Idina Menzel

Crítica | Joias Brutas

plano crítico joias brutas uncut gems netflix plano crítico

Cinco anos antes de Joias Brutas, em 2014, os irmãos Benny e Josh Safdie dirigiam o longa Amor, Drogas e Nova York. Naquela história, a moradora de rua Harley estava presa em uma rotina que se baseava em conseguir dinheiro suficiente para comprar uma quantia de drogas que lhe deixasse anestesiada por um dia. Na manhã seguinte, a mesma coisa, e assim ia passando o tempo, um dia após o outro. Assim, era como se a protagonista estivesse sempre confiando seu futuro ao acaso ou na sorte. Afinal, não há como prever o aparecimento de um surto psicótico ou uma overdose. Já em Bom Comportamento, de 2017, o fugitivo Connie entrava uma crescente de decisões impulsivas que iam formando uma grande bola de neve, na tentativa de conseguir dinheiro para pagar a fiança de seu irmão preso. De certo modo, o novo trabalho dos Safdies é um grande amálgama desses dois filmes.

Em Joias Brutas, o joalheiro e judeu Howard Ratner (Adam Sandler) — assim como os outros protagonistas dos Safdies —  possui um vício. No seu caso, apostar, não só com dinheiro, mas, consequentemente, com a sua própria vida. Após conseguir uma rara pedra de opala de mineradores da Etiópia, Ratner começa diversas negociações paralelas e acaba se enrolando com todas elas. Todavia, para quitar suas dívidas anteriores, ele vai se afundando em mais apostas arriscadas, principalmente envolvendo jogos de basquete.

Desde o início somos transportados para a frenética vida de Ratner. Ele é um personagem que está em constante movimento e sempre ao telefone negociando novos esquemas que surgem decorrentes dos anteriores. Se não há nenhum momento de respiro durante a narrativa, é porque o filme segue a mesma lógica de um mercado financeiro especulativo. Não há tempo de pensar, só de uma reagir imediatamente, em uma relação muito direta entre causa e consequência que parece se reinventar através de um caos a todo momento. Se Joias Brutas é uma experiência tão sufocante desde que começa, um dos principais motivos é porque, nós, com uma visão de fora, conseguimos ver que o protagonista está cavando sua própria cova, ao mesmo tempo que ele está totalmente cego diante do jogo que está imerso.

Para Howard, cada ato desesperado é como uma tentativa de retomar controle de algo que já está totalmente longe de seu alcance. Mais do que estar no poder, como ele indica em uma determinada conversa com Kevin Garnett (jogador de basquete que interpreta a si mesmo), é sobre ter a sensação de comando. Este mesmo raciocínio é o que acontece com o próprio Garnett, que, quando está sob a posse da pedra de opala, acredita que faz partidas melhores na NBA

Como alguém que se aventurou em apostas, fica fácil, para mim, entender toda essa questão central de falso-controle que envolve o protagonista. Lembro de passar horas discutindo com amigos sobre a lógica de uma roleta. Entre várias apostas possíveis, uma delas é se a próxima bola a ser sorteada será da cor preta ou vermelha. A chance de cada uma são iguais, sempre. Entretanto, eu só entrava com dinheiro toda vez que havia, no mínimo, uma sequência de cinco bolas de uma cor para apostar contra ela. Na minha cabeça, eu tinha a impressão de que era mais seguro apostar assim. No entanto, estou apenas me enganando, pois nada impede que venha a sexta bola da mesma cor. Não há como ser mais esperto que o próprio sistema.

Me perdoem pela digressão acima, mas tal analogia me pareceu cabível como um resumo do que é assistir Joias Brutas. O personagem vivido por Sandler possui tanta convicção que está contornando a situação que chegamos a nos iludir, junto com ele, conforme a progressão da trama. O pior ainda é que o roteiro escrito pelos próprios Safdies e por Ronald Bronstein nos manipula justamente porque cede pequenas vitórias momentâneas, apenas para trazer uma catástrofe maior no segundo seguinte. Chega a ser curioso que no meio da história, Howard receba uma ligação positiva do seu médico sobre o resultado da colonoscopia que ele havia realizado no início do filme. Ele fica genuinamente aliviado por alguns segundos, mas não consegue nem assimilar este momento, porque está discutindo no meio de seu escritório.

Aliás, nessa lógica de um protagonista que está constantemente precisando se provar, a escolha de Adam Sandler acaba sendo a melhor possível. Com exceção de Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson, o ator parecia ter entrado em uma zona de conforto nesta década em papéis cômicos voltados para um nicho muito específico de público. Desta vez, assim como o próprio Howard, Joias Brutas soa como uma grande prova para Sandler mostrar seu valor e que, no fundo, o declínio de sua carreira teve muito mais a ver com escolhas erradas do que sua capacidade como ator. Há um misto de sofrimento e de energia que vai se adaptando muito bem para cada situação que o personagem se encontra, acompanhando a bipolaridade de picos do longa. 

