim, torna-se possível que a garota perca relativamente a sua crença na magia natalina. É a chance de Arthur mostrar serviço e comprovar que por detrás de seu jeito desengonçado, há força para assumir tarefas complexas como as exercidas por seu pai. É algo desafiador e novo. A dúvida é saber se ela conseguirá ou não dar conta da incumbência.

Assim, em seu processo narrativo, Operação Presente conta com imagens deslumbrantes, produzidas com apoio da equipe de efeitos visuais comandada por Doug Keller, profissional que teve como apoio, a condução musical leve de Harry Gregson-Williams. São imagens que guiam um roteiro acima da média, diferente do que geralmente se faz no campo da animação, isto é, a excessiva facilitação narrativa para atingir o público infantil, majoritário diante deste tipo de filme. Produzido pelos estúdios Aardman, teve distribuição da Sony Pictures e foi um relativo sucesso de público.

E, por fim, a reflexão adicional sobre o natal, época em que o amor é a questão moral que mais importa. Alguns colocam o seguinte ponto: o que seria uma prova de amor mais contundente que o ato de presentear? Desculpa de consumista ou atitude exclusivamente nobre? Na ótica da animação, despreocupada com esse tipo de preocupação, afinal, não é parte de seu foco narrativo, presentear é algo basicamente industrial, mecânico, necessário para se estabelecer a ordem das tradições vigentes. É uma operação de caráter militar.

Operação Presente (Arthur Christmas/Estados Unidos, 2011)
Direção: Sarah Smith
Roteiro: Peter Baynham, Sarah Smith
Elenco: Adam Tandy, Alan Short, Alistair McGowan, Andy Serkis, Ashley Jensen, Bill Nighy, Bronagh Gallagher, Clint Dyer, Cody Cameron, DannyJohn-Jules, David Schneider, Deborah Findlay, Dominic West, Donnie Long, Emma Kennedy, Eva Longoria, Finlay Duff, Hugh Laurie, Iain McKee, Ian Ashpitel, Imelda Staunton, James McAvoy, Jane Horrocks
Duração:  97 min

Crítica | His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X08: Betrayal

  • Há SPOILERS! Confira a crítica para os outros episódios da série aqui.

Que final triste! E que final interessante também! Uma boa parte das minhas dúvidas e visão do que poderia acontecer à série foram dissipadas aqui, com Jack Thorne escrevendo o melhor roteiro de toda a temporada. Até The Fight to the Death ainda tínhamos um problema geral de ritmo e interação com as camadas da trama, mas aqui em Betrayal essa impressão se dissipa e, exceto por alguns momentos do final, todo o projeto se segura tranquilamente.

Depois da cara horrível de Lord Asriel para Roger no fim do episódio anterior, eu estava com medo pelo destino do menino, e tinha toda razão para isso. Confesso que fui pego inteiramente de surpresa pelo que acontece aqui, pois não imaginava que o personagem de James McAvoy tivesse esse lado horrível de cientista louco e de indivíduo cuja porca moral maquiavélica realmente acredita que os fins justificam os meios, especialmente em um caso como este, envolvendo o assassinato de uma criança para completar um projeto. Até o último minuto eu achei que a série se renderia ao espírito natalino e salvaria o garoto e seu daemon, mas não. Doeu forte o que eu vi aqui e nem preciso dizer o quanto chorei. Dramaticamente falando, é um excelente trampolim para o amadurecimento de Lyra e também para a próxima fase de sua jornada, agora no nosso mundo (é isso mesmo? Ou ela vai para outro mundo? Porque tem outros mundos além desses dois mostrados, não tem?).

Em termos de desenvolvimento ou concepção de personagens, minha alegria foi às alturas nesse episódio. Não sei se é produto de uma ótima adaptação ou se é coisa exclusiva da série, mas colocar Lorde Asriel e a Sra. Coulter como vilões que possuem diversas outras camadas — e pra ser sincero, esse negócio de vilão como “mal encarnado“, “mal absoluto” e com apenas o lado ruim em sua composição, só funciona com demônios, independente da mitologia em questão –, o que torna a série bem mais interessante do ponto de vista prático. Sabendo que eles possuem certos limites e considerações morais, as ações que os envolverão no futuro tenderão a parecer mais profundas, assim como as escolhas que tomarem, pois acredito que o roteiro deve manter a lógica desse pêndulo moral daqui para frente.

Algo que bati o martelo durante o episódio é que Dafne Keen não parece totalmente confortável interpretando uma garota como Lyra, com misto de inocência, sagacidade e seriedade. Observem na cena lindíssima em que ela está na cabana com Roger, enquanto seus daemons brincam do lado de fora. O ator Lewin Lloyd (que imagino ser mais novo que Keen) entrega um trabalho muitíssimo mais interessante, mais solto, mais orgânico. Já sua colega de cena parece travada, consideravelmente artificial. Eu adorei Dafne Keen em Logan, mas aqui em Fronteiras não vi nada realmente impressionante no trabalho dela.

O tom épico do episódio se reflete na direção ágil, na trilha sonora que abraça a magnitude do que está sendo narrado e, claro, na fotografia, principalmente porque a maior parte das cenas são noturnas, o que é sempre difícil de se fazer por um período estendido de tempo. Agora é esperar para ver como cada indivíduo agirá em mundos diferentes e como as buscas dos mocinhos e dos vilões deflagrarão mais uma porção de outras batalhas. Estou pronto para a 2ª Temporada.

His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X08: Betrayal — Reino Unido, 22 de dezembro de 2019
Direção: Jamie Childs, William McGregor
Roteiro: Jack Thorne (baseado na obra de Philip Pullman)
Elenco: Dafne Keen, Will Keen, Ruth Wilson, James McAvoy, Ariyon Bakare, Frank Bourke, Gary Lewis, Lewin Lloyd, Robert Emms, Jamie Wilkes, Amir Wilson, Joe Tandberg, Cath Whitefield, Helen McCrory, Kit Connor
Duração: 56 min.