Por fim, em Joias Brutas, os Safdies fogem do submundo dos junkies, das drogas e dos rejeitados de seus filmes anteriores, mas, no fundo, eles apenas estão mostrando o outro lado da mesma moeda. Agora, eles vão para uma Nova York dos leilões, dos empresários, rappers e apostas para abordar o mesmo tema: o vício. E, pobre ou rico, o vício é a ruína do homem. Algo que os diretores parecem entender melhor do que ninguém no cinema norte-americano moderno. 

Joias Brutas (Uncut Gems) – USA, 2019
Direção: Josh Safdie e Benny Safdie
Roteiro: Josh Safdie, Benny Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Adam Sandler, Julia Fox, Lakeith Stanfield, Idina Menzel, Kevin Garnett, Judd Hirsch, The Weeknd, Tilda Swinton, John Amos, Trinidad James, Eric Bogosian, Marcia DeBonis, Pom Klementieff,  Natasha Lyonne
Duração: 135 min.

Crítica | Frozen 2

“O passado não é o que parece ser…”

Obs.: Pode parecer meio bobo este aviso, mas se possível, evite procurar todo e qualquer detalhamento sobre a história de Frozen 2, garanto que há muita surpresa por trás, até por conta disso, a crítica buscou não falar praticamente nada sobre a trama.

Se tiver um dia coragem de maratonar as 58 animações da Disney em seu estúdio principal (algo que quem vos escreve fez), é perceptível o encaixe de 3 a 4 fases de ouro muito representativas em sua história. A primeira e mais óbvia é a de suas animações iniciais, iniciada em 1937 com Branca de Neve e os Sete Anões, passando por Pinóquio, Fantasia, Dumbo e, por fim, Bambi em 1942, sendo marcada pela agressividade moralista adjunto de uma coragem experimental das técnicas inovadoras da animação. Uma segunda fase questionável se formaria no início da década de 50 com Cinderela e encerraria em 1967 com Mogli: O Menino Lobo. Contudo, apesar da sequência de ótimas animações como Peter Pan, A Dama e o Vagabundo e 101 Dálmatas, essa não tem uma característica peculiar em comum para se concretizar como uma fase. Então, opto por considerar como segunda a que seria a terceira fase de ouro, basicamente os anos 90.

Iniciada um pouquinho antes com A Pequena Sereia, em 1989, até Tarzan em 1999, é considerada como o período mais significativo do estúdio em sequências de animações marcantes, muito pelo prisma musical espetaculoso e reorganização das figuras dos contos de fadas classicistas em locais mais abrangentes. Depois do fim dessa fase, o estúdio passou por crises de identidade graças à descoberta do 3D, frequentando um limbo de produções medianas, perdidas na criação de uma identidade única (algumas, inclusive, de que gosto muito). Isso até a união criativa com a Pixar, que começou a influenciar nas decisões de projetos, muito provavelmente a partir de 2012, com Detona Ralph, que deu um norte para o possível início de uma nova fase de ouro do estúdio – agora em 3D – que, caso historicamente se concretize, tem como pilar o primeiro Frozen, divisor de opiniões ao se arriscar na higeniezação de adeptos ultrapassados das fantasias anteriormente criadas, mas sem negá-las na estruturação das tramas (a própria crítica deste site do colega Ritter não é positiva).

É compreensível esse caráter divisivo do projeto, principalmente numa revisitada 6 anos depois, seus discursos são ansiosos e dão um ritmo passageiro aos acontecimentos, a quebra de paradigmas se expõe demasiadamente nos objetos do roteiro e os tornam um pouco previsíveis, levando em conta o contexto atual. Contudo, vejo essas características ainda como tiros muito ousados pela curva que o estúdio vinha traçando, além de serem problemáticas facilmente contornadas por um ímpeto imagético conquistador na elaboração do universo dos personagens e, principalmente, das grudentas (no bom sentido) musicalidades. Não é à toa que permanece desde o seu lançamento – sendo um filme original – como a maior bilheteria de uma animação em todos os tempos, e provavelmente deve ser ultrapassada só por sua continuação.

Seguindo a lógica do cinema atual com a constante expansão de universos, o grande temor sobre Frozen 2, que é oficialmente a terceira continuação de algo do estúdio principal, é que caísse numa área de fachada autorreferencial que Wi-fi Ralph caiu, justificando-se apenas nas menções a problemáticas modernas, sem apresentar uma continuidade coesa da história anterior dentro delas. Felizmente, isso não acontece aqui, muito pelo contrário, seguindo a lógica de fases que detalhei nos parágrafos acima, este filme representa a maturação da concepção geral de sua fase pertencente, que como dito, teve seu pilar montado no primeiro, e agora, fechado no segundo com uma maturidade surpreendente. A base da história segue um conto incompleto em que os pais das irmãs Elsa e Ana contam a elas sobre um desentendimento desconhecido entre dois povos que resultou em um desequilíbrio da natureza, futuramente ameaçando a vitalidade de Arendelle com a raiva dos quatro elementos (água, ar, fogo e terra), obviamente forçando as duas no presente a entrarem numa nova jornada em busca da verdade.

Não muito diferente do antecessor, este também irá falar sobre erros cometidos no passado, mas ao invés de os expor logo de cara para proporcionar uma desconstrução de estereótipos, o filme criará uma redoma misteriosa sobre quais “erros” especificamente estão sendo tratados, evocando cada revelação como um novo passo de interações sentimentais entre os personagens, extravagadas em músicas ainda mais expressivas e melosas, mas que dão um peso épico ao que está para ser revelado. É um contraste de escala que fatalmente atiça cada vez mais a curiosidade do telespectador, especialmente pela simplicidade das pistas e configuração dos desafios, aparentemente também fáceis no caminho, que com o decorrer do tempo vão ganhando um formato sombrio ao se conectarem com a mitologia espiritual e as consequências que a tal verdade trouxe à funcionalidade daquela sociedade. Não que o tom seja essencialmente fúnebre, existe a liricidade do alívio cômico Olaf de tecer comentários pontualmente muito engraçados e da autodepreciação de alguns elementos específicos, como o romance de Kristoph e Anna que rende uma comédia situacional divertida, além de uma música fantástica enaltecendo sarcasticamente a breguice do ultrarromantismo do conto de fadas, e ao mesmo tempo, funcionando na sua utilização para o otimismo final ser comprado.

Porém, esse romance não é o pilar, as grandes surpresas vêm principalmente quando as consequências do mistério tomam conexões inesperadamente simbólicas com a história da sociedade americana. Lembra Pocahontas na primeira camada, propondo um reajuste das pendências entre colonizador e povos locais por meio do amor, mas o texto de Buck e Lee demonstra muito mais maturidade que esse clássico no caminho dessa resolução, por saber que o conflito de egos envolvidos, geracionalmente construídos, não tem um desapego tão simplório e permeia até a quebra por grandes tomadas de decisão. Espelhadamente, essa tomada de decisão no moderno se configura como um empoderamento, algo que ambas as irmãs têm em detalhes de suas próprias personalidades, sendo também a motivação para os seus conflitos pessoais. Em outras palavras, a grandiosidade imagética da história é uma ponte para engrandecer o simbólico e necessária ao entendimento entre as duas para ser possível preencher essa lacuna histórica manchada.

Metalinguisticamente, o filme através das duas passa o aprendizado para as crianças de que a quebra de preceitos antigos, por meio do empoderamento, um dia será a responsável pela resolução de pendências históricas, atingindo ou no mínimo equilibrando a paz entre diferentes povos e ideologias que, ainda assim, podem ser unidos por uma família, mas não a tradicional que força a hereditariedade monárquica, e sim aquela formada pelo amor verdadeiro ligado ao sangue. E parando pra pensar, essa é a grade que vem fomentando esta nova fase da Disney: os espécimes diferentes de Zootopia que pertencem a um mesmo reino precisam restabelecer as colocações sociais resolvendo um mistério para que sua sociedade possa evoluir; Moana parte sozinha, mas seu objetivo é o mesmo, resolver um mistério histórico de sua cultura por meio da tomada de decisão; até mesmo Operação Big Hero fornece uma aventura em que ideologias do passado prejudicam o andamento da evolução, mesmo em um cenário de amplitude tecnológica, e a tomada de decisão à frente do protagonista é o que vai se apresentar como heroísmo.

Ver essa temática se reconfigurando nos diferentes filmes, e aqui novamente aparecendo em um formalismo encorpado e bem consciente da didática elaborada através da relação contínua por meio do storytelling, é gratificante para uma empresa que já foi conhecida por sempre pregar estereótipos raciais. De toda sua fase recente, mesmo que a princípio não seja o melhor como animação, Frozen 2 é sem dúvidas o que tem o discurso mais sutilmente encaixado e honesto da Disney, e possivelmente, no futuro será um dos seus filmes mais importantes, como o primeiro que gritou inicialmente ao admitir que estava errado, e agora pensa cautelosamente em como arranjar uma solução para se desvincular daquele erro, confrontando-se através de sua própria narrativa clássica, recheada de um sentimentalismo conquistador. Um prato cheio para qualquer tipo público que não buscou fazer sua continuação pautada no agrado fácil, mas porque tinha uma gigantesca mensagem que chama todo mundo rumo ao desconhecido para poder revelá-la.

Frozen 2 (Frozen 2, EUA – 2019)
Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Roteiro: Jennifer Lee
Elenco: Kristen Bell, Idina Menzel, Jonathan Groff, Josh Gad, Santino Fontana, Evan Rachel Wood, Sterling K. Brown, Alfred Molina, Martha Plimpton, Rachel Matthews e Jason Ritter
Duração: 103